{"id":2419,"date":"2022-12-18T21:22:29","date_gmt":"2022-12-18T21:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2419"},"modified":"2022-12-18T21:22:50","modified_gmt":"2022-12-18T21:22:50","slug":"willian-quinn","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2419","title":{"rendered":"Willian Quinn"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"2419\" class=\"elementor elementor-2419\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-49b088f5 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"49b088f5\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-2fc595f4\" data-id=\"2fc595f4\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-49b8cad2 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"49b8cad2\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Willian Quinn<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\">COFUNDADOR, INSTITUTO ESALEN, BIG SUR, CALIF\u00d3RNIA<\/p><p>\u00a0<\/p><p>WQ: Conheci Krishnaji em novembro de 1944. Eu tinha vinte e um anos. Cheguei em Arya Vihara com dois outros jovens e aguardamos por ele em um pequeno c\u00f4modo. Ele chegou ofegante, havendo corrido de sua casa, e quando abriu a porta e entrou, radiante e jovial com um sorriso brilhante, seus olhos vivos nos assimilando, tive uma resposta instant\u00e2nea e ing\u00eanua. Fui fisicamente varrido por uma m\u00fasica de violino de Prokovief, intensamente l\u00edrica e alegre.<\/p><p>Questionei-o quanto ao significado de consci\u00eancia, e ele disse: \u201cSe olharem dentro de suas mentes, ver\u00e3o que \u00e9 como milhares de borboletas rodopiando! Dificilmente \u00e9 poss\u00edvel rastrear uma \u00fanica ideia nessa complexidade. Um modo de trazer clareza \u00e0 mente \u00e9 escrevendo seus pensamentos e sentimentos imediatos em resposta aos eventos do dia e ent\u00e3o ponder\u00e1-los. Se enfatizar um problema em particular nessas anota\u00e7\u00f5es, gradualmente chegar\u00e1 a todos os outros.\u201d Krishnamurti sentia que grande parte de nossa confus\u00e3o se deveria a pensamentos repetitivos, e que eles seriam repetitivos por n\u00e3o serem completos. Ao pensar neles at\u00e9 o fim, eles n\u00e3o clamariam mais em nosso interior, e a mente seria mais livre e espa\u00e7osa, mais \u201cconsciente\u201d. Krishnamurti trabalhou muito por muitos anos para esclarecer sua pr\u00f3pria mente, e esse trabalho foi parte do plano de fundo que tornou poss\u00edvel que ele se tornasse professor. No final da d\u00e9cada de 1920 e in\u00edcio da de 1930, Krishnamurti tinha imensa consci\u00eancia do movimento em dire\u00e7\u00e3o a outra guerra. Este se tornou um tema central em suas palestras p\u00fablicas em todo o mundo.<\/p><p>EB: Voc\u00ea me contou que o impacto da Segunda Guerra Mundial sobre voc\u00ea foi substancial. Voc\u00ea era um objetor consciente?<\/p><p>WQ: A guerra come\u00e7ou em 1939, quando eu tinha dezesseis anos. Antes dessa \u00e9poca, eu estava me preparando para uma vida em torno das ci\u00eancias f\u00edsicas. Mas a partir do momento em que a guerra come\u00e7ou, vi com incredulidade como os cientistas estavam se prestando inconscientemente \u00e0 conflagra\u00e7\u00e3o geral da guerra.<\/p><p>Talvez fosse simplista, mas conclu\u00ed que se eu me tornasse cientista meus talentos seriam usados na guerra, o que eu achava inaceit\u00e1vel. Portanto, senti que deveria desistir da ci\u00eancia. Tamb\u00e9m conclu\u00ed que n\u00e3o eu poderia ser um soldado, e esperava ser mandado para a pris\u00e3o, uma vez que eu n\u00e3o tina motivo religioso para tomar esse posicionamento, conforme era requerido de um objetor consciente de acordo com as defini\u00e7\u00f5es do governo.<\/p><p>EB: Foi o idealismo juvenil que fez voc\u00ea sentir que a ci\u00eancia poderia curar os problemas do mundo?<\/p><p>WQ: Sem d\u00favidas. Mas tamb\u00e9m havia v\u00e1rios cientistas de renome mundial nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930 que eram imensamente idealistas quanto \u00e0 melhoria da vida atrav\u00e9s da ci\u00eancia e, quando menino, fui muito afetado pela vis\u00e3o nobre que tinham.<\/p><p>EB: Embora voc\u00ea estivesse disposto a ir para a pris\u00e3o, isso n\u00e3o aconteceu?<\/p><p>WQ: N\u00e3o. Eu tive sorte, e fiquei livre, como poucos jovens homens foram na \u00e9poca. Mas as perguntas surgiram do fato de a guerra e minha rela\u00e7\u00e3o com ela terem se tornado preocupa\u00e7\u00e3o total, e formaram o centro de minha consci\u00eancia. O que eu farei da minha vida? Como a ci\u00eancia poderia ser t\u00e3o c\u00famplice desse mal? Isso me levou a questionar a natureza do pr\u00f3prio conhecimento.<\/p><p>EB: Voc\u00ea foi a Krishnamurti nesse estado de esp\u00edrito? Voc\u00ea havia lido seus trabalhos e ent\u00e3o quis falar com ele pessoalmente.<\/p><p>WQ: Atrav\u00e9s de uma amizade com um f\u00edsico eminente, vim a ver com clareza, aos meus vinte anos, o car\u00e1ter experimental e provis\u00f3rio da formula\u00e7\u00e3o e teoria cient\u00edfica. Foi um enorme al\u00edvio para mim, mas minha consci\u00eancia da guerra continuou a queimar, assim como queimava em outras centenas de milhares pessoas.<\/p><p>No ver\u00e3o de 1944, trabalhei como vigilante de inc\u00eandio em uma torre nas Montanhas Bitterroot no norte de Idaho. Era uma selva na \u00e9poca, com vastas extens\u00f5es de floresta virgem. Imediatamente experimentei a medita\u00e7\u00e3o e, na primeira vez que a pratiquei, algo not\u00e1vel aconteceu. Sem sequer ter considerado tal possibilidade, minha mente parou espontaneamente e fui despertado para a gl\u00f3ria da vida.<\/p><p>Instantaneamente vi que esta nova dimens\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o era a \u201cresposta\u201d para a guerra, ent\u00e3o chegando a seu cl\u00edmax de modo feroz, e a resposta para \u201cO que eu farei da minha vida?\u201d Esse estado extraordin\u00e1rio perdurou por meses.<\/p><p>Quando a temporada de inc\u00eandios terminou, fui de carona para Los Angeles. No caminho, senti como se estivesse sendo carregado por alguma corrente do destino, em dire\u00e7\u00e3o a algo desconhecido. No dia de minha chegada, conheci por acaso outro jovem homem de minha idade que, em menos de uma hora, me falou de Krishnamurti. Eu imediatamente disse a mim mesmo, \u201cVou viver com esse homem!\u201d Falei com meu novo amigo sobre Krishnamurti por alguns dias e li algumas das palestras que ele havia dado na d\u00e9cada de 1930.\u00a0 Ent\u00e3o tudo pareceu se unir, um vislumbre da natureza unit\u00e1ria do medo e do desejo. Percorri a cidade em estado de rever\u00eancia por uma semana, at\u00f4nito e sem compreender. Logo depois, junto a um terceiro rapaz, visitamos Krishnamurti. Em nossas conversas, n\u00e3o enfatizei a guerra pois parec\u00edamos pensar sobre o assunto em linhas paralelas.<\/p><p>EB: O que teria acontecido se Hitler tivesse ganho a guerra? Se algu\u00e9m se depara com um mal implac\u00e1vel, qual \u00e9 a resposta correta?<\/p><p>WQ: Tenho certeza de que Krishnamurti estava ciente do qu\u00e3o monstruoso Hitler era, talvez de modo mais acentuado que o resto de n\u00f3s. A opini\u00e3o dele era que, se voc\u00ea resiste ao mal, voc\u00ea se torna mal. Ent\u00e3o o mal se agrava em um conflito cego sem fim, nada al\u00e9m de ru\u00edna e exaust\u00e3o. Antes da guerra, ele disse publicamente que ele mesmo era um pacifista, incondicionalmente. Mais tarde, ele apresentou desconfian\u00e7a perante esse termo e a \u201cn\u00e3o-viol\u00eancia\u201d como ideologia porque pensava que se a posi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m fosse meramente ideol\u00f3gica, e n\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, ela pouco significaria.<\/p><p>Em suas palestras em Ojai, em 1944 e 1945, enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda acontecia, o significado de Guerra era apresentado como tema central. Durante as palestras de 1945, algu\u00e9m perguntou, \u201c\u00c9 poss\u00edvel encontrar Deus em uma trincheira?\u201d Krishnamurti respondeu, \u201cUm homem a procura de Deus n\u00e3o estar\u00e1 em uma trincheira\u2026 Voc\u00eas e o soldado criaram uma cultura que os for\u00e7a a assassinar e ser assassinado, e em meio a essa crueldade voc\u00eas desejam encontrar amor.\u201d<\/p><p>A prop\u00f3sito, a sinceridade com que Krishnamurti falava contra a guerra na d\u00e9cada de 1940 era quase \u00fanica neste pa\u00eds ent\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o dos objetores conscientes jovens era muito dif\u00edcil, pois n\u00e3o \u00e9ramos apoiados por praticamente ningu\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o de nossos pais, e a press\u00e3o social era enorme.<\/p><p>EB: Ele sugeriu alguma solu\u00e7\u00e3o para os conflitos que encontraram express\u00e3o na guerra?<\/p><p>WQ: Bem, em 1945 as pessoas j\u00e1 estavam preocupadas com uma Terceira Guerra Mundial. Ele dizia na \u00e9poca que cada um de n\u00f3s, individualmente, era respons\u00e1vel pelo massacre em massa da guerra vigente, que est\u00e1vamos todos nela, como se uma fam\u00edlia, todos parte de uma corrente, nossas individualidades como pequenos redemoinhos. A \u00fanica \u201cresposta\u201d era que cada um de n\u00f3s reconhecesse sua pr\u00f3pria responsabilidade e permitisse que sua pr\u00f3pria vida fosse transformada.<\/p><p>Penso que ele tinha uma compreens\u00e3o sofisticada das estruturas pol\u00edticas do mundo. No in\u00edcio, ele e seu irm\u00e3o Nityananda conversaram intensamente sobre essas coisas. As circunst\u00e2ncias de Krishnamurti o colocaram em estreito contato com socialistas importantes, assim como com a aristocracia e as pessoas nos c\u00edrculos internos do poder em todo o mundo.<\/p><p>Na d\u00e9cada de 1920, K e muitas outras pessoas criativas sentiam que ainda havia esperan\u00e7a para a humanidade, e que talvez n\u00f3s houv\u00e9ssemos aprendido algo com a Primeira Guerra Mundial. Escrevendo e palestrando naqueles anos, K tinha um tipo de otimismo l\u00edrico que parece ing\u00eanuo hoje em dia aos olhos dos desiludidos.<\/p><p>EB: Suas conversas pessoais com Krishnamurti na d\u00e9cada de 1940 abordavam problemas individuais ao inv\u00e9s da cena social ou da guerra?<\/p><p>WQ: Acho que eu estava tentando chegar ao cerne de seu pensamento, especialmente a natureza da consci\u00eancia. Essa era sua palavra-chave naquela \u00e9poca. Ele falava muito pouco sobre medita\u00e7\u00e3o em p\u00fablico ent\u00e3o, por\u00e9m, ao inv\u00e9s, falava de consci\u00eancia sem escolha, consci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia meditativa como um estado constante de ser.<\/p><p>EB: Ele aparentemente abandonou a palavra \u201cconsci\u00eancia\u201d mais tarde porque sentiu que estava sendo usada em excesso.<\/p><p>WQ: Ele usava a palavra constantemente e todos que se interessavam por seus ensinamentos a usavam t\u00e3o incessantemente que a queimaram completamente. Ent\u00e3o ele abandonou a palavra e tentou chegar \u00e0 sua subst\u00e2ncia de outras maneiras.<\/p><p>Mas eu gosto da palavra hoje em dia. \u00c9 sin\u00f4nima de \u201cacordado\u201d e sugere uma capacidade primordial e inerente, como a vis\u00e3o, mas compreendendo todos os sentidos e emanando de algo al\u00e9m dos sentidos.<\/p><p>No entanto, ele \u201cmeditava\u201d pessoalmente. Isto \u00e9, ele reservava tempo e lugar e, conforme o meu entendimento, ent\u00e3o sentava-se receptivo e dispon\u00edvel caso algo acontecesse, mas n\u00e3o em um estado de expectativa.<\/p><p>EB: Como voc\u00ea sabe, em seus \u00faltimos anos ele zombou da ideia de meditar em hor\u00e1rios pr\u00e9-estipulados, e disse que era poss\u00edvel meditar em um \u00f4nibus.<\/p><p>WQ: Eu o questionei atentamente sobre o que ele queria dizer com medita\u00e7\u00e3o. Tinha a mesma intensidade sempre? Ele disse, \u201cAh, n\u00e3o! Para mim \u00e9 como um riacho, no qual existem po\u00e7os profundos. Agora, nos \u00faltimos tr\u00eas dias, n\u00e3o consegui meditar devido a um forte resfriado, mas essa manh\u00e3 eu me senti melhor, e a medita\u00e7\u00e3o se tornou extremamente intensa.\u201d Ele transmitiu isso por gestos sugerindo uma imensa expans\u00e3o. \u201cMas,\u201d ele disse, \u201cDeixei-a ir s\u00f3 at\u00e9 certo ponto com receio de que queimasse o organismo.\u201d Ele continuou dizendo que a medita\u00e7\u00e3o chegaria a ele inesperadamente em momentos estranhos, durante uma caminhada, por exemplo, e que esse era o melhor tipo de medita\u00e7\u00e3o.<\/p><p>EB: Quando Krihsnamurti disse que deixou a medita\u00e7\u00e3o ir apenas at\u00e9 certo ponto, ele quis dizer que seria muito intenso para o organismo?<\/p><p>WQ: Talvez, fazendo uma analogia, possamos dizer que seja como sair do sol. N\u00e3o controlamos o calor e a luz solar, mas podemos controlar o quanto nos expomos a eles.<\/p><p>EB: Ele falou o que era necess\u00e1rio para esse tipo de medita\u00e7\u00e3o? Era necess\u00e1ria uma limpeza ou purifica\u00e7\u00e3o? Ou era um dom?<\/p><p>WQ: Ele sentia que a \u201cpureza\u201d era muito importante e tocou nesse ponto muitas vezes ao longo dos anos que o conheci. Ele tamb\u00e9m sentia que a anota\u00e7\u00e3o sugerida por ele tornaria a medita\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p><p>EB: O que ele queria dizer por \u201cpureza\u201d?<\/p><p>WQ: Ele me disse uma vez, \u201cVoc\u00ea deve ser simples, como um pingo de chuva.\u201d Penso que pureza queria dizer percep\u00e7\u00e3o absolutamente clara, n\u00e3o contaminada por imagens e proje\u00e7\u00f5es.<\/p><p>EB: Voc\u00ea diria que Krishnamurti era um m\u00edstico?<\/p><p>WQ: Acredito que sim, apesar de ele ter evitado essa palavra. A palavra em grego implica o \u201coculto\u201d e na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 antiga significava especificamente oculto da imagem e do conceito \u00e0 mente. Em outras palavras, percep\u00e7\u00e3o direta. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz tinha uma met\u00e1fora maravilhosa para isso: \u201cSe estou com a m\u00e3o na frente dos olhos, n\u00e3o posso ver o sol. Se tenho uma imagem de Deus, eu n\u00e3o posso ver Deus.\u201d<\/p><p>EB: Voc\u00ea pode falar sobre como era estar na presen\u00e7a de Krishnamurti?<\/p><p>WQ: Em nossas conversas e ao trabalharmos juntos, seja no jardim ou cuidando das abelhas, nunca senti nem um pouco de manipula\u00e7\u00e3o ou press\u00e3o para que eu fosse outro al\u00e9m de mim mesmo. Eu teria sido sens\u00edvel a qualquer motivo oculto, mas ele era extremamente claro. Isso permitia intimidade e conversa profunda e delicada, como a m\u00fasica de um violoncelo.<\/p><p>Ele nunca \u201cfalou de neg\u00f3cios\u201d, a n\u00e3o ser em momentos separados para discuss\u00e3o cuidadosa. Na vida cotidiana, ele nunca foi o homem que presidia as palestras. A persona p\u00fablica estava totalmente ausente. Era claramente como se a mente que conhecemos atrav\u00e9s de seus escritos fosse colocada de lado completamente, como uma ferramenta quando n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p><p>Em nossa vida cotidiana comum, ele falava em termos simples, como se a abstra\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise fossem desconhecidas para ele. Na maioria das vezes ele me fazia pensar em uma crian\u00e7a extremamente alerta e cort\u00eas, geralmente silenciosa, mas totalmente presente. Ele era completamente modesto e abnegado. Como ele nunca enfatizava a si mesmo, pod\u00edamos nos relacionar com ele da maneira mais simples, completamente inconscientes.<\/p><p>EB: Voc\u00ea diria que Krishnamurti era inocente?<\/p><p>WQ: Acho que sim! Tamb\u00e9m ing\u00eanuo e inocente, de muitas maneiras, e suscet\u00edvel a manipula\u00e7\u00e3o por seus amigos. Ele tinha uma caracter\u00edstica muito pueril. Mas havia limites, e ele era irredut\u00edvel em quest\u00f5es fundamentais. O que eu acho que era central era que ele questionava e rejeitava seu papel de professor do mundo. No fim da d\u00e9cada de 1920 ele negou radicalmente a necessidade de uma autoridade espiritual e disse ser a verdade uma terra sem caminho.<\/p><p>Poder\u00edamos dizer que a ideia de que ele deveria ser o professor do mundo era uma manipula\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria. Em sua juventude, ele foi alimentado a for\u00e7a com doutrina teos\u00f3fica, como s\u00e3o criados os gansos que geram pat\u00ea de\u00a0<em>foie gras<\/em>. O milagre \u00e9 que ele se libertou disso e paradoxalmente se tornou o professor do mundo.<\/p><p>EB: Krishnamurti deu ind\u00edcios de que quest\u00f5es sobre amor pessoal eram preocupantes para ele?<\/p><p>WQ: Ele me contou que havia descoberto tr\u00eas grandes problemas quando jovem, ponderando sobre eles por muitos anos. Um deles era a quest\u00e3o do sexo. O ascetismo era o caminho correto? Ou dever\u00edamos usar o sexo, uma vez que era aparentemente natural e dado a n\u00f3s?<\/p><p>EB: Se algu\u00e9m pensar que pureza significa castidade, ser\u00e1 dif\u00edcil para essa pessoa ter uma rela\u00e7\u00e3o natural com o sexo oposto.<\/p><p>WQ: Perguntei a ele especificamente sobre isso, e ele disse que n\u00e3o havia uma resposta de car\u00e1ter geral para essa pergunta. Ele falou sobre isso com ternura. Disse que era uma quest\u00e3o que todos deveriam resolver por si mesmos, e que n\u00e3o dever\u00edamos dizer que devemos ser castos ou que o amor e a sexualidade pessoais seriam hostis \u00e0 vida espiritual.<\/p><p>Quanto \u00e0 amizade, acho que ele sentia que a experi\u00eancia de um amor pessoal comum era a pr\u00f3pria chama, e talvez a \u00fanica chama, que poderia nos despertar, embora a envolvamos com possessividade e assim por diante. Afinal, certamente foi a morte de seu irm\u00e3o que o despertou. Depois desse acontecimento, todos perceberam o novo homem.<\/p><p>Ao longo de sua vida, ele teve um consider\u00e1vel n\u00famero de amizades intimas e de longa dura\u00e7\u00e3o, entre elas muitas mulheres.<\/p><p>EB: Ele sentia que o amor pessoal podia levar algu\u00e9m para al\u00e9m de si mesmo. Isso era uma forma de liberta\u00e7\u00e3o?<\/p><p>WQ: Bem, sim, com qualifica\u00e7\u00f5es. Ele enfatizava extremamente a import\u00e2ncia da vida comum, que, \u00e9 claro, inclui nossas afei\u00e7\u00f5es particulares. Podemos obviamente nos prender no amor pessoal. Por\u00e9m, se compreendermos o ego\u00edsmo do amor, acho que ele deixou impl\u00edcito que podemos ir al\u00e9m, e ainda assim o amor permanecer. Mas esse amor n\u00e3o est\u00e1 ancorado em seu objeto, nem depende dele, mas sim liberta o objeto assim como a si mesmo. E isso n\u00e3o quer dizer que o objeto \u00e9 descartado. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 aprimorado.<\/p><p>EB: Havia um sentimento de que ele poderia ser afastado de sua miss\u00e3o espiritual uma vez que tinha amizades e afei\u00e7\u00f5es? \u00c9 parte da vis\u00e3o tradicional da abstin\u00eancia e da castidade sexual.<\/p><p>WQ: Ele disse uma vez, \u201ca liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 fora da manifesta\u00e7\u00e3o, mas sim na manifesta\u00e7\u00e3o.\u201d O que ele quis dizer, eu acho, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s da priva\u00e7\u00e3o na vida que poderemos encontrar o que ele chamou de liberta\u00e7\u00e3o. Desapego n\u00e3o significa dissocia\u00e7\u00e3o! \u00c9 o fim da separa\u00e7\u00e3o entre o eu e o voc\u00ea.<\/p><p>EB: Como voc\u00ea acha que ele definiu o termo \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p><p>WQ: Como liberdade da sujei\u00e7\u00e3o a um condicionamento estreito e dos conflitos que mutilam a maioria de n\u00f3s. Essencialmente, significa liberdade de n\u00f3s mesmos, n\u00e3o uma liberdade licenciosa de restri\u00e7\u00f5es sociais.<\/p><p>EB: Durante aqueles anos de guerra, como era a vida cotidiana em Arya Vihara? Deve ter sido bem simples.<\/p><p>WQ: \u00c9ramos apenas n\u00f3s quatro: Krishnaji, Rosalind, sua filha Radha e eu em contato di\u00e1rio. O Sr. Rajagopal raramente aparecia. Devido aos racionamentos da guerra, viv\u00edamos quase completamente do que cri\u00e1vamos. T\u00ednhamos pomares, hortas, oitenta galinhas, uma vaca e abelhas. Krishnaji cuidava das galinhas e eu tirava leite da vaca. N\u00f3s dois trabalh\u00e1vamos no jardim e cuid\u00e1vamos das abelhas. Rosalind, sempre alegre e diligente, produzia queijo cottage e manteiga e assava um maravilhoso p\u00e3o integral. Ela cozinhava nossas refei\u00e7\u00f5es. Krishnaji e eu lav\u00e1vamos a lou\u00e7a e eu frequentemente sentia uma felicidade surpreendente com essas atividades humildes.<\/p><p>Na \u00e9poca, Ojai era uma vila e parecia remota do mundo. Receb\u00edamos poucos visitantes devido ao racionamento de combust\u00edveis, e o transporte p\u00fablico foi assumido pelos militares. Era extremamente dif\u00edcil chegar a Ojai, mesmo saindo de Los Angeles.<\/p><p>EB: Voc\u00ea acha que K se sentia preso em Ojai durante os anos de guerra e sua doen\u00e7a? Isso criou uma tens\u00e3o nele?<\/p><p>WQ: N\u00e3o sei quanto a isso, mas penso que aqueles anos possam ter sido de profunda vulnerabilidade para ele. Antes da guerra, ele era extremamente ativo, palestrando por todo o mundo e envolvido com muitas pessoas. Ent\u00e3o, na d\u00e9cada de 1940, por muitos anos, houve um sil\u00eancio e uma solid\u00e3o for\u00e7ados, e ele vivia em um lugar muito agrad\u00e1vel, associado a pessoas muito criativas. Foi l\u00e1, debaixo da \u00e1rvore de pimenta, que ele come\u00e7ou a se encontrar no in\u00edcio dos anos 1920. Aquele evento tamb\u00e9m havia sido poss\u00edvel porque pela primeira vez desde sua juventude ele estava sozinho e fora da turbul\u00eancia da vida p\u00fablica. Acho que esta \u00e9poca, nos anos 1940, foi uma de medita\u00e7\u00e3o quase cont\u00ednua e de \u201crecolhimento\u201d, uma palavra que ele gostava, e que dela emergiu a maravilhosa clareza de suas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas nos anos subsequentes.<\/p><p>EB: Voc\u00ea acha que a ida de Krishnamurti para a \u00cdndia foi um passo para sua liberta\u00e7\u00e3o, de certo modo?<\/p><p>WQ: Na verdade n\u00e3o, porque acho que o acontecimento fundamental se deu no fim da d\u00e9cada de 1920, ap\u00f3s a morte de seu irm\u00e3o. Mas o que ele chamou de \u201co processo\u201d aparentemente continuou ao longo de sua vida. E sem d\u00favida foi intensificado em resposta ao extraordin\u00e1rio desafio que era a \u00cdndia.<\/p><p>Penso que o processo \u00e9 aquela corrente de consci\u00eancia meditativa da qual ele me falou, na qual havia po\u00e7os profundos. E acho que essa corrente era sua vida, ou melhor, a vida que flu\u00eda atrav\u00e9s de seu organismo, contraindo-se e expandindo-se em seu pr\u00f3prio ritmo extraordin\u00e1rio. Ele n\u00e3o pensou como \u201csua\u201d vida, mas sim como vida.<\/p><p>O mundo havia mudado nos anos em que ele esteve afastado. A Europa estava em ru\u00ednas e as conex\u00f5es centradas em Ommen tomadas de forma irrepar\u00e1vel. Quando ele foi \u00e0 \u00cdndia, ele se afastou da esterilidade e da paralisia espiritual dos Estados Unidos, que persistiu por muito mais anos na era McCarthy e al\u00e9m. Os Estados Unidos n\u00e3o come\u00e7aram a despertar at\u00e9 que os jovens da gera\u00e7\u00e3o da Guerra da Cor\u00e9ia come\u00e7aram a se dissociar dos padr\u00f5es da d\u00e9cada de 1950, como se observa nos chamados Beatniks, precursores do movimento juvenil dos anos 1960.<\/p><p>Ele chegou \u00e0 \u00cdndia no final de 1947, em um momento extraordin\u00e1rio, quando ele estava maduro interiormente, no pleno florescimento de sua maturidade. Toda a \u00c1sia estava em agita\u00e7\u00e3o. A \u00cdndia havia se libertado da tirania brit\u00e2nica algumas semanas antes.<\/p><p>Imaginei que as pessoas inteligentes na \u00cdndia houvessem sido despertadas de formas que as pessoas nos Estados Unidos n\u00e3o poderiam ter sido. Despertas para perguntas profundas sobre a natureza da sociedade e o indiv\u00edduo na sociedade, sobre que forma de governo seria a certa para a \u00cdndia e assim por diante, com uma intensidade de decis\u00e3o de vida ou morte. A ida \u00e0 \u00cdndia significou a renova\u00e7\u00e3o de sua vida p\u00fablica e ele palestrou por todo o pa\u00eds. Ele imediatamente entrou em contato com um grupo not\u00e1vel de pessoas, algumas das quais haviam estado na linha de frente daqueles enormes acontecimentos. Um c\u00edrculo de amigos, incluindo Pupul Jayakar, Ahalya Chgari e muitos outros, iniciou os di\u00e1logos com ele que continuaram pelo resto de sua vida.<\/p><p>EB: Voc\u00ea acha que Krishnamurti era diferente fundamentalmente dos outros seres humanos, desde o nascimento?<\/p><p>WQ: Acho que n\u00e3o. E a\u00ed, para mim, reside sua principal beleza e significado. Aparentemente, ele foi uma crian\u00e7a excepcionalmente altru\u00edsta, mas ele chegou \u00e0 maturidade atrav\u00e9s de trabalho \u00e1rduo. Foi precisamente seu senso de parentesco com o resto de n\u00f3s que o levou a comunicar-se.<\/p><p>Pode-se dizer que houve uma mudan\u00e7a fundamental em sua maturidade, no sentido de que o egocentrismo foi esmagado e que ele ent\u00e3o passou a funcionar a partir de uma dimens\u00e3o diferente da vida. Mas toda sua mensagem foi que essa transforma\u00e7\u00e3o era para todos n\u00f3s.<\/p><p>Quanto a como essas energias espirituais deveriam se desdobrar sem n\u00f3s, gosto da imagem do Novo Testamento: O vento sopra onde quer. Voc\u00ea o escuta, mas n\u00e3o pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Esp\u00edrito. \u2013 Jo\u00e3o 3:8.<\/p><p>EB: Como Krishnamurti se sentia em rela\u00e7\u00e3o aos jovens e ao consumo de drogas na d\u00e9cada de 1960?<\/p><p>WO: Acho que a princ\u00edpio ele estava fascinado pelo movimento juvenil e os jovens que ele conheceu no movimento. Ele estava intrigado com sua abertura e afetividade, sua postura contr\u00e1ria a guerra e rejei\u00e7\u00e3o geral a autoridade e a cultura corporativa. Por\u00e9m, ele ficou horrorizado com o amplo consumo de drogas. Conversamos sobre isso diversas vezes. Chegou ao ponto de eu n\u00e3o poder mencionar os jovens sem que ele pensasse sobre drogas e come\u00e7asse a esbravejar. Eu mesmo havia sido um observador pr\u00f3ximo do desenvolvimento da cultura das drogas e n\u00f3s t\u00ednhamos percep\u00e7\u00f5es semelhantes. Sent\u00edamos que Aldous Huxley e Alan Watts, em particular, eram respons\u00e1veis primeiramente por essa praga. Assim como Pied Pipers, eles haviam usado do prest\u00edgio que possu\u00edam para converter jovens \u00e0 cren\u00e7a nesse atalho m\u00e1gico para alcan\u00e7ar a realidade religiosa. K sentia que uma mente religiosa deveria florescer de maneira humilde, inconsciente e org\u00e2nica, e que as drogas eram um atalho ilus\u00f3rio, esmagando atrav\u00e9s de estruturas psicof\u00edsicas complexas e delicadas. Ele dizia que o uso de drogas por ditos homens sagrados havia sido observado por s\u00e9culos na \u00cdndia e era sabido que era um total beco sem sa\u00edda.<\/p><p>Na d\u00e9cada de 1970 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, conheci muitos jovens de origem diferente que haviam vindo para as palestras de Ojai. Uma hist\u00f3ria t\u00edpica era que um garoto de dezesseis anos ou algo assim encontraria um dos livros de Krishnamurti e imediatamente come\u00e7aria uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa em sua vida. Ent\u00e3o, anos depois, ele apareceria em Ojai. Esses jovens eram tipicamente modestos e atenciosos, e eu conheci tantos deles que at\u00e9 contei a Krishnamurti sobre eles, uma vez que era improv\u00e1vel que ele os conhecesse na \u00f3rbita em que se movia. Ele insistiu que eu desse a ele um tipo de aula sobre todo o contexto da cultura dos Estados Unidos da qual eles haviam emergido e quais eram suas perspectivas. Eu disse que nossa cultura n\u00e3o tinha espa\u00e7o com esses jovens e que eles teriam que encontrar seu pr\u00f3prio caminho. Ele ficou extraordinariamente animado, quase fora de si, enquanto eu falava. Ainda sinto que isso \u00e9 imensamente importante, porque n\u00e3o h\u00e1 como saber quantos jovens ao redor do mundo foram igualmente tocados por Krishnamurti.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Willian Quinn COFUNDADOR, INSTITUTO ESALEN, BIG SUR, CALIF\u00d3RNIA \u00a0 WQ: Conheci Krishnaji em novembro de 1944. Eu tinha vinte e um anos. Cheguei em Arya Vihara com dois outros jovens e aguardamos por ele em um pequeno c\u00f4modo. 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