{"id":1811,"date":"2022-12-18T16:59:35","date_gmt":"2022-12-18T16:59:35","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1811"},"modified":"2022-12-18T17:00:04","modified_gmt":"2022-12-18T17:00:04","slug":"11-07-1963","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1811","title":{"rendered":"11\/07\/1963"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1811\" class=\"elementor elementor-1811\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-52f5748e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"52f5748e\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-6f81db62\" data-id=\"6f81db62\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5acd0d6f elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5acd0d6f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>3\u00aa palestra em Saanen, Su\u00ed\u00e7a<\/strong><\/p><p>Para muitas pessoas, religi\u00e3o \u00e9 provavelmente um passatempo. As pessoas idosas voltam-se para a religi\u00e3o, e fazem o mesmo as pessoas um tanto neur\u00f3ticas. Estou usando a palavra religi\u00e3o referindo-me n\u00e3o s\u00f3 a igrejas organizadas, com toda a seguran\u00e7a interior que oferecem, mas tamb\u00e9m \u00e0s v\u00e1rias formas mais incomuns de cren\u00e7a, dogma e ritual a que tantos aderem. Religi\u00e3o, para a maioria das pessoas, n\u00e3o \u00e9 assunto muito s\u00e9rio. O governo est\u00e1 permitindo agora a religi\u00e3o organizada na R\u00fassia, porque politicamente n\u00e3o \u00e9 muito importante; n\u00e3o cont\u00e9m a semente da revolta; n\u00e3o \u00e9 um centro de revolu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eles a permitem.<\/p><p>E eu me pergunto que papel representa a religi\u00e3o na vida daqueles que est\u00e3o aqui. Por religi\u00e3o, eu agora me refiro a coisa completamente diferente, algo que \u00e9 t\u00e3o importante \u2013 se n\u00e3o muito mais importante \u2013 do que ganhar o p\u00e3o de cada dia. Para mim, religi\u00e3o \u00e9 algo a que voc\u00ea entrega todo o cora\u00e7\u00e3o e a mente e o corpo, tudo o que voc\u00ea tem. N\u00e3o \u00e9 algo a que voc\u00ea se volta como passatempo, ou para adotar quando estiver velho, com um p\u00e9 na cova, por n\u00e3o ter nada melhor que fazer, mas sim algo que se torna vitalmente importante, algo intensamente necess\u00e1rio, como um completo modo de vida, a partir do momento em que voc\u00ea acorda at\u00e9 o momento em que vai dormir, de modo que cada pensamento, cada ato, cada movimento do seu sentimento \u00e9 observado, considerado, ponderado. Para mim, a religi\u00e3o abrange o todo da vida. Ela n\u00e3o est\u00e1 reservada aos especialistas, aos ricos ou aos pobres, \u00e0 elite ou ao intelectual. Ela \u00e9 como p\u00e3o, algo que voc\u00ea precisa ter. E eu me pergunto quantos de n\u00f3s a levam a s\u00e9rio desse modo \u2013 o que n\u00e3o significa ser briguento, dogm\u00e1tico, excludente, sect\u00e1rio, ou algu\u00e9m muito especial. A religi\u00e3o exige, n\u00e3o conhecimento ou cren\u00e7a, mas uma extraordin\u00e1ria intelig\u00eancia, e, para o homem religioso, tem de haver liberdade, completa liberdade.<\/p><p>Embora falemos de liberdade, a maioria das pessoas n\u00e3o quer, de modo algum, ser livre. N\u00e3o sei se voc\u00eas j\u00e1 observaram esse fato. No mundo moderno \u2013 em que a sociedade est\u00e1 t\u00e3o organizada, em que h\u00e1 mais e mais progresso, em que a produ\u00e7\u00e3o de coisas \u00e9 t\u00e3o grande e t\u00e3o f\u00e1cil \u2013 a pessoa torna-se escrava das posses, das coisas, e, nelas, a pessoa encontra seguran\u00e7a. E seguran\u00e7a \u00e9 tudo o que a maioria deseja \u2013 seguran\u00e7a f\u00edsica e emocional \u2013 por conseguinte, n\u00e3o queremos realmente ser livres. Por liberdade, quero significar total liberdade, n\u00e3o liberdade em determinado setor; e acho que devemos exigir isso de n\u00f3s, devemos insistir nisso.<\/p><p>Liberdade \u00e9 diferente de revolta. Revolta \u00e9 contra alguma coisa: voc\u00ea se revolta contra alguma coisa, e \u00e9 a favor de outra coisa. Revolta \u00e9 rea\u00e7\u00e3o, mas liberdade n\u00e3o \u00e9 rea\u00e7\u00e3o. No estado de liberdade, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 livre de alguma coisa. No instante em que fica livre de algo, voc\u00ea realmente est\u00e1 revoltado contra aquele algo; portanto, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 livre. Liberdade n\u00e3o \u00e9 ser livre \u201cde alguma coisa\u201d, mas a mente, em si, \u00e9 que est\u00e1 livre. \u00c9 um sentimento extraordin\u00e1rio \u2013 a mente ser livre em si mesma, conhecer a liberdade por amor \u00e0 liberdade.<\/p><p>A menos que a pessoa seja livre, n\u00e3o vejo como possa ser criativa. N\u00e3o estou empregando a palavra criativo no sentido estreito de um homem que pinta um quadro, escreve um poema, ou inventa uma m\u00e1quina. Para mim, tal pessoa n\u00e3o \u00e9 criativa. Elas podem experimentar inspira\u00e7\u00e3o, em certos momentos, mas cria\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa inteiramente diferente. S\u00f3 pode haver cria\u00e7\u00e3o quando h\u00e1 total liberdade. Nesse estado de liberdade, h\u00e1 plenitude, e, ent\u00e3o, escrever um poema, pintar um quadro ou esculpir uma pedra tem significado completamente diferente. N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, de autoexpress\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 resultado de frustra\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se est\u00e1 mais em busca de mercado \u2013 \u00e9 coisa totalmente diferente. Parece-me que dever\u00edamos procurar conhecer essa liberdade completa, n\u00e3o s\u00f3 em n\u00f3s mesmos, mas tamb\u00e9m exteriormente. Entrarei nesse assunto, um pouco, esta manh\u00e3.<\/p><p>Primeiro, acho que devemos diferenciar entre liberdade, de um lado, e revolta ou revolu\u00e7\u00e3o, de outro. Revolta e revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o, essencialmente, rea\u00e7\u00e3o. H\u00e1 a revolta da extrema esquerda contra o capitalismo, e a revolta contra a domina\u00e7\u00e3o da igreja. H\u00e1 tamb\u00e9m a revolta contra o Estado policial, contra o poder da tirania organizada \u2013 mas, hoje em dia, isso n\u00e3o compensa porque eles silenciosamente liquidam voc\u00ea, somem com voc\u00ea.<\/p><p>Para mim, liberdade \u00e9 coisa totalmente diferente. Liberdade n\u00e3o \u00e9 rea\u00e7\u00e3o, mas sim o estado da mente que surge quando entendemos a rea\u00e7\u00e3o. Rea\u00e7\u00e3o \u00e9 resposta ao desafio; \u00e9 prazer, raiva, medo, dor psicol\u00f3gica; e, compreendendo essa estrutura muito complexa de resposta, alcan\u00e7aremos liberdade. Ent\u00e3o voc\u00ea descobrir\u00e1 que liberdade n\u00e3o \u00e9 liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 raiva, \u00e0 autoridade, etc. \u00c9 um estado que existe por si mesmo, para ser experimentado por si mesmo, e n\u00e3o porque voc\u00ea \u00e9 contra alguma coisa.<\/p><p>A maioria das pessoas preocupa-se com a pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Queremos um consorte, e esperamos encontrar felicidade em determinado relacionamento; queremos ser famosos, queremos criar; queremos expressar-nos, expandir-nos, satisfazer-nos; queremos ter poder, posi\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio. Isso, aproximadamente, \u00e9 o que realmente interessa \u00e0 maioria das pessoas; e liberdade, Deus, verdade, amor, s\u00e3o coisas a serem procuradas depois. Assim, como eu disse, nossa religi\u00e3o \u00e9 uma coisa superficial, um tipo de passatempo que n\u00e3o tem papel muito importante na nossa vida. Estamos satisfeitos com trivialidades, e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 vigil\u00e2ncia, a percep\u00e7\u00e3o que se faz necess\u00e1ria para se compreender este complexo processo que chamamos de viver. Nossa exist\u00eancia \u00e9 uma batalha constante, um esfor\u00e7o est\u00fapido e intermin\u00e1vel \u2013 e para qu\u00ea? \u00c9 uma jaula na qual estamos presos, uma jaula que constru\u00edmos com nossas pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es, nossos medos, desesperos, ansiedades. Todo o nosso pensamento \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o \u2013 e voc\u00ea se lembrar\u00e1 de que discutimos este assunto outro dia, quando se fez a pergunta: \u201cQual \u00e9 a correta fun\u00e7\u00e3o do pensamento?\u201d Entramos no assunto com muito cuidado, e descobrimos que todo o nosso pensamento \u00e9 rea\u00e7\u00e3o, resposta da mem\u00f3ria. A inteira estrutura da nossa consci\u00eancia, do nosso pensamento, \u00e9 o res\u00edduo, o reservat\u00f3rio das nossas rea\u00e7\u00f5es. Obviamente, o pensamento jamais poder\u00e1 trazer liberdade, pois liberdade n\u00e3o \u00e9 resultado de rea\u00e7\u00e3o. Liberdade n\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o das coisas que nos causam dor, nem \u00e9 o afastamento das coisas que nos d\u00e3o prazer e das quais ficamos escravos.<\/p><p>Por favor, como disse outro dia, n\u00e3o aceitem nada do que o orador est\u00e1 dizendo. Olhem para isso sem aceitar nem rejeitar, mas sim tentando ver o fato por si mesmos, pela observa\u00e7\u00e3o de si mesmos.<\/p><p>Nossa consci\u00eancia \u00e9 a \u00e1rea total do nosso pensamento, todo o campo da ideia e da idea\u00e7\u00e3o. O pensamento organizado torna-se a ideia da qual surge a a\u00e7\u00e3o, e a consci\u00eancia \u00e9 formada de muitas camadas de pensamento, tanto ocultos quanto patentes, o consciente e o inconsciente. \u00c9 o campo do conhecido, da tradi\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria do que foi. \u00c9 o que temos aprendido, o passado em rela\u00e7\u00e3o ao presente. O passado que herdamos ao longo de s\u00e9culos, o passado da ra\u00e7a, da na\u00e7\u00e3o, da comunidade, da fam\u00edlia; os s\u00edmbolos, as palavras, as experi\u00eancias, o embate de desejos contradit\u00f3rios; as in\u00fameras batalhas, os prazeres e as dores; as coisas que aprendemos com nossos antepassados, e as modernas tecnologias que foram acrescentadas \u2013 tudo isso \u00e9 consci\u00eancia; \u00e9 o campo do pensamento, o campo do conhecido, e vivemos na superf\u00edcie dela. Somos treinados desde a inf\u00e2ncia para adquirir conhecimentos, para competir; aprendemos uma t\u00e9cnica; especializamo-nos num setor espec\u00edfico para ter emprego e ganhar o sustento. Eis toda a nossa educa\u00e7\u00e3o, de modo que continuamos a viver na superf\u00edcie, e, abaixo da superf\u00edcie, h\u00e1 esse imenso passado, esse tempo incalcul\u00e1vel. Tudo isso \u00e9 o conhecido. Muito embora n\u00e3o estejamos c\u00f4nscios do inconsciente, ele, tamb\u00e9m, est\u00e1 dentro do campo do conhecido.<\/p><p>Por favor, acompanhe tudo isso, observando-se a si mesmo, vigiando sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Quanto mais sens\u00edvel, quanto mais vigilante voc\u00ea for, tanto mais c\u00f4nscio ser\u00e1 do conflito entre o consciente e o inconsciente. Quando tal conflito exigir a\u00e7\u00e3o, se voc\u00eas n\u00e3o encontrarem um meio de agir, tornar-se-\u00e3o neur\u00f3ticos ou acabar\u00e3o num hosp\u00edcio; e, por isso, voc\u00eas t\u00eam in\u00fameros psic\u00f3logos, analistas, tentando construir uma ponte sobre esse golfo e resolver o conflito.<\/p><p>O inconsciente, embora essa palavra transmita a ideia de algo oculto, de que voc\u00ea n\u00e3o tem consci\u00eancia, \u00e9 ainda parte do conhecido, \u00e9 o passado. Voc\u00ea pode n\u00e3o conhecer todo o conte\u00fado do inconsciente; pode n\u00e3o o ter examinado, olhado para ele, mas, provavelmente, teve sonhos, sugest\u00f5es procedentes dessa vasta regi\u00e3o subterr\u00e2nea da mente. Ele est\u00e1 l\u00e1, e \u00e9 o conhecido, porque \u00e9 o passado. Nele nada h\u00e1 de novo, e precisamos entender, por n\u00f3s mesmos, em que consiste esse estado que n\u00e3o \u00e9 novo, porque inoc\u00eancia \u00e9 ser livre do conhecido.<\/p><p>Esse \u00e9 um dos principais problemas da vida moderna, pois somos treinados, educados, condicionados para permanecer dentro do campo do conhecido, e, dentro desse campo, h\u00e1 ansiedade, desespero, sofrimento, confus\u00e3o, tristeza sem fim. S\u00f3 o inocente pode ser criativo, pode criar algo novo, e n\u00e3o apenas fazer um quadro, um poema ou qualquer outra coisa. O inconsciente faz parte do conhecido, mas a maioria das pessoas permanece na superf\u00edcie do conhecido porque esse \u00e9 o nosso modo de vida. Vamos ao escrit\u00f3rio todos os dias, com sua rotina, seu t\u00e9dio; temos medo de perder o emprego; sujeitamo-nos \u00e0s exig\u00eancias e press\u00f5es da vida moderna; somos despeda\u00e7ados pelos apetites sexuais e outros apetites \u2013 e nesse n\u00edvel vivemos. A partir desse n\u00edvel, tentamos encontrar algo mais profundo, pois n\u00e3o estamos satisfeitos com esse n\u00edvel; ent\u00e3o, voltamo-nos para a m\u00fasica, a pintura, a arte, os deuses, para as in\u00fameras religi\u00f5es. Quando essas coisas falham, adoramos o Estado como a mais maravilhosa das coisas, ou praticamos a vida em comunidade \u2013 voc\u00eas conhecem todos os truques que nos permitimos, todas as inven\u00e7\u00f5es que fazemos, incluindo foguetes para viagens \u00e0 lua. E, quando ficamos insatisfeitos com tudo isso, voltamo-nos para dentro, ou, se formos muito intelectualizados, analisamos, dividimos tudo em partes. Mas temos o nosso pr\u00f3prio Jesus secreto, o nosso Cristo secreto. Eis a nossa vida.<\/p><p>A \u00fanica liberdade real \u00e9 ser livre do conhecido. Por favor, acompanhe isso um pouco. \u00c9 ser livre do passado. O conhecido tem o seu lugar, \u00e9 claro. Preciso saber certas coisas para funcionar na vida di\u00e1ria. Se eu n\u00e3o soubesse onde moro, ficaria perdido. H\u00e1 tamb\u00e9m o conhecimento cient\u00edfico acumulado \u2013 a medicina, as muitas tecnologias \u2013 ao qual se acrescenta mais e mais conhecimento. Tudo isso est\u00e1 dentro do campo do conhecido, e tem sua import\u00e2ncia. Mas o conhecido \u00e9 sempre mec\u00e2nico. Cada experi\u00eancia que voc\u00ea tenha tido, seja no passado remoto ou apenas ontem, est\u00e1 dentro do campo do conhecido, e, a partir desse background, voc\u00ea reconhece todas as experi\u00eancias seguintes. No campo do conhecido h\u00e1 apego, com seus temores, seus desesperos; e a mente que se mant\u00e9m dentro desse campo, n\u00e3o importa qu\u00e3o extenso, qu\u00e3o amplo seja ele, n\u00e3o \u00e9 uma mente livre. Ela pode escrever livros muito inteligentes, pode saber como ir \u00e0 lua, pode inventar as m\u00e1quinas mais complicadas e extraordin\u00e1rias \u2013 se voc\u00ea viu algumas dessas coisas, saber\u00e1 o qu\u00e3o extraordin\u00e1rias elas s\u00e3o \u2013 mas essa mente ainda est\u00e1 presa no campo do conhecido.<\/p><p>A consci\u00eancia \u00e9 coisa do tempo; o pensamento \u00e9 constru\u00eddo no tempo, e o que o pensamento produz est\u00e1, tamb\u00e9m, dentro das amarras do tempo. Portanto, o homem que quiser ficar livre do sofrimento tem de ficar livre do conhecido \u2013 o que significa que \u00e9 preciso compreender toda a estrutura da consci\u00eancia. E seria poss\u00edvel compreend\u00ea-la por meio de an\u00e1lise, que \u00e9 tamb\u00e9m um processo de pensamento? O que significa compreender algo? Qual \u00e9 o estado da mente que compreende? Estou falando de compreender, n\u00e3o do que \u00e9 compreendido. Voc\u00ea compreende o que eu quero dizer? Estou investigando o estado da mente que diz: \u201cEu entendo.\u201d A compreens\u00e3o seria resultado de pensamento e dedu\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea examina uma coisa de modo cr\u00edtico, razo\u00e1vel, s\u00e3o, l\u00f3gico, e ent\u00e3o diz: \u201cEu compreendo isto\u201d? Ou seria a compreens\u00e3o coisa totalmente diferente?<\/p><p>Anteontem, quando aquele cavalheiro perguntou: \u201cQual a fun\u00e7\u00e3o correta do pensamento?\u201d voc\u00eas se lembrar\u00e3o de que falamos sobre a resposta da mente ao desafio. Quando a pergunta \u00e9 comum, ocorre uma resposta imediata. Quando a pergunta \u00e9 um pouco mais complicada, dif\u00edcil, a resposta demora mais, e, nesse lapso de tempo, voc\u00ea est\u00e1 pensando, isto \u00e9, consultando a mem\u00f3ria, e ent\u00e3o respondendo, como o fazem os computadores, por meio de associa\u00e7\u00e3o. Uma pergunta ainda mais dif\u00edcil exigiria um lapso de tempo ainda maior. Agora, essas tr\u00eas respostas, que outro dia denominei (a), (b) e (c), fazem parte do processo de pensamento, dentro do campo do conhecido. Dentro desse campo, voc\u00ea pode produzir, inventar, pintar quadros, pode fazer coisas as mais extraordin\u00e1rias, incluindo ir \u00e0 lua \u2013 mas isso n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. Essa eterna busca de realiza\u00e7\u00f5es e de autoexpress\u00e3o \u00e9 sumamente infantil, pelo menos para mim.<\/p><p>Ser livre de tudo isso \u00e9 ser livre do conhecido; \u00e9 o estado de uma mente que diz: \u201cEu n\u00e3o sei\u201d, e que n\u00e3o est\u00e1 procurando resposta. Tal mente n\u00e3o est\u00e1 buscando coisa alguma, n\u00e3o est\u00e1 esperando nada; e \u00e9 s\u00f3 nesse estado que voc\u00ea pode dizer: \u201cEu compreendo.\u201d \u00c9 o \u00fanico estado em que a mente \u00e9 livre, e, a partir desse estado, voc\u00ea pode olhar para as coisas conhecidas \u2013 mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. A partir do conhecido, voc\u00ea n\u00e3o consegue ver o desconhecido. Mas, quando voc\u00ea tiver compreendido o estado de uma mente que \u00e9 livre \u2013 que \u00e9 a mente que diz: \u201cEu n\u00e3o sei\u201d, e continuar n\u00e3o sabendo, e for, por conseguinte, inocente \u2013 a partir desse estado, voc\u00ea pode funcionar, pode ser um cidad\u00e3o, pode ser casado, ou o que quiser. Ent\u00e3o, o que voc\u00ea fizer ter\u00e1 relev\u00e2ncia, ter\u00e1 significado na vida. Entretanto, permanecemos no campo do conhecido, com todos os seus conflitos, aspira\u00e7\u00f5es, disputas, agonias, e, a partir desse campo, tentamos encontrar aquilo que \u00e9 desconhecido. Portanto, n\u00e3o estamos realmente buscando liberdade. O que n\u00f3s queremos \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o, a extens\u00e3o da mesma coisa antiga: o conhecido.<\/p><p>Portanto, para mim, o importante \u00e9 compreender, por si mesmo, esse estado em que a mente est\u00e1 livre do conhecido, pois tal mente \u00e9 a \u00fanica que pode descobrir, por si mesma, se h\u00e1 ou n\u00e3o h\u00e1 uma imensid\u00e3o. Funcionar somente dentro do campo do conhecido \u2013 seja esse funcionamento \u00e0 esquerda, \u00e0 direita, ou no centro \u2013 \u00e9 materialismo grosseiro, ou outro r\u00f3tulo que se queira dar a isso. Nesse campo n\u00e3o h\u00e1 resposta para nada, pois nele h\u00e1 sofrimento, rixa, eterna competi\u00e7\u00e3o, busca de uma seguran\u00e7a que voc\u00ea jamais encontrar\u00e1. \u00c9 com isso que a maioria dos jovens est\u00e1 preocupada, n\u00e3o \u00e9? Primeiro, eles desejam seguran\u00e7a para si mesmos, para sua fam\u00edlia, seguran\u00e7a no emprego, e, mais tarde, talvez, se tiverem tempo e pendor, procurar\u00e3o algo mais. Quando a crise fica demasiado intensa, voc\u00ea busca uma resposta feliz, conveniente, e, com isso, fica satisfeito. N\u00e3o estou falando desse tipo de busca, de modo algum. Estou falando de algo completamente diferente. Estou falando de uma mente que compreendeu inteiramente toda a fun\u00e7\u00e3o do conhecido, e n\u00e3o consegue compreender esse campo enormemente complexo sem compreender a si mesma, sem compreender a totalidade de sua consci\u00eancia.<\/p><p>Voc\u00ea n\u00e3o consegue entender a si mesmo mediante autoexame, mediante introspec\u00e7\u00e3o, mediante an\u00e1lise \u2013 at\u00e9 a\u00ed, est\u00e1 muito claro. N\u00e3o preciso entrar neste assunto, preciso? A mente n\u00e3o consegue compreender-se por meio de an\u00e1lise porque, na an\u00e1lise, h\u00e1 uma divis\u00e3o entre o analisador e o analisado, e, assim, o conflito \u00e9 aumentado e mantido. Qualquer an\u00e1lise, qualquer esfor\u00e7o de sondar, de questionar, parte do centro, o qual j\u00e1 est\u00e1 condicionado, sobrecarregado com acumula\u00e7\u00f5es do tempo, que s\u00e3o o conhecido. N\u00e3o importa quanto o analisador tente perscrutar o inconsciente \u2013 o inconsciente tamb\u00e9m faz parte do conhecido. Tendo compreendido a verdade disso \u2013 a despeito de todos os analistas e psic\u00f3logos \u2013 voc\u00ea poder\u00e1 ver todo o conte\u00fado do inconsciente e compreend\u00ea-lo num relance. A compreens\u00e3o s\u00f3 ocorre num relance \u2013 n\u00e3o no decorrer do tempo, mediante a acumula\u00e7\u00e3o de conhecimento livresco, etc. Voc\u00ea v\u00ea algo imediatamente, ou n\u00e3o v\u00ea. Os sonhos podem indicar, simbolizar, aludir a alguma coisa, mas isso ainda faz parte do conhecido, e a mente precisa esvaziar-se completamente do conhecido. A mente precisa libertar-se deste processo que chamamos de pensar.<\/p><p>Se estiver escutando, pela primeira vez, que precisa livrar-se do pensamento, voc\u00ea poder\u00e1 dizer: \u201cPobre coitado, ele \u00e9 louco.\u201d Mas, se voc\u00ea tiver realmente escutado, n\u00e3o somente esta vez, mas durante os muitos anos em que alguns de voc\u00eas talvez tenham lido tudo sobre o assunto, ent\u00e3o voc\u00ea saber\u00e1 que o que est\u00e1 sendo dito tem uma vitalidade extraordin\u00e1ria, uma verdade penetrante. S\u00f3 a mente que se esvaziou do conhecido \u00e9 criativa. Isso \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. Aquilo que tal mente cria n\u00e3o tem nada a ver com o conhecido. Livre do conhecido \u00e9 o estado da mente que est\u00e1 em processo de cria\u00e7\u00e3o. Como uma mente que est\u00e1 em processo de cria\u00e7\u00e3o poderia preocupar-se consigo mesma? Por conseguinte, para compreender esse estado mental, voc\u00ea tem de conhecer-se; voc\u00ea tem de observar o processo do seu pr\u00f3prio pensar \u2013 observ\u00e1-lo, e n\u00e3o o modificar, n\u00e3o o alterar, mas s\u00f3 o observar, assim como voc\u00ea se v\u00ea num espelho. Quando h\u00e1 liberdade, voc\u00ea pode fazer uso do conhecimento e ele n\u00e3o destruir\u00e1 a humanidade. Mas, quando n\u00e3o houver liberdade e voc\u00ea fizer uso do conhecimento, criar\u00e1 desgra\u00e7a para todos, esteja voc\u00ea na R\u00fassia, na Am\u00e9rica, na China, ou alhures. A mente que eu chamo de s\u00e9ria \u00e9 a mente c\u00f4nscia do conflito do conhecido, e n\u00e3o lhe cai nas malhas; n\u00e3o tenta modificar, melhorar o conhecido \u2013 pois nesse caminho n\u00e3o h\u00e1 fim para o sofrimento e a desgra\u00e7a.<\/p><p>Podemos discutir o assunto?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Importa-se de falar sobre o inconsciente? Como se pode ficar c\u00f4nscio do inconsciente? Como \u00e9 poss\u00edvel examin\u00e1-lo, revel\u00e1-lo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Todos voc\u00eas v\u00eaem o problema? Voc\u00eas n\u00e3o conhecem o inconsciente; n\u00e3o est\u00e3o c\u00f4nscios dele, ent\u00e3o como o descobrir\u00e3o? Como \u00e9 que vou \u2013 eu que estou preso nas malhas das atividades di\u00e1rias e na rotina da mente consciente \u2013 penetrar o inconsciente?<\/p><p>Agora, veja o que voc\u00ea j\u00e1 fez colocando esta pergunta. Voc\u00ea criou uma contradi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 acompanhando? Explicarei o que quero dizer. Com que instrumento voc\u00ea vai perscrutar o inconsciente? O \u00fanico instrumento que voc\u00ea tem \u00e9 a mente consciente, a mente que opera no seu dia-a-dia, que vai para o escrit\u00f3rio, que tem apetites sexuais e de outra natureza, que tem temores; e, com essa mente consciente, voc\u00ea vai perscrutar o inconsciente. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer tal coisa; e, quando voc\u00ea descobre que isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, o que acontece? Durante o sono, quando o c\u00e9rebro consciente est\u00e1 um tanto quieto, o inconsciente sugere certas coisas por meio dos sonhos, dos s\u00edmbolos, e ent\u00e3o a mente consciente, ao despertar, diz: \u201cSonhei e preciso interpretar meus sonhos.\u201d Por estar t\u00e3o ocupada durante o dia, a mente consciente s\u00f3 pode descobrir o conte\u00fado da mente inconsciente por meio de sonhos. Por conseguinte, o analista d\u00e1 enorme import\u00e2ncia aos sonhos. Mas veja as complica\u00e7\u00f5es que isso envolve. Os sonhos precisam de interpreta\u00e7\u00e3o correta e, para dar essa interpreta\u00e7\u00e3o, o analista precisa conhecer o background da sua consci\u00eancia, a totalidade dela; de outro modo, sua interpreta\u00e7\u00e3o estar\u00e1 errada. A interpreta\u00e7\u00e3o pode ser freudiana, junguiana, ou refletir as opini\u00f5es de alguma outra autoridade, mas n\u00e3o estar\u00e1 correta \u2013 e isso \u00e9 o que geralmente acontece porque o analista n\u00e3o conhece o seu inteiro background, e n\u00e3o pode conhec\u00ea-lo. E, se voc\u00ea mesmo come\u00e7ar a analisar o inconsciente, se anotar cada sonho e o interpretar, ent\u00e3o a sua interpreta\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de ser completamente livre do inconsciente. V\u00ea a dificuldade? Estou entrando no problema negativamente, entende?<\/p><p>Essa coisa que voc\u00ea chama de inconsciente \u00e9 desconhecida \u2013 desconhecida no sentido de que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com ela, n\u00e3o conhece o conte\u00fado dela. Por enquanto, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 o inconsciente. Voc\u00ea tem tentado entend\u00ea-lo com uma mente que \u00e9 treinada para acumular conhecimento, e, com esse conhecimento, olhar. Mas agora voc\u00ea descobriu que esse n\u00e3o \u00e9 o meio de perscrutar o inconsciente, isto \u00e9, por meio de an\u00e1lise. E, quando voc\u00ea diz: \u201cA an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o caminho\u201d, o que aconteceu com a sua mente? Voc\u00eas est\u00e3o me acompanhando? Eu me pergunto se isso est\u00e1 claro.<\/p><p>Quando voc\u00ea diz acerca de algo: \u201cEsse n\u00e3o \u00e9 o caminho\u201d, qual \u00e9 o estado da sua mente? Certamente, ela est\u00e1 num estado de nega\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode permanecer nesse estado? \u00c9 s\u00f3 no estado de nega\u00e7\u00e3o que voc\u00ea pode observar; assim, o importante \u00e9 abordar negativamente algo que voc\u00ea n\u00e3o conhece. \u00c9 assim que surgem as inven\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9? Foi assim que os grandes foguetes foram desenvolvidos. Mas \u00e9 muito mais dif\u00edcil abordar negativamente um problema psicol\u00f3gico, porque estamos torturados, estamos presos em nossa selva emocional, e queremos encontrar uma sa\u00edda.<\/p><p>Assim, para revelar o inconsciente, \u00e9 preciso primeiro ver muito claramente, por si mesmo, a verdade de que voc\u00ea s\u00f3 pode realmente olhar para algo que n\u00e3o conhece, com uma mente que esteja vazia. Disseram-lhe que praticasse auto\u00a0 an\u00e1lise, mas a an\u00e1lise n\u00e3o o levou a lugar nenhum, exceto a mais e mais de coisa alguma, de modo que voc\u00ea v\u00ea, por si mesmo, que a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o caminho. Tendo compreendido a futilidade da an\u00e1lise, n\u00e3o tente imediatamente descobrir o que \u00e9 o inconsciente, mas, em vez disso, investigue para descobrir qual \u00e9 o estado no qual a mente diz: \u201cEsse n\u00e3o \u00e9 o caminho.\u201d Certamente, \u00e9 um estado de nega\u00e7\u00e3o, e, nesse estado, a mente pode observar, pois n\u00e3o est\u00e1 traduzindo, interpretando, julgando, mas apenas olhando. Isso voc\u00ea pode fazer em qualquer lugar: sentado num \u00f4nibus, no escrit\u00f3rio, quando o chefe fala com voc\u00ea, quando voc\u00ea fala com a esposa, com os seus filhos, com o seu vizinho, quando l\u00ea o jornal. Com uma mente assim, cada rea\u00e7\u00e3o do inconsciente pode ser observada, e, se voc\u00ea fizer isso com intensidade \u2013 n\u00e3o s\u00f3 casualmente, um dia faz e, no dia seguinte, esquece de fazer -, se voc\u00ea se mantiver extremamente vivo, ent\u00e3o descobrir\u00e1 que n\u00e3o tem nenhum sonho. Que necessidade h\u00e1 de sonhos simb\u00f3licos quando, a cada minuto do dia, o inconsciente est\u00e1 lhe mostrando suas respostas, desistindo do seu condicionamento, das suas mem\u00f3rias, suas ansiedades \u2013 quando tudo est\u00e1 sendo revelado enquanto voc\u00ea observa? Ent\u00e3o, a mente \u00e9 como uma tela vazia em que o inconsciente projeta o pr\u00f3prio retrato de momento a momento, de modo que, quando voc\u00ea vai dormir, a mente, o c\u00e9rebro, descansa. E ele precisa de descanso porque trabalhou furiosamente todo o dia, n\u00e3o s\u00f3 no emprego, mas tamb\u00e9m observando. O c\u00e9rebro, assim, torna-se altamente sens\u00edvel \u2013 muito mais sens\u00edvel do que por meio de an\u00e1lise e introspec\u00e7\u00e3o. A mente, o c\u00e9rebro que fica completamente em descanso durante o sono, renova-se a si mesmo. Ele tem energia para ir mais longe \u2013 mas n\u00e3o vou falar disso agora. N\u00f3s respondemos a pergunta, n\u00e3o \u00e9, senhor? A revela\u00e7\u00e3o do inconsciente ocorre quando a mente est\u00e1 num estado de nega\u00e7\u00e3o, num estado de vazio; isto \u00e9, ela est\u00e1 observando sem interpretar.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: As intui\u00e7\u00f5es procedem do desconhecido?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Obviamente, n\u00e3o. Temos intui\u00e7\u00f5es acerca de tudo, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00ea realmente quer que eu responda essa pergunta? \u00c9 melhor responder, pois vejo que muitos de voc\u00eas est\u00e3o dizendo sim.<\/p><p>Por que desejam intui\u00e7\u00f5es ou inspira\u00e7\u00f5es? Quando voc\u00eas est\u00e3o se observando intensamente, vendo cada movimento do inconsciente, sem escolha, voc\u00eas querem ser inspirados, ter intui\u00e7\u00f5es? Intui\u00e7\u00f5es sobre o qu\u00ea? \u00c9 s\u00f3 quando voc\u00eas est\u00e3o aprisionados em autocontradi\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 tens\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o, luta, que voc\u00eas querem al\u00edvio, alguma esperan\u00e7a, uma promessa de algo diferente. Isso \u00e9 t\u00e3o infantil! Abandone tudo isso!<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O senhor usa a palavra mente com v\u00e1rios significados. O que quer dizer com ela?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Eis uma boa pergunta. Certamente, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre c\u00e9rebro e mente. Precisamos entrar nisso com muito cuidado.<\/p><p>A mente \u00e9 tudo, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nada. A mente abrange tudo, e, ao mesmo tempo, \u00e9 vazia. Por favor, voc\u00eas n\u00e3o sabem de que estou falando; portanto, n\u00e3o concordem. A mente n\u00e3o tem fronteiras; por conseguinte, n\u00e3o \u00e9 escrava do tempo. A mente n\u00e3o tem horizonte em dire\u00e7\u00e3o ao qual esteja caminhando; portanto, ela \u00e9 completamente vazia. Mas, h\u00e1 o c\u00e9rebro, o qual \u00e9 resultado do tempo; ele cresceu a partir de uma \u00fanica c\u00e9lula at\u00e9 esta entidade complexa que \u00e9 o ser humano. O c\u00e9rebro \u00e9 resultado do tempo, mas a mente n\u00e3o o \u00e9. O c\u00e9rebro \u00e9 resultado de mil experi\u00eancias, com suas cicatrizes, suas mem\u00f3rias, conscientes e inconscientes. O c\u00e9rebro \u00e9 resultado de associa\u00e7\u00e3o, de experi\u00eancias que voc\u00ea recorda \u2013 as experi\u00eancias recentes, e tamb\u00e9m as experi\u00eancias maravilhosas que voc\u00ea teve quando crian\u00e7a. O c\u00e9rebro \u00e9 o futuro, inventado por si mesmo em sua passagem do passado para o presente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele futuro. Tudo isso faz parte do c\u00e9rebro. E \u2013 por o havermos torturado tanto, maltratado, compelido, disciplinado, for\u00e7ado, exercitado \u2013 o c\u00e9rebro tornou-se embotado, uma coisa morta, mec\u00e2nica. Isso \u00e9 o que o c\u00e9rebro \u00e9 para a maioria de n\u00f3s \u2013 s\u00f3 uma coisa mec\u00e2nica. Ele n\u00e3o \u00e9 altamente sens\u00edvel, afiado, interessado, vivo; e com esse c\u00e9rebro mec\u00e2nico tentamos compreender a mente. Toda a nossa literatura, tudo quanto falamos e escrevemos sobre a mente, procede das recorda\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro.<\/p><p>Portanto, se voc\u00ea entrar neste assunto por si mesmo, descobrir\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio um c\u00e9rebro altamente sens\u00edvel, capaz de racioc\u00ednio correto, um c\u00e9rebro que seja saud\u00e1vel e n\u00e3o neur\u00f3tico, n\u00e3o baseado nas cren\u00e7as e suposi\u00e7\u00f5es dos te\u00f3logos, dos comunistas, ou de quem quer que seja, pois essas coisas s\u00f3 tornam o c\u00e9rebro coisa mec\u00e2nica, embotada, est\u00fapida, por mais perspicaz que possa ser. Se voc\u00ea o examinar, descobrir\u00e1 que o c\u00e9rebro pode ser extraordinariamente vivo, cada parte dele. Mas, ele s\u00f3 pode ser vivo assim quando n\u00e3o h\u00e1 conflito, quando ele n\u00e3o tem problemas, quando n\u00e3o est\u00e1 desesperado, n\u00e3o est\u00e1 pensando em termos de futuro, quando est\u00e1 livre de ansiedades, de tristezas. Ent\u00e3o, o c\u00e9rebro pode ser altamente sens\u00edvel, vivo no sentido real da palavra; e s\u00f3 um c\u00e9rebro assim pode encontrar a mente que n\u00e3o tem horizonte, a mente que \u00e9 completamente vazia e funciona a partir desse vazio.<\/p><p>11 de julho de 1963.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>3\u00aa palestra em Saanen, Su\u00ed\u00e7a Para muitas pessoas, religi\u00e3o \u00e9 provavelmente um passatempo. As pessoas idosas voltam-se para a religi\u00e3o, e fazem o mesmo as pessoas um tanto neur\u00f3ticas. Estou usando a palavra religi\u00e3o referindo-me n\u00e3o s\u00f3 a igrejas organizadas, com toda a seguran\u00e7a interior que oferecem, mas tamb\u00e9m \u00e0s v\u00e1rias formas mais incomuns de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1811","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1811"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1818,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1811\/revisions\/1818"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}