{"id":1855,"date":"2022-12-18T17:04:01","date_gmt":"2022-12-18T17:04:01","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1855"},"modified":"2022-12-18T17:04:34","modified_gmt":"2022-12-18T17:04:34","slug":"21-07-1963","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1855","title":{"rendered":"21\/07\/1963"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1855\" class=\"elementor elementor-1855\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2fc54b4b elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"2fc54b4b\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-246fcb33\" data-id=\"246fcb33\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-17ca1ae8 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"17ca1ae8\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>7\u00aa Palestra em Saanen, Sui\u00e7a<\/strong><\/p><p>\u00a0<\/p><p>Temos explorado muitos problemas que dizem respeito \u00e0 nossa vida di\u00e1ria porque, sem compreendermos esses problemas di\u00e1rios de conflito, avidez, ambi\u00e7\u00e3o, inveja, as penas do amor, etc. \u2013 sem compreendermos essas coisas completamente \u2013 \u00e9 imposs\u00edvel descobrirmos, por n\u00f3s mesmos, se existe algo al\u00e9m das coisas que s\u00e3o acumuladas pelo c\u00e9rebro: a moralidade respeit\u00e1vel do dia-a-dia, as inven\u00e7\u00f5es das v\u00e1rias igrejas por todo o mundo, a vis\u00e3o de mundo obviamente materialista, e a atitude intelectual para com a vida.<\/p><p>Parece-me que qualquer problema humano que persista sendo problema, inevitavelmente embota a mente e a torna insens\u00edvel, porque a mente limita-se a girar em c\u00edrculos, sem jamais sair da sua confus\u00e3o e do seu sofrimento. Portanto, \u00e9 vitalmente necess\u00e1rio compreender cada problema e dar-lhe fim logo que surja. Acho que poucos de n\u00f3s compreendem que, se qualquer problema humano n\u00e3o for resolvido imediatamente, ele imprime \u00e0 mente um senso de continuidade no qual h\u00e1 eterno conflito, e isso torna a mente insens\u00edvel, embotada, est\u00fapida. Este fato precisa ser claramente entendido, bem como o fato de que n\u00e3o estamos falando de algum sistema particular de filosofia, ou olhando a vida atrav\u00e9s de algum prisma especial de pensamento. Como sabem, temos discutido muitas coisas, mas n\u00e3o de um ponto de vista oriental ou ocidental. Temos tratado de cada problema, n\u00e3o como crist\u00e3os, ou hindus, ou zen-budistas, ou segundo qualquer outro ponto de vista tendencioso, mas simplesmente como seres humanos racionais, inteligentes, sem distor\u00e7\u00f5es nem neuroses.<\/p><p>Esta manh\u00e3, gostaria de falar sobre uma quest\u00e3o importante, a quest\u00e3o da morte \u2013 morte n\u00e3o s\u00f3 do indiv\u00edduo, mas morte como uma ideia que existe por todo o mundo e que tem persistido como problema por s\u00e9culos, sem jamais ser resolvido. H\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 o medo individual da morte, mas tamb\u00e9m uma atitude coletiva desproporcional para com a morte \u2013 tanto na \u00c1sia quanto nos pa\u00edses ocidentais \u2013 que precisa ser compreendida. Portanto, vamos considerar juntos toda essa quest\u00e3o.<\/p><p>No exame de problema t\u00e3o vasto e importante, as palavras s\u00f3 servem para permitir a comunica\u00e7\u00e3o, a comunh\u00e3o entre n\u00f3s. Mas a palavra pode facilmente tornar-se um obst\u00e1culo quando tentamos compreender essa profunda quest\u00e3o da morte, a menos que lhe demos completa aten\u00e7\u00e3o, em vez de tentarmos verbalmente, irreverentemente ou intelectualmente, encontrar uma raz\u00e3o para sua exist\u00eancia.<\/p><p>Antes, ou talvez durante o processo de compreens\u00e3o dessa coisa extraordin\u00e1ria chamada morte, temos de entender tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do tempo, que \u00e9 outro grande fator na nossa vida. O pensamento cria o tempo, e o tempo controla e molda o nosso pensamento. Estou usando a palavra tempo, n\u00e3o s\u00f3 no sentido cronol\u00f3gico de ontem e amanh\u00e3, mas tamb\u00e9m no sentido psicol\u00f3gico \u2013 o tempo inventado pelo pensamento como meio de chegar, de alcan\u00e7ar, de protelar. Ambos s\u00e3o fatores que influenciam a nossa vida. \u00c9 preciso ter consci\u00eancia do tempo cronol\u00f3gico; doutro modo, voc\u00ea e eu n\u00e3o poder\u00edamos encontrar-nos aqui \u00e0s onze horas. Obviamente, o tempo cronol\u00f3gico \u00e9 necess\u00e1rio nos eventos da nossa vida \u2013 isso \u00e9 um assunto simples, claro, que n\u00e3o precisa ser investigado em profundidade. Portanto, o que temos de explorar, discutir e entender \u00e9 o inteiro processo psicol\u00f3gico que chamamos de tempo. Por favor, como tenho dito em cada reuni\u00e3o aqui, se voc\u00eas simplesmente ouvirem as palavras e n\u00e3o perceberem as implica\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s das palavras, receio que n\u00e3o cheguemos muito longe. A maioria das pessoas est\u00e1 escravizada pelas palavras e pelo conceito ou f\u00f3rmula que as palavras constru\u00edram. N\u00e3o descarte isso simplesmente, porque cada um de n\u00f3s tem uma f\u00f3rmula, um conceito, uma ideia, um ideal \u2013 racional, irracional ou neur\u00f3tico \u2013 de acordo com o qual est\u00e1 vivendo. A mente est\u00e1 se guiando por algum padr\u00e3o, por alguma s\u00e9rie de palavras que foram transformadas num conceito, numa f\u00f3rmula. Isso \u00e9 verdade a respeito de cada um de n\u00f3s, e, por favor, n\u00e3o se engane sobre isso \u2013 h\u00e1 uma ideia, um padr\u00e3o, de acordo com o qual estamos moldando nossa vida. Mas, se quisermos entender esta quest\u00e3o de morte e vida, todas as f\u00f3rmulas, padr\u00f5es e idea\u00e7\u00f5es \u2013 que existem porque n\u00e3o entendemos a vida \u2013 precisam desaparecer. Um homem que esteja vivendo em plenitude, completamente, sem medo, n\u00e3o possui nenhuma ideia sobre a vida. Sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 pensamento, e seu pensamento \u00e9 a\u00e7\u00e3o; n\u00e3o s\u00e3o coisas separadas. Mas, porque temos medo da coisa chamada morte, n\u00f3s a separamos da vida; colocamos a vida e a morte em dois compartimentos estanques, com uma grande dist\u00e2ncia entre eles, e vivemos de acordo com a palavra, de acordo com a f\u00f3rmula do passado, a tradi\u00e7\u00e3o do que foi dito; e a mente presa nesse processo jamais poder\u00e1 ver todas as implica\u00e7\u00f5es da morte e da vida, nem entender o que \u00e9 a verdade.<\/p><p>Portanto, quando voc\u00ea esquadrinhar essa quest\u00e3o comigo, se o fizer como crist\u00e3o, budista, hindu, ou o que seja, voc\u00ea ficar\u00e1 completamente confuso. E, se trouxer para essa explora\u00e7\u00e3o o res\u00edduo de suas v\u00e1rias experi\u00eancias, o conhecimento adquirido de livros, de outras pessoas, tamb\u00e9m ficar\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 desapontado, mas muito confuso. O homem que quiser realmente investigar, precisa primeiro ficar livre de todas essas coisas que constituem o seu background \u2013 e essa \u00e9 a nossa maior dificuldade. A pessoa precisa ficar livre do passado \u2013 mas n\u00e3o como rea\u00e7\u00e3o \u2013 porque, sem essa liberdade, n\u00e3o se pode descobrir nada novo. Compreender \u00e9 liberdade. Mas, como eu disse outro dia, muito poucos querem ser livres. Preferimos viver numa estrutura segura feita por n\u00f3s mesmos, ou numa estrutura montada pela sociedade. Qualquer perturba\u00e7\u00e3o dentro desse padr\u00e3o \u00e9 bastante inquietante, e, em vez de ficarmos perturbados, vivemos uma vida de neglig\u00eancia, morte e decad\u00eancia.<\/p><p>Para investigarmos essa imensa quest\u00e3o da morte, precisamos n\u00e3o s\u00f3 manter-nos indiferentemente c\u00f4nscios da nossa escravid\u00e3o a f\u00f3rmulas, a conceitos, mas tamb\u00e9m dos nossos temores, nosso desejo de continuidade, e assim por diante. Para inquirir, precisamos abordar o problema como se pela primeira vez. Por favor, isso \u00e9 realmente muito importante. A mente precisa ser clara e nunca estar presa num conceito ou numa ideia, se quiser perscrutar algo que seja extraordin\u00e1rio \u2013 com \u00e9 o caso da morte. A morte precisa ser algo extraordin\u00e1rio, e n\u00e3o isso que tentamos trapacear e que tememos.<\/p><p>Psicologicamente, somos escravos do tempo \u2013 o tempo significando a lembran\u00e7a de ontem, do passado, com todas as suas experi\u00eancias acumuladas; n\u00e3o s\u00f3 as suas mem\u00f3rias, mas tamb\u00e9m as mem\u00f3rias da coletividade, da ra\u00e7a, do homem ao longo das idades. O passado \u00e9 constitu\u00eddo das tristezas, dos sofrimentos, das alegrias individuais e coletivas do homem, sua extraordin\u00e1ria luta com a vida, com a morte, com a verdade, com a sociedade. Tudo isso constitui o passado, o ontem multiplicado milhares de vezes; e, para a maioria de n\u00f3s, o presente \u00e9 o movimento do passado em dire\u00e7\u00e3o ao futuro. N\u00e3o h\u00e1 divis\u00f5es exatas de passado, presente e futuro. Aquilo que foi, modificado pelo presente, \u00e9 aquilo que ser\u00e1. Isso \u00e9 tudo o que sabemos. O futuro \u00e9 o passado modificado pelos acidentes do presente; o amanh\u00e3 \u00e9 o ontem reciclado pelas experi\u00eancias, rea\u00e7\u00f5es e conhecimentos de hoje. \u00c9 isso que chamamos de tempo. O tempo \u00e9 coisa forjada pelo c\u00e9rebro, e o c\u00e9rebro, por sua vez, \u00e9 resultado do tempo, de milhares de ontens. Cada pensamento \u00e9 resultado do tempo; \u00e9 a resposta da mem\u00f3ria, a rea\u00e7\u00e3o das saudades, frustra\u00e7\u00f5es, malogros, tristezas, perigos iminentes de ontem; e, com esse background, olhamos para a vida, examinamos todas as coisas. Se h\u00e1 ou n\u00e3o h\u00e1 Deus, qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do Estado, a natureza do relacionamento, como superar ou ajustar-se ao ci\u00fame, \u00e0 ansiedade, \u00e0 culpa, ao desespero, \u00e0 tristeza \u2013 olhamos para todas essas quest\u00f5es com aquele background do tempo.<\/p><p>Qualquer coisa para a qual olhemos com esse background fica distorcida, e, quando a crise a exigir aten\u00e7\u00e3o for muito grande, se olharmos para ela com os olhos do passado, agiremos, ou de modo neur\u00f3tico \u2013 coisa que a maioria faz \u2013 ou constru\u00edmos para n\u00f3s um muro de resist\u00eancia contra ela. Eis o inteiro processo da nossa vida.<\/p><p>Por favor, estou expondo essas coisas verbalmente, mas, se voc\u00eas apenas notarem as palavras, mas n\u00e3o observarem o seu pr\u00f3prio processo de pensamento (observa\u00e7\u00e3o que consiste em verem a si pr\u00f3prios como s\u00e3o), ent\u00e3o, quando sa\u00edrem daqui esta manh\u00e3, n\u00e3o ter\u00e3o uma completa compreens\u00e3o da morte, e \u00e9 preciso haver essa compreens\u00e3o se voc\u00eas quiserem ser livres e entrar em algo totalmente diferente.<\/p><p>Portanto, estamos eternamente traduzindo o presente nos termos do passado, e, assim, dando continuidade ao que foi. Para a maioria de n\u00f3s, o presente \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do passado. Vamos ao encontro dos acontecimentos di\u00e1rios de nossa vida \u2013 os quais t\u00eam suas novidades, sua import\u00e2ncia \u2013 com o peso morto do passado, criando, assim, aquilo que chamamos de futuro. Se voc\u00ea tiver observado sua pr\u00f3pria mente, n\u00e3o s\u00f3 o consciente, mas tamb\u00e9m o inconsciente, saber\u00e1 que ela \u00e9 o passado, que nada h\u00e1 nela que seja novo, nada que n\u00e3o seja corrompido pelo passado, pelo tempo. H\u00e1 tamb\u00e9m aquilo que chamamos de presente. Existe um presente intocado pelo passado? Existe um presente que n\u00e3o condicione o futuro?<\/p><p>Provavelmente voc\u00ea n\u00e3o pensou nisso antes, e vamos entrar um pouco nesse assunto. A maioria de n\u00f3s quer viver no presente porque o passado \u00e9 t\u00e3o pesado, t\u00e3o opressor, t\u00e3o inexaur\u00edvel, e o futuro, t\u00e3o incerto. A mente moderna diz: \u201cViva completamente no presente. N\u00e3o se preocupe com o que acontecer\u00e1 amanh\u00e3, mas viva para o hoje. A vida \u00e9 t\u00e3o inapelavelmente miser\u00e1vel, que o mal de um dia j\u00e1 basta; portanto, viva cada dia completamente e esque\u00e7a tudo o mais.\u201d Essa \u00e9, obviamente, uma filosofia do desespero.<\/p><p>\u00c9 poss\u00edvel viver no presente sem trazer para ele o tempo, que \u00e9 o passado? Certamente, voc\u00ea pode viver na totalidade do presente, mas s\u00f3 quando compreende todo o passado. Morrer para o passado \u00e9 viver no presente; e voc\u00ea s\u00f3 pode morrer para o tempo se tiver compreendido o passado, o que significa compreender sua pr\u00f3pria mente \u2013 n\u00e3o s\u00f3 a mente consciente, que vai para o escrit\u00f3rio todos os dias, coleciona conhecimentos e experi\u00eancias, tem rea\u00e7\u00f5es superficiais, e tudo o mais, por\u00e9m tamb\u00e9m a mente inconsciente, na qual est\u00e3o enterradas as tradi\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia, do grupo, da ra\u00e7a. Tamb\u00e9m enterrada no inconsciente, est\u00e1 a imensa tristeza do homem e o medo da morte. Tudo isso \u00e9 o passado, que \u00e9 voc\u00ea mesmo, e voc\u00ea tem de entend\u00ea-lo. Caso voc\u00ea n\u00e3o compreenda essas coisas; caso n\u00e3o tenha perscrutado os caminhos da sua mente e do seu cora\u00e7\u00e3o, sua avidez e tristeza; caso voc\u00ea n\u00e3o se conhe\u00e7a completamente, n\u00e3o pode viver no presente. Viver no presente \u00e9 morrer para o passado. No processo de compreender a si mesmo, voc\u00ea fica livre do passado, que \u00e9 o seu condicionamento \u2013 seu condicionamento como comunista, cat\u00f3lico, protestante, hindu, budista, o condicionamento imposto a voc\u00ea pela sociedade e por suas pr\u00f3prias ambi\u00e7\u00f5es, invejas, ansiedades, desesperos, tristezas e frustra\u00e7\u00f5es. \u00c9 o seu condicionamento que d\u00e1 continuidade ao \u201ceu\u201d, ao ego.<\/p><p>Como estava eu mostrando outro dia, se voc\u00ea n\u00e3o se conhece a si mesmo, seu estado inconsciente tanto quanto o seu estado consciente, toda a sua investiga\u00e7\u00e3o ser\u00e1 distorcida, tendenciosa. Voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 fundamento para pensar de modo racional, claro, l\u00f3gico, saud\u00e1vel. O seu pensamento se dar\u00e1 de acordo com certo padr\u00e3o, f\u00f3rmula ou conjunto de ideias \u2013 mas isso n\u00e3o \u00e9 realmente pensar. Para pensar com clareza, l\u00f3gica, sem ficar neur\u00f3tico, sem ser apanhado em alguma forma de ilus\u00e3o, voc\u00ea tem de conhecer todo o processo da sua consci\u00eancia, que foi constru\u00edda pelo tempo, pelo passado. E \u00e9 poss\u00edvel viver sem o passado? Certamente, isso \u00e9 a morte. Voc\u00eas entenderam? Tornaremos \u00e0 quest\u00e3o do presente quando tivermos visto por n\u00f3s mesmos o que \u00e9 a morte.<\/p><p>O que \u00e9 a morte? Esta pergunta \u00e9 para o jovem e para o velho; portanto, fa\u00e7a-a a si mesmo. A morte consiste somente no fim do organismo f\u00edsico? \u00c9 disso que temos medo? \u00c9 o corpo que n\u00f3s queremos que continue? Ou o que queremos \u00e9 outra forma de continuidade? Todos compreendemos que o corpo, a entidade f\u00edsica, desgasta-se com o uso, com as v\u00e1rias press\u00f5es, influ\u00eancias, conflitos, compuls\u00f5es, exig\u00eancias, tristezas. Alguns provavelmente gostariam que o corpo pudesse continuar por 150 anos ou mais, e talvez os m\u00e9dicos e os cientistas, juntos, descubram, por fim, algum modo de prolongar a agonia na qual vive a maioria de n\u00f3s. Mas, cedo ou tarde, o corpo morre, o organismo f\u00edsico chega ao fim. Como qualquer m\u00e1quina, ele eventualmente se consome.<\/p><p>Para a maioria, a morte \u00e9 algo muito mais profundo do que o findar do corpo, e todas as religi\u00f5es prometem algum tipo de vida depois da morte. N\u00f3s ansiamos por continuidade, queremos a garantia de que algo continua quando o corpo morre. Esperamos que a psique, o \u201ceu\u201d continue \u2013 o \u201ceu\u201d que teve experi\u00eancias, que lutou, adquiriu, aprendeu, sofreu, divertiu-se; o \u201ceu\u201d que, no Ocidente, chama-se alma, e que tem outro nome no Oriente. Portanto, estamos preocupados com a continuidade e n\u00e3o com a morte. N\u00e3o queremos saber o que \u00e9 a morte; n\u00e3o queremos conhecer o extraordin\u00e1rio milagre, a beleza, a profundidade, a vastid\u00e3o da morte. N\u00e3o queremos investigar esse algo que n\u00e3o conhecemos. S\u00f3 queremos continuar a existir. N\u00f3s dizemos: \u201cEu que vivi quarenta, sessenta, oitenta anos; que tenho uma casa, fam\u00edlia, filhos e netos; que fui para o escrit\u00f3rio dia ap\u00f3s dia por tantos anos; eu que tive contendas, apetites sexuais \u2013 eu quero continuar a viver.\u201d S\u00f3 nos preocupamos com isso. Sabemos que existe morte, que \u00e9 inevit\u00e1vel o fim do corpo f\u00edsico, ent\u00e3o dizemos: \u201cPreciso assegurar-me da minha continuidade depois da morte.\u201d Por conseguinte, temos cren\u00e7as, dogmas, ressurrei\u00e7\u00e3o, reencarna\u00e7\u00e3o \u2013 mil modos de fugir da realidade da morte; e, quando temos uma guerra, colocamos cruzes para os pobres coitados que foram mortos. Esse tipo de coisa tem acontecido por mil\u00eanios.<\/p><p>N\u00f3s jamais demos todo o nosso ser para descobrir o que \u00e9 a morte. N\u00f3s sempre abordamos a morte com a condi\u00e7\u00e3o de termos garantia de continuidade no al\u00e9m. Dizemos: \u201cQuero que o conhecido continue\u201d \u2013 sendo o conhecido nossas qualidades, capacidades, a mem\u00f3ria das nossas experi\u00eancias, nossas lutas, realiza\u00e7\u00f5es, frustra\u00e7\u00f5es, ambi\u00e7\u00f5es; \u00e9 tamb\u00e9m o nosso nome e a nossa propriedade. Eis o conhecido, e queremos que tudo isso continue. Uma vez garantida a certeza dessa continuidade, ent\u00e3o talvez possamos investigar o que \u00e9 a morte, e se existe essa coisa de desconhecido \u2013 que deve ser algo extraordin\u00e1rio de encontrar.<\/p><p>Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea a dificuldade. O que desejamos \u00e9 continuidade, e nunca nos havemos perguntado o que \u00e9 que contribui para a continuidade, o que \u00e9 que inicia essa corrente, esse movimento de continuidade. Se voc\u00ea observar, ver\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 o pensamento que d\u00e1 um senso de continuidade \u2013 nada mais. Por meio do pensamento, voc\u00ea identifica-se com a sua fam\u00edlia, com a sua casa, com os seus quadros ou poemas, com o seu car\u00e1ter, com as suas frustra\u00e7\u00f5es, com as suas alegrias. Quanto mais voc\u00ea pensa num problema, mais raiz e continuidade voc\u00ea d\u00e1 \u00e0quele problema. Se voc\u00ea gosta de algu\u00e9m, voc\u00ea pensa nessa pessoa, e esse pensamento d\u00e1 um senso de continuidade no tempo. \u00c9 claro que voc\u00ea precisa pensar, mas ser\u00e1 que voc\u00ea pode pensar por um momento, naquele momento \u2013 e ent\u00e3o deixar de pensar? Se voc\u00ea n\u00e3o dissesse: \u201cEu gosto disso, \u00e9 meu \u2013 \u00e9 meu quadro, minha auto express\u00e3o, meu Deus, minha mulher, minha virtude \u2013 e vou conservar tudo isso\u201d, voc\u00ea n\u00e3o teria nenhum senso de continuidade no tempo. Mas voc\u00ea n\u00e3o pensa com clareza, n\u00e3o pensa completamente em cada problema. Sempre h\u00e1 o prazer que voc\u00ea quer conservar e a dor que voc\u00ea quer descartar, o que significa que voc\u00ea pensa em ambas as coisas, e o pensamento d\u00e1 continuidade e ambas. O que denominamos pensamento \u00e9 resposta da mem\u00f3ria, da associa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 essencialmente o mesmo que a resposta de um computador; e voc\u00ea tem de chegar ao ponto em que veja por si mesmo a verdade disso.<\/p><p>A maioria de n\u00f3s n\u00e3o quer realmente descobrir, em primeira m\u00e3o, o que \u00e9 a morte; pelo contr\u00e1rio, queremos continuar no campo do conhecido. Se o meu irm\u00e3o, o meu filho, a minha mulher ou o meu marido morre, fico inconsol\u00e1vel, solit\u00e1rio, com autocomisera\u00e7\u00e3o, estado que chamo de desola\u00e7\u00e3o, e passo a viver nesse estado de desordem, confus\u00e3o e sofrimento. Eu separo a morte da vida \u2013 a vida de intrigas, amarguras, desesperos, desapontamentos, frustra\u00e7\u00f5es, humilha\u00e7\u00f5es, insultos \u2013 porque esta vida eu conhe\u00e7o, e a morte eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Cren\u00e7a e dogma me satisfazem at\u00e9 que eu morra, e \u00e9 isso que acontece com a maioria de n\u00f3s.<\/p><p>Entretanto, esse senso de continuidade que o pensamento d\u00e1 \u00e0 consci\u00eancia \u00e9 bem superficial, como voc\u00ea pode ver. N\u00e3o h\u00e1 nada misterioso ou enobrecedor nisso, e, quando voc\u00ea lhe compreende o inteiro significado, voc\u00ea pensa \u2013 quando o pensamento \u00e9 necess\u00e1rio \u2013 com clareza, com l\u00f3gica, de modo saud\u00e1vel, n\u00e3o sentimental, sem a constante compuls\u00e3o para saciar-se, para ser ou tornar-se algu\u00e9m. Ent\u00e3o voc\u00ea saber\u00e1 como viver no presente, e viver no presente \u00e9 morrer momento a momento. Voc\u00ea \u00e9 capaz, ent\u00e3o, de investigar, porque sua mente, livre de medo, n\u00e3o tem ilus\u00e3o alguma. N\u00e3o ter nenhuma ilus\u00e3o \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, e a ilus\u00e3o s\u00f3 existe enquanto houver medo. N\u00e3o havendo medo, n\u00e3o h\u00e1 ilus\u00e3o. A ilus\u00e3o surge quando o medo se enra\u00edza na seguran\u00e7a, seja na forma de um relacionamento, uma casa, uma cren\u00e7a, ou posi\u00e7\u00e3o e prest\u00edgio. O medo cria ilus\u00e3o. Enquanto persistir o medo, a mente ser\u00e1 presa de v\u00e1rias formas de ilus\u00e3o, e tal mente n\u00e3o consegue compreender o que \u00e9 a morte. Vamos agora investigar o que \u00e9 a morte \u2013 pelo menos, eu vou investigar o assunto, exp\u00f4-lo \u2013 mas voc\u00ea s\u00f3 pode compreender a morte, viver com ela completamente, conhecer-lhe o profundo, inteiro significado, quando n\u00e3o houver medo, e, por conseguinte, quando n\u00e3o houver ilus\u00e3o. Ser livre de medo \u00e9 viver completamente no presente, o que significa que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 funcionando mecanicamente, no h\u00e1bito da mem\u00f3ria. Muitos de n\u00f3s estamos preocupados com a reencarna\u00e7\u00e3o, ou querendo saber se continuamos a viver depois que o corpo morre, o que \u00e9 bastante pueril. Ser\u00e1 que j\u00e1 compreendemos a trivialidade desse desejo de continuidade? Conseguimos ver que \u00e9 somente o processo do pensamento, a m\u00e1quina do pensamento, que exige continuidade? Tendo visto esse fato, voc\u00ea compreende a total superficialidade, a estupidez de tal exig\u00eancia? Ser\u00e1 que o \u201ceu\u201d\u201d continua depois da morte? Que importa isso? E o que \u00e9 esse \u201ceu\u201d que voc\u00ea quer que continue? Seus prazeres e sonhos, suas esperan\u00e7as, desesperos e alegrias, suas propriedades e o nome de fam\u00edlia, o seu insignificante car\u00e1ter, e o conhecimento que voc\u00ea amealhou em sua limitada vida, aumentado por professores, literatos, artistas. \u00c9 isso que voc\u00ea quer que continue, e isso \u00e9 tudo.<\/p><p>Ent\u00e3o, seja voc\u00ea idoso ou jovem, tem de p\u00f4r fim a tudo isso \u2013 voc\u00ea tem de acabar com isso completamente, cirurgicamente, como um cirurgi\u00e3o opera com um bisturi. Ent\u00e3o a mente fica sem ilus\u00e3o e sem medo; portanto, ela pode observar e compreender o que \u00e9 a morte. O medo existe por causa do desejo de apegar-se ao que \u00e9 conhecido. O conhecido \u00e9 o passado vivendo no presente e modificando o futuro. Eis a nossa vida dia ap\u00f3s dia, ano ap\u00f3s ano, at\u00e9 morrermos; como pode uma mente assim compreender algo que n\u00e3o tem tempo, n\u00e3o tem motivo, algo completamente desconhecido?<\/p><p>Voc\u00eas entenderam?A morte \u00e9 o desconhecido, e voc\u00ea tem ideias sobre ela. Voc\u00ea evita olhar para a morte, ou a racionaliza, dizendo que \u00e9 inevit\u00e1vel, ou tem uma cren\u00e7a que lhe d\u00e1 conforto, esperan\u00e7a. Mas, \u00e9 somente uma mente madura, uma mente sem medo, sem ilus\u00e3o, sem essa est\u00fapida busca de auto express\u00e3o e continuidade \u2013 \u00e9 s\u00f3 uma mente assim que pode observar e descobrir o que \u00e9 a morte, porque sabe como viver no presente.<\/p><p>Por favor, acompanhe isso. Viver no presente \u00e9 n\u00e3o ter desespero, porque n\u00e3o h\u00e1 nenhum desejo obsessivo pelo passado e nenhuma esperan\u00e7a no futuro; portanto, a mente diz: \u201cO hoje me basta.\u201d Ela n\u00e3o evita o passado nem fecha os olhos para o futuro, mas entendeu a totalidade da consci\u00eancia, a qual n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o individual, mas tamb\u00e9m o coletivo, e, assim, n\u00e3o existe \u201ceu\u201d separado dos muitos. Na compreens\u00e3o da totalidade de si mesma, a mente compreendeu o particular tanto quanto o universal; portanto, abandonou a ambi\u00e7\u00e3o, o esnobismo, o prest\u00edgio social. Tudo isso deixa de existir na mente que esteja vivendo inteiramente no presente, e, portanto, morrendo para tudo que conheceu, a cada minuto do dia. Ent\u00e3o voc\u00ea descobrir\u00e1, se tiver alcan\u00e7ado esse ponto, que a morte e a vida s\u00e3o uma s\u00f3 coisa. Voc\u00ea est\u00e1 vivendo totalmente no presente, completamente atento, sem escolha, sem esfor\u00e7o; a mente est\u00e1 sempre vazia, e, desse vazio, voc\u00ea olha, observa, entende, e, portanto, viver \u00e9 morrer. Aquilo que tem continuidade jamais pode ser criativo. S\u00f3 aquilo que termina pode saber o que \u00e9 criar. Quando a vida \u00e9 tamb\u00e9m morte, h\u00e1 amor, h\u00e1 verdade, h\u00e1 cria\u00e7\u00e3o \u2013 porque a morte \u00e9 o desconhecido, assim como a verdade, o amor e a cria\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Voc\u00eas querem fazer perguntas e discutir o que temos falado esta manh\u00e3?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O morrer \u00e9 um ato da vontade, ou \u00e9 ele o pr\u00f3prio desconhecido?<\/p><p><strong>Krishnamurt<\/strong>i: Senhor, alguma vez o senhor morreu para o seu prazer \u2013 apenas morrer para ele, sem discutir, sem reagir, sem tentar criar condi\u00e7\u00f5es especiais, sem perguntar como \u00e9 que vai desistir dele, ou por que deve abandon\u00e1-lo? J\u00e1 fez isso algum dia? O senhor ter\u00e1 de faz\u00ea-lo quando morrer fisicamente, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o se pode discutir com a morte. N\u00e3o se pode dizer para a morte: \u201cD\u00ea-me uns poucos dias mais para viver.\u201d N\u00e3o \u00e9 preciso for\u00e7a de vontade para morrer \u2013 a pessoa morre e pronto. Ou, j\u00e1 morreu alguma vez para qualquer dos seus desesperos, suas ambi\u00e7\u00f5es \u2013 s\u00f3 desistir dessas coisas, descart\u00e1-las, como uma folha que morre no outono, sem nenhum esfor\u00e7o da vontade, sem ansiedade quanto ao que lhe acontecer\u00e1 se o fizer? J\u00e1 fez isso? Receio que n\u00e3o. Quando deixar esta tenda, morra para algo a que se apega \u2013 seu h\u00e1bito de fumar, sua exig\u00eancia de sexo, sua compuls\u00e3o de ser famoso como artista, como poeta, como isto ou aquilo. Apenas desista, descarte-o como o faria com uma coisa est\u00fapida, sem esfor\u00e7o, sem escolha, sem decis\u00e3o. Se o seu morrer for total \u2013 e n\u00e3o somente deixar de fumar ou de beber, que voc\u00ea transforma num enorme problema \u2013 saber\u00e1 o que significa viver o momento de modo extraordin\u00e1rio, sem esfor\u00e7o, com todo o seu ser; e ent\u00e3o, talvez, a porta para o desconhecido se lhe abra.<\/p><p>21 de julho de 1963<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>7\u00aa Palestra em Saanen, Sui\u00e7a \u00a0 Temos explorado muitos problemas que dizem respeito \u00e0 nossa vida di\u00e1ria porque, sem compreendermos esses problemas di\u00e1rios de conflito, avidez, ambi\u00e7\u00e3o, inveja, as penas do amor, etc. \u2013 sem compreendermos essas coisas completamente \u2013 \u00e9 imposs\u00edvel descobrirmos, por n\u00f3s mesmos, se existe algo al\u00e9m das coisas que s\u00e3o acumuladas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1855","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1855"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1862,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1855\/revisions\/1862"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}