{"id":572,"date":"2022-12-17T20:13:22","date_gmt":"2022-12-17T20:13:22","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=572"},"modified":"2022-12-17T20:13:58","modified_gmt":"2022-12-17T20:13:58","slug":"15-03-1935","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=572","title":{"rendered":"15\/03\/1935"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"572\" class=\"elementor elementor-572\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3f1cf9bd elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3f1cf9bd\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-18c7435f\" data-id=\"18c7435f\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-71cb256b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"71cb256b\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Terceira Palestra no Town Hall<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0New York<\/strong><\/p><p>Amigos,<\/p><p>Gostaria de fazer uma pequena palestra antes de responder \u00e0s perguntas, expor uma coisa que talvez seja dif\u00edcil de compreender. Tentarei faz\u00ea-lo t\u00e3o simples e claro quanto poss\u00edvel.<\/p><p>Penso que a maioria de n\u00f3s est\u00e1 tentando descobrir o que \u00e9 verdadeira felicidade, pois sem sermos inteligentemente felizes, a vida se torna muito superficial, f\u00fatil, e qui\u00e7\u00e1 triste. E assim, na busca do que chamamos felicidade, vamos de uma experi\u00eancia para outra, de uma cren\u00e7a para outra, de uma teoria para outra, at\u00e9 encontrar tais cren\u00e7as, tais ideias, como satisfat\u00f3rias. Ora essas satisfa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais que fugas. A pr\u00f3pria busca de felicidade deve resultar numa s\u00e9rie de fugas \u2013 pode ser, como eu disse, atrav\u00e9s da autoridade, atrav\u00e9s da sensa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da simples multiplica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias, e do aumento do poder \u2013 estas fugas se tornam padr\u00f5es ou valores com os quais encobrimos o conflito.<\/p><p>Afinal, quando voc\u00ea est\u00e1 consciente do conflito, h\u00e1 perturba\u00e7\u00e3o que cria infelicidade; e para fugir dessa infelicidade voc\u00ea procura v\u00e1rias experi\u00eancias e desenvolve certos valores, padr\u00f5es, medidas, que se tornam sua fuga. Assim, gradualmente voc\u00ea se torna inconsciente de tudo exceto desses padr\u00f5es, desses modelos, e sua vida n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de uma viva imita\u00e7\u00e3o destes valores que voc\u00ea estabeleceu em sua busca por felicidade.<\/p><p>Se voc\u00ea examinar, ver\u00e1 que sua mente e cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o presos em uma s\u00e9rie de padr\u00f5es ou valores. Estando t\u00e3o limitada, a mente est\u00e1 sempre dando mais valores, estabelecendo mais padr\u00f5es, e est\u00e1 sempre em julgamento. At\u00e9 a mente se libertar deste cont\u00ednuo processo de atribuir valores, nunca est\u00e1 inocente, nova, nunca criativamente vazia, se me permitem usar essa palavra sem ser mal entendido. Pois s\u00f3 no vazio criativo h\u00e1 o nascimento da verdade.<\/p><p>Conflito, sofrimento, \u00e9 o processo de romper este h\u00e1bito de atribuir valores. Voc\u00ea tem um conjunto de valores estabelecidos pela experi\u00eancia, pela tradi\u00e7\u00e3o, e estes valores se tornaram seus guias; com estes padr\u00f5es e valores passados voc\u00ea aborda a experi\u00eancia nova, o que naturalmente cria conflito. Este sofrimento n\u00e3o \u00e9 nada mais do que o rompimento de antigos valores a que a mente se prende.<\/p><p>Ora, \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia da estupidez fugir do conflito atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de valores estabelecidos, ou atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de um novo conjunto de valores. A pr\u00f3pria ess\u00eancia da intelig\u00eancia \u00e9 compreender a vida ou experi\u00eancia com uma mente e cora\u00e7\u00e3o abertos, novos, inocentes. Em vez de encontrar a vida sem demandas preconcebidas, voc\u00ea chega a ela com uma mente e cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 prejudicados, quase incapazes de ajustamento vivo, r\u00e1pida flexibilidade. A falta deste discernimento instant\u00e2neo do movimento da vida cria sofrimento. O conflito \u00e9 indica\u00e7\u00e3o de servid\u00e3o, que n\u00e3o pode ser subjugada, mas cuja significa\u00e7\u00e3o deve ser compreendida. Subjugar obst\u00e1culos atrav\u00e9s de um novo conjunto de valores \u00e9 mais uma forma de fuga.<\/p><p>Voc\u00ea poderia dizer que uma mente que n\u00e3o d\u00e1 valores \u00e9 realmente a mente de um primitivo. \u00c9 verdade em certo sentido; o primitivo encontra a vida inconscientemente, incompletamente, sem compreender seu significado totalmente. Mas encontrar a vida completamente e compreender sua significa\u00e7\u00e3o totalmente requer uma mente n\u00e3o condicionada pelo passado, e isto pode acontecer apenas atrav\u00e9s de intensa conscientiza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de discernimento. Isto demanda, ao contr\u00e1rio do primitivo, a\u00e7\u00e3o integrada no presente sem o \u00edmpeto do medo ou a busca por um pr\u00eamio. \u00c9 a intelig\u00eancia da completa solid\u00e3o.<\/p><p>Apenas quando a mente aberta e vulner\u00e1vel e o cora\u00e7\u00e3o encontram a vida, o desconhecido, o imensur\u00e1vel, \u00e9 que h\u00e1 o \u00eaxtase da verdade. Quando a mente n\u00e3o est\u00e1 carregada de valores, mem\u00f3rias, cren\u00e7as preconcebidas, e \u00e9 capaz de encontrar o desconhecido, nesse encontro nasce a sabedoria, a ben\u00e7\u00e3o do presente. Assim o conflito \u00e9 o pr\u00f3prio processo de despertar o homem para a consci\u00eancia completa; e se n\u00f3s n\u00e3o estamos continuamente atentos, criamos uma s\u00e9rie de fugas que chamamos valores, embora eles possam estar mudando, e atrav\u00e9s desses valores tentamos encontrar alegria.<\/p><p>Os valores se tornam o meio de fuga. Uma mente que est\u00e1 em conflito e o encontra sem tentar interpretar esse conflito de acordo com certos valores se torna totalmente, completamente atenta. Ent\u00e3o essa mente e esse cora\u00e7\u00e3o despertar\u00e3o para a realidade da vida, a ben\u00e7\u00e3o do presente.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea advoga a ren\u00fancia e a auto-abnega\u00e7\u00e3o como meio de encontrar a felicidade pessoal?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: A felicidade pessoal n\u00e3o existe. Assim n\u00e3o h\u00e1 meio para ela. H\u00e1 apenas o \u00eaxtase criativo da vida, a auto-abnega\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa. Voc\u00ea pensa que a felicidade \u00e9 para ser encontrada abrindo m\u00e3o de certas coisas, seguindo certas a\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 realmente comerciando, trocando seu sacrif\u00edcio, suas abnega\u00e7\u00f5es, por felicidade. N\u00e3o h\u00e1 abnega\u00e7\u00f5es ou ren\u00fancia, mas apenas compreens\u00e3o; e nisso existe felicidade criativa, que n\u00e3o \u00e9 pessoal, individualista.<\/p><p>Deixe que eu mostre de outra forma. Eu come\u00e7o a acumular porque penso que a felicidade est\u00e1 na acumula\u00e7\u00e3o, mas descubro no final de certo tempo que a posse n\u00e3o me traz felicidade. Portanto come\u00e7o a renunciar \u00e0s posses e busco sacrif\u00edcios, o que \u00e9 apenas uma outra forma de aquisi\u00e7\u00e3o. Mas se eu percebo a significa\u00e7\u00e3o inerente da possessividade, ent\u00e3o a\u00ed existe felicidade criativa.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: N\u00e3o \u00e9 verdade que o essencial pode ser encontrado em todas as fases da vida, em todas as coisas?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Eu n\u00e3o penso que existe o essencial ou o n\u00e3o essencial. O que \u00e9 o essencial? O que \u00e9 o n\u00e3o essencial? Um dia eu quero uma coisa e isso se torna o mais essencial, o mais importante, e na pr\u00f3pria posse daquilo, ela se torna o n\u00e3o essencial. Ent\u00e3o quero uma outra coisa; e assim continuo, saindo de um essencial que se torna n\u00e3o essencial, para outro essencial que depois se torna o n\u00e3o essencial.<\/p><p>Em outras palavras, onde existe anseio nunca pode haver discernimento duradouro. Como a maioria das pessoas \u00e9 escrava do anseio, ficam em constante conflito do essencial e do n\u00e3o essencial. De simples possessividade das coisas, que n\u00e3o d\u00e1 mais satisfa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea vai para a posse mental e emocional de virtudes, da verdade, de Deus. De coisas, que foram essenciais um dia, voc\u00ea vai \u201cem dire\u00e7\u00e3o\u201d da abstra\u00e7\u00e3o. Esta abstra\u00e7\u00e3o se torna o essencial.<\/p><p>N\u00e3o podemos olhar a vida, n\u00e3o deste ponto de vista do essencial e do n\u00e3o essencial, mas daquele que \u00e9 inteligente, compreensivo? Por que temos esta divis\u00e3o do essencial e do n\u00e3o essencial, o importante e o n\u00e3o importante? Porque estamos pensando sempre em termos de aquisi\u00e7\u00e3o, ganho; mas se olhamos para isto do ponto de vista da compreens\u00e3o, ent\u00e3o esta divis\u00e3o cessa, ent\u00e3o estamos encontrando a vida continuamente como um todo. Esta \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis de fazer, porque n\u00f3s fomos e estamos sendo treinados em sistemas religiosos e econ\u00f4micos que imp\u00f5em certos conjuntos de valores. Para uma mente que n\u00e3o est\u00e1 atribuindo valores, mas est\u00e1 tentando viver completamente, sem o desejo do ganho \u2013 para tal mente n\u00e3o h\u00e1 degraus de valores mutantes, e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 conflito entre o impermanente e o permanente, entre o estacion\u00e1rio e o constante movimento da vida.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Tudo bem para voc\u00ea falar sobre coisas fundamenteis, mas e o homem comum?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O que estamos discutindo? Estamos discutindo, no que me diz respeito, como viver inteligentemente, e portanto, divinamente, humanamente \u2013 n\u00e3o com esta competitiva, implac\u00e1vel brutalidade da aquisi\u00e7\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o, seja por uma classe ou por um professor, econ\u00f4mica ou religiosa. Tudo isto se aplica, naturalmente, a todos n\u00f3s, ou seja, ao homem comum. Eu n\u00e3o me segrego da m\u00e9dia, do homem comum. Pessoas que est\u00e3o preocupadas com o homem comum se separaram dele. Elas est\u00e3o preocupadas com o homem m\u00e9dio. Por que? Elas dizem, \u201cEu posso abrir m\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, mas e o homem da rua? Se ele abrir m\u00e3o, haver\u00e1 caos\u201d. Ent\u00e3o ele tem que ter uma tradi\u00e7\u00e3o, enquanto as pessoas que est\u00e3o preocupadas com ele n\u00e3o precisam.<\/p><p>Agora se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pensando em termos de distin\u00e7\u00f5es, seja de classe ou de necessidades, se voc\u00ea percebe a significa\u00e7\u00e3o de uma coisa em si mesma, ent\u00e3o ajudar\u00e1 aquele homem na rua a se libertar sem imposi\u00e7\u00e3o da, digamos, tradi\u00e7\u00e3o. Ou seja, se voc\u00ea est\u00e1 convencido da futilidade da tradi\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea v\u00ea a significa\u00e7\u00e3o dela, ent\u00e3o, naturalmente, ajudar\u00e1 o outro sem imposi\u00e7\u00e3o, sem explora\u00e7\u00e3o. Compreendendo as coisas fundamentais da vida inteligentemente, voc\u00ea ajudar\u00e1 o outro a desprender-se deste caos cruel.<\/p><p>Se n\u00f3s, todos n\u00f3s aqui, realmente sent\u00edssemos profundamente todas estas coisas, realmente compreend\u00eassemos, agir\u00edamos com intelig\u00eancia. Primeiro, certamente, a pessoa deve come\u00e7ar consigo mesma. A pessoa deve tratar das coisas fundamentais porque s\u00e3o as mais simples; e numa civiliza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 se tornando mais e mais complexa, se n\u00e3o compreendermos por n\u00f3s mesmos estas coisas simples e fundamentais, n\u00e3o faremos mais do que aumentar a confus\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o, e a ignor\u00e2ncia.<\/p><p>Assim, o que estamos discutindo se aplica a todos, e como voc\u00ea tem a oportunidade \u2013 o que, infelizmente, nem todos t\u00eam \u2013 se voc\u00ea se torna c\u00f4nscio, ciente, e come\u00e7a a compreender e, portanto, agir, tal a\u00e7\u00e3o ajudar\u00e1 a dissipar a ignor\u00e2ncia, a causa do sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como se pode competir com a mem\u00f3ria e a obsess\u00e3o de suas imagens?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Em primeiro lugar, compreendendo como a mem\u00f3ria \u00e9 formada, como \u00e9 criada. Agora, como tentei explicar outro dia, a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de a\u00e7\u00e3o incompleta. N\u00e3o estou incluindo a\u00ed a capacidade de relembrar incidentes. Mas a mem\u00f3ria \u00e9 o res\u00edduo, a cicatriz da a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi vivida completamente ou completamente compreendida. At\u00e9 essa a\u00e7\u00e3o ser integralmente compreendida, a mem\u00f3ria dela ou sua cicatriz na mente continua. A mem\u00f3ria \u00e9 na maior parte o res\u00edduo ou as cicatrizes de muitas a\u00e7\u00f5es incompletas, n\u00e3o realizadas. Se a pessoa tem consci\u00eancia de classe ou se \u00e9 preconceituoso religiosamente, naturalmente n\u00e3o pode viver a experi\u00eancia integralmente, totalmente; a pessoa a aborda com esta tend\u00eancia, o que inevitavelmente cria um conflito. Enquanto n\u00e3o se compreende a causa e a significa\u00e7\u00e3o desse conflito completamente, integralmente, haver\u00e1 mais cicatrizes ou barreiras como mem\u00f3rias. Nesse conflito, se a pessoa simplesmente foge ou busca substitui\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o a mem\u00f3ria, como uma barreira, deve continuamente perverter a completude da compreens\u00e3o, que \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o. Espero n\u00e3o estar explicando com uma linguagem muito complicada.<\/p><p>Por exemplo, suponha que um homem nascido na \u00cdndia tem certos preconceitos religiosos. Com estas pervers\u00f5es do pensamento, ele aborda a vida. Naturalmente ele n\u00e3o distingue sua completa significa\u00e7\u00e3o, porque est\u00e1 sempre olhando a vida atrav\u00e9s destas pervers\u00f5es e, portanto deve haver conflito. A partir disto ele desenvolve uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias auto defensivas, barreiras, que ele chama valores. Tais rea\u00e7\u00f5es defensivas devem perverter mais a compreens\u00e3o da experi\u00eancia ou da vida.<\/p><p>Quando se percebe completamente que o preconceito ou alguma outra pervers\u00e3o est\u00e1 continuamente corrompendo, distorcendo, a totalidade da compreens\u00e3o, ent\u00e3o a pessoa come\u00e7a a ficar atenta; nessa aten\u00e7\u00e3o se descobre os impedimentos. \u00c9 apenas atrav\u00e9s da chama da aten\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da total conscientiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o atrav\u00e9s da auto-an\u00e1lise, que a pessoa pode discernir os preconceitos, as fugas, os valores de autodefesa que est\u00e3o continuamente distorcendo a experi\u00eancia. Na pr\u00f3pria totalidade da experi\u00eancia em si est\u00e3o as barreiras que impedem o discernimento para descobrir e compreender, e n\u00e3o atrav\u00e9s da auto-an\u00e1lise intelectual ou auto disseca\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea est\u00e1 intensamente consciente na totalidade da experi\u00eancia, ent\u00e3o ver\u00e1 como as pervers\u00f5es, impedimentos, limita\u00e7\u00f5es saltam para fora.<\/p><p>Se mente e cora\u00e7\u00e3o podem libertar-se destes valores, que n\u00e3o s\u00e3o mais que mem\u00f3rias acumuladas com prop\u00f3sitos de autodefesa que voc\u00ea herdou ou adquiriu, ent\u00e3o a vida \u00e9 um eterno tornar-se. Mas isso requer, como eu disse, grande determina\u00e7\u00e3o, uma incessante investiga\u00e7\u00e3o da causa e significa\u00e7\u00e3o do sofrimento, do conflito. Se voc\u00ea est\u00e1 \u00e0 vontade com a vida, ou simplesmente buscando satisfa\u00e7\u00e3o, a ben\u00e7\u00e3o do eterno presente n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea. \u00c9 s\u00f3 em momentos de grande crise, grande conflito, que a mente se liberta de todas estas acumula\u00e7\u00f5es e acr\u00e9scimos autoprotetores.<\/p><p>S\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 o \u00eaxtase da vida, verdade.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Se todos abrissem m\u00e3o de suas posses, como voc\u00ea sugere, o que aconteceria com todos os neg\u00f3cios e objetivos comuns da vida? Neg\u00f3cios e posses n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios se vamos viver no mundo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Eu nunca disse que abrissem m\u00e3o. Disse que a avidez \u00e9 a causa da competi\u00e7\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o, das distin\u00e7\u00f5es de classe, das guerras e assim por diante. Agora, se a pessoa distingue o significado real da possessividade, seja de coisas ou de pessoas ou de ideias, que \u00e9 no final das contas a \u00e2nsia de poder em diferentes formas \u2013 se a mente puder se libertar disso, ent\u00e3o pode haver felicidade inteligente e bem estar no mundo. Durante muitos s\u00e9culos n\u00f3s constru\u00edmos um sistema de avidez, de possessividade, buscando poder e autoridade pessoais. Agora, enquanto isso existir em nossas mentes e cora\u00e7\u00f5es, podemos mudar o sistema momentaneamente atrav\u00e9s de revolu\u00e7\u00e3o, crise, guerras, mas enquanto houver esse anseio, ele inevitavelmente nos levar\u00e1, sob outra forma, ao antigo sistema. E, como eu disse, a liberdade da avidez n\u00e3o \u00e9 para ser aprendida eventualmente, atrav\u00e9s de adiamento; ela deve ser discernida imediatamente, e \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 a dificuldade. Se n\u00e3o podemos ver a falsidade da avidez imediatamente, n\u00e3o seremos ent\u00e3o capazes individualmente e, portanto, coletivamente, de ter uma civiliza\u00e7\u00e3o diferente, um modo diferente de viver.<\/p><p>Assim todo meu ataque, se posso usar essa palavra, n\u00e3o \u00e9 sobre um sistema, mas sobre o desejo de possessividade, avidez, levando finalmente ao poder. Voc\u00ea pensa hoje que possessividade confere felicidade. Mas se pensar sobre isto profundamente, ver\u00e1 que esta \u00e2nsia por poder n\u00e3o tem fim. \u00c9 uma cont\u00ednua batalha onde o conflito e sofrimento n\u00e3o cessam. Mas isto \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis, libertar a mente e o cora\u00e7\u00e3o da avidez.<\/p><p>Sabem, na \u00cdndia temos certas pessoas chamadas \u201csannyasis\u201d, que deixam o mundo em busca da verdade. Geralmente eles t\u00eam duas tangas, uma que usam e a outra para o dia seguinte. Um \u201csannyasi\u201d, em busca da verdade, procurou v\u00e1rios mestres. Em suas perambula\u00e7\u00f5es lhe foi dito que certo rei foi iluminado, que ele estava ensinando a sabedoria. Ent\u00e3o aquele \u201csannyasi\u201d foi at\u00e9 o rei. Voc\u00ea pode ver o contraste entre o rei e o \u201csannyasi\u201d: o rei que tinha tudo, pal\u00e1cios, j\u00f3ias, cortes\u00f5es, poder, e o \u201csannyasi\u201d que tinha apenas duas tangas. O rei o instruiu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade. Um dia, enquanto o rei estava lhe ensinando, o pal\u00e1cio pegou fogo. Serenamente o rei continuou com seu ensinamento, enquanto o \u201csannyasi\u201d, aquele homem santo, ficou grandemente perturbado porque sua outra tanga estava queimando.<\/p><p>Sabem, voc\u00eas est\u00e3o todos nessa posi\u00e7\u00e3o. Podem n\u00e3o ser possessivos em rela\u00e7\u00e3o a roupas, casas, amigos, mas h\u00e1 algum objetivo oculto de ganho ao qual voc\u00eas se apegam, ao qual se prendem, que est\u00e1 corroendo seus cora\u00e7\u00f5es e mentes. Enquanto estes venenos inexplorados e ocultos existirem, haver\u00e1 conflito e sofrimento cont\u00ednuo.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea diz que n\u00e3o \u00e9 filiado a nenhuma organiza\u00e7\u00e3o, contudo, obviamente, est\u00e1 tentando fazer as pessoas pensarem segundo certas linhas. Pode o pensamento do mundo mudar sem uma organiza\u00e7\u00e3o cujo prop\u00f3sito seja trazer suas ideias constantemente a p\u00fablico?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Fico me perguntando se estou fazendo voc\u00ea pensar segundo certa linha definida. Espero que n\u00e3o. Estou tentando mostrar que pensar \u00e9 necess\u00e1rio, estar apaixonado \u00e9 necess\u00e1rio; e para pensar profundamente e estar grandemente apaixonado, voc\u00ea n\u00e3o pode ter um dep\u00f3sito de rea\u00e7\u00f5es de autodefesa ou mem\u00f3rias. Certamente quando est\u00e1 apaixonado, voc\u00ea est\u00e1 vulner\u00e1vel. Se eu s\u00f3 estou fazendo voc\u00ea pensar segundo certas linhas, ent\u00e3o, por favor, cuidado comigo, porque assim vou for\u00e7\u00e1-lo e explor\u00e1-lo, e voc\u00ea vai me explorar por seus pr\u00f3prios variados objetivos.<\/p><p>O que estou dizendo \u00e9 que para viver grandemente, pensar criativamente, a pessoa deve estar completamente aberta para a vida, sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o de autoprote\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea fica quando est\u00e1 apaixonado. Assim voc\u00ea deve estar apaixonado pela vida. Isto requer grande intelig\u00eancia, n\u00e3o informa\u00e7\u00e3o ou conhecimento, mas essa grande intelig\u00eancia que est\u00e1 desperta quando voc\u00ea encontra a vida abertamente, completamente, quando a mente e o cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o totalmente vulner\u00e1veis \u00e0 vida.<\/p><p>Voc\u00ea pergunta, \u201cPode o pensamento do mundo ser mudado sem uma organiza\u00e7\u00e3o cujo prop\u00f3sito seja trazer suas ideias constantemente a p\u00fablico?\u201d Naturalmente n\u00e3o \u2013 voc\u00ea deve ter uma organiza\u00e7\u00e3o \u2013 isso \u00e9 \u00f3bvio. Ent\u00e3o n\u00e3o precisamos discutir isto. Mas quando voc\u00ea fala sobre organiza\u00e7\u00e3o, penso que quer dizer uma coisa completamente diferente. Para converter pessoas a certas cren\u00e7as, for\u00e7\u00e1-las, incit\u00e1-las pela opini\u00e3o, pela press\u00e3o, a adotarem certo m\u00e9todo, certas ideias \u2013 para esse prop\u00f3sito a maioria das organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 formada, n\u00e3o simplesmente para imprimir livros e distribu\u00ed-los. \u00c9 assim que todas as religi\u00f5es s\u00e3o formadas. \u00c9 assim que os seguidores destroem os mestres, transformando seus ensinamentos em dogmas absolutos que se tornam a autoridade para explora\u00e7\u00e3o. Para esse prop\u00f3sito, a organiza\u00e7\u00e3o do tipo errado \u00e9 necess\u00e1ria; por outro lado, se voc\u00ea est\u00e1 interessado nestas ideias que estou expondo, naturalmente ajudar\u00e1 a imprimir e distribuir livros, mas sem o desejo de converter, de explorar.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Mesmo depois de ir al\u00e9m da necessidade de autoridade organizada, a maioria das pessoas tem problemas com o conflito interno de escolher entre desejo e medo. Pode voc\u00ea explicar como distinguir, ou o que voc\u00ea considera desejo verdadeiro?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Existe tal coisa como desejo verdadeiro? O desejo essencial e o desejo n\u00e3o essencial? Um dia voc\u00ea quer um chap\u00e9u, no outro dia um carro, e assim por diante, satisfazendo seus anseios. Contudo no outro dia voc\u00ea quer alcan\u00e7ar a mais elevada verdade ou Deus. Voc\u00ea passa por toda uma s\u00e9rie de desejos. O que \u00e9 o essencial em tudo isto?\u00a0 Coisas s\u00e3o essenciais; amor \u00e9 essencial; a compreens\u00e3o da verdade \u00e9 essencial. Ent\u00e3o por que separar o desejo em falso e verdadeiro, importante e n\u00e3o importante? Voc\u00ea n\u00e3o pode olhar para ele diferentemente, encontrar o desejo inteligentemente? Suas mentes est\u00e3o t\u00e3o mutiladas com valores contradit\u00f3rios que voc\u00eas n\u00e3o podem discernir verdadeiramente.<\/p><p>Fico me perguntando se estou explicando isto. Suponha que voc\u00ea \u00e9 possessivo. N\u00e3o diga para si mesmo, \u201cBem, eu ouvi esta tarde que n\u00e3o devo ser possessivo, ent\u00e3o vou me livrar desse desejo\u201d. N\u00e3o desenvolva uma resist\u00eancia contradit\u00f3ria. Se voc\u00ea \u00e9 possessivo, esteja completa e integralmente consciente disto; ent\u00e3o voc\u00ea ver\u00e1 o que acontece. A mente deve se libertar deste desejo contradit\u00f3rio, o desejo comparativo que \u00e9 realmente uma rea\u00e7\u00e3o de autoprote\u00e7\u00e3o contra o sofrimento; ent\u00e3o voc\u00ea ir\u00e1 discernir toda a significa\u00e7\u00e3o da avidez. Voc\u00ea s\u00f3 pode compreender a avidez, ou qualquer outro problema, em seu isolamento, n\u00e3o o trazendo para compara\u00e7\u00e3o, para oposi\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o existe desejo contradit\u00f3rio ou oposto, s\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 o discernimento do verdadeiro significado do desejo. A cont\u00ednua contradi\u00e7\u00e3o no desejo cria medo, e onde h\u00e1 medo deve haver fuga. E da\u00ed resulta uma incessante batalha entre desejo, raz\u00e3o, o impulso de realiza\u00e7\u00e3o, e seus opostos.<\/p><p>Nesta batalha, intelig\u00eancia, realiza\u00e7\u00e3o verdadeira, est\u00e1 completamente perdida. Enquanto a mente estiver presa no conflito dos opostos, s\u00f3 pode haver uma fuga, uma substitui\u00e7\u00e3o como o essencial e o n\u00e3o essencial, o falso e o verdadeiro. Nisto n\u00e3o h\u00e1 felicidade criativa.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: N\u00e3o h\u00e1 ocasi\u00f5es em que a pessoa precisa se separar da confus\u00e3o exterior para ajudar na realiza\u00e7\u00e3o do verdadeiro ego?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Se voc\u00ea coloca as necessidades primeiro, elas ent\u00e3o se tornam seus mestres e a intelig\u00eancia \u00e9 destru\u00edda. Para descobrir suas necessidades \u00e9 preciso intelig\u00eancia, porque as necessidades est\u00e3o mudando constantemente, se renovando constantemente. Mas se voc\u00ea se determina a descobrir exatamente quais s\u00e3o suas necessidades, e descobrindo-as, voc\u00ea se limita \u00e0quelas necessidades, ent\u00e3o sua vida se tornar\u00e1 muito superficial, estreita, pequena.<\/p><p>Assim, do mesmo modo, se voc\u00ea est\u00e1 buscando solid\u00e3o simplesmente para descobrir o que a verdade \u00e9, ent\u00e3o a solid\u00e3o se torna apenas um meio de fuga. Mas em sua busca durante sua vida ativa surgem naturalmente per\u00edodos de solid\u00e3o. Estes momentos de solid\u00e3o ent\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o falsos; s\u00e3o naturais, espont\u00e2neos.<\/p><p><b>Interrogante:<\/b> Voc\u00ea disse na segunda-feira que para ter verdadeira intelig\u00eancia, deve-se passar por um estado de grande solid\u00e3o. Este \u00e9 o \u00fanico modo de chegar \u00e0 verdadeira intelig\u00eancia?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Vamos considerar o que fazemos agora. Estamos buscando seguran\u00e7a, constantemente nos cercando de certezas. Quando chega um estado de total incerteza, d\u00favida, nos colocamos em fuga. Assim, estabelecemos seguran\u00e7as, certezas. Por favor, reflita e voc\u00ea ver\u00e1 que \u00e9 assim. E s\u00f3 quando voc\u00ea est\u00e1 despido de toda esperan\u00e7a, no sentido de seguran\u00e7a, certeza, s\u00f3 quando voc\u00ea est\u00e1 completamente nu, despido de todas as medidas de prote\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00f5es, \u00e9 que h\u00e1 o \u00eaxtase da verdade. Nesses momentos de completa solid\u00e3o, que s\u00f3 chegam quando todas as fugas e sua significa\u00e7\u00e3o foram verdadeiramente discernidas, est\u00e1 a ventura do presente.<\/p><p>15 de mar\u00e7o de 1935.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Terceira Palestra no Town Hall \u00a0New York Amigos, Gostaria de fazer uma pequena palestra antes de responder \u00e0s perguntas, expor uma coisa que talvez seja dif\u00edcil de compreender. Tentarei faz\u00ea-lo t\u00e3o simples e claro quanto poss\u00edvel. 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