{"id":954,"date":"2022-12-17T21:54:00","date_gmt":"2022-12-17T21:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=954"},"modified":"2022-12-17T21:55:12","modified_gmt":"2022-12-17T21:55:12","slug":"04-06-1936","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=954","title":{"rendered":"04\/06\/1936"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"954\" class=\"elementor elementor-954\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-14e8ed9b elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"14e8ed9b\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4ee3008\" data-id=\"4ee3008\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2fee663a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2fee663a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-2nd-public-talk-4th-june-1936\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #0000ff;\">https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-2nd-public-talk-4th-june-1936<\/span><\/a><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Segunda Palestra em Nova York<\/strong><\/p><p>No meio de grande confus\u00e3o e press\u00e3o ficamos presos na luta por sucesso e seguran\u00e7a, e perdemos o profundo sentimento pela vida, a verdadeira sensibilidade que \u00e9 a ess\u00eancia da compreens\u00e3o. Admitimos, intelectualmente, que existe explora\u00e7\u00e3o, crueldade, mas de algum modo n\u00e3o existe aquela compreens\u00e3o que leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica e \u00e0 mudan\u00e7a. A a\u00e7\u00e3o verdadeira e vital s\u00f3 pode brotar de uma vis\u00e3o compreensiva e inteligente da vida.<\/p><p>Existe toda forma conceb\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o nas atividades sociais, religiosas e criativas do homem. Vemos o homem vivendo do homem, fazendo outros trabalharem para seu pr\u00f3prio lucro e vantagem pessoal, comprando e vendendo para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio e, cruelmente, procurando e estabelecendo sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a pessoal. H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es de classes com seus antagonismos e \u00f3dios, h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es no trabalho: uma esp\u00e9cie \u00e9 considerada superior e outra inferior, um tipo \u00e9 desprezado e outro \u00e9 glorificado. \u00c9 um sistema de competi\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o cruel daqueles que s\u00e3o, talvez, menos espertos, menos agressivos, e que n\u00e3o tiveram as oportunidades favor\u00e1veis de vida.<\/p><p>N\u00f3s temos orgulho racial e preconceitos nacionais que, muitas vezes, nos levam \u00e0 guerra, com todos os seus horrores e crueldades. E mesmo os animais n\u00e3o escapam das crueldades do homem.<\/p><p>E temos a explora\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es, com suas crueldades, a competi\u00e7\u00e3o entre cren\u00e7as, com suas igrejas, deuses e templos. Cada sistema de cren\u00e7a e f\u00e9 mant\u00e9m seu pr\u00f3prio direito divino, sua pr\u00f3pria certeza para levar o homem ao mais elevado, e o indiv\u00edduo perde aquela verdadeira experi\u00eancia religiosa que n\u00e3o est\u00e1 sobrecarregada com cren\u00e7as e dogmas da religi\u00e3o organizada. Existe supersti\u00e7\u00e3o sistematizada em nome da realidade, a instila\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do medo com suas afirma\u00e7\u00f5es e doutrinas. Assim, h\u00e1 confus\u00e3o de cren\u00e7as, ideias e doutrinas.<\/p><p>E, no campo do trabalho criativo, h\u00e1 uma imensa lacuna entre a express\u00e3o criativa e a arte de viver. Nesse trabalho criativo existe ambi\u00e7\u00e3o pessoal, presun\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o produzindo uma rea\u00e7\u00e3o superficial que \u00e9, muitas vezes, confundida com express\u00e3o criativa e realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Nesta civiliza\u00e7\u00e3o somos for\u00e7ados, queiramos ou n\u00e3o, por um sistema que cada indiv\u00edduo ajudou a criar, a viver sem profunda realiza\u00e7\u00e3o, e poucos escapam de suas crueldades. Em toda avenida da vida existe confus\u00e3o, mis\u00e9ria, e todos como entidades sociais ou religiosas est\u00e3o presos neste mecanismo de explora\u00e7\u00e3o e crueldade. Alguns est\u00e3o conscientes deste processo, com seu sofrimento, e embora reconhe\u00e7am sua feiura, eles continuam nos velhos h\u00e1bitos de pensamento e a\u00e7\u00e3o, dizendo a si mesmos que devem, por necessidade, viver neste mundo. Existem outros que est\u00e3o completamente inconscientes deste sistema de mis\u00e9ria.<\/p><p>Quando voc\u00ea come\u00e7a a examinar as v\u00e1rias ideias propostas para solucionar a mis\u00e9ria do homem, perceber\u00e1 que elas se dividem em dois grupos: uma que sustenta que deve haver uma completa reorganiza\u00e7\u00e3o social do homem, de modo que a explora\u00e7\u00e3o, a aquisi\u00e7\u00e3o e as guerras possam cessar; o outra que afirma e d\u00e1 \u00eanfase \u00e0s atividades da vontade do homem.<\/p><p>Dar \u00eanfase a uma delas \u00e9 errado. A reorganiza\u00e7\u00e3o social \u00e9 necess\u00e1ria obviamente. Mas se examinar criticamente esta ideia de organizar o homem e sua express\u00e3o, perceber\u00e1 \u2013 se n\u00e3o for levado pelas certezas superficiais de resultados imediatos de seguran\u00e7a e conforto \u2013 que nisso h\u00e1 muitos perigos graves. A mera cria\u00e7\u00e3o de um novo sistema pode, mais uma vez, se tornar uma pris\u00e3o onde o homem ser\u00e1 mantido, apenas por diferentes dogmas, ideias e credos.<\/p><p>H\u00e1 aqueles que sustentam que devemos dar o p\u00e3o primeiro, e outras coisas vitais para o homem se seguir\u00e3o corretamente. Ou seja, sustentam que deve haver controle do ambiente e, com isto, o homem chegar\u00e1 a sua verdadeira realiza\u00e7\u00e3o. Esta \u00eanfase exclusiva no p\u00e3o frustra seu pr\u00f3prio prop\u00f3sito, pois o homem n\u00e3o vive apenas do p\u00e3o.<\/p><p>Assim ent\u00e3o, o que devemos enfatizar, o interior ou o exterior? Come\u00e7aremos primeiro com o exterior, controlando, dirigindo e dominando; ou devemos dar \u00eanfase ao processo interno do homem? Enfatizar um ou outro destr\u00f3i seu pr\u00f3prio fim. Dividir o homem em exterior e interior \u00e9 impedir a verdadeira compreens\u00e3o do homem. Para compreender o problema da distin\u00e7\u00e3o de classe, guerras, explora\u00e7\u00e3o, crueldades, \u00f3dios, ambi\u00e7\u00e3o, devemos discernir o homem como um todo, e desse ponto de vista considerar suas atividades, desejos e realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Ver o homem como mero resultado do ambiente ou da hereditariedade, dar \u00eanfase s\u00f3 ao p\u00e3o e descartar o processo interior, ou se preocupar inteiramente com o interior e descartar o exterior, \u00e9 totalmente errado, e isto deve levar \u00e0 confus\u00e3o e mis\u00e9ria. Temos que compreender o homem como um todo integral, n\u00e3o uma entidade com fun\u00e7\u00f5es separativas \u2013 como aquelas de um trabalhador, um cidad\u00e3o ou um ser espiritual \u2013 mas como um ser completo, interdependente e interativo. Devemos ter o insight para saber que a ignor\u00e2ncia de nosso pr\u00f3prio ser \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de todo sofrimento e conflito. Enquanto n\u00e3o compreendemos a n\u00f3s mesmos \u2013 o oculto e o consciente \u2013 ent\u00e3o o que quer que fa\u00e7amos, em qualquer tipo de atividade, devemos, inevitavelmente, criar sofrimento.<\/p><p>Esta compreens\u00e3o de si mesmo, isto \u00e9, do processo de constru\u00e7\u00e3o do \u201cEu\u201d, com sua ignor\u00e2ncia, tend\u00eancias e \u00e2nsias, deve se tornar presente e n\u00e3o permanecer te\u00f3rico. Ela s\u00f3 pode se tornar presente, real para voc\u00ea, se voc\u00ea discernir e compreender pela experimenta\u00e7\u00e3o que o processo da ignor\u00e2ncia pode ser levado a um fim. Com a cessa\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia \u2013 ignor\u00e2ncia sendo sempre a falta de compreens\u00e3o de si mesmo e do processo do \u201cEu\u201d \u2013 surge a realidade e a alegria da ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Existem dois tipos de experi\u00eancia: a do desejo e a da realidade. Mas para experimentar o real, o atual, as experi\u00eancias do desejo devem cessar. A experi\u00eancia do desejo \u00e9 a simples continua\u00e7\u00e3o da autoconsci\u00eancia separativa, e isto impede a compreens\u00e3o da realidade. Embora possa pensar que est\u00e1 experimentando o real, est\u00e1 experimentando, realmente, seus pr\u00f3prios desejos, e estes desejos se tornam t\u00e3o reais, t\u00e3o concretos, t\u00e3o definidos, que voc\u00ea os toma como realidade. A experi\u00eancia do desejo continua a criar divis\u00e3o e conflito.<\/p><p>Quais s\u00e3o os resultados das experi\u00eancias do desejo? Elas s\u00e3o as capas ou as m\u00e1scaras que desenvolvemos por meio de nossas pr\u00f3prias atividades volitivas, baseadas no medo e na busca por seguran\u00e7a \u2013 a seguran\u00e7a do aqui com sua gan\u00e2ncia, ou da pr\u00f3xima vida com suas esperan\u00e7as e anseios; a seguran\u00e7a de opini\u00e3o, cren\u00e7as e ideais. Estas m\u00e1scaras e capas, o produto da atividade volitiva de \u00e2nsia, d\u00e3o continua\u00e7\u00e3o ao processo sem come\u00e7o do \u201cEu\u201d, essa consci\u00eancia que chamamos de individualidade. Enquanto estas m\u00e1scaras existirem n\u00e3o pode haver a compreens\u00e3o do real, do atual.<\/p><p>Voc\u00ea perguntar\u00e1: \u201cComo posso viver sem nenhuma \u00e2nsia ou desejo?\u201d Voc\u00ea faz esta pergunta porque, para voc\u00ea, esta concep\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas te\u00f3rica, pois n\u00e3o experimentou, n\u00e3o provou a si mesmo sua validade, sua realidade. Se experimentar, perceber\u00e1 que pode viver sem \u00e2nsia \u2013 integralmente, completamente, realmente \u2013 e, assim, compreender a realidade, a beleza e a plenitude da vida. Se voc\u00ea pode viver, trabalhar e criar sem ansiar, desejar, isto n\u00e3o pode ser descoberto por outra pessoa, mas apenas por voc\u00ea mesmo.<\/p><p>Enquanto o processo de reformar o \u201cEu\u201d continua atrav\u00e9s das experi\u00eancias da vontade, deve haver confus\u00e3o, sofrimento e atrito de que a mente tenta fugir indo atr\u00e1s da imortalidade ou de outro conforto e seguran\u00e7a, engendrando, assim, o processo de explora\u00e7\u00e3o. Com o fim de todas as experi\u00eancias do querer, que sustentam a individualidade separativa, surge a inomin\u00e1vel, imensur\u00e1vel realidade, alegria. Para ser capaz de experimentar a realidade voc\u00ea deve estar livre de todas as m\u00e1scaras que desenvolveu na luta por aquisi\u00e7\u00e3o, nascida da \u00e2nsia.<\/p><p>Estas m\u00e1scaras n\u00e3o dissimulam a realidade. Estamos inclinados a pensar que, nos livrando destas m\u00e1scaras, descobriremos a realidade, ou que revelando as muitas camadas de desejo descobriremos aquilo que est\u00e1 oculto. Assim, admitimos que por tr\u00e1s desta ignor\u00e2ncia, ou nas profundezas da consci\u00eancia, ou fora deste atrito da vontade, da \u00e2nsia, est\u00e1 a realidade. Esta consci\u00eancia de muitas m\u00e1scaras, de muitas camadas, n\u00e3o dissimula dentro de si a realidade; mas quando come\u00e7amos a compreender o processo de desenvolvimento destas m\u00e1scaras, destas camadas de consci\u00eancia, e quando a consci\u00eancia se liberta de seu crescimento volitivo, surge a realidade. Nossa concep\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 divino, mas limitado, que a beleza \u00e9 dissimulada pela feiura, a sabedoria enterrada sob a ignor\u00e2ncia, intelig\u00eancia suprema escondida nas trevas, est\u00e1 completamente errada. No discernimento de como esta ignor\u00e2ncia sem come\u00e7o e suas atividades deram origem ao processo do \u201cEu\u201d e dando fim a esse processo, est\u00e1 a ilumina\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a experi\u00eancia daquilo que \u00e9 imensur\u00e1vel, daquilo que n\u00e3o \u00e9 descrito, mas existe.<\/p><p>Como discerniremos esta ignor\u00e2ncia sem in\u00edcio com suas atividades volitivas? Como se provoca seu fim? Como a pessoa se torna profundamente zelosa, integralmente ciente do processo da consci\u00eancia com suas muitas camadas de tend\u00eancias, anseios, \u00f3dios e desejos? Pode alguma disciplina ou sistema ajudar a reconhecer e encerrar este processo de ignor\u00e2ncia e sofrimento?<\/p><p>Experimentando perceber\u00e1 que nenhum sistema, nenhum guia e nenhuma disciplina pode ajud\u00e1-lo a discernir este processo ou dar um fim \u00e0 ignor\u00e2ncia. Voc\u00ea precisa de uma mente flex\u00edvel, viva, capaz do discernimento direto em que n\u00e3o existe escolha. Mas como sua mente \u00e9 preconceituosa, dividida em si pr\u00f3pria, ela \u00e9 incapaz de verdadeiro discernimento. Como voc\u00ea \u00e9 preconceituoso, tem que ficar c\u00f4nscio desse fato antes de come\u00e7ar a discernir o que \u00e9 real e o que \u00e9 ilus\u00f3rio. Para discernir deve haver vigil\u00e2ncia, tem que estar ciente do movimento de seu pensamento e suas atividades. O que quer que voc\u00ea fa\u00e7a, fa\u00e7a com a plenitude da mente, e perceber\u00e1 que nesse processo de despertar, muitos pensamentos e anseios ocultos e sutis s\u00e3o revelados. Quando a mente n\u00e3o est\u00e1 mais limitada pela escolha, h\u00e1 a experi\u00eancia da realidade. Pois a escolha se baseia no desejo, e onde h\u00e1 desejo n\u00e3o pode haver discernimento. Pelo esfor\u00e7o correto do interesse despertado, o processo de ignor\u00e2ncia sem in\u00edcio, com suas atividades autossustentadas, \u00e9 levado a um fim. \u00c9 pelo empenho correto que a mente, livrando-se de seus medos autocriados, tend\u00eancias e anseios, \u00e9 capaz de discernir o real, o imensur\u00e1vel.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Eu perdi todo o entusiasmo e gosto pela vida que alguma vez tive. Tenho o suficiente para minhas necessidades materiais, agora a vida para mim n\u00e3o tem prop\u00f3sito, \u00e9 uma concha vazia, uma exist\u00eancia dolorosa que se arrasta. Voc\u00ea poderia apresentar alguns pensamentos que pudessem romper esta esfera de vazio, aparentemente, sem esperan\u00e7a?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Perde-se o entusiasmo ou o gosto pela vida quando n\u00e3o h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o. Enquanto se \u00e9, meramente, escravo de um sistema, ou meramente treinado para se adaptar a um molde social particular, ou se ajustar irrefletidamente a um modo de conduta estabelecido, n\u00e3o pode haver realiza\u00e7\u00e3o. Ao, simplesmente, responder a uma rea\u00e7\u00e3o e pensar que isto \u00e9 a express\u00e3o completa do seu ser, deve haver frustra\u00e7\u00e3o, deve haver vazio e sofrimento.<\/p><p>Se estamos profundamente conscientes da frustra\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o existe alguma esperan\u00e7a, pois isto cria tal mis\u00e9ria e descontentamento que somos for\u00e7ados a despir-nos das muitas tend\u00eancias que desenvolvemos pela \u00e2nsia e libertarmo-nos das ilus\u00f5es e imposi\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o. Isto demanda esfor\u00e7o correto, pois \u00e9 necess\u00e1rio sair dos costumes antigos e estabelecidos de pensamento e a\u00e7\u00e3o. Onde existe frustra\u00e7\u00e3o, deve haver vazio, um v\u00e1cuo doloroso e sofrimento; mas realizar \u00e9 \u00e1rduo \u2013 \u00e9 preciso profunda compreens\u00e3o e uma mente-cora\u00e7\u00e3o vigilante.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O desejo de seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um instinto natural, como a autoprote\u00e7\u00e3o na presen\u00e7a do perigo? Ent\u00e3o, como podemos super\u00e1-lo, e por que dever\u00edamos tentar faz\u00ea-lo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: A busca por seguran\u00e7a indica frustra\u00e7\u00e3o e o tormento do medo constante. A intelig\u00eancia, que n\u00e3o tem preocupa\u00e7\u00e3o com o conceito de seguran\u00e7a, harmoniza o bem-estar do todo e n\u00e3o apenas do particular. Ora, cada pessoa est\u00e1, individualmente, buscando sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a e, assim, criando confus\u00e3o e mis\u00e9ria. Cada pessoa est\u00e1 preocupada consigo mesma, buscando sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a individual aqui e na pr\u00f3xima vida, e est\u00e1 sempre entrando em conflito com o outro que est\u00e1, tamb\u00e9m, no encal\u00e7o de seu pr\u00f3prio objetivo. Ent\u00e3o existe constante atrito, antagonismo, \u00f3dio e disputa. S\u00f3 a intelig\u00eancia pode harmonizar, humanamente, as necessidades de vida de todos.<\/p><p>Isto \u00e9 realidade, e para experiment\u00e1-la deve discernir o verdadeiro significado da seguran\u00e7a. Se considerar isto profundamente, perceber\u00e1 que esta ideia de buscar seguran\u00e7a n\u00e3o tem valor permanente, aqui ou na pr\u00f3xima vida. Isto vem sendo provado vezes e vezes durante revoltas, mas apesar disto, cada pessoa vai atr\u00e1s de sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a e, assim, continua a viver em constante medo e confus\u00e3o. Onde n\u00e3o existe busca de seguran\u00e7a, s\u00f3 a\u00ed pode estar a alegria do real.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Diz-se que o exemplo \u00e9 melhor do que o preceito. N\u00e3o pode o valor do exemplo pessoal para o outro ser consider\u00e1vel, como o seu pr\u00f3prio?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Qual \u00e9 o motivo por tr\u00e1s desta pergunta? N\u00e3o \u00e9 que o interrogante deseja seguir um exemplo, pensando que isto pode lev\u00e1-lo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o? Seguir o outro nunca leva \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o. Uma violeta n\u00e3o pode se tornar uma rosa, mas a violeta em si pode ser uma flor perfeita. Estando incerto, busca-se certeza na imita\u00e7\u00e3o de outra pessoa. Isto produz medo, de onde surge a ilus\u00e3o de abrigo e conforto no outro e todas as muitas ideias de disciplina, medita\u00e7\u00e3o, e a sujei\u00e7\u00e3o da pessoa a um ideal. Tudo isto indica, apenas, a falta de compreens\u00e3o de si mesmo, a perpetua\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia. Esta \u00e9 a raiz do sofrimento, e em vez de discernir a causa, voc\u00ea pensa que pode compreender a si mesmo atrav\u00e9s do outro. Olhar para o exemplo do outro s\u00f3 leva \u00e0 ilus\u00e3o e ao sofrimento.<\/p><p>Enquanto n\u00e3o h\u00e1 a compreens\u00e3o de si mesmo, n\u00e3o pode haver realiza\u00e7\u00e3o. Realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um processo de racionaliza\u00e7\u00e3o, nem o simples ac\u00famulo de informa\u00e7\u00e3o, nem est\u00e1 no outro, mesmo que ele seja fant\u00e1stico. \u00c9 a frui\u00e7\u00e3o da profunda compreens\u00e3o de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e a\u00e7\u00f5es.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Se a reencarna\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato na natureza \u2013 e tamb\u00e9m a ideia de que o ego reencarna at\u00e9 atingir a perfei\u00e7\u00e3o \u2013 ent\u00e3o atingir a perfei\u00e7\u00e3o ou a verdade n\u00e3o envolve tempo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Muitas vezes perguntamos se a reencarna\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade porque n\u00e3o podemos encontrar a felicidade inteligente, nem a realiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo no presente. Se estamos em conflito e mis\u00e9ria e n\u00e3o temos oportunidade e esperan\u00e7a nesta vida, ansiamos pela vida futura ou a realiza\u00e7\u00e3o livre de disputa e dor. Este estado futuro de alegria gostamos de chamar perfei\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Para compreender esta pergunta devemos descobrir o que o ego \u00e9. O ego n\u00e3o \u00e9 uma coisa real em si mesmo que, como a minhoca que vai de uma folha para outra, vagueia de uma exist\u00eancia para outra, juntando experi\u00eancia e aprendendo sabedoria at\u00e9 encontrar o mais elevado, que imaginamos ser a perfei\u00e7\u00e3o. Essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 errada, \u00e9 meramente uma opini\u00e3o e n\u00e3o uma realidade. O processo real do \u201cEu\u201d, o ego, pode ser discernido na percep\u00e7\u00e3o de como, pela ignor\u00e2ncia, tend\u00eancias, anseios, ele \u00e9 reformado e sua continuidade restabelecida a cada momento. A vontade de ansiar se perpetua por suas pr\u00f3prias atividades volitivas. Por meio desta a\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia e seu processo auto-sustent\u00e1vel, a limita\u00e7\u00e3o como consci\u00eancia cria sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o e sofrimento. Neste c\u00edrculo vicioso toda exist\u00eancia est\u00e1 presa.<\/p><p>Pode esta limita\u00e7\u00e3o, atrito, esta resist\u00eancia contra o movimento da vida, conhecida como o ego, ser perfeito? Pode a \u00e2nsia se tornar perfeita? Certamente o ego\u00edsmo n\u00e3o pode se tornar mais nobre, ego\u00edsmo mais puro \u2013 ele sempre ser\u00e1 o que ele \u00e9. Esta ideia de que, atrav\u00e9s do tempo, o ego se tornar\u00e1 perfeito \u00e9 totalmente falsa e err\u00f4nea. O tempo \u00e9 o resultado daquelas atividades volitivas de \u00e2nsia que ligam e conferem um sentido de continuidade \u00e0 vida, que, na realidade, est\u00e1 sempre num estado de estar nascendo; um estado que nunca existiu nem existir\u00e1, mas que sempre est\u00e1 se tornando novamente, sempre em movimento.<\/p><p>O ponto de vital import\u00e2ncia para cada pessoa \u00e9 descobrir se, pela ignor\u00e2ncia com suas atividades volitivas, o processo do \u201cEu\u201d est\u00e1 se perpetuando ou n\u00e3o. Se este processo auto-sustent\u00e1vel continua, n\u00e3o pode surgir aquilo que \u00e9 real, verdadeiro. S\u00f3 com a cessa\u00e7\u00e3o da vontade de ansiar, com suas experi\u00eancias de querer, existe realidade. Este processo sem in\u00edcio do \u201cEu\u201d com suas limita\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas n\u00e3o pode ser testado, ele deve ser discernido. N\u00e3o \u00e9 uma f\u00e9, mas uma compreens\u00e3o profunda, de vigil\u00e2ncia integral, de esfor\u00e7o correto para discernir como a \u00e2nsia cria sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o, e como qualquer a\u00e7\u00e3o nascida da \u00e2nsia deve engendrar atrito, resist\u00eancia e sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica de lidar com fixa\u00e7\u00f5es, inibi\u00e7\u00f5es e complexos atinge voc\u00ea, e como voc\u00ea lidaria com tais casos?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Pode outra pessoa libertar voc\u00ea destas limita\u00e7\u00f5es, ou isto \u00e9 apenas um processo de substitui\u00e7\u00e3o? A busca da psican\u00e1lise se tornou um hobby dos abastados. (Riso) N\u00e3o ria, por favor. Voc\u00ea pode n\u00e3o ir a um analista, mas passa pelo mesmo processo de forma diferente quando procura uma organiza\u00e7\u00e3o religiosa, um l\u00edder, ou alguma disciplina para libert\u00e1-lo de fixa\u00e7\u00f5es, inibi\u00e7\u00f5es e complexos. Estes m\u00e9todos podem ter sucesso ao criarem efeitos superficiais, mas, inevitavelmente, eles devem desenvolver novas resist\u00eancias contra o movimento da vida. Nenhuma pessoa e nenhuma t\u00e9cnica podem, realmente, libertar algu\u00e9m destas limita\u00e7\u00f5es. Para experimentar essa liberdade \u00e9 necess\u00e1rio compreender a vida profundamente e discernir por si mesmo o processo de criar e manter a ignor\u00e2ncia e a ilus\u00e3o. Isto exige vigil\u00e2ncia e percep\u00e7\u00e3o aguda, n\u00e3o a mera aceita\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica mas, como se \u00e9 indolente, depende-se de outra pessoa para a compreens\u00e3o e por isso aumenta o sofrimento e a confus\u00e3o. A compreens\u00e3o deste processo de ignor\u00e2ncia e suas atividades autossustent\u00e1veis, desta consci\u00eancia focalizada e s\u00f3 percept\u00edvel ao indiv\u00edduo, s\u00f3 ela pode gerar profunda e abrangente alegria ao homem.<\/p><p>4 de junho de 1936<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-2nd-public-talk-4th-june-1936 Segunda Palestra em Nova York No meio de grande confus\u00e3o e press\u00e3o ficamos presos na luta por sucesso e seguran\u00e7a, e perdemos o profundo sentimento pela vida, a verdadeira sensibilidade que \u00e9 a ess\u00eancia da compreens\u00e3o. Admitimos, intelectualmente, que existe explora\u00e7\u00e3o, crueldade, mas de algum modo n\u00e3o existe aquela compreens\u00e3o que leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-954","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=954"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/954\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":961,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/954\/revisions\/961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}