{"id":1833,"date":"2022-12-18T17:02:03","date_gmt":"2022-12-18T17:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1833"},"modified":"2022-12-18T17:02:29","modified_gmt":"2022-12-18T17:02:29","slug":"16-07-1963","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1833","title":{"rendered":"16\/07\/1963"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1833\" class=\"elementor elementor-1833\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7cd9494d elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7cd9494d\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-1e4b8f9e\" data-id=\"1e4b8f9e\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5f893feb elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5f893feb\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>5\u00aa Palestra em Saanen, Sui\u00e7a<\/strong><\/p><p>Gostaria, esta manh\u00e3, de falar sobre v\u00e1rias coisas, mas, antes de entrar no assunto, acho importante entender como se deve escutar. Tenho falado com frequ\u00eancia sobre o escutar, e aqueles dentre voc\u00eas que est\u00e3o ouvindo isso pela d\u00e9cima vez podem pensar que estou apenas me repetindo. Mas, para mim, n\u00e3o h\u00e1 repeti\u00e7\u00e3o nestes assuntos. Se eu me pegasse me repetindo, isso seria terrivelmente ma\u00e7ante para mim. Para mim, o que est\u00e1 sendo dito nunca \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o. Trata-se de algo que toda vez a pessoa descobre de novo. \u00c9 como a primavera. A pessoa j\u00e1 viu muitas e muitas primaveras, mas cada vez ela \u00e9 diferente. Cada vez a folha nova tem uma cor algo diferente, uma maciez diferente, um movimento diferente. Do mesmo modo, quando falo de todas essas coisas, n\u00e3o h\u00e1, de modo algum, repeti\u00e7\u00e3o. Toda vez descobre-se algo fresco, totalmente novo.<\/p><p>Portanto, gostaria de falar sobre o escutar, pois parece-me que no escutar n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o algum. H\u00e1 esfor\u00e7o somente se voc\u00ea n\u00e3o compreender a linguagem, as palavras que est\u00e3o sendo usadas. Quando voc\u00ea tenta escutar, tenta acompanhar o que diz o orador; quando voc\u00ea tenta concentrar-se, colocar nisso toda a sua mente, isso o impede de escutar. Escutar implica que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma contradi\u00e7\u00e3o interior; n\u00e3o h\u00e1 tentativa de fazer algo, nenhum esfor\u00e7o de captar ou entender algo; voc\u00ea apenas escuta, sem esfor\u00e7o, com uma aten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exige concentra\u00e7\u00e3o. E o que eu vou falar requer aten\u00e7\u00e3o profunda \u2013 n\u00e3o apenas escutar pelos ouvidos, mas escutar com extraordin\u00e1ria profundidade. Se voc\u00ea puder escutar dessa maneira, descobrir\u00e1 que compreendeu por si mesmo grande n\u00famero de coisas, e, no ato mesmo de escutar, a natureza da a\u00e7\u00e3o \u00e9 modificada. Porque escutar \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 algo separado da atividade di\u00e1ria. Inclui escutar sua esposa ou seu marido, seus filhos, seu vizinho, os ru\u00eddos, todas as coisas feias que acontecem na vida, todas as brutalidades, as palavras de crueldade, as palavras de prazer e de dor. E voc\u00ea descobrir\u00e1 que, nesse ato de escutar, est\u00e1 havendo uma muta\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria natureza da a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Esta manh\u00e3 quero falar do medo e do amor, e se \u00e9 poss\u00edvel ficar totalmente livre do medo. Se, bem fundo no inconsciente, na pr\u00f3pria raiz da consci\u00eancia, houver algum elemento, sombra ou escuridade de medo, todo o nosso pensamento, toda a nossa atividade se perverte, levando a v\u00e1rias formas de auto contradi\u00e7\u00e3o, a um estado mental neur\u00f3tico.<\/p><p>Agora, a maioria de n\u00f3s est\u00e1 buscando preenchimento, quer na fam\u00edlia, no relacionamento, ou em algum tipo de a\u00e7\u00e3o ou de auto express\u00e3o. Preencher-nos em alguma coisa tornou-se extraordinariamente importante. Se n\u00e3o houvesse nenhum medo, n\u00e3o haveria necessidade de preenchimento. \u00c9 a nossa constante atividade autocentrada que nos separa e traz medo, ansiedade, extraordin\u00e1ria solid\u00e3o, senso de isolamento e, assim, exigimos preenchimento, algum tipo de auto express\u00e3o. Uma mente que n\u00e3o tenha nenhum tipo de medo n\u00e3o tem necessidade de preencher-se. Se a pessoa entende este fato, fundamentalmente, ent\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 exig\u00eancia de auto preenchimento \u2013 n\u00e3o h\u00e1 tampouco frustra\u00e7\u00e3o. Mas, para a maioria de n\u00f3s, a vida \u00e9 decepcionante, e, para entender todo esse processo de frustra\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso n\u00e3o s\u00f3 estar c\u00f4nscio, mas tamb\u00e9m abrir as entranhas de cada atividade, cada pensamento, cada sentimento pelos quais estamos buscando preenchimento, tentando expressar-nos \u2013 abrir as entranhas n\u00e3o no sentido de reagir a essas coisas, mas de desdobr\u00e1-las t\u00e3o completamente que as entendamos.<\/p><p>Como sabem, conhecer \u00e9 diferente de conhecimento. O conhecimento \u00e9 coisa do passado; \u00e9 algo que algu\u00e9m armazenou: conhecimento cient\u00edfico, conhecimento de como ler e escrever, o conhecimento que voc\u00ea precisa ter para montar as pe\u00e7as de um r\u00e1dio, etc. Esse conhecimento recebe acr\u00e9scimos constantemente por meio da experi\u00eancia, e \u00e9 inteiramente diferente de conhecer. N\u00e3o acho que estou sendo demasiado meticuloso, e acho que \u00e9 preciso compreender isto. Conhecer implica n\u00e3o acumula\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 atento o tempo todo, aprendendo do que est\u00e1 realmente acontecendo; voc\u00ea n\u00e3o conhece a coisa a partir de conhecimento pr\u00e9vio. Acho que \u00e9 preciso compreender a diferen\u00e7a entre uma coisa e outra. Estar c\u00f4nscio da atividade autocentrada da mente consiste em apenas v\u00ea-la, olhar para ela. Mas a pessoa olha para ela com conhecimento pr\u00e9vio, isto \u00e9, em termos do que j\u00e1 aprendeu, e esse conhecimento interpreta o que se est\u00e1 olhando ou escutando.<\/p><p>Por favor, acompanhe o que digo observando-se a si mesmo. Observe cada movimento do seu pensamento, apenas o observe, e voc\u00ea descobrir\u00e1 de que modo o est\u00e1 observando: se est\u00e1 observando a partir do background daquilo que voc\u00ea j\u00e1 aprendeu sobre isso, ou observando num estado de descobrimento. Descobrir \u00e9 olhar para algo de um modo novo, como se pela primeira vez, e voc\u00ea n\u00e3o o pode fazer se reconhecer aquilo que v\u00ea. Espero estar-me fazendo claro. No momento em que h\u00e1 reconhecimento no processo de observa\u00e7\u00e3o ou de autoconhecimento, voc\u00ea ter\u00e1 trazido para sua observa\u00e7\u00e3o o background de conhecimentos \u2013 o que significa que voc\u00ea j\u00e1 ter\u00e1 interpretado, traduzido, condenado ou justificado o que voc\u00ea v\u00ea; portanto, n\u00e3o est\u00e1 escutando o processo total disso. A coisa que voc\u00ea est\u00e1 observando, que \u00e9 pensamento e todo o background do pensamento, n\u00e3o \u00e9 uma coisa est\u00e1tica; ela est\u00e1 se movendo, est\u00e1 viva e, se voc\u00ea a observar com conhecimento pr\u00e9vio, estar\u00e1 meramente interpretando-a, n\u00e3o a estar\u00e1 descobrindo como algo novo. Portanto, voc\u00ea acha que n\u00e3o h\u00e1 nada de novo nisso tudo, nada mais h\u00e1 para aprender. Voc\u00ea diz: \u201cSei que sou ciumento\u201d, ou \u201cSei que estou com medo\u201d, o que significa que voc\u00ea deu nome \u00e0 emo\u00e7\u00e3o; voc\u00ea a reconheceu, e ent\u00e3o ela tornou-se parte do que voc\u00ea j\u00e1 sabe. Mas olhar para uma coisa como se voc\u00ea a estivesse vendo pela primeira vez \u2013 com uma mente que n\u00e3o interprete, que n\u00e3o traduza, que n\u00e3o queira modificar o que v\u00ea \u2013 \u00e9 estar num estado de descobrimento.<\/p><p>Ser\u00e1 que estou transmitindo o que quero dizer?<\/p><p>Como sabem, s\u00f3 h\u00e1 muta\u00e7\u00e3o quando a mente, o c\u00e9rebro, n\u00e3o mais estiver buscando experi\u00eancia; e, quando voc\u00ea come\u00e7a a traduzir o que v\u00ea em termos do que j\u00e1 sabe, est\u00e1 somente dando continuidade ao ciclo de experi\u00eancia. Percebo que estou confundindo voc\u00eas.<\/p><p>H\u00e1 essa entidade complexa chamada de \u201ceu\u201d, com todas as suas agruras, sofrimentos, ansiedades, seu desejo de preencher-se, de vir a ser, de dominar, de ter uma posi\u00e7\u00e3o, de ter seguran\u00e7a, de ser algu\u00e9m, de expressar-se de modos diferentes. Esse \u201ceu\u201d foi formado ao longo de s\u00e9culos pela estrutura psicol\u00f3gica da sociedade; \u00e9 o resultado de press\u00f5es, influ\u00eancias, propaganda, tradi\u00e7\u00e3o. Com esse \u201ceu\u201d, saio por a\u00ed olhando tudo que encontro e traduzindo-o correspondentemente; assim, naturalmente, penso que n\u00e3o h\u00e1 nada novo, pois tudo \u00e9 sempre contaminado pelo passado.<\/p><p>Ao passo que a inoc\u00eancia \u00e9 algo incontaminado, algo totalmente novo, fresco; \u00e9 um estado de descobrimento no qual a mente \u00e9 sempre jovem. Para descobrir isso por si mesmo, voc\u00ea n\u00e3o pode andar carregando consigo essa carga do passado. O passado deve de algum modo findar se a mente quiser descobrir aquela coisa nova, e deve findar sem esfor\u00e7o, sem disciplina, sem controle nem supress\u00e3o. O velho n\u00e3o pode descobrir o novo, pois qualquer coisa que o velho experimente \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o do velho. O velho pode passar por v\u00e1rias mudan\u00e7as, por\u00e9m tais mudan\u00e7as s\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o modificada da mesma coisa.<\/p><p>Voc\u00ea entende o problema? Essa entidade, o \u201ceu\u201d, \u00e9 produto do tempo, produto de mil experi\u00eancias, mil contradi\u00e7\u00f5es, batalhas, ansiedades, \u00e9 o resultado da culpa, do sofrimento, da mis\u00e9ria, do prazer. \u00c9 res\u00edduo do passado com todos os seus medos, e, assim, talvez n\u00e3o possa descobrir o novo. O novo talvez n\u00e3o possa ser posto em palavras; \u00e9 algo incomensur\u00e1vel, uma energia que n\u00e3o tem causa, n\u00e3o tem fim, n\u00e3o tem come\u00e7o; e, para a mente ficar nesse estado de cria\u00e7\u00e3o, o velho, o \u201ceu\u201d, precisa findar. E como \u00e9 que se faz isso?<\/p><p>As religi\u00f5es organizadas dizem que voc\u00ea precisa controlar, disciplinar, treinar a si mesmo, e esperar pela gra\u00e7a de Deus. Na \u00cdndia, na \u00c1sia, na Europa, isso se expressa de modos diferentes, mas tudo vem a dar no mesmo: que voc\u00ea precisa treinar-se, controlar-se, ser bom \u2013 voc\u00ea conhece todos os preceitos morais que lhe dizem para praticar \u2013 com suas v\u00e1rias san\u00e7\u00f5es. Mandam-nos esperar, contemplar, orar, e tudo o mais.<\/p><p>Para mim, tudo isso \u00e9 completamente il\u00f3gico, irracional; n\u00e3o tem sentido porque, primeiro, a mente que se disciplina est\u00e1 se conformando a um padr\u00e3o; ela est\u00e1 imitando, restringindo sua pr\u00f3pria atividade para ser ou para tornar-se algo; como um soldado se exercitando, ela obedece implicitamente, imediatamente e, assim, n\u00e3o h\u00e1 liberdade. Outrossim, disciplina implica medo. Por favor, se voc\u00ea acompanhar tudo isso com muito, muito cuidado, realmente observando-o, ver\u00e1 que, quando estiver livre do medo, essa liberdade trar\u00e1 consigo sua pr\u00f3pria disciplina, a qual n\u00e3o \u00e9 mera conforma\u00e7\u00e3o, a qual n\u00e3o tem nada a ver com a disciplina da coa\u00e7\u00e3o, da aquiesc\u00eancia, da imita\u00e7\u00e3o. E, quando falamos de esperar a gra\u00e7a de Deus vir a n\u00f3s, h\u00e1 uma expectativa no fundo do cora\u00e7\u00e3o, o que significa que o c\u00e9rebro j\u00e1 \u00e9 prisioneiro de certa cren\u00e7a, de certa esperan\u00e7a. Portanto, toda essa disciplina e ora\u00e7\u00e3o, essa espera de que algo aconte\u00e7a vindo de fora da atividade da pr\u00f3pria mente, tudo isso me parece il\u00f3gico, irracional, sem sentido; por isso, ponho tudo isso de lado. Ter f\u00e9 em Deus, em algo superior, implica que a pessoa ainda n\u00e3o se tornou uma luz para si mesma; e uma mente livre de conflito, de ansiedade, de trabalhos, \u00e9 uma luz para si mesma. Por conseguinte, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 buscando.<\/p><p>Portanto, o problema \u00e9 o seguinte: H\u00e1 esse \u201ceu\u201d, resultado do tempo, resultado da experi\u00eancia, do conhecimento. Esse \u201ceu\u201d \u00e9 uma coisa do passado \u2013 o passado que est\u00e1 sempre se movendo at\u00e9 o presente e moldando o futuro, que \u00e9 tempo psicol\u00f3gico. Com essa entidade prisioneira do tempo, eu tento encontrar algo que n\u00e3o se encontra no campo do tempo nem pode ser entendido em termos de passado. Isso pode ser feito? Voc\u00ea entende a pergunta?<\/p><p>Por favor, n\u00e3o espere de mim uma resposta \u2013 voc\u00ea e eu estamos trabalhando juntos. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 meramente escutando um monte de palavras e depois tentando p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o o que entender dessas palavras. Estamos juntos fazendo uma viagem.<\/p><p>Primeiro, digo que qualquer forma de esfor\u00e7o para captar o novo ou para mudar o que foi, apenas d\u00e1 vitalidade ao velho e traz \u00e0 baila uma contradi\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 bem \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o? Vou continuar e, se voc\u00ea n\u00e3o entender, poder\u00e1 perguntar-me depois. Como assinalei outro dia, n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o na compreens\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 nenhuma an\u00e1lise porque n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o entre observador e coisa observada. N\u00e3o h\u00e1 tentativa de suprimir a coisa observada nem de modific\u00e1-la. Voc\u00ea \u00e9 essa coisa. Voc\u00ea est\u00e1 acompanhando?<\/p><p>Agora, espere um momento. H\u00e1 um zumbido nesta tenda. Aquele ventilador el\u00e9trico est\u00e1 funcionando, fazendo um barulho. De que modo voc\u00ea o escuta? Se esse ru\u00eddo estiver irritando voc\u00ea, se ele for uma coisa separada de voc\u00ea, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1, consciente ou inconscientemente, resistindo a ele porque est\u00e1 tentando escutar. Mas, se esse ru\u00eddo, o ru\u00eddo do ventilador, for parte de sua aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia. Voc\u00ea \u00e9 esse ru\u00eddo. Com esse mesmo estado mental, voc\u00ea pode olhar para o inteiro processo de sua consci\u00eancia, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, seus desejos, ambi\u00e7\u00f5es, impulsos, compuls\u00f5es, preenchimentos. Voc\u00ea \u00e9 tudo isso. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um observador olhando para algo separado de si mesmo; portanto, n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia, nenhum conflito entre voc\u00ea e essa coisa.<\/p><p>N\u00e3o sei se voc\u00eas est\u00e3o compreendendo o que estou dizendo.<\/p><p>Consideremos o medo, por exemplo. O medo \u00e9 voc\u00ea, que o est\u00e1 observando; portanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio livrar-se do medo. No momento em que tenta livrar-se do medo, voc\u00ea desenvolve a coragem, ou a resist\u00eancia que \u00e9 chamada de coragem; h\u00e1 um esfor\u00e7o para ser ou para tornar-se algo e, assim, voc\u00ea \u00e9 novamente presa do medo.<\/p><p>Portanto, a consci\u00eancia, que inclui tanto o consciente como o inconsciente, \u00e9 como um turbilh\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 observando, mas n\u00e3o como algo separado de voc\u00ea. Voc\u00ea \u00e9 esse turbilh\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 o pensador e o pensamento, o observador e a coisa observada; n\u00e3o h\u00e1 dois estados diferentes. Portanto, todo esfor\u00e7o, toda an\u00e1lise parou; toda a luta para melhorar-se, para mudar, cessou. Voc\u00ea entende o que aconteceu? Voc\u00ea est\u00e1 observando a si mesmo, e n\u00e3o s\u00f3 me escutando. Sua mente, seu c\u00e9rebro, que foi treinado para condenar, para justificar, para resistir, para fazer esfor\u00e7o, para realizar uma muta\u00e7\u00e3o, para criar coragem, e assim por diante; o seu c\u00e9rebro, que foi condicionado para pensar-se como observador separado da coisa observada, n\u00e3o est\u00e1 mais fazendo esfor\u00e7o para ser nem para fazer alguma coisa. Seu pensamento n\u00e3o est\u00e1 tentando conquistar nem transformar-se em outra coisa. Assim, voc\u00ea eliminou toda a resist\u00eancia; por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 mais o desejo de preencher-se; logo, n\u00e3o h\u00e1 medo. Estou falando de medo psicol\u00f3gico, e n\u00e3o de medo org\u00e2nico. As duas coisas s\u00e3o diferentes, n\u00e3o s\u00e3o? Se eu n\u00e3o permanecer atento, serei atropelado por um carro, cairei num precip\u00edcio, etc. Por essa raz\u00e3o, preciso ficar atento, muito alerta; \u00e9 preciso haver certo senso de autoprote\u00e7\u00e3o org\u00e2nica. Mas estou falando do medo psicol\u00f3gico \u2013 dos muitos medos psicol\u00f3gicos que temos desenvolvido. Enquanto houver essa coisa chamada \u201ceu\u201d \u2013 com todas as suas trivialidades, aspira\u00e7\u00f5es, intui\u00e7\u00f5es, com todos os seus impulsos, compuls\u00f5es, seu desejo de preencher-se \u2013 certamente haver\u00e1 medo e, nesse estado, obviamente, n\u00e3o pode haver amor. Para a maioria de n\u00f3s, o amor \u00e9 uma tortura. Somos presas do ci\u00fame, da inveja, do apego, do sofrimento. Temos medo de ser abandonados, de perder algu\u00e9m, de n\u00e3o sermos amados \u2013 voc\u00eas sabem o que acontece conosco. \u00c9 isso que chamamos de amor, mas ele \u00e9, inteiramente, parte do medo.<\/p><p>Assim, quando voc\u00ea observa toda essa consci\u00eancia, n\u00e3o em termos de tempo; quando o pensamento deixa de ser escravo do tempo, deixa de ser uma rea\u00e7\u00e3o, e h\u00e1 completa quietude de pensamento; ent\u00e3o voc\u00ea descobrir\u00e1 que \u2013 porque o c\u00e9rebro est\u00e1 completamente quieto, n\u00e3o mais tendo experi\u00eancia \u2013 voc\u00ea pode ir para a pr\u00f3pria raiz da totalidade da consci\u00eancia, e s\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 real muta\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o. Cada atividade \u00e9 ent\u00e3o livre do medo, e, assim, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de auto express\u00e3o ou preenchimento.<\/p><p>Podemos discutir o assunto do qual falei?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como surge a divis\u00e3o entre pensamento e pensador?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Voc\u00ea sabe que h\u00e1 essa divis\u00e3o, n\u00e3o sabe? Voc\u00ea tem consci\u00eancia dela? E como \u00e9 que surge? Temos aceitado essa divis\u00e3o como coisa normal, como inevit\u00e1vel; aceitamo-la t\u00e3o naturalmente como aceitamos o sol e as nuvens, mas nunca nos perguntamos como ela surge. H\u00e1 quem diga que primeiro h\u00e1 o pensador, que cria o pensamento, e que vem a seguir a divis\u00e3o entre eles. Toda uma filosofia \u00e9 constru\u00edda sobre isso. Mas voc\u00ea e eu n\u00e3o lemos todos os livros de filosofia que versam sobre este assunto, por isso podemos tentar descobrir por n\u00f3s mesmos a verdade do assunto. Como surge essa divis\u00e3o? Por favor, trabalhem comigo. Como \u00e9 que surge?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: N\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia do tempo que cria a divis\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Que quer dizer com consci\u00eancia do tempo? A mem\u00f3ria de ontem, o conhecimento, as experi\u00eancias que temos acumulado, as coisas que temos conhecido; e aquele cavalheiro sugere ser essa consci\u00eancia do tempo que cria a divis\u00e3o entre o pensador e o pensamento.<\/p><p>E por que estamos questionando essa divis\u00e3o? Porque, enquanto houver divis\u00e3o entre pensamento e pensador, precisa haver conflito. Por favor, percebam que essa \u00e9 a raiz do conflito. Voc\u00eas entenderam? Enquanto houver divis\u00e3o entre o observador e a coisa observada, entre o experimentador e a coisa experimentada, precisa haver conflito. E qualquer forma de conflito entorpece a mente, esgota o c\u00e9rebro; o conflito debilita o c\u00e9rebro e torna-o insens\u00edvel. Portanto, para libertar-se do conflito, voc\u00ea tem de entender essa divis\u00e3o.<\/p><p>Como surge essa divis\u00e3o? H\u00e1 alguma divis\u00e3o se n\u00e3o houver nenhum pensamento? Mas n\u00e3o pensar \u00e9 extremamente dif\u00edcil, ent\u00e3o n\u00e3o diga: \u201cIsso \u00e9 f\u00e1cil, basta a pessoa ficar em branco.\u201d N\u00e3o estou falando daquele estado idi\u00f3tico de vazio, nem de tomar uma droga e anestesiar o c\u00e9rebro. Mas, se n\u00e3o houver pensamento, n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o, obviamente. Se voc\u00ea estiver t\u00e3o completamente insens\u00edvel, paralisado, que n\u00e3o consiga pensar, ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 auto contradi\u00e7\u00e3o. Portanto, \u00e9 o pensar que produz essa divis\u00e3o entre o pensamento e o pensador. E como \u00e9 que o pensamento produz isso? O ato de pensar \u00e9 um processo transit\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9? Ele est\u00e1 todo o tempo mudando, se movendo; ele n\u00e3o \u00e9 o que era; \u00e9 um constante fluir, e esse mesmo processo de pensar deseja estabilidade, seguran\u00e7a; ele quer sentir-se a salvo. Pensar \u00e9 doloroso; cria tantos problemas; e, porque o pensamento n\u00e3o resolve os problemas criados por ele mesmo, esperamos que Deus, ou alguma coisa, nos d\u00ea, de algum modo, seguran\u00e7a, paz.<\/p><p>Se estiver acompanhando, voc\u00ea poder\u00e1 ver por si mesmo que isso obviamente n\u00e3o \u00e9 uma teoria. Os pensamentos contradit\u00f3rios, os desejos, as car\u00eancias contradit\u00f3rias criam conflito, dor, sofrimento; ent\u00e3o a mente diz: \u201cDeve haver alguma coisa segura, permanente \u2013 Deus, uma ideia, ou uma parte divina de mim mesmo que seja intocada pelo conflito.\u201d Para o hindu, trata-se do Atma, o Supremo; para o crist\u00e3o, \u00e9 outra coisa, e, para o comunista, \u00e9 tamb\u00e9m outra coisa. Portanto, o pensar exige seguran\u00e7a, e por isso constru\u00edmos uma sociedade que est\u00e1 psicologicamente em busca de seguran\u00e7a todo o tempo. O pensamento cria divis\u00e3o porque exige seguran\u00e7a, perman\u00eancia; e, tendo criado divis\u00e3o, o pensamento diz: \u201cDe que modo alcan\u00e7arei essa perman\u00eancia?\u201d Disso procedem todos os v\u00e1rios sistemas que voc\u00eas t\u00eam para alcan\u00e7ar esse extraordin\u00e1rio estado de perman\u00eancia no qual o c\u00e9rebro jamais ser\u00e1 perturbado.<\/p><p>Noutras palavras, o pensamento projeta de si mesmo aquilo que ele chama de permanente \u2013 c\u00e9u, nirvana, Deus, paz, o Estado perfeito. Ent\u00e3o, tendo estabelecido o alvo, o ideal, o pensamento tenta conformar-se a ele. Isso \u00e9 o que todos voc\u00eas est\u00e3o fazendo. Voc\u00eas querem paz perfeita, um relacionamento ideal consigo mesmos, com as esposas ou os maridos, com a sociedade, e assim por diante. Voc\u00eas t\u00eam uma ideia e est\u00e3o aproximando-se a si mesmos dessa ideia. Portanto, h\u00e1 o \u201ceu\u201d e a coisa separada do \u201ceu\u201d.<\/p><p>H\u00e1 alguma coisa permanente? N\u00e3o apenas verbalmente, mas de fato, no fundo do peito, h\u00e1 alguma coisa permanente \u2013 permanente no sentido de ser fixa? H\u00e1 alguma coisa permanente entre voc\u00ea e sua esposa ou marido, entre voc\u00ea e seus filhos? H\u00e1 perman\u00eancia em uma ideia? Mas voc\u00ea quer perman\u00eancia; por conseguinte, quando se questiona a exist\u00eancia da perman\u00eancia, voc\u00ea se perturba e fica zangado.<\/p><p>Ent\u00e3o, observando e compreendendo todo esse processo, a mente n\u00e3o vive buscando perman\u00eancia, nem no nome, nem nas atividades, nem nos relacionamentos. E, certamente, isso \u00e9 amor, n\u00e3o \u00e9? Se voc\u00ea exige perman\u00eancia em seu relacionamento consigo mesmo, com o amigo, com a esposa e as crian\u00e7as, veja o que acontece \u2013 as torturas que voc\u00ea sofre, os ci\u00fames, o sofrimento, a confus\u00e3o e a tristeza. N\u00e3o obstante, \u00e9 isso que chamamos de amor.<\/p><p>Ent\u00e3o come\u00e7amos e ver que o pensamento \u2013 que \u00e9 resposta da mem\u00f3ria, resultado do tempo, resultado de muitos milhares de ontens \u2013 est\u00e1 constantemente em busca de estabelecer para si mesmo um estado de certeza. Mas a mente que tem certeza jamais poder\u00e1 ser livre \u2013 tampouco o pode a mente que \u00e9 incerta.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Conscientemente estamos em harmonia, em perfeito acordo com o que o senhor est\u00e1 dizendo, mas, inconscientemente, quando sa\u00edmos daqui e somos tomados por nossas atividades di\u00e1rias, agimos bem ao contr\u00e1rio do que escutamos e compreendemos. Por que isso acontece?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: \u00c9 bem simples, n\u00e3o \u00e9? Como \u00e9 que voc\u00ea escuta? Voc\u00ea escuta apenas as palavras? O que voc\u00ea ouve \u00e9 meramente uma declara\u00e7\u00e3o com a qual voc\u00ea concorda ou discorda intelectualmente? Ou voc\u00ea escuta com todo o ser, n\u00e3o s\u00f3 conscientemente, mas tamb\u00e9m inconscientemente? Quando voc\u00ea escuta dessa maneira, n\u00e3o h\u00e1 nem concord\u00e2ncia nem discord\u00e2ncia. Voc\u00ea v\u00ea o pr\u00f3prio fato, e n\u00e3o o fato tal como outra pessoa o apresenta. E voc\u00ea n\u00e3o pode estar em harmonia com um fato. Voc\u00ea est\u00e1 acompanhando? Se voc\u00ea tentar p\u00f4r-se em harmonia com um fato, inevitavelmente experimentar\u00e1 conflito. Mas, se voc\u00ea for esse fato, n\u00e3o h\u00e1 conflito; portanto, quando voc\u00ea sai desta tenda, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre o que voc\u00ea ouviu e o que voc\u00ea faz. Voc\u00ea ouve e faz \u2013 \u00e9 um processo completo, unit\u00e1rio. Por isso \u00e9 muito importante que voc\u00ea escute \u2013 escute com todo o seu ser, e n\u00e3o apenas intelectualmente ou verbalmente, s\u00f3 com o seu pensamento consciente. Alguma vez escutou alguma coisa com todo o seu ser? Duvido que o tenha feito.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Mesmo que a pessoa escute com todo o ser, pergunto-me se isso basta para afetar o inconsciente.<\/p><p>Krishnamurti: Senhor, quando der sua aten\u00e7\u00e3o completa ao que est\u00e1 sendo dito, estar\u00e1 escutando, n\u00e3o s\u00f3 as palavras e seus significados, mas tamb\u00e9m o inteiro conte\u00fado por tr\u00e1s das palavras; e o simples fato de dar sua total aten\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato no qual a pr\u00f3pria natureza da sua a\u00e7\u00e3o est\u00e1 mudando. Portanto, quando o senhor sair daqui, haver\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o total e n\u00e3o somente uma a\u00e7\u00e3o intelectual contradizendo o seu inconsciente.<\/p><p>Agora, voc\u00ea dir\u00e1: \u201cComo \u00e9 que vou escutar com aten\u00e7\u00e3o total? N\u00e3o sei como escutar dessa maneira; realmente n\u00e3o escuto nada; assim, por favor, ensine-me um m\u00e9todo, uma maneira, uma forma, um sistema que me ajude a escutar com todo o meu ser.\u201d E o que aconteceria se eu lhe desse um sistema? Sua tentativa de escutar criaria uma contradi\u00e7\u00e3o com o seu h\u00e1bito de n\u00e3o escutar e, assim, voc\u00ea seria colhido de novo nas malhas da mesma velha situa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Senhor, quando de repente lhe sobrev\u00e9m uma grande tristeza, o que \u00e9 que o senhor faz? Naquele instante, voc\u00ea est\u00e1 em completo estado de choque, n\u00e3o est\u00e1? A crise o for\u00e7ou a ficar em sil\u00eancio; voc\u00ea est\u00e1 diante de algo que n\u00e3o entende, e est\u00e1 momentaneamente paralisado, sem palavras. Nesse estado de choque \u2013 se voc\u00ea n\u00e3o tentar achar uma sa\u00edda ou uma explica\u00e7\u00e3o \u2013 voc\u00ea est\u00e1 olhando, observando, escutando com total aten\u00e7\u00e3o. Agora, voc\u00ea pode escutar-se a si mesmo desse mesmo modo? Todo o seu ser est\u00e1 num constante fluir, sempre ativo, nunca im\u00f3vel \u2013 querendo isso, n\u00e3o querendo aquilo, contradizendo-se, preenchendo-se, num tumulto sem fim. E voc\u00ea pode escutar esse tumulto sem ficar neur\u00f3tico? Ficar neur\u00f3tico, ligeiramente fora do rumo, \u00e9 muito f\u00e1cil. \u00c9 o que acontece com a maioria das pessoas. Mas, se voc\u00ea escutar-se a si mesmo sem fugir e sem tentar mudar o que voc\u00ea escuta \u2013 apenas escutar o ru\u00eddo silencioso que est\u00e1 dentro de voc\u00ea \u2013 esse ato de escutar produz uma mudan\u00e7a vital na pr\u00f3pria natureza da a\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o alguma na a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>16 de julho de 1963<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>5\u00aa Palestra em Saanen, Sui\u00e7a Gostaria, esta manh\u00e3, de falar sobre v\u00e1rias coisas, mas, antes de entrar no assunto, acho importante entender como se deve escutar. Tenho falado com frequ\u00eancia sobre o escutar, e aqueles dentre voc\u00eas que est\u00e3o ouvindo isso pela d\u00e9cima vez podem pensar que estou apenas me repetindo. 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