{"id":943,"date":"2022-12-17T21:52:58","date_gmt":"2022-12-17T21:52:58","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=943"},"modified":"2022-12-17T21:53:27","modified_gmt":"2022-12-17T21:53:27","slug":"01-06-1936","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=943","title":{"rendered":"01\/06\/1936"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"943\" class=\"elementor elementor-943\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-6fc81c72 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"6fc81c72\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-133f87ea\" data-id=\"133f87ea\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-38bad19a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"38bad19a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-1st-public-talk-1st-june-1936\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #0000ff;\">https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-1st-public-talk-1st-june-1936<\/span><\/a><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Primeira Palestra em Nova Iorque<\/strong><\/p><p>No mundo hoje, existem aqueles que sustentam que o indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 mais do que uma entidade social, que ele \u00e9, meramente, o produto do ambiente conflituoso. Existem outros que afirmam que o homem \u00e9 divino, e esta ideia \u00e9 expressa e interpretada em v\u00e1rias formas encontradas nas religi\u00f5es.<\/p><p>As implica\u00e7\u00f5es da ideia de que o homem \u00e9 uma entidade social s\u00e3o muitas e, aparentemente, l\u00f3gicas. Se voc\u00ea admite profundamente a ideia de que o homem \u00e9, essencialmente, uma entidade social, ent\u00e3o voc\u00ea favorecer\u00e1 a arregimenta\u00e7\u00e3o de pensamento e express\u00e3o em todo departamento da vida. Se sustentar que o homem \u00e9, meramente, o resultado do ambiente, ent\u00e3o o sistema, naturalmente, se torna supremamente importante, e nisso toda \u00eanfase deve ser depositada; ent\u00e3o os modelos pelos quais o homem deve ser talhado adquirem grande valor. Da\u00ed voc\u00ea tem disciplina, coer\u00e7\u00e3o e, finalmente, a derradeira autoridade da sociedade chamando a si mesma de governo, ou a autoridade de grupos ou de conceitos ideais. Ent\u00e3o a moralidade social \u00e9, meramente, de conveni\u00eancia; e nossa exist\u00eancia, uma quest\u00e3o de breve espa\u00e7o de tempo, \u00e9 seguida pela aniquila\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Eu n\u00e3o preciso entrar nas muitas implica\u00e7\u00f5es da ideia de que o homem \u00e9, meramente, uma entidade social. Se estiver interessado, pode ver por si mesmo sua significa\u00e7\u00e3o, e se voc\u00ea aceita a ideia de que a individualidade \u00e9, meramente o produto do ambiente, ent\u00e3o sua moral social e conceitos religiosos devem, necessariamente, passar por uma completa mudan\u00e7a.<\/p><p>Se, no entanto, voc\u00ea aceita a ideia religiosa de que existe algum poder invis\u00edvel, divino, que controla seu destino e, assim, obriga \u00e0 obedi\u00eancia, rever\u00eancia e adora\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o deve reconhecer, tamb\u00e9m, as implica\u00e7\u00f5es deste conceito. Da profunda aceita\u00e7\u00e3o deste poder divino, deve se seguir uma completa reorganiza\u00e7\u00e3o social e moral. Esta aceita\u00e7\u00e3o se baseia na f\u00e9, que deve dar origem ao medo, embora voc\u00ea encubra este medo afirmando que \u00e9 amor. Voc\u00ea aceita esta ideia religiosa, pois nela est\u00e1 a promessa da imortalidade pessoal. Sua moralidade se baseia sutilmente na autoperpetua\u00e7\u00e3o, em pr\u00eamio e castigo. Neste conceito existe tamb\u00e9m a ideia de realiza\u00e7\u00e3o, de busca egoc\u00eantrica e sucesso. E, se voc\u00ea aceita isto, ent\u00e3o deve buscar guias, Mestres, caminhos, disciplinas, e perpetuar sutis formas de autoridade.<\/p><p>Existem estas duas categorias de pensamento, e elas devem, inevitavelmente, entrar em agudo conflito. Cada um de n\u00f3s tem que descobrir por si mesmo se uma destas aparentemente contradit\u00f3rias concep\u00e7\u00f5es do homem \u00e9 verdadeira: se o indiv\u00edduo \u00e9, simplesmente, o resultado de influ\u00eancias ambientais e da hereditariedade, que desenvolve certas peculiaridades e caracter\u00edsticas, ou se existe algum poder oculto que vai controlando, guiando, for\u00e7ando o destino e a realiza\u00e7\u00e3o do homem Ou voc\u00ea aceita as duas concep\u00e7\u00f5es embora elas sejam diametralmente opostas, ou faz uma escolha entre elas, ou seja, uma escolha entre sujei\u00e7\u00e3o de pensamento e express\u00e3o do indiv\u00edduo, e a ideia religiosa de que alguma intelig\u00eancia oculta est\u00e1 criando, guiando e modelando o futuro do homem e sua felicidade \u2013 uma ideia baseada na f\u00e9, no anseio pela autoperpetua\u00e7\u00e3o que impede o verdadeiro discernimento. Ora, se \u00e9 indiferente a esta ideia, outra vez sua pr\u00f3pria indiferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais do que indica\u00e7\u00e3o de neglig\u00eancia, portanto um preconceito, impedindo a verdadeira compreens\u00e3o.<\/p><p>A escolha se baseia em gostar e desgostar, em preconceito e tend\u00eancias, e perde toda vitalidade por isso. Em vez de pertencer a um destes dois grupos, ou ser for\u00e7ado a escolher, eu digo que existe uma abordagem diferente para a compreens\u00e3o da individualidade, do homem. Esta abordagem se d\u00e1 pelo discernimento direto, pela prova de a\u00e7\u00e3o, sem viola\u00e7\u00e3o da sensatez e intelig\u00eancia.<\/p><p>Como voc\u00eas, como indiv\u00edduos, v\u00e3o descobrir se o homem \u00e9 divino na limita\u00e7\u00e3o ou, simplesmente, um brinquedo de eventos sociais? Este problema perde seu simples significado intelectual e se torna tremendamente vital quando voc\u00ea o testa na a\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, como a pessoa vai agir? Como vai viver?<\/p><p>Se voc\u00ea aceita a ideia de que \u00e9, meramente, uma entidade social, ent\u00e3o a a\u00e7\u00e3o se torna convenientemente simples; voc\u00ea \u00e9 treinado pela educa\u00e7\u00e3o, pela compuls\u00e3o sutil e pela instila\u00e7\u00e3o de certas ideias para se adaptar a certo padr\u00e3o de conduta, rela\u00e7\u00e3o. Por outro lado, se voc\u00ea aceita verdadeiramente a concep\u00e7\u00e3o religiosa de um poder oculto controlando e guiando sua vida, ent\u00e3o sua a\u00e7\u00e3o teria uma significa\u00e7\u00e3o totalmente diferente da que tem hoje. Ent\u00e3o voc\u00ea teria uma rela\u00e7\u00e3o diferente, que \u00e9 moralidade, com outros indiv\u00edduos, com a sociedade; e isto implicaria a cessa\u00e7\u00e3o das guerras, distin\u00e7\u00e3o de classe, explora\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Mas como esta rela\u00e7\u00e3o verdadeira n\u00e3o existe no mundo, \u00e9 \u00f3bvio que voc\u00ea est\u00e1 totalmente incerto sobre o real significado de individualidade e da a\u00e7\u00e3o. Pois, se aceita verdadeiramente a ideia religiosa de que voc\u00ea \u00e9 guiado por alguma entidade suprema, ent\u00e3o, talvez, sua moral e a\u00e7\u00e3o social seria sensata, equilibrada e inteligente; mas, como n\u00e3o \u00e9, voc\u00ea, obviamente, n\u00e3o aceita esta ideia, embora professe aceit\u00e1-la. Da\u00ed as muitas igrejas, com suas diversas formas de explora\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea sustenta que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada mais do que uma entidade social, ent\u00e3o, do mesmo modo, deve haver uma completa mudan\u00e7a em sua atitude e em sua a\u00e7\u00e3o. E esta mudan\u00e7a n\u00e3o ocorreu. Tudo isto indica que voc\u00ea est\u00e1 num estado de letargia e segue apenas suas pr\u00f3prias idiossincrasias.<\/p><p>Estar completa e vitalmente incerto \u00e9 essencial para compreender o processo da individualidade, descobrir o que \u00e9 permanente, descobrir o que \u00e9 verdadeiro. Voc\u00ea tem que descobrir por si mesmo se est\u00e1 neste estado de completa incerteza, nem aceitando o indiv\u00edduo como entidade social, com todas as suas implica\u00e7\u00f5es, nem aceitando o indiv\u00edduo como algo supremo, como divinamente guiado, com todas as implica\u00e7\u00f5es desta ideia. S\u00f3 ent\u00e3o existe a possibilidade de verdadeiro discernimento e compreens\u00e3o.<\/p><p>Se voc\u00ea est\u00e1 neste estado, como a maioria das pessoas cuidadosas deve estar, n\u00e3o seguindo qualquer dogma, cren\u00e7a ou ideal, ent\u00e3o voc\u00ea perceber\u00e1 que para compreender o que \u00e9, deve saber o que voc\u00ea \u00e9. Voc\u00ea n\u00e3o pode compreender nenhum outro processo \u2013 o mundo como sociedade \u00e9 uma s\u00e9rie de processos que est\u00e3o num estado de nascer, de se tornar \u2013 exceto aquele focalizado no indiv\u00edduo como consci\u00eancia. Se voc\u00ea pode compreender o processo da consci\u00eancia, da individualidade, ent\u00e3o existe a possibilidade de compreender o mundo e seus eventos. A realidade tem de ser discernida apenas no conhecimento e na compreens\u00e3o do processo transit\u00f3rio do \u201cEu\u201d. Se puder compreender a mim mesmo, o que eu sou, como eu surgi, se o \u201cEu\u201d \u00e9 uma entidade em si mesmo e qual \u00e9 a natureza de sua exist\u00eancia, ent\u00e3o existe a possibilidade de compreender o real, o verdadeiro.<\/p><p>Explicarei este processo do \u201cEu\u201d, da individualidade. Existe a energia que \u00e9 \u00fanica de cada indiv\u00edduo, e que n\u00e3o tem um in\u00edcio. Esta energia \u2013 por favor, n\u00e3o atribuam a ela qualquer divindade ou lhe confiram uma qualidade particular \u2013 em seu processo de desenvolvimento autom\u00e1tico, cria sua pr\u00f3pria subst\u00e2ncia ou material, que \u00e9 sensa\u00e7\u00e3o, discernimento, e consci\u00eancia. Isto \u00e9 o abstrato como consci\u00eancia. O real \u00e9 a\u00e7\u00e3o. Naturalmente, n\u00e3o existe tal divis\u00e3o absoluta. A a\u00e7\u00e3o provem da ignor\u00e2ncia, que existe onde h\u00e1 preconceitos, tend\u00eancias, anseios, que deve resultar em sofrimento. Assim, a exist\u00eancia se torna um conflito, um atrito. Ou seja, a consci\u00eancia \u00e9 tanto discernimento como a\u00e7\u00e3o. Por meio da constante intera\u00e7\u00e3o entre estes anseios, preconceitos, tend\u00eancias, e as limita\u00e7\u00f5es que esta a\u00e7\u00e3o cria, surge o atrito, o processo do \u201cEu\u201d.<\/p><p>Se examinar profundamente, vai perceber que individualidade \u00e9 uma s\u00e9rie de limita\u00e7\u00f5es, uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es acumulativas, de obst\u00e1culos, que d\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia a identidade chamada \u201cEu\u201d. O \u201cEu\u201d \u00e9 uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias, tend\u00eancias, que nascem do anseio, e a\u00e7\u00e3o \u00e9 esse atrito entre o anseio e seu objeto. Se a a\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado de um preconceito, um medo, de alguma cren\u00e7a, ent\u00e3o essa a\u00e7\u00e3o produz mais limita\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea foi criado em uma cren\u00e7a religiosa particular ou se desenvolveu uma tend\u00eancia particular, isto deve criar resist\u00eancia ao movimento da vida. Estas resist\u00eancias, estas paredes de seguran\u00e7a autoprotetora, egoc\u00eantrica, d\u00e3o origem ao processo do \u201cEu\u201d, que se mant\u00e9m por meio de suas pr\u00f3prias atividades.<\/p><p>Para compreender a si mesmo, voc\u00ea deve ficar consciente deste processo da constru\u00e7\u00e3o do \u201cEu\u201d. Voc\u00ea discernir\u00e1, ent\u00e3o, que este processo n\u00e3o tem come\u00e7o, e pela vigil\u00e2ncia e esfor\u00e7o correto ele pode ser levado a um fim. A arte de viver \u00e9 levar este processo do \u201cEu\u201d a um fim. \u00c9 uma arte que necessita de grande discernimento e esfor\u00e7o correto. N\u00f3s n\u00e3o podemos compreender nenhum outro processo, exceto esse processo que \u00e9 a consci\u00eancia, de que depende a individualidade. Pelo esfor\u00e7o correto, h\u00e1 o discernimento do processo de surgimento do \u201cEu\u201d, e pelo esfor\u00e7o correto h\u00e1 o fim desse processo. Da\u00ed vem a alegria da realidade, a beleza da vida como movimento eterno.<\/p><p>Voc\u00ea pode testar por si mesmo, n\u00e3o exige nenhuma f\u00e9, nem depende de nenhum sistema de pensamento ou de cren\u00e7a. S\u00f3 exige uma vigil\u00e2ncia integrada e esfor\u00e7o correto, que v\u00e3o dissolver as ilus\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es autocriadas e, assim, trazer a alegria da realidade.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Um genu\u00edno desejo de propagar felicidade e ajudar a fazer deste mundo um lugar mais nobre para todos orienta minha vida e dita minhas a\u00e7\u00f5es. Esta atitude me faz usar a riqueza e prest\u00edgio que possuo, n\u00e3o como meio de autogratifica\u00e7\u00e3o, mas meramente como uma responsabilidade sagrada, e supre um \u00edmpeto de vida. O que, fundamentalmente, est\u00e1 errado em tal atitude, e eu sou culpado de explorar meus amigos e companheiros?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Se voc\u00ea est\u00e1 explorando ou n\u00e3o depende do que voc\u00ea quer dizer por ajudar e propagar felicidade. Voc\u00ea pode ajudar o outro e, ent\u00e3o, escraviz\u00e1-lo, ou pode ajud\u00e1-lo a compreender a si mesmo e, assim, realizar-se profundamente. Voc\u00ea pode propagar felicidade encorajando a ilus\u00e3o, dando conforto superficial e seguran\u00e7a \u2013 que parece ser duradoura \u2013 ou voc\u00ea pode ajudar o outro a discernir as muitas ilus\u00f5es em que ele est\u00e1 preso. Se voc\u00ea \u00e9 capaz de fazer isto, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 explorando. Mas, a fim de n\u00e3o explorar fundamentalmente, voc\u00ea mesmo deve estar livre daquelas ilus\u00f5es e confortos em que voc\u00ea ou outro est\u00e1 preso. Voc\u00ea deve discernir suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es antes de poder ajudar verdadeiramente. Muitas pessoas mundo afora desejam seriamente ajudar outras pessoas, mas esta ajuda, geralmente, consiste em convert\u00ea-las a sua pr\u00f3pria cren\u00e7a particular, sistema ou religi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 mais do que a substitui\u00e7\u00e3o de um tipo de pris\u00e3o por outro. Esta troca n\u00e3o produz compreens\u00e3o, mas apenas cria maior confus\u00e3o. Na profunda compreens\u00e3o de si mesmo est\u00e1 a alegria pela qual cada indiv\u00edduo luta e busca encontrar.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea n\u00e3o acha que \u00e9 necess\u00e1rio passar pela experi\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o a fim de aprender a n\u00e3o explorar, de adquirir para n\u00e3o ser aquisitivo, e assim por diante?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: \u00c9 uma ideia muito confortante a de que voc\u00ea deve possuir primeiro, e ent\u00e3o, aprender a n\u00e3o adquirir! A aquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de prazer, e durante seu processo, ou seja, enquanto est\u00e1 adquirindo, juntando, vem o sofrimento, e a fim de evit\u00e1-lo voc\u00ea come\u00e7a a dizer para si mesmo: \u201cEu n\u00e3o devo adquirir\u201d. N\u00e3o ser aquisitivo se torna uma nova virtude, um novo prazer. Mas se voc\u00ea examina o desejo que o induz a n\u00e3o adquirir, ver\u00e1 que ele se baseia num desejo mais profundo de se proteger da dor. Ent\u00e3o, realmente, voc\u00ea est\u00e1 buscando o prazer tanto na aquisi\u00e7\u00e3o quanto na n\u00e3o aquisi\u00e7\u00e3o. Fundamentalmente, aquisi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-aquisi\u00e7\u00e3o s\u00e3o o mesmo, j\u00e1 que ambos surgem do desejo de n\u00e3o se envolver na dor. Desenvolver uma qualidade particular cria, meramente, uma parede de autoprote\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia contra o movimento da vida. Nesta resist\u00eancia, dentro desta pris\u00e3o de paredes de autoprote\u00e7\u00e3o, est\u00e1 o sofrimento, a confus\u00e3o.<\/p><p>Ora, existe um modo diferente de considerar este problema de opostos. \u00c9 discernir diretamente, perceber integralmente, que todas as tend\u00eancias e virtudes carregam nelas mesmas seus pr\u00f3prios opostos, e que desenvolver um oposto \u00e9 fugir da realidade.<\/p><p>Seria verdadeiro dizer que voc\u00ea deve odiar a fim de amar? Isto n\u00e3o acontece na realidade. Voc\u00ea ama, e ent\u00e3o, porque em seu amor existe possessividade, surge frustra\u00e7\u00e3o, ci\u00fame e medo. Este processo desperta o \u00f3dio. A\u00ed come\u00e7a o conflito dos opostos. Se a aquisi\u00e7\u00e3o em si \u00e9 terr\u00edvel e maligna, ent\u00e3o por que desenvolver seu oposto? Porque voc\u00ea n\u00e3o discerne que ela \u00e9 terr\u00edvel e maligna, mas quer evitar a dor envolvida nela, voc\u00ea desenvolve seu oposto. Todos os opostos devem criar conflito porque s\u00e3o, essencialmente, n\u00e3o-inteligentes. Um homem que tem medo desenvolve a bravura. Este processo de desenvolver a bravura \u00e9, realmente, uma fuga do medo, mas se ele discernir a causa do medo, o medo cessa naturalmente. Por que ele n\u00e3o \u00e9 capaz de discernimento direto? Porque, se houver percep\u00e7\u00e3o direta deve haver a\u00e7\u00e3o, e a fim de evitar a a\u00e7\u00e3o, a pessoa desenvolve o oposto e, assim, estabelece uma s\u00e9rie de fugas sutis.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como entidades sociais temos v\u00e1rias responsabilidades \u2013 como trabalhadores, eleitores e executivos. Atualmente as bases da maior parte dessas atividades \u00e9 a divis\u00e3o de classes, que fomentou uma consci\u00eancia de classe. Se tivermos que romper essas barreiras que s\u00e3o respons\u00e1veis por tanto caos econ\u00f4mico e social, nos tornamos anti-sociais de repente. Que contribui\u00e7\u00e3o voc\u00ea tem para a solu\u00e7\u00e3o deste problema moderno que se espalha no mundo todo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Voc\u00ea realmente considera que \u00e9 anti-social sair deste sistema de explora\u00e7\u00e3o, de consci\u00eancia de classe, de competi\u00e7\u00e3o? Receia-se criar o caos \u2013 como se n\u00e3o houvesse confus\u00e3o agora \u2013 saindo deste sistema de divis\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o; mas se h\u00e1 o discernimento de que a explora\u00e7\u00e3o \u00e9, inerentemente, errada, ent\u00e3o h\u00e1 o despertar da verdadeira intelig\u00eancia, que pode criar ordem e o bem estar do homem. Ora, o sistema existente se baseia na seguran\u00e7a individual, a seguran\u00e7a e conforto que est\u00e3o implicados na imortalidade e no bem estar econ\u00f4mico. Seguramente \u00e9 esta exist\u00eancia aquisitiva que \u00e9 anti-social e n\u00e3o sair de um conceito e de um sistema que \u00e9, essencialmente, falso e est\u00fapido. Este sistema est\u00e1 criando grande caos, confus\u00e3o, e provocando guerras. Agora n\u00f3s somos anti-sociais por nossas buscas aquisitivas, seja a busca de Deus ou da riqueza. Visto que estamos presos neste processo de aquisi\u00e7\u00e3o, seja de virtude ou de poder na sociedade, que estamos presos nesta m\u00e1quina que criamos, devemos, inteligentemente, sair dela. Tal ato de intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 anti-social, \u00e9 um ato de sensatez e equil\u00edbrio.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea utilidade na opini\u00e3o p\u00fablica? A psicologia de massa n\u00e3o \u00e9 importante para l\u00edderes de homens?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: A opini\u00e3o p\u00fablica, geralmente, \u00e9 talhada pela tend\u00eancia de l\u00edderes, e permitir-se ser talhado por essa opini\u00e3o n\u00e3o \u00e9, certamente, inteligente. N\u00e3o \u00e9 espiritual, se voc\u00ea prefere essa palavra. Pegue, por exemplo, a guerra. Uma coisa \u00e9 morrer por uma causa voluntariamente; e \u00e9 uma coisa completamente diferente que um grupo de pessoas, ou conjunto de l\u00edderes, possa mand\u00e1-lo matar pessoas ou ser morto. A psicologia de massa \u00e9 desenvolvida e, deliberadamente, usada para v\u00e1rios prop\u00f3sitos. Nisso n\u00e3o existe intelig\u00eancia.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Tudo que consigo com seus textos e pronunciamentos \u00e9 uma insist\u00eancia com o autodespojamento, a necessidade de remover todo conforto emocional e consolo. Como isto n\u00e3o me deixa mais feliz, de fato menos feliz que antes, para mim seus ensinamentos carregam uma nota destrutiva. Qual \u00e9 o lado construtivo deles, se existe algum?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O que voc\u00ea quer dizer com ajuda construtiva? Que lhe digam o que fazer? Que lhe deem um sistema? Ter algu\u00e9m para gui\u00e1-lo e dirigi-lo? Que lhe digam como meditar, ou que disciplina voc\u00ea deve seguir? Isto \u00e9 realmente construtivo, ou destr\u00f3i a intelig\u00eancia?<\/p><p>Qual o motivo que inspirou esta pergunta? Se voc\u00ea examinar, ver\u00e1 que ela se baseia no medo \u2013 medo de n\u00e3o realizar o que se chama de felicidade, verdade; medo e desconfian\u00e7a do pr\u00f3prio esfor\u00e7o, e de incerteza. O que voc\u00ea chamaria de ensinamento positivo \u00e9 completamente destruidor da intelig\u00eancia, tornando voc\u00ea descuidado e autom\u00e1tico. Voc\u00ea quer que lhe digam o que pensar e como agir, mas um ensinamento que insiste que por sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o ignorante \u2013 ignor\u00e2ncia sendo a falta de compreens\u00e3o de si mesmo \u2013 voc\u00ea est\u00e1 aumentando e perpetuando a limita\u00e7\u00e3o e o sofrimento, tal ensinamento voc\u00ea chama de destrutivo. Se voc\u00ea, verdadeiramente, compreende o que estou dizendo, vai discernir que isto n\u00e3o \u00e9 negativo. Ao contr\u00e1rio, voc\u00ea ver\u00e1 que isto provoca tremenda autoconfian\u00e7a e, assim, lhe d\u00e1 a for\u00e7a da percep\u00e7\u00e3o direta.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Que rela\u00e7\u00e3o tem a mem\u00f3ria com o viver?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: A mem\u00f3ria atua como uma resist\u00eancia ao movimento da vida. A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nada mais que camadas de rea\u00e7\u00f5es autoprotetoras contra a vida. Assim, a a\u00e7\u00e3o ou experi\u00eancia, em vez de libertar, cria mais limita\u00e7\u00e3o e sofrimento. Estas mem\u00f3rias com suas tend\u00eancias e anseios formam a consci\u00eancia, em que se baseia a individualidade. Da\u00ed surge a divis\u00e3o, o conflito e o sofrimento.<\/p><p>O caos atual, o conflito, a mis\u00e9ria s\u00f3 podem ser compreendidos e resolvidos quando cada indiv\u00edduo discerne o processo de ignor\u00e2ncia que ele est\u00e1 engendrando por meio de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. Para gerar ordem e o bem estar do homem, cada um, por seu pr\u00f3prio empenho correto, tem que discernir este processo e provocar seu fim. Isto demanda vigil\u00e2ncia da mente e esfor\u00e7o correto, n\u00e3o seguir um sistema particular de pensamento, nem disciplinar a mente e o cora\u00e7\u00e3o a fim de obter aquela realidade que n\u00e3o pode ser descrita ou concebida. S\u00f3 quando a causa do sofrimento \u00e9 dissolvida existe a alegria da realidade.<\/p><p>1 de junho de 1936<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/new-york-city-1st-public-talk-1st-june-1936 Primeira Palestra em Nova Iorque No mundo hoje, existem aqueles que sustentam que o indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 mais do que uma entidade social, que ele \u00e9, meramente, o produto do ambiente conflituoso. 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