{"id":2283,"date":"2022-12-18T21:02:04","date_gmt":"2022-12-18T21:02:04","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2283"},"modified":"2022-12-18T21:02:30","modified_gmt":"2022-12-18T21:02:30","slug":"leena-sarabhai","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2283","title":{"rendered":"Leena Sarabhai"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"2283\" class=\"elementor elementor-2283\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-13c49abb elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"13c49abb\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-7fc41878\" data-id=\"7fc41878\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3e63945c elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3e63945c\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Leena Sarabhai<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\">P\u00c1GINAS DE UM DI\u00c1RIO (1933-34)<\/p><p>\u00a0<\/p><p>PREF\u00c1CIO<\/p><p>Em 1933, J. Krishnamurti veio pela primeira vez a Ahmedabad onde ficou em \u201cThe Retreat\u201d (O Retiro), em Shahibaug, em nossa casa, com meus pais Shri Ambalal Sarabhai e Snit Sarladevi Sarabhai e nossa fam\u00edlia de cinco irm\u00e3s e tr\u00eas irm\u00e3os. Extratos de meu di\u00e1rio entre 1933-34 foram reproduzidos neste livro. A maior parte do livro consiste de di\u00e1logos com J. Krishnamurti \u2013 Krishnaji como era chamado pelos que o conheciam. Estes foram originalmente registrados por mim tanto em gujarati como em ingl\u00eas e inclu\u00eddos nos esbo\u00e7os que fiz de pessoas eminentes, como o poeta Rabindranath Tagore, os artistas Abenindranath e Nandalal Bose, e o mestre Karunashankar Bhatt, que apareceram primeiramente em 1955, na publica\u00e7\u00e3o gujarati Vyakti Chitro.<\/p><p>O cap\u00edtulo sobre J. Krishnamurti da segunda edi\u00e7\u00e3o do Viakti Chitro foi publicado por Gurjar Granthratna Karyalaya, Ahmedabad, pelos esfor\u00e7os do Comit\u00ea de Publica\u00e7\u00e3o (gujarati e marathi) da Krishnamurti Foundation. O senhor B. D. Dave do Comit\u00ea sugeriu que eu publicasse este em ingl\u00eas, com o que concordei. A doutora Radhika Herzberger da KFI aceitou a proposta do senhor Dave. Como resultado, o senhor Dave conseguiu que fosse publicado por nosso amigo senhor I. M. Doctor. Expresso meus agradecimentos a estes queridos amigos por seus esfor\u00e7os e espero que o trabalho seja de interesse dos leitores.<\/p><p>Leena Sarabhai<\/p><p>Krishnaji chegou em 23\/1\/33. Ontem, isto \u00e9, 26\/1, perguntei a Krishnaji, \u201cComo voc\u00ea foi criado e educado?\u201d Nessa tarde, na hora do almo\u00e7o,\u00a0 ele come\u00e7ou a me contar sua hist\u00f3ria com muita seriedade e grandeza de cora\u00e7\u00e3o, sem me considerar jovem e insignificante. Como sempre, havia um sorriso em seu rosto. Enquanto convers\u00e1vamos, o resto do grupo podia ver apenas seus gestos. Isto criou tanto interesse que todos mostraram uma grande \u00e2nsia para ouvi-lo. Ele ent\u00e3o falou para todos n\u00f3s.<\/p><p>Eu n\u00e3o lembro de todas as palavras dele, mas aquelas que lembro, eu registrei. Enquanto ele falava, fomos levados \u00e0s l\u00e1grimas.<\/p><p>Krishnaji disse: \u201cDificilmente eu lembro de algo dos incidentes de minha inf\u00e2ncia ou juventude. O que quer que eu conte a voc\u00eas, \u00e9 o que\u00a0 ouvi de outros, como faz uma crian\u00e7a. Minha mem\u00f3ria \u00e9 muito ruim. Se voc\u00eas me perguntarem como era meu irm\u00e3o eu n\u00e3o seria capaz de dizer porque n\u00e3o lembro.<\/p><p>\u201cMeu pai teve treze filhos, imaginem! Meu pai era pobre. O que ele era?\u201d Ele ent\u00e3o tentou pensar e seus dois acompanhantes tiveram que relembr\u00e1-lo. \u201cOh! Ele era escrevente. Sabe, que coisa! De todos os filhos, apenas dois est\u00e3o vivos. Um terceiro est\u00e1 vivo mas n\u00e3o \u00e9 bom da cabe\u00e7a.\u201d (Mais tarde eu soube que este segundo irm\u00e3o, que \u00e9 mais velho que Krishnaji, \u00e9 m\u00e9dico em Madras).<\/p><p>\u201cMinha m\u00e3e morreu quando eu tinha cinco anos. Ela era extremamente ortodoxa. Eu fui seu oitavo filho. Nosso pai costumava nos bater. Ele recebia apenas cinco rupias de sal\u00e1rio. Viv\u00edamos em profunda pobreza, fome e sujeira, e \u00e9ramos miser\u00e1veis em todos os sentidos. Meu pai era teosofista, e algumas vezes \u00edamos a Adyar.<\/p><p>\u201cL\u00e1, a doutora Annie Besant nos viu \u2013 a mim e a meu irm\u00e3o, Nitya, que era um ano mais novo que eu. Nessa \u00e9poca eu tinha dez ou onze anos. Ela criou algumas esperan\u00e7as para n\u00f3s. Prometeu-nos belas roupas e boa comida se fic\u00e1ssemos com ela. \u00c9ramos crian\u00e7as, e o que mais pod\u00edamos querer? Recebemos com alegria sua sugest\u00e3o e a doutora Besant tomou-nos sob sua responsabilidade. Ela mandou-nos para o exterior. Nesta \u00e9poca a doutora Besant costumava nos ensinar e tamb\u00e9m arranjou tutores para n\u00f3s. Na maior parte do tempo ela nos lia Dickens, Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, The Jungle Book, etc. Durante muito tempo n\u00f3s mesmos n\u00e3o l\u00edamos e prefer\u00edamos que algu\u00e9m lesse para n\u00f3s. Na \u00e9poca e mesmo hoje, eu odeio Scott. Naqueles dias, nosso cabelo era longo e chegava aos ombros. Um jornal ingl\u00eas escreveu, \u2018a doutora Besant chegou com seus dois macacos negros\u2019.<\/p><p>\u201cNesse meio tempo, alguns advers\u00e1rios da doutora Besant instigaram meu pai contra ela e financiaram procedimentos legais contra n\u00f3s. Foi feita uma busca por n\u00f3s; por isso, vagueamos por toda Europa nos escondendo com Jinaradasa e o doutor Arundale. Durante este tempo n\u00e3o pod\u00edamos nos mostrar abertamente. Lemos muito, vimos muito. Vimos pinturas em museus. Investigamos quem \u00e9 quem. Fomos \u00e0 Sic\u00edlia. L\u00e1 um instrutor de golfe me disse, \u2018Se voc\u00ea\u00a0 aprender golfe em tr\u00eas meses, eu lhe darei mais dois.\u2019 Fiz o que ele disse e consegui. Na Inglaterra viv\u00edamos com aristocratas e ficamos em contato pr\u00f3ximo com eles. \u00c9ramos \u00edntimos da fam\u00edlia da irm\u00e3 de Lady Willingdon, Lady De La Warr. Cinco anos se passaram.<\/p><p>\u201cMeu pai levou o caso para o Privy Council mas a doutora Besant ganhou a causa e ficamos sob sua responsabilidade. Assim, pela primeira vez fomos mandados para uma escola. Embora estiv\u00e9ssemos levando uma vida rica e irregular, n\u00e3o encontramos dificuldade de nos estabelecer na escola em Kent; mas custou-nos cerca de uma semana para nos acostumarmos com os outros meninos comendo carne na mesma mesa. Eu detestava \u00e1lgebra e geometria, mas gostava de latim e franc\u00eas. Mas mais que tudo, eu gostava de ficar horas num canto sozinho. Costumava olhar para o c\u00e9u e pensar. Voc\u00ea sabe, eu era muito sonhador. Meu irm\u00e3o era inteligente. Se ele visse um livro uma vez, podia ter boas notas nele. Estudamos durante quatro anos naquela escola depois do que a doutora Besant decidiu que dev\u00edamos ir para o Balliol College, em Oxford. As autoridades disseram, \u2018Por Deus ou por esses meninos, n\u00e3o os tragam para c\u00e1. N\u00e3o queremos Deuses aqui. Eles ser\u00e3o atormentados at\u00e9 o fim.\u2019 Atrav\u00e9s de Lord Curzon, a doutora Besant tentou influenciar Lord\u2026; ele tentou pressionar as autoridades mas nada pode ser feito.<\/p><p>\u201cNesta \u00e9poca fui proclamado Mestre Universal. Em conseq\u00fc\u00eancia sofremos muito. Aqueles que n\u00e3o me aceitavam\u00a0 como Mestre nos ridicularizavam. Aqueles que acreditavam em mim faziam tal espalhafato que fic\u00e1vamos encabulados ao encontr\u00e1-los.<\/p><p>\u201cNo in\u00edcio, eu costumava brincar com os colegas de escola mas da\u00ed comecei a evitar a companhia deles; cuspir uns nos outros, caluniar. As crian\u00e7as inglesas t\u00eam cada brincadeira suja! Costumavam nos chamar de diabos negros, negrinhos, duendes mas n\u00f3s tamb\u00e9m os maltrat\u00e1vamos. Neste sentido, n\u00f3s sa\u00edamos bem uns com os outros.<\/p><p>\u201cNa escola, t\u00ednhamos que aprender alguma coisa mas aprend\u00edamos mais nas f\u00e9rias. Costum\u00e1vamos ficar com Lady De La Warr. Fomos para sua grande casa em Londres. L\u00e1, entre mordomos e criados, linhos e pratarias, vivemos prodigamente. Conhecemos pessoas dos c\u00edrculos pol\u00edticos e tivemos oportunidade de conhecer os l\u00edderes trabalhistas McDonald, Lansbury e outros, e ouvir suas discuss\u00f5es. Eu pertencia ao Partido Trabalhista. Eles perguntavam nossa opini\u00e3o mas n\u00e3o pod\u00edamos express\u00e1-la; contudo, quando eu e meu irm\u00e3o est\u00e1vamos sozinhos, os critic\u00e1vamos duramente, n\u00f3s os arras\u00e1vamos. Come\u00e7amos a participar das reuni\u00f5es trabalhistas e pedir votos para o partido deles. Encontramos membros da guarda e as pessoas mais elegantes. A maioria delas era aristocrata \u2013 pessoas de boa cria\u00e7\u00e3o \u2013 boas companhias, mas sem c\u00e9rebro.<\/p><p>Deste modo nossos dias na escola finalmente chegaram ao fim. Tivemos que fazer exames. Eu podia repetir muito bem todas as palavras que tinha aprendido com meu professor; mas quando fui para as provas fiquei confuso, muito nervoso, e deixei a prova em branco. Mas meu irm\u00e3o conseguia ir para Lincoln\u2019s Inn, ler um livro meia hora antes da prova e passar nos exames de direito com boas notas. Assim, tentei passar em tr\u00eas provas respectivamente \u2013 London Matric, Senior Cambridge e Responsions mas fracassei em todas. Desisti dos meus estudos. Meu irm\u00e3o queria muito ir para a faculdade; mas desistiu da id\u00e9ia por minha causa e n\u00f3s fomos ficar com Lady De La Warr.<\/p><p>\u201cA\u00ed\u00a0 come\u00e7amos a criticar e censurar todos abertamente. N\u00f3s n\u00e3o aliviamos nem com a senhora Besant. Discut\u00edamos com o senhor Arundale, tamb\u00e9m um advogado. Um senhor W\u2026 foi feito nosso guardi\u00e3o. Ele levava uma vida muito folgada; mas depois que se tornou nosso guardi\u00e3o, desistiu de tudo. Ele gostava muito de n\u00f3s. Sempre que est\u00e1vamos em dificuldades, ele nos dava dinheiro.<\/p><p>\u201cA guerra come\u00e7ou e em sua excita\u00e7\u00e3o nos alistamos na Cruz Vermelha. Viv\u00edamos com Lady De La Warr e, como faltavam criados e homens n\u00f3s, meninos e meninas, ordenh\u00e1vamos as vacas e as aliment\u00e1vamos.. L\u00e1 entramos em contato com a filha de Lord Curzon, Lady Cynthia Morley, e com algumas pessoas das\u00a0 rela\u00e7\u00f5es de Lord Lintton e Lady Emily.<\/p><p>\u201cA maioria de nossos conhecidos se irritava com nossos pontos\u00a0 de\u00a0 vista. Um dia Lady De La Warr nos disse, \u2018Se voc\u00eas querem falar essas coisas e sustentar tais opini\u00f5es, n\u00e3o podem ficar aqui\u2019. Assim, sa\u00edmos da casa. Foram feitos muitos esfor\u00e7os para que volt\u00e1ssemos mas escolhemos viver por conta pr\u00f3pria em Picadilly, em grande estilo.<\/p><p>\u201cGost\u00e1vamos muito de boas roupas. Rejeit\u00e1vamos uma roupa depois que a us\u00e1vamos duas vezes numa semana. Nossos alfaiates diziam que \u00e9ramos os homens mais bem vestidos de Londres. \u00c9ramos t\u00e3o exigentes com nossos sapatos que para dar a eles um brilho especial, costum\u00e1vamos poli-los com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os. T\u00ednhamos uma mesada de apenas setecentas libras; acab\u00e1vamos com ela. Pod\u00edamos pedir mais se quis\u00e9ssemos mas n\u00e3o gost\u00e1vamos de fazer isso. O jeito mais f\u00e1cil e melhor era reduzir nossa dieta. Todo nosso dinheiro era gasto em teatros e \u201cresorts\u201d da moda. Como n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para comida, trat\u00e1vamos de ser convidados para almo\u00e7os e jantares com nossos amigos.<\/p><p>\u201cDevido \u00e0 m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o meu irm\u00e3o desenvolveu tuberculose e come\u00e7ou a cuspir sangue. \u00c9ramos jovens e inexperientes e n\u00e3o sab\u00edamos o que significava a doen\u00e7a. Nosso m\u00e9dico nos avisou para sairmos da Inglaterra. A doutora Besant soube de algum modo de nossas dificuldades e mandou-nos imediatamente duas mil libras, mas n\u00f3s as devolvemos.<\/p><p>\u201cAssim, deixamos a Inglaterra e fomos para a Fran\u00e7a e ficamos com uma conhecida fam\u00edlia francesa. Nossa anfitri\u00e3 tratou de Nitya cuidadosamente. Ela mesma fazia tudo para ele, que ficou bem. Sua filha mais velha era cantora e a mais nova era dan\u00e7arina. Atrav\u00e9s delas conhecemos intelectuais e artistas. Logo pod\u00edamos discutir arte com qualquer pessoa.<\/p><p>\u201cLogo que Nitya sentiu-se um pouco melhor come\u00e7amos a\u00a0 aproveitar. \u00cdamos a corridas de cavalo. Um dia Nitya apostou trinta libras num cavalo que eu tinha visto num sonho e ganhamos duas mil libras. Com este dinheiro compramos um grande e veloz carro feito por encomenda, mas n\u00e3o pod\u00edamos us\u00e1-lo muito porque o combust\u00edvel era muito caro. Fomos para a Su\u00ed\u00e7a e consultamos m\u00e9dicos. Eles disseram que Nitya estava perfeitamente bem. Nos divertimos muito em barcos de corrida nos grandes lagos.<\/p><p>\u201cFinalmente, depois de doze anos, voltamos \u00e0 \u00cdndia. Uma amiga veio conosco. Gost\u00e1vamos muito dela. Ela morreu em Benares de diarr\u00e9ia, e esse foi nosso primeiro choque.<\/p><p>\u201cChegando \u00e0 \u00cdndia, Nitya come\u00e7ou\u00a0 a cuspir sangue novamente. Ele foi mandado para Ooty e pela primeira vez nos separamos. Depois de vir para a \u00cdndia, pela primeira vez comecei a me sentir miser\u00e1vel. Eu tinha que fazer parte de uma organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 pr\u00e9 determinada. N\u00e3o gostei disso. Acima e al\u00e9m disto, havia o aborrecimento por ter me separado de meu irm\u00e3o. Viajei com a senhora Besant na \u00cdndia e participei de suas reuni\u00f5es mas eu s\u00f3 ouvia, e falava raramente. N\u00e3o entendia muitas palavras, contudo costumava repetir o sentido do que ouvira de outro modo.<\/p><p>\u201cA sa\u00fade de meu irm\u00e3o piorou e nos causou muita ang\u00fastia. Um amigo falou, \u2018Por que voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o para a Calif\u00f3rnia?\u2019 Assim deixamos a \u00cdndia com Rama Rau. N\u00e3o est\u00e1vamos certos de que chegar\u00edamos \u00e0 Calif\u00f3rnia em seguran\u00e7a. Em cada porto eu tinha que vestir meu irm\u00e3o e ficar numa fila para o exame m\u00e9dico. Quando o m\u00e9dico chegava perto de n\u00f3s, eu me adiantava e atra\u00eda toda a aten\u00e7\u00e3o de modo que a doen\u00e7a de meu irm\u00e3o n\u00e3o fosse notada. Eu tinha que cuidar de meu irm\u00e3o, lav\u00e1-lo e fazer tudo que era necess\u00e1rio para um homem doente. E eu fiz. Nunca achei que fosse um peso nem um prazer.<\/p><p>\u201cTodo este tempo eu fiquei muito debilitado e meu irm\u00e3o era como um fiapo. Costum\u00e1vamos olhar um para o outro e s\u00f3 chorar. \u00c9ramos t\u00e3o miser\u00e1veis que n\u00e3o pod\u00edamos falar. Finalmente chegamos \u00e0 Calif\u00f3rnia. L\u00e1 ficamos numa pequena cabana de madeira, em Ojai, cerca de setenta milhas de Hollywood. Raramente v\u00edamos algu\u00e9m. L\u00e1 ruminamos nossas experi\u00eancias passadas, refletimos e ficamos mais maduros. Foi como a manteiga que sobe e flutua quando o soro \u00e9 batido. Voc\u00ea pode se perguntar por que n\u00e3o criamos v\u00edcios nesta vida de divertimentos. N\u00e3o posso dizer por que ficamos com avers\u00e3o ao vinho, fumo e qualquer coisa moralmente errada. Algumas pessoas costumavam nos provocar. Tentavam despejar vinho em nossas bocas \u00e0 for\u00e7a mas n\u00f3s odi\u00e1vamos. Meu irm\u00e3o era um perfeito intelectual. Ele me deu o lado intelectual e para ele eu dei o emocional e, assim, juntos n\u00f3s \u00e9ramos um ser perfeito. Ele se apaixonou mas desistiu pelo meu bem e uma vez eu tamb\u00e9m me apaixonei e desisti por ele. A outra raz\u00e3o foi que eu n\u00e3o quis ficar ligado em algo por toda vida. Nitya considerava-me como seu Mestre. Ele n\u00e3o me olhava como seu irm\u00e3o, ele me adorava e venerava. Por favor, n\u00e3o me entenda mal, como voc\u00ea quer saber todos os fatos, estou contando.<\/p><p>\u201cNessa ocasi\u00e3o me foi feita uma oferta para trabalhar no cinema por duzentos d\u00f3lares por semana. Mas eu n\u00e3o tinha desejo por dinheiro. O que eu faria com todo esse dinheiro? Ent\u00e3o recusei a oferta. Tornou-se uma pr\u00e1tica comum dos produtores oferecer-me esse trabalho sempre que estou na Am\u00e9rica.<\/p><p>\u201cComo fui declarado o Mestre Universal, muitas pessoas vinham ver-me. Eu ficava nervoso ao encontr\u00e1-las. Assim, pedia a meu irm\u00e3o que fosse v\u00ea-las e ele as despachava. Costum\u00e1vamos presidir acampamentos. Meu irm\u00e3o escrevia para mim e eu repetia suas palavras nas palestras.<\/p><p>\u201cNesta \u00e9poca fiquei pensando sobre o que eu ia fazer. Eu n\u00e3o tinha encontrado ainda um meio de express\u00e3o. Comecei a escrever poemas e artigos. Mas n\u00e3o eram satisfat\u00f3rios. O que quer que eu fizesse, queria fazer de primeira classe. Tentei pintar, esculpir, m\u00fasica, dan\u00e7a e muitas outras coisas. Eu havia come\u00e7ado dan\u00e7a de sal\u00e3o mas n\u00e3o gostei de ficar rodando e rodando com meus bra\u00e7os em volta da cintura de uma dama. Tentei at\u00e9 pol\u00edtica. Qualquer coisa que faz\u00edamos costum\u00e1vamos pensar, \u2018Fazendo isto, o que fizemos? O que conseguimos?\u2019 Est\u00e1vamos descontentes. Foi este descontentamento que nos levou adiante. Comecei a fazer experi\u00eancias sobre crescimento espiritual. Eu havia lido sobre a \u2018kundalini\u2019 e tentei desenvolver essa condi\u00e7\u00e3o e li a respeito num livro chamado The Serpent Power. Dormi no ch\u00e3o. Comecei a jejuar. No primeiro dia senti fome, no segundo foi insuport\u00e1vel mas no terceiro a fome sumiu e senti-me em paz. Mas isso me fez ficar muito fraco. Eu costumava desmaiar. Podia prolongar meu jejum por tr\u00eas semanas. Agora eu sei que\u00a0 n\u00e3o havia import\u00e2ncia nisso.. N\u00e3o me desenvolvi por isso. Nitya e eu fizemos todo o trabalho, cozinhar, varrer, etc, j\u00e1 que era muito caro ter criados na Am\u00e9rica. Um criado custava 100 d\u00f3lares.<\/p><p>\u201cEnquanto eu fazia essas experi\u00eancias, a doen\u00e7a de meu irm\u00e3o piorava. Um dia ele vomitou um copo cheio de sangue. Fiquei muito nervoso e mandei para o m\u00e9dico. Quando ele chegou eu estava tremendo da cabe\u00e7a aos p\u00e9s e disse, \u2018Meu irm\u00e3o tem uma hemorragia.\u2019 Ele disse, \u2018Oh! Eu achava que indianos n\u00e3o se importavam com a morte.\u2019 E ent\u00e3o fiquei pela primeira vez pensando em minha vida; eu disse \u2018Meu Deus\u2019 e refleti profundamente. Por muito tempo pensei em cometer suic\u00eddio. V\u00e1rias pessoas tentaram me consolar com hist\u00f3rias de reencarna\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o encontrei consolo.<\/p><p>\u201cQuando cheguei \u00e0 \u00cdndia, achei que tudo estava errado. Falei com a senhora Besant e expus meu ponto de vista claramente a ela. No come\u00e7o ela objetou; mas depois disse, \u2018Considero voc\u00ea meu Guru. Vou fazer como voc\u00ea quiser.\u2019 A Ordem da Estrela foi dissolvida.<\/p><p>\u201cComo resultado de minhas experi\u00eancias nos \u00faltimos seis ou sete anos para despertar a kundalini, ela desprendeu-se do chakra na base da coluna espinhal. Senti uma dor insuport\u00e1vel. Um dia em Viena desmaiei dezessete vezes.\u201d (Rama Rau nos disse depois que para despertar a kundalini, Krishnaji foi sozinho para um quarto cheio de almofadas. As pessoas do lado de fora ouviam ele gemer. Em Ooty, ele teve uma vis\u00e3o do Lord Maitreya.)<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o eu fui para a Am\u00e9rica. Em minha chegada, os rep\u00f3rteres me rodearam. Eles tinham entrevistado muitas pessoas famosas e tinham um jeito de fazer perguntas r\u00e1pidas e abruptas e de fazer a pessoa examinada ficar nervosa. Um rep\u00f3rter me perguntou, \u2018Voc\u00ea \u00e9 casado?\u2019 Eu disse, \u2018N\u00e3o\u2019. Ele disse, \u2018O que voc\u00ea faz ent\u00e3o?\u2019 Outro disse, \u2018Se voc\u00ea \u00e9 Cristo, por que n\u00e3o anda sobre as \u00e1guas?\u2019 Na Am\u00e9rica, muitas mulheres e herdeiras me diziam, \u2018Voc\u00ea n\u00e3o quer casar comigo?\u2019 Oh! Eu me sentia um tolo!<\/p><p>\u201cFui convidado para ir \u00e0 Rom\u00eania. Na minha chegada, nossos anfitri\u00f5es me deram um grande ma\u00e7o de cartas escritas com sangue. Naquelas cartas eu fui amea\u00e7ado. Disseram-me que se eu entrasse no pa\u00eds deles ou falasse, seria morto. Fiquei sob prote\u00e7\u00e3o policial e, quando eu me apresentava, a pol\u00edcia tinha que investigar as pessoas que vinham ouvir. Estas pessoas ficaram excitadas comigo porque lhes foi dito que minha m\u00e3e era hindu e meu pai era judeu.\u201d (Isto foi o que ouvimos depois: a comida de Krishnaji foi envenenada uma noite no hotel. Ele ficou muito receoso e caiu doente. Durante tr\u00eas ou quatro semanas ficou num sanat\u00f3rio. Da\u00ed em diante, sua digest\u00e3o ficou prejudicada e ele tinha que ser muito espec\u00edfico com sua alimenta\u00e7\u00e3o.)<\/p><p>\u201cQuando eu estava em Chicago, fui avisado para n\u00e3o sair sozinho pois temiam que eu fosse seq\u00fcestrado por gangsters. Agora vou aonde me chamam. Uma amiga me d\u00e1 duzentas libras por ano e isso \u00e9 mais do que suficiente para meus gastos pessoais. S\u00f3 gasto uma pequena parte disso, e o resto dou para caridade. Tenho muitas roupas que pertenceram a Nitya e a mim, elas s\u00e3o reformadas e eu as uso. Durante muito tempo n\u00e3o vou precisar de novas roupas.\u201d (Krishnaji tinha uma grande quantidade de roupas que pertenceram a ele e a Nitya \u2013 belas gravatas, len\u00e7os e camisas. Ele as deu para carregadores nos hot\u00e9is e esta\u00e7\u00f5es de trem e os ternos para amigos ou pessoas pobres. Agora ele tem um guarda-roupa limitado). \u201cSe sou convidado para palestras, as pessoas do local fornecem as passagens e cobrem outros gastos. Se n\u00e3o sou convidado, n\u00e3o me aborre\u00e7o porque fico feliz sozinho. Fui convidado para ir \u00e0 China e ao Jap\u00e3o algumas vezes mas eles n\u00e3o mandaram nenhum dinheiro e eu n\u00e3o pude ir. Sou sempre convidado para ir \u00e0 Europa, Austr\u00e1lia e \u00cdndia.<\/p><p>\u201cRecentemente eu quis ir \u00e0 Am\u00e9rica. Assim, fui ao C\u00f4nsul americano para obter o visto. Ele me disse, \u2018Voc\u00ea \u00e9 uma pessoa perigosa, n\u00e3o posso permitir que v\u00e1.\u2019 Eu disse, \u2018Vou consegui-lo com o Embaixador da Am\u00e9rica na Inglaterra.\u2019 \u2018Vou cuidar de tudo isso. Se eu disser n\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o ir\u00e1.\u2019 \u2018Se for assim, n\u00e3o ligo. Se uma pessoa n\u00e3o me quer em sua casa, n\u00e3o posso for\u00e7ar. Irei para outro lugar.\u2019 Ent\u00e3o ele disse, \u2018Vou deixar voc\u00ea ir.\u2019 Ele me deu o visto.\u201d<\/p><p>A\u00ed n\u00f3s perguntamos a Krishnaji, \u201cVoc\u00ea gosta da Europa, Am\u00e9rica ou \u00cdndia?\u201d<\/p><p>Ele disse: \u201cEu escolheria ficar na \u00cdndia. Nada tenho que me perten\u00e7a. Sou pobre. Como poderia ent\u00e3o viver na Am\u00e9rica ou em outro pa\u00eds? Voc\u00eas sabem o que significa pobreza nestes pa\u00edses? Frio, mis\u00e9ria, doen\u00e7a e tudo que se segue. L\u00e1, dinheiro \u00e9 tudo. As pessoas se preocupam com riquezas e se voc\u00ea n\u00e3o as tem, voc\u00ea \u00e9 exclu\u00eddo e afastado de tudo. Por isso eu gostaria de ficar na \u00cdndia. N\u00e3o acho que eu seja patriota mas que a \u00cdndia adora a pobreza. Para um sem teto, homem pobre como eu, seria f\u00e1cil viver aqui. Neste pa\u00eds, um homem que usa uma tanga, viaja na terceira classe, come pouco e n\u00e3o tem casa, \u00e9 adorado.<\/p><p>Minha irm\u00e3 mais velha Bharati disse, \u2018Voc\u00ea parece muito jovem.\u2019 Voc\u00ea sabe que tenho apenas trinta e cinco anos mas parece que sou mais jovem porque n\u00e3o me desgastei com sexo como a maioria dos jovens.\u201d Referindo-se a sua rotina di\u00e1ria, ele disse, \u201cLevanto de manh\u00e3 cedo. Em geral durmo nove horas por noite e uma hora de tarde. Corro durante uma hora. Fa\u00e7o shirshasan e os exerc\u00edcios f\u00edsicos de Mueller durante vinte minutos. O resto do tempo passo refletindo \u2013 realmente o que fa\u00e7o, n\u00e3o posso falar. Algumas vezes escrevo meus pensamentos. N\u00e3o gosto de ler mas, se o fa\u00e7o, gosto dos trabalhos de Bernard Shaw, Galsworthy e outros autores assim. Estou sempre num estado de alegria. N\u00e3o tenho outras emo\u00e7\u00f5es como raiva ou ci\u00fame.\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o lembro de rostos e nomes de pessoas em geral. N\u00e3o tenho prefer\u00eancias em minha afei\u00e7\u00e3o. Para mim, meus seguidores, ou pessoas que me entendem, ou o homem na rua, s\u00e3o todos iguais. Este sentimento n\u00e3o esteve sempre comigo desde o in\u00edcio mas cresceu gradualmente. N\u00e3o tentei cultiv\u00e1-lo.\u201d<\/p><p>Krishnaji dirigiu-se a todos como \u2018senhor\u2019. Um dia B dirigiu-se a ele como \u2018senhor\u2019. Com um gesto como se estivesse tonto ele disse, \u2018Oh! Vou desmaiar\u2019. B disse; \u201cMas voc\u00ea chama todos de \u2018senhor\u2019!\u201d A isto ele respondeu, \u201cSim, eu chamo, mas \u00e9 porque eu sempre esque\u00e7o os nomes. O modo mais f\u00e1cil \u00e9 esse. Assim n\u00e3o preciso lembrar todas aquelas coisas complicadas.\u201d<\/p><p>Se o ajudante de Krishnaji fosse tratado de criado, ele n\u00e3o gostava. Como uma crian\u00e7a ele argumentaria, \u201cEle n\u00e3o \u00e9 meu criado, \u00e9 meu amigo. Velu \u00e9 meu companheiro\u201d. Tanto quanto poss\u00edvel ele fazia suas pr\u00f3prias coisas. Carregava sua pr\u00f3pria bagagem. Quando um servente entrava em seu quarto carregando algo, ele apertava suas m\u00e3os como para alivi\u00e1-las do cansa\u00e7o. Se visse um peda\u00e7o de papel ou qualquer lixo jogado descuidadamente, ele o recolhia e colocava no local adequado. Krishnaji inclinava-se para todo homem, sem restri\u00e7\u00e3o ao seu status, antes que o outro se inclinasse.<\/p><p>No dia anterior a sua partida de Ahmedabad, alguns cidad\u00e3os deram uma recep\u00e7\u00e3o em sua homenagem. Algumas mo\u00e7as cantaram e dan\u00e7aram na frente dele. O programa era longo, tedioso e desinteressante. Algumas vezes era at\u00e9 rid\u00edculo e n\u00e3o pod\u00edamos evitar o riso. Est\u00e1vamos sentados atr\u00e1s. Krishnaji e minha irm\u00e3 mais nova Geeta estavam sentados em frente num gadi, um colch\u00e3o. Krishnaji perguntou a Geeta, \u201cVoc\u00ea gosta disso?\u201d ela respondeu: \u201cN\u00e3o muito. \u00c9 chato.\u201d Um pouco depois ela disse, \u201cVoc\u00ea gosta?\u201d \u201cSim, eu aprecio porque os atores parecem gostar,\u201d respondeu.<\/p><p>Perguntamos a Krishnaji se ele era o filho de Deus. Ele nos disse, \u201cO que de bom trar\u00e1 para voc\u00eas saber disso? O que far\u00e3o com este conhecimento? Se voc\u00eas querem saber, lhes direi sozinho.\u201d Quando perguntamos sobre seus poderes sobrenaturais, ele pareceu hesitar. Desistimos de fazer tais perguntas por serem muito pessoais. Algumas pessoas dizem que alguns anos atr\u00e1s, quando estava falando, ele desmaiou por alguns minutos e falou alguma coisa em verso (isto foi gravado). A plat\u00e9ia viu-o transformado na figura de Cristo ou Krishna.<\/p><p>\u00c9 certo que ele pode curar. Um homem com a espinha quebrada durante a guerra, foi curado com seu toque. Na Am\u00e9rica, uma mulher cega que foi operada v\u00e1rias vezes, foi curada por ele e podia ver. Minha m\u00e3e teve febre; a temperatura dela baixou gra\u00e7as a ele. Perguntei-lhe, \u201cComo voc\u00ea cura? Voc\u00ea aprendeu com algu\u00e9m?\u201d Ele me disse: \u201cTenho este poder desde crian\u00e7a. N\u00e3o sei como fa\u00e7o isso. N\u00e3o aprendi com ningu\u00e9m.\u201d \u201cVoc\u00ea pode se curar?\u201d \u201cAcho que n\u00e3o.\u201d<\/p><p>Perguntamos a Krishnaji por que a doutora Besant o escolheu. Ele respondeu, \u201cEles disseram que alguns Mestres que vivem no Himalaia disseram \u00e0 doutora Besant que eu era um Avatara (uma encarna\u00e7\u00e3o). O Senhor Choudhan e alguns outros Gurus dirigem este mundo atrav\u00e9s do Senhor Maitreya e outros Mestres.\u201d<\/p><p>Uma vez, andando de carro, ele disse, \u201cNaturalmente todos t\u00eam que dizer mentiras convencionais. Meu irm\u00e3o e eu \u00e9ramos muito h\u00e1beis nisso. Uma vez fomos convidados como principais homenageados para uma festa em Londres com a doutora Besant. Voc\u00ea sabe, ela \u00e9 muito minuciosa a respeito de compromissos mas n\u00f3s est\u00e1vamos atrasados trinta minutos! Ela chegou l\u00e1 antes de n\u00f3s. \u2018Por que chegaram tarde?\u2019 ela perguntou. Tentamos parecer perturbados. \u2018Tivemos um terr\u00edvel acidente com um \u00f4nibus\u2019, dissemos. Ela pegou nossas m\u00e3os e disse muito triste e docemente, \u2018Meus queridos! Est\u00e3o machucados?\u2019 Sabe como sentimos por contar essa mentira?\u201d No caminho Krishnaji recitou shoklas (versos) s\u00e2nscritos. Ele tem uma voz ressonante e canta com grande emo\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Krishnaji conhece muitos jogos de sal\u00e3o e externos tamb\u00e9m. Uma noite, depois do jantar, ele estava querendo muito jogar conosco. N\u00f3s prefer\u00edamos conversar com ele e n\u00e3o quer\u00edamos jogar. Ele sugeriu cerca de uma d\u00fazia de jogos mas n\u00f3s n\u00e3o conhec\u00edamos nenhum. Ele disse brincando, \u201cVejo falhas na educa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Voc\u00eas devem conhecer jogos. Perderam muito da inf\u00e2ncia.\u201d Ent\u00e3o ele lembrou como se divertia quando menino jogando h\u00f3quei e outros jogos.<\/p><p>Krishnaji costumava contar anedotas engra\u00e7adas. Um garoto ingl\u00eas perguntou a Sir Edwin Lutyens, \u2018Por que Deus fez homens negros e brancos?\u2019 Sir Edwin respondeu, \u2018Para jogar xadrez com eles.\u2019 A m\u00e3e de um menino de quatro anos disse ao garoto, \u2018Amanh\u00e3 voc\u00ea tomar\u00e1 \u00f3leo de castor.\u2019 O garoto fez uma enorme confus\u00e3o e chorou mas a m\u00e3e foi inflex\u00edvel. No dia seguinte o menino n\u00e3o foi encontrado. Depois de muita procura, ele foi achado numa rua nove milhas distante!<\/p><p>Ele achou nossa regi\u00e3o rural muito \u00e1rida e ficou imaginando por que Gandhiji escolheu tal lugar para seu ashram. Gostou muito dos macacos. Disse divertido, \u201cEles parecem com meus irm\u00e3os.\u201d Dissemos, \u201cSeguramente voc\u00ea n\u00e3o quer dizer isso.\u201d \u201cClaro que sim. Digo que eles parecem com meus irm\u00e3os.\u201d Krishnaji gostava de animais. Gostava de filmes com animais. Aqui em nossa casa ele costumava brincar com meus p\u00e1ssaros durante horas. Era visto muitas vezes admirando os cisnes no lago. \u201cEu costumava persegui-los na Holanda. Muito divertido!\u201d, dizia. De manh\u00e3 ele corria ao longo do caminho junto ao muro de nosso jardim. Quando via um p\u00e1ssaro ou chegava no avi\u00e1rio, parava.<\/p><p>Onde fosse visto, correndo ou caminhando, havia um sorriso constante em seu rosto. Krishnaji tamb\u00e9m gostava de cachorros. Nosso pequeno cachorro pequin\u00eas, Remus, aproximou-se dele. N\u00f3s dissemos, \u201cTenha cuidado, ele morde.\u201d Mas Remus foi amistoso com ele e Krishnaji afagou-o um pouco. \u201cEle deve ter sido amolado por algu\u00e9m,\u201d ele disse. \u201cQuando \u00e9ramos garotos em Londres, tivemos cachorros. N\u00f3s os mimamos e perseguimos tanto que eles desenvolveram um temperamento terr\u00edvel.\u201d Um dia fomos ao rio. Ele ficou na areia e jogou pedras para encorajar nossa cachorra, Belle, a correr atr\u00e1s delas e traz\u00ea-las para ele. Krishnaji gritou em grande excita\u00e7\u00e3o, \u201cQue pregui\u00e7osa! V\u00e1! Traga de volta!\u201d<\/p><p>Embora tivesse uma mem\u00f3ria muito pobre para a maioria das coisas, conhecia a montagem de cada carro e lembrava os nomes dos propriet\u00e1rios e as ocasi\u00f5es em que andou de autom\u00f3vel em grande velocidade. No dia 29, ou seja, no dia de sua partida, fomos \u00e0 beira do rio para um passeio e nosso carro atolou na areia. Ele empurrou-o com entusiasmo juvenil. Sentou ao volante e tentou acelerar. Cavou a areia onde as rodas afundaram. Krishnaji n\u00e3o ag\u00fcenta calor ou poeira mas esqueceu de tudo na tentativa de resgatar o carro. O lugar era cheio de espinhos. Ficamos machucados e ele deve ter se ferido tamb\u00e9m. Sugerimos que dev\u00edamos voltar em algum outro carro mas ele estava t\u00e3o excitado que n\u00e3o descansaria enquanto o carro n\u00e3o sa\u00edsse. Ele nos disse que quando era jovem gostava de construir motores de carro.<\/p><p>Na mesma tarde, antes de ir para a esta\u00e7\u00e3o de trem, meu pai deu a ele duas mil rupias. Meu pai disse, \u201cPor favor, n\u00e3o considere isso arrog\u00e2ncia de rico. Ofere\u00e7o isso a voc\u00ea por amizade, do mesmo modo que voc\u00ea nos deu seus livros. Espero que voc\u00ea aceite.\u201d Krishnaji disse, \u201cO que farei com isso, senhor?\u201d Meu pai insistiu. Krishnaji perguntou, \u201cSenhor, gostaria de doar para caridade?\u201d Meu pai respondeu, \u201cFicar\u00edamos muito felizes se voc\u00ea utilizasse para voc\u00ea mesmo.\u201d<\/p><p>Antes de sair de nossa casa, ele foi ao encontro de cada empregado e inclinou-se com respeito. Alguns deles ficaram por tr\u00e1s das portas. Ele procurou-os e tirou-os dos cantos. Um criado disse a meu pai depois, \u201cMuitas pessoas chegaram e partiram mas s\u00f3 hoje sentimos por algu\u00e9m deixar a nossa casa.\u201d<\/p><p>Este foi nosso primeiro encontro. Na segunda vez, depois de alguns meses, nos encontramos em 26 de outubro de 1933, no M. V. Victoria em G\u00eanova. Esperamos ansiosamente pela chegada dele ao navio nessa tarde \u00e0s tr\u00eas e meia. Quando o vimos fomos em sua dire\u00e7\u00e3o. Ele nos saudou com afeto e disse, \u201cOnde est\u00e3o seus pais?\u201d Eu disse, \u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 bem e eles n\u00e3o puderam vir\u201d. \u201cLa \u2013la, grande Scott! Ser\u00e1 divertido. Tomarei conta de voc\u00eas. Voc\u00eas jantar\u00e3o conosco?\u201d \u00c0s quatro nosso vapor partiu e tomamos ch\u00e1 no conv\u00e9s. Como \u00e9ramos vegetarianos, Krishnaji ficou ocupado resolvendo nosso card\u00e1pio e arrumando a mesa. Ele n\u00e3o permitiu que fiz\u00e9ssemos nada. O mar estava encrespado. Meus irm\u00e3os\u00a0 mais novos sentiram-se mal e foram direto para a cama. Minha irm\u00e3 Geeta estava deitada no beliche ao lado do meu. Krishnaji entrou. N\u00e3o reconheci sua voz. Ele disse, \u201cMinha crian\u00e7a, voc\u00ea n\u00e3o se sente bem. Est\u00e1 sozinha. Meu irm\u00e3o tamb\u00e9m ficava enjoado. Eu cuidava dele. Deixe-me cuidar de voc\u00ea.\u201d Ele se sentou e me viu pela fresta da cortina e disse a Geeta, \u201cEla est\u00e1 meditando?\u201d A\u00ed disse, \u201cVoc\u00ea se sentir\u00e1 melhor com uma bolsa de \u00e1gua quente; onde ela est\u00e1?\u201d Geeta respondeu, \u201cEst\u00e1 numa das minhas tr\u00eas malas. Voc\u00ea n\u00e3o vai encontr\u00e1-la.\u201d Mas Krishnaji disse, \u201cN\u00e3o se preocupe, procurarei em todas elas e arrumarei depois.\u201d Ele foi para o banheiro e encheu a bolsa com \u00e1gua quente. Ouvi o som da \u00e1gua correndo e levantei, mas ele n\u00e3o me deixou fazer nada.<\/p><p>Ent\u00e3o fomos para o beliche de meu irm\u00e3o e conversamos por uma hora. Ele quis saber o que fizemos na Europa e que pe\u00e7as t\u00ednhamos visto. Ficou um pouco surpreso ao saber que fic\u00e1vamos acordados at\u00e9 tarde e v\u00edamos uma pe\u00e7a por noite e que at\u00e9 fomos ao Folies Bergere e ao Moulin Rouge, mas n\u00e3o demonstrou sua desaprova\u00e7\u00e3o. Pediu nosso jantar e fechou as vigias e disse, \u201cChamem durante a noite, se precisarem.\u201d<\/p><p>Chegamos \u00e0 N\u00e1poles na manh\u00e3 seguinte e passeamos juntos pelo lugar. Na manh\u00e3 seguinte, depois de sairmos de N\u00e1poles, eu disse a ele, \u201cQuero lhe contar o que aconteceu comigo depois que voc\u00ea saiu de Ahmedabad. Quando voc\u00ea chegou a nossa casa ouvi-o atentamente e meditei sobre suas palavras com aten\u00e7\u00e3o. Houve um grande caos, uma luta, um\u00a0 conflito, e houve uma revolu\u00e7\u00e3o real em mim depois de um longo per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><p>\u201cQual a sua idade?\u201d ele perguntou\u00a0 surpreso. \u201cTenho dezoito, Krishnaji, pode haver uma idade determinada para refletir sobre certas coisas? N\u00e3o posso deixar de pensar nestas quest\u00f5es agora mesmo. Algumas pessoas me dizem que sou muito jovem e que estas quest\u00f5es sobre a vida devem ser pensadas aos cinq\u00fcenta anos.\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o, n\u00e3o, est\u00e1 errado. A\u00ed a mente fica velha e n\u00e3o funciona adequadamente. Nessa idade a mat\u00e9ria fica t\u00e3o entranhada que \u00e9 imposs\u00edvel libertar-se. Perguntei sua idade porque se voc\u00ea pensar muito seriamente pode prejudicar seu crescimento. Sabe, voc\u00ea ainda est\u00e1 crescendo.\u201d<\/p><p>Eu estava um pouco nervosa quando comecei a contar minhas experi\u00eancias. Ele disse, \u201cVoc\u00ea est\u00e1 nervosa.\u201d Um pouco depois comecei novamente, devagar: \u201cEu vi que estava infeliz. Havia uma grande desarmonia em minha vida. Sem conhecer os verdadeiros valores da vida, eu era insignificante. Vivia num estado de medo constante da opini\u00e3o dos outros, etc. Eu n\u00e3o era auto-suficiente nem auto-confiante. Gastava minhas energias em coisas sem import\u00e2ncia e assim n\u00e3o tinha lazer. Refletindo, examinei profundamente as causas de tudo isso e elas se desfizeram como uma nuvem, e o brilho do sol chegou em mim. Minhas maneiras, meu discurso, minha vida, tudo em mim mudou. As pessoas perceberam esta mudan\u00e7a not\u00e1vel e acharam que eu tinha me auto-disciplinado, mas tudo isso surgiu t\u00e3o espont\u00e2nea e naturalmente que eu mesma n\u00e3o sei como a mudan\u00e7a aconteceu.<\/p><p>\u201cE quando eu sentava pensando, sentia algo movimentando-se em mim. Algo que me fez chorar e rir e vibrar de contentamento. Quando eu era crian\u00e7a, costumava adorar imagens mortas e oferecer flores e lanternas. Crescendo questionei a adora\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a pr\u00f3pria exist\u00eancia de Deus. Ningu\u00e9m podia dar a resposta certa \u00e0s minhas perguntas. Eu n\u00e3o podia acreditar num Deus l\u00e1 no c\u00e9u, que inexoravelmente punia e premiava. Assim, fiquei paralisada. Este foi o per\u00edodo mais miser\u00e1vel para mim. Eu estava perdida. A\u00ed voc\u00ea chegou. Acho que tenho um vislumbre desse algo que \u00e9 eterno al\u00e9m do transit\u00f3rio; infinito al\u00e9m do finito, o verdadeiro eu e a ess\u00eancia de tudo. Fiquei extremamente feliz e algumas vezes fico quase num estado de \u00eaxtase. O vislumbre disso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando minha mente e cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o em completa harmonia. A harmonia s\u00f3 existe quando h\u00e1 esta perfei\u00e7\u00e3o. Pela perfei\u00e7\u00e3o da mente quero significar uma mente que est\u00e1 equilibrada em todas as circunst\u00e2ncias todo o tempo. Pela perfei\u00e7\u00e3o do corpo quero dizer um corpo que \u00e9 saud\u00e1vel e bonito.<\/p><p>\u201cMeu desejo constante tem sido encontrar esse algo que eu senti mas n\u00e3o vi. \u00c9 como uma flor escondida cujo perfume conhe\u00e7o mas n\u00e3o sei como \u00e9. Tenho um grande anseio disto. Essa sede s\u00f3 pode ser saciada quando sou perfeita. Tentei\u00a0 dirigir meus passos nesse caminho da perfei\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de meu verdadeiro eu.\u201d<\/p><p>Era hora do almo\u00e7o, e um passageiro interrompeu. N\u00f3s \u00e9ramos interrompidos muitas vezes ent\u00e3o, no dia seguinte\u00a0 fomos para o camarote e eu perguntei, \u201cQuando voc\u00ea estava em Ahmedabad voc\u00ea disse, \u201ceu compreendi.\u201d O que voc\u00ea compreendeu? Qual foi o processo e quais os est\u00e1gios de sua compreens\u00e3o?\u201d<\/p><p>Ele respondeu, \u201cEu compreendi. Se voc\u00ea pergunta o que compreendi, n\u00e3o posso descrever como descreveria um objeto s\u00f3lido. Posso lhe dar uma id\u00e9ia da beleza do p\u00f4r do sol ou da do\u00e7ura do a\u00e7\u00facar se voc\u00ea n\u00e3o experimentou o que \u00e9 a beleza, o que \u00e9 do\u00e7ura?\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o existe alguma coisa que \u00e9 seu pr\u00f3prio eu ou alguma coisa que existe separada de voc\u00ea?\u201d perguntei<\/p><p>\u201cExiste e n\u00e3o existe. Desculpe por lhe responder assim. Mas n\u00e3o posso dizer mais nada,\u201d Krishnaji falou.<\/p><p>Em resposta a Segunda parte de minha pergunta, disse, \u201cN\u00e3o segui nenhum processo. Desde que eu era um garoto muito pequeno, era tremendamente insatisfeito com tudo. Eu costumava criticar tudo. Critiquei a doutora Besant e todos os meus amigos. Sabe o que esta cr\u00edtica significa? Ela \u00e9 destitu\u00edda de todos os preconceitos pessoais. N\u00e3o \u00e9 meramente um jogo intelectual mas \u00e9 para o verdadeiro entendimento. \u00c9 onde o intelecto e as emo\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligados. Quando critico outros, estou me criticando; e agi adequadamente.<\/p><p>Eu experimentei tudo de fato ou experimentei intelectualmente. Tentei tudo e vi a futilidade disso. Deste modo continuei \u2013 continuei desistindo de coisas que n\u00e3o me satisfaziam. Finalmente cheguei \u00e0 compreens\u00e3o da Imortalidade \u2013 Deus \u2013 Nirvana, ou que nome se d\u00ea.\u201d<\/p><p>\u201cA senhora Besant e outros tentaram ensinar-lhe pr\u00e1ticas espirituais e impor certas id\u00e9ias a voc\u00ea?\u201d<\/p><p>\u201cGra\u00e7as a Deus! N\u00e3o. Se tentassem eu n\u00e3o os levaria em considera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><p>\u201cMas voc\u00ea disse que tentou certas pr\u00e1ticas para a kundalini, que jejuou, e leu livros sobre isso. Voc\u00ea passou pela vida severa de um asceta.\u201d<\/p><p>\u201cSim, algu\u00e9m disse, \u2018Tente isto\u2019. Tentei por algum tempo e parei. Do mesmo modo que algumas mulheres cruzaram meu caminho, apaixonaram-se por mim, mas eu deixei passar. Elas ficaram zangadas comigo e me deixaram. N\u00e3o acho que as pr\u00e1ticas espirituais me ajudaram. Se ajudaram, n\u00e3o sei. Meu processo foi de nega\u00e7\u00e3o. Pode ser que este seja o \u00fanico modo.\u201d<\/p><p>Eu disse, \u201c\u00c9 verdade que voc\u00ea conheceu a futilidade dessas coisas e abandonou-as. Mas, e aqueles como n\u00f3s que n\u00e3o t\u00eam tal conhecimento? \u00c9 errado ent\u00e3o praticar tais coisas?\u201d<\/p><p>\u201cNingu\u00e9m pode impedi-la de fazer o que voc\u00ea quer. Mas eu digo que para passar da inf\u00e2ncia para a juventude, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter sarampo, catapora ou var\u00edola para ter conhecimento. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio passar pelo processo da Ioga, dogma ou qualquer pr\u00e1tica. Eu n\u00e3o tinha meta. N\u00e3o tinha id\u00e9ias definidas sobre o Resultado. Seguindo um caminho prescrito, dogma, teoria ou cren\u00e7a religiosa, voc\u00ea estreita sua vis\u00e3o da verdade. Assim, como voc\u00ea pode compreender o Todo?\u201d<\/p><p>Era hora do jantar e nossa conversa terminou.<\/p><p>A \u00faltima frase de Krishnaji foi como uma rajada violenta. O que eu fizera? Eu estava na escurid\u00e3o antes e uma luz foi acesa; vi meu caminho nessa luz. A\u00ed comecei a construir paredes a minha volta e a luz ficou obscurecida. Eu estava perdida e, tola como era, n\u00e3o sabia. Sa\u00ed de uma escravid\u00e3o para cair em outra. Tinha visto a luz mas a cegueira me surpreendeu. Refleti um pouco, comecei a ler e maculei meu poder de reflex\u00e3o. Eu havia lido Vivekananda, o grande pensador e int\u00e9rprete do Vedanta no s\u00e9culo passado, e aceitei a id\u00e9ia da n\u00e3o-dualidade. Eu nem mesmo tive um vislumbre da verdade, e acreditei que a n\u00e3o-dualidade era a verdade, pois tais cren\u00e7as nos d\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o de conforto e bem estar. Constru\u00edra grandes edif\u00edcios sobre estas falsas premissas e uma brisa suave derrubou toda minha estrutura. Estou novamente\u00a0 perdida.\u00a0 Sinto-me\u00a0 miser\u00e1vel e inquieta. Percebi que nada posso fazer com minha perspectiva limitada. N\u00e3o havia necessidade de entrar na controv\u00e9rsia da dualidade e n\u00e3o-dualidade. Se a compreens\u00e3o viesse, chegaria por conta pr\u00f3pria. Eu tinha que conhecer a vida \u2013 tinha que saber do presente.<\/p><p>Na manh\u00e3 seguinte, Krishnaji me disse, \u201cQual o efeito das minhas palavras?\u201d<\/p><p>\u201cSinto-me extremamente miser\u00e1vel. Estou novamente perdida. Sinto-me muito pequena.\u201d\u00a0 Ent\u00e3o contei a ele tudo que se passara ontem. \u201cTenho que come\u00e7ar novamente. Estou muito insatisfeita comigo mesma e com tudo a meu respeito.\u201d<\/p><p>Desse dia em diante n\u00e3o conseguia mais rezar mala (o ter\u00e7o), nem chamar omkar, nem meditar sobre alguma id\u00e9ia em particular. Vi que quando virava algumas contas de meu mala, minha mente n\u00e3o se fixava mais nele. S\u00f3 a m\u00e3o funcionava mecanicamente. Eu recitava o Gayatri Mantra mas a mente ficava divagando, como se eu quisesse que tudo acabasse, como se tudo em mim estivesse ansioso para terminar. For\u00e7ando-se a mente e as emo\u00e7\u00f5es em tais moldes, elas s\u00e3o destru\u00eddas. \u00c9 verdade que h\u00e1 momentos de contentamento em que a pessoa sente-se como se recitasse o Gayatri, mas n\u00e3o se deve fazer nada com obstina\u00e7\u00e3o. Toda manh\u00e3 vejo o sol nascer e sinto tal alegria que quero dizer o Gayatri. Nisso h\u00e1 vida. N\u00e3o h\u00e1 motivo. N\u00e3o farei nada a partir de conven\u00e7\u00e3o e rigidez. N\u00e3o farei isso com o desejo.. N\u00e3o me for\u00e7arei a meditar sobre Soham, ou Satchidananda. Isto \u00e9 o natural para mim:<\/p><p>(1) Sentar relaxadamente e deleitar-me com a beleza a minha volta.<\/p><p>(2) Olhar os movimentos de minha mente e permitir que eles mostrem seus efeitos.<\/p><p>(3) H\u00e1 momentos em que me sinto submersa em algo inexplic\u00e1vel. Estes momentos devem ser permitidos mas n\u00e3o buscados. \u00c9 assim que deve-se observar os momentos em si mesmo, mas n\u00e3o matar ou controlar. \u00c9 assim que se recupera o bem estar.<\/p><p>Pelo voto do sil\u00eancio, encontrei paz de mente. Nesse caso, devo mant\u00ea-la. \u00c9 bom se alimentar de frutas por um dia em cada quinze. Continuarei fazendo isso.<\/p><p>Minha experi\u00eancia foi que ler muitos livros sobre religi\u00e3o e sobre escolas filos\u00f3ficas obscurece a capacidade de pensar. Torna a mente da pessoa estreita e dogm\u00e1tica. A pessoa come\u00e7a a julgar as coisas com id\u00e9ias pr\u00e9-concebidas e valores falsos. Tendo compreendido isso, n\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o de ler certos livros por um tempo.<\/p><p>No dia seguinte eu disse a Krishnaji, \u201cVoc\u00ea diz que s\u00f3 h\u00e1 um caminho, e as pessoas que compreenderam ou pelo menos afirmam que o fizeram? Elas s\u00e3o hip\u00f3critas?\u201d<\/p><p>\u201cSe voc\u00ea me der alguns exemplos concretos posso dizer o que penso delas.\u201d<\/p><p>\u201cQuero dizer os milhares de sanyasins que praticam determinada ioga e tornam-se iluminados.\u201d<\/p><p>\u201cEu os chamo lun\u00e1ticos. Lun\u00e1tico quer dizer a pessoa que est\u00e1 sempre pensando sobre a mesma id\u00e9ia. Estes sanyasins agarram-se a uma id\u00e9ia, seguem pensando nela o tempo todo, e hipnotizam e matam completamente suas mentes. Eles imaginam uma coisa por tanto tempo que ela torna-se realidade para suas mentes destru\u00eddas \u2013 chamam a isso auto-compreens\u00e3o.\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o voc\u00ea conhece algu\u00e9m que voc\u00ea chamaria de iluminado?\u201d<\/p><p>\u201cDeve haver, eu n\u00e3o sei.\u201d<\/p><p>Em outra ocasi\u00e3o ele disse com grande ang\u00fastia, \u201cTodos est\u00e3o buscando a imortalidade pessoal e a auto-preserva\u00e7\u00e3o. \u00c9 isto que est\u00e1 errado com este mundo.\u201d<\/p><p>Disse a ele, \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que busque alguma coisa mais que essas duas metas.\u201d<\/p><p>\u201cEu apenas vivo; n\u00e3o tenho esse apego \u00e0 vida.\u201d<\/p><p>Perguntei, \u201cSe algu\u00e9m lhe batesse, voc\u00ea n\u00e3o bateria de volta?\u201d<\/p><p>\u201cAcho que n\u00e3o,\u201d ele respondeu.<\/p><p>Um dia eu disse, \u201cVoc\u00ea viaja muito e sente-se desgastado. Deve descansar.\u201d<\/p><p>\u201cGosto muito do meu trabalho. Mais dois anos e a\u00ed eu gostaria de ficar em reclus\u00e3o por um tempo \u2013 talvez no Himalaia. Antes disso, se eu morrer, morri; n\u00e3o pode ser evitado.\u201d<\/p><p>Krishnaji, como antes, tinha dor na cabe\u00e7a. Por esta raz\u00e3o ficou por conta pr\u00f3pria na Holanda durante um m\u00eas. Eu perguntei a ele, \u201cJ\u00e1 que voc\u00ea tem esta dor, por que n\u00e3o consulta alguns m\u00e9dicos?\u201d<\/p><p>Ele disse, \u201cN\u00e3o \u00e9 dor. \u00c9 um inexplic\u00e1vel contentamento.\u201d<\/p><p>Algumas vezes ele exclamava, \u201cQue mundo! Oh, que mundo!\u201d Ent\u00e3o um dia perguntei a ele, \u201cKrishnaji, voc\u00ea n\u00e3o se sente pesaroso ao ver a desigualdade entre homem e homem nesse mundo? Muito freq\u00fcentemente eu penso que temos milh\u00f5es para gastar conosco enquanto existem muitos que n\u00e3o t\u00eam para as m\u00ednimas necessidades da vida. Algumas vezes a pessoa pensa em se desfazer de todas as posses.\u201d<\/p><p>\u201cSim\u201d, ele disse, \u201csente-se dor ao ver esta desigualdade. A tentativa de um homem de abrir m\u00e3o de suas posses n\u00e3o vai melhorar o mundo. Ao contr\u00e1rio, vai haver mais um pobre no mundo.\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o quer dizer que o indiv\u00edduo n\u00e3o deve fazer esfor\u00e7o j\u00e1 que o mundo n\u00e3o mudou? Como pode o mundo mudar se o indiv\u00edduo n\u00e3o muda?\u201d perguntei.<\/p><p>\u201cSe voc\u00ea se compadece de um homem e desiste de sua riqueza, isso n\u00e3o vai ajud\u00e1-lo. Suponho que voc\u00ea conhece a hist\u00f3ria do milion\u00e1rio americano. Alguns comunistas foram at\u00e9 ele e disseram \u201cMilhares de pobres est\u00e3o passando fome. Seu dinheiro \u00e9 desperdi\u00e7ado, nos d\u00ea ele.\u201d<\/p><p>O milion\u00e1rio disse, \u2018Perfeitamente. Quantos d\u00f3lares voc\u00eas acham que eu tenho?\u2019<\/p><p>\u2018$100.000.000\u2019<\/p><p>\u2018E quantas pessoas voc\u00eas acham que h\u00e1 neste pa\u00eds?\u2019<\/p><p>\u2018100.000.000\u2019.<\/p><p>\u2018Bem, ent\u00e3o peguem tudo que tenho e d\u00eaem um d\u00f3lar a cada um\u2019.\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o\u201d, perguntei, suponho que voc\u00ea n\u00e3o aprova o voto de pobreza e de viajar na terceira classe de Gandhiji?\u201d<\/p><p>\u201cSe ele faz isso para melhorar a condi\u00e7\u00e3o dos pobres, n\u00e3o ser\u00e1 de nenhuma valia. Ele tem viajado na terceira classe h\u00e1 muitos anos mas isto\u00a0 melhorou a condi\u00e7\u00e3o dos pobres?\u201d<\/p><p>\u201cAntes as pessoas tinham vergonha de ser pobres e de andar na terceira classe, mas Gandhiji lhes deu dignidade. Se todos seguissem isso e ficassem pobres e viajassem na terceira classe, n\u00e3o haveria ricos, e n\u00e3o haveria distin\u00e7\u00e3o de classe.\u201d<\/p><p>\u201c\u00c9 imposs\u00edvel que isso aconte\u00e7a. Se acontecer \u00e9 porque acham que Gandhiji fez e, por isso, faremos tamb\u00e9m. N\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o. A atitude n\u00e3o mudou. A pessoa pode mudar seu comportamento externo mas a diferencia\u00e7\u00e3o na mente ainda permanece. Atitude \u00e9 muito importante. Voc\u00ea pode viajar na primeira classe ou na terceira, pode ser rico ou pobre, isso \u00e9 de pouca conseq\u00fc\u00eancia.\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o por que voc\u00ea n\u00e3o tem posses?\u201d<\/p><p>\u201cAs pessoas valorizam posses e dinheiro n\u00e3o por que s\u00e3o valiosos mas porque s\u00e3o meios de se possuir outras coisas que se considera valiosas. Eu n\u00e3o tenho ambi\u00e7\u00e3o de possuir outras coisas, assim n\u00e3o dou valor a propriedades e dinheiro. Que necessidade tenho de dinheiro? Existe felicidade maior na vida de um pedinte. Com tal atitude \u00e9 certo n\u00e3o ter posses mas n\u00e3o \u00e9 certo compadecer-se de algu\u00e9m e abrir m\u00e3o de suas posses.\u201d<\/p><p>Depois desta conversa, fomos para a sala de jantar e vimos muitos ricos maraj\u00e1s e magnatas dos neg\u00f3cios. Eu disse, \u201cAlguma coisa tem que ser feita. Que contraste entre o rico e o pobre.\u201d<\/p><p>Krishnaji respondeu, \u201cOs ricos devem ser pesadamente taxados pelo governo.\u201d Uma vez mais ele me disse, \u201cA vida de um pedinte \u00e9 melhor.\u201d<\/p><p>Eu falei, \u201cComo pode algu\u00e9m tornar-se um pedinte? Quem o alimentaria?\u201d<\/p><p>Ele p\u00f4s a m\u00e3o na testa. \u201cPara tornar-se um pedinte voc\u00ea deve ter intelig\u00eancia verdadeira.\u201d<\/p><p>Eu disse, \u201cOlhando para a hist\u00f3ria do mundo, passada e presente, o homem parece n\u00e3o ter mudado. \u00c9 verdade que ele alterou seu modo de viver e seus costumes, mas suas emo\u00e7\u00f5es e instintos e seus conceitos n\u00e3o mudaram fundamentalmente. O homem \u00e9 o mesmo bruto que era.\u201d<\/p><p>\u201c\u00c9 verdade,\u201d ele disse, \u201cmas ele tem que mudar ou n\u00e3o sei que desgra\u00e7a se abater\u00e1 sobre o mundo.\u201d<\/p><p>\u201cVoc\u00ea acha que todos deveriam aceitar a vida de que voc\u00ea fala, e que o mundo seria ideal?\u201d<\/p><p>\u201cSei que todos n\u00e3o gostariam de ser como falei, mas se algumas pessoas se tornassem a imagem da perfei\u00e7\u00e3o, formariam o n\u00facleo desse mundo ideal.\u201d<\/p><p>Em outra ocasi\u00e3o ele disse, \u201cAs pessoas dizem que nenhum ser humano pode ser perfeito porque para elas a perfei\u00e7\u00e3o significa uma condi\u00e7\u00e3o onde nada resta para se alcan\u00e7ar. Acreditam que esse homem \u00e9 fraco e pecador e tem todas as limita\u00e7\u00f5es do corpo e, assim, n\u00e3o pode ser perfeito.\u201d<\/p><p>\u201cNa t\u00e9cnica sempre h\u00e1 algo para se alcan\u00e7ar. A ci\u00eancia pode sempre evoluir desenvolvendo novas coisas; mas a mente \u00e9 diferente. Deixe-me lhe perguntar, o que \u00e9 perfei\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o tenho id\u00e9ia clara. Talvez a perfei\u00e7\u00e3o de mente mostre o perfeito equil\u00edbrio em todas as condi\u00e7\u00f5es todo o tempo.\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o, vou lhe responder. Para mim, perfei\u00e7\u00e3o consiste numa mente realmente cr\u00edtica, inteligente e alerta. Imagine uma cabra ou um burro amarrado a uma corda que est\u00e1 fixada num ponto. A cabra corre at\u00e9 um certo ponto, d\u00e1 voltas dentro da circunfer\u00eancia. Sua liberdade \u00e9 limitada. Mas considere uma cabra que n\u00e3o est\u00e1 presa em nenhum ponto. A\u00ed sua trajet\u00f3ria ser\u00e1 ilimitada e livre. Tal \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o. Perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma superf\u00edcie sem raio e sem um centro fixo.\u201d<\/p><p>Eu disse a ele, \u201cSupondo que eu fa\u00e7o algo e sei que\u00a0 me prejudica, mas ainda n\u00e3o sei muito bem. Desejo aquilo e n\u00e3o posso largar. Leva muito tempo para eu compreender completamente o dano que me faz. Nessa circunst\u00e2ncia, devo controlar-me e resistir ao meu desejo at\u00e9 entender completamente e desistir pelo conhecimento?\u201d<\/p><p>\u201c \u00c9 exatamente assim que deve ser. Conhecer bem a falsidade \u00e9 livrar-se dela pronta\u00a0 e espontaneamente. Isso requer verdadeira intelig\u00eancia. E se voc\u00ea n\u00e3o a possui, deve controlar-se. N\u00e3o h\u00e1 outra maneira. Conhe\u00e7o um homem cujos m\u00e9dicos preveniram-no contra o fumo mas ele n\u00e3o compreendeu a que ponto o prejudicava. Quando ele fica doente, se controla e abre m\u00e3o. Logo que se recupera, volta a fumar. Assim ele parece oscilar entre bom e mau. A vida segue assim.\u201d<\/p><p>Da\u00ed eu compreendi que ele quer dizer que esse controle s\u00f3 pode acontecer pela iniciativa da pessoa. Qualquer a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 for\u00e7ada e n\u00e3o \u00e9 imposta funciona para o bem mais elevado. Perguntei, \u201cExiste algo como bem e mal neste mundo?\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 bem absoluto e mal absoluto, mas ainda assim existe algo como bem e mal.\u201d<\/p><p>Eu disse, \u201cA no\u00e7\u00e3o de bem e mal pressup\u00f5e preconceito e id\u00e9ias pr\u00e9-concebidas.\u201d<\/p><p>\u201cN\u00e3o, existe algo dentro de voc\u00ea que pode discriminar entre bem e mal.\u201d<\/p><p>Nesta viagem Krishnaji tomou muito cuidado conosco. Na maior parte da viagem, ficamos juntos. Quase toda tarde tivemos discuss\u00f5es s\u00e9rias. Eu fiz perguntas e ele\u00a0 me respondeu. Algumas vezes, ao responder as perguntas, ele apresentou outras quest\u00f5es e me fez refletir e responder por mim mesma. Almo\u00e7amos e tomamos ch\u00e1 \u00e0 tarde com ele. \u00c0 noite, antes do jantar, ele vinha ao nosso camarote e convers\u00e1vamos sobre assuntos de interesse geral durante uma hora mais ou menos. Outras vezes, nos permit\u00edamos conversas leves e anedotas. Se ele n\u00e3o estivesse muito cansado, jantava conosco. De outro modo, retirava-se cedo e jantava no camarote.<\/p><p>Uma vez enquanto eu falava, ele interrompeu, \u201cUm momento, um momento. Voc\u00ea est\u00e1 falando ingl\u00eas. N\u00e3o fale t\u00e3o depressa.\u201d<\/p><p>Fiquei feliz por ele me corrigir e lhe disse, \u201cSempre que cometermos um erro ou pare\u00e7amos engra\u00e7ados em nossas maneiras, na fala ou no comportamento, voc\u00ea deve nos corrigir.\u201d<\/p><p>Ele disse, \u201cVoc\u00eas devem usar palavras simples e despretensiosas em ingl\u00eas, como j\u00f3ias para ornamentos. Indianos t\u00eam o h\u00e1bito de usar palavras longas e pomposas que est\u00e3o completamente em desuso. N\u00e3o use a palavra \u2018custoso\u2019; \u2018caro\u2019\u00a0 e \u2018dispendioso\u2019 soam melhor.\u201d<\/p><p>Muitas vezes ele disse de brincadeira, \u201cGostaria de ser tutor de voc\u00eas.\u201d No verso de um menu, o senhor Patwardhan, um advogado, escreveu os termos de um contrato no qual estava determinado que Krishnaji prometia ser nosso tutor em ingl\u00eas durante seis meses com o sal\u00e1rio de dez mil libras. Krishnaji, Patwardhan e eu assinamos, e ele tornou-se um verdadeiro documento legal!<\/p><p>Pedimos que ele nos ensinasse h\u00e1bitos alimentares corretos e boas maneiras \u00e0 mesa. Ele disse, \u201cMantenha seu prato limpo. Beba \u00e1gua\u00a0 meia hora antes ou depois mas n\u00e3o durante as refei\u00e7\u00f5es.\u201d Ele nos mostrou tr\u00eas ou quatro jeitos engra\u00e7ados de comer. Alguns de n\u00f3s com\u00edamos assim. Rimos muito ao ver como parec\u00edamos rid\u00edculos. Por exemplo, muito antes do bocado chegar a nossas bocas, n\u00f3s a abr\u00edamos como se estiv\u00e9ssemos \u00e1vidos para engoli-lo.<\/p><p>Os secret\u00e1rios de Krishnaji, Rajagopal e Patwardhan estavam com ele nesta viagem. Rajagopal nos perguntou um dia, \u201cO que voc\u00eas achariam se Krishnaji casasse?\u201d<\/p><p>\u201cNada, mas as pessoas falariam.\u201d Ent\u00e3o perguntamos a Krishnaji, \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o casa?\u201d<\/p><p>Krishnaji respondeu, \u201cN\u00e3o sinto necessidade. Quando a pessoa n\u00e3o \u00e9 auto-suficiente, precisa de algu\u00e9m para complement\u00e1-la nas necessidades f\u00edsicas, econ\u00f4micas e outras. N\u00e3o sinto tal insufici\u00eancia e, assim, a quest\u00e3o do casamento n\u00e3o \u00e9 considerada.\u201d<\/p><p>Muitos passageiros do navio acharam que \u00e9ramos filhos de Krishnaji, ou pelo menos que minha irm\u00e3 mais nova de dez anos, Gira, era seu filho, j\u00e1 que ela sempre usava roupas de menino. Krishnaji costumava cham\u00e1-la \u201cminha m\u00e3e adotiva\u201d. Algumas vezes na mesa de jantar ele disse de brincadeira, \u201cGostaria de poder casar com voc\u00eas, senhoras\u201d.<\/p><p>N\u00f3s retrucamos, \u201cIsso mostra que voc\u00ea gosta de n\u00f3s de um modo especial.\u201d<\/p><p>\u201cEnt\u00e3o deixe-me corrigir. Queria poder casar com todos voc\u00eas.\u201d<\/p><p>A\u00ed n\u00f3s dissemos, \u201cVoc\u00ea \u00e9 at\u00e9 mesmo maior que o Senhor Krishna\u201d. Ent\u00e3o n\u00f3s arreliamos dele, lembrando das vidas passadas de \u2018Alcione\u2019 (um livro publicado pela Sociedade Teos\u00f3fica sobre as vidas passadas de Krishnaji), e ele ficou muito acanhado.<\/p><p>Passamos uma temporada maravilhosa com o senhor Patwardhan. Fizemos muitas perguntas e ele nos deu muitos detalhes e fatos interessantes sobre Krishnaji. Quando ele era garoto, quatro ou cinco meninos de sua idade prometeram dedicar suas vidas e servi-lo at\u00e9 a morte. No come\u00e7o, Nitya e Yadunandan Prasad estavam entre esses e hoje Rajagopal tem sido sua companhia constante. Os dois primeiros morreram e agora Krishnaji e Rajagopal ficam juntos como dois irm\u00e3os.<\/p><p>Toda tarde ficamos com Krishnaji no conv\u00e9s e procuramos V\u00eanus, a estrela vespertina. Quem a v\u00ea primeiro, mostra para os outros.<\/p><p>Em Aden, nos divertimos muito observando do tombadilho os mascates de Bora em barquinhos vendendo roupas de seda baratas e vulgares. Durante horas os passageiros de nosso barco e os mascates barganhavam por aqueles artigos. As coisas que eram oferecidas inicialmente a sessenta r\u00fapias, acabavam vendidas a dez! Todas essas transa\u00e7\u00f5es eram conduzidas aos gritos e atrav\u00e9s de cestos amarrados a cordas. Os mascates no mais alto tom: \u201c\u00daltimo pre\u00e7o, quanto eu disse\u201d. Durante muito tempo Krishnaji relembrou esta cena e n\u00f3s rimos muito.<\/p><p>Chegamos a Bombaim e ficamos l\u00e1 por uma semana. No dia seguinte fomos \u00e0 casa do senhor Ratansi Moarjee, que era seu anfitri\u00e3o. Khansaheb Abdul Karim Khan estava fazendo um concerto especial para Krishnaji. A voz de Abdul Karim era como uma flauta. Krishnaji gostava muito de sua m\u00fasica e assim, toda vez que ele estava em Bombaim, Khansaheb cantava para ele. As \u00e1rias favoritas de Krishnaji est\u00e3o nos ragas \u2018Todi\u2019, \u2018Bhairavi\u2019, \u2018Jaunpuri\u2019 e \u2018Bajeshree\u2019, caracter\u00edsticas da m\u00fasica cl\u00e1ssica indiana.<\/p><p>No terceiro dia fomos \u00e0 palestra de Krishnaji. Ele pareceu ter grande dom\u00ednio sobre sua linguagem, seus pensamentos, sua express\u00e3o e dic\u00e7\u00e3o. Desta vez eu pude entend\u00ea-lo com maior tranq\u00fcilidade.<\/p><p>No quarto dia foi organizado um debate com a participa\u00e7\u00e3o de muitas pessoas. Elas interromperam Krishnaji muitas vezes. Nem o deixaram explicar j\u00e1 que simultaneamente formavam grupos menores e discutiam pontos entre eles mesmos. Krishnaji pareceu n\u00e3o se importar pois o comportamento deles refletia seu entendimento. Ele disse para uma das pessoas com branda reprova\u00e7\u00e3o. \u201cAgora, J, quantas vezes, talvez em todas as palestras, voc\u00ea e os outros me ouviram e estou certo que n\u00e3o entenderam uma palavra.\u201d<\/p><p>A tarde fomos a Juhu com ele. L\u00e1 bebemos \u00e1gua de coco, comemos e caminhamos pela praia. O sol estava se pondo e o c\u00e9u estava vermelho. A areia molhada da praia tamb\u00e9m estava colorida de vermelho. A praia \u00e9 em forma de crescente e bela com os coqueiros. Duas garotas dan\u00e7avam na beira da \u00e1gua com os p\u00e9s tocados pelas ondas que iam e vinham. Krishnaji as viu e come\u00e7ou a dan\u00e7ar. Ele erguia as m\u00e3os e corria. Pensamos que ele poderia voar como um p\u00e1ssaro. Depois competimos para ver quem corria mais e quem jogava cocos mais longe.<\/p><p>Nessa noite, com meus irm\u00e3os e irm\u00e3s, fui para casa em Ahmedabad.<\/p><p>Pela segunda vez Krishnaji veio a Ahmedabad logo em seguida. Toda manh\u00e3 eu o vi um pouco e fui para a aula depois. \u00c0s 10 ou 10.30h eu voltava e nos encontr\u00e1vamos na sala de estar, onde todos iam chegando aos poucos at\u00e9 formarmos um grande c\u00edrculo. Krishnaji estava animado e falou com grande gosto. Ele tinha estado na Gr\u00e9cia recentemente e falou a respeito com profundo enlevo. \u201cNingu\u00e9m atingiu a perfei\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia, excetuando naturalmente a antiga \u00cdndia. At\u00e9 hoje vamos at\u00e9 l\u00e1 em busca de inspira\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p><p>Depois do almo\u00e7o sentamos para conversar por uma ou duas horas. Descansamos a tarde, tomamos ch\u00e1 juntos e passeamos alegremente ao longo do muro do jardim, completando quatro ou cinco voltas, o que d\u00e1 cerca de quatro ou cinco milhas. A\u00ed sa\u00edmos para um passeio ou ficamos em casa conversando.<\/p><p>Algumas tardes ele leu a B\u00edblia para n\u00f3s. Ele gostava particularmente do livro de Job, Eclesiastes, o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e de alguns Hinos. Ele disse, \u201cLady Emily l\u00ea a B\u00edblia todo dia. Quando \u00e9ramos garotos, ela lia algumas partes para n\u00f3s. Eu gostei tanto que decidi ler dois cap\u00edtulos por dia\u201d\u201d A\u00ed acrescentou, \u201cN\u00e3o concordo com o pensamento, mas acho a linguagem bonita. Toda vez que leio, me emociono. Li as B\u00edblias francesa e italiana mas essas tradu\u00e7\u00f5es nada s\u00e3o comparadas com a inglesa. Se eu tivesse que ensinar ingl\u00eas a algu\u00e9m, come\u00e7aria com a B\u00edblia.\u201d<\/p><p>Ele abriu um cap\u00edtulo do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e disse, \u201c\u00c9 t\u00e3o ardente que eu realmente n\u00e3o devia l\u00ea-lo para voc\u00eas jovens. \u00c9 de fato para ilustrar o amor do homem e da mulher mas foi interpretado mais tarde como o amor da Igreja por Deus.\u201d Ent\u00e3o ele leu alto para n\u00f3s. Seu modo de ler foi muito bonito. Ele criou tal gosto pela B\u00edblia que n\u00f3s tamb\u00e9m quisemos l\u00ea-la por conta pr\u00f3pria e, assim, anotamos as passagens que ele achava serem particularmente merecedoras de serem lidas.<\/p><p>Uma tarde fizemos uma grande algazarra. Fomos para a sala de m\u00fasica. Cada um pegou um instrumento musical, tambores, castanholas, pratos, tambura, violino, acorde\u00e3o e sinos, e cada um tocou do seu jeito! Krishnaji n\u00e3o foi menos barulhento. A situa\u00e7\u00e3o se acalmou um tempo depois e Krishnaji come\u00e7ou a cantar um dhoon, coro em geral de fundo religioso, e nos juntamos a ele.<\/p><p>A\u00ed Krishnaji recitou versos s\u00e2nscritos. Ele conhecia stotras (hinos de conhecidos trabalhos religiosos) de cor, e mantras (versos que evocam b\u00ean\u00e7\u00e3os espirituais de divindades escolhidas, ou que criam uma condi\u00e7\u00e3o meditativa) referindo-se a Agni (Deus do Fogo) e a adora\u00e7\u00e3o ritualista. Ele conhecia passagens do Geet Govinda (um longo e belo poema descritivo do poeta Jayadev sobre Krishna). Lembrou as li\u00e7\u00f5es dos leitores s\u00e2nscritos de Bhandarkar e repetiu de cor Rama, Ramo, Rama e Gama Gachcha (formas nominal e verbal de ir). Finalizamos com jazz e algumas m\u00fasicas da moda! Krishnaji cantou para n\u00f3s algumas can\u00e7\u00f5es que ouviu nas pe\u00e7as populares de seu tempo como \u2018Mary, Mary \u00e9 minha \u00fanica namorada.\u2019 Ele disse, \u201cNitya conhecia tudo isso de cor.\u201d<\/p><p>Tivemos um \u00faltimo jantar. Meu pai e Krishnaji conversaram sobre coisas absurdas e rimos com gosto. Depois do jantar a conversa foi mais s\u00e9ria e penetrante.<\/p><p>Sobre nacionalismo ele disse, \u201cO nacionalismo n\u00e3o pode fazer bem ao pa\u00eds. Atrav\u00e9s do patriotismo e do nacionalismo, n\u00f3s na \u00cdndia estamos tentando resistir aos ingleses. Talvez dev\u00eassemos ter o direito de legislar e decidir mas n\u00f3s n\u00e3o vamos nos libertar; porque com tal liberdade ainda continuaremos tendo a mente limitada, ortodoxa, fan\u00e1tica, supersticiosa e tir\u00e2nica e ainda permaneceremos exploradores. Hoje temos exploradores brancos e ent\u00e3o teremos exploradores pardos.\u201d<\/p><p>Meu irm\u00e3o Vikram interrompeu, \u201c\u00c9 melhor termos nossos pr\u00f3prios exploradores do que termos estranhos para nos explorar.\u201d<\/p><p>Krishnaji respondeu: \u201cN\u00e3o, absolutamente. Para mim \u00e9 a mesma coisa se um homem branco ou um pardo rouba meu neg\u00f3cio. No final, eu o perdi. Eu sentiria menos se um homem pardo o tirasse de mim? Este \u00e9 um sentimento meramente vazio.\u201d<\/p><p>A isto Vikram disse, \u201cVamos presumir que nosso povo \u00e9 tir\u00e2nico, fan\u00e1tico e ortodoxo, e que quando eles assumirem o poder ser\u00e3o at\u00e9 mais exploradores que os ingleses. Mas depois de um tempo eles aprender\u00e3o como dirigir e se desenvolver\u00e3o. Devemos primeiro expulsar os ingleses. Para isto devemos nos tornar patriotas e nacionalistas.\u201d<\/p><p>\u201cApenas expulsar os ingleses n\u00e3o vai melhorar as coisas. Devemos mudar nossas emo\u00e7\u00f5es, nossos pensamentos e nossa atitude. Nisto est\u00e1 a liberdade. Nacionalismo; detesto a palavra. Devia haver um Estado Mundial.\u201d<\/p><p>\u201cN\u00f3s n\u00e3o temos poder na \u00cdndia e n\u00e3o temos liberdade, como podemos ent\u00e3o formar um estado mundial?\u201d Vikram persistiu.<\/p><p>\u201cSe, atrav\u00e9s de um Governo Nacional se chega a um Estado Mundial ent\u00e3o isso devia ter sido alcan\u00e7ado na Europa h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. Ao contr\u00e1rio, vemos cada pa\u00eds com sua perspectiva estreita tentando fazer-se poderoso e preparando-se para a guerra. Se continuar assim, a Europa ser\u00e1 dominada pelas guerras e ser\u00e1 destru\u00edda. N\u00f3s tamb\u00e9m queremos cultivar este nacionalismo e trazer destrui\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds?\u201d<\/p><p>Meu pai acrescentou, \u201cComo podemos dizer que a \u00cdndia \u00e9 nosso pa\u00eds? Punjab, Gujarat, Madras e Bengala e todas estas prov\u00edncias est\u00e3o presentes no Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e s\u00e3o pintadas de vermelho nos mapas. Por que o Punjab n\u00e3o deveria ser um pa\u00eds separado assim como Gujarat tamb\u00e9m? Por que as pessoas destes dois pa\u00edses n\u00e3o deveriam desenvolver o nacionalismo? Por que n\u00e3o deveriam ter reinos separados e lutar entre si? Mesmo assim, quando expuls\u00e1ssemos os ingleses, tentar\u00edamos manter Gujarat e Punjab sob dom\u00ednio. Ser\u00e1 como o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, apenas uma vers\u00e3o menor de um Imp\u00e9rio.\u201d<\/p><p>Krishnaji disse, \u201cAlguns de nossos l\u00edderes parecem estar enganados ao tentar imitar os pol\u00edticos e economistas da Europa sem conhecerem as verdadeiras condi\u00e7\u00f5es da \u00cdndia. Eles parecem at\u00e9 n\u00e3o estar atualizados em suas id\u00e9ias. Cerca de cinq\u00fcenta anos atr\u00e1s isso que \u00e9 descartado como uma ideologia equivocada foi tomado como programa pol\u00edtico por n\u00f3s. Os problemas da \u00cdndia s\u00e3o diferentes. O modo de resolv\u00ea-los n\u00e3o \u00e9 imitar mas coordenar nossos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es e nos tornarmos uma entidade para a realiza\u00e7\u00e3o da liberdade.\u201d<\/p><p>\u201cSe nossa luta n\u00e3o est\u00e1 nos caminhos adequados, quais as medidas que voc\u00ea empregaria?\u201d<\/p><p>\u201cDaria passos no sentido de libertar-se do dogma, costume, supersti\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia. Despertaria pela educa\u00e7\u00e3o, livros e jornais.\u201d<\/p><p>Uma tarde meu pai e Krishnaji discutiram como eles planejariam a \u00cdndia se fossem ditadores. Eles pareciam concordar em muitos pontos: (1) Abolir as cren\u00e7as religiosas como s\u00e3o agora. Manter os templos como obras de arte e para us\u00e1-los como utilidade p\u00fablica. (2) Estabelecer um padr\u00e3o m\u00ednimo pelo qual todos teriam suficiente alimento, roupa e moradia. Ao mesmo tempo a pessoa teria amplo lazer. Seria escolha de cada um gastar ou acumular o que lhe fosse dado. Depois da morte de um avarento, suas economias iriam para o Estado. (3) Todos teriam oportunidade de serem educados e desenvolverem suas aptid\u00f5es ao m\u00e1ximo. Livros, filmes e teatros seriam largamente usados com este prop\u00f3sito. (4) Casamentos seriam permitidos mas a pessoa teria que tirar uma licen\u00e7a antes de tornar-se pai. Outros recorreriam ao controle da natalidade e \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Depois disso Krishnaji foi para seu quarto. Como ele estava com um s\u00e9rio resfriado, minha m\u00e3e e eu fomos atend\u00ea-lo. Tratamos dele com simples rem\u00e9dios caseiros como um escalda-p\u00e9s, gargarejos e inala\u00e7\u00e3o. Nos retiramos \u00e0s 11.00 ou 11.30 horas.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leena Sarabhai P\u00c1GINAS DE UM DI\u00c1RIO (1933-34) \u00a0 PREF\u00c1CIO Em 1933, J. Krishnamurti veio pela primeira vez a Ahmedabad onde ficou em \u201cThe Retreat\u201d (O Retiro), em Shahibaug, em nossa casa, com meus pais Shri Ambalal Sarabhai e Snit Sarladevi Sarabhai e nossa fam\u00edlia de cinco irm\u00e3s e tr\u00eas irm\u00e3os. 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