{"id":2198,"date":"2022-12-18T20:46:28","date_gmt":"2022-12-18T20:46:28","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2198"},"modified":"2022-12-18T20:47:07","modified_gmt":"2022-12-18T20:47:07","slug":"gary-m-deutsch","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2198","title":{"rendered":"Gary M. Deutsch"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"2198\" class=\"elementor elementor-2198\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4d94a9c6 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4d94a9c6\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-66c76385\" data-id=\"66c76385\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-42c47032 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"42c47032\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gary M. Deutsch<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\">KRISHNAMURTI \u2013 100 YEARS<\/p><p style=\"text-align: center;\">Evelyne Blau<\/p><p style=\"text-align: center;\">PARTE DOIS: O \u00daLTIMO PASSO<\/p><p>1985 foi um ano cheio para Krishnamurti como todos os anos tinham sido. Depois de sua estadia na \u00cdndia com o usual circuito de palestras ele voltou para Ojai. L\u00e1 ficou sob os cuidados de um novo m\u00e9dico, Gary Deutsch, da vizinha Santa Paula. Era bom ter ajuda especializada t\u00e3o a m\u00e3o assim como algu\u00e9m em quem ele tivesse grande confian\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: center;\">GARY M. DEUTSCH<\/p><p style=\"text-align: center;\">Cl\u00ednico de Krishnamurti, Santa Paula, Calif\u00f3rnia.<\/p><p style=\"text-align: center;\">NOTAS DE UM DI\u00c1RIO M\u00c9DICO<\/p><p style=\"text-align: center;\">21 de mar\u00e7o de 1985<\/p><p>Encontrei Krishnamurti pela primeira vez em meu consult\u00f3rio em Santa Paula, como fiz anteriormente com centenas de outros pacientes. Contudo, logo soube que este encontro n\u00e3o seria como nenhuma experi\u00eancia m\u00e9dico-paciente que eu tivesse tido. Um homem idoso, pequeno, de pele escura, parecendo mais novo que os declarados oitenta e nove anos seria sua descri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica padr\u00e3o. Depois de conversar com ele, ficou absolutamente evidente que este n\u00e3o era um paciente comum.<\/p><p>Fui \u201cpeneirado\u201d para ser o cl\u00ednico de Krishnamurti por sua guardi\u00e3 e amiga, Mary Zimbalist. Eu a tinha visto no m\u00eas anterior como nova paciente. Mal sabia eu que, enquanto a examinava, ela estava me \u201cexaminando\u201d. Devo ter sido aprovado, pois mais tarde nesse m\u00eas Krishnaji tornou-se meu mais novo paciente c\u00e9lebre. O que primeiro me surpreendeu foi quanto era delicado este homem. Eu nada sabia de seus ensinamentos ou textos e menos ainda de sua fama mundial. Isto mudou imediatamente quando fui compelido a aprender sobre o homem e seu trabalho. Tamb\u00e9m fiquei impressionado com a excelente condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do corpo de Krishnaji quando fiz seu exame f\u00edsico. Para um homem de oitenta e nove anos, ele tinha pele, cabelo e dentes not\u00e1veis. Atribu\u00ed isto a sua dieta vegetariana, ao meticuloso cuidado consigo mesmo, aos exerc\u00edcios vigorosos e ao sistema nervoso controlado, minimizando as press\u00f5es internas. Ele caminhava diariamente, utilizando exerc\u00edcios respirat\u00f3rios profundos.<\/p><p style=\"text-align: center;\">25 de abril de 1985<\/p><p>Krishnaji acabou de chegar de Nova Iorque depois de ter discursado nas Na\u00e7\u00f5es Unidas. Sua diabete n\u00e3o tinha sido bem controlada e a medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica foi ajustada em meu consult\u00f3rio. Ele parecia totalmente saud\u00e1vel e passou a maior parte da visita falando de Nova Iorque, motoristas de t\u00e1xi e autom\u00f3veis. Ele tinha particular interesse por autom\u00f3veis e como funcionavam, a estrutura, os modelos e a mec\u00e2nica. Perguntou-me que carro eu usava e respondi que era um Volvo 1982. Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a com satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: center;\">Maio de 1985<\/p><p>Li alguma coisa sobre Krishnaji, e minha esposa e eu fomos \u00e0s palestras de maio de 1985 em Oak Grove, Ojai. Nessa ocasi\u00e3o eu n\u00e3o podia imaginar que esta seria sua \u00faltima palestra l\u00e1. Achei sua escola e o ambiente sereno de Oak Grove tranq\u00fcilo e prop\u00edcio a pensamentos que datavam dos anos 70. Minha esposa Deborah e eu discutimos sua palestra no carro quando volt\u00e1vamos para casa. N\u00f3s dois consideramos seu estilo instigante do pensamento e intuitivo, mas muitos de seus pensamentos e ensinamentos n\u00e3o pareceram pr\u00e1ticos a n\u00f3s, um jovem m\u00e9dico e sua esposa criando tr\u00eas filhos nos turbulentos anos 80. Conjeturei que a pessoa precisava buscar nos vastos ensinamentos de Krishnamurti para descobrir suas necessidades e seu estilo de vida. O fato de estarmos falando sobre isto era um come\u00e7o.<\/p><p style=\"text-align: center;\">\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p><p style=\"text-align: center;\">30 de dezembro de 1985<\/p><p>Recebi um telefonema de Mary dizendo que Krishnaji estava muito doente na \u00cdndia e estaria chegando a Ojai em 13 de janeiro de 1986. Tomei provid\u00eancias para v\u00ea-lo em meu consult\u00f3rio nesse dia.<\/p><p style=\"text-align: center;\">13 de janeiro de 1986<\/p><p>K esteve doente durante seis meses na \u00cdndia e neste tempo perdeu aproximadamente cinco quilos. Passou a sentir-se um pouco melhor depois que chegou em casa mas estava obviamente exausto e tinha dificuldade de reter os alimentos. No exame, parecia estar diferente, pelo fato de sua cor n\u00e3o estar boa e a voz n\u00e3o estar vigorosa como antes. Testes de laborat\u00f3rio foram pedidos e as enzimas de seu f\u00edgado estavam extremamente elevadas, indicando ser esta uma condi\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria.<\/p><p style=\"text-align: center;\">22 de janeiro de 1986<\/p><p>Convenci Krishnamurti de que ele devia ficar no hospital para que tivesse alimenta\u00e7\u00e3o intravenosa e uma sonda g\u00e1strica fosse utilizada para diminuir a distens\u00e3o abdominal j\u00e1 que continuava com febre, v\u00f4mito e n\u00e3o conseguia comer. Ele aceitou ir para o\u00a0<em>Santa Paula Hospital<\/em>. Foi admitido na Unidade de Terapia Intensiva porque teria o melhor atendimento e estava muito doente. Inicialmente foi dif\u00edcil cuidar dele no ambiente de um hospital, pois ele n\u00e3o era um paciente comum. Era uma celebridade mundial, mas eu tinha que trat\u00e1-lo como qualquer outro paciente com os testes apropriados ao mesmo tempo que tentar mant\u00ea-lo o mais \u00e0 vontade poss\u00edvel. N\u00f3s o acomodamos na UTI e providenciamos que tanto Mary como Scott Forbes (de Brockwood Park) estivesse ao lado de sua cama 24 horas por dia. Fiquei compadecido pela devo\u00e7\u00e3o \u00f3bvia e o extremo amor que estas duas pessoas tinham por este homem. Nas pr\u00f3ximas seis semanas havia sempre um deles ao seu lado. Chamei v\u00e1rios especialistas incluindo cirurgi\u00e3o, oncologista, urologista, radiologista, pois n\u00e3o queria negligenciar nenhuma possibilidade. Pelos testes tornou-se \u00f3bvio que Krishnamurti tinha uma obstru\u00e7\u00e3o pancre\u00e1tica de um carcinoma primitivo. Seu exame de sangue para este diagn\u00f3stico estava extremamente elevado e n\u00e3o era necess\u00e1ria investiga\u00e7\u00e3o adicional. Este era um novo exame investigativo que tinha acabado de chegar ao mercado. Infelizmente n\u00e3o havia d\u00favida sobre o diagn\u00f3stico de carcinoma pancre\u00e1tico. Era um diagn\u00f3stico agourento j\u00e1 que n\u00e3o havia tratamento m\u00e9dico ou cir\u00fargico. Contudo, fiquei feliz que n\u00e3o fosse haver procedimentos invasivos posteriores pois sua toler\u00e2ncia ao hospital era extremamente prec\u00e1ria. Senti-me obrigado a proteg\u00ea-lo de exames investigativos adicionais e providenciei para que ele fosse transferido para casa logo que fosse poss\u00edvel com assist\u00eancia m\u00e9dica. Em 30 de janeiro de 1986 ele foi transferido para sua casa em Ojai fechando o c\u00edrculo onde havia iniciado seus ensinamentos nos Estados Unidos. Ele me disse antes de deixar o hospital que queria morrer em casa e n\u00e3o no ambiente de um hospital. Pediu-me que o mantivesse t\u00e3o confort\u00e1vel quanto poss\u00edvel e prometi-lhe que assim faria. Ele falava de seu corpo na terceira pessoa e n\u00e3o queria que ele sofresse qualquer dor.<\/p><p style=\"text-align: center;\">\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p><p style=\"text-align: center;\">31 de janeiro de 1986<\/p><p>A primeira das muitas chamadas em casa. Krishnaji ficou extremamente sonolento depois da transfer\u00eancia. Percebi ent\u00e3o que precisaria fazer frequentes visitas a Krishnaji em casa. Dezessete milhas separavam Santa Paula de Ojai e depois eu ainda percorria vinte milhas at\u00e9 minha casa em Ventura. Felizmente ficava numa via auxiliar e eu podia fazer esta parada no caminho de volta para casa. No entanto compreendi que veria menos minha fam\u00edlia nas pr\u00f3ximas semanas ou meses. Minha esposa gr\u00e1vida e os tr\u00eas filhos sempre foram compreensivos por viverem com um m\u00e9dico mas isto os colocaria \u00e0 prova realmente. Sabia que teria que fazer m\u00e1gica para me desdobrar entre o trabalho, a fam\u00edlia e a visitas domiciliares de modo que nada fosse negligenciado. Por\u00e9m, como sempre, minha vida familiar seria a parte mais sacrificada.<\/p><p style=\"text-align: center;\">1<u><sup>o<\/sup><\/u>\u00a0de fevereiro de 1986<\/p><p>K dormiu extremamente bem depois de ter sido medicado. Comecei a lhe dar suplementos de vitaminas na esperan\u00e7a de aumentar seu n\u00edvel de energia e ele de fato parecia bem desperto para ter uma confer\u00eancia com dois curadores indianos.. Ele estava extremamente l\u00facido durante a conversa e, na ocasi\u00e3o, pediu-me que mantivesse os procedimentos no n\u00edvel m\u00ednimo, evitando rem\u00e9dios a menos que fosse absolutamente necess\u00e1rio.<\/p><p style=\"text-align: center;\">2 de fevereiro de 1986<\/p><p>K estava totalmente energ\u00e9tico e desperto hoje. Dormiu a maior parte da noite sem nenhum sedativo artificial. Parecia estar bem hidratado com a IV e achei que a obstru\u00e7\u00e3o biliar devia ter melhorado. Mentalmente ele melhorou e foi encorajado a fazer algumas grava\u00e7\u00f5es. Sentou e utilizou seu gravador. Disse-me que estava muito satisfeito consigo mesmo depois das visitas dos amigos indianos. K foi para o lado de fora ontem com o acompanhante e assistente. Meditou durante trinta minutos. Teve duas horas de encontros com curadores e visitantes pela manh\u00e3. Falamos sobre o in\u00edcio de sua vida e sobre seu desejo de n\u00e3o viver mais se n\u00e3o pudesse continuar proferindo palestras e viajando. No entanto, disse que, n\u00e3o estando com dores no momento e se sentindo forte, queria continuar. Pediu-me que continuasse cuidando dele. N\u00f3s o lev\u00e1vamos para a sala de estar para receber as visitas, e para descansar no quarto grande.<\/p><p style=\"text-align: center;\">6 de fevereiro de 1986<\/p><p>K ficou muito fraco depois de ter um longo encontro com visitantes. Houve muitas l\u00e1grimas e as pessoas estavam completamente emocionadas. A casa de Krishnaji tinha uma magn\u00edfica sala de estar, que era de fato um grande \u201cquarto\u201d. Havia um telhado de viga aparente com ilumina\u00e7\u00e3o indireta, todo em branco. O teto e as paredes de madeira eram brancos com grandes janelas. O piso era de cer\u00e2mica italiana branca e a mob\u00edlia levemente colorida. Havia uma lareira do teto ao ch\u00e3o com magn\u00edficas estantes de livros e sistema de som \u201cstereo\u201d. Logo que entrei neste c\u00f4modo senti como se entrasse em algum tipo de templo sagrado. Era \u00f3bvio que Krishnaji sentia-se mais \u00e0 vontade neste lugar em frente \u00e0 lareira ouvindo m\u00fasica cl\u00e1ssica. Ele me disse \u201cele n\u00e3o podia continuar deste jeito como um cad\u00e1ver\u201d. Disse-lhe que pod\u00edamos lhe dar morfina devido ao seu desconforto.<\/p><p style=\"text-align: center;\">8 de fevereiro<\/p><p>K est\u00e1 ficando mais fraco a cada dia, incapaz agora de levantar os bra\u00e7os, mas sua mente continua notavelmente clara. Ele me contou hist\u00f3rias sobre o estado do mundo atual, guerras, superpopula\u00e7\u00e3o. Estava feliz por ter encerrado sua miss\u00e3o e agora s\u00f3 queria acabar sem dor. Afirmou n\u00e3o querer ser mantido vivo artificialmente, mas gostaria de partir pacificamente. Disse ent\u00e3o que deixaria para mim a decis\u00e3o de usar terapia IV mais tarde. Perguntei-lhe especificamente sobre tirar sua pr\u00f3pria vida e ele afirmou n\u00e3o querer morrer \u201cartificialmente\u201d mas fez uma restri\u00e7\u00e3o afirmando que n\u00e3o queria sofrer. Depois desta discuss\u00e3o extremamente intensa, ele come\u00e7ou a me contar piadas. Fiquei impressionado com o fato de que ele podia iluminar uma situa\u00e7\u00e3o com seu senso de humor.<\/p><p style=\"text-align: center;\">9 de fevereiro de 1986<\/p><p>K continua enfraquecendo. N\u00f3s o levamos para a sala na cadeira de rodas e isto parece aumentar sua moral. Ele ouve a Nona Sinfonia de Beethoven em frente \u00e0 lareira. Conversamos sobre sua inf\u00e2ncia como Br\u00e2mane.<\/p><p style=\"text-align: center;\">11 de fevereiro de 1986<\/p><p>K fica na sala agora por oito ou nove horas olhando o fogo, deitado no sof\u00e1. Fala menos agora e Mary disse que o processo do pensamento n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o agudo quanto antes. Depois de ver K hoje, achei-o muito mais fraco e ele pediu para n\u00e3o falar tanto. Parece estar ouvindo e observando enquanto os outros falam. Contou uma piada sobre atores e me surpreendeu que ele ainda tivesse um forte senso de humor. Tivemos uma interessante conversa sobre medicina homeop\u00e1tica e sobre a cura do c\u00e2ncer por charlat\u00f5es. K continua repetindo \u201cisto \u00e9 tudo um gr\u00e3o de sal\u201d. Perguntei a ele especificamente sobre cura de c\u00e2ncer e ele me disse que nunca ia querer quimioterapia ou algum outro tipo de tratamento agora. Fiz acordos para ficar com ele em regime de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva. Neste ponto percebi que o fim da vida deste homem extraordin\u00e1rio estava pr\u00f3ximo e eu queria ajud\u00e1-lo em tudo.<\/p><p style=\"text-align: center;\">12 de fevereiro de 1986<\/p><p>Tivemos uma longa discuss\u00e3o sobre tratamentos m\u00e9dicos adicionais. Ele afirmou que quer morrer e acho que est\u00e1 com a mente clara. Afirmou que n\u00e3o quer interven\u00e7\u00f5es adicionais. No entanto, permitiu que mantiv\u00e9ssemos o \u201cstatus quo\u201d com maior preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao seu conforto.<\/p><p style=\"text-align: center;\">14 de fevereiro de 1986<\/p><p>K teve mais dor esta noite. Hoje ele me contou v\u00e1rias hist\u00f3rias sobre animais. Uma vez, quando estava meditando na \u00cdndia, um macaco sentou ao lado dele e segurou-lhe a m\u00e3o. Ele disse que foi a m\u00e3o mais maravilhosa que ele havia sentido. Disse que seguiu um tigre de Bengala no Nepal. Foi o mais terr\u00edvel, magn\u00edfico animal que ele j\u00e1 vira. Perguntei ent\u00e3o se ele meditava quando estava na cama e ele disse, \u201csim\u201d, contando-me a origem da palavra \u201cmeditar\u201d. A palavra vem do grego \u201cmedir\u201d. Quando a pessoa medita n\u00e3o devia medir ou comparar com uma vida mais elevada ou um padr\u00e3o. Este pensamento usa energia, e meditar \u00e9 para guardar energia, n\u00e3o para consumi-la. Falou ent\u00e3o sobre Ansel Adams, Yosemite, e das belas montanhas que escalara. As favoritas eram no Himalaia. Enquanto convers\u00e1vamos uma tempestade caia sobre Ojai e sugeri que tiv\u00e9ssemos geradores el\u00e9tricos na casa como fonte de energia auxiliar para a IV e aquecedores.<\/p><p style=\"text-align: center;\">15 de fevereiro de 1986<\/p><p>K teve uma boa noite de sono com medicamentos. Acordou com febre de 39\u00ba. Perguntei-lhe alguns dias antes se gostava de ir ao cinema e, para minha surpresa, ele disse que gostava dos \u201cwesterns\u201d de Clint Eastwood. Fiquei totalmente assombrado, com todos os tiros e viol\u00eancia, mas ele disse que gostava de ver os cen\u00e1rios. Disse n\u00e3o gostar do romance e do car\u00e1ter s\u00e1dico do filme. Assim, hoje levei minha cole\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos com filmes de Clint Eastwood e ele ficou duas horas assistindo a\u00a0<em>The Outlaw Josie Wales.\u00a0<\/em>Ficou olhando com olhos fixos, gostando mas parecendo cansado no final, querendo dormir. Hoje ele est\u00e1 muito fraco, tremendo de febre \u00e0s vezes. Colocamos compressas frias. Anteriormente hav\u00edamos falado sobre Yosemite assim lhe trouxe \u201cslides\u201d das sequ\u00f3ias gigantes e das cachoeiras, que eu tinha de minha ultima viagem de f\u00e9rias. Ele pareceu gostar das fotos e dormiu o resto da manh\u00e3. Antes da minha sa\u00edda presenteou-me com um belo cachecol de seda indiana feito a m\u00e3o que antes ele tinha usado no pesco\u00e7o. Falou de Pupul, que estava encarregada de toda a ind\u00fastria de tecelagem na \u00cdndia. Falei com ela e Asit, seu sobrinho, sobre o progn\u00f3stico dele. Ela partiria para a \u00cdndia pela manh\u00e3. Assegurei a ela que ele ficaria confort\u00e1vel. Ela perguntou-me \u201cquanto tempo\u201d e eu respondi \u201calguns dias mas menos \u00e9 poss\u00edvel\u201d. Ela pareceu satisfeita com os cuidados prestados a ele e com minha resposta. Asit ent\u00e3o me presenteou com seu livro de fotos recentemente publicado com uma bela dedicat\u00f3ria escrita a m\u00e3o agradecendo-me por meu cuidado.<\/p><p style=\"text-align: center;\">16 de fevereiro de 1986<\/p><p>A dor come\u00e7ou de manh\u00e3 cedo. \u00c0 tarde ele pediu uma substancial dose de medica\u00e7\u00e3o. Depois passou a flutuar num sono intermitente. Quando a dor era mais intensa, K parecia ficar mais l\u00facido. Afirmou que n\u00e3o queria continuar assim. Percebi que ele n\u00e3o sobreviveria a outro dia com dor e eu estava muito preocupado com seu sofrimento, j\u00e1 que havia prometido a ele que n\u00e3o sentiria mais dor. Eu estava frustrado pois queria estar a seu lado mas achava que estava negligenciando minha fam\u00edlia pois ficava muito tempo ao lado de K. Era anivers\u00e1rio de Washington e este era o primeiro fim de semana livre que eu tinha nos \u00faltimos tempos. Minha esposa estava gr\u00e1vida de seis meses com tr\u00eas meninos e eu tinha vontade de estar com ela tamb\u00e9m. Contudo ela foi muito compreensiva e \u00e0s 9.30 daquele domingo fui para Ojai porque achei que este podia ser possivelmente o \u00faltimo dia de Krishnamurti conosco. Quando cheguei K estava num coma profundo apesar da medica\u00e7\u00e3o para dor estar desligada. K aquietou-se e sua respira\u00e7\u00e3o pareceu diminuir. Eu estava assombrado com quanto Krishnamurti era forte e atribu\u00ed isto ao seu corpo extremamente bem cuidado. Neste ponto, achei que ele n\u00e3o estava mais sentindo dor embora sua respira\u00e7\u00e3o e o pulso estivessem reduzidos. Mandei Patrick, o enfermeiro, chamar Mary na cozinha, pois sabia que ela gostaria de estar com ele no fim. Ele parou de respirar seis minutos depois da meia-noite e a \u00faltima pulsa\u00e7\u00e3o foi detectada aos dez minutos e quinze segundos, no in\u00edcio do dia 17 de fevereiro de 1986. Suavemente fechei seus olhos. Antes de sair Scott [Forbes] agradeceu-me e disse algo que sempre lembrarei; \u201cKrishnaji teve afei\u00e7\u00e3o especial por voc\u00ea como se tivesse feito de voc\u00ea seu \u00faltimo aluno.\u201d.<\/p><p style=\"text-align: center;\">17 de fevereiro de 1986<\/p><p>Krishnaji foi um grande mestre e no final aprendi muito com ele. Conforme o conhecia ele se tornava menos meu paciente e mais meu amigo. Nunca esquecerei esta experi\u00eancia, tanto como m\u00e9dico quanto como seu amigo. Depois de sua morte tive vontade de conhecer este homem num sentido mais profundo. Senti-me afortunado por t\u00ea-lo conhecido e continuarei me educando atrav\u00e9s de seus textos.<\/p><p style=\"text-align: center;\">ADDENDUM<\/p><p>Passaram j\u00e1 oito anos da morte de Krishnamurti. Sentado lendo minhas anota\u00e7\u00f5es de sua ficha m\u00e9dica, reflito sobre a experi\u00eancia de ter conhecido este homem extraordin\u00e1rio e seus seguidores. Desde sua morte, tenho ido v\u00e1rias vezes \u00e0 sua biblioteca e tenho lido e relido seus ensinamentos. Continuo a ver Mary como paciente e amiga e ela me mant\u00e9m a par dos acontecimentos na\u00a0<em>Krishnamurti Foundation.\u00a0<\/em>Colocando isto em palavras escritas, sinto-me afortunado por lembrar sentimentos que tive durante este curto espa\u00e7o de tempo e sou eternamente grato pelo privil\u00e9gio de ter conhecido e cuidado de um indiv\u00edduo t\u00e3o gentil e profundo. Sua lembran\u00e7a e ensinamentos estar\u00e3o em minha mente e cora\u00e7\u00e3o para sempre. T\u00ea-lo conhecido fez de mim uma pessoa melhor.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gary M. Deutsch KRISHNAMURTI \u2013 100 YEARS Evelyne Blau PARTE DOIS: O \u00daLTIMO PASSO 1985 foi um ano cheio para Krishnamurti como todos os anos tinham sido. Depois de sua estadia na \u00cdndia com o usual circuito de palestras ele voltou para Ojai. L\u00e1 ficou sob os cuidados de um novo m\u00e9dico, Gary Deutsch, da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2198","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2198"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2205,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/2198\/revisions\/2205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}