{"id":2318,"date":"2022-12-18T21:05:45","date_gmt":"2022-12-18T21:05:45","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2318"},"modified":"2022-12-18T21:06:19","modified_gmt":"2022-12-18T21:06:19","slug":"mary-zimbalist","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2318","title":{"rendered":"Mary Zimbalist"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"2318\" class=\"elementor elementor-2318\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-6af28f4a elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"6af28f4a\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-68057f74\" data-id=\"68057f74\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-45d9e352 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"45d9e352\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mary Zimbalist<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\">ASSISTENTE PESSOAL DE KRISHNAMURTI<\/p><p>\u00a0<\/p><p>EB: Voc\u00ea se tornou uma pessoa bem pr\u00f3xima de Krishnamurti. Fazia v\u00e1rias coisas para ele. Voc\u00ea percebeu alguma diferen\u00e7a entre ele e os ensinamentos na \u00e9poca?<\/p><p>MZ: Absolutamente nenhuma. Uma das muitas coisas extraordin\u00e1rias sobre ele era que nunca havia nenhuma sombra em Krishnamurti. Ele era realmente o que voc\u00ea via, o que sentia, e infinitamente mais, mas nunca havia contradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se muitas pessoas perceberam isso, tenho certeza que voc\u00ea percebeu, mas ele tamb\u00e9m era muito humano. Ele amava rir, gostava de piadas engra\u00e7adas, ligava a televis\u00e3o e assistia filmes. Ele gostava de filmes de faroeste, como as pessoas j\u00e1 sabem, e as vezes, quando as imagens de viol\u00eancia me faziam evitar a tela e fechar meus olhos, ele dizia, \u201cVeja aquelas montanhas!\u201d, indicando o cen\u00e1rio da regi\u00e3o de Monument Valley. Enquanto as pessoas estavam sendo massacradas no primeiro plano, ele se perdia no cen\u00e1rio do deserto. Em algum momento ele deve ter me perguntado sobre filmes, e eu devo ter falado que n\u00e3o havia sangue de verdade nos filmes. Ent\u00e3o, quando eu me retraia ele me tranquilizava dizendo, \u201cEst\u00e1 tudo bem, \u00e9 s\u00f3 molho de tomate.\u201d Ele tinha essa caracter\u00edstica am\u00e1vel, quase infantil, e ainda assim existia esse extraordin\u00e1rio homem sem limites.<\/p><p>EB: Quais eram seus outros interesses? Ele se interessava por arte, literatura, pol\u00edtica, natureza?<\/p><p>MZ: Ele era profundamente sens\u00edvel \u00e0 beleza da linguagem. Al\u00e9m de seu j\u00e1 conhecido interesse por hist\u00f3rias de detetive \u2014 ele os chamava de suspense \u2014 e que ele lia para relaxar, ele lia principalmente poesia e costumava ler o Antigo Testamento, n\u00e3o por motivo religioso, mas pela l\u00edngua. Na arte, ele sempre falou sobre arquitetura fant\u00e1stica \u2014 a Acr\u00f3pole, as catedrais g\u00f3ticas, e ele achava quase sagrada a beleza da Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia e da grande est\u00e1tua de Maheshamurti nas grutas de Elefanta. Quanto \u00e0 pol\u00edtica, ele acompanhava os jornais, frequentemente pela televis\u00e3o, e tamb\u00e9m pelos peri\u00f3dicos semanais. Ele tamb\u00e9m costumava conversar com as pessoas, question\u00e1-las. Ele era bem informado, mais do que voc\u00ea pode imaginar.<\/p><p>EB: Voc\u00ea diria que ele se enquadrava em alguma vis\u00e3o espec\u00edfica, pensando em pol\u00edtica? Seria mais liberal ou conservador? Ele expressava vis\u00f5es do tipo?<\/p><p>MZ: Ele n\u00e3o tinha conhecimento amplo de pol\u00edtica, mas n\u00e3o tolerava a mesquinharia da divis\u00e3o de pessoas, luta entre pa\u00edses, grupos pol\u00edticos, cren\u00e7as separatistas. Ele se mostrava desdenhoso e impaciente diante de tais assuntos nas conversas, mas estava sempre questionando.<\/p><p>Ele gostava de ouvir m\u00fasica de manh\u00e3 durante o caf\u00e9 da manh\u00e3. Ap\u00f3s entregar sua bandeja, eu costumava perguntar o que ele gostaria de ouvir e quase sempre ele respondia, \u201cVoc\u00ea escolhe.\u201d Assim, eu tentava adivinhar o que ele apreciaria. Acima de tudo, ele amava Beethoven. Tamb\u00e9m apreciava Mozart, Bach, Haydn, e as vezes adquiria gosto por um artista em particular.\u00a0 Acho que ele gostava de Richter, que eu colocava com frequ\u00eancia.<\/p><p>EB: Sviatoslav?<\/p><p>MZ: Sim, e o grande pianista italiano, Michelangeli. Uma vez perguntei qual dos dois ele preferia. Ele pensou por um momento e disse, \u201cUm \u00e9 como a neve e o outro \u00e9 como a luz do sol.\u201d<\/p><p>EB: A maioria das pessoas tem uma tend\u00eancia a ver Krishnamurti como algu\u00e9m mais, n\u00e3o diria intelectual, mas o fato que ele gostava de Beethoven mostra um lado certamente mais rom\u00e2ntico.<\/p><p>MZ: Beethoven era seu favorito, mas o que o tocava profundamente era o c\u00e2ntico \u2014 os c\u00e2nticos s\u00e2nscritos aos quais ele se juntava de maneira maravilhosa, e tamb\u00e9m o canto gregoriano.<\/p><p>EB: Sabe-se tamb\u00e9m que ele tinha uma afinidade especial com a natureza, que ia al\u00e9m de nossas preocupa\u00e7\u00f5es ambientais, uma conex\u00e3o verdadeiramente profunda com a natureza.<\/p><p>MZ: Ele respondia mais \u00e0 natureza do que \u00e0 arte visual. Ele sentia que observar uma \u00e1rvore ou uma montanha tocava mais do que uma pintura de Leonardo da Vinci. Ele n\u00e3o a descartava, mas dizia que a beleza da natureza, de uma \u00e1rvore, vai al\u00e9m de qualquer cria\u00e7\u00e3o humana.<\/p><p>EB: O que coloca os artistas em seu lugar, n\u00e3o \u00e9? Uma experi\u00eancia corretiva. Tamb\u00e9m se sabe que ele tinha uma aptid\u00e3o mec\u00e2nica que diverge um pouco dos outros aspectos de sua vida.<\/p><p>MZ: Ele costumava dizer que uma vez, quando era bem jovem, havia desmontado um carro e depois o montado novamente. Ele tinha muito cuidado com seu rel\u00f3gio, verificava-o cuidadosamente em Genebra para garantir que ele estivesse sempre correto.<\/p><p>Ele gostava disso. Uma vez o perguntei o que ele faria na \u00cdndia se ele n\u00e3o fosse o que era. Como ele ganharia a vida? Ele disse, \u201cAh, mendigaria.\u201d<\/p><p>EB: \u00c9 bem interessante imaginar o que teria acontecido a Krishnamurti caso ele n\u00e3o tivesse tido uma educa\u00e7\u00e3o inglesa. Ele poderia ter acabado \u201cmendigando\u201d na \u00cdndia.<\/p><p>MZ: Ele disse que provavelmente teria morrido devido a sa\u00fade ruim que apresentava quando era crian\u00e7a. Seu irm\u00e3o teve tuberculose, como sabemos, e Krishnamurti tinha feridas em seus pulm\u00f5es. A dele provavelmente foi sem complica\u00e7\u00f5es, ele perdeu sua sa\u00fade e, com muita aten\u00e7\u00e3o, por pouco sobreviveu.<\/p><p>EB: Agora uma outra pergunta quanto a seus interesses. Krishnamuti n\u00e3o era um bom aluno quando era jovem. Como isso se traduziu em seu interesse pela educa\u00e7\u00e3o para crian\u00e7as e para adultos, resultando na funda\u00e7\u00e3o de escolas e centros de ensino?<\/p><p>MZ: Como voc\u00ea sabe, uma parte central de seus ensinamentos \u00e9 o papel do conhecimento \u2014 tanto o lado bom do conhecimento quanto suas limita\u00e7\u00f5es. Precisamos de conhecimento at\u00e9 para falar, mas a mente n\u00e3o pode ser confinada pelo conhecimento, ela precisa ter a capacidade de ir al\u00e9m. Ele estava sempre explicando a limita\u00e7\u00e3o do pensamento, que \u00e9 t\u00e3o fundamental para seus ensinamentos. Ele costumava sentir que ajudar pessoas jovens que s\u00e3o mais flex\u00edveis, menos condicionadas, tendo como objetivo que elas compreendessem o papel do conhecimento era muito importante. Recordo-me de um dos primeiros ver\u00f5es em Gstaad, no qual ele tinha o costume de almo\u00e7ar com alguns amigos que tinham uma foto dele ainda crian\u00e7a com seu irm\u00e3ozinho, Nitya. Ele olhou fixamente para ela por bastante tempo, como se fosse de outra pessoa, e disse que n\u00e3o se lembrava dela de modo algum. Por\u00e9m, quando o perguntei o que passava na mente dele enquanto ele a observava, ele disse, \u201cSe n\u00f3s pud\u00e9ssemos entender o porqu\u00ea de aquele garoto n\u00e3o estar condicionado, o porqu\u00ea de ele n\u00e3o ter sido afetado apesar de toda adula\u00e7\u00e3o e alvoro\u00e7o ao seu redor, talvez pud\u00e9ssemos ajudar outras crian\u00e7as a serem menos condicionadas.\u201d Eu acho que esse foi o motivo pelo qual ele quis desenvolver um tipo de educa\u00e7\u00e3o diferente, no qual existe um entendimento da fun\u00e7\u00e3o do pensamento e tamb\u00e9m do potencial do c\u00e9rebro n\u00e3o apenas para espelhar o que ele havia aprendido ou o que ele j\u00e1 havia vivenciado. Esse, eu acho, foi o motivo por tr\u00e1s da cria\u00e7\u00e3o das escolas. Ap\u00f3s iniciar a escola Brockwood Park, na Inglaterra, ele pensou em come\u00e7ar com crian\u00e7as mais novas na escola Oak Grove, em Ojai, para ver se elas se apresentariam menos condicionadas. Receio que tenham percebido, eventualmente, que as crian\u00e7as s\u00e3o condicionadas praticamente desde o ber\u00e7o, que foi o que ele estava tentando entender \u2014 se seria poss\u00edvel libertar as crian\u00e7as do controle do condicionamento.<\/p><p>EB: Voc\u00ea acha que ele sentiu em algum momento que as escolas eram um sucesso? Elas ajudaram as crian\u00e7as?<\/p><p>MZ: Acho que o que ele queria com tudo isso era algo ilimitado, assim ele nunca diria, \u201cIsso est\u00e1 bom.\u201d Ele apontaria o que estava errado e abordaria como torn\u00e1-lo correto. A aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o era fornecida assim, mas isso n\u00e3o quer dizer que ele estava sendo rabugento. Ele via uma insufici\u00eancia ou onde havia necessidade de mudan\u00e7a e tentava abrir aquela porta, mas nunca dizia, \u201cFoi um bom trabalho.\u201d Acho que ele nunca pensou assim. Eu acho que a excel\u00eancia, que n\u00e3o era definida, era a qualidade que ele buscava.<\/p><p>EB: Ele se desapontava quando as coisas n\u00e3o saiam conforme as expectativas?<\/p><p>MZ: Ah, ele as apontava em termos inequ\u00edvocos. Quando as coisas davam errado ele realmente punia as pessoas, n\u00e3o de forma pessoal, ou que machucasse, mas dizendo, \u201cVeja o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo.\u201d<\/p><p>EB: A linguagem de Krishnamurti mudou consideravelmente ao longo dos anos. Ele parecia falar cada vez com mais clareza, tecendo as palavras.<\/p><p>MZ: Sim, ele era preciso na escolha das palavras. Com frequ\u00eancia, ele me pedia para verificar o significado de palavras no dicion\u00e1rio antes das palestras, na maioria das vezes pela deriva\u00e7\u00e3o da palavra. Ele n\u00e3o preparava as palestras da mesma forma que a maioria das pessoas, mas frequentemente tinha algum direcionamento em mente.<\/p><p>EB: Ele n\u00e3o fazia anota\u00e7\u00f5es?<\/p><p>MZ: Na minha \u00e9poca, nunca. Na verdade, ele disse muitas vezes no carro a caminho das palestras, \u201cSobre o que eu vou falar?\u201d Eu nunca respondi, mas quase invariavelmente uma grande e extraordin\u00e1ria palestra acontecia.<\/p><p>EB: Como voc\u00ea pesou isso na balan\u00e7a de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia inicial de ouvi-lo falar e ser tomada pelas palavras que saiam diante de algu\u00e9m que perguntava, \u201cSobre o que devo falar?\u201d<\/p><p>MZ: Acontecia. Ele n\u00e3o gostava de escutar suas pr\u00f3prias fitas. Quando terminava, estava acabado. Ele queria partir do zero e, quando ele come\u00e7ava a tomar perguntas por escrito, ele n\u00e3o queria v\u00ea-las antes da hora. As pessoas as deixavam em caixas e ele me fazia colet\u00e1-las, e ent\u00e3o eu as separava por tema. Quest\u00f5es sobre medo \u2014 sempre as mais numerosas \u2014 e nacionalismo, ci\u00fame, gan\u00e2ncia, gurus, todos esses t\u00f3picos distintos, eu as escrevia no papel que ele levava. Ele n\u00e3o planejava o que ia dizer, mas ele escolhia uma pergunta, lia-a para o p\u00fablico, explorava-a como se estivesse olhando atrav\u00e9s de um microsc\u00f3pio celestial, e essa reflex\u00e3o fant\u00e1stica surgia em sua linguagem.<\/p><p>EB: Durante seus trajetos para as palestras, ele chegou a resistir dizendo, \u201cEstou t\u00e3o cansado\u201d ou \u201cEu realmente n\u00e3o quero fazer isso hoje?\u201d<\/p><p>MZ: N\u00e3o. Palestrar era seu trabalho, sua responsabilidade, e mesmo quando estava doente ele a cumpria se fosse poss\u00edvel. N\u00e3o acho que muitas pessoas entendam o tanto que ele trabalhou duro. Por mais de setenta anos sua vida foi palestrar, escrever, receber as pessoas em particular, ter reuni\u00f5es com professores, alunos, pessoas muito eruditas, e viajar continuamente. Era trabalho constante e cansativo. Ele s\u00f3 parava quando se tornava fisicamente incapaz de faz\u00ea-lo. E mesmo assim houve ocasi\u00f5es nas quais ele estava seriamente doente, com febre h\u00e1 dois dias, mas no dia da palestra ele se apresentava surpreendentemente capaz de falar. Em tais dias ele estava sempre pronto e tudo saia de maneira exata. Ele acordava cedo, o carro chegava na porta de sua resid\u00eancia no hor\u00e1rio de sair. Quando eu dirigia, ao ouvi-lo chegando j\u00e1 ligava o motor, abria a porta e, em Saanen por exemplo, cheg\u00e1vamos \u00e0 tenda exatamente na hora de ele entrar e subir no palco para come\u00e7ar. Ele n\u00e3o queria parar ou, Deus nos livre, se atrasar!<\/p><p>EB: Mary, voc\u00ea ouviu dizerem que algum ser falava atrav\u00e9s de Krishnamurti. Isso particularmente prevalecia nos primeiros anos. Voc\u00ea chegou a sentir que havia alguma entidade falando atrav\u00e9s de Krishnamurti?<\/p><p>MZ: N\u00e3o, nunca tive essas no\u00e7\u00f5es. Para mim isso n\u00e3o faz sentido, pois Krishnamurti podia falar a qualquer momento da mesma forma que ele palestrava. Se uma conversa ficava mais s\u00e9ria durante o almo\u00e7o, ele falaria com a mesma profundidade e percep\u00e7\u00e3o. Nas entrevistas, particulares ou p\u00fablicas, ele falava dessa forma. Era o pr\u00f3prio homem, n\u00e3o algum esp\u00edrito falando atrav\u00e9s dele. Mas frequentemente durante as palestras era poss\u00edvel sentir nele uma tremenda energia, e parecia que ele falava atrav\u00e9s dessa energia e habilidade de ir no cora\u00e7\u00e3o das coisas. Pode ser especula\u00e7\u00e3o, mas era poss\u00edvel sentir isso intensamente. Eu senti isso. Partia de sua intelig\u00eancia, sua pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o.<\/p><p>FB: \u00c9 determinado que ele possu\u00eda uma conex\u00e3o com o que ele descrevia como \u201co outro\u201d, qual era a linha, se \u00e9 que existia alguma, entre o outro e sua fala ou, nesse caso, sua vida?<\/p><p>MZ: Ele nunca falou em uma linha, mas ele falava frequentemente de alteridade, o imensur\u00e1vel \u2014 todas as palavras maravilhosas que ele usou sobre isso \u2014 e isso que ele chamada de medita\u00e7\u00e3o vinha a ele geralmente a noite.<\/p><p>EB: Durante o sono dele e ent\u00e3o ele acordava?<\/p><p>MZ: N\u00e3o sei, porque ele falava pouco sobre o assunto, mas ele frequentemente dizia, \u201cTive uma medita\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria ontem \u00e0 noite\u201d, e as vezes, quando sozinha com ele ou durante uma caminhada \u2014 particularmente durante uma caminhada na qual ele gostava de ficar em silencio e observar a natureza \u2014 era percept\u00edvel que ele ficava bem distante. Algo estava presente ou acontecendo. As vezes era quase palp\u00e1vel.<\/p><p>EB: Voc\u00ea mesma tinha uma percep\u00e7\u00e3o de alteridade?<\/p><p>MZ: Eu sentia alguma for\u00e7a invis\u00edvel.<\/p><p>EB: \u00c9 como quando escutamos r\u00e1dio, somos capazes de sintonizar e ouvir um concerto, as not\u00edcias ou o que for. Aparentemente, K era capaz de sintonizar nessa energia que nos cerca.<\/p><p>MZ: De certo modo. Mais uma vez, pode ser apenas minha imagina\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 como se houvesse algo inomin\u00e1vel, mas que pode ser chamado de intelig\u00eancia, verdade ou beleza \u2014 qualquer uma dessas coisas \u2014 mas a maioria de n\u00f3s est\u00e1 cega e n\u00e3o consegue senti-la.<\/p><p>EB: Ele podia fazer isso deliberadamente?<\/p><p>MZ: Ele dizia que a medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser feita de maneira deliberada, ela tem que vir a voc\u00ea.<\/p><p>EB: Ele descreveu seu senso de medita\u00e7\u00e3o? \u00c9 claro que ele escreveu e falou sobre isso em suas palestras, mas ele falou com voc\u00ea sobre medita\u00e7\u00e3o?<\/p><p>MZ: Ele falou sobre estar em sil\u00eancio, estar em verdadeiro sil\u00eancio e n\u00e3o deixar os pensamentos tomarem conta de nossa mente. Nem permitir todo o trem de associa\u00e7\u00f5es que geralmente flui em nossas cabe\u00e7as, n\u00e3o o parar por vontade, mas n\u00e3o o perseguir. Ele passa e voc\u00ea o assiste e o deixa ir. Voc\u00ea aprende com ele. Assim, quando fal\u00e1vamos sobre essas coisas, frequentemente acontecia em silencio, ou apenas observando a mente, sem fazer nada a respeito, n\u00e3o a for\u00e7ando ou parando. Ele tinha muitas descri\u00e7\u00f5es de medita\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em quase todos os seus trabalhos. Uma essencial era a mente silenciosa. Ele conseguia alcan\u00e7ar esse sil\u00eancio. Uma vez esse estado meditativo veio a ele at\u00e9 mesmo durante um voo.<\/p><p>EB: Por\u00e9m, conforme descrito em seus trabalhos, nunca algo que ele deliberadamente tenha sentado em sil\u00eancio para fazer.<\/p><p>MZ: Ele disse n\u00e3o ser poss\u00edvel induzir isso. No fim, quando ele estava muito doente, ainda assim aquela coisa extraordin\u00e1ria continuou a vir at\u00e9 ele atrav\u00e9s de toda dor e sofrimento. Ele disse, \u201cAlgo mais controla o que acontecer\u00e1 comigo. Quando o corpo n\u00e3o mais conseguir fazer as coisas necess\u00e1rias para falar, a vida acabar\u00e1.\u201d E foi isso que aconteceu.<\/p><p>EB: Documentos que sugerem que h\u00e1 algo mais?<\/p><p>MZ: Algo mais. N\u00e3o que ele fosse apenas um instrumento disso, mas que a express\u00e3o daquele outro era sua tarefa, disso ele falou, e quando ele n\u00e3o pudesse mais falar fisicamente, sua vida chegaria ao fim.<\/p><p>EB: Ele sentia que a raz\u00e3o de sua vida era ser capaz de compartilhar esses ensinamentos?<\/p><p>MZ: Sim, isso foi sua vida. Uma vida pessoal existiu, mas a outra era a realidade.<\/p><p>EB: Seu \u00faltimo dia de vida deve ter sido bem avassalador para voc\u00ea.<\/p><p>MZ: Ele havia falado de sua morte por algum tempo j\u00e1. Ele sabia que estava morrendo, queria terminar seu trabalho, e o fez. Ele estava completamente racional, sua mente n\u00e3o foi afetada pela doen\u00e7a, pela dor ou pelos rem\u00e9dios. Conforme seu corpo enfraquecia, seu modo de falar se tornou extremamente doloroso de ouvir devido a fraqueza de sua voz, mas ele foi Krishnamurti at\u00e9 o fim no sentido mais amplo de tudo o que ele j\u00e1 foi.<\/p><p>EB: Voc\u00ea descreveu Krishnamurti como uma fonte jorrando seus ensinamentos, qual era a fonte? De onde isso vinha?<\/p><p>MZ: N\u00e3o sei dizer. O que quer que eu dissesse seria minha imagina\u00e7\u00e3o, e isso n\u00e3o tem valor. Posso tentar colocar em palavras, mas \u00e9 apenas especula\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se houvesse realidades abstratas \u2014 intelig\u00eancia, beleza, amor \u2014 qualidades das quais ele falava. Elas n\u00e3o s\u00e3o produto da mente humana. \u00c9 poss\u00edvel usar a palavra Deus tamb\u00e9m, desde que n\u00e3o seja um Deus imaginado \u00e0 sua imagem. Palavras diferentes podem ser usadas, mas elas s\u00e3o aspectos de uma for\u00e7a vital infinita. Acho que isso era realidade para Krishnamurti e, se voc\u00ea preferir, uma fonte.<\/p><p>EB: Foi sugerido que Krishnamurti possa representar um passo evolutivo na humanidade, um prot\u00f3tipo de algo novo. Isso \u00e9 uma possibilidade?<\/p><p>MZ: N\u00e3o sei quanto a um prot\u00f3tipo, mas para mim a sua vida era prova de que um ser humano \u00e9 capaz de ter percep\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia extraordin\u00e1rias e um modo de vida que \u00e9 muito diferente da maioria dos humanos. Era real nele, n\u00e3o era algo que eu havia imaginado. Sem d\u00favida alguns dir\u00e3o que eu estou projetando algum ideal nele. Mas para mim era indiscutivelmente evidente que esse homem era o que ele falava, e ele vivia daquela forma. Em todos os anos que passei com ele nunca vi nada que negasse isso ou que fosse inconsistente com uma vida vivida daquela maneira. N\u00e3o havia contradi\u00e7\u00f5es. Muitas, muitas vezes havia inegavelmente uma sensa\u00e7\u00e3o de algo que s\u00f3 posso chamar de sagrado.<\/p><p>EB: Mary, obviamente Krishnamurti impactou tremendamente sua vida. Como voc\u00ea descreveria isso?<\/p><p>MZ: N\u00e3o sei como caracterizar. N\u00e3o estou sendo trivial quando eu digo que n\u00e3o sei, porque tive a sorte de poder estar com ele da forma como eu estava. Se houve algo que zelou por ele em vida, pessoas que surgiram, suponho, foram instrumento disso. N\u00e3o quero dizer que tenha sido enviada por Deus para fazer algo para ele. Eu simplesmente estava l\u00e1, e o bem que isso fazia era esmagador para mim, mas n\u00e3o posso medir ou descrever. Fui privilegiada, aben\u00e7oada de forma inexplic\u00e1vel por poder estar pr\u00f3xima a ele e, em pequenos aspectos, ser \u00fatil no sentido humano, fazendo aquilo que precisava ser feito.<\/p><p>EB: Como voc\u00ea diria que Krishnamurti impactou o mundo?<\/p><p>MZ: Sinto que o impacto dele no mundo ainda est\u00e1 quase em um estado de semente. Sinto que talvez nos anos que est\u00e3o por vir, em cem anos, a hist\u00f3ria ir\u00e1 olhar para tr\u00e1s e ver isso como uma extraordin\u00e1ria \u00e9poca na qual Krishnamurti viveu na terra. Se observarmos a hist\u00f3ria da humanidade, quantas pessoas sabiam que o Buda vivia naquela \u00e9poca, ou por muitos s\u00e9culos posteriormente, mas o que foi dito e falado cresceu e adentrou a vida de milh\u00f5es e milh\u00f5es dois mil anos depois. Sinto que Krishnamurti est\u00e1 neste grupo e n\u00f3s devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para divulgar os ensinamentos dele, porque eles s\u00e3o e ser\u00e3o algo vasto para a humanidade.<\/p><p>Sinto que nossa responsabilidade agora \u00e9 manter um registro preciso do que ele disse e ensinou. Para aqueles de n\u00f3s que o conheciam, esta \u00e9 nossa responsabilidade mais essencial: preservar e proteger a autenticidade de seus ensinamentos de modo que eles perdurem por s\u00e9culos, como ele os ensinou, n\u00e3o interpretado por outros. No entanto, h\u00e1 uma outra responsabilidade ainda mais profunda para aqueles que o conheciam e o escutaram: refletir seus ensinamentos em nossas vidas, em nossos relacionamentos com os outros, para o que quer que a vida traga. \u00c9 viver a realidade, n\u00e3o apenas as palavras de seus ensinamentos.<\/p><p>\u00a0<\/p><p>\u00a0<\/p><p>\u00a0<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mary Zimbalist ASSISTENTE PESSOAL DE KRISHNAMURTI \u00a0 EB: Voc\u00ea se tornou uma pessoa bem pr\u00f3xima de Krishnamurti. Fazia v\u00e1rias coisas para ele. Voc\u00ea percebeu alguma diferen\u00e7a entre ele e os ensinamentos na \u00e9poca? MZ: Absolutamente nenhuma. Uma das muitas coisas extraordin\u00e1rias sobre ele era que nunca havia nenhuma sombra em Krishnamurti. Ele era realmente o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2318","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2318"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2325,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2318\/revisions\/2325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}