{"id":448,"date":"2022-12-17T12:36:21","date_gmt":"2022-12-17T12:36:21","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=448"},"modified":"2022-12-17T12:37:09","modified_gmt":"2022-12-17T12:37:09","slug":"18-06-1934","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=448","title":{"rendered":"18\/06\/1934"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"448\" class=\"elementor elementor-448\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-73fc0bf9 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"73fc0bf9\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-539f3230\" data-id=\"539f3230\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4b7072b3 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"4b7072b3\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Terceira palestra em The Oak Grove, <\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Ojai, Calif\u00f3rnia.<\/strong><\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Nesta manh\u00e3, irei apenas responder a perguntas.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre autodisciplina e supress\u00e3o dos desejos, sentimentos etc.?<\/p><p><strong style=\"font-size: 14px;\">Krishnamurti<\/strong><span style=\"font-size: 14px;\">: N\u00e3o penso que haja muita diferen\u00e7a entre as duas, porque ambas negam a intelig\u00eancia. A supress\u00e3o \u00e9 a forma grosseira da autodisciplina, que tamb\u00e9m \u00e9 repress\u00e3o; ou seja, tanto a supress\u00e3o como a autodisciplina s\u00e3o meros ajustamentos ao ambiente. Uma \u00e9 a forma grosseira de ajustamento, que \u00e9 a supress\u00e3o, e a outra, a autodisciplina, \u00e9 a forma mais sutil. Ambas t\u00eam base no medo: a supress\u00e3o, num medo \u00f3bvio; a outra, a autodisciplina, no medo da perda, ou no medo que se expressa na aquisi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><p>A autodisciplina \u2013 o que voc\u00eas chamam de autodisciplina \u2013 \u00e9 meramente um ajustamento a um ambiente que n\u00e3o entendemos de maneira completa; por isso, nesse ajustamento, deve haver nega\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia. Por que algu\u00e9m precisaria disciplinar a si mesmo? Por que uma pessoa se disciplina, for\u00e7a a si mesma a se moldar conforme um padr\u00e3o particular? Por que tantas pessoas pertencem a essas numerosas escolas de disciplina, que se sup\u00f5e conduzirem \u00e0 espiritualidade, a uma compreens\u00e3o maior, a um desabrochar mais amplo do pensamento? Voc\u00eas notar\u00e3o que quanto mais disciplinam e treinam as suas mentes, maiores se tornam as suas limita\u00e7\u00f5es. Por favor, precisamos pensar sobre isso cuidadosamente e com uma delicada percep\u00e7\u00e3o, evitando nos confundirmos com a introdu\u00e7\u00e3o de outras quest\u00f5es. Emprego aqui a palavra \u201cautodisciplina\u201d com o mesmo sentido que lhe foi conferido na pergunta, ou seja, disciplinar o \u00edntimo de acordo com certo padr\u00e3o, preconcebido e preestabelecido, que vem a ser o desejo de atingir, de adquirir. No entanto, para mim, o pr\u00f3prio processo de disciplina, essa cont\u00ednua distor\u00e7\u00e3o da mente segundo um determinado padr\u00e3o preestabelecido, eventualmente acabar\u00e1 mutilando a mente. A mente que \u00e9 inteligente de fato est\u00e1 livre da autodisciplina, pois a intelig\u00eancia nasce do questionamento do ambiente e da descoberta do seu verdadeiro significado. Nessa descoberta h\u00e1 um ajustamento genu\u00edno, n\u00e3o o ajustamento a um certo padr\u00e3o ou condi\u00e7\u00e3o, mas o ajustamento que se d\u00e1 por meio da compreens\u00e3o, e que, portanto, encontra-se liberto de todas as condi\u00e7\u00f5es particulares.<\/p><p>Considerem um homem primitivo; o que ele faz? Nele n\u00e3o se verifica disciplina, nem controle, nem supress\u00e3o. Ele faz o que deseja, esse homem primitivo. O homem inteligente tamb\u00e9m faz o que deseja, mas com intelig\u00eancia. A intelig\u00eancia n\u00e3o nasce da autodisciplina ou da supress\u00e3o. No primeiro caso, tudo se resume \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o do desejo: o homem primitivo perseguindo o objeto que deseja. No segundo caso, o homem inteligente v\u00ea o significado do desejo e v\u00ea o conflito. O homem primitivo n\u00e3o enxerga isso, ele persegue tudo que deseja e cria sofrimento e dor. Portanto, para mim, autodisciplina e supress\u00e3o s\u00e3o semelhantes, elas negam a intelig\u00eancia.<\/p><p>Por favor, averiguem o que eu falei sobre a disciplina, a autodisciplina. N\u00e3o o rejeitem, n\u00e3o digam que voc\u00eas devem praticar a autodisciplina porque, do contr\u00e1rio, haver\u00e1 caos no mundo \u2013 como se j\u00e1 n\u00e3o houvesse caos. E repetindo, n\u00e3o aceitem meramente o que digo, concordando que \u00e9 assim. Eu estou lhes falando de algo que experimentei e que descobri ser verdadeiro. Penso que, psicologicamente, isso \u00e9 verdadeiro, pois a autodisciplina implica uma mente que se acorrentou a um pensamento, ideal ou cren\u00e7a particular, uma mente sujeitada a certas condi\u00e7\u00f5es; e, assim como um animal amarrado a um poste s\u00f3 pode se deslocar no limite da corda que o prende, a mente que se amarrou a uma cren\u00e7a, que se perverteu atrav\u00e9s da autodisciplina, desenvolve-se apenas dentro do limite estabelecido por essas condi\u00e7\u00f5es. Por conseguinte, uma mente assim n\u00e3o \u00e9 uma mente de fato, ela \u00e9 incapaz de pensar. Pode ser capaz de ajustamento, de avan\u00e7ar at\u00e9 onde permitir a corda que a prende ao poste; mas essa mente, esse cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode realmente pensar e sentir. A mente e o cora\u00e7\u00e3o encontram-se disciplinados, mutilados, pervertidos, por terem negado o racioc\u00ednio, negado a afei\u00e7\u00e3o. Assim, voc\u00eas devem observar, tornar-se c\u00f4nscios de como funcionam o seu pr\u00f3prio pensamento e os seus pr\u00f3prios sentimentos, sem desejar conduzi-los em qualquer dire\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Primeiro de tudo, antes de orient\u00e1-los, descubram como funcionam. Antes de tentarem mudar e alterar o pensamento e o sentimento, verifiquem seu modo de funcionar, e ver\u00e3o que eles se ajustam continuamente aos limites determinados por aquele ponto central fixado pelo desejo e pelo preenchimento do desejo. Na aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 disciplina.<\/p><p>Deixem-me dar um exemplo. Suponham que voc\u00eas tenham uma mentalidade classista, hierarquista, esnobe. Voc\u00eas n\u00e3o sabem que s\u00e3o esnobes, mas desejam averiguar isso; como o far\u00e3o? Tornando-se conscientes de seu pensamento e de suas emo\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, o que acontece? Suponham que voc\u00eas descubram que s\u00e3o esnobes. Nesse caso, a pr\u00f3pria descoberta cria uma perturba\u00e7\u00e3o, um conflito, e esse mesmo conflito dissolve o esnobismo. Ao passo que, se voc\u00eas meramente disciplinam a mente para n\u00e3o ser esnobe, voc\u00eas desenvolvem uma diferente caracter\u00edstica, que consiste no oposto do esnobismo, e que, por ser deliberada, falsa, \u00e9 igualmente perniciosa.<\/p><p>Assim, pelo fato de termos estabelecido v\u00e1rios padr\u00f5es, v\u00e1rios objetivos, v\u00e1rias maneiras de obtermos aux\u00edlio, e porque continuamente, de modo consciente ou inconsciente, estamos perseguindo tudo isso, disciplinamos nossas mentes e nossos cora\u00e7\u00f5es para esse fim, e como resultado deve haver controle, pervers\u00e3o. Ao passo que, se voc\u00eas come\u00e7arem a questionar as condi\u00e7\u00f5es que criam o conflito, e dessa forma despertarem a intelig\u00eancia, ent\u00e3o essa pr\u00f3pria intelig\u00eancia se far\u00e1 suprema e se manter\u00e1 em cont\u00ednuo movimento, de modo que nunca haver\u00e1 um ponto est\u00e1tico capaz de criar conflito.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Admitindo-se que o \u201cEu\u201d \u00e9 formado por rea\u00e7\u00f5es ao ambiente, atrav\u00e9s de que m\u00e9todo podemos escapar dessas limita\u00e7\u00f5es? Ou, como devemos proceder ao processo de reorienta\u00e7\u00e3o para evitarmos o conflito entre essas duas coisas falsas?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Em primeiro lugar, voc\u00eas querem saber o m\u00e9todo para escapar das limita\u00e7\u00f5es. Por qu\u00ea? Por que perguntam? Por que voc\u00eas sempre pedem um m\u00e9todo, um sistema? O que isso indica, esse desejo de um m\u00e9todo? Toda demanda de um m\u00e9todo indica o desejo de fugir. Voc\u00eas querem que eu estabele\u00e7a um sistema, de modo que voc\u00eas possam imitar esse sistema. Em outras palavras, voc\u00eas desejam um sistema inventado para que voc\u00eas se sobreponham \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que criam conflito, de modo que consigam escapar de todo o conflito. Em outras palavras, voc\u00eas buscam meramente se ajustar a um padr\u00e3o, tendo em vista fugir do conflito e da realidade em que vivem. Esse \u00e9 o desejo por tr\u00e1s da necessidade de um m\u00e9todo, de um sistema. Voc\u00eas sabem, a vida n\u00e3o \u00e9 pelmanismo*. O desejo de um m\u00e9todo indica essencialmente o desejo de fugir.<\/p><p><strong>\u00a0 \u00a0 * N. do T.<\/strong>: Pelmanismo \u00e9 um m\u00e9todo de desenvolvimento da capacidade mental que foi bastante popular na primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p><p>Sabem, voc\u00eas perderam todo o senso de viver de maneira normal, simples, direta. Para recuperarem essa normalidade, essa simplicidade, essa integridade, voc\u00eas n\u00e3o podem seguir m\u00e9todos, voc\u00eas n\u00e3o podem meramente se tornar m\u00e1quinas autom\u00e1ticas. Mas, receio que a maioria de n\u00f3s est\u00e1 buscando m\u00e9todos, pois pensamos que, atrav\u00e9s deles, obteremos realiza\u00e7\u00e3o, estabilidade, const\u00e2ncia. Para mim, m\u00e9todos conduzem \u00e0 lenta estagna\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia, e nada t\u00eam a ver com a verdadeira espiritualidade, que \u00e9, afinal de contas, o produto definitivo da intelig\u00eancia.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea fala da necessidade de revolu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica na vida do indiv\u00edduo. Se ele n\u00e3o quiser revolucionar sua realidade exterior por causa do sofrimento que isso causaria \u00e0 sua fam\u00edlia e aos seus amigos, poder\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o interior conduz\u00ed-lo \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de todos os conflitos?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Antes de tudo, senhores, n\u00e3o podem sentir tamb\u00e9m que uma revolu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica na vida do indiv\u00edduo \u00e9 necess\u00e1ria? Ou voc\u00eas est\u00e3o meramente satisfeitos com as coisas do jeito que s\u00e3o, com suas ideias de progresso, evolu\u00e7\u00e3o, e seu desejo de realiza\u00e7\u00e3o, seus anseios e prazeres flutuantes? Sabem, no momento em que voc\u00eas come\u00e7am a pensar, realmente come\u00e7am a sentir, devem ter esse desejo ardente de uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica, revolu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica, completa reorienta\u00e7\u00e3o do pensamento. Mas, se voc\u00eas sentem que isso \u00e9 necess\u00e1rio, ent\u00e3o nem fam\u00edlia nem amigos podem ficar no caminho. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nem uma revolu\u00e7\u00e3o exterior nem uma revolu\u00e7\u00e3o interior; h\u00e1 apenas revolu\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a. Mas no momento em que voc\u00eas come\u00e7am a limit\u00e1-la, dizendo: \u201cN\u00e3o devo magoar minha fam\u00edlia, meus amigos, meu padre, os capitalistas ou os governantes que me exploram\u201d, voc\u00eas deixam de ver a necessidade de mudan\u00e7a radical, voc\u00eas meramente buscam uma mudan\u00e7a exterior. Nisso h\u00e1 apenas letargia, que contribui para a falsidade do mundo exterior e perpetua o conflito.<\/p><p>Penso que apresentamos uma desculpa realmente insincera de que n\u00e3o devemos causar dano \u00e0s nossas fam\u00edlias e aos nossos amigos. Voc\u00eas sabem, quando voc\u00eas querem fazer algo vital, voc\u00eas o fazem, independentemente de sua fam\u00edlia ou de seus amigos. N\u00e3o \u00e9? Nesse caso, voc\u00eas n\u00e3o consideram que os prejudicam. Isso est\u00e1 al\u00e9m de seu controle; voc\u00eas sentem t\u00e3o intensamente, voc\u00eas pensam t\u00e3o completamente que isso os carrega para al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es dos c\u00edrculos familiares, com suas imposi\u00e7\u00f5es \u00edntimas. Mas, voc\u00eas somente come\u00e7am a considerar a fam\u00edlia, os amigos, os ideais, as cren\u00e7as, as tradi\u00e7\u00f5es, a ordem estabelecida, quando insistem em se aferrar a uma seguran\u00e7a particular, quando n\u00e3o h\u00e1 riqueza interior, mas apenas a depend\u00eancia de est\u00edmulos externos para a riqueza interior. Portanto, se existir essa plena consci\u00eancia do sofrimento, produzida pelo conflito, ent\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o mais presos pelos la\u00e7os de qualquer ortodoxia, amizade ou fam\u00edlia. Voc\u00eas desejam descobrir a causa desse sofrimento, voc\u00eas querem descobrir o significado do ambiente que cria esse conflito; ent\u00e3o, nisso n\u00e3o h\u00e1 personalidade, nenhuma limitada ideia do \u201cEu\u201d. Mas \u00e9 apenas quando voc\u00eas se agarram a essa limitada ideia que voc\u00eas se perguntam at\u00e9 onde devem avan\u00e7ar e at\u00e9 onde n\u00e3o devem avan\u00e7ar.<\/p><p>Certamente, a verdade ou esse deus da compreens\u00e3o n\u00e3o podem ser encontrados atrav\u00e9s do apego \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ou ao h\u00e1bito. S\u00f3 podem ser descobertos quando voc\u00eas se encontram completamente nus, despidos de suas expectativas, esperan\u00e7as, garantias; pois nessa direta simplicidade existe a riqueza da vida.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Pode explicar por que o ambiente, desde o in\u00edcio, tendeu a ser falso, ao inv\u00e9s de verdadeiro? Qual \u00e9 a origem de todos esses problemas e confus\u00f5es?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Quem voc\u00eas pensam que criou o ambiente? Algum Deus misterioso? Por favor, apenas um minuto; quem criou o ambiente, as estruturas social, econ\u00f4mica, religiosa? N\u00f3s mesmos. Cada um de n\u00f3s contribuiu, individualmente, at\u00e9 que ela se tornou coletiva, e o indiv\u00edduo que ajudou a criar o coletivo agora se perdeu no coletivo, pois essa esfera coletiva se tornou o seu molde, o seu ambiente. Devido ao desejo de seguran\u00e7a \u2013 econ\u00f4mica, moral e espiritual \u2013, voc\u00eas criaram uma realidade capitalista, na qual h\u00e1 nacionalidade, diferen\u00e7a de classes e explora\u00e7\u00e3o. N\u00f3s criamos isso, voc\u00eas e eu. Essas coisas n\u00e3o vieram a existir por milagre. Voc\u00eas criar\u00e3o repetidamente um sistema capitalista e aquisitivo, de um tipo diferente, com nuances diferentes, com uma colora\u00e7\u00e3o diferente, enquanto estiverem em busca de seguran\u00e7a. Voc\u00eas poder\u00e3o abolir o padr\u00e3o atual, mas, enquanto houver possessividade, voc\u00eas criar\u00e3o outro Estado capitalista, com uma nova fraseologia, um novo jarg\u00e3o.<\/p><p>E o mesmo se aplica \u00e0s religi\u00f5es, com todas as suas cerim\u00f4nias absurdas, explora\u00e7\u00f5es, medo. Quem as criou? Voc\u00eas e eu. Atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, n\u00f3s criamos essas coisas e, devido ao medo, entregamo-nos a elas. Foi o indiv\u00edduo que criou um ambiente que \u00e9 falso em todo lugar. E ele tornou-se um escravo, e essa falsa condi\u00e7\u00e3o resultou numa falsa busca pela seguran\u00e7a daquela autoconsci\u00eancia que voc\u00eas chamam de \u201cEu\u201d, isto \u00e9, numa constante batalha entre o \u201cEu\u201d e o falso ambiente exterior.<\/p><p>Voc\u00eas desejam saber quem criou o ambiente e toda esta assustadora confus\u00e3o e seus problemas, pois querem um redentor que os liberte desta realidade e os abrigue em um novo c\u00e9u. Aferrando-se a todos os seus preconceitos, esperan\u00e7as, medos e prefer\u00eancias particulares, voc\u00eas criaram individualmente este mundo, e, portanto, devem individualmente romper com ele e n\u00e3o esperar por um sistema que o elimine. Um sistema provavelmente vir\u00e1 e o substituir\u00e1, e ent\u00e3o voc\u00eas meramente se tornar\u00e3o escravos desse sistema. O sistema comunista pode vir, e ent\u00e3o provavelmente voc\u00eas usar\u00e3o palavras novas, por\u00e9m com as mesmas rea\u00e7\u00f5es, manifestando-se apenas de uma maneira diferente, com um ritmo diferente.<\/p><p>\u00c9 por isso que afirmei no outro dia que, se o ambiente est\u00e1 levando voc\u00eas numa certa dire\u00e7\u00e3o, esta j\u00e1 deixou de ser correta. \u00c9 apenas quando existe a\u00e7\u00e3o nascida da compreens\u00e3o do ambiente que h\u00e1 retid\u00e3o.<\/p><p>Ent\u00e3o, individualmente, devemos nos tornar c\u00f4nscios. Eu lhes asseguro que, a partir da\u00ed, cada um de voc\u00eas criar\u00e1 algo imenso, n\u00e3o uma sociedade que meramente se agarra a um ideal, e que, em consequ\u00eancia disso, tende a decair, mas uma sociedade que est\u00e1 constantemente em movimento, nunca chegando a um \u00e1pice para depois morrer. Os indiv\u00edduos estabelecem um objetivo, esfor\u00e7am-se por sua realiza\u00e7\u00e3o, e, depois de obt\u00ea-la, entram em colapso. Eles tentam, o tempo inteiro, atingir certo objetivo, e depois permanecem naquele est\u00e1gio que alcan\u00e7aram. Assim como o indiv\u00edduo, o Estado \u2013 o Estado tenta o tempo todo alcan\u00e7ar um ideal, um objetivo. Todavia, a meu ver o indiv\u00edduo deve estar em constante movimento, deve sempre estar em transforma\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o buscando um resultado definitivo, n\u00e3o buscando um objetivo. Dessa maneira, a autoexpress\u00e3o, que \u00e9 a sociedade, sempre estar\u00e1 em constante movimento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea considera que o karma \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o falso mundo exterior e o falso \u201cEu\u201d?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Voc\u00eas sabem, karma \u00e9 a palavra s\u00e2nscrita que significa agir, fazer, trabalhar, e tudo isso implica causa e efeito. Mas, karma \u00e9 uma cadeia, a rea\u00e7\u00e3o nascida do ambiente, que a mente n\u00e3o entendeu. Como tentei explicar ontem, quando n\u00e3o entendemos uma determinada condi\u00e7\u00e3o, a mente naturalmente fica sobrecarregada, carente de compreens\u00e3o; e, com essa car\u00eancia de compreens\u00e3o, funcionamos e agimos, e a partir da\u00ed criamos novos fardos, maiores limita\u00e7\u00f5es.<\/p><p>Dessa maneira, todos precisamos descobrir o que produz essa falta de entendimento, o que impede o indiv\u00edduo de realizar a inteira significa\u00e7\u00e3o do mundo, seja o do passado ou o do presente. E para descobrir essa significa\u00e7\u00e3o, a mente deve realmente estar livre do preconceito. \u00c9 uma das coisas mais dif\u00edceis \u00e9 ser realmente livre de uma predisposi\u00e7\u00e3o, de um temperamento, de uma idiossincrasia; e abordar o mundo de maneira renovadamente aberta, de maneira direta, requer um elevado grau de percep\u00e7\u00e3o. A maioria das mentes s\u00e3o influenciadas pela vaidade, pelo desejo de ser \u201calgu\u00e9m\u201d para impressionar os outros, pelo desejo de alcan\u00e7ar a verdade, ou de escapar das circunst\u00e2ncias exteriores, ou de expandir a pr\u00f3pria consci\u00eancia \u2013 o que apenas \u00e9 definido em termos diferentes, de natureza espiritual \u2013, ou s\u00e3o influenciadas ainda pelos seus preconceitos nacionalistas. Todos esses desejos impedem que a mente perceba diretamente o inteiro valor do ambiente; e, uma vez que a maioria das mentes s\u00e3o preconceituosas, a primeira coisa que temos que fazer \u00e9 nos tornarmos c\u00f4nscios de nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es. E quando voc\u00eas come\u00e7am a estar c\u00f4nscios, n\u00e3o h\u00e1 mais conflito nessa consci\u00eancia. Quando voc\u00eas sabem que s\u00e3o realmente, brutalmente orgulhosos ou presun\u00e7osos, no pr\u00f3prio ato de se conscientizarem da presun\u00e7\u00e3o, ela come\u00e7a a se dissipar, porque voc\u00eas percebem que \u00e9 absurda; mas, se voc\u00eas meramente come\u00e7am a encobri-la, isso produz mais doen\u00e7as, mais falsas rea\u00e7\u00f5es.<\/p><p>Assim, para viver cada momento sem o fardo do passado ou do presente, sem a debilitante mem\u00f3ria criada pela falta de compreens\u00e3o, a mente deve sempre abordar as coisas de maneira nova. \u00c9 fatal abordar a vida com o fardo da certeza, com a presun\u00e7\u00e3o do conhecimento, porque, no final das contas, o conhecimento \u00e9 meramente uma coisa do passado. Portanto, quando voc\u00eas encararem a vida com esse frescor, voc\u00eas saber\u00e3o o que \u00e9 viver sem conflito, sem esse cont\u00ednuo e desgastante esfor\u00e7o. A partir da\u00ed, voc\u00eas avan\u00e7ar\u00e3o por longas dist\u00e2ncias nos oceanos da vida.<\/p><p>18 de junho de 1934.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Terceira palestra em The Oak Grove, Ojai, Calif\u00f3rnia. Krishnamurti: Nesta manh\u00e3, irei apenas responder a perguntas. Interrogante: Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre autodisciplina e supress\u00e3o dos desejos, sentimentos etc.? Krishnamurti: N\u00e3o penso que haja muita diferen\u00e7a entre as duas, porque ambas negam a intelig\u00eancia. A supress\u00e3o \u00e9 a forma grosseira da autodisciplina, que tamb\u00e9m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-448","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=448"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":456,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/448\/revisions\/456"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}