{"id":2189,"date":"2022-12-18T20:44:57","date_gmt":"2022-12-18T20:44:57","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2189"},"modified":"2022-12-18T20:45:22","modified_gmt":"2022-12-18T20:45:22","slug":"friedrich-grohe-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=2189","title":{"rendered":"Friedrich Grohe 2"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"2189\" class=\"elementor elementor-2189\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-76fc510e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"76fc510e\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-74f0afa4\" data-id=\"74f0afa4\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-512f619a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"512f619a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Friedrich Grohe &#8211; 2<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>A BELEZA DA MONTANHA<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0\u00a0Lembran\u00e7as de Krishnamurti<\/strong><\/p><p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p><p><strong>PREF\u00c1CIO<\/strong><\/p><p>Estas lembran\u00e7as de Krishnamurti, ou \u201cK\u201d como ele muitas vezes referia-se a si mesmo, compreendem os tr\u00eas \u00faltimos anos de sua vida, durante os quais convivi pessoalmente com ele. A maioria das pessoas conhece Krishnamurti atrav\u00e9s de seus livros e fitas, ou por terem assistido \u00e0s palestras p\u00fablicas que ele costumava fazer pelo mundo. V\u00e1rias vezes K disse sobre si mesmo:\u00a0<em>A pessoa n\u00e3o \u00e9 importante, mas o que ela diz \u00e9.<\/em>\u00a0Mesmo assim, encontrei muitas pessoas ardentemente interessadas em saber como ele levava sua vida di\u00e1ria. Por isso gostaria de lembrar aqui eventos aparentemente insignificantes que, contudo, podem mostrar que este extraordin\u00e1rio ser humano de fato viveu os chamados \u201cEnsinamentos\u201d.<\/p><p>Os Ensinamentos cont\u00e9m grande beleza, e a beleza s\u00f3 pode existir quando o \u201cego\u201d est\u00e1 ausente \u2013 como K freq\u00fcentemente apontou. Assim, ele mesmo era sem \u201ceu\u201d.<\/p><p>Gostaria de citar aqui uma passagem do livro<em>\u00a0Questions and Answers<\/em>:<\/p><p><em>\u201cPergunta:<\/em><\/p><p><em>\u00a0Entendi as coisas que discutimos aqui durante estes encontros, mesmo que s\u00f3 intelectualmente. Acho que s\u00e3o verdadeiras num sentido profundo. Agora, quando voltar para meu pa\u00eds, devo falar sobre seus ensinamentos com amigos? Ou, desde que sou ainda um ser humano fragmentado, apenas provocarei mais confus\u00e3o e preju\u00edzo falando sobre eles?<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>Krishnamurti:<\/em><\/p><p><em>Toda prega\u00e7\u00e3o religiosa dos sacerdotes, dos gurus \u00e9 divulgada por seres humanos fragmentados. Embora digam, \u201cSomos seres humanos superiores\u201d, eles s\u00e3o ainda seres humanos fragmentados. E o interrogante diz: \u201cDe algum modo entendi o que voc\u00ea diz, parcialmente, n\u00e3o completamente; n\u00e3o sou um ser humano transformado. Entendo, e quero falar para outros o que entendi. N\u00e3o digo que entendi o todo, entendi uma parte. Sei que \u00e9 fragmentado, sei que n\u00e3o est\u00e1 completo, n\u00e3o estou interpretando os ensinamentos, estou apenas informando o que entendi.\u201d Bem, o que h\u00e1 de errado nisso? Mas se voc\u00ea diz: \u201cCompreendi o todo completamente e estou lhe contando\u201d \u2013 a\u00ed voc\u00ea se torna uma autoridade, o int\u00e9rprete; tal pessoa \u00e9 um perigo, ela corrompe outras pessoas. Mas se vi algo que \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o estou iludido; \u00e9 verdade e nisto h\u00e1 uma certa afei\u00e7\u00e3o, amor, compaix\u00e3o; sinto isso muito fortemente \u2013 ent\u00e3o naturalmente eu n\u00e3o posso evitar \u00a0falar para outros; seria bobagem dizer que n\u00e3o o farei. Mas previno meus amigos, digo, \u201cOlhem, tenham cuidado, n\u00e3o me coloquem num pedestal\u201d. O orador n\u00e3o est\u00e1 num pedestal. Este pedestal, esta plataforma, \u00e9 s\u00f3 por conveni\u00eancia; n\u00e3o lhe confere nenhuma autoridade. Mas como o mundo \u00e9, os seres humanos est\u00e3o ligados a uma coisa ou outra \u2013 a uma cren\u00e7a, a uma pessoa, a uma id\u00e9ia, uma ilus\u00e3o, um dogma \u2013 assim eles s\u00e3o corrompidos; e o corrompido fala e n\u00f3s, estando tamb\u00e9m de algum modo corrompidos, nos juntamos \u00e0 multid\u00e3o.<\/em><\/p><p>Vendo a beleza destas montanhas, o rio, a extraordin\u00e1ria tranq\u00fcilidade de uma nova manh\u00e3, o contorno das montanhas, os vales, as sombras, como tudo est\u00e1 em propor\u00e7\u00e3o, vendo tudo isso, voc\u00ea n\u00e3o escrever\u00e1 para seus amigos dizendo, \u201cVenham aqui, vejam isto\u201d? Voc\u00ea n\u00e3o estar\u00e1 interessado em si mesmo mas apenas na beleza da montanha.\u201d<\/p><p>Nessas reminisc\u00eancias, gostaria de partilhar com meus amigos, e com quem mais possa estar interessado,\u00a0<em>a beleza da montanha.<\/em><\/p><p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p><p>Durante um per\u00edodo de mais de setenta anos Krishnamurti proferiu milhares de palestras p\u00fablicas e debates em muitos pa\u00edses mas nunca disse uma palavra em excesso. Seu discurso era preciso e claro, e sua apar\u00eancia elegante e bem cuidada. Ele era basicamente reservado, ou como algumas vezes observou, t\u00edmido. No entanto, daria toda sua aten\u00e7\u00e3o a quem quer que se dirigisse a ele, se interessando por todos os aspectos e detalhes. Seu amor pelas pessoas significava que qualquer um podia aproximar-se dele.<\/p><p>Desde 1983 \u2013 quando o conheci \u2013 estive em contato regular com ele, acompanhando-o em alguns de seus passeios e indo com ele em sua \u00faltima viagem \u00e0 \u00cdndia; nos encontr\u00e1vamos em Brockwood Park, Saanen e Ojai regularmente. Em Brockwood ele providenciou que eu tivesse um quarto na chamada \u201cWest Wing\u201d (Ala Oeste), a parte do complexo da escola em que ele mesmo vivia.<\/p><p>Desde que foi criada em 1969, K passava cerca de quatro meses por ano em Brockwood Park. Porque ele tinha um profundo interesse em iniciar um centro de estudos para adultos ali, gostaria de citar sua declara\u00e7\u00e3o sobre o significado de Brockwood Park e do futuro centro.<\/p><p><strong>Brockwood hoje e no futuro<\/strong><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>H\u00e1 quatorze anos Brockwood \u00e9 uma escola. Come\u00e7ou com muitas dificuldades, falta de dinheiro, e assim por diante, e todos n\u00f3s ajudamos a constru\u00ed-la at\u00e9 a presente condi\u00e7\u00e3o. T\u00eam havido encontros todos os anos, semin\u00e1rios e todas as atividades de grava\u00e7\u00e3o de \u00e1udios e v\u00eddeos. Chegamos ao ponto n\u00e3o s\u00f3 de avaliarmos o que estamos fazendo mas tamb\u00e9m de fazermos de Brockwood mais do que uma escola. Embora tenhamos nos encontrado nos \u00faltimos vinte e dois anos durante um m\u00eas e pouco em Saanen, Brockwood \u00e9 o lugar em que K despende mais tempo e energia. A escola tem uma boa reputa\u00e7\u00e3o e a sra. Dorothy Simmons colocou nela sua maior energia, sua paix\u00e3o. Todos n\u00f3s ajudamos a construir a escola apesar de grandes dificuldades, tanto financeiras quanto psicol\u00f3gicas.<\/em><\/p><p><em>Agora Brockwood deve ser mais do que uma escola. Deve ser um centro para aqueles que est\u00e3o profundamente interessados nos Ensinamentos, um lugar onde podem ficar e estudar.<\/em><\/p><p><em>Antigamente um \u201cashrama\u201d \u2013 que significa retiro \u2013 era um lugar aonde as pessoas iam para acumular suas energias, morar e explorar aspectos religiosos mais profundos da vida. Lugares modernos deste tipo geralmente t\u00eam algum tipo de l\u00edder, guru, abade ou patriarca que guia, interpreta e domina. Brockwood n\u00e3o deve ter tal l\u00edder ou guru, porque os pr\u00f3prios Ensinamentos s\u00e3o a express\u00e3o desta verdade que as pessoas s\u00e9rias devem descobrir por si mesmas. O culto pessoal n\u00e3o tem lugar aqui. Temos que enfatizar este fato.<\/em><\/p><p><em>Infelizmente nossos c\u00e9rebros s\u00e3o t\u00e3o condicionados e limitados pela cultura, a tradi\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o que nossas energias ficam encarceradas. N\u00f3s ca\u00edmos em rotinas confort\u00e1veis e nos tornamos psicologicamente in\u00fateis. Para compensar gastamos nossas energias com interesses materiais e atividades egoc\u00eantricas. Brockwood n\u00e3o deve se render a esta tradi\u00e7\u00e3o batida. Brockwood \u00e9 um lugar de aprendizagem, de aprender a arte de questionar, a arte de explorar. \u00c9 um lugar que demanda o despertar da intelig\u00eancia que surge com a compaix\u00e3o e o amor.<\/em><\/p><p>N\u00e3o deve se tornar uma comunidade exclusiva. Geralmente comunidade implica alguma coisa separada, sect\u00e1ria e fechada em prop\u00f3sitos idealistas e ut\u00f3picos. Brockwood deve ser um lugar de integridade, profunda honestidade e do despertar da intelig\u00eancia em meio da confus\u00e3o, do conflito e da destrui\u00e7\u00e3o que acontecem no mundo. E isso n\u00e3o depende de qualquer pessoa ou grupo mas da consci\u00eancia, da aten\u00e7\u00e3o, do afeto das pessoas que l\u00e1 est\u00e3o.<\/p><p><em>Tudo isso depende das pessoas que vivem em Brockwood e dos curadores da Funda\u00e7\u00e3o Krishnamurti. \u00c9 deles a responsabilidade de produzir isso.<\/em><\/p><p><em>Assim cada um tem que contribuir. Isso n\u00e3o se aplica apenas a Brockwood mas a todas as outras Funda\u00e7\u00f5es Krishnamurti. Parece-me que se pode estar perdendo tudo isso de vista, ficando-se envolvidos profundamente por diversas atividades, presos em interesses particulares de modo que n\u00e3o se tem tempo nem disposi\u00e7\u00e3o para se interessar profundamente pelos Ensinamentos. Se este interesse n\u00e3o existe, as Funda\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam significado. A pessoa pode falar indefinidamente sobre o que s\u00e3o os Ensinamentos, explicar, interpretar, comparar e avaliar mas tudo se torna superficial e realmente sem significado se a pessoa n\u00e3o est\u00e1 de fato vivendo os Ensinamentos. Continuar\u00e1 a ser responsabilidade dos curadores decidir que forma Brockwood ter\u00e1 no futuro, mas Brockwood dever\u00e1 ser sempre o lugar onde a integridade pode florescer. Brockwood \u00e9 um belo lugar com antigas e magn\u00edficas \u00e1rvores, cercado por campos, prados, bosques e a quietude do interior. Deve ser sempre mantido assim pois beleza \u00e9 integridade, bondade e verdade.<\/em><\/p><ol><li><em> Krishnamurti<\/em><\/li><\/ol><p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1983<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><strong>PRIMEIROS ENCONTROS COM K<\/strong><\/p><p><strong>\u00a0<\/strong><\/p><p>Foi em 1980 que li pela primeira vez um livro de Krishnamurti,\u00a0<em>A Quest\u00e3o do Imposs\u00edvel.<\/em><\/p><p>Embora eu ache que Krishnamurti n\u00e3o pode ser lido como se l\u00ea uma novela, n\u00e3o pude larg\u00e1-lo. Ele parecia dizer o oposto do que se aprendeu e experimentou. Parece termos sentido antes vagamente o que ele expressa ali em linguagem clara, simples e irresist\u00edvel.<\/p><p>Embora em 1981 eu soubesse que Krishnamurti costumava dar palestras p\u00fablicas todo ano em Saanen, Su\u00ed\u00e7a, n\u00e3o tinha vontade de assisti-las j\u00e1 que estava bastante satisfeito apenas estudando seus livros. De fato, perdi o interesse em filosofia, psicologia, literatura, arte, que um dia me cativaram, porque de repente percebi: \u201c\u00c9 isso!\u201d Os livros de outras pessoas simplesmente tornaram-se sup\u00e9rfluos.<\/p><p>Este foi um tempo de grandes mudan\u00e7as para mim. Al\u00e9m de outras coisas, estava prestes a me retirar da vida de neg\u00f3cios. Antes eu n\u00e3o tinha muito tempo para encarar quest\u00f5es essenciais<\/p><p>Mas agora, de uma vez s\u00f3, K tornou claro para mim a import\u00e2ncia de interessar-se por assuntos b\u00e1sicos como amor e morte, prazer e dor, liberdade, desejo e medo. Quanto mais eu explorava os ensinamentos, mais fascinantes eles se tornavam.<\/p><p>Fui pela primeira vez \u00e0s palestras de Saanen em 1983. Sentado nos degraus que levavam \u00e0 tenda gigantesca onde cerca de duas mil pessoas se reuniam, eu ouviria K. Aqui, sob a barraca, eu estava protegido do calor e ainda podia aproveitar a brisa fresca. Como eu em geral vinha caminhando desde Rougemont, o que levava cerca de uma hora e meia, e chegava logo antes das palestras come\u00e7arem, podia usar a entrada lateral e n\u00e3o tinha que sentar entre a multid\u00e3o. Bem em frente ao tablado de onde K falava, as pessoas ficavam sentadas de pernas encolhidas e apertadas umas contra as outras; cada polegada de espa\u00e7o era altamente valorizada. Em Saanen e Brockwood as pessoas ficavam a noite inteira na fila em frente da tenda para serem as primeiras a entrar. Nos Estados Unidos e na \u00cdndia era um pouco mais calmo.<\/p><p>Este primeiro ver\u00e3o foi t\u00e3o quente que no meu caminho de volta para Rougemont tomava banho no rio Fenilbach que normalmente estaria muito frio para que isso fosse poss\u00edvel. Na tenda podia-se comprar livros de K traduzidos em v\u00e1rias l\u00ednguas, e fiquei feliz ao encher minha mochila com eles. Era subjugante ouvi-lo. Ele emanava tanta energia que eu simplesmente n\u00e3o podia sentar diretamente em frente a ele. Ele falava simples e claramente, com poucos gestos e sem ret\u00f3rica. Ouvindo-o eu esquecia comida e bebida e nem notava o calor. Durante uma palestra, percebi um jovem excitado caminhando entre as filas de pessoas. Ele abordou uma senhora que usava um colar com um retrato do guru Rajneesh (\u201cBhagwan\u201d) e desdenhosamente sacudiu-o. Passou ent\u00e3o em frente a K e continuou chutando os ventiladores que ficavam ao longo da tenda. Conforme se aproximava de mim, gesticulava para que eu sa\u00edsse do seu caminho. Esperando um chute, eu me esquivei embora nada tenha ocorrido. Praguejando, caminhou at\u00e9 K e pegou o microfone e dirigindo-se a K e \u00e0 multid\u00e3o, falou em alem\u00e3o:\u00a0<em>Os seguidores do Rajneesh devem sair, eles n\u00e3o s\u00e3o bem vindos aqui.<\/em>\u00a0Virando-se diretamente para Krishnamurti, ele perguntou-lhe:\u00a0<em>N\u00e3o estou certo, senhor Krishnamurti? O senhor acha isso tamb\u00e9m?\u00a0<\/em>\u00a0O homem parecia extremamente agitado, at\u00e9 perigoso. Algumas pessoas da fila da frente recuaram, e um homem enorme que parecia um boxeur estava a ponto de se atirar sobre ele. Uma atmosfera de extrema viol\u00eancia espalhou-se na tenda provocando tumulto. Mas neste exato momento, K interferiu dizendo:\u00a0<em>N\u00e3o toque nele!<\/em>\u00a0Aparentemente o intruso gostou e repetiu v\u00e1rias vezes;<\/p><p><em>N\u00e3o toque nele, n\u00e3o toque nele.<\/em>\u00a0Krishnamurti acenou na dire\u00e7\u00e3o dele, e o homem finalmente se acalmou e deixou a tenda depois de resmungar mais algumas palavras. K continuou a palestra como se nada houvesse acontecido.<\/p><p>Um fato semelhante aconteceu durante uma de suas palestras em Ojai quando uma jovem saltou sobre a plataforma onde Krishnamurti estava. Ele ficou surpreso mas imediatamente se controlou e disse a ela que, se ficasse quieta, ele n\u00e3o se importaria que ela sentasse perto dele na plataforma. Ela de fato ficou quieta, de vez em quando girando a cabe\u00e7a e fazendo trejeitos enquanto K continuava a palestra. No final, ele se inclinou para ela e disse:\u00a0<em>Acabou.<\/em><\/p><p>A primeira vez que fui \u00e0s palestras em Saanen ainda n\u00e3o tinha tido contato com as funda\u00e7\u00f5es Krishnamurti ou com as escolas. Logo depois desta primeira visita, li uma declara\u00e7\u00e3o em outro livro de Krishnamurti,\u00a0<em>Education and the Significance of Life,<\/em>\u00a0que dizia em ess\u00eancia:\u00a0<em>Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 satisfeito com as escolas existentes, por que n\u00e3o come\u00e7a sua pr\u00f3pria?<\/em>\u00a0Isso me deu a id\u00e9ia de iniciar uma escola na Su\u00ed\u00e7a. Pensei que o pa\u00eds em que os grandes educadores Pestalozzi e J.J.Rousseau haviam atuado seria o lugar adequado para isso. Entrei em contato com o Comit\u00ea Krishnamurti em Genebra e soube que uma professora de Brockwood estava voltando para sua Su\u00ed\u00e7a natal nesta ocasi\u00e3o. Entrei em contato com ela, e logo depois ela e eu, juntos com v\u00e1rios outros amigos dela que tamb\u00e9m se interessaram pelo projeto, come\u00e7amos a procurar um pr\u00e9dio adequado para uma escola. Encontramos um lugar muito interessante em Chandolin, no Valais. Era um hotel antigo, bem preservado, lindamente localizado com uma vista de Matterhorn, e espa\u00e7oso o suficiente para abrigar cinq\u00fcenta ou sessenta alunos. Durante as palestras de Saanen em 1983, K soube do projeto e pediu para encontrar comigo. Assim, depois da palestra fui para o Chalet Tannegg, em Gstaad onde ele ficava. Nos encontramos em 1 de agosto de 1983. Como sabia que K dava uma aten\u00e7\u00e3o especial a sua apar\u00eancia, fui bem barbeado e bem vestido. Porque as tardes eram muito quentes, pedi que a reuni\u00e3o fosse pela manh\u00e3. Quando nos encontramos, no entanto, ele estava ainda com uma roupa simples de esporte, pela qual se desculpou. Nesta ocasi\u00e3o percebi que K podia chegar num lugar calma e silenciosamente, quase sem ser notado. No seu jeito cuidadoso, perguntou sobre minha vida. Rimos e falamos sobre alpinismo \u2013 eu era um alpinista entusiasmado \u2013 e sobre v\u00e1rias outras coisas.<\/p><p>Mostrando a paisagem do lado de fora, eu disse:\u00a0<em>Escalei todos estes picos.<\/em>\u00a0Ele, mostrando as florestas e colinas, disse:\u00a0<em>E eu estive em todas as trilhas destes bosques.<\/em>\u00a0Quando eu disse que as montanhas eram muito mais bonitas de baixo do que do alto, ele respondeu com um entusi\u00e1stico\u00a0<em>Sim!<\/em><\/p><p>Ele me perguntou se eu descia a montanha verticalmente ou em ziguezague. Ficou impressionado quando contei que algumas vezes descia verticalmente. Ele disse que quando era jovem gostaria de ter esquiado mas n\u00e3o lhe permitiram pois consideravam este esporte muito perigoso para ele. No entanto, praticou outros esportes. Na juventude jogou t\u00eanis, era especialista em golfe, caminhadas, ciclismo e nata\u00e7\u00e3o. Mais tarde, praticaria caminhadas r\u00e1pidas todos os dias. E por toda vida praticou ioga; em seu \u00faltimo m\u00eas de vida, seu cozinheiro indiano se alegrava cada vez que via K fazendo seus exerc\u00edcios de ioga, o que demonstrava que ele havia ganho um pouco de energia.<\/p><p>Quando jovem, ele havia visitado Davos com alguns amigos holandeses, e em Adelboden morou numa cabana na montanha durante algum tempo. Costumava quebrar o gelo do po\u00e7o todo dia para se lavar, at\u00e9 que contraiu bronquite. Ele me contou que uma vez na Calif\u00f3rnia ficou sozinho numa cabana. L\u00e1 havia um gramofone e um \u00fanico disco, a Nona Sinfonia de Beethoven. Todo dia ele ouvia, at\u00e9 que sabia tudo de cor. Costumava ser muito receptivo \u00e0 m\u00fasica e gostava particularmente de Beethoven e Mozart, da can\u00e7\u00e3o s\u00e2nscrita e da m\u00fasica cl\u00e1ssica moderna.<\/p><p>Quando pessoas chegavam na cabana e perguntavam sobre o santo que vivia ali, ele dizia que ele havia acabado de sair.<\/p><p>K tinha grande senso de humor, como testemunhei em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Ele se divertiu, por exemplo, quando lhe falei que nossa firma produzia torneiras sanit\u00e1rias. Eu lhe disse como era dif\u00edcil conseguir que a equipe de trabalho cooperasse e como eu queria que houvesse rela\u00e7\u00f5es amistosas entre os colegas. K respondeu:\u00a0<em>Voc\u00ea sabe como \u00e9 dif\u00edcil conseguir que as pessoas cooperem?<\/em>\u00a0Logo descobri que mesmo nas funda\u00e7\u00f5es as pessoas tinham dificuldades de trabalhar juntas. E eu ainda n\u00e3o sabia nada sobre os problemas nas escolas de Ojai, Brockwood e \u00cdndia.<\/p><p>Quando falamos sobre a escola que eu queria come\u00e7ar na Su\u00ed\u00e7a, K apontou:\u00a0<em>\u00c9 muito dif\u00edcil come\u00e7ar uma escola. N\u00f3s tentamos na Su\u00ed\u00e7a, na Holanda e na Fran\u00e7a, mas n\u00e3o tivemos sucesso at\u00e9 encontrarmos Brockwood. A Inglaterra, com seu sistema de ensino liberal, mostrou-se o pa\u00eds mais adequado. Escolas sempre precisam de dinheiro!\u00a0<\/em>Respondi<em>, Bem, espero n\u00e3o estar jogando meu dinheiro pela janela.\u00a0<\/em>K riu sinceramente.<\/p><p>A quest\u00e3o de como realizar algo bom atrav\u00e9s do uso correto do dinheiro ocupou minha mente por algum tempo. Depois das devidas considera\u00e7\u00f5es, ficou claro para mim que organiza\u00e7\u00f5es sociais e ecol\u00f3gicas eram muito limitadas na sua capacidade de produzir uma mudan\u00e7a fundamental. Mesmo medidas econ\u00f4micas ou pol\u00edticas n\u00e3o pareciam capazes de prevenir significativamente a destrui\u00e7\u00e3o da terra pela humanidade. A \u00fanica possibilidade era uma mudan\u00e7a profunda na psique humana, junto com o tipo certo de educa\u00e7\u00e3o. Era esta a inten\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias escolas de K. Portanto, quando perguntei a K se ele achava que o dinheiro faria algum bem, sua resposta simples me surpreendeu.\u00a0<em>Sabe, um dia uma pessoa me deu algum dinheiro, e com este dinheiro compramos Brockwood Park<\/em>.<\/p><p>Embora K tenha me prevenido sobre o projeto da escola, continuamos com nossos planos. Mas era dif\u00edcil encontrar professores, e dificilmente havia perspectiva de alunos. Visitamos Brockwood nesta ocasi\u00e3o e, durante o almo\u00e7o, mostrei a K algumas fotografias de Chandolin. De repente ele se virou para a professora su\u00ed\u00e7a e perguntou, apontando para mim:\u00a0<em>Ele \u00e9 o dinheiro. Voc\u00ea construiria uma escola sem ele?\u00a0<\/em>Ela n\u00e3o pode dar uma resposta clara. Ent\u00e3o ele virou-se para mim e perguntou:\u00a0<em>Voc\u00ea tem os professores certos, os alunos certos e os pais certos?<\/em>\u00a0Neste momento, as coisas assumiram sua dimens\u00e3o. N\u00e3o t\u00ednhamos nada disso. Ficou claro para mim, ent\u00e3o, que n\u00e3o fazia sentido come\u00e7ar uma escola nova quando j\u00e1 havia escolas das funda\u00e7\u00f5es Krishnamurti na Inglaterra, \u00cdndia e Estados Unidos. Estas ele visitava regularmente, investindo muito tempo e energia nelas. Percebi que era muito mais importante ajudar as escolas existentes em suas dificuldades financeiras e outras do que come\u00e7ar novas.<\/p><p>Al\u00e9m de dar palestras p\u00fablicas para milhares de pessoas, K conversava regularmente com alunos, professores e equipes das escolas e funda\u00e7\u00f5es, individualmente ou em grupos. Ele tinha extraordin\u00e1ria habilidade para resolver problemas pr\u00e1ticos, tendo muito cuidado com detalhes. Sabia exatamente onde estava a causa real dos problemas. Eu lhe disse certa vez que ele teria sido um excelente empres\u00e1rio, se houvesse optado pelos neg\u00f3cios. Ele riu.<\/p><p>Esta troca ocorreu depois que o conheci um pouco melhor. Mas mesmo durante nossos primeiros encontros, ele mostrava ser flex\u00edvel, uma pessoa de mente aberta, com grande senso de humor; um homem modesto e de genu\u00edna bondade. Eu estava muito interessado em como uma pessoa com \u201cinsights\u201d t\u00e3o esmagadores vivia sua vida di\u00e1ria, que tipo de pessoa era ele. Ele n\u00e3o tinha aborrecimentos e anseios? Nunca ficava furioso, violento ou angustiado? N\u00e3o dava para imaginar como um ser humano sem ego \u2013 como ele \u2013 podia viver neste mundo. Mary Lutyens, que o conhecia desde quase toda sua vida e que era sua biografa autorizada, n\u00e3o foi capaz de responder a pergunta sobre quem ele de fato era. Se perguntado diretamente ele diria:<em>\u00a0N\u00e3o sei, mas voc\u00ea pode descobrir.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><strong>VISITA A BUCHILLON<\/strong><\/p><p>Em agosto de 1983, K visitou-me em Buchillon em seu caminho entre Saanen e o aeroporto de Genebra. Nos encontramos no belo p\u00e1tio do Chateau Allaman, com suas magn\u00edficas \u00e1rvores. K entrou em meu carro, enquanto Mary Zimbalist e o doutor Pachure, que o acompanhavam, nos seguiram no carro deles. Dirigindo para Buchillon, tinha a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o havia ningu\u00e9m a meu lado. V\u00e1rias pessoas me disseram depois que tinham tido experi\u00eancias semelhantes com K. Depois disso, todas as vezes que ele declarou:<em>\u00a0N\u00e3o sou ningu\u00e9m,<\/em>\u00a0lembrava-me deste incidente.<\/p><p>Nesta ocasi\u00e3o conversei com ele, embora sentisse que de algum modo eu o estava perturbando. Quando perguntei se ele conhecia esta regi\u00e3o, imediatamente respondeu. No entanto, tive a sensa\u00e7\u00e3o de que ele havia voltado de um lugar remoto para responder.<\/p><p>Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es K observou que dificilmente tinha lembran\u00e7as do passado, e que n\u00e3o carregar este fardo lhe dava tremenda energia. Em Rishi Valley encontramos um velhinho que insistia que conhecia K h\u00e1 muitos anos. K n\u00e3o lembrava dele e depois me disse:\u00a0<em>Tout le monde conna\u00eet le singe, mais le singe ne conna\u00eet personne. (Todos conhecem o macaco, mas o macaco n\u00e3o conhece ningu\u00e9m.)<\/em><\/p><p>Depois de chegarmos a Buchillon, fomos at\u00e9 o Lago. K parou na trilha entre as \u00e1rvores, escutou, e disse:\u00a0<em>Sil\u00eancio.<\/em>\u00a0Ele provavelmente estava se referindo apenas ao sil\u00eancio exterior. A\u00ed, tamb\u00e9m, ele pegou um galho quebrado no caminho e cuidadosamente colocou-o de lado. Deu uma olhada no sistema de irriga\u00e7\u00e3o e imediatamente percebeu como funcionava. Tamb\u00e9m identificou a Arauc\u00e1ria em frente da casa, mesmo ela sendo bastante ex\u00f3tica, e mostrou para Mary as particularmente belas pet\u00fanias que eu cultivava na jardineira. Na margem do lago, ele me disse que muitos anos atr\u00e1s ele e seu irm\u00e3o haviam passado um feriado em Amphion, na outra margem, entre Thonon e Evian. O hotel em que ficaram n\u00e3o era muito confort\u00e1vel. N\u00e3o havia nem mesmo \u00e1gua quente suficiente para que eles se aquecessem depois de nadarem no lago gelado. K admitiu que esta foi a causa de seu irm\u00e3o ter contra\u00eddo a tuberculose que finalmente levou-o a morte em Ojai em 1925.<\/p><p>Um ano depois, em seu caminho para Saanen, K parou para almo\u00e7ar em Buchillon. Quando entrou na sala de refei\u00e7\u00f5es, exclamou:\u00a0<em>Huh!<\/em>\u00a0E cobriu os olhos por um momento. Havia v\u00e1rias pinturas com cores fortes nas paredes. Durante o almo\u00e7o ele olhou cuidadosamente um quadro pendurado na parede em frente a ele. O que quer que K olhasse, fazia-o intensamente e por longo tempo. Ele me contou como, antes da guerra, em Paris, lhe foi mostrado o quadro\u00a0<em>Guernica<\/em>\u00a0de Picasso. Depois de observ\u00e1-lo por longo tempo, perguntou:<em>\u00a0O que \u00e9 tudo isso?<\/em>\u00a0Goya era um artista que K apreciava, entre outras raz\u00f5es, talvez porque ele tenha dito que ainda estava aprendendo aos noventa anos de idade, mas ele achava que os artistas modernos s\u00f3 aumentavam a confus\u00e3o geral e a divis\u00e3o ao expressarem o caos, a agressividade e a fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Quando subseq\u00fcentemente cheguei a Brockwood Park, Dorothy Simmons disse que quando voltou, K falou entusiasticamente sobre sua visita \u00e0 casa em Buchillon.<\/p><p>Quando em Brockwood, fui convidado para ir \u00e0s reuni\u00f5es de K com os professores, a equipe e os alunos. Nestes encontros todos pareciam terrivelmente s\u00e9rios quando K chegava na sala. Ele sentava de frente para o grupo encarando um por um. Sentia-me feliz por ter sido convidado para a reuni\u00e3o e, por isso, dei-lhe um grande sorriso quando ele olhou para mim. Radiante ele sorriu de volta, de um modo que ningu\u00e9m havia feito antes. As pessoas em minha frente se viraram para ver o que estava acontecendo atr\u00e1s delas.<\/p><p><strong>OJAI<\/strong><\/p><p>Em maio de 1984 fui para Ojai, para as palestras. Foi me dito que \u201cOjai\u201d na linguagem dos \u00edndios americanos significa \u201co ninho\u201d. Uma grande sensa\u00e7\u00e3o de paz impregnava todo o vale; era poss\u00edvel senti-la quando se chegava em Ventura, especialmente no crep\u00fasculo ou durante o anoitecer. Retornando regularmente, K passou grande parte de sua vida em Ojai, e foi ali que, em 1925, a morte levou seu irm\u00e3o e, em 1986, o pr\u00f3prio K. Onde quer que K vivesse, convidava\u00a0 para o almo\u00e7o amigos e outras pessoas interessantes com quem ele quisesse conversar. Este era o costume em Saanen e Rajghat, e tamb\u00e9m em Madras e Rishi Valley; mas n\u00e3o em Brockwood, onde ele almo\u00e7ava na sala de refei\u00e7\u00f5es com os alunos e a equipe de trabalho. Michael Krohnen, que aprendeu a cozinhar com Alan Hooker, propriet\u00e1rio do famoso\u00a0<em>Ranch House Restaurant<\/em>, era o chef em Ojai. Al\u00e9m de preparar as refei\u00e7\u00f5es, era tarefa informal de Michael durante o almo\u00e7o dar as not\u00edcias do mundo para Krishnamurti. Ele era naturalmente bem dotado para esta tarefa; Michael tinha tamb\u00e9m um voz forte e K ficou um pouco surdo no fim da vida. Numa ocasi\u00e3o K comentou rindo:\u00a0<em>Primeiro v\u00e3o se os dentes, depois os ouvidos e os olhos e, finalmente voc\u00ea desce \u00e0 terra.<\/em>\u00a0Noutra ocasi\u00e3o citou um prov\u00e9rbio italiano:<em>\u00a0Todo mundo tem que morrer; talvez eu tamb\u00e9m.<\/em><\/p><p>Em Ojai havia um buffet de self service, e depois da refei\u00e7\u00e3o todos pegavam seus pratos e levavam para lavar na cozinha. K servia-se por \u00faltimo e depois levava sua bandeja para a cozinha como todos os outros, inclusive as panelas. Quando chegava para o almo\u00e7o, costumava ir at\u00e9 a cozinha primeiro, espiar as panelas e saber de Michael o que havia para o almo\u00e7o daquele dia. Depois ia para a sala e chamava os convidados para a mesa. Algumas vezes, havia vinte pessoas.<\/p><p>K era de fato uma pessoa muito t\u00edmida. Numa ocasi\u00e3o, quando um grande n\u00famero de visitantes chegou para o almo\u00e7o, eu o ouvi perguntar timidamente:\u00a0<em>Quem s\u00e3o todas estas pessoas?<\/em>\u00a0Aproximando-se sem ser visto, ele modestamente saiu de tr\u00e1s de um biombo e chamou os convidados dizendo:<em>\u00a0Madame est servie.<\/em><\/p><p>K sempre entrava na sala pela porta da cozinha. Uma vez tentamos calcular quantas vezes K havia passado por aquela porta. Deve ter sido cerca de milhares de vezes enquanto Michael era \u201cchef\u201d.<\/p><p>Durante um almo\u00e7o K disse que pretendia fazer um documento sobre a Oak Grove School, que seria distribu\u00eddo durante as palestras p\u00fablicas. Como a Funda\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha um bom copista, parecia dif\u00edcil imprimir o documento em tempo. Isso me levou a fazer a primeira doa\u00e7\u00e3o \u00e0 American Foundation sob a forma de um fotocopista de alta qualidade. O documento foi chamado\u00a0<em>A Inten\u00e7\u00e3o da Escola de Oak Grove<\/em>\u00a0e, como o considerei muito pertinente, apresento-o aqui:<\/p><p>\u201cA Inten\u00e7\u00e3o da Escola de Oak Grove<\/p><p>Est\u00e1 se tornando mais e mais importante num mundo destrutivo e degenerado que exista um lugar, um o\u00e1sis, onde a pessoa possa aprender um modo de viver \u00edntegra, sadio e inteligente. A educa\u00e7\u00e3o no mundo moderno tem se preocupado n\u00e3o com o cultivo da intelig\u00eancia, mas do intelecto, da mem\u00f3ria e de suas habilidades. Neste processo pouco acontece al\u00e9m da passagem de informa\u00e7\u00e3o do professor para o aluno, do l\u00edder para o que segue, produzindo um modo de vida superficial e mec\u00e2nico. Nisso h\u00e1 pouca rela\u00e7\u00e3o humana.<\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>Seguramente a escola \u00e9 um lugar onde se aprende sobre a totalidade da vida. A excel\u00eancia acad\u00eamica \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria, mas a escola tem que incluir muito mais do que isso. \u00c9 o lugar onde o professor e o aluno exploram n\u00e3o s\u00f3 o mundo exterior, o mundo do conhecimento, mas tamb\u00e9m seu pr\u00f3prio pensar, seu pr\u00f3prio comportamento. A partir da\u00ed eles come\u00e7am a descobrir seu pr\u00f3prio condicionamento e como ele distorce seu pensar. Este condicionamento \u00e9 o ego ao qual se d\u00e1 tremenda e cruel import\u00e2ncia. A liberdade do condicionamento e de suas mis\u00e9rias come\u00e7a com esta aten\u00e7\u00e3o. Apenas com tal liberdade o verdadeiro aprendizado pode ocorrer. Nesta escola \u00e9 responsabilidade do professor sustentar com o aluno uma explora\u00e7\u00e3o cuidadosa nas implica\u00e7\u00f5es do condicionamento e, assim, acabar com ele.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>Uma escola \u00e9 o lugar onde a pessoa aprende a import\u00e2ncia do conhecimento e suas limita\u00e7\u00f5es. \u00c9 um lugar onde se aprende a ver o mundo n\u00e3o de um ponto de vista particular ou conclus\u00e3o. Aprende-se a olhar a totalidade do esfor\u00e7o do homem, sua busca da beleza, sua busca da verdade e de um modo de viver sem conflito. O conflito \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia da viol\u00eancia. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem se preocupado com isso, mas nesta escola nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 entender a realidade e sua a\u00e7\u00e3o sem qualquer ideal preconcebido, teorias ou cren\u00e7as que produzem uma atitude contradit\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>A escola est\u00e1 interessada em liberdade e ordem. Liberdade n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o do pr\u00f3prio desejo, escolha ou interesse pr\u00f3prio. Isso leva inevitavelmente \u00e0 desordem. Liberdade de escolha n\u00e3o \u00e9 liberdade, embora pare\u00e7a ser; assim como ordem n\u00e3o \u00e9 conformismo ou imita\u00e7\u00e3o. A ordem s\u00f3 pode surgir com o \u201cinsight\u201d que escolher \u00e9, em si mesmo, a nega\u00e7\u00e3o da liberdade. Na escola a pessoa aprende sobre o movimento do pensamento, o amor e a morte, porque tudo isso \u00e9 nossa vida.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>Desde tempos antigos o homem tem buscado algo al\u00e9m do mundo material, algo imensur\u00e1vel, algo sagrado. \u00c9 inten\u00e7\u00e3o desta escola investigar esta possibilidade.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p>A totalidade deste movimento de investiga\u00e7\u00e3o no conhecimento, em si mesmo, na possibilidade de alguma coisa al\u00e9m do conhecimento, provoca naturalmente uma revolu\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e, a partir da\u00ed, surge inevitavelmente uma ordem completamente diferente nas rela\u00e7\u00f5es humanas, na sociedade. O entendimento inteligente de tudo isso pode produzir uma mudan\u00e7a profunda na consci\u00eancia da humanidade.\u201d\u201c.<\/p><p>No ano seguinte fiquei em \u201cArya Vihara\u201d por quase duas semanas. Nesta casa Annie Besant e Aldous Huxley ficaram, e aqui Nitya, irm\u00e3o de K, morreu. \u00c9 uma casa simples, bem cuidada, com uma atmosfera maravilhosa, rodeada por muitas flores e \u00e1rvores grandiosas. Hoje serve de biblioteca onde se pode ver v\u00eddeos, ouvir fitas de \u00e1udio e pode-se ler ou comprar qualquer publica\u00e7\u00e3o sobre os ensinamentos de K. Depois que comprei uma casa em Country Club Drive, em Ojai, K veio me visitar. Foi no ver\u00e3o de 1985; ele n\u00e3o tinha mais a melhor sa\u00fade mas era extremamente ativo. Logo que ele entrou na casa, Magda, minha esposa, perguntou se ele poderia fazer algo a respeito do quarto dela que n\u00e3o tinha uma atmosfera agrad\u00e1vel, possivelmente devido ao estilo de vida de um de seus ocupantes anteriores. Ele concordou e pediu que esper\u00e1ssemos do lado de fora enquanto ele entrava no c\u00f4modo que lhe indicamos. Depois de um tempo ele voltou, e perguntei se ele podia exorcizar outro aposento, o que ele fez. No dia seguinte ele perguntou de forma modesta e amig\u00e1vel:<em>\u00a0Voc\u00ea percebeu alguma diferen\u00e7a? \u2013 Oh, sim,<\/em>\u00a0respondi,<em>\u00a0est\u00e1 maravilhoso; uma paz; uma tremenda calma. Mas pergunto se n\u00e3o \u00e9 apenas minha imagina\u00e7\u00e3o.<\/em>\u00a0K segurou meu bra\u00e7o com sua costumeira intensidade e disse:\u00a0<em>Eu tamb\u00e9m.<\/em><\/p><p>K costumava chamar minha esposa de \u201cMadame A.G\u201d. Em Brockwood ele sugeriu que mudasse meu nome para \u201cA.G.\u201d Perguntei o que significava e ele explicou:\u00a0<em>Ange Gardien\u00a0<\/em>(Anjo da Guarda).<\/p><p>Na mesa de almo\u00e7o em Ojai, mostrei a K certa ocasi\u00e3o o programa de uma confer\u00eancia sobre psiquiatria que um psiquiatra amigo meu de Lausanne me enviara. K examinou-o com muito cuidado, como fazia com tudo que lhe traziam. Depois comentou:\u00a0<em>Nada al\u00e9m de palavras. Nada de fato fora de suas pr\u00f3prias vidas.<\/em>\u00a0Do mesmo modo algumas vezes ele observava a respeito da filosofia moderna que quase sempre significava \u201cmais conversa a respeito de conversa\u201d, e \u201cmais palavras a respeito de palavras\u201d e \u201clivros escritos a respeito de outros livros escritos por outros\u201d.<\/p><p>Com muitas risadas K contava a hist\u00f3ria de seu encontro com um multimilion\u00e1rio. Quando esteve em Washington, D.C, em 1985 dando palestras no Kennedy Hall, K foi convidado para encontrar com um milion\u00e1rio na esperan\u00e7a de que ele doasse dinheiro para a Funda\u00e7\u00e3o ou para a escola da Calif\u00f3rnia. Depois de sentar o milion\u00e1rio declarou:<em>\u00a0Eu acredito em Jesus Cristo.\u00a0<\/em>K respondeu perguntando:\u00a0<em>Por que voc\u00ea cr\u00ea?<\/em>\u00a0E o envolveu numa discuss\u00e3o sobre as raz\u00f5es mais profundas que levam as pessoas a buscar seguran\u00e7a numa cren\u00e7a. K ria contando como o rosto do homem tornava-se duro como a parede por tr\u00e1s dele. A esposa do milion\u00e1rio parecia mais aberta mas mesmo assim n\u00e3o houve doa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Em Washington, a capital superpoderosa, K afirmou publicamente que:<em>\u00a0O poder \u00e9 rid\u00edculo sob qualquer forma.<\/em>\u00a0Em outra ocasi\u00e3o, na \u00cdndia, ele observou que n\u00e3o gostava da atmosfera de Deli porque ela parecia ter esta mesma fun\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>BROCKWOOD PARK<\/strong><\/p><p>No come\u00e7o de junho de 1984, K, Mary Zimbalist e eu fomos para Londres e da\u00ed para Brockwood Park. A Funda\u00e7\u00e3o insistia que K viajasse de primeira classe devido a sua idade. Neste v\u00f4o em particular n\u00e3o consegui um lugar na primeira classe assim, fiquei na executiva. K ouviu isso e disse:\u00a0<em>Temos que fazer alguma coisa a respeito.<\/em>\u00a0N\u00e3o entendi o que ele queria dizer e esqueci o assunto. Quando chegamos ao aeroporto, K e Mary foram na frente enquanto eu fazia o \u201cckeck in\u201d. Quando segui atr\u00e1s deles, uma comiss\u00e1ria correu atr\u00e1s de mim e me deu um bilhete da primeira classe, num assento bem atr\u00e1s de K. Eu nem mesmo tive que pagar a diferen\u00e7a.<\/p><p>Quando voamos sobre o deserto da Calif\u00f3rnia havia um magn\u00edfico p\u00f4r de sol abaixo de n\u00f3s. As montanhas ardiam com todas as sombras e cores: do vermelho mais profundo ao mais delicado rosado. Pod\u00edamos ver as linhas retas das estradas e ferrovias cortando o deserto. Quando chegamos \u00e0 Inglaterra, tudo estava verde. K falou com entusiasmo:\u00a0<em>Veja isso, s\u00f3 veja! Que verde!<\/em><\/p><p>Em Brockwood fiquei num pequeno aposento com sacada na Ala Oeste. Quando K mostrou-me o quarto pela primeira vez, disse:\u00a0<em>Aqui voc\u00ea est\u00e1 em casa.<\/em>\u00a0A sacada s\u00f3 podia ser alcan\u00e7ada subindo pela janela. Tendo me lavado da poeira de gera\u00e7\u00f5es, e depois de desvencilhar-me do casaco e de v\u00e1rios cobertores, eu costumava praticar meus exerc\u00edcios de ioga ali, todas as manh\u00e3s. K achou isto fascinante e deu uma boa olhada na sacada. Algu\u00e9m tirou uma foto de meu p\u00e9 projetando-se pela balaustrada enquanto eu fazia um exerc\u00edcio de ponta cabe\u00e7a.<\/p><p>K praticou ioga a vida toda. Ele enfatizava que a ioga era boa para o corpo mas n\u00e3o tinha nada a ver com ilumina\u00e7\u00e3o espiritual. Inicialmente, ele disse, a ioga era bem diferente de hoje, sendo ent\u00e3o apenas para poucos. Algumas vezes, quando K me mostrava algum exerc\u00edcio, eu ficava imaginando qual seria o estado de sua mente enquanto o fazia. Parecia que toda sua personalidade estava ausente mas, ao mesmo tempo, podia se sentir uma enorme presen\u00e7a. Mais tarde ocorreu-me que ele devia estar no que descrevia como \u201cmedita\u00e7\u00e3o\u201d, um estado que ele dizia n\u00e3o poder ser produzido por nenhuma a\u00e7\u00e3o deliberada ou exerc\u00edcio. Quando faz\u00edamos nossos exerc\u00edcios pela manh\u00e3, pass\u00e1vamos por v\u00e1rios exerc\u00edcios de respira\u00e7\u00e3o, olhos, pesco\u00e7o e ombros e termin\u00e1vamos saltando e correndo. K ainda fazia tudo isso aos oitenta e nove anos. Depois ele escreveu os exerc\u00edcios para que eu pudesse faz\u00ea-los por conta pr\u00f3pria. S\u00f3 os exerc\u00edcios respirat\u00f3rios ocupavam meia hora. Um dia ele disse:<em>\u00a0Agora voc\u00ea conseguir\u00e1 caminhar mais.<\/em><\/p><p>Eu tinha o h\u00e1bito de praticar longas marchas. Durante o \u00faltimo ver\u00e3o com K em Rougemont, eu levantava de manh\u00e3 bem cedo, em parte para fugir do calor do dia. Quando eu voltava para o almo\u00e7o, K perguntava,\u00a0<em>Combien d\u2019heures?\u00a0<\/em>(Quantas horas?) Eu respondia tr\u00eas, quatro ou cinco horas; ele sempre ficava impressionado e finalmente dizia:\u00a0<em>Ele quer ficar caminhando at\u00e9 o final de seus dias.<\/em><\/p><p>Foi em Brockwood, durante nossos exerc\u00edcios de ioga que um dia K levantou as cortinas das janelas do quarto mostrando uma vista magn\u00edfica dos campos e montanhas distantes. Apontando para aquela beleza, ele me disse em latim:\u00a0<em>Benedictus est qui venit in nomine domini.<\/em>\u00a0Ele me pediu que traduzisse a frase, e eu o fiz assim:<em>\u00a0Bendito \u00e9 aquele que vem em nome de Deus<\/em>\u00a0Quando pronunciei a palavra \u201cDeus\u201d, ele descartou-a com um gesto. K muitas vezes apontava que \u201cDeus\u201d era uma inven\u00e7\u00e3o da mente humana.<\/p><p>Toda manh\u00e3, pontualmente \u00e0s 7 horas, eu ia para o quarto dele para nossos exerc\u00edcios de ioga. Uma vez, quando entrei no quarto, ele estava ainda no escuro, e K estava na cama. Ele levantou imediatamente quando abri a porta, e disse:\u00a0<em>Hoje vou ficar na cama o dia inteiro.<\/em>\u00a0Respondi:\u00a0<em>Boa noite,<\/em>\u00a0e ele riu.\u00a0 Ele tinha estado em Londres no dia anterior, e essa cidade sempre o cansava. Uma vez depois de voltar de Londres, ele me encontrou na escada, e n\u00f3s dois ficamos imaginando por que se vai a tal lugar. Ele disse que era um al\u00edvio sair de l\u00e1, que era exatamente o que eu achava.<\/p><p>Em Brockwood K costumava lavar seus pr\u00f3prios pratos. Quando algu\u00e9m se oferecia para faz\u00ea-lo, ele respondia:\u00a0<em>\u00c9 meu trabalho.<\/em>\u00a0Ele tamb\u00e9m insistia em limpar seus pr\u00f3prios sapatos. Um dia o vi polindo o corrim\u00e3o com grande entusiasmo.\u00a0<em>Na \u00cdndia n\u00e3o me permitiriam fazer isso<\/em>, disse. Na \u00cdndia ele era obrigado a deixar que os empregados o servissem. Em Rishi Valley, ele ficava primeiro num quarto muito pequeno, o que n\u00e3o o incomodava.\u00a0<em>Eu simplesmente olho pela janela,\u00a0<\/em>brincava. Ele era uma pessoas modesta, muito gentil em sua conduta pessoal e extremamente cort\u00eas. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s senhoras era mais atencioso, at\u00e9 cavalheiresco. Em algumas ocasi\u00f5es ele podia ficar impaciente com algu\u00e9m, mas nunca quis ferir os sentimentos de ningu\u00e9m ou dizer diretamente o que algu\u00e9m devia fazer. Ele apontaria as causas mais profundas do problema em quest\u00e3o e estimularia a pessoa a descobrir por si mesma qual a coisa certa a fazer. Podia-se aprender alguma coisa de cada palavra que ele pronunciasse.<\/p><p>Em 1984 houve muitas dificuldades em Brockwood Park em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola. Um grupo dentro da equipe estava em conflito com outro o que finalmente levou a afastamentos da escola. K dedicou toda sua energia ao problema. V\u00e1rias vezes ele conversou com toda a equipe de professores. Uma vez ele at\u00e9 amea\u00e7ou fechar a porta da Ala Oeste e n\u00e3o colocar os p\u00e9s na escola novamente. Naturalmente ele tamb\u00e9m conversou com os alunos e ficou chocado quando descobriu que professores e outros membros da equipe estavam dedicando pouco tempo aos alunos pois estavam preocupados com as divis\u00f5es entre eles mesmos. Mais tarde, tendo falado com os professores de modo invulgarmente severo, ele me disse:<em>\u00a0Nunca falei assim antes.<\/em>\u00a0Nessa ocasi\u00e3o nos encontramos do lado de fora da sala de reuni\u00f5es logo depois desta reuni\u00e3o, e ele pegou minha m\u00e3o enquanto sa\u00edamos para um passeio curto. Em sua companhia a percep\u00e7\u00e3o da beleza natural em torno de Brockwood Park era mais intensa. Em algumas ocasi\u00f5es eu o acompanhava em suas caminhadas \u00e0 tarde. Em geral alguns amigos pr\u00f3ximos iam com ele em tais passeios, mas ele falava muito pouco nessas sa\u00eddas. Ele tinha uma intensa rela\u00e7\u00e3o com as coisas da natureza. Afirmava que as ra\u00edzes das \u00e1rvores\u00a0<em>t\u00eam um som, mas n\u00e3o o ouvimos mais. Uma vez caminhando pelo campo em Brockwood atr\u00e1s do Bosque, eu ia passar entre um grupo de cinco altos pinheiros.\u00a0<\/em>Ele me pegou pelo bra\u00e7o e disse:<em>\u00a0N\u00e3o! Em volta deles! N\u00e3o devemos perturb\u00e1-los.\u00a0<\/em>Quando atravess\u00e1vamos campos ele insistia que n\u00e3o se usassem atalhos.<em>\u00a0N\u00e3o abram caminhos!\u00a0<\/em>dizia.<\/p><p>Num desses passeios que K costumava fazer durante o \u00faltimo ano em Brockwood, tinha-se que transpor uma cerca no trajeto. Nesta ocasi\u00e3o eu j\u00e1 estava do outro lado, esperando por K que tinha alguma dificuldade de subir na cerca. Um pouco impaciente, pensei:<em>\u00a0Ele realmente precisa de mais tempo para transpor a cerca.<\/em>\u00a0E como se tivesse ouvido meus pensamentos, ele respondeu:<em>\u00a0Espero que, quando voc\u00ea tiver a minha idade, consiga subir na cerca t\u00e3o bem quanto eu.<\/em>\u00a0Um caso ocorrido na \u00cdndia mostrou sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com as coisas vivas. Havia uma planta\u00e7\u00e3o de mangas em Rajghat que n\u00e3o dava frutos. Assim, planejava-se cort\u00e1-la. K contou como um dia, caminhando entre as \u00e1rvores, falou:\u00a0<em>Ou\u00e7am, se voc\u00eas n\u00e3o frutificarem, ser\u00e3o cortadas.<\/em>\u00a0Elas deram frutos no ano seguinte.<\/p><p>K gostava de trabalhar no jardim. Particularmente nos primeiros tempos em Ojai, ele fazia muita jardinagem. Quando lhe mostrei meu jardim em Buchillon, que eu mesmo planejei, ele falou:\u00a0<em>\u00c9 bom sentir a terra entre os dedos.<\/em>\u00a0Quando eu chegava em Brockwood vindo da Calif\u00f3rnia, me sentia cansado devido \u00e0 diferen\u00e7a de oito horas e \u00e0 mudan\u00e7a de clima. Assim, algumas vezes, eu costumava deitar sob uma \u00e1rvore numa clareira no Bosque. O calor do sol me aquecia agradavelmente. Falei com K sobre isso e ele respondeu:\u00a0<em>Oh, n\u00e3o consigo dormir l\u00e1 fora. H\u00e1 muitas coisas para ver.<\/em>\u00a0E virou seus grandes olhos de um lado para o outro do mesmo modo que fazia durante seus exerc\u00edcios. Sua vis\u00e3o era t\u00e3o boa que ele nunca precisou de \u00f3culos para ler ou outra coisa durante a vida. Nunca era enfadonho estar na companhia dele, e embora fosse uma pessoa tremendamente s\u00e9ria, gostava de uma boa risada. Partilhamos muito isso. Ele era um mestre na arte de contar hist\u00f3rias e tinha uma alegria particular ao contar piadas. Duas das muitas piadas que ele \u00e0s vezes contava eram:<\/p><p>\u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tr\u00eas s\u00e1bios estavam meditando no Himalaia em sil\u00eancio. Depois de passados dez anos, o primeiro disse:\u00a0<em>Que bela manh\u00e3!<\/em>\u00a0Ficaram depois em sil\u00eancio por mais dez anos, depois do que o segundo falou:\u00a0<em>Deve chover.<\/em>\u00a0E eles ficaram em sil\u00eancio por mais dez anos. Finalmente o terceiro disse:\u00a0<em>Voc\u00eas dois n\u00e3o v\u00e3o parar de falar?<\/em><\/p><p>\u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Pedro mostra a Deus o que est\u00e1 acontecendo na terra e a primeira coisa que v\u00eaem s\u00e3o seres humanos trabalhando, se exaurindo de manh\u00e3 at\u00e9 a noite. Deus fica surpreso e pergunta a S\u00e3o Pedro:\u00a0<em>O que h\u00e1 com aquelas pessoas l\u00e1 embaixo?<\/em>\u00a0S\u00e3o Pedro responde:<em>\u00a0Voc\u00ea n\u00e3o disse a eles que teriam que ganhar o p\u00e3o com o suor do rosto?<\/em>\u00a0Deus responde:<em>\u00a0Mas eu s\u00f3 estava brincando.<\/em>\u00a0Mais adiante v\u00eaem outra coisa. Pessoas em trajes festivos sentadas \u00e0 mesas cheias de comida e bebida. S\u00e3o bispos e cardeais. \u00c0 pergunta de Deus sobre quem s\u00e3o aquelas pessoas, S\u00e3o Pedro responde:\u00a0<em>Aquelas, meu Senhor, s\u00e3o as pessoas que entenderam que voc\u00ea s\u00f3 estava brincando.<\/em><\/p><p>Ele se interessava por todas as coisas, inclusive pol\u00edtica mundial. Gostava de ver programas pol\u00edticos e de not\u00edcias na televis\u00e3o e, mesmo em seu leito de morte, perguntou:<em>\u00a0\u201cO que est\u00e1 acontecendo no mundo?\u201d<\/em>\u00a0Mas n\u00e3o gostava de falar sobre guerra. Um dia K, Mary Zimbalist e eu est\u00e1vamos indo de Brockwood para Winchester. No caminho passamos por um imenso vale entre os campos que, Mary falou, foi o lugar onde as tropas de Eisenhower se reuniram para a invas\u00e3o da Normandia. K impacientemente afastou a informa\u00e7\u00e3o dizendo:\u00a0<em>A guerra acabou muito tempo atr\u00e1s.<\/em>\u00a0Ele estava bem consciente do que tinha ocorrido durante a II Guerra Mundial e muitas vezes mostrava que a crueldade daquela e de outras guerras continuava no presente. Ele enfatizava que o nacionalismo \u00e9 a causa comum de divis\u00e3o e conflito no mundo. Muitas vezes dizia sobre si mesmo:\u00a0<em>Eu n\u00e3o sou indiano.<\/em><\/p><p>Embora algumas vezes ele mencionasse que havia sido criado por sua aristocracia, ocasionalmente referia-se a \u201cenfadonha sociedade inglesa\u201d. Sobre Annie Besant, que era inglesa e que ele amou como a uma m\u00e3e, disse que ela fez mais pela \u00cdndia do que Mahatma Gandhi. Usando o exemplo de Gandhi, ele mostrou que for\u00e7ar os outros a fazerem o que se quer mesmo atrav\u00e9s de meios presumivelmente pac\u00edficos como o jejum, era ainda violento. Jejum por motivos pol\u00edticos\u00a0<em>era<\/em>\u00a0viol\u00eancia.<\/p><p>Outro caso que vem a mente relaciona-se com acontecimentos dos anos 30, muito antes de eu conhecer K. Ele visitou Roma na ocasi\u00e3o e estava na pra\u00e7a S\u00e3o Pedro quando o papa passou carregado numa liteira. K contava como o papa parou e lhe perguntou:<em>\u00a0Voc\u00ea \u00e9 indiano?<\/em>\u00a0Ao que K respondeu:<em>\u00a0Eu vim da \u00cdndia.<\/em>\u00a0E o papa disse a ele:<em>\u00a0Gosto de seu rosto,\u00a0<\/em>depois do que, entrou na liteira e seguiu seu caminho. Uma ocasi\u00e3o em Brockwood Park K leu o \u201cVelho Testamento\u201d. Quando perguntei se gostava, ele respondeu:\u00a0<em>Gosto. N\u00e3o das hist\u00f3rias de fada que eles contam, mas da linguagem, do estilo.<\/em>\u00a0Ele tamb\u00e9m gostava de hist\u00f3rias de detetive como passatempo e apreciava um enredo bem constru\u00eddo.<\/p><p>Lembro quando K e eu caminh\u00e1vamos lado a lado um dia para a sala de jantar. Ele pegou minha m\u00e3o e disse com a intensidade que muitas vezes exibia:\u00a0<em>N\u00e3o sei por que gosto tanto de voc\u00ea. Isto nunca me aconteceu antes. N\u00e3o tem nada a ver com dinheiro. Je m\u2019en fiche (sobre o dinheiro<\/em>)<em>\u00a0N\u00e3o ligo mesmo.<\/em>\u00a0Nesta ocasi\u00e3o eu comecei a fazer doa\u00e7\u00f5es para a Funda\u00e7\u00e3o, a escola e o departamento de v\u00eddeo. Numa ocasi\u00e3o ele me disse:<em>\u00a0Somos irm\u00e3os.<\/em>\u00a0V\u00e1rios anos depois perguntei a Sunanda Patwardhan, antiga amiga de K e curadora da Indian Foundation, o que ele teria querido dizer; ela respondeu que K simplesmente apaixonava-se pelas pessoas.<\/p><p>K disse:\u00a0<em>Estou apaixonada, n\u00e3o por voc\u00ea, mas pelo que existe oculto em voc\u00ea; n\u00e3o por seu rosto ou suas roupas, mas pelo que \u00e9 vida.\u00a0<\/em>(Acampamento de Ommen, 4 de agosto de 1928).<\/p><p><strong>SAANEN, SCH\u00d6NRIED E ROUGEMONT<\/strong><\/p><p>Durante as palestras de Saanen em 1984, K n\u00e3o p\u00f4de ficar no Chalet Tannegg pois a casa estava sendo vendida. Assim, foi alugado um apartamento para ele perto de Sch\u00f6nried. Durante uma visita l\u00e1, ele nos mostrou uma quantidade de quadros de antigos navios que havia em seu quarto, num dos quais ele um dia cruzou o oceano. Outra vez, meu velho amigo de escola, Edgar Haemmerle, da \u00c1ustria, e eu fomos convidados para almo\u00e7ar no apartamento de K. Edgar vivera como uma esp\u00e9cie de ermit\u00e3o soci\u00e1vel numa cabana de madeira sem eletricidade, telefone ou \u00e1gua corrente, cuidando de v\u00e1rios animais, inclusive uma coruja. Quando K encontrou Edgar pela primeira vez imediatamente lhe perguntou se ele era um tipo de fazendeiro, e eles entabularam uma animada conversa sobre animais e coisas assim. Era sabido que K tinha uma rela\u00e7\u00e3o especial com os animais. Um dia fomos almo\u00e7ar no \u201cKl\u00f6sterli\u201d, perto de Gsteig, onde servem especialmente boas saladas com a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica da horta pr\u00f3pria. O propriet\u00e1rio do restaurante gosta muito de cachorros. Enquanto est\u00e1vamos na mesa, seu cachorro veio e deitou-se sob a cadeira de K. O dono ficou surpreso e disse que nunca tinha visto o cachorro deitar sob a cadeira de nenhum convidado.<\/p><p>K gostava de falar sobre sua experi\u00eancia com animais mas, mais do que qualquer outra, adorava contar a hist\u00f3ria do tigre. Na \u00cdndia alguns amigos levaram-no de carro para ver um tigre na selva. Finalmente um tigre apareceu e aproximou-se da janela do carro. K moveu-se para afagar o animal mas seus assustados companheiros rapidamente puxaram seu bra\u00e7o. K estava convencido de que nada de prejudicial lhe aconteceria. Ele simplesmente estava sem medo. Uma vez, na Valley School em Bangalore, foi dito a K que um bando de elefantes atravessara as terras da escola. K ficou fascinado com o relato e adoraria t\u00ea-los visto.<\/p><p>Outra hist\u00f3ria, que aconteceu em Rajghat, diz respeito a um macaco. Um dia, enquanto K fazia seus exerc\u00edcios de ioga no quarto, um grande macaco selvagem pulou no peitoril da janela, esticando a pata em dire\u00e7\u00e3o a K. K pegou-a, e assim eles ficaram por um tempo, K e o macaco, de m\u00e3os dadas.<\/p><p>Uma vez, durante o almo\u00e7o em Ojai, K contou a hist\u00f3ria de como na volta de um longo passeio, ouviu um cachorro latindo. Ele disse que podia-se saber pelo latido se um c\u00e3o era perigoso. Este evidentemente era. Como n\u00e3o havia outro caminho de volta, ele tinha que passar pela casa onde o cachorro estava latindo. Quando ele se aproximou, o cachorro correu para ele e come\u00e7ou a rodea-lo. De repente ele agarrou o bra\u00e7o de K que come\u00e7ou a adverti-lo:<em>\u00a0V\u00e1 para casa!\u00a0<\/em>\u00a0E isso afinal foi o que aconteceu, o cachorro largou-o e foi para casa. K, no entanto, n\u00e3o recomendava este tipo de comportamento por imita\u00e7\u00e3o. Ele explicava como lidar com um cachorro mau de acordo com o que lhe dissera uma vez um oficial do ex\u00e9rcito franc\u00eas: segure uma vara horizontalmente para o cachorro fincar os dentes nela, ent\u00e3o voc\u00ea o chuta na barriga. Mas K parecia n\u00e3o precisar deste tipo de defesa.<\/p><p>Meu amigo Edgar gostava muito de beber um pouco de vinho. Quando ele n\u00e3o viu nenhum em minha casa, ficou muito desapontado, e naturalmente n\u00e3o esperava que houvesse algum em Sch\u00f6nried quando foi l\u00e1 para almo\u00e7ar. Assim, ficou agradavelmente surpreso ao encontrar uma espl\u00eandida garrafa de vinho tinto sobre a mesa. K lhe disse imediatamente:<em>\u00a0Voc\u00ea pode beber a garrafa toda.<\/em>\u00a0K, na verdade, n\u00e3o tinha nenhum. Edgar e eu estudamos na mesma escola em Davos. Ent\u00e3o K perguntou a ele se eu tinha ido para a escola principalmente para estudar ou para esquiar. Edgar respondeu:\u00a0<em>Para esquiar, suponho.<\/em>K fez uma express\u00e3o como se esperasse isso mesmo.<\/p><p>Na Segunda vez em que almo\u00e7amos juntos, Edgar tinha planejado voltar para casa no trem de Sch\u00f6nried. Est\u00e1vamos numa conversa animada quando perguntei a Edgar, com alguma apreens\u00e3o, quando seu trem partiria. Verificou-se que havia apenas cinco minutos para chegar at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o. Todos se levantaram. Eu disse para Edgar:<em>\u00a0Temos que correr. N\u00e3o, n\u00e3o,<\/em>\u00a0interferiu Mary,\u00a0<em>\u201cVou lev\u00e1-lo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o em meu carro\u201d.<\/em>\u00a0 Ela subiu para pegar as chaves do carro. K levantou os bra\u00e7os e gritou:\u00a0<em>Voc\u00ea tem que correr! Voc\u00ea tem que correr!<\/em>\u00a0Mary subiu mais depressa, enquanto Edgar e eu corr\u00edamos escada abaixo, para fora da casa e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. O trem estava quase saindo quando chegamos, ofegando pesadamente. Na pr\u00f3xima vez que encontrei K, ele disse:\u00a0<em>Vi como voc\u00ea correu.<\/em><\/p><p>Mesmo em rela\u00e7\u00e3o a coisas pequenas, K era muito observador. Uma vez em Ojai quando me vesti para almo\u00e7ar com K, n\u00e3o consegui achar um cinto para minhas cal\u00e7as e fui sem cinto. Havia v\u00e1rios outros convidados l\u00e1, mas quando voltei dois dias depois ele perguntou-me casualmente:<em>\u00a0Encontrou seu cinto?<\/em><\/p><p>Nada parecia escapar de sua observa\u00e7\u00e3o. Numa ocasi\u00e3o fiquei sofrendo com dores no t\u00f3rax por um tempo. Embora a dor fosse consider\u00e1vel, n\u00e3o dei muita aten\u00e7\u00e3o, nem procurei um m\u00e9dico. Depois de uma refei\u00e7\u00e3o, K deu leves pancadinhas em meu t\u00f3rax com os dedos, uma ou duas vezes. Logo depois disso a dor desapareceu. S\u00f3 ent\u00e3o percebi que ele fora suscet\u00edvel a minha dor. Mais tarde, ouvi hist\u00f3rias semelhantes de outras pessoas.<\/p><p>Outra vez eu estava tendo dificuldades para entender o extrato de banco de uma conta que eu havia aberto recentemente em Ojai. Pedi a Mary, que era dos Estados Unidos, que me explicasse. Enquanto ela explicava, K aproximou-se e caminhou a nossa volta, dizendo repetidamente para Mary:<em>\u00a0Maria, fique muito atenta!<\/em>\u00a0 Ele continuou repetindo at\u00e9 Mary responder:<em>\u00a0Mas eu estou atenta.<\/em>\u00a0Depois de um tempo, me pareceu que n\u00e3o havia nada mais importante do que aqueles aborrecidos extratos banc\u00e1rios.<\/p><p>Freq\u00fcentemente K falava sobre \u201caten\u00e7\u00e3o total\u201d, mas apontava que isso n\u00e3o podia ser confundido com hipnose. Algumas vezes, depois de uma palestra as pessoas pareciam estar hipnotizadas. Nestas ocasi\u00f5es ele dizia para o p\u00fablico:\u00a0<em>Senhoras e senhores: N\u00e3o fiquem hipnotizados! Por favor, levantem!<\/em>\u00a0Ele falava sem \u201cpathos\u201d, mas muito intensamente. Durante as palestras de 1985, K ficou em Rougemont. Coloquei meu apartamento alugado no Chalet I\u2019O Perrevou\u00e9 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dele e a Funda\u00e7\u00e3o alugou um grande apartamento adicional no mesmo Chalet para acomodar a equipe, cozinha, m\u00e9dico e poss\u00edveis convidados como Vanda Scaravelli. No ano anterior n\u00f3s hav\u00edamos convidado K para almo\u00e7ar l\u00e1, e ele apreciou grandemente a mesa de jantar e sua pesada borda de madeira. Ele em geral estava ciente e apreciava a qualidade em todas as coisas. Depois de um tempo, K mudou-se do apartamento menor e mais em baixo para o maior no andar superior. Era mais espa\u00e7oso, e tinha uma sacada. Ele tamb\u00e9m ficou feliz pois fazendo isso, Mary Zimbalist n\u00e3o tinha mais que dividir o banheiro. Ele disse cavalheirescamente:<em>\u00a0Voc\u00ea sabe, ela \u00e9 uma senhora.<\/em><\/p><p>Um dia um artista americano, Richard Gere, veio almo\u00e7ar. E embora j\u00e1 tivesse proferido uma palestra nesse dia, K conversou intensamente com ele. Quando estava para ir embora, Richard Gere, que parecia visivelmente comovido, perguntou a K:\u00a0<em>Posso lhe dar um abra\u00e7o?<\/em>\u00a0 Foi muito tocante ver aquele gigante inclinar-se e abra\u00e7ar K de modo que a figura esbelta de K desaparecesse nos bra\u00e7os do outro. Em outra ocasi\u00e3o, depois de uma palestra particularmente comovente em Saanen, fui ver K em seu apartamento. Ele estava estendido na cama pois seu m\u00e9dico havia dito que ele descansasse depois de cada palestra. Eu disse a ele que tinha sido maravilhoso. Ele ficou muito s\u00e9rio, e uma grande dignidade emanou dele quando ele concordou simplesmente:\u00a0<em>Foi maravilhoso.<\/em><\/p><p>Uma senhora da It\u00e1lia que veio para o almo\u00e7o uma vez contou que, numa confer\u00eancia de curadores e clarividentes, foi dito que curas espirituais e clarivid\u00eancia n\u00e3o funcionavam quando os pensamentos interferiam. K comentou muito simplesmente:\u00a0<em>\u00c9 isso que temos dito durante setenta anos.\u00a0\u00a0<\/em><\/p><p>Foi tamb\u00e9m em Rougemont que Pupul Jayakar disse a ele que era muito dif\u00edcil entend\u00ea-lo. Ele resolutamente afirmou:\u00a0<em>Devo tornar-me mais simples.<\/em>\u00a0E de fato, nos dias seguintes ele expressou-se ainda mais simples e claramente. Tamb\u00e9m em Rougemont K recontou v\u00e1rias hist\u00f3rias sobre mulheres que continuavam seguindo-o. Em Madras uma senhora invadiu seu banheiro entrando pela janela, e ele teve que pedir ajuda. Outra mulher implorou que ele deixasse ela beijar seus p\u00e9s. Quando finalmente ele acedeu, ela agarrou seus tornozelos e n\u00e3o queria larg\u00e1-los. Ele tinha um maravilhoso dom para contar casos de modo engra\u00e7ado. Podia rir at\u00e9 ficar com l\u00e1grimas nos olhos. No final de uma hist\u00f3ria ele disse:\u00a0<em>Somos todos malucos; mas eles nos superam.<\/em><\/p><p>K assistiu aos Jogos Ol\u00edmpicos de 1984 pela TV em seu apartamento em Sch\u00f6nried.\u00a0Quando algumas corridas eram mostradas, ele gritava:\u00a0<em>Maria, veja como eles correm! Veja como eles correm!<\/em><\/p><p>K gostava de falar franc\u00eas. Uma vez na hora do almo\u00e7o estava nos falando sobre Paris onde havia passado algum tempo, particularmente durante os anos 20. Conheceu nessa \u00e9poca um maraj\u00e1 que colecionava carros e comprava qualquer modelo que n\u00e3o possu\u00edsse. Numa ocasi\u00e3o K acompanhou-o na compra de um novo carro. O vendedor simplesmente recusou-se a acreditar que K n\u00e3o era o verdadeiro maraj\u00e1. Quando eu disse que atualmente Paris n\u00e3o era mais o que fora, K respondeu apenas:\u00a0<em>Vous savez\u2026 (Voc\u00ea sabe\u2026)<\/em><\/p><p>Enquanto d\u00e1vamos um passeio em Rougemont, K comentou com alguma admira\u00e7\u00e3o a forma ordenada como os su\u00ed\u00e7os empilhavam a madeira para o fogo. Ele especulou sobre como os americanos considerariam este tipo de atividade:<em>\u00a0Ah, n\u00e3o temos tempo para isso; a vida \u00e9 muito curta.<\/em><\/p><p>Uma vez, depois que voltei de uma ida a Buchillon, K perguntou-me:<em>\u00a0Como foi?\u00a0<\/em>Quando comecei a responder:\u00a0<em>O lago estava -,\u00a0<\/em>ele completou a frase mais depressa do que eu podia pensar, \u2013 como\u00a0<em>um espelho .<\/em><\/p><p>Uma vez ouvi K perguntar:\u00a0<em>Quando dois ego\u00edstas se casam, o que se tem?\u00a0<\/em>Depois de um sil\u00eancio breve e cheio de expectativa dos presentes, ele respondeu \u00e0 pr\u00f3pria pergunta:\u00a0<em>Apenas dois ego\u00edstas.<\/em><\/p><p>Perguntei-lhe uma vez se ele preparava suas palestras. Ele respondeu:<em>\u00a0N\u00e3o, pois n\u00e3o saberia o que dizer.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>\u00a0 RISHI VALLEY, RAJGHAT E MADRAS<\/strong><\/p><p>Quando em Madras, K costumava caminhar ao longo da praia toda tarde perto do p\u00f4r do sol. Para alcan\u00e7ar a praia a pessoa tinha que passar pelos extensos jardins da sede da Sociedade Teos\u00f3fica em Adyar. Os guardas do port\u00e3o reconheciam K, saudavam-no e ele respondia com um cumprimento amistoso. Na extremidade leste dos jardins, perto da casa de Radha Burnier, uma porta no muro levava \u00e0 praia. K conhecia Radha desde a inf\u00e2ncia dela, assim como seu pai, Sri Ram, que at\u00e9 a morte foi presidente da Sociedade Teos\u00f3fica. Radha sucedeu-o. K gostava muito dela e a convidava para conversas quando ela estava pr\u00f3xima. A praia onde ele costumava caminhar \u00e9 chamada Praia de Adyar porque ali o rio Adyar entra na Ba\u00eda de Bengala. Uma pequena ponte sobre o rio foi destru\u00edda por uma tempestade, e agora restava apenas uma parte dela. K costuma ir direto para o lado quebrado. Parecia um tanto perigoso, particularmente porque havia muitas vezes um vento forte, e podia-se facilmente imaginar que uma pessoa com a estrutura delicada de K podia ser impelida para fora da ponte. Na \u00cdndia ele usava sempre roupas indianas, e ali elas flutuavam como velas ao vento. Eu ficava perto dele de modo que pudesse segur\u00e1-lo se ele ca\u00edsse. No entanto, de fato, o perigo de ser atirado da ponte deve ter sido maior para mim do que para K cujas pernas permaneceram notavelmente vigorosas at\u00e9 o fim de sua vida.<\/p><p>Na desembocadura do rio v\u00edamos muitas vezes pessoas que tentavam pegar peixes com um tipo de rede feita de galhos. Uma vez est\u00e1vamos observando-os enquanto jogavam a rede. Era uma atividade bastante complicada e o resultado de seus prolongados esfor\u00e7os foi um \u00fanico e serpenteante peixe. K, que observava este procedimento bem de perto, ficou horrorizado com as condi\u00e7\u00f5es de vida daquelas pessoas.<\/p><p>Ele nos disse que em Bombaim tinha visto pr\u00e9dios modernos nos quais o pre\u00e7o de um apartamento era cerca de um milh\u00e3o de d\u00f3lares, enquanto bem em frente ao pr\u00e9dio uma fam\u00edlia inteira vivia na sujeira da rua. K estava profundamente consciente da pobreza das pessoas na \u00cdndia e profundamente tocado pela mis\u00e9ria causada por ela. Muitas vezes ele deplorava o dinheiro gasto nos casamentos indianos e considerava tal despesa in\u00fatil e irrespons\u00e1vel.<\/p><p>Indianos em geral n\u00e3o caminhavam por gosto, mas quando K saia para suas caminhadas \u00e0 tarde, uma tropa de seguidores se juntava a ele. Quando crian\u00e7as o acompanhavam, ele as segurava pela m\u00e3o durante um tempo. Freq\u00fcentemente uma por\u00e7\u00e3o de pessoas ficava esperando ao longo da praia. Quando elas o saudavam, ele respondia de modo amistoso.<\/p><p>Durante um passeio \u00e0 tarde, um homem gordo caminhava perto de K tirando muitas fotos dele. Embora eu tentasse gentilmente afast\u00e1-lo, ele n\u00e3o parecia notar meus esfor\u00e7os. Mas quando vi que parecia n\u00e3o se importar, desisti de minhas manobras. O homem orgulhosamente me anunciou que havia tirado cerca de 200 fotos de K.<\/p><p>Em 1984 havia planos para K fazer um debate p\u00fablico com o Dalai Lama em Deli. Durante uma conversa, K conjeturou sobre o que falar com o Dalai Lama e finalmente afirmou:\u00a0<em>Bem, de qualquer modo eu direi a ele que \u00e9 tudo tolice.<\/em>\u00a0Mas Indira Gandhi, ent\u00e3o primeira ministra indiana, foi assassinada no dia anterior ao debate e, infelizmente, a coisa toda foi cancelada devido \u00e0 subseq\u00fcente agita\u00e7\u00e3o na capital indiana.<\/p><p>Um dia em Deli a filha de Radhika Herzberger e uma amiga estavam almo\u00e7ando conosco na casa de Pupulji. K perguntou-lhes em que assuntos estavam interessadas. Elas responderam:<em>\u00a0F\u00edsica e matem\u00e1tica.<\/em>\u00a0Depois de uma pausa K comentou:<em>\u00a0Um tanto assustador \u2013 jovens interessadas em f\u00edsica e matem\u00e1tica!\u00a0<\/em>\u00a0K estava sempre preocupado com as conseq\u00fc\u00eancias da crescente especializa\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p><p>Uma vez em Rishi Valley, quando K deixou o sal\u00e3o depois de ter assistido a uma apresenta\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a, ele achou que suas sand\u00e1lias tinham desaparecido. Outro par de sapatos tinha que ser encontrado para que ele pudesse voltar para casa. Mais tarde ele comentou:\u00a0<em>Agora algu\u00e9m tem um belo par de sand\u00e1lias.<\/em>\u00a0 Mas ele tamb\u00e9m ficou imaginando se o ladr\u00e3o ia simplesmente us\u00e1-las, ou ia transform\u00e1-las em objeto de adora\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Durante nossa estadia em Rishi Valley em 1985, algumas vezes n\u00f3s faz\u00edamos nossos passeios na dire\u00e7\u00e3o oeste. Ao longo deste caminho pode-se ver um templo que \u00e9 consagrada a uma das muitas deusas hindus. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es K exorcizava este templo andando em volta dele. Um dia n\u00f3s entramos. Quando eu estava a ponto de entrar num aposento que estava separado por uma tela de gelosia e por tr\u00e1s da qual podia se ver uma pomposa est\u00e1tua da deusa, ele me reteve e disse:\u00a0<em>N\u00e3o; eles n\u00e3o querem que entremos!<\/em><\/p><p>Sobre Rishi Konda, a Montanha dos S\u00e1bios, que domina o vale, ele costumava dizer<em>: Esta \u00e9 a Esfinge de Rishi Valley.<\/em><\/p><p>Em dezembro de 1984, depois de um debate com os alunos de Rishi Valley, K ficou impressionado pelo vivo interesse e abertura daqueles jovens. Com grande compaix\u00e3o ele nos perguntou:\u00a0<em>Voc\u00ea reparou nestas crian\u00e7as? Elas ser\u00e3o jogadas aos lobos!<\/em><\/p><p>Uma vez perguntei a K:\u00a0<em>Senhor, o que h\u00e1 de diferente na \u00cdndia?<\/em>\u00a0Ao que ele respondeu:\u00a0<em>H\u00e1 mais medo aqui.<\/em><\/p><p>K uma vez me contou o caso de um professor em Rajghat que lhe perguntou:\u00a0<em>Senhor, posso lhe dizer algo? Quando voc\u00ea vem aqui, \u00e9 como uma tempestade. Por isso ficamos todos felizes quando voc\u00ea vai embora.<\/em><\/p><p>Quando perguntei a K o que eles mais queriam em Rishi Valley, ele respondeu:<em>\u00a0Um centro para adultos.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><strong>UM RELATO DA \u00daLTIMA VIAGEM \u00c0 \u00cdNDIA COM K<\/strong><\/p><p>Em novembro de 1985 em Rajghat, K me disse que ainda tinha alguns meses de vida. Quando lembrei-lhe que ele havia nos prometido viver mais outros dez anos, ele apenas levantou os bra\u00e7os. A sa\u00fade de K j\u00e1 havia come\u00e7ado a se deteriorar em Brockwood. Os costumeiros passeios que ele costumava dar tornaram-se mais curtos. A caminhada pelo Bosque e pelo campo, que em certo momento inclu\u00eda transpor uma cerca, ele n\u00e3o fazia mais. Fora isso, estava t\u00e3o ativo como sempre. Uma vez ele me disse:\u00a0<em>Je travaille comme un fou! (Estou trabalhando como o diabo!)<\/em><\/p><p>K gostava quando algu\u00e9m ligado a ele o acompanhava \u00e0 \u00cdndia. Ele me convidou para ficar perto de onde ele morava e comer a mesma comida.\u00a0<em>Voc\u00ea fica conosco!\u00a0<\/em>\u00a0ele disse quando fui a primeira vez para Rishi Valley e Madras em 1984.<\/p><p>Em 1985\/86 fui com ele em sua \u00faltima viagem \u00e0 \u00cdndia. Voamos de Londres para Deli via Frankfurt. Porque o avi\u00e3o de Londres estava atrasado, no aeroporto de Frankfurt fomos levados de um terminal para outro num carro el\u00e9trico, o que foi uma grande sensa\u00e7\u00e3o para K.<\/p><p>Ele tamb\u00e9m ficou assombrado com as grandes dist\u00e2ncias dentro do aeroporto. No avi\u00e3o ele disse:<em>\u00a0Estou feliz por estarmos n\u00f3s dois sozinhos.<\/em>\u00a0Era noite quando sobrevoamos a R\u00fassia e o Afeganist\u00e3o. Depois de chegar em Deli, K foi hospedar-se na casa de Pupul Jayakar e eu fui para um hotel.<\/p><p>Todo dia no p\u00f4r do sol nos encontr\u00e1vamos no Lodi Park. Na entrada do parque havia uma cruzeta girat\u00f3ria que brilhava com a sujeira das muitas m\u00e3os que a tocaram. Eu a abria com o p\u00e9, e toda vez K exclamava:<em>\u00a0Bom!<\/em>\u00a0 Ele era muito preocupado com a limpeza. O parque era bem cuidado, com muitas \u00e1rvores, gramados, canais e pontes, e antigos pr\u00e9dios da \u00e9poca mongol. Com o anoitecer, inumer\u00e1veis p\u00e1ssaros reuniam-se e ajeitavam-se para passar a noite. O barulho que faziam era ensurdecedor. De vez em quando Nandini ou a filha de Radhika, Maya, se juntavam a n\u00f3s, e algumas vezes Pamaji nos acompanhava.<\/p><p>Viajar e as freq\u00fcentes mudan\u00e7as de clima cansavam K, e sua sa\u00fade deteriorou em Deli. Ele n\u00e3o dormia bem e comia muito pouco.<\/p><p>Ocasionalmente outros andarilhos o reconheciam. Um homem abordou-o um tanto agressivamente perguntando:\u00a0<em>Voc\u00ea \u00e9 Krishnamurti? Voc\u00ea devia ficar na \u00cdndia. Aqui est\u00e3o suas ra\u00edzes.\u00a0<\/em>K respondeu:<em>\u00a0N\u00e3o sou ningu\u00e9m!\u00a0<\/em>Levantou as m\u00e3os e me disse:<em>\u00a0Veja! Eles t\u00eam uma id\u00e9ia fixa e agarram-se a ela.<\/em>\u00a0Apesar dessa experi\u00eancia, K ficava amistosamente frente a todos que encontrava e, especialmente aos desprivilegiados e \u00e0queles que normalmente eram ignorados, como o vendedor de sorvete na entrada do Lodi Park.<\/p><p>No avi\u00e3o para Varanasi K manteve a cortina abaixada devido ao sol brilhante. Ele sofreu uma vez com uma insola\u00e7\u00e3o e tinha que ter cuidado com a luz direta do sol. Mas de vez em quando levantava a cortina para ver os picos brancos do Himalaia. Ele falou:<em>\u00a0As montanhas s\u00e3o realmente algo!<\/em><\/p><p>Ele me contou que uma vez, ainda jovem, estava escalando a Zugspitze com sapatos comuns. Um guia que passava com um grupo de alpinistas numa corda reparou nele. Depois de repreend\u00ea-lo, amarrou-o no final da corda e levou-o montanha abaixo. K, no entanto, n\u00e3o ficou com medo, e disse que podia ter descido em seguran\u00e7a por conta pr\u00f3pria.<\/p><p>Fiquei dominado pela atmosfera de Rajghat em Varanasi. Ali se podia sentir o encantamento que parece existir em todos os lugares em que K viveu \u2013 existe tamb\u00e9m em Brockwood, Rishi Valley e Ojai. Pode-se encontr\u00e1-la at\u00e9 no Chalet Tannegg em Gstaad, em Vasanta Vihar em Madras, e na casa de Pupul em Deli. Os arredores s\u00e3o de grande beleza e mantidos imaculadamente: ilhas de serenidade no meio do tumulto do mundo, cheias de \u00e1rvores, flores, p\u00e1ssaros e borboletas; e que possuem uma certa santidade.<\/p><p>Caminhando pela \u00e1rea da escola, chega-se a v\u00e1rios s\u00edtios de escava\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica. A propriedade da escola fica em uma das mais antigas partes de Varanasi, chamada \u201cKashi\u201d, e presume-se que havia ali templos, parques e pal\u00e1cios de 4000 ou 5000 anos. Al\u00e9m dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, um canal leva o esgoto da cidade para o Ganges. O mau cheiro \u00e9 notado em todo o caminho at\u00e9 a casa de K. Ele riu quando Pupulji assegurou que um novo sistema de esgoto seria constru\u00eddo num futuro pr\u00f3ximo. Obviamente esta promessa foi feita in\u00fameras vezes ao longo dos anos. Quando visitei Rajghat no ano seguinte, nada havia sido feito ainda. S\u00f3 em minha visita no final de 1988 percebi o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de um imenso novo sistema.<\/p><p>Na escola de Rajghat meu quarto ficava abaixo do quarto de K. Logo que chegou, K deu in\u00edcio a intensas conversas com Radhika e v\u00e1rios outros colaboradores indianos. \u00c0 tarde ele dava v\u00e1rias voltas em torno do \u201cplayground\u201d da escola acompanhado por seus amigos que ele chamava brincando de guarda-costas. Mesmo durante estes passeios recreativos ele continuava suas discuss\u00f5es com eles.<\/p><p>Era costume convidar para o almo\u00e7o pessoas com as quais K mantinha animadas conversas. Em Ojai e Saanen algumas vezes ele ficava conversando at\u00e9 quatro horas da tarde, mesmo que tivesse feito palestra pela manh\u00e3. Ele gostava de perguntar aos convidados sobre suas respectivas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o. Assim estava bem informado sobre os avan\u00e7os em pol\u00edtica, educa\u00e7\u00e3o, medicina, ci\u00eancia, computador, etc. Uma vez o vice-reitor de uma universidade e a esposa foram convidados para o almo\u00e7o em Rajghat. K notou com tristeza que o homem n\u00e3o olhou nem sorriu para a esposa uma vez sequer.<\/p><p>De vez em quando a nora do dr.Pachure trazia sua ador\u00e1vel filha de tr\u00eas anos. K dizia para a garotinha:<em>\u00a0N\u00e3o esque\u00e7a que eu quero ser seu primeiro namorado!<\/em><\/p><p>Durante o per\u00edodo que ficamos em Rajghat, muitos festivais religiosos ocorreram e eram em geral muito barulhentos. O templo vizinho ressoava com fogos, tambores e cantorias at\u00e9 tarde da noite. Na manh\u00e3 seguinte come\u00e7ava tudo de novo. Havia tamb\u00e9m ao lado uma mesquita e pod\u00edamos ouvir grandemente amplificada a can\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona do muezim durante nossos passeios. Nada disso parecia perturbar K. Se o muezim n\u00e3o tivesse ainda come\u00e7ado sua convoca\u00e7\u00e3o e percebesse a aproxima\u00e7\u00e3o de K, vinha at\u00e9 a cerca para apertar-lhe a m\u00e3o afetuosamente.<\/p><p>Nesta ocasi\u00e3o, parte do filme indiano<em>\u00a0The Seer Who Walks Alone (O profeta que caminha sozinho),\u00a0<\/em>um document\u00e1rio sobre K,estava sendo feita em Rajghat. Nela, K atravessa a ponte estreita sobre o rio e passa pelo caminho que o Buda usava quando ia a Sarnath depois de ser iluminado. K disse ao produtor do filme:<em>\u00a0Farei tudo que voc\u00ea quiser que eu fa\u00e7a.<\/em>\u00a0Numa ocasi\u00e3o, estando numa colina acima do rio Varuna, K foi filmado contra o sol poente como uma antiga escultura.<\/p><p>Quando se aproximava a hora de suas palestras p\u00fablicas, K parecia ganhar nova energia. Ele proferiu tr\u00eas palestras e manteve um encontro de Perguntas e Respostas em Rajghat, apesar dos sinais \u00f3bvios de fraqueza f\u00edsica. Tamb\u00e9m fez tr\u00eas di\u00e1logos com Panditji, na presen\u00e7a de trinta ou quarenta ouvintes, no andar superior de sua casa, que est\u00e3o registrados no livro\u00a0<em>The Future Is Now<\/em>\u00a0. Durante estas palestras um participante destacou-se pela maneira simples e clara com que se comunicava com K. Na ocasi\u00e3o eu n\u00e3o sabia que esta pessoa era o novo diretor da escola, Dr. Krishna. K estava interessado em cada aspecto do encontro. Convidou o Dr. Krishna e sua fam\u00edlia para o almo\u00e7o e conversou afetuosamente com sua esposa e filhos. Um dia o av\u00f4 veio tamb\u00e9m. Como sempre K preocupou-se tamb\u00e9m com detalhes pr\u00e1ticos, como o sal\u00e1rio adequado para o novo diretor, e que ele tivesse um carro que levasse sua filha para a universidade. K ficou entusiasmado com o doutor Krishna que, como m\u00e9dico conhecido, trabalhara anteriormente nos EUA e Europa. K me contou que quando lhe perguntou se ele assumiria a escola, depois de deliberar algum tempo, ele respondeu:\u00a0<em>Eu ficaria muito satisfeito.<\/em><\/p><p>Apesar do estado prec\u00e1rio de sua sa\u00fade, K dedicou todo seu tempo e energia a este assunto. Foi muito bom que o doutor Krishna pudesse assumir a dire\u00e7\u00e3o da escola j\u00e1 que havia bastante dificuldades l\u00e1.<\/p><p>Finalmente ficou resolvido que K faria as refei\u00e7\u00f5es na cama, j\u00e1 que ele dificilmente tinha chance de comer alguma coisa durante estas conversas na hora do almo\u00e7o. De fato, ele tinha muito pouco apetite.<\/p><p>Depois de um passeio K perguntou a Upasani, que pretendia aposentar-se como Diretor Comercial da escola de Rajghat, se ele continuaria trabalhando para a Funda\u00e7\u00e3o. Upasani concordou em continuar enquanto K estivesse l\u00e1. Eu disse a K:\u00a0<em>Upasani devia continuar mesmo quando voc\u00ea n\u00e3o estiver.\u00a0<\/em>K imediatamente pediu a Upasani:<em>\u00a0Senhor, fique um ano ou mais.<\/em>\u00a0Upasani ficou t\u00e3o emocionado que chorou; e, de fato, em 1987, depois da morte de K, ele tornou-se secret\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o na \u00cdndia. Estava escurecendo e, de repente, K perguntou:<em>\u00a0Onde est\u00e1 ele?<\/em>\u00a0 pois n\u00e3o conseguia distinguir Upasani no escuro. Isto marcou o in\u00edcio de uma esp\u00e9cie de cegueira noturna.<em>\u00a0<\/em><\/p><p>Em Rajghat K v\u00e1rias vezes abordou o assunto do sexo. Ele apontou que se n\u00e3o fosse o sexo, n\u00e3o existir\u00edamos, que era simplesmente uma parte da vida. Algu\u00e9m falou com K sobre uma cerim\u00f4nia de casamento em que os convidados j\u00e1 haviam chegado quando descobriram que o noivo havia desaparecido sem explica\u00e7\u00e3o. K muitas vezes referia-se a esse evento, conjeturando sobre a aparente determina\u00e7\u00e3o da noiva de casar apesar das grandes dificuldades inerentes a tais circunst\u00e2ncias. A certa altura ele disse em voz alta:\u00a0<em>Eles fizeram sexo?<\/em>\u00a0A inoc\u00eancia desta observa\u00e7\u00e3o causou risos consider\u00e1veis entre os presentes.<\/p><p>Quando ele foi convidado para as comemora\u00e7\u00f5es do Jubileu da Sociedade Teos\u00f3fica em Varanasi, perguntou a toda a assembl\u00e9ia se o sexo era necessariamente mal. Um homem, que parecia um tanto fan\u00e1tico, respondeu com um categ\u00f3rico\u00a0<em>Sim!<\/em>\u00a0 Esta n\u00e3o era uma palestra p\u00fablica e, assim, K n\u00e3o prosseguiu com o assunto.<\/p><p>Quando K esteve com v\u00e1rios teosofistas no quarto de Annie Besant, perguntou a eles:<em>\u00a0Sobre o que vamos falar?\u00a0<\/em>\u00a0E continuou:<em>\u00a0Oh, sim, vou contar algumas anedotas a voc\u00eas.<\/em>\u00a0O servi\u00e7o da caf\u00e9 de Annie Besant ainda estava no quarto mas K n\u00e3o tinha nenhuma lembran\u00e7a dele nem do pr\u00f3prio quarto. O servi\u00e7o de caf\u00e9 devia estar ali a cerca de sessenta anos.<\/p><p>Durante os passeios ele come\u00e7ou a dizer que suas pernas estavam muito fracas. Uma vez, depois de caminhar em torno do campo de esportes da escola, ele caiu na escada. Seus acompanhantes quiseram ajud\u00e1-lo mas ele recusou dizendo:<em>\u00a0Se eu cair na escada \u00e9 problema meu!<\/em><\/p><p>Depois das palestras voamos para Madras via Deli. Quando chegamos o tempo estava agradavelmente quente. As palmeiras e arbustos floridos balan\u00e7avam suavemente com a brisa fresca. Enquanto \u00edamos do aeroporto para Vasanta Vihar, senti de repente como se estivesse voltando para casa. Neste exato momento K disse:\u00a0<em>\u00c9 como voltar para casa!<\/em><\/p><p>Mais tarde, quando caminh\u00e1vamos pela praia, vimos e ouvimos as ondas quebrando violentamente na luminosa areia amarela. Havia um forte vento soprando e nuvens lilases delicadas estavam no c\u00e9u. Contra este cen\u00e1rio, a lua cheia surgiu do oceano ao mesmo tempo em que o sol se punha espetacularmente do outro lado. Tudo isso se refletiu para n\u00f3s na superf\u00edcie do rio Adyar.<\/p><p>Ficamos apenas poucos dias em Madras. Tendo sa\u00eddo de manh\u00e3 cedo para Rishi Valley, desta vez vimos o sol nascer enquanto a lua se punha simultaneamente a oeste.<\/p><p>Est\u00e1vamos viajando num carro novo que era decididamente mais confort\u00e1vel que o antigo americano que us\u00e1vamos antes. Como sempre, o carro ficou dispon\u00edvel atrav\u00e9s de um bom amigo, o senhor Santhanam. N\u00e3o paramos at\u00e9 termos coberto metade da dist\u00e2ncia e as primeiras montanhas aparecerem. O cen\u00e1rio matinal era imensamente pac\u00edfico. Um motociclista que havia parado na estrada ficou surpreso por ver K ali. K n\u00e3o ficou menos surpreso ao ver algu\u00e9m que o reconhecia naquele lugar isolado. K conversou com nosso motorista sobre sua fam\u00edlia e insistiu que ele mandasse os filhos para Rishi Valley School. Atualmente seu filho freq\u00fcenta a escola.<\/p><p>Radhika morava no mesmo andar de K em Rishi Valley. Ela e eu tom\u00e1vamos o caf\u00e9 da manh\u00e3 na sala de jantar de K. Algumas vazes, quando K estava se sentindo mais forte, eu ia v\u00ea-lo em seu quarto para desejar um bom dia. Porque ele estava se sentindo t\u00e3o fraco, seus passeios di\u00e1rios eram cancelados mas ele tinha ainda muitas reuni\u00f5es com alunos e professores.<\/p><p>Depois que os professores de Brockwood, Ojai e das outras escolas indianas chegaram para a Confer\u00eancia Internacional de Professores em Rishi Valley, confirmou-se que K era capaz de participar de algumas reuni\u00f5es. Sua participa\u00e7\u00e3o ativa n\u00e3o havia sido planejada mas elevava o n\u00edvel das discuss\u00f5es. Estas palestras tamb\u00e9m est\u00e3o no livro\u00a0<em>The Future Is Now.<\/em><\/p><p>Em uma ocasi\u00e3o est\u00e1vamos falando com ele sobre a cria\u00e7\u00e3o de um Centro em Rishi Valley. De repente um p\u00e1ssaro chegou na janela e come\u00e7ou a bater com for\u00e7a na vidra\u00e7a, obviamente querendo entrar. Era uma poupa e parecia agitada com os v\u00e1rios estranhos na sala. K acalmou-a dizendo:<em>\u00a0Tudo bem, tudo bem, estou aqui, estou aqui!\u00a0<\/em>\u00a0Radhika me disse que K falava com o p\u00e1ssaro algumas vezes. Uma vez quando ela entrou no quarto dele, achou que K estava com uma visita. Ele estava falando com a ave:<em>\u00a0Voc\u00ea pode trazer seus filhos, mas eles provavelmente n\u00e3o v\u00e3o gostar daqui pois quando eu partir as janelas ser\u00e3o fechadas e voc\u00eas n\u00e3o achar\u00e3o a sa\u00edda.<\/em><\/p><p>Depois que K voltou a Madras, fui com alguns professores de Brockwood e Ojai visitar a escola em Bangalore. O estado de sa\u00fade de K tornava dif\u00edcil para eu imaginar como ele faria uma s\u00e9rie de palestras p\u00fablicas para milhares de pessoas em Bombaim. Assim, senti grande al\u00edvio quando elas foram canceladas. Fiquei em Madras mais outra semana e acompanhei-o em alguns de seus passeios pela praia. K agora decidira que queria ir para Ojai para ter mais tranq\u00fcilidade. Tamb\u00e9m seria mais f\u00e1cil ter tratamento m\u00e9dico estando em Pine Cottage. Assim K voou para a Calif\u00f3rnia via Singapura. Scott Forbes, que j\u00e1 havia viajado com ele de Rishi Valley para Madras, acompanhou-o nesta jornada atrav\u00e9s do Pac\u00edfico.<\/p><p>Depois de voltar \u00e0 Europa, passei tr\u00eas semanas nas montanhas su\u00ed\u00e7as e voei de l\u00e1 direto para Ojai.<\/p><p>Agora K estava muito doente e pedira que alguns curadores fossem chamados para estar com ele e discutirem assuntos urgentes sobre a Funda\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Quando K j\u00e1 estava em seu leito de morte, um aluno da\u00a0<em>Oak Grove School<\/em>\u00a0escreveu-lhe uma carta. K pediu que lessem a carta para ele e expressou ent\u00e3o seus agradecimentos ao estudante. Apesar de estar sentindo muita dor e estar muito fraco fisicamente, ele n\u00e3o esqueceu o assunto e mais tarde perguntou-me se os seus agradecimentos tinham chegado ao remetente da carta. Mesmo nesta condi\u00e7\u00e3o, sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o eram os outros.<\/p><p>At\u00e9 o momento final, sua mente estava clara. Eu o vi pela \u00faltima vez tr\u00eas dias antes de sua morte. Ele me disse:<em>\u00a0Je suis en train de partir, vous comprenez? (Estou a ponto de partir, voc\u00ea entende?)\u00a0<\/em>Estas foram suas \u00faltimas palavras para mim.<\/p><p>Na noite da morte de K, senti uma envolvente onda de paz fluindo suavemente pelo vale com a brilhante luz da lua. Uma vez em Brockwood Park ele me disse quando volt\u00e1vamos de uma caminhada:\u00a0<em>Este lugar deve sempre permanecer como est\u00e1;<\/em>\u00a0e quando lhe foi perguntado o que dev\u00edamos fazer depois de sua morte, ele respondeu:<em>\u00a0Cuidem da terra e mantenham puros os ensinamentos.<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p><strong>P\u00d3S-ESCRITO<\/strong><\/p><p>Durante sua vida Krishnaji freq\u00fcentemente perguntava \u00e0queles a sua volta:\u00a0<em>O que voc\u00ea vai fazer quando K se for?<\/em>\u00a0As vezes ele mostrava que grupos formados em torno de um l\u00edder tendiam a romper-se dentro de quarenta anos da morte do fundador. Amigos me perguntavam o que aconteceu nos anos ap\u00f3s 1986, quando K morreu.<\/p><p>Krishnaji sempre enfatizou os perigos e falhas das organiza\u00e7\u00f5es que seguiam um l\u00edder em particular e que tinham uma hierarquia ou ordem. Existem cinco Funda\u00e7\u00f5es e cerca de trinta comit\u00eas em v\u00e1rios pa\u00edses por todo o mundo engajados em preservar e fazer conhecer a beleza e a necessidade dos ensinamentos de Krishnamurti. Eu estou em contato tanto quanto poss\u00edvel com as pessoas envolvidas nestes grupos e os visito v\u00e1rias vezes durante o ano.<\/p><p>As Funda\u00e7\u00f5es mant\u00e9m escolas, centros de estudo e arquivos. Produzem boletins, livros, \u00e1udio e videoteipes, e organizam sua tradu\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias l\u00ednguas. Os Comit\u00eas ajudam as Funda\u00e7\u00f5es em seu trabalho colaborando na tradu\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios meios.<\/p><p>Krishnaji pretendia que todas as Funda\u00e7\u00f5es e Escolas fossem como uma s\u00f3, que trabalhassem juntas nesse esp\u00edrito. Era uma de suas mais profundas preocupa\u00e7\u00f5es transmitir isso \u00e0queles que trabalharam com ele durante sua longa vida. Cinco anos depois de sua morte, estamos trabalhando juntos em todo o mundo para prosseguir com o trabalho que ele come\u00e7ou.<\/p><p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 EP\u00cdLOGO DA TERCEIRA EDI\u00c7\u00c3O 1996<\/strong><\/p><p>Passaram-se dez anos da morte de Krishnamurti. O cent\u00e9simo anivers\u00e1rio de seu nascimento foi celebrado pelas Funda\u00e7\u00f5es, e isto foi visto como uma oportunidade para dar ao seu trabalho uma plataforma p\u00fablica maior. Em Vasanta Vihar, sede da Funda\u00e7\u00e3o indiana em Madras, houve um enorme encontro, com v\u00e1rios milhares de participantes. O Dalai Lama inaugurou as celebra\u00e7\u00f5es do Ano do Centen\u00e1rio. A senhora Pupul Jayakar e o antigo presidente da \u00cdndia, Senhor R. Venkataram, falaram na ocasi\u00e3o.<\/p><p>Um grande encontro tamb\u00e9m foi realizado em Ojai, Calif\u00f3rnia, sede da American Foundation e da escola. Confer\u00eancias sobre Krishnamurti realizaram-se em universidades no M\u00e9xico, Ohio e Paris.<\/p><p>Muitas novas publica\u00e7\u00f5es apareceram, entre elas o amplo trabalho de Evelyne Blau,\u00a0<em>Krishnamurti: 100 anos<\/em>. Parece que logo haver\u00e1 mais livros sobre K e seu trabalho do que livros dele mesmo. Completarei minhas lembran\u00e7as com algumas cita\u00e7\u00f5es de K.<\/p><p>\u2026Chega algu\u00e9m que est\u00e1 extraordinariamente curioso para saber como vive uma pessoas como K.<\/p><p>Estas s\u00e3o palavras do pr\u00f3prio K. Embora ele n\u00e3o as tivesse dirigido diretamente a mim, eu sabia que eram para mim. Ele certamente acertou em cheio, pois eu estava profundamente interessado em saber como tal extraordin\u00e1ria pessoa vivia. Para mim n\u00e3o era tanto a hist\u00f3ria de sua vida (como os teosofistas descobriram um menino negligenciado, que finalmente tornou-se o Mestre Universal); meu principal interesse consistia em descobrir como a extraordin\u00e1ria pessoa K, que inspirava tal respeito, de fato vivia sua vida di\u00e1ria.<\/p><p>Minha curiosidade foi mais do que satisfeita. Ainda lembro hoje, dez anos depois de sua morte, eventos que, acho, podem ser contados.<\/p><p>Em fevereiro de 1986, com 90 anos, Krishnamurti ao final de sua extraordin\u00e1ria vida, voltou a Ojai para morrer. At\u00e9 o fim ele esteve interessado na humanidade e nas pessoas que se aproximaram dele.<\/p><p>Apesar de sua terr\u00edvel fraqueza e dores, ele falou no seu modo simples e claro aos seus colaboradores que chegavam de todo o mundo. Deixou o fardo da coopera\u00e7\u00e3o com eles. Disse que o presidente e os secret\u00e1rios das funda\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam ter outro trabalho. Falou sobre a possibilidade de se formar um grupo de pessoas cuja principal tarefa seria viajar e \u201cmanter a coisa toda unida\u201d.<\/p><p>E ele podia ainda rir. Quando perguntou sobre minha casa em Ojai e descobriu que ela ainda estava sendo reformada, riu tanto que eu temi que os tubos de alimenta\u00e7\u00e3o, que passavam pelo nariz dele, pudessem machuc\u00e1-lo.<\/p><p>Recentemente li no Livro\u00a0<em>On living and Dying<\/em>, a palestra de Bombaim de 7 de mar\u00e7o de 1962.<\/p><p>A pessoa tem que estar indiferente \u2013 \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 solid\u00e3o, ao que as pessoas dizem ou n\u00e3o, indiferente se algu\u00e9m tem sucesso ou n\u00e3o, indiferente \u00e0 autoridade. Se voc\u00ea ouve algu\u00e9m atirando, fazendo muito barulho com uma arma, voc\u00ea pode muito facilmente acostumar-se com isso, e fica com o ouvido surdo; isso n\u00e3o \u00e9 indiferen\u00e7a. A indiferen\u00e7a surge quando voc\u00ea ouve o ru\u00eddo sem resist\u00eancia, fica com esse ru\u00eddo, caminha com ele infinitamente. A\u00ed esse ru\u00eddo n\u00e3o afeta voc\u00ea, n\u00e3o o perverte, n\u00e3o o torna indiferente. Assim voc\u00ea ouve todos os ru\u00eddos do mundo \u2013 o barulho dos seus filhos, de sua esposa, dos p\u00e1ssaros, o barulho dos pol\u00edticos falando \u2013 voc\u00ea os ouve completamente com indiferen\u00e7a e, portanto, com compreens\u00e3o. (p\u00e1gina 99)<\/p><p><em>\u00a0<\/em><\/p><p>O que ele diz ali sobre indiferen\u00e7a (que n\u00e3o \u00e9 para ser confundida com neglig\u00eancia) me faz lembrar de uma cena de seu leito de morte. Um incidente similar mas diferente ocorreu em 1985 durante os encontros de Saanen. Na ocasi\u00e3o K estava morando em meu apartamento em Rougemont e tinha queimado o dedo numa l\u00e2mpada para leitura. Fiquei horrorizado quando vi a queimadura mas K descartou-a e disse que n\u00e3o o aborrecia pois ele podia suportar a dor.<\/p><p>Chegaram mensagens para ele de todo o mundo e elas foram lidas com ele na cama. Fiquei surpreso com as coisas triviais e banais que se solicitava de um homem morrendo.<\/p><p>Embora ele tivesse dito a v\u00e1rias pessoas, inclusive a mim, alguns meses antes, que morreria em breve, todos esperavam que ele superasse a doen\u00e7a. Quarenta anos antes em Ojai, ele ficou t\u00e3o mortalmente doente que seu m\u00e9dico, Keller, desistiu. Um m\u00e9dico homeopata cuidou dele devotadamente durante um ano inteiro. Isto me foi contado em Ojai pela esposa do m\u00e9dico que estava com mais de oitenta anos.<\/p><p>Um relato muito tocante dos eventos em torno de sua morte \u00e9 dado pelo doutor Deutsch, seu m\u00e9dico na ocasi\u00e3o, no livro de Evelyne Blau,\u00a0<em>Krishnamurti: 100 anos.<\/em><\/p><p>De\u00a0<em>On Living And Dying (Sobre a vida e a morte):<\/em><\/p><p><em>Veja, morte \u00e9 destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 o fim: voc\u00ea n\u00e3o pode argumentar com ela. N\u00e3o pode dizer: \u201cN\u00e3o, espere mais uns dias\u201d. Voc\u00ea n\u00e3o pode discutir; n\u00e3o pode rogar; \u00e9 o fim; \u00e9 absoluta. N\u00f3s nunca enfrentamos nada definitivo, absoluto. Sempre damos a volta, e por isso temos medo da morte. Podemos inventar id\u00e9ias, esperan\u00e7as, medos, e ter cren\u00e7as como \u201cvamos ressuscitar, nascer de novo\u201d \u2013 tudo isso s\u00e3o artimanhas da mente buscando a continuidade que est\u00e1 no tempo, que n\u00e3o \u00e9 um fato, que existe apenas no pensamento. Sabe, quando falo sobre a morte, n\u00e3o estou falando sobre sua morte ou minha morte \u2013 estou falando sobre morte, este extraordin\u00e1rio fen\u00f4meno.<\/em>\u00a0(P\u00e1gina 100)<\/p><p><em>Assim, quando falamos da morte, n\u00e3o estamos falando de sua morte ou de minha morte. Na verdade n\u00e3o importa muito se voc\u00ea morre ou eu morro; n\u00f3s vamos morrer, felizmente ou em desgra\u00e7a \u2013 morrer felizmente tendo vivido completamente, integralmente, com todos os sentidos, com todo nosso ser, completamente vivo, em completa sa\u00fade, ou morrer como pessoas miser\u00e1veis entrevadas pela idade, frustradas, em sofrimento, nunca tendo conhecido um dia feliz, rico, nunca tendo um dia em que v\u00edssemos o sublime. Assim, estou falando de Morte, n\u00e3o sobre a morte de uma pessoa em particular.<\/em>\u00a0(P\u00e1gina 101)<\/p><p><em>Veja, n\u00f3s n\u00e3o amamos. O amor s\u00f3 surge quando n\u00e3o h\u00e1 nada, quando voc\u00ea negou o mundo todo \u2013 n\u00e3o uma coisa enorme chamada \u201co mundo\u201d mas apenas \u201cseu mundo\u201d, o pequeno mundo em que voc\u00ea vive \u2013 a fam\u00edlia, o apego, as brigas, a domina\u00e7\u00e3o, seu sucesso, suas esperan\u00e7as, suas culpas, suas obedi\u00eancias, seus deuses, e seus mitos. Quando voc\u00ea nega todo esse mundo, quando nada permanece, nenhum deus, nenhuma esperan\u00e7a, nenhum desespero, quando n\u00e3o h\u00e1 busca, ent\u00e3o a partir desse grande vazio vem o amor, que \u00e9 uma realidade extraordin\u00e1ria, que \u00e9 um fato extraordin\u00e1rio n\u00e3o conjurado pela mente que tem uma continuidade com a fam\u00edlia atrav\u00e9s do sexo, atrav\u00e9s do desejo.<\/em>\u00a0(P\u00e1gina 102)<\/p><p>Eu pude experimentar esta indiferen\u00e7a calorosa, afetuosa, que K menciona na palestra citada quando est\u00e1vamos viajando juntos para a \u00cdndia em 1985. Est\u00e1vamos sentados no carro em Brockwood Park, esperando para seguirmos para o aeroporto. Tivemos que esperar um bom tempo por Mary Zimbalist. Podia-se achar que K estaria nervoso na expectativa de viagem t\u00e3o longa. Mas ele sentou-se e esperou com total compostura e estava at\u00e9 alegre, embora tenha sido uma longa espera.<\/p><p>Sa\u00edmos muito cedo, o dia n\u00e3o tinha raiado e, contudo, toda a equipe e os alunos foi \u00e0 Ala Oeste e ficou esperando ao p\u00e9 da escada para nos ver partir. Passamos por um corredor de quase cem pessoas, e K apertou as m\u00e3os delas no caminho at\u00e9 a porta. A atmosfera era solene. Pairava no ar a premoni\u00e7\u00e3o de que esta seria a \u00faltima viagem de K a Brockwood. Dorothy Simmons, a antiga diretora da escola, levou-nos ao aeroporto em seu carro, K e eu sentados no banco de tr\u00e1s. No come\u00e7o estava chovendo mas logo parou. Dorothy, no entanto, esqueceu de desligar os limpadores de parabrisa, que come\u00e7aram a arranhar no vidro seco. Fiquei tenso e gostaria de ter dito algo, mas n\u00e3o se esperava uma rea\u00e7\u00e3o de K. E, como tantas vezes, sua rea\u00e7\u00e3o foi diferente e inesperada. Ele simplesmente disse: \u201cParou de chover\u201d, o que fez Dorothy desligar os limpadores imediatamente. No aeroporto o comovente momento da partida trouxe l\u00e1grimas aos olhos das mulheres j\u00e1 que Dorothy e Mary ficariam e s\u00f3 eu voaria para a \u00cdndia com K. Rita Zampese, que na ocasi\u00e3o era ainda chefe do escrit\u00f3rio da Lufthansa em Londres, levou-nos para a sala de tr\u00e2nsito. Toda minha bagagem consistia numa mochila, e foi comigo para o avi\u00e3o. Hoje eu nem consigo imaginar como pude fazer uma viagem com t\u00e3o poucas coisas.<\/p><p>Na sala de tr\u00e2nsito nos encontramos sentados junto a um grupo de mulheres e homens um tanto desagrad\u00e1veis, provavelmente da \u00e1rea de neg\u00f3cios, que estavam muito ocupados com eles mesmos. Estavam falando, fumando e bebendo. K olhou-os com olhos arregalados, e a express\u00e3o de seu rosto era um misto de espanto e horror; contudo, n\u00e3o havia o m\u00ednimo desd\u00e9m. Tivemos que trocar de avi\u00e3o em Frankfurt, e lembro com que alegria K viajou no r\u00e1pido \u00f4nibus el\u00e9trico. Uma vez no avi\u00e3o, ele ficou no assento \u00fanico na frente \u00e0 direita que s\u00f3 a Lufthansa oferecia.<\/p><p>Eu, ao contr\u00e1rio, sentei ao lado de um cavalheiro que lia um jornal e ouvia m\u00fasica ao mesmo tempo. E mais, fazia movimentos de m\u00e3o como um maestro, e deduzi da\u00ed que ele seria m\u00fasico.<\/p><p>Ele estava tamb\u00e9m totalmente autocentrado e n\u00e3o mostrava o menor interesse em seus vizinhos \u2013 neste caso, K e eu.<\/p><p>Ouve-se muitas vezes das pessoas que v\u00e3o \u00e0s palestras que K aborda sempre o t\u00f3pico em que elas est\u00e3o imediatamente interessadas. Desde que K se dirige muitas vezes a milhares de pessoas, deve-se perguntar como isso \u00e9 poss\u00edvel. O mesmo problema est\u00e1 na mente de todos? \u00c9 a consci\u00eancia comum que todos partilhamos? Ou K apenas escolhe uma pessoa que est\u00e1 intensamente envolvida com um problema?<\/p><p>Eu pessoalmente experimentei a capacidade de K para ler pensamentos, e outras pessoas deram testemunho disso. Em Madras, K e eu sa\u00edmos para um passeio pela praia juntos, com um ou dois outros amigos. Est\u00e1vamos voltando e eu caminhava atr\u00e1s de K. Estava pensando \u2013 e os outros certamente sentiam isso \u2013 que K tinha me dado mais aten\u00e7\u00e3o, quando ele se virou para mim e falou: \u201cN\u00e3o acho isso\u201d.<\/p><p>Outro incidente ocorreu na sala de jantar em Brockwood. Um jornalista perguntou-me o que eu fazia para viver. A pergunta aborreceu-me e eu estava a ponto de responder, um tanto provocativamente, que eu n\u00e3o fazia nada quando K, que estava sentado perto de mim na mesa, adiantou-se e disse: \u201cEles fazem torneiras\u201d.<\/p><p>Outra vez, em Rishi Valley, um indiano da \u00c1frica do Sul estava sentado em nossa mesa. Ele era conferencista numa universidade sul africana, e K fez perguntas precisas e penetrantes sobre a situa\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul, tentando de v\u00e1rios modos faz\u00ea-lo falar sobre seus sentimentos a respeito. Mas nosso convidado s\u00f3 respondia com generalidades. Finalmente K, referindo-se de repente a mim, disse: \u201dO senhor Grohe n\u00e3o podia suportar ficar na \u00c1frica do Sul\u201d. Fiquei at\u00f4nito. Reconhecidamente eu havia dito a ele que trabalhara na \u00c1frica do Sul mas n\u00e3o tinha dito que um ano depois, n\u00e3o ag\u00fcentava mais ficar, embora minha fam\u00edlia tivesse uma bela casa e estivesse vivendo l\u00e1 por muitos anos. Meu pai, temendo os russos, mudou-se para a \u00c1frica do Sul depois da guerra. Quando uma vez eu contei a K sobre o medo que os alem\u00e3es tinham dos russos, ele disse que eles estavam certos de terem medo dos russos. Aconteceu de eu estar presente uma vez quando K estava sendo entrevistado pelo jornalista e editor checo, Jadry Prokorny. Prokorny perguntou o que K teria feito se vivesse num pa\u00eds comunista. K respondeu que teria que ser capaz de falar apenas para pequenos grupos. Em conversas e palestras p\u00fablicas ele repetidamente falava sobre a brutalidade dos governantes comunistas. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo no mundo.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Friedrich Grohe &#8211; 2 A BELEZA DA MONTANHA \u00a0\u00a0Lembran\u00e7as de Krishnamurti \u00a0 PREF\u00c1CIO Estas lembran\u00e7as de Krishnamurti, ou \u201cK\u201d como ele muitas vezes referia-se a si mesmo, compreendem os tr\u00eas \u00faltimos anos de sua vida, durante os quais convivi pessoalmente com ele. 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