{"id":333,"date":"2022-12-16T21:05:35","date_gmt":"2022-12-16T21:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=333"},"modified":"2022-12-16T21:06:22","modified_gmt":"2022-12-16T21:06:22","slug":"02-01-1934","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=333","title":{"rendered":"02\/01\/1934"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"333\" class=\"elementor elementor-333\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4420278b elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4420278b\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-5a496efa\" data-id=\"5a496efa\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6fa77fd3 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6fa77fd3\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Adyar\u00a0\u00a0<\/strong><\/p><p>Esta manh\u00e3 quero explicar-lhes algo que requer um pensamento muito delicado; e espero que ou\u00e7am, ou antes, tentem compreender o que vou dizer, n\u00e3o com oposi\u00e7\u00e3o mas com cr\u00edtica inteligente. Vou falar de um assunto que, se compreendido, se minuciosamente estudado, lhes dar\u00e1 uma perspectiva inteiramente nova da vida. Tamb\u00e9m lhes pedia que n\u00e3o pensassem em termos de opostos. Quando eu digo que a certeza \u00e9 uma barreira, n\u00e3o pensem por isso que t\u00eam que ser indecisos; quando falo da futilidade da seguran\u00e7a, por favor n\u00e3o pensem que t\u00eam que procurar a inseguran\u00e7a.<\/p><p>Quando realmente prestarem aten\u00e7\u00e3o, perceber\u00e3o que a mente est\u00e1 constantemente \u00e0 procura de certezas, de garantias; procura a certeza de uma meta, de uma conclus\u00e3o, de um objectivo na vida. Voc\u00eas inquirem, \u201cExiste um plano divino, existe a predetermina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe o livre arb\u00edtrio? N\u00e3o podemos, apercebendo-nos desse plano, tentar compreend\u00ea-lo, orientar-nos por esse plano?\u201d Por outras palavras, querem garantias, certeza, para que a mente e o cora\u00e7\u00e3o se possam moldar-se-lhe, possam conformar-se-lhe. E quando inquirem sobre o caminho para a verdade, est\u00e3o realmente a procurar garantia, certeza, seguran\u00e7a.<\/p><p>Quando falam de um caminho para a verdade, isso implica que a verdade, essa realidade viva, n\u00e3o esteja no presente, mas algures na dist\u00e2ncia, algures no futuro. Ora para mim, verdade \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o, e para a realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode haver qualquer caminho. Portanto parece, pelos menos a mim, que a primeira ilus\u00e3o em que s\u00e3o apanhados \u00e9 este desejo de garantia, este desejo de certeza, esta interroga\u00e7\u00e3o sobre um caminho, uma maneira, um modo de viver pelo qual possam alcan\u00e7ar a meta desejada, que \u00e9 a verdade. A vossa convic\u00e7\u00e3o de que a verdade s\u00f3 existe no futuro distante implica imita\u00e7\u00e3o. Quando perguntam o que \u00e9 a verdade, est\u00e3o na realidade a pedir que lhes digam o caminho que leva \u00e0 verdade. Ent\u00e3o querem saber qual o sistema a seguir, qual o modo, qual a disciplina, para os ajudar no caminho para a verdade.<\/p><p>Mas para mim n\u00e3o h\u00e1 caminho para a verdade; a verdade n\u00e3o \u00e9 para se compreender atrav\u00e9s de nenhum sistema, atrav\u00e9s de nenhum caminho. Um caminho implica uma meta, um fim est\u00e1tico, e por isso um condicionamento da mente e do cora\u00e7\u00e3o por esse fim, o qual necessariamente requer disciplina, controlo, aquisitividade. Esta disciplina, este controlo, torna-se um fardo; rouba-lhes a liberdade e condiciona a vossa a\u00e7\u00e3o na vida di\u00e1ria. Inquirir sobre a verdade implica uma meta, um fim est\u00e1tico, que est\u00e3o a procurar. E o facto de procurarem uma meta mostra que a vossa mente est\u00e1 \u00e0 procura de garantia, de certeza. Para alcan\u00e7ar esta certeza, a mente deseja um caminho, um sistema, um m\u00e9todo que possa seguir, e pensam encontrar esta garantia condicionando a mente e o cora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da autodisciplina, do autocontrole, do refreamento<\/p><p>Mas a verdade \u00e9 uma realidade que n\u00e3o pode ser compreendida seguindo qualquer caminho. A verdade n\u00e3o \u00e9 um condicionamento, uma conforma\u00e7\u00e3o da mente e do cora\u00e7\u00e3o, mas uma realiza\u00e7\u00e3o constante, uma realiza\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o. O facto de inquirirem sobre a verdade implica que acreditem num caminho para a verdade, e esta \u00e9 a primeira ilus\u00e3o em que s\u00e3o apanhados. H\u00e1 nisso um esp\u00edrito de imita\u00e7\u00e3o, de distor\u00e7\u00e3o. Agora por favor n\u00e3o digam, \u201cSem um fim, um objectivo, a vida torna-se ca\u00f3tica.\u201d Quero explicar-lhes a falsidade desta ideia. Eu digo que toda a gente deve descobrir por si s\u00f3 o que \u00e9 a verdade, mas isto n\u00e3o significa que cada um deva tra\u00e7ar um caminho para si, que cada um tenha que percorrer um caminho individual. N\u00e3o significa isso de maneira nenhuma, mas significa sim que cada um deve compreender a verdade por si mesmo. Espero que vejam a diferen\u00e7a entre as duas coisas. Quando t\u00eam que compreender, que descobrir, que experimentar com a vida, um caminho torna-se um impedimento. Mas se tiverem que talhar um caminho para voc\u00eas, ent\u00e3o h\u00e1 um ponto de vista individual, um estreito e limitado ponto de vista. A verdade \u00e9 o movimento do eterno devir, portanto n\u00e3o \u00e9 um fim, n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Por isso a procura de um caminho nasce da ignor\u00e2ncia, da ilus\u00e3o. Mas quando a mente \u00e9 flex\u00edvel, est\u00e1 liberta de cren\u00e7as e mem\u00f3rias, est\u00e1 liberta do condicionamento da sociedade, ent\u00e3o nessa a\u00e7\u00e3o, nessa flexibilidade, existe o movimento infinito da vida.<\/p><p>Um verdadeiro cientista, conforme disse no outro dia, \u00e9 aquele que experimenta continuamente, sem um resultado em vista. Ele n\u00e3o procura resultados, que s\u00e3o apenas o derivado da sua busca. Portanto quando est\u00e3o a procurar, a experimentar, a vossa a\u00e7\u00e3o torna-se apenas um derivado deste movimento. Um cientista que procura um resultado n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro cientista. N\u00e3o est\u00e1 verdadeiramente a procurar. Mas se ele estiver a procurar sem a ideia de obten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, embora possa ter resultados na sua busca, estes resultados s\u00e3o de import\u00e2ncia secund\u00e1ria para ele. Ora voc\u00eas est\u00e3o preocupados com resultados, e por isso a vossa procura n\u00e3o \u00e9 viva, din\u00e2mica. Voc\u00eas procuram um fim, um resultado, e por isso a vossa a\u00e7\u00e3o se torna cada vez mais limitada. Somente quando procuram sem desejo de sucesso, de consecu\u00e7\u00e3o, \u00e9 que a vossa vida se torna continuamente livre, rica. Isto n\u00e3o significa que na vossa procura n\u00e3o haver\u00e1 a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 resultado; significa que a a\u00e7\u00e3o, os resultados, n\u00e3o ser\u00e3o a vossa primeira considera\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Tal como um rio rega as \u00e1rvores que crescem nas suas margens, assim este movimento de procura nutre as vossas a\u00e7\u00f5es. A a\u00e7\u00e3o cooperativa, a a\u00e7\u00e3o conjunta, \u00e9 a sociedade. Querem criar a sociedade perfeita. Mas n\u00e3o pode existir tal sociedade perfeita, porque a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fim, uma culmina\u00e7\u00e3o. A perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o, constantemente em movimento. A sociedade n\u00e3o pode viver de acordo com um ideal; nem o pode o homem, porque a sociedade \u00e9 o homem. Se a sociedade tenta moldar-se de acordo com um ideal, se o homem tenta viver de acordo com um ideal, nenhum dos dois est\u00e1 verdadeiramente a realizar-se; ambos est\u00e3o em decad\u00eancia. Mas se o homem estiver neste movimento de realiza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a sua a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 harmoniosa, completa; a sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 a mera imita\u00e7\u00e3o de um ideal.<\/p><p>Portanto para mim, a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma consecu\u00e7\u00e3o mas um movimento constante. As civiliza\u00e7\u00f5es atingem um determinado auge, existem durante um tempo, e depois declinam, porque nelas n\u00e3o h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o para o homem, mas somente a imita\u00e7\u00e3o constante de um padr\u00e3o. S\u00f3 h\u00e1 plenitude, realiza\u00e7\u00e3o, quando a mente e o cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o em constante movimento de realiza\u00e7\u00e3o, de procura. Agora n\u00e3o digam, \u201cNunca haver\u00e1 um fim para a procura?\u201d J\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o a procurar uma conclus\u00e3o, uma certeza; por isso viver n\u00e3o \u00e9 uma s\u00e9rie de culmina\u00e7\u00f5es, mas um movimento cont\u00ednuo, realiza\u00e7\u00e3o. Se a sociedade est\u00e1 apenas a aproximar-se de um ideal, em breve decair\u00e1. Se a civiliza\u00e7\u00e3o for uma mera consecu\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos concentrados como grupo, j\u00e1 est\u00e1 em processo de decl\u00ednio. Mas se a sociedade, se a civiliza\u00e7\u00e3o, for o resultado deste movimento constante na realiza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o perdurar\u00e1, ser\u00e1 a plenitude do homem.<\/p><p>Para mim, a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a consecu\u00e7\u00e3o de uma meta, de um ideal, de um absoluto, atrav\u00e9s desta ideia de progresso. A perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do pensamento, da emo\u00e7\u00e3o, e por isso da a\u00e7\u00e3o \u2013 realiza\u00e7\u00e3o esta que pode existir a todo o momento. Por isso a perfei\u00e7\u00e3o est\u00e1 liberta do tempo; n\u00e3o \u00e9 o resultado do tempo.<\/p><p>Bem, senhores, h\u00e1 muitas perguntas, e tentarei respond\u00ea-las o mais concisamente poss\u00edvel.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Se rebentasse uma guerra amanh\u00e3 e a lei de recrutamento entrasse em vigor de imediato para o obrigar a pegar nas armas, alistar-se-ia no ex\u00e9rcito e gritaria; \u201c\u00e0s armas, \u00e0s armas!\u201d\u00a0Como\u00a0os l\u00edderes da Sociedade Teos\u00f3fica fizeram em 1914,\u00a0ou se opunha\u00a0\u00e0 guerra?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: N\u00e3o nos preocupemos com o que os l\u00edderes Teos\u00f3ficos fizeram em 1914. Onde h\u00e1 nacionalismo tem que haver guerra. Onde h\u00e1 v\u00e1rios governos soberanos tem que haver guerra. \u00c9 inevit\u00e1vel. Pessoalmente eu n\u00e3o me ligaria a atividades de guerra de nenhuma esp\u00e9cie porque n\u00e3o sou nacionalista, n\u00e3o tenho esp\u00edrito de classes, nem sou possessivo. N\u00e3o me alistaria no ex\u00e9rcito nem ajudaria de qualquer forma. N\u00e3o me juntaria a qualquer organiza\u00e7\u00e3o que existisse apenas com o prop\u00f3sito de curar os feridos e mand\u00e1-los de volta para o campo de batalha para serem feridos outra vez. Mas chegaria a um acordo sobre estes assuntos antes que a guerra amea\u00e7asse.<\/p><p>Agora, pelo menos de momento, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma guerra efetiva. Quando a guerra chega, faz-se propaganda inflamada, contam-se mentiras sobre o suposto inimigo; o patriotismo e o \u00f3dio s\u00e3o fomentados, as pessoas perdem a cabe\u00e7a na suposta devo\u00e7\u00e3o ao seu pa\u00eds. \u201cDeus est\u00e1 do nosso lado\u201d, gritam, \u201ce o diabo com o inimigo\u201d. E durante os s\u00e9culos t\u00eam gritado estas mesmas palavras. Ambos os lados lutam em nome de Deus; em ambos os lados os sacerdotes aben\u00e7oam \u2013 ideia maravilhosa \u2013 o armamento. Agora at\u00e9 aben\u00e7oar\u00e3o os bombardeiros, t\u00e3o consumidos est\u00e3o por essa doen\u00e7a que cria a guerra: o nacionalismo, a sua pr\u00f3pria classe ou a seguran\u00e7a individual. Portanto, enquanto estamos em paz \u2013 embora \u201cpaz\u201d seja uma palavra estranha para descrever a mera cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades armadas \u2013 enquanto n\u00e3o estamos, em qualquer caso, realmente a matar-nos uns aos outros no campo de batalha, podemos compreender quais s\u00e3o as causas da guerra, e desembara\u00e7ar-nos dessas causas. E se forem claros na vossa compreens\u00e3o, na vossa liberdade, com tudo o que essa liberdade implica, que podem ser mortos a tiro por se recusarem a seguir a mania da guerra \u2013 ent\u00e3o agir\u00e3o verdadeiramente quando o momento chegar, seja qual for a vossa a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Portanto a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que far\u00e3o quando a guerra chegar, mas o que est\u00e3o agora a fazer para impedir a guerra. Voc\u00eas que est\u00e3o sempre a me gritar devido \u00e0 minha atitude negativa, o que est\u00e3o a fazer para exterminar a pr\u00f3pria causa da guerra? Estou a falar da verdadeira causa das guerras, n\u00e3o somente da guerra imediata que inevitavelmente amea\u00e7a enquanto cada na\u00e7\u00e3o armazena armamento. Enquanto existir o esp\u00edrito do nacionalismo, o esp\u00edrito da diferen\u00e7a de classes, da particularidade e da possessividade, tem que haver guerra. N\u00e3o a podem evitar. Se realmente estiverem a enfrentar o problema da guerra, como deveriam estar agora, ter\u00e3o que tomar uma a\u00e7\u00e3o definitiva, uma a\u00e7\u00e3o definitiva e positiva; e pela vossa a\u00e7\u00e3o ajudar\u00e3o a despertar a intelig\u00eancia, que \u00e9 a \u00fanica medida preventiva para a guerra. Mas para o fazerem, t\u00eam que se libertar desta doen\u00e7a do \u201co meu Deus, o meu pa\u00eds, a minha fam\u00edlia, a minha casa.\u201d<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Qual \u00e9 a causa do medo, particularmente do medo da morte? \u00c9 poss\u00edvel ficar-se alguma vez completamente livre desse medo? Porque \u00e9 que o medo existe universalmente, mesmo embora o senso comum seja contra ele, considerando que a morte \u00e9 inevit\u00e1vel e \u00e9 uma ocorr\u00eancia perfeitamente natural?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Para aquele que se realiza constantemente n\u00e3o existe o medo da morte. Se formos realmente completos a cada momento, a cada dia, ent\u00e3o n\u00e3o conhecemos o medo do amanh\u00e3. Mas as nossas mentes criam a incompletude da a\u00e7\u00e3o, e portanto o medo do amanh\u00e3. Temos sido treinados pela religi\u00e3o, pela sociedade, para a incompletude, para a protela\u00e7\u00e3o, e\u00a0isto nos serve\u00a0de evas\u00e3o ao medo, porque temos o amanh\u00e3 para completar o que n\u00e3o podemos realizar hoje.<\/p><p>Mas s\u00f3 um momento, por favor. Gostaria que olhassem para este problema n\u00e3o a partir do pano de fundo das vossas tradi\u00e7\u00f5es, modernas ou antigas, nem atrav\u00e9s do vosso comprometimento com a reencarna\u00e7\u00e3o, mas de uma forma muito simples. Ent\u00e3o compreender\u00e3o a verdade, que os libertar\u00e1 completamente do medo. Para mim a ideia da reencarna\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mera protela\u00e7\u00e3o. Mesmo embora possam acreditar profundamente na reencarna\u00e7\u00e3o, ainda t\u00eam medo e sentem m\u00e1goa quando algu\u00e9m morre, ou temem a vossa pr\u00f3pria morte. Podem dizer, \u201cViverei no outro lado; serei muito mais feliz, e farei melhor trabalho do que posso fazer aqui.\u201d Mas as vossas palavras s\u00e3o apenas palavras. N\u00e3o podem silenciar o medo torturante que est\u00e1 sempre no vosso cora\u00e7\u00e3o. Portanto procuremos antes resolver este problema do medo do que a quest\u00e3o da reencarna\u00e7\u00e3o. Quando tiverem compreendido o que \u00e9 o medo, ver\u00e3o a insignific\u00e2ncia da reencarna\u00e7\u00e3o; ent\u00e3o nem mesmo precisaremos de a discutir. N\u00e3o me perguntem o que acontece ap\u00f3s a morte ao homem que \u00e9 estropiado, ao homem que est\u00e1 cego na vida. Se compreenderem o ponto central, considerar\u00e3o ent\u00e3o estas quest\u00f5es inteligentemente.<\/p><p>Voc\u00eas t\u00eam medo da morte porque os vossos dias s\u00e3o incompletos, porque nunca h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o nas vossas a\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 assim? Quando a vossa mente \u00e9 aprisionada numa cren\u00e7a, uma cren\u00e7a no passado ou no futuro, n\u00e3o podem compreender a experi\u00eancia na \u00edntegra. Quando a vossa mente \u00e9 preconceituosa, n\u00e3o pode haver compreens\u00e3o completa da experi\u00eancia em a\u00e7\u00e3o. Por isso dizem que t\u00eam que ter o amanh\u00e3 para completar essa a\u00e7\u00e3o, e t\u00eam medo que esse amanh\u00e3 n\u00e3o chegue. Mas se puderem completar a a\u00e7\u00e3o no presente, ent\u00e3o a infinidade est\u00e1 perante voc\u00eas. O que os impede de viver completamente? Por favor n\u00e3o me perguntem como completar a a\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o lado negativo de olhar para a vida. Se eu lhes disser, ent\u00e3o voc\u00eas apenas fariam a vossa a\u00e7\u00e3o imitativa, e nisso n\u00e3o h\u00e1 plenitude. O que ter\u00e3o de fazer \u00e9 descobrir o que os impede de viver completamente, infinitamente; e isso, descobrir\u00e3o voc\u00eas, \u00e9 esta ilus\u00e3o de um fim, de uma certeza, na qual a mente est\u00e1 aprisionada, esta ilus\u00e3o de alcan\u00e7ar uma meta. Se estiverem constantemente a olhar para o futuro para alcan\u00e7ar, para obter, para serem bem-sucedidos, para conquistar, a vossa a\u00e7\u00e3o no presente tem que ser limitada, tem de ser incompleta. Quando a vossa a\u00e7\u00e3o se baseia na f\u00e9, essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o; \u00e9 apenas o resultado da f\u00e9.<\/p><p>Portanto h\u00e1 muitos impedimentos nas nossas mentes; h\u00e1 o instinto de possessividade, cultivado pela sociedade, e o instinto de n\u00e3o-possessividade, tamb\u00e9m cultivado pela sociedade. Quando h\u00e1 conformidade e imita\u00e7\u00e3o, quando a mente est\u00e1 limitada pela autoridade, n\u00e3o pode haver realiza\u00e7\u00e3o, e daqui surge o medo da morte, e os muitos outros medos que jazem escondidos no subconsciente. Fui claro na minha resposta? Trataremos de novo deste problema, de uma maneira diferente.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como surge a mem\u00f3ria, e quais s\u00e3o os diferentes tipos de mem\u00f3ria? O senhor disse, \u201cNo presente est\u00e1 contido o todo da eternidade.\u201d Por favor aprofunde mais esta declara\u00e7\u00e3o. Significa isso que o passado e o futuro n\u00e3o t\u00eam realidade subjectiva para o homem que vive integralmente no presente? Podem os erros passados, ou, como se lhes pode chamar, as lacunas na compreens\u00e3o, ser ajustadas ou remediadas no presente sempre cont\u00ednuo no qual a ideia de um futuro pode n\u00e3o ter lugar?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Se tiverem acompanhado a resposta anterior, ver\u00e3o como a mem\u00f3ria surge. Se n\u00e3o compreenderem um incidente, se n\u00e3o viverem completamente uma experi\u00eancia, ent\u00e3o a mem\u00f3ria desse incidente, dessa experi\u00eancia, det\u00e9m-se na vossa mente. Quando t\u00eam uma experi\u00eancia que n\u00e3o podem aprofundar totalmente, cujo significado n\u00e3o podem entender, ent\u00e3o a vossa mente retorna a essa experi\u00eancia. Cria-se assim a mem\u00f3ria. Nasce, por outras palavras, da incompletude da a\u00e7\u00e3o. E uma vez que t\u00eam v\u00e1rias camadas de mem\u00f3rias surgindo da incompletude da a\u00e7\u00e3o, nasce aquela\u00a0autoconsci\u00eancia\u00a0a que chamam o ego, e que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias, uma ilus\u00e3o sem realidade, sem subst\u00e2ncia, quer aqui quer no plano mais elevado.<\/p><p>Existem v\u00e1rias esp\u00e9cies de mem\u00f3ria. Por exemplo, existe a mem\u00f3ria do passado, como quando se recordam de uma cena bela. Mas estar\u00e3o interessados nisto? Vejo tantas pessoas a olhar em redor. Se n\u00e3o estiverem realmente interessados em acompanhar isto, discutiremos nacionalismo e golfe ou t\u00eanis. (Risos)<\/p><p>Ora bem, h\u00e1 a mem\u00f3ria que est\u00e1 associada ao prazer de ontem. Isto \u00e9, desfrutaram de uma cena bonita; admiraram o p\u00f4r do sol ou a luz da lua nas \u00e1guas. Depois mais tarde, digamos que quando est\u00e3o no escrit\u00f3rio, a vossa mente retorna a essa cena. Porqu\u00ea? Porque quando est\u00e3o num meio desagrad\u00e1vel e feio, quando a vossa mente e o vosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o apanhados naquilo que n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel, a vossa mente tem tend\u00eancia para automaticamente voltar para a experi\u00eancia agrad\u00e1vel de ontem. Este \u00e9 um tipo de mem\u00f3ria. Em vez de alterarem as condi\u00e7\u00f5es a vossa volta, em vez de alterar o meio em vosso redor, reevocam os passos de uma experi\u00eancia agrad\u00e1vel e residem nessa mem\u00f3ria, suportando e tolerando o desagrad\u00e1vel porque sentem que n\u00e3o o podem alterar. Por isso o passado se det\u00e9m no presente. Fui claro?<\/p><p>Depois h\u00e1 a mem\u00f3ria, agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, que se precipita na mente mesmo apesar de n\u00e3o a quererem. Os incidentes passados n\u00e3o convidados chegam a vossa mente porque voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o absolutamente interessados no presente, porque n\u00e3o est\u00e3o totalmente vivos para o presente.<\/p><p>Outro tipo de mem\u00f3ria \u00e9 a relacionada com cren\u00e7as, com princ\u00edpios, com ideais. Todos os ideais e princ\u00edpios est\u00e3o realmente mortos, s\u00e3o coisas do passado. A mem\u00f3ria dos ideais persiste quando n\u00e3o podem ir ao encontro do total movimento da vida ou compreend\u00ea-lo. Querem uma medida para aferir esse movimento, uma norma pela qual julguem a experi\u00eancia; e \u00e0 atua\u00e7\u00e3o na medida dessa norma chamam viver de acordo com um ideal. Porque n\u00e3o podem compreender a beleza da vida, porque n\u00e3o podem viver na sua plenitude, na sua gl\u00f3ria, querem um ideal, um princ\u00edpio, um padr\u00e3o imitativo, que d\u00ea significado ao vosso viver.<\/p><p>Mais, existe a mem\u00f3ria da autodisciplina, que \u00e9 a for\u00e7a de vontade. A for\u00e7a de vontade nada mais \u00e9 que mem\u00f3ria. Afinal, voc\u00eas come\u00e7am a disciplinar-se atrav\u00e9s do padr\u00e3o da mem\u00f3ria. \u201cFiz isto ontem\u201d, dizem, \u201ce decidi n\u00e3o o fazer hoje.\u201d Portanto a a\u00e7\u00e3o, o pensamento, a emo\u00e7\u00e3o, na grande maioria dos casos, \u00e9 inteiramente o resultado do passado; baseia-se na mem\u00f3ria. Por isso tal a\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o. Deixa sempre uma cicatriz da mem\u00f3ria, e a acumula\u00e7\u00e3o de muitas destas cicatrizes se torna a autoconsci\u00eancia, o \u201ceu\u201d, que est\u00e1 sempre a impedi-los de compreender completamente. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso, esta consci\u00eancia do \u201ceu\u201d.<\/p><p>Temos assim in\u00fameras mem\u00f3rias, mem\u00f3rias de disciplina e de for\u00e7a de vontade, de ideais e de cren\u00e7as, de atra\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis e de perturba\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis. Por favor acompanhem o que estou a dizer. N\u00e3o se deixem perturbar pelos outros. Se isto n\u00e3o lhes interessa, se as vossas mentes est\u00e3o constantemente a vaguear, tamb\u00e9m podem ir-se embora. Eu posso continuar, mas o que digo nada significar\u00e1 para voc\u00eas se n\u00e3o estiverem a ouvir.<\/p><p>Atuamos constantemente atrav\u00e9s deste v\u00e9u de mem\u00f3rias, e por isso a nossa a\u00e7\u00e3o \u00e9 incompleta. Por isso nos confortamos com a ideia de progresso; pensamos numa s\u00e9rie de vidas tendendo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. Assim nunca temos um dia, um momento, de plenitude rica e completa, porque estas mem\u00f3rias est\u00e3o sempre a impedir, a restringir, a limitar, a dificultar a nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Voltando \u00e0 pergunta: \u201cSignifica isso que o passado e o futuro n\u00e3o t\u00eam realidade subjectiva para o homem que vive integralmente no presente?\u201d N\u00e3o me fa\u00e7am essa pergunta. Se estiverem interessados, se quiserem erradicar o medo, se realmente quiserem viver amplamente, venerar o dia em que a mente estiver liberta do passado e do futuro, ent\u00e3o saber\u00e3o como viver completamente.<\/p><p>\u201cPodem os erros passados, ou como se lhes podem\u00a0chamar, as lacunas na compreens\u00e3o, ser ajustadas ou remediadas no presente sempre cont\u00ednuo no qual a ideia de um futuro pode n\u00e3o ter lugar?\u201d Compreendem a pergunta? Como n\u00e3o li anteriormente esta pergunta, tenho que pensar \u00e0 medida que vou avan\u00e7ando. S\u00f3 podem remediar lacunas passadas na compreens\u00e3o no presente, pelo menos, essa \u00e9 a minha opini\u00e3o. A introspec\u00e7\u00e3o, o processo de an\u00e1lise do passado, n\u00e3o produz compreens\u00e3o, porque n\u00e3o podem ter compreens\u00e3o de uma coisa morta. S\u00f3 podem ter compreens\u00e3o no presente sempre ativo, vivo. Esta pergunta abre um vasto campo, mas n\u00e3o quero entrar em pormenores agora. \u00c9 somente no momento do presente, no momento de crise, no momento de enorme e intenso questionamento nascido da a\u00e7\u00e3o total, que as lacunas passadas na compreens\u00e3o podem ser solucionadas, destru\u00eddas; isto n\u00e3o pode ser feito investigando o passado, examinando as vossas a\u00e7\u00f5es passadas. Deixem-me pegar num exemplo que, espero, tornar\u00e1 o assunto mais claro para voc\u00eas. Suponham que t\u00eam preconceitos de classe e n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia disto. Mas o treino nessa consci\u00eancia de classes, a sua mem\u00f3ria, permanece convosco, continua a ser uma parte de voc\u00eas. Ora para libertarem a mente dessa mem\u00f3ria ou treino, n\u00e3o se virem para o passado e digam, \u201cVou examinar a minha a\u00e7\u00e3o para ver se essa a\u00e7\u00e3o est\u00e1 limitada pela consci\u00eancia de classes.\u201d N\u00e3o fa\u00e7am isto, mas antes, nos vossos sentimentos, nas vossas a\u00e7\u00f5es, estejam plenamente conscientes, e ent\u00e3o esta mem\u00f3ria de consci\u00eancia de classes precipitar-se-\u00e1 na vossa mente; nesse momento de intelig\u00eancia desperta, a mente come\u00e7a a libertar-se da sua depend\u00eancia.<\/p><p>Mais uma vez, se forem cru\u00e9is \u2013 e a maior parte das pessoas n\u00e3o tem consci\u00eancia da sua crueldade \u2013 n\u00e3o examinem as vossas a\u00e7\u00f5es para descobrir se s\u00e3o cru\u00e9is ou n\u00e3o. Dessa maneira nunca descobrir\u00e3o, nunca compreender\u00e3o; porque ent\u00e3o a mente estar\u00e1 constantemente a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 crueldade e n\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, e estar\u00e1 por isso a destruir a a\u00e7\u00e3o. Mas se estiverem plenamente conscientes na vossa a\u00e7\u00e3o, se a vossa mente e cora\u00e7\u00e3o estiverem completamente vivos na a\u00e7\u00e3o, no momento da a\u00e7\u00e3o ver\u00e3o que s\u00e3o cru\u00e9is. Assim descobrir\u00e3o a causa real, a pr\u00f3pria raiz da crueldade, n\u00e3o os meros incidentes da crueldade. Mas s\u00f3 podem fazer isto na plenitude da a\u00e7\u00e3o, quando est\u00e3o totalmente conscientes na a\u00e7\u00e3o. As lacunas na compreens\u00e3o n\u00e3o podem ser colmatadas atrav\u00e9s da introspec\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do exame, ou atrav\u00e9s da an\u00e1lise de um incidente passado. Isto s\u00f3 pode ser feito no momento da pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o, que dever\u00e1 ser sempre intemporal. N\u00e3o sei quantos de voc\u00eas compreenderam isto. O problema \u00e9 na realidade muito simples, e tentarei explic\u00e1-lo de uma forma mais simples. N\u00e3o estou a usar termos filos\u00f3ficos ou t\u00e9cnicos, porque n\u00e3o conhe\u00e7o nenhuns. Falo com a linguagem do dia a dia.<\/p><p>A mente est\u00e1 habituada a analisar o passado, a dissecar a a\u00e7\u00e3o para a compreender. Mas eu afirmo que n\u00e3o podem compreender desta maneira, porque tal an\u00e1lise limita a a\u00e7\u00e3o. Podem ver-se exemplos concretos de tal limita\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o aqui na \u00cdndia e em qualquer outro lado, casos em que a a\u00e7\u00e3o quase cessou. N\u00e3o tentem analisar a vossa a\u00e7\u00e3o. Se quiserem descobrir se t\u00eam consci\u00eancia de classes, se s\u00e3o auto-corretos, se s\u00e3o nacionalistas, intolerantes, limitados pela autoridade, imitativos \u2013 se est\u00e3o realmente interessados em descobrir estes impedimentos, ent\u00e3o tornem-se antes plenamente conscientes, tornem-se conscientes do que est\u00e3o a fazer. N\u00e3o sejam apenas observantes, n\u00e3o olhem para a vossa a\u00e7\u00e3o apenas objetivamente, a partir do exterior, mas tornem-se plenamente conscientes, tanto mentalmente como emocionalmente, conscientes com todo o vosso ser no momento da a\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o ver\u00e3o que as muitas mem\u00f3rias impeditivas se precipitar\u00e3o na vossa mente e os impedir\u00e3o de atuar plenamente, completamente. Nessa consci\u00eancia, nessa chama, a mente ser\u00e1 capaz, sem esfor\u00e7o, de se libertar destes obst\u00e1culos passados. N\u00e3o me perguntem, \u201cComo?\u201d Simplesmente tentem. As vossas mentes est\u00e3o sempre a pedir um m\u00e9todo, perguntando como fazer isto ou aquilo. Mas n\u00e3o h\u00e1 nenhum \u201ccomo\u201d. Experimentem, e descobrir\u00e3o.<\/p><p><b>Interrogante<\/b>: Uma vez que a entrada dos Harijans nos templos ajuda a acabar com uma das muitas formas de divis\u00e3o entre homem e homem que existem na \u00cdndia, apoia este movimento que est\u00e1 a ser zelosamente defendido atualmente neste pa\u00eds?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Ora por favor compreendam que eu n\u00e3o estou a atacar qualquer personalidade. N\u00e3o perguntem, \u201cEst\u00e1 a atacar Ghandiji?\u201d etc. N\u00e3o penso que o problema da diferen\u00e7a de classes na \u00cdndia ou em qualquer outro lugar seja resolvido por se permitir que os Harijans entrem nos templos. A diferen\u00e7a de classes s\u00f3 cessa quando j\u00e1 n\u00e3o houver mais templos, mais igrejas, quando n\u00e3o houver mesquitas e n\u00e3o houver sinagogas; porque a verdade, Deus, n\u00e3o est\u00e1 numa pedra, numa imagem esculpida; n\u00e3o est\u00e1 contida entre quatro paredes. Essa realidade n\u00e3o est\u00e1 em nenhum desses templos, nem reside em qualquer das\u00a0cerim\u00f4nias\u00a0efetuadas neles. Portanto porqu\u00ea incomodarem-se por causa de quem entra e quem n\u00e3o entra nestes templos?<\/p><p>Muitos de voc\u00eas sorriem e concordam, mas n\u00e3o sentem estas coisas. N\u00e3o sentem que a realidade est\u00e1 em todo o lado, em voc\u00eas, em todas as coisas. Para voc\u00eas, a realidade \u00e9 um s\u00edmbolo, seja ele Crist\u00e3o ou Budista, esteja ele associado a uma imagem ou a nenhuma imagem. Mas a realidade n\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo. A realidade n\u00e3o tem s\u00edmbolo. Ela \u00e9. N\u00e3o a podem esculpir numa imagem, limit\u00e1-la por uma pedra ou por uma cerim\u00f4nia ou por uma cren\u00e7a. Quando estas coisas j\u00e1 n\u00e3o existirem, as disc\u00f3rdias entre os homens cessar\u00e3o, bem como quando o nacionalismo \u2013 que tem sido cultivado atrav\u00e9s dos s\u00e9culos com objetivos de explora\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 n\u00e3o existir, n\u00e3o haver\u00e3o mais guerras. Os templos, com todas as suas supersti\u00e7\u00f5es, com os seus exploradores, os sacerdotes, foram criados por voc\u00eas. Os sacerdotes n\u00e3o podem existir sozinhos. O sacerd\u00f3cio pode existir como um meio de vida, mas isso em breve desaparecer\u00e1 quando as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mudarem, e os sacerdotes alterarem o seu of\u00edcio. A causa, a raiz de todas estas coisas, dos templos, do nacionalismo, da explora\u00e7\u00e3o, da possessividade, reside no vosso desejo de seguran\u00e7a, de conforto. A partir da vossa pr\u00f3pria aquisitividade, criam in\u00fameros exploradores, sejam eles capitalistas, sacerdotes, professores, ou gurus, e tornam-se explorados. Enquanto esta aquisitividade, esta auto-seguran\u00e7a existir, haver\u00e1 guerras, haver\u00e1 diferen\u00e7a de castas.<\/p><p>N\u00e3o se podem livrar do veneno apenas discutindo, falando, organizando. Quando voc\u00eas, como indiv\u00edduos, despertarem para o absurdo, para a falsidade, a hediondez de todas estas coisas, quando realmente sentirem dentro de voc\u00eas a grosseira crueldade de tudo isto, s\u00f3 ent\u00e3o criar\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es das quais n\u00e3o se tornem escravos. Mas se n\u00e3o despertarem, nascer\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es que os far\u00e3o seus escravos. \u00c9 isso o que est\u00e1 a acontecer em todo o mundo. Por amor de Deus, despertem para estas coisas, pelo menos aqueles de voc\u00eas que pensam! N\u00e3o inventem novas cerim\u00f4nias, n\u00e3o criem novos templos, novas ordens secretas. Eles s\u00e3o apenas outras formas de exclusividade. N\u00e3o pode haver compreens\u00e3o, sabedoria, enquanto existir este esp\u00edrito de exclusividade, enquanto estiverem voltados para o ganho, para a seguran\u00e7a. A sabedoria n\u00e3o est\u00e1 na propor\u00e7\u00e3o do progresso. A sabedoria \u00e9 espont\u00e2nea, natural; n\u00e3o pode resultar do progresso; existe na realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Portanto, muito embora todos voc\u00eas, Br\u00e2manes e n\u00e3o Br\u00e2manes, sejam autorizados a entrar em templos, isso n\u00e3o dissolver\u00e1 as diferen\u00e7as de classe. Porque voc\u00eas ir\u00e3o mais tarde que os Harijans; lavar-se-\u00e3o mais cuidadosamente ou menos cuidadosamente. Esse veneno da exclusividade, essa influ\u00eancia perniciosa nos vossos cora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foi extirpada, e ningu\u00e9m a vai extirpar por voc\u00eas. O comunismo e a revolu\u00e7\u00e3o podem chegar e acabar com todos os templos deste pa\u00eds, mas esse veneno continuar\u00e1 a existir, s\u00f3 que de uma forma diferente. N\u00e3o \u00e9 assim? N\u00e3o acenem as vossas cabe\u00e7as em sinal de concord\u00e2ncia, porque no momento seguinte estar\u00e3o a fazer precisamente o contr\u00e1rio do que estou a falar. N\u00e3o os estou a julgar.<\/p><p>S\u00f3 h\u00e1 uma maneira de atacar estes problemas, que \u00e9 fundamentalmente, n\u00e3o superficialmente, sintomaticamente. Se os abordarem fundamentalmente, tem que haver uma revolu\u00e7\u00e3o tremenda; o pai erguer-se-\u00e1 contra o filho, o irm\u00e3o contra o irm\u00e3o. Ser\u00e1 um tempo de luta, de estado de guerra, n\u00e3o de paz, porque h\u00e1 tanta corrup\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia. Mas todos voc\u00eas querem paz, querem tranquilidade a qualquer custo, com todo este veneno ulceroso nos vossos cora\u00e7\u00f5es e mentes. Digo-lhes que quando um homem procura a verdade ele \u00e9 contra todas estas crueldades, barreiras, explora\u00e7\u00f5es; ele n\u00e3o lhes oferece conforto; ele n\u00e3o lhes traz paz. Pelo contr\u00e1rio, ele luta porque v\u00ea as muitas falsas institui\u00e7\u00f5es, as situa\u00e7\u00f5es corruptas que existem. Eis porque digo que se est\u00e3o \u00e0 procura da verdade t\u00eam que estar sozinhos \u2013 pode ser contra a sociedade, contra a civiliza\u00e7\u00e3o. Mas infelizmente poucas pessoas est\u00e3o verdadeiramente a procurar. N\u00e3o estou a julg\u00e1-los. Estou a dizer que as vossas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es deveriam revelar-lhes que est\u00e3o a edificar mais que a destruir esses muros da diferen\u00e7a de classes; que est\u00e3o a salvaguardar mais que a demoli-los, a acalent\u00e1-los mais que a dilacer\u00e1-los, porque est\u00e3o continuamente \u00e0 procura de autoglorifica\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, conforto, de uma forma ou de outra.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: N\u00e3o se pode alcan\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o e a verdade, este cambiante e eterno movimento da vida, mesmo embora se perten\u00e7a a uma centena de sociedades? N\u00e3o se pode ter liberdade interior, deixando os elos exteriormente intactos?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: A realiza\u00e7\u00e3o da verdade nada tem a ver com qualquer sociedade. Por isso pode pertencer ou pode n\u00e3o pertencer. Mas se est\u00e1 a usar as sociedades, corpos sociais ou religiosos, como um meio de compreender a verdade, ficar\u00e1 com um amargo de boca.<\/p><p>\u201cN\u00e3o se pode ter liberdade interior, deixando os elos exteriormente intactos?\u201d Sim, mas ao longo desse caminho residem o engano, a\u00a0autoilus\u00e3o, a ast\u00facia e a hipocrisia, a menos que se seja extremamente inteligente e se esteja constantemente desperto. Podem dizer, \u201cEu efetuo todas estas\u00a0cerim\u00f4nias, perten\u00e7o a v\u00e1rias sociedades, porque n\u00e3o quero cortar a minha liga\u00e7\u00e3o com elas. Sigo gurus, que sei que \u00e9 absurdo, mas quero ter paz com a minha fam\u00edlia, viver harmoniosamente com o meu pr\u00f3ximo e n\u00e3o trazer disc\u00f3rdia a um mundo j\u00e1 confuso.\u201d Mas temos vivido em tais enganos durante tanto tempo, as nossas mentes tornaram-se t\u00e3o astuciosas, t\u00e3o subtilmente hip\u00f3critas, que agora n\u00e3o podemos descobrir ou compreender a verdade a menos que cortemos estes la\u00e7os. Embotamos de tal modo as nossas mentes e cora\u00e7\u00f5es que, a menos que cortemos os la\u00e7os que nos prendem e por esse motivo criemos um conflito, n\u00e3o podemos descobrir se estamos verdadeiramente livres ou n\u00e3o. Mas um homem de verdadeira compreens\u00e3o \u2013 e h\u00e1 muito poucos \u2013 descobrir\u00e1 por si mesmo. Ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 elos que ele deseje ou reter ou quebrar. A sociedade\u00a0despreza-lo-\u00e1, os seus amigos\u00a0o deixar\u00e3o, as suas rela\u00e7\u00f5es nada ter\u00e3o a ver com ele; todos os elementos negativos se afastar\u00e3o dele, ele n\u00e3o ter\u00e1 que se afastar deles. Mas esse rumo significa percep\u00e7\u00e3o s\u00e1bia; significa realiza\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o protela\u00e7\u00e3o. E o homem protelar\u00e1 enquanto a mente e o cora\u00e7\u00e3o estiverem aprisionados no medo.<\/p><p>02\/01\/1934.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Adyar\u00a0\u00a0 Esta manh\u00e3 quero explicar-lhes algo que requer um pensamento muito delicado; e espero que ou\u00e7am, ou antes, tentem compreender o que vou dizer, n\u00e3o com oposi\u00e7\u00e3o mas com cr\u00edtica inteligente. 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