{"id":788,"date":"2022-12-17T21:25:16","date_gmt":"2022-12-17T21:25:16","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=788"},"modified":"2022-12-17T21:25:50","modified_gmt":"2022-12-17T21:25:50","slug":"07-09-1935","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=788","title":{"rendered":"07\/09\/1935"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"788\" class=\"elementor elementor-788\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-6c92c143 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"6c92c143\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-48d7aedc\" data-id=\"48d7aedc\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7a01f4c1 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7a01f4c1\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Segunda Palestra em Santiago, Chile<\/strong><\/p><p>Amigos,<\/p><p>Quero falar esta tarde, brevemente, sobre a\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s percebemos a frustra\u00e7\u00e3o e a limita\u00e7\u00e3o que surgem por meio de nossa a\u00e7\u00e3o. Com um ato parece que criamos muitos problemas, e nossa vida se torna uma infind\u00e1vel s\u00e9rie deles, com seu conflito e mis\u00e9ria. A mente em seu movimento parece aumentar sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o, e a a\u00e7\u00e3o que deveria ser libertadora apenas intensifica sua pr\u00f3pria frustra\u00e7\u00e3o. Para compreender esta quest\u00e3o de a\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o, a mente deve estar livre da ideia de interesses investidos. Onde h\u00e1 interesses investidos \u2013 seja num ideal, numa cren\u00e7a, numa esperan\u00e7a, ou em qualquer outra coisa \u2013 deve haver medo; e qualquer a\u00e7\u00e3o nascida do medo vai trazer frustra\u00e7\u00e3o, limita\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Tentarei expor quais s\u00e3o os obst\u00e1culos que realmente se encontram no caminho da realiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou descrever o que \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o, pois a mera explica\u00e7\u00e3o disso n\u00e3o pode nos indicar as limita\u00e7\u00f5es e a maneira de libertar a mente delas. Por favor, vejam por que \u00e9 necess\u00e1rio compreender quais s\u00e3o os obst\u00e1culos, e como eles s\u00e3o criados, e n\u00e3o o que \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o. Se eu fosse definir o que ela \u00e9, a mente transformaria isso num sistema r\u00edgido e simplesmente o imitaria. O pr\u00f3prio desejo de realiza\u00e7\u00e3o se torna um grande obst\u00e1culo. Em vez de imitar, se pudermos descobrir por n\u00f3s mesmos quais s\u00e3o as limita\u00e7\u00f5es que mutilam a mente, e livr\u00e1-la delas, ent\u00e3o, nessa pr\u00f3pria liberdade est\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Realiza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 busca de seguran\u00e7a. Onde existe uma busca por certeza, prote\u00e7\u00e3o, conforto, essa pr\u00f3pria busca produz medo. A maioria das pessoas, sutil ou grosseiramente, anseia por esta seguran\u00e7a e, com seus atos, cria medo. Assim, onde existe medo, h\u00e1 um profundo anseio por certeza. Este desejo cria suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, e autoridade e compuls\u00e3o s\u00e3o algumas delas.<\/p><p>Existem muitas formas sutis de autoridade. Ela se expressa pelo desejo de seguir um ideal, uma pessoa, ou um sistema. Por que n\u00f3s queremos seguir um ideal? A vida \u00e9 ca\u00f3tica, conflituosa, cheia de dor, e n\u00f3s achamos que, se encontrarmos um ideal, ent\u00e3o seremos capazes de nos guiar atrav\u00e9s desta confus\u00e3o dolorosa. Mas na realidade, o que estamos fazendo? Estamos criando o que chamamos ideal como meio de escapar do conflito, do sofrimento. Seguindo e nos submetendo ao ideal, pensamos que seremos capazes de compreender nossa vida contradit\u00f3ria e sofrida. Em vez de nos libertarmos daquelas causas que nos impedem de viver humanamente, com amor, com considera\u00e7\u00e3o, tentamos escapar pela ilus\u00e3o de um ideal. Esperamos que modelando nossas mentes e cora\u00e7\u00f5es com disciplina, com a imita\u00e7\u00e3o de certos ideais e cren\u00e7as, atingiremos aquele estado humano inteligente. Esta imita\u00e7\u00e3o cria uma atitude hip\u00f3crita em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. Com o desejo de escapar do movimento da vida, que est\u00e1 sempre no presente, buscamos encontrar o prop\u00f3sito da vida. Com o desejo de fugir da realidade, a mente se submete \u00e0 compuls\u00e3o dos ideais, que n\u00e3o s\u00e3o mais do que mem\u00f3rias autoprotetoras contra a vida.<\/p><p>Portanto, existe esta compuls\u00e3o que \u00e9 imposta pelas mem\u00f3rias autoprotetoras. A maioria de n\u00f3s acha que por meio de uma cont\u00ednua s\u00e9rie de experi\u00eancias, a mente pode se libertar de todas as suas muitas limita\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. O que acontece \u00e9 que cada experi\u00eancia deixa na mente certas cicatrizes, mem\u00f3rias de autoprote\u00e7\u00e3o que s\u00e3o usadas como meio de defesa contra uma nova experi\u00eancia. Isto \u00e9, voc\u00ea tem uma experi\u00eancia, e pensa que aprendeu alguma coisa dela. O que voc\u00ea aprendeu \u00e9 a ser cauteloso, a n\u00e3o ser pego no sofrimento novamente. Assim, por meio de cada experi\u00eancia voc\u00ea desenvolve certos n\u00edveis de mem\u00f3ria, que atuam como barreiras entre a mente e o movimento da vida.<\/p><p>Ideais e mem\u00f3rias, com toda sua significa\u00e7\u00e3o, impedem cada um de viver completamente em a\u00e7\u00e3o, em experi\u00eancia. Em vez de viver com a experi\u00eancia completamente, com todo o nosso ser, voc\u00ea traz todos os seus preconceitos de ideais, moralidades e mem\u00f3rias autoprotetoras, e essas impedem a realiza\u00e7\u00e3o. Onde n\u00e3o h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre o medo da morte, e o pensamento no futuro. Assim, gradualmente, o presente, o movimento vivo da vida, perde toda sua beleza e significado, e existe apenas vazio e medo.<\/p><p>Se for para haver verdadeira realiza\u00e7\u00e3o, a mente deve se libertar de ideais e mem\u00f3rias, com todo o seu significado. Pelo desejo de seguran\u00e7a, estas mem\u00f3rias e ideais se tornam meios de compuls\u00e3o. Onde existe seguran\u00e7a n\u00e3o pode haver realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea disse v\u00e1rias vezes: \u201cPerceba e compreenda o completo significado do ambiente\u201d. Isto significa, necessariamente, a\u00e7\u00e3o entrando em conflito com ambiente? Ou \u00e9 simples percep\u00e7\u00e3o, sem nenhuma express\u00e3o din\u00e2mica pela a\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Como se pode, verdadeiramente, discernir se n\u00e3o existe a\u00e7\u00e3o? N\u00e3o pode haver um discernimento intelectual. Ou h\u00e1 profunda compreens\u00e3o ou a cria\u00e7\u00e3o de simples teoria. Se voc\u00ea deseja compreender o ambiente, n\u00e3o s\u00f3 o objetivo, mas o subjetivo que \u00e9 infinitamente sutil, ent\u00e3o voc\u00ea deve, individualmente, entrar em conflito com ele. \u00c9 apenas no conflito, no sofrimento, que voc\u00ea, o indiv\u00edduo, come\u00e7a a discernir a verdadeira significa\u00e7\u00e3o de valores; e como a maior parte das pessoas tem medo de entrar em contato com o sofrimento, elas preferem entender intelectualmente sua significa\u00e7\u00e3o. Assim, deixam a responsabilidade da a\u00e7\u00e3o para a massa, essa entidade vaga e irreal, que elas esperam que miraculosamente v\u00e1 alterar seu ambiente, e lhes trazer felicidade.<\/p><p>Para compreender profundamente o sutil significado do ambiente, voc\u00ea, o indiv\u00edduo, deve se tornar consciente e sair dessas condi\u00e7\u00f5es limitantes, sejam elas sociais, religiosas ou tradicionais. A verdade, a beleza da realidade, s\u00f3 pode ser discernida quando a mente est\u00e1 sem medo \u2013 n\u00e3o a aus\u00eancia de medo da intelectualidade, mas da profunda inseguran\u00e7a. Voc\u00ea s\u00f3 pode conhecer isso por meio da a\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Existe algum valor em rezar para intelig\u00eancias superiores nos ajudarem na vida di\u00e1ria?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Nenhum. Vou explicar o que quero dizer. O que causa mis\u00e9ria, conflito, sofrimento em nossa vida di\u00e1ria? Tradi\u00e7\u00f5es, valores morais ego\u00edstas, imposi\u00e7\u00f5es de interesses investidos, apego, gan\u00e2ncia: estes criam condi\u00e7\u00f5es que impedem a felicidade humana. E qual \u00e9 a utilidade de rezar para algu\u00e9m quando voc\u00ea, com sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia, pode alterar toda esta terr\u00edvel confus\u00e3o? N\u00e3o querendo encarar o sofrimento, n\u00f3s tentamos escapar por meio da ora\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode escapar momentaneamente, mas a for\u00e7a de seu desejo se apresenta novamente, mergulhando a mente em mis\u00e9ria e confus\u00e3o. Ent\u00e3o o que importa \u00e9, n\u00e3o se tem valor rezar, mas despertar essa intelig\u00eancia que resolver\u00e1 nossas mis\u00e9rias humanas. Uma mente e um cora\u00e7\u00e3o endurecidos, que se limitaram por seus medos ego\u00edstas, rezam. Mas se houver amor, voc\u00ea libertaria a mente de seus pr\u00f3prios medos ego\u00edstas, e s\u00f3 isto pode gerar intelig\u00eancia e ordem feliz.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0O amor livre da possessividade n\u00e3o leva \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o e, por isso, \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da humanidade? Como isto parece n\u00e3o inteligente, n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma cren\u00e7a?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Antes de podermos dizer que \u00e9 resultado de uma cren\u00e7a e, por isso, n\u00e3o inteligente, devemos compreender o que \u00e9 nosso amor atual. N\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de possessividade, exceto naqueles raros momentos quando o perfume do amor \u00e9 conhecido. Para controlar, para possuir, temos certas leis que chamamos de moral. Para mim, onde h\u00e1 possessividade n\u00e3o pode haver amor. Sem estar consciente de todas as suas sutis imposi\u00e7\u00f5es e crueldades, voc\u00ea diz: \u201cSe nos libertarmos da possessividade, n\u00e3o nos livrar\u00edamos totalmente do amor?\u201d Para descobrir isto, voc\u00ea deve experimentar, n\u00e3o pode, simplesmente, afirmar. Deixe a mente libertar-se inteiramente do apego, da possessividade; ent\u00e3o voc\u00ea saber\u00e1.<\/p><p>\u00c9 quando n\u00f3s perdemos o amor devido \u00e0 possessividade que temos problemas sexuais; queremos resolv\u00ea-los separadamente, apartados do resto dos problemas e dificuldades do homem. Voc\u00ea n\u00e3o pode isolar um problema humano e resolv\u00ea-lo isoladamente, exclusivamente. Para compreender profundamente o problema do sexo e dissolver suas dificuldades, devemos saber onde estamos sendo frustrados, dominados. Pelas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas o indiv\u00edduo se tornou uma m\u00e1quina, e seu trabalho n\u00e3o \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o, mas compuls\u00e3o. Onde deveria haver a libera\u00e7\u00e3o da auto-express\u00e3o por meio do trabalho, h\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o; e onde deveria haver pensamento profundo, completo, h\u00e1 medo, imposi\u00e7\u00e3o, imita\u00e7\u00e3o. Assim, o problema do sexo se torna desgastante e intrincado. Achamos que podemos resolv\u00ea-lo exclusivamente, mas isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Quando o trabalho se torna verdadeira express\u00e3o e quando n\u00e3o h\u00e1 mais desejo, pelo medo, de se apegar a cren\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es, ideias e religi\u00f5es, ent\u00e3o surge a singular realidade do amor. Onde existe amor, n\u00e3o existe o sentido da possess\u00e3o; apego indica profunda frustra\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Temos que aperfei\u00e7oar a ordem das coisas criadas pelo pr\u00f3prio Deus?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Essa \u00e9 a atitude do explorador. Ele quer deixar as coisas como elas est\u00e3o, estando no lado seguro. Mas pergunte ao homem que est\u00e1 sofrendo, pergunte ao homem que vive com roupas esfarrapadas num barraco; ent\u00e3o voc\u00ea saber\u00e1 se as coisas devem ser deixadas como est\u00e3o. Os pobres e os ricos querem que as coisas permane\u00e7am como est\u00e3o: os pobres t\u00eam medo de perder o pouco que possuem, e os ricos de perder tudo o que possuem. Ent\u00e3o, quando existe medo de perder, de ficar inseguro, vem o desejo de n\u00e3o interferir com a ordem das coisas que Deus ou a natureza criaram.<\/p><p>Para gerar ordem humana feliz, deve haver dentro de cada um de voc\u00eas uma mudan\u00e7a profunda, fundamental. Onde existe uma cont\u00ednua adapta\u00e7\u00e3o ao movimento da vida, verdade, nunca existe medo. Cada um de voc\u00eas deve sentir o veneno da compuls\u00e3o, da autoridade e da imita\u00e7\u00e3o. Cada um deve sentir a imensa necessidade, por seu pr\u00f3prio sofrimento, de uma mudan\u00e7a completa e radical de pensamento e desejo, livre da sutil busca de substitui\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o haver\u00e1 a verdadeira realiza\u00e7\u00e3o do homem.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Se o sofrimento \u00e9 necess\u00e1rio para a purifica\u00e7\u00e3o de nossas almas, por que anular o sofrimento pela compreens\u00e3o de sua causa?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O sofrimento n\u00e3o purifica. Por que existe sofrimento? Quando a mente est\u00e1 estagnada, entorpecida por cren\u00e7as, mutilada por limita\u00e7\u00f5es, e \u00e9 despertada pelo movimento da vida, a esse despertar chamamos sofrimento. Onde h\u00e1 perturba\u00e7\u00e3o de nossa seguran\u00e7a pela a\u00e7\u00e3o da vida, a isso chamamos sofrimento. Em vez de ver que o sofrimento \u00e9 um obst\u00e1culo, tentamos utiliz\u00e1-lo para conseguir algum outro resultado. Pela ilus\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o pode chegar \u00e0 realidade.<\/p><p>Ora, o sofrimento n\u00e3o \u00e9 mais do que indica\u00e7\u00e3o de limita\u00e7\u00e3o, de incompletude. Quando a pessoa discerne o impedimento do sofrimento, ela n\u00e3o pode transformar isto em meio de purifica\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea deve se livrar da limita\u00e7\u00e3o disto. Deve compreender a causa e seus efeitos. Se voc\u00ea o usa como um meio de purifica\u00e7\u00e3o, est\u00e1, sutilmente, tirando da\u00ed seguran\u00e7a e conforto. Isto s\u00f3 cria mais obst\u00e1culos, impedindo o despertar da intelig\u00eancia. A partir destes muitos obst\u00e1culos, destas mem\u00f3rias autodefensivas, nasce a consci\u00eancia limitada, o \u201ceu\u201d, que \u00e9 a verdadeira causa de sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea n\u00e3o considera que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel que suas ideias elevadas e concep\u00e7\u00f5es germinem em c\u00e9rebros degenerados por v\u00edcios e doen\u00e7a?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Naturalmente, isso \u00e9 \u00f3bvio. Mas v\u00edcio \u00e9 um h\u00e1bito cultivado, um meio de fuga, geralmente, da vida, da intelig\u00eancia.<\/p><p>Pegue a quest\u00e3o da bebida. O interesse investido vende bebida, e o governo ap\u00f3ia. Ent\u00e3o voc\u00ea forma sociedades moderadas e organiza\u00e7\u00f5es religiosas para despertar o homem para a crueldade e estupidez do alcoolismo. De um lado voc\u00ea tem interesse investido, e do outro o reformador; e a v\u00edtima se torna o brinquedo dos dois. Se voc\u00ea quer ajudar o homem, que \u00e9 voc\u00ea mesmo, ent\u00e3o voc\u00ea cuidar\u00e1 para que n\u00e3o seja explorado atrav\u00e9s da sua pr\u00f3pria estupidez. Isto exige discernimento de valores existentes e percep\u00e7\u00e3o de seu verdadeiro significado. Devido \u00e0 ilus\u00e3o, \u00e0 estupidez, o homem \u00e9 explorado pelo homem. Depois de nos rodearmos de muitas limita\u00e7\u00f5es que impedem a felicidade humana, a bondade, o amor, pensamos que vamos nos livrar delas buscando mais substitui\u00e7\u00f5es. Pela sua gan\u00e2ncia, pelo seu medo, voc\u00ea vai criando ilus\u00f5es, e nessa rede voc\u00ea enreda seu vizinho tamb\u00e9m.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0O que deve ser compreendido como Deus? Ele \u00e9 um ser pessoal que guia o universo, ou Deus \u00e9 um princ\u00edpio c\u00f3smico?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Posso perguntar por que voc\u00ea quer saber? Ou voc\u00ea deseja ficar mais fortalecido em suas cren\u00e7as, ou est\u00e1 procurando um meio de fugir do sofrimento e do conflito. Se voc\u00ea est\u00e1 pedindo confirma\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o existe d\u00favida, que n\u00e3o deve ser amenizada. Voc\u00ea nunca pergunta ao outro se est\u00e1 apaixonado. E se algu\u00e9m fosse descrever a realidade, n\u00e3o seria mais real. Como voc\u00ea pode descrever para algu\u00e9m que n\u00e3o conheceu isto, o que \u00e9 estar apaixonado?<\/p><p>Agora, eu digo que existe uma realidade; ela n\u00e3o pode ser medida com palavras. Voc\u00ea n\u00e3o pode estar c\u00f4nscio dessa realidade se existe medo, se existem limita\u00e7\u00f5es que destroem a delicada flexibilidade de mente e cora\u00e7\u00e3o. Assim, em vez de perguntar o que \u00e9 Deus, descubra se sua mente e cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o escravizados pelo medo, o que cria ilus\u00e3o e limita\u00e7\u00e3o. Quando mente e cora\u00e7\u00e3o se libertam destas prote\u00e7\u00f5es auto-impostas, ent\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a compreens\u00e3o daquilo que \u00e9.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Em algumas de suas primeiras palestras, voc\u00ea disse que o conflito existe apenas entre o falso e o falso, nunca entre o real e o falso. Poderia, por favor, explicar isto?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0N\u00e3o pode haver uma luta entre luz e escurid\u00e3o. A ilus\u00e3o ocasiona conflito, n\u00e3o entre ela mesma e a realidade, mas com suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es. Nunca h\u00e1 conflito entre intelig\u00eancia e estupidez.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Por favor, explique o significado de a\u00e7\u00e3o pura. Ela acontece quando a vida se expressa por meio do indiv\u00edduo liberto?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0No momento vamos deixar de lado o indiv\u00edduo liberto e compreender o que chamamos de a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Com certas limita\u00e7\u00f5es e preconceitos a mente-cora\u00e7\u00e3o encontra a vida ou a experi\u00eancia. Neste contacto entre o morto e o vivo, existe a\u00e7\u00e3o. O desejo fica buscando realiza\u00e7\u00e3o. Em sua realiza\u00e7\u00e3o, em sua a\u00e7\u00e3o existe dor e prazer, e, outra vez, a mente os registra. Na express\u00e3o de outros desejos existe, novamente, dor e prazer, e, novamente, a mente os armazena; assim, a mente se torna o dep\u00f3sito de mem\u00f3rias. Estas mem\u00f3rias atuam como advert\u00eancias. Consequentemente, a a\u00e7\u00e3o se torna mais e mais controlada e dirigida por estas mem\u00f3rias, baseadas em prazer e dor, em autodefesa. A a\u00e7\u00e3o, por ter se originado de mem\u00f3rias e desejos autoprotetores, est\u00e1 continuamente criando restri\u00e7\u00f5es, limita\u00e7\u00f5es. Existe a a\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias autodefensivas, e uma a\u00e7\u00e3o que est\u00e1 livre deste centro de limita\u00e7\u00e3o auto-imposta.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea ret\u00e9m do p\u00fablico alguma coisa que sabe?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Existe, na maior parte das pessoas, um desejo de ser exclusivo, de se separar dos outros pelo conhecimento, pelos t\u00edtulos, pelas posses. Esta forma de segrega\u00e7\u00e3o fortalece sua presun\u00e7\u00e3o, suas pequenas vaidades. Nossa sociedade, a temporal e a chamada espiritual, se baseia nesta exclusividade hier\u00e1rquica. Sujeitar-se a esta separatividade cria as mais grosseiras e sutis formas de explora\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Eu n\u00e3o tenho ensinamentos secretos para os escolhidos. Naturalmente, existem aqueles que desejam se aprofundar mais no que digo; mas se eles se tornam exclusivos e criam um corpo secreto, est\u00e3o sendo encorajados a isto pelo pr\u00f3prio desejo que t\u00eam de serem exclusivos.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea cr\u00ea em Deus?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ou voc\u00ea faz esta pergunta pela curiosidade de descobrir o que eu penso, ou voc\u00ea quer descobrir se existe Deus. Se voc\u00ea est\u00e1, simplesmente, curioso, naturalmente n\u00e3o h\u00e1 resposta; mas se quer descobrir por si mesmo se existe Deus, ent\u00e3o deve abordar esta investiga\u00e7\u00e3o sem preconceito; deve chegar a ela com a mente pura, nem acreditando nem desacreditando. Se eu dissesse que existe, voc\u00ea aceitaria como uma cren\u00e7a, e acrescentaria essa cren\u00e7a \u00e0s cren\u00e7as mortas j\u00e1 existentes. Ou, se eu dissesse n\u00e3o, isto se tornaria um apoio conveniente para o descrente.<\/p><p>Se um homem est\u00e1 verdadeiramente desejoso de saber, n\u00e3o o deixe buscar a realidade, a vida, Deus \u2013 o que ser\u00e1 apenas uma fuga do sofrimento, do conflito \u2013 mas deixe-o compreender a pr\u00f3pria causa do sofrimento, do conflito, e quando a mente estiver livre disto, ele saber\u00e1. Quando a mente est\u00e1 vulner\u00e1vel, quando ela perdeu todo o apoio, as explica\u00e7\u00f5es, quando est\u00e1 despida, ent\u00e3o ela conhecer\u00e1 a alegria da verdade.<\/p><p>7 de setembro de 1935<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Segunda Palestra em Santiago, Chile Amigos, Quero falar esta tarde, brevemente, sobre a\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s percebemos a frustra\u00e7\u00e3o e a limita\u00e7\u00e3o que surgem por meio de nossa a\u00e7\u00e3o. Com um ato parece que criamos muitos problemas, e nossa vida se torna uma infind\u00e1vel s\u00e9rie deles, com seu conflito e mis\u00e9ria. A mente em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-788","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/788","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=788"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/788\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":795,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/788\/revisions\/795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}