Meditação, uma palavra carregada

Quando penso em meditação, geralmente a palavra chega carregada de interpretações e significados, oferecidos pelas linhas mais variadas. Ela traz um peso milenar de antigas tradições e hoje encontra um ambiente diferente no qual foi gerada.

Geralmente o objetivo declarado parece ser alcançar o silencio na mente, impedindo que o pensamento, com sua atuação, invada o espaço e destrua esse silencio. Vários métodos são sugeridos e algumas variações são apresentadas para alcançar o objetivo.

Então, basicamente, poderia afirmar que a ausência do pensamento é o objetivo, claro que também sustentam que outras manifestações podem ocorrer, mas aí vai do gosto do freguês.

Se considero que ela aponta somente o silêncio na mente, então posso avançar dessa base mais simples, sem todas as conotações que associo à palavra, portanto, esse silencio, esse espaço na mente se refere unicamente a uma pausa na atividade do pensamento, o que torna a situação mais fácil de abordar, pois penso ininterruptamente e não preciso encontrar o real significado atribuído à palavra, apenas investigar a atividade do pensamento e descobrir se há ordem nessa atividade.

O pensamento é o instrumento mais presente e representa uma das capacidades mais atuantes em interagir com a realidade, produzindo a construção do mundo material bem como rege em grande parte as relações interpessoais. Sua atividade constante apresenta desafios interessantes, quando percebo que uma simples sugestão para suspender sua atividade se transforma em um enigma tremendo, pois não parece que domino essa atividade, ela se impõe de maneira tirânica em minha mente e põe em dúvida quem domina quem, se é o pensamento que me domina ou sou eu que tenho as rédeas.

Essa constatação me leva a questionar se o pensamento, tão importante em nossa vida diária, apresenta algum distúrbio, que por não ter sido considerado, passou a ser tratado como normal e acabo não identificando essa situação, sinalizada por um simples teste.

Não adianta falar em meditação, silencio, se a base da questão não é compreendida. O que me desafia não é o alcance do silêncio, é a compreensão do barulho, e ficar forçando o pensamento se acalmar sem compreendê-lo, não parece ser uma abordagem inteligente, seja lá o que for isso.

Portanto, o barulho parece ser o objeto de investigação, e esse barulho mostra uma falta de atenção aos processos que ocorrem em minha mente, gerando um distúrbio que se alastra em meu comportamento e nas respostas que recebo em meus relacionamentos, criando uma incompreensão que me leva a crer que a meditação resolverá.

Nesse ponto entra outra questão que é quem irá agir sobre o barulho, pois todas as estratégias que penso serão produzidas pelo pensamento, meu raciocínio usa material do pensamento com o pensamento, e qualquer ação que implementar para o pensamento vira um desafio lógico desgastante.

Outra qualidade em minha mente parece possuir a capacidade de lidar com essa questão, que é a percepção, a sensibilidade, mas elas encontram o desafio de se manifestar sem serem invadidas pelo pensamento, pois quando tento ficar atento, há algo por trás da intenção que sugere que o pensamento também participa, mas ele fica bem escondido lá no fundo da mente sem aparecer, e sinto que não sai do lugar fazendo esse movimento.

A questão então é muito sutil e exige uma atenção que não seja gerada por algo, pois se houver um motivo, provavelmente é o pensamento vestindo outra roupa e me fazendo acreditar em outra ilusão para se manter. O bichinho é muito esperto.

Me encontro em uma situação em que todas as tentativas que criei mostraram que estavam contaminadas pelo pensamento, e sobrou não tentar nada, mas é meio estranho isso, pois por um lado parece desistência e por outro parece a única opção, e mais estranho ainda, achar que ao não fazer nada algo pode surgir, mas mesmo considerando essa opção, ainda resta um resíduo de intenção que quer controlar o movimento, e essa tentativa de controle mostrou que não saí do lugar.

Portanto todo o meu querer continua atuando e trazendo as artimanhas do pensamento em seu rastro, mostrando que meus movimentos são movimentos do pensamento, mas como se mover sem que o pensamento não colonize? Há movimento sem intenção? Se não há intenção, não há movimento, e se não há movimento, existe estagnação ou há algo sutil que não estou percebendo? Posso perceber sem me mover? É a intenção que está me prendendo em um movimento que impede a percepção?

Todas essas questões abriram um espaço em minha mente onde o olhar sem intenção sugere que há um outro nível onde o antigo movimento não se sustenta, mas ele não pode ser nomeado porque não pertence ao reino das palavras, e assim a palavra meditação perde todo o seu significado.

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