{"id":440,"date":"2022-12-17T12:34:51","date_gmt":"2022-12-17T12:34:51","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=440"},"modified":"2022-12-17T12:35:43","modified_gmt":"2022-12-17T12:35:43","slug":"17-06-1934","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=440","title":{"rendered":"17\/06\/1934"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"440\" class=\"elementor elementor-440\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7758f9cc elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7758f9cc\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-2e7d3a48\" data-id=\"2e7d3a48\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4f31c50a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"4f31c50a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Segunda Palestra em Oak Grove,<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Ojai, Calif\u00f3rnia<\/strong><\/p><p>Talvez se lembrem de que ontem estive falando sobre o nascimento do conflito e como a mente busca solu\u00e7\u00e3o para ele. Esta manh\u00e3 quero tratar da ideia de conflito e desarmonia, e mostrar a absoluta futilidade de a mente tentar buscar uma solu\u00e7\u00e3o para o conflito, pois a mera busca de solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o eliminar\u00e1 o conflito. Quando busca uma solu\u00e7\u00e3o, um meio de dissolver o conflito, voc\u00ea simplesmente tentar sobrepor, ou colocar em seu lugar, um novo conjunto de ideias, um novo conjunto de teorias, ou tenta simplesmente fugir do conflito. Quando as pessoas desejam solu\u00e7\u00e3o para seus conflitos, \u00e9 isso que buscam.<\/p><p>Se observar, ver\u00e1 que, quando h\u00e1 conflito, voc\u00ea imediatamente busca uma solu\u00e7\u00e3o para ele. Voc\u00ea quer encontrar uma sa\u00edda daquele conflito, e geralmente a encontra; mas voc\u00ea n\u00e3o resolveu o conflito, apenas o modificou com um novo ambiente, uma nova condi\u00e7\u00e3o, que por sua vez produzir\u00e3o mais conflito. Portanto, examinemos toda essa ideia de conflito, de onde surge e o que podemos fazer com ele.<\/p><p>O conflito resulta do ambiente, n\u00e3o \u00e9 verdade? Afinal, o que \u00e9 ambiente? Quando \u00e9 que voc\u00ea fica c\u00f4nscio do ambiente? Somente quando h\u00e1 conflito e resist\u00eancia nesse ambiente. Ent\u00e3o, se observar, se examinar sua vida, ver\u00e1 que o conflito est\u00e1 sempre mudando, pervertendo, moldando sua vida; e a intelig\u00eancia, que \u00e9 a perfeita harmonia entre mente e cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz parte da sua vida. Noutras palavras, o ambiente est\u00e1 continuamente moldando sua vida para a a\u00e7\u00e3o, e, naturalmente, dessa constante deforma\u00e7\u00e3o, moldagem, pervers\u00e3o, nasce o conflito. Portanto, onde quer que haja esse constante processo de conflito, n\u00e3o pode haver intelig\u00eancia. Mesmo assim, pensamos que, passando continuamente por conflitos, chegaremos a essa intelig\u00eancia, essa plenitude, esse \u00eaxtase. Mas, pelo ac\u00famulo de conflito, n\u00e3o podemos descobrir como viver inteligentemente; voc\u00ea s\u00f3 pode descobrir como viver inteligentemente quando compreende o ambiente que est\u00e1 criando conflito; e a mera substitui\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a introdu\u00e7\u00e3o de novas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ir\u00e1 resolver o conflito. Mesmo assim, se observar, ver\u00e1 que, quando h\u00e1 conflito, a mente busca uma substitui\u00e7\u00e3o. Dizemos que \u00e9 a hereditariedade, as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o ambiente anterior, ou afirmamos nossa cren\u00e7a em carma, reencarna\u00e7\u00e3o, evolu\u00e7\u00e3o; portanto, estamos tentando dar desculpas para o conflito presente em que a mente foi apanhada, em vez de tentarmos descobrir qual a causa do pr\u00f3prio conflito, o que significaria examinar a import\u00e2ncia do ambiente.<\/p><p>O conflito, ent\u00e3o, s\u00f3 pode existir entre o ambiente \u2013 ambiente significando condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, vizinhos \u2013 entre tal ambiente e o resultado do ambiente, que \u00e9 o \u201ceu\u201d. O conflito s\u00f3 pode existir enquanto houver a rea\u00e7\u00e3o ao ambiente que produz o \u201ceu\u201d, o ego. A maioria das pessoas n\u00e3o tem consci\u00eancia desse conflito \u2013 o conflito entre o seu ego, que n\u00e3o passa de resultado do ambiente, e o pr\u00f3prio ambiente. Poucos t\u00eam consci\u00eancia dessa batalha cont\u00ednua. A pessoa passa a ter consci\u00eancia desse conflito, dessa desarmonia, dessa luta entre a falsa cria\u00e7\u00e3o do ambiente, que \u00e9 o \u201ceu\u201d, e o pr\u00f3prio ambiente, somente por meio do sofrimento. N\u00e3o \u00e9 assim? \u00c9 s\u00f3 por meio de sofrimento agudo, dor aguda, desarmonia aguda, que voc\u00ea fica c\u00f4nscio do conflito.<\/p><p>Que acontece quando voc\u00ea fica c\u00f4nscio do conflito? Que acontece quando, naquela intensidade de sofrimento, voc\u00ea fica totalmente c\u00f4nscio da batalha, da luta que se trava? A maioria das pessoas quer um al\u00edvio imediato, uma resposta imediata. Elas querem proteger-se do sofrimento e, assim, encontram v\u00e1rios meios de fuga, os quais mencionei ontem, tais como religi\u00f5es, divers\u00f5es, futilidades, e as muitas misteriosas avenidas de fuga que havemos criado com o nosso desejo de nos protegermos dessa luta. O sofrimento faz a pessoa ter consci\u00eancia desse conflito, mas n\u00e3o levar\u00e1 o homem \u00e0quela satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e0quela riqueza, \u00e0quela plenitude, \u00e0quele \u00eaxtase da vida, porque, afinal, o sofrimento s\u00f3 consegue despertar a mente para maior intensidade. E, quando a mente fica agu\u00e7ada, ela ent\u00e3o come\u00e7a a questionar o ambiente, as condi\u00e7\u00f5es, e, nesse questionamento, a intelig\u00eancia est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o; e \u00e9 s\u00f3 a intelig\u00eancia que levar\u00e1 o homem \u00e0 plenitude de vida, \u00e0 descoberta da import\u00e2ncia do sofrimento. A intelig\u00eancia come\u00e7a a funcionar no momento em que o sofrimento se intensifica, quando mente e cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o fugindo pelas v\u00e1rias avenidas que voc\u00eas t\u00e3o astutamente criaram, as quais s\u00e3o aparentemente muito razo\u00e1veis, factuais, reais. Se observar cuidadosamente, sem preconceito, ver\u00e1 que, enquanto houver fuga, n\u00e3o estar\u00e1 resolvendo, n\u00e3o estar\u00e1 enfrentando face a face o conflito, e, portanto, seu sofrimento \u00e9 somente uma acumula\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia. Noutras palavras, quando a pessoa deixa de fugir pelos canais costumeiros, ent\u00e3o, nessa intensidade de sofrimento, a intelig\u00eancia come\u00e7a a funcionar.<\/p><p>Por favor, n\u00e3o quero dar-lhes exemplos e s\u00edmiles, pois quero que reflitam sobre o assunto; se eu der exemplos, terei feito todo o trabalho de reflex\u00e3o, e voc\u00eas, apenas escutado. Por\u00e9m, se come\u00e7arem a pensar no que estou dizendo, ver\u00e3o, observar\u00e3o por si mesmos, como a mente, acostumada a tantas substitui\u00e7\u00f5es, autoridades, fugas, nunca chega a tal ponto de intenso sofrimento que obrigue a intelig\u00eancia a funcionar. E \u00e9 s\u00f3 quando a intelig\u00eancia est\u00e1 funcionando plenamente que pode haver dissolu\u00e7\u00e3o completa da causa do conflito.<\/p><p>Sempre que haja falta de compreens\u00e3o do ambiente, haver\u00e1 necessariamente conflito. O ambiente gera o conflito, e, enquanto n\u00e3o compreendermos o ambiente, as condi\u00e7\u00f5es, as vizinhan\u00e7as, e estivermos apenas buscando substitui\u00e7\u00f5es para essas condi\u00e7\u00f5es, estamos fugindo de um conflito e encontrando outro. Por\u00e9m, se naquela intensidade de sofrimento que traz consigo um conflito em sua plenitude, se, nesse estado, come\u00e7armos a questionar o ambiente, ent\u00e3o entenderemos o valor verdadeiro do ambiente, e a intelig\u00eancia funciona, ent\u00e3o, naturalmente. At\u00e9 aqui, a mente tem-se identificado com conflito, com ambiente, com fugas, e, portanto, com sofrimento; isto \u00e9, voc\u00ea diz: \u201cEu sofro.\u201d Por outro lado, naquele estado de intenso sofrimento, naquela intensidade de sofrimento em que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 fuga, a pr\u00f3pria mente se torna intelig\u00eancia.<\/p><p>Noutras palavras, enquanto estivermos buscando solu\u00e7\u00f5es, enquanto estivermos buscando substitui\u00e7\u00f5es, buscando autoridades para descobrir a causa e aliviar o conflito, haver\u00e1 obrigatoriamente identifica\u00e7\u00e3o da mente com o particular. Por outro lado, se a mente estiver nesse estado de intenso sofrimento em que todas as avenidas de fuga est\u00e3o bloqueadas, ent\u00e3o a intelig\u00eancia ser\u00e1 despertada, funcionar\u00e1 natural e espontaneamente.<\/p><p>Por favor, se fizerem um experimento assim, ver\u00e3o que n\u00e3o estou lhes comunicando teorias, mas algo com o que podem trabalhar, algo pr\u00e1tico. Voc\u00eas t\u00eam uma profus\u00e3o de ambientes, que lhes foram impostos pela sociedade, pela religi\u00e3o, pelas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pelas distin\u00e7\u00f5es sociais, pela explora\u00e7\u00e3o e pelas opress\u00f5es pol\u00edticas. O \u201ceu\u201d foi criado por essa imposi\u00e7\u00e3o, por essa compuls\u00e3o; existe o \u201ceu\u201d em voc\u00ea que luta contra o ambiente e, assim, h\u00e1 conflito. N\u00e3o adianta criar um novo ambiente, pois a mesma coisa continuar\u00e1 a existir. Mas, se nesse conflito houver dor e sofrimento conscientes \u2013 e sempre h\u00e1 sofrimento em todo conflito, e somente o homem quer fugir dessa batalha e, por isso, busca substitutos \u2013 se nessa agudeza de sofrimento, voc\u00ea parar de buscar substitutos e realmente encarar os fatos, ver\u00e1 que a mente, que \u00e9 um somat\u00f3rio de intelig\u00eancia, come\u00e7a a descobrir o verdadeiro valor do ambiente, e, ent\u00e3o, voc\u00ea compreender\u00e1 que a mente est\u00e1 livre do conflito. Na pr\u00f3pria agudeza do sofrimento reside a sua dissolu\u00e7\u00e3o. Portanto, a\u00ed est\u00e1 a compreens\u00e3o da causa do conflito.<\/p><p>Precisamos tamb\u00e9m ter em mente que aquilo que chamamos de ac\u00famulo de dores n\u00e3o leva \u00e0 intensidade; tampouco a multiplica\u00e7\u00e3o de sofrimento leva \u00e0 sua pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o, pois a intensidade da mente em sofrimento s\u00f3 acontece quando a mente deixa de fugir. E nenhum conflito despertar\u00e1 esse sofrimento, essa agudeza de sofrimento, quando a mente est\u00e1 tentando fugir, pois na fuga n\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia.<\/p><p>Antes de responder \u00e0s perguntas que me foram encaminhadas, quero resumir essa quest\u00e3o. Primeiro, todos est\u00e3o emaranhados em sofrimento e conflito, mas a maioria das pessoas n\u00e3o tem consci\u00eancia desse conflito; elas se limitam a buscar substitui\u00e7\u00f5es, solu\u00e7\u00f5es e meios de fuga. Ao passo que, se parassem de fugir e come\u00e7assem a questionar o ambiente que gera esse conflito, ent\u00e3o a mente se tornaria penetrante, viva, inteligente. Nessa intensidade, a mente se torna inteligente e, assim, percebe o inteiro valor e a import\u00e2ncia do ambiente que d\u00e1 ensejo ao conflito.<\/p><p>Por favor, estou certo de que metade de voc\u00eas n\u00e3o compreende essa quest\u00e3o, mas isso n\u00e3o importa. O que podem fazer, se o desejarem, \u00e9 investigar o assunto e ver se o que estou dizendo n\u00e3o \u00e9 verdadeiro. Mas investigar isso n\u00e3o \u00e9 intelectualiz\u00e1-lo, isto \u00e9, sentar-se e fazer o assunto desaparecer atrav\u00e9s do intelecto. Para descobrirem se o que estou dizendo \u00e9 verdadeiro, precisam pratic\u00e1-lo, e, para pratic\u00e1-lo, precisam questionar o ambiente. Noutras palavras, se voc\u00eas est\u00e3o em conflito, precisam naturalmente questionar o ambiente, mas a maioria das mentes tornou-se de tal modo pervertida que n\u00e3o tem consci\u00eancia de que est\u00e3o buscando solu\u00e7\u00f5es, meios de fuga, atrav\u00e9s de suas maravilhosas teorias. Elas raciocinam perfeitamente, mas seu racioc\u00ednio baseia-se na busca da fuga, da qual est\u00e3o completamente alheias.<\/p><p>Assim, se houver conflito, e se voc\u00eas desejarem descobrir a causa desse conflito, naturalmente a mente deve descobri-lo mediante intensidade de pensamento e, por conseguinte, mediante o questionamento de tudo aquilo que o ambiente coloca em torno de voc\u00eas \u2013 fam\u00edlia, vizinhos, religi\u00f5es, autoridades pol\u00edticas; e, pelo questionamento, haver\u00e1 a\u00e7\u00e3o contra o ambiente. H\u00e1 a fam\u00edlia, o vizinho, o Estado, e, questionando a import\u00e2ncia dessas coisas, voc\u00eas ver\u00e3o que a intelig\u00eancia \u00e9 espont\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 coisa a ser adquirida, nem coisa a ser cultivada. Voc\u00eas ter\u00e3o semeado a semente da consci\u00eancia, e isso produz a flor da intelig\u00eancia.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O senhor diz que o \u201ceu\u201d \u00e9 produto do ambiente. Isso significa que se poderia criar um ambiente perfeito, que n\u00e3o ensejaria o desenvolvimento da consci\u00eancia do \u201ceu\u201d? Em caso positivo, a perfeita liberdade da qual o senhor fala seria uma quest\u00e3o de criar o ambiente correto. Est\u00e1 certo?<\/p><p><strong>Vozes partindo do audit\u00f3rio<\/strong>: \u201cN\u00e3o!\u201d<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Um minuto! H\u00e1 possibilidade de existir um ambiente correto, perfeito? N\u00e3o h\u00e1. As pessoas que responderam \u201cn\u00e3o\u201d, n\u00e3o examinaram a quest\u00e3o completamente; ent\u00e3o, vamos raciocinar juntos, vamos explorar este assunto cabalmente.<\/p><p>O que \u00e9 ambiente? O ambiente foi criado, toda esta estrutura humana foi criada por meio dos medos, anseios antigos, esperan\u00e7as, desejos, realiza\u00e7\u00f5es humanas. Voc\u00eas n\u00e3o podem construir um ambiente perfeito porque cada um est\u00e1 criando, de acordo com suas fantasias e desejos, novos conjuntos de condi\u00e7\u00f5es; por\u00e9m, tendo uma mente inteligente, voc\u00eas podem abrir caminho atrav\u00e9s de todos esses falsos ambientes e, portanto, ser livres de toda a consci\u00eancia do \u201ceu\u201d. Por favor, a consci\u00eancia do \u201ceu\u201d, o sentimento de \u201cmeu, minha\u201d, \u00e9 resultante do ambiente, n\u00e3o \u00e9 verdade? Penso n\u00e3o ser necess\u00e1rio discutir isso porque \u00e9 bastante \u00f3bvio.<\/p><p>Se o Estado lhe tiver dado uma casa e tudo o que voc\u00ea desejava, n\u00e3o haveria necessidade da \u201cminha\u201d casa \u2013 pode haver algum outro sentimento de \u201cmeu, minha\u201d, mas estamos discutindo o particular. Como esse n\u00e3o foi o caso em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00eas, existe o sentimento de \u201cmeu, minha\u201d, existe possessividade. Isso resulta do ambiente, esse \u201ceu\u201d nada \u00e9 sen\u00e3o a falsa rea\u00e7\u00e3o ao ambiente. Por outro lado, se a mente come\u00e7ar a questionar o pr\u00f3prio ambiente, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 rea\u00e7\u00e3o ao ambiente. Portanto, n\u00e3o estamos preocupados com a possibilidade de jamais haver um ambiente perfeito.<\/p><p>Afinal, o que seria um ambiente perfeito? Cada pessoa lhe dir\u00e1 o que, para ela, \u00e9 um ambiente perfeito. O artista dir\u00e1 uma coisa, o financista dir\u00e1 outra, a atriz de cinema, outra; cada pessoa exige um ambiente perfeito que a satisfa\u00e7a, isto \u00e9, que n\u00e3o crie conflito nela. Portanto, n\u00e3o pode existir um ambiente perfeito. Mas, havendo intelig\u00eancia, ent\u00e3o o ambiente n\u00e3o tem valor, n\u00e3o tem import\u00e2ncia, pois a intelig\u00eancia fica livre das circunst\u00e2ncias e funciona plenamente.<\/p><p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se podemos criar um ambiente perfeito, mas sim como despertar aquela intelig\u00eancia que ser\u00e1 livre do ambiente, seja ele imperfeito ou perfeito. Digo que voc\u00eas podem despertar essa intelig\u00eancia questionando o inteiro valor de qualquer ambiente em cujas malhas sua mente estiver presa. Ent\u00e3o voc\u00eas ver\u00e3o que ficam livres de qualquer ambiente que seja, pois ent\u00e3o estar\u00e3o funcionando inteligentemente, e n\u00e3o sendo distorcidos, pervertidos, moldados pelo ambiente.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Por certo o senhor n\u00e3o pode querer dizer o que suas palavras parecem transmitir. Quando vejo a imoralidade desenfreada no mundo, sinto intenso desejo de combater essa imoralidade e todo o sofrimento por ela criado na vida dos meus semelhantes. Isto resulta em enorme conflito, pois, quando tento ajudar, sou muitas vezes confrontado com cruel oposi\u00e7\u00e3o. Como, ent\u00e3o, pode o senhor dizer que n\u00e3o h\u00e1 conflito algum entre o falso e o verdadeiro?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Ontem eu disse que s\u00f3 pode haver luta entre duas coisas falsas: conflito entre o ambiente e o resultado do ambiente, que \u00e9 o \u201ceu\u201d. Entre esses dois h\u00e1 in\u00fameras avenidas de fuga que o \u201ceu\u201d criou, as quais chamamos de v\u00edcio, bondade, moralidade, padr\u00f5es morais, medos, e todos os muitos opostos; e a luta s\u00f3 pode existir entre os dois, entre a falsa cria\u00e7\u00e3o do ambiente, que \u00e9 o \u201ceu\u201d, e o ambiente propriamente dito. Mas n\u00e3o pode haver luta entre a verdade e aquilo que \u00e9 falso. Certamente isso \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9? O senhor pode sofrer oposi\u00e7\u00e3o cruel porque o outro homem \u00e9 ignorante. Isso n\u00e3o significa que o senhor n\u00e3o precise lutar \u2013 mas n\u00e3o pressuponha a justeza da luta. Por favor, o senhor sabe que h\u00e1 um modo natural de fazer as coisas, um modo espont\u00e2neo, doce, de fazer as coisas, sem essa justeza agressiva e cruel.<\/p><p>Primeiramente, para lutar, voc\u00ea precisa saber contra o que est\u00e1 lutando; portanto, precisa haver compreens\u00e3o do que \u00e9 fundamental, e n\u00e3o das divis\u00f5es entre as coisas falsas. Estamos t\u00e3o c\u00f4nscios, estamos t\u00e3o completamente c\u00f4nscios das divis\u00f5es entre as coisas falsas, entre os produtos do ambiente, que os combatemos, que os queremos reformar, modificar, alterar, sem mudar fundamentalmente toda a estrutura da vida humana. Noutras palavras, ainda queremos preservar a consci\u00eancia do \u201ceu\u201d, que \u00e9 a falsa rea\u00e7\u00e3o ao ambiente; queremos preservar isso e ainda queremos mudar o mundo. Isto \u00e9, voc\u00ea quer ter sua pr\u00f3pria conta banc\u00e1ria, seus bens, quer manter o seu senso de \u201cmeu, minha\u201d, a ainda quer mudar o mundo para que n\u00e3o haja essa ideia de \u201cmeu, minha\u201d e \u201cseu, sua\u201d.<\/p><p>Ent\u00e3o o que a pessoa precisa fazer \u00e9 descobrir se est\u00e1 lidando com o fundamental, ou apenas com o superficial. E, para mim, o superficial existir\u00e1 enquanto voc\u00ea estiver preocupado apenas com a mudan\u00e7a do ambiente para aliviar o conflito. Isto \u00e9, voc\u00ea ainda deseja aferrar-se \u00e0 consci\u00eancia do \u201ceu\u201d como \u201cmeu, minha\u201d, mas tamb\u00e9m deseja alterar as circunst\u00e2ncias para que n\u00e3o conflitem com esse \u201ceu\u201d. A isso eu chamo de pensamento superficial, que resulta naturalmente em a\u00e7\u00e3o superficial. Mas, se voc\u00ea pensar de modo fundamental, isto \u00e9, se questionar o pr\u00f3prio resultado do ambiente, que \u00e9 o \u201ceu\u201d, e, assim, questionar o pr\u00f3prio ambiente, ent\u00e3o estar\u00e1 agindo de modo fundamental, e, portanto, duradouro. E nisso h\u00e1 um \u00eaxtase, nisso h\u00e1 uma alegria que voc\u00ea agora n\u00e3o conhece porque tem medo de agir de modo fundamental.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Ontem, em sua palestra, o senhor falou do ambiente como movimento do falso. O senhor inclui, no conceito de ambiente, todas as cria\u00e7\u00f5es da natureza, inclusive as formas humanas?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O ambiente muda continuamente, n\u00e3o \u00e9? Para a maioria das pessoas, ele n\u00e3o muda porque a mudan\u00e7a implica ajustamento cont\u00ednuo e, por conseguinte, aten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da mente; e a maioria das pessoas est\u00e1 preocupada com a condi\u00e7\u00e3o est\u00e1tica do ambiente. No entanto, o ambiente est\u00e1 em movimento porque est\u00e1 fora do seu controle, e \u00e9 falso enquanto voc\u00ea n\u00e3o compreende a sua import\u00e2ncia.<\/p><p>Portanto, n\u00e3o estamos preocupados com a estabilidade, com a continua\u00e7\u00e3o de um ambiente que entendamos, porque, no momento em que o entendemos, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 conflito. Noutras palavras, estamos buscando seguran\u00e7a emocional e mental, e estamos felizes enquanto essa seguran\u00e7a for assegurada e nunca questionamos o ambiente; e da\u00ed o constante movimento do ambiente \u00e9 uma coisa falsa que est\u00e1 criando dist\u00farbio em cada um. Enquanto houver conflito, isso indica que n\u00e3o havemos compreendido as condi\u00e7\u00f5es colocadas ao nosso redor; e esse movimento de ambiente permanece falso enquanto n\u00e3o esquadrinharmos sua import\u00e2ncia, e isso s\u00f3 podemos descobrir naquele estado de intensa consci\u00eancia do sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Est\u00e1 perfeitamente claro para mim que a consci\u00eancia do \u201ceu\u201d resulta do ambiente, mas o senhor n\u00e3o v\u00ea que o \u201ceu\u201d n\u00e3o teve origem pela primeira vez nesta vida? Com base no que o senhor diz, \u00e9 \u00f3bvio que a consci\u00eancia do \u201ceu\u201d, sendo resultante do ambiente, precisa ter come\u00e7ado no passado distante e continuar\u00e1 no futuro?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Sei que esta \u00e9 uma pergunta para me pegar na quest\u00e3o da reencarna\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o importa. Vamos examinar a quest\u00e3o.<\/p><p>Antes de mais nada, voc\u00eas admitir\u00e3o, se pensarem no assunto, que o \u201ceu\u201d resulta do ambiente. Para mim, n\u00e3o importa se \u00e9 o ambiente passado ou o ambiente presente. Afinal, o ambiente \u00e9 do passado tamb\u00e9m. Voc\u00eas fizeram algo que n\u00e3o compreenderam, fizeram algo ontem que n\u00e3o compreenderam, mas isso os persegue at\u00e9 que o compreendam. N\u00e3o conseguem resolver esse ambiente passado at\u00e9 que estejam totalmente c\u00f4nscios no presente. Portanto, n\u00e3o importa se a mente foi aleijada por condi\u00e7\u00f5es passadas ou presentes. O que importa \u00e9 que voc\u00eas devem compreender o ambiente e isso livrar\u00e1 a mente do conflito.<\/p><p>Algumas pessoas acreditam que o \u201ceu\u201d nasceu no passado distante e que continuar\u00e1 no futuro. Isso \u00e9 irrelevante para mim, isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia alguma. Eu lhes mostrarei por qu\u00ea. Se o \u201ceu\u201d \u00e9 resultado do ambiente, se o \u201ceu\u201d \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do conflito, ent\u00e3o a mente deve estar preocupada, n\u00e3o com a continuidade do conflito, mas com o libertar-se do conflito. Ent\u00e3o, n\u00e3o importa se \u00e9 o ambiente passado que est\u00e1 aleijando a mente, ou se o presente a est\u00e1 pervertendo, ou se o \u201ceu\u201d nasceu no passado distante. O que importa \u00e9 que, nesse estado de sofrimento, nessa consci\u00eancia, nessa intensidade de consci\u00eancia do sofrimento, haja a dissolu\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d.<\/p><p>Isso traz \u00e0 baila a ideia de carma. Voc\u00ea sabe o que isso significa: que voc\u00ea tem uma carga no presente, uma carga do passado no presente. Isto \u00e9, voc\u00ea traz consigo o ambiente do passado para o presente, e, por causa dessa carga, voc\u00ea controla o futuro, voc\u00ea d\u00e1 forma ao futuro. Se voc\u00ea pensar nisso, tem de ser assim: que se a sua mente est\u00e1 pervertida pelo passado, naturalmente o futuro deve tamb\u00e9m estar distorcido, porque, se voc\u00ea n\u00e3o tiver compreendido o ambiente de ontem, ele tem de continuar hoje; e como voc\u00ea n\u00e3o compreende o hoje, naturalmente tamb\u00e9m n\u00e3o compreender\u00e1 o amanh\u00e3. Isto \u00e9, se voc\u00ea n\u00e3o tiver percebido a inteira significa\u00e7\u00e3o de um ambiente ou de uma a\u00e7\u00e3o, isso perverte o seu julgamento do ambiente de hoje, da a\u00e7\u00e3o de hoje, nascida do ambiente, que perverter\u00e1 voc\u00ea de novo amanh\u00e3. Ent\u00e3o a pessoa fica presa nesse c\u00edrculo vicioso, donde prov\u00e9m a ideia de cont\u00ednuo renascimento, renascimento da mem\u00f3ria, ou renascimento da mente, continuado pelo ambiente.<\/p><p>Mas eu afirmo que a mente pode livrar-se do passado, do ambiente passado, dos obst\u00e1culos passados, e, portanto, voc\u00ea pode ficar livre do futuro, porque, ent\u00e3o, estar\u00e1 vivendo no presente de forma din\u00e2mica, intensa, suprema. No presente est\u00e1 a eternidade, e, para compreender isso, a mente deve libertar-se da carga do passado; e, para libertar a mente do passado, \u00e9 preciso haver um intenso questionamento do presente, em vez de pensar em como o \u201ceu\u201d continuar\u00e1 no futuro.<\/p><p>17\/06\/1934.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Segunda Palestra em Oak Grove, Ojai, Calif\u00f3rnia Talvez se lembrem de que ontem estive falando sobre o nascimento do conflito e como a mente busca solu\u00e7\u00e3o para ele. Esta manh\u00e3 quero tratar da ideia de conflito e desarmonia, e mostrar a absoluta futilidade de a mente tentar buscar uma solu\u00e7\u00e3o para o conflito, pois [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-440","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=440"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/440\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":447,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/440\/revisions\/447"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}