{"id":1780,"date":"2022-12-18T16:54:51","date_gmt":"2022-12-18T16:54:51","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1780"},"modified":"2022-12-18T16:55:25","modified_gmt":"2022-12-18T16:55:25","slug":"26-06-1955","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1780","title":{"rendered":"26\/06\/1955"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1780\" class=\"elementor elementor-1780\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-74188210 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"74188210\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-7268bd29\" data-id=\"7268bd29\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-713173cc elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"713173cc\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>6\u00aa\u00a0palestra em Londres<\/strong><\/p><p>Acho importante descobrir por n\u00f3s mesmos o que \u00e9 que estamos buscando e por que o estamos buscando. Se pudermos examinar isto em profundidade, penso que descobriremos muitas coisas a\u00ed implicadas. A maioria das pessoas busca algum tipo de preenchimento. Estando descontentes, queremos encontrar contentamento \u2013 seja em algum relacionamento, seja realizando certas aptid\u00f5es, seja procurando algum tipo de a\u00e7\u00e3o que seja inteiramente satisfat\u00f3ria. Ou, caso n\u00e3o tenhamos tal perfil, ent\u00e3o geralmente buscamos o que pensamos ser a verdade, Deus, etc. A maioria das pessoas busca alguma coisa, e, se pud\u00e9ssemos descobrir, por n\u00f3s mesmos, o que \u00e9 que estamos buscando e por que \u00e9 que o buscamos, acho que isso revelaria muita coisa.<\/p><p>Estando descontentes com n\u00f3s mesmos, com nosso ambiente, com nossas atividades, nosso emprego, a maioria de n\u00f3s quer um emprego melhor, uma posi\u00e7\u00e3o melhor, melhor compreens\u00e3o, atividades mais amplas, uma filosofia mais satisfat\u00f3ria, uma capacidade que seja inteiramente gratificante. Exteriormente, isso \u00e9 o que desejamos, e, quando isso n\u00e3o nos satisfaz, vamos um pouco mais fundo: buscamos filosofias, participamos de reformas, juntamo-nos a v\u00e1rios grupos de discuss\u00e3o, e assim por diante \u2013 e, mesmo assim, h\u00e1 descontentamento.<\/p><p>Parece-me que \u00e9 importante descobrir se o motivo da nossa busca \u00e9 compreender o descontentamento, ou encontrar satisfa\u00e7\u00e3o. Sendo satisfa\u00e7\u00e3o aquilo que estamos buscando, em qualquer n\u00edvel, ent\u00e3o obviamente nossas mentes tornam-se muito insignificantes. Mas talvez haja um descontentamento sem um objeto, descontentamento em si mesmo, que n\u00e3o seja o impulso de alcan\u00e7ar um resultado, de chegar a algum lugar. Penso que a maioria de n\u00f3s, insatisfeita com os seus relacionamentos, seus estilos de vida, suas atitudes, com os valores que tem, est\u00e1 tentando livrar-se deles todos e encontrar outro conjunto de valores, outros relacionamentos, outros ideias, outras cren\u00e7as; mas, por tr\u00e1s de tudo isso, encontra-se o impulso de autossatisfa\u00e7\u00e3o. Penso que seria importante podermos descobrir, por n\u00f3s mesmos, se h\u00e1 realmente um descontentamento sem motivo, que n\u00e3o seja resultante de alguma frustra\u00e7\u00e3o \u2013 porque esse pr\u00f3prio descontentamento sem motivo pode ser a qualidade que \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p><p>Presentemente, quando buscamos, a nossa busca resulta da insatisfa\u00e7\u00e3o, do descontentamento, e o nosso motivo \u00e9 encontrar gratifica\u00e7\u00e3o de uma forma ou de outra. Especialmente quando falamos sobre a verdade, ou Deus, estamos \u2013 n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2013 buscando algum estado mental que seja completamente satisfat\u00f3rio. N\u00e3o importa se a mente \u00e9 ampla, engenhosa, tenha muita ou pouca capacidade, se estiver buscando satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 conquanto sutil \u2013 ent\u00e3o os seus deuses, suas virtudes, suas filosofias, seus valores, ser\u00e3o obrigatoriamente insignificantes, pequenos, superficiais.<\/p><p>Ser\u00e1 poss\u00edvel a mente ficar livre de toda busca? Isso significa, realmente, ficar livre daquele descontentamento que tem por fim encontrar satisfa\u00e7\u00e3o. Porque, por mais engenhosa e inteligente que seja a mente, e sejam quais forem as virtudes que tenha cultivado, se estiver apenas buscando alguma forma de gratifica\u00e7\u00e3o, certamente ser\u00e1 incapaz de compreender o que \u00e9 verdadeiro. Certamente, todo o processo de pensamento \u00e9 insignificante, muito limitado. Afinal, o pensamento \u00e9 o resultado de mem\u00f3ria acumulada, de associa\u00e7\u00e3o, de experi\u00eancia, de acordo com o nosso condicionamento; o pensamento \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria, \u00e9 a resposta de uma mente condicionada. Quando esse condicionamento cria insatisfa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o qualquer resultado dessa insatisfa\u00e7\u00e3o ser\u00e1, certamente, condicionado. Nossa investiga\u00e7\u00e3o permanece absolutamente f\u00fatil enquanto estiver baseada em um descontentamento que \u00e9 mera rea\u00e7\u00e3o a determinado condicionamento.<\/p><p>Se a pessoa v\u00ea isso, ent\u00e3o se pergunta se existe outra forma de descontentamento \u2013 se h\u00e1 um descontentamento que n\u00e3o seja canalizado, que n\u00e3o tenha nenhum motivo, que n\u00e3o esteja buscando preenchimento. E pode ser que esse descontentamento sem nenhum motivo, o descontentamento que n\u00e3o seja resposta a um condicionamento, seja o descontentamento essencial. Presentemente, o nosso pensamento, a nossa investiga\u00e7\u00e3o, tem um motivo, e esse motivo baseia-se na nossa exig\u00eancia de encontrar algum estado permanente de completa satisfa\u00e7\u00e3o, em que n\u00e3o haja perturba\u00e7\u00e3o de nenhum tipo \u2013 estado que chamamos de paz, que chamamos de Deus ou verdade, e o prop\u00f3sito de toda a nossa busca \u00e9 alcan\u00e7ar esse estado.<\/p><p>Portanto, para a maioria de n\u00f3s, a busca baseia-se na exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, de um estado de perman\u00eancia em que jamais sejamos perturbados. E pode tal mente, pensando a partir do motivo que \u00e9 encontrar satisfa\u00e7\u00e3o, descobrir o que \u00e9 verdadeiro? Parece-me que a pessoa precisa compreender, por si mesma, por que ela busca, e n\u00e3o ficar satisfeita com nenhuma palavra escolhida, com nenhum fim ou objetivo escolhido, por mais enobrecedor, inspirador ou ideal que possa parecer. Porque, certamente, o pr\u00f3prio caminho do ego, do \u201ceu\u201d, \u00e9 esse constante processo de descontentamento dirigido para um preenchimento; isso \u00e9 tudo que conhecemos. Quando n\u00e3o h\u00e1 preenchimento, h\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o surgem os muitos problemas de como superar essa frustra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a mente busca um estado no qual n\u00e3o haja frustra\u00e7\u00e3o alguma, nenhuma dor. Portanto, nossa pr\u00f3pria busca da chamada verdade pode n\u00e3o passar de preenchimento, de expans\u00e3o do ego, do \u201ceu\u201d. Somos, ent\u00e3o, apanhados por esse c\u00edrculo vicioso.<\/p><p>Se a pessoa estiver consciente de tudo isso completamente, totalmente, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 sentimento de preenchimento em nenhuma cren\u00e7a, em nenhum dogma, em nenhuma atividade, em nenhum estado espec\u00edfico. A busca de preenchimento implica dor, frustra\u00e7\u00e3o; e, vendo a verdade disso, a mente j\u00e1 n\u00e3o busca.<\/p><p>Penso haver uma diferen\u00e7a entre a aten\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada a um objeto e a aten\u00e7\u00e3o sem objeto. Podemos concentrar-nos em determinada ideia, cren\u00e7a, objeto \u2013 que \u00e9 um processo excludente, e h\u00e1 tamb\u00e9m uma aten\u00e7\u00e3o, um percebimento, que n\u00e3o \u00e9 excludente. Semelhantemente, h\u00e1 um descontentamento que n\u00e3o tem motivo, que n\u00e3o \u00e9 resultado de alguma frustra\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o pode ser canalizado, que n\u00e3o pode aceitar nenhum preenchimento. Talvez eu n\u00e3o esteja usando a palavra certa para isso, mas penso que esse extraordin\u00e1rio descontentamento \u00e9 o essencial. Sem isso, todas as outras formas de descontentamento tornam-se um caminho para a satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Ent\u00e3o pode a mente, estando consciente de si mesma, conhecendo seus pr\u00f3prios modos de pensar, p\u00f4r um fim a essa exig\u00eancia de autopreenchimento? E, quando isso chega ao fim, pode a pessoa continuar sem buscar e ficar em completo estado de vazio, sem esperan\u00e7a e sem medo? N\u00e3o \u00e9 preciso chegar a esse estado em que h\u00e1 completa cessa\u00e7\u00e3o de toda busca? \u2013 pois s\u00f3 ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acontecer alguma coisa que n\u00e3o seja produto da mente.<\/p><p>Afinal, o nosso pensamento \u00e9 resultante do tempo, de muitos ontens; e, por meio do tempo, que \u00e9 pensamento, estamos tentando encontrar aquilo que est\u00e1 al\u00e9m do tempo. Estamos usando a mente, instrumento do tempo, para encontrar algo que n\u00e3o pode ser medido. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a mente pode cessar totalmente, para que algo mais aconte\u00e7a? O que n\u00e3o significa, de modo algum, um estado de amn\u00e9sia, de branco, uma aus\u00eancia de pensamento. Ao contr\u00e1rio, isso exige grande vigil\u00e2ncia, uma percep\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o existe nenhum objeto nem uma entidade que esteja c\u00f4nscia.<\/p><p>Acho importante compreender isso. Presentemente, quando estamos c\u00f4nscios no dia-a-dia, nessa percep\u00e7\u00e3o existe condena\u00e7\u00e3o, julgamento, avalia\u00e7\u00e3o; essa \u00e9 a nossa percep\u00e7\u00e3o normal. Quando olhamos para um quadro, imediatamente inicia-se todo o processo de condena\u00e7\u00e3o, compara\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o, e nunca vemos o quadro, porque o filtro que \u00e9 o processo de avalia\u00e7\u00e3o interp\u00f5e-se entre voc\u00ea e o quadro. Seria poss\u00edvel olhar para aquele quadro sem nenhuma avalia\u00e7\u00e3o, sem nenhuma compara\u00e7\u00e3o? Igualmente, posso olhar para mim mesmo, seja eu o que for \u2013 todos os erros, mis\u00e9rias, fracassos, tristezas alegrias \u2013 e ver tudo isso sem avalia\u00e7\u00e3o, apenas estar c\u00f4nscio disso, sem introduzir o filtro da condena\u00e7\u00e3o ou compara\u00e7\u00e3o?Se a mente for capaz de fazer isso, ent\u00e3o descobriremos que essa mesma percep\u00e7\u00e3o elimina a raiz de qualquer problema espec\u00edfico.<\/p><p>Quando a mente est\u00e1 desse modo c\u00f4nscia, totalmente c\u00f4nscia, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 busca; a mente j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 comparando, buscando satisfa\u00e7\u00e3o, pensando em termos de realiza\u00e7\u00f5es. Nesse caso, ser\u00e1 que a mente n\u00e3o \u00e9, ela mesma, atemporal? Enquanto a mente estiver comparando, condenando, julgando, estiver condicionada, ent\u00e3o ela est\u00e1 no tempo; mas, quando tudo isso tiver cessado, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria mente aquele estado que pode ser chamado de eterno?Nele n\u00e3o h\u00e1 observador algum, nenhum experimentador com suas associa\u00e7\u00f5es, com suas lembran\u00e7as, que esteja buscando \u2013 coisas que s\u00e3o, todas elas, produtos do tempo. Enquanto o experimentador estiver buscando, tentando preencher-se, tentando acumular experi\u00eancia, mais conhecimento, tentando encontrar campos mais vastos nos quais viver, ele estar\u00e1 criando tempo, e, quaisquer que sejam suas a\u00e7\u00f5es, elas sempre estar\u00e3o no campo do tempo. Aquilo que n\u00e3o tem medidas jamais poder\u00e1 ser encontrado pelo experimentador, pelo que busca. \u00c9 s\u00f3 naquele estado em que a mente j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 buscando, quando a mente n\u00e3o est\u00e1 cultivando, mediante a busca, um fim a ser alcan\u00e7ado \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o a realidade poder\u00e1 manifestar-se.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Estou deveras interessado no que o senhor est\u00e1 dizendo e sinto-me cheio de entusiasmo. O que posso realmente fazer sobre isso?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O entusiasmo logo acaba. Se o senhor estiver inspirado apenas pelo que est\u00e1 sendo dito, essa inspira\u00e7\u00e3o logo desaparecer\u00e1 e o senhor procurar\u00e1 outra forma de inspira\u00e7\u00e3o ou outra sensa\u00e7\u00e3o. Mas, se o que est\u00e1 sendo dito for parte da sua pr\u00f3pria descoberta, se for resultado da sua pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o interior, ent\u00e3o essa coisa \u00e9 sua, n\u00e3o \u00e9 coisa de outrem. Mas, se for coisa de outrem, ent\u00e3o o senhor estar\u00e1 lidando com todo o complicado, cansativo e corrosivo processo de constru\u00e7\u00e3o de uma autoridade e de adora\u00e7\u00e3o da autoridade. Se o senhor tiver ouvido, e tiver compreendido, ent\u00e3o, naturalmente, far\u00e1 alguma coisa a respeito; mas, se estiver apenas entusiasmado, \u201cinspirado\u201d, ent\u00e3o o senhor se unir\u00e1 a grupos, formar\u00e1 sociedades, organiza\u00e7\u00f5es \u2013 o que se tornar\u00e1 outro obst\u00e1culo.<\/p><p>Afinal, do que \u00e9 que estamos falando? N\u00e3o estou dizendo nada de novo. S\u00f3 estamos tentando compreender como olhar para n\u00f3s mesmos, como observar o inteiro processo da consci\u00eancia \u2013 o que n\u00f3s somos. Para a pessoa se compreender, deve haver autoconhecimento, uma percep\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o haja condena\u00e7\u00e3o, compara\u00e7\u00e3o, julgamento \u2013 apenas a capacidade de ficar atento, de conhecer o caminho do nosso pensamento, o caminho do nosso ego; e, para isso, certamente n\u00e3o h\u00e1 necessidade de autoridade alguma. Depende de voc\u00ea, como indiv\u00edduo, descobrir por si mesmo.<\/p><p>A dificuldade \u00e9 que queremos encorajamento, queremos companheirismo; queremos que nos digam que estamos indo bem; queremos encontrar outros que pensem como n\u00f3s \u2013 coisas que s\u00e3o distra\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 coisa que precisa ser feita por voc\u00ea mesmo, totalmente. Voc\u00ea descobrir\u00e1 \u2013 se me permite sugerir, ao aprofundar-se mais e mais no todo da quest\u00e3o \u2013 descobrir\u00e1 espontaneamente um estado que agir\u00e1 por si mesmo; voc\u00ea n\u00e3o precisar\u00e1 fazer nada. Se voc\u00ea descobrir algo real, essa verdade operar\u00e1 por si mesma. Mas n\u00f3s queremos operar sobre a verdade; queremos fazer algo a respeito dela. Portanto, come\u00e7amos a condicionar-nos ainda mais, com cada tipo de experi\u00eancia, para satisfazer nossa particular vaidade por meio de a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Mas acho que h\u00e1 uma atividade que passa a existir, n\u00e3o em decorr\u00eancia de escutar umas poucas palestras ou ler alguns livros; \u00e9 uma atividade que surge porque voc\u00ea mesmo experimentou um estado al\u00e9m da mente. Mas, se voc\u00ea se aferrar a essa experi\u00eancia e tentar agir a partir dela por pensar que compreendeu alguma coisa, ent\u00e3o ela se torna o seu pr\u00f3prio impedimento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como podemos ter paz neste mundo?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Antes de mais nada, vejamos se algu\u00e9m pode nos dar paz. Os pol\u00edticos n\u00e3o nos podem dar paz. N\u00e3o haver\u00e1 paz enquanto houver nacionalistas, enquanto houver ex\u00e9rcitos, governos separados entre si, barreiras de ra\u00e7a e, acima de tudo, barreiras de cren\u00e7as, barreiras religiosas \u2013 pelo menos, a assim chamada religi\u00e3o. Pode haver paz por meio do terror, mas, certamente, isso n\u00e3o \u00e9 paz. Paz \u00e9 coisa inteiramente diferente, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Paz \u00e9 a cessa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia interior \u2013 aquela viol\u00eancia que se expressa por meio da ambi\u00e7\u00e3o, da competi\u00e7\u00e3o. E, estamos, voc\u00ea e eu, querendo abdicar das nossas ambi\u00e7\u00f5es? Ser como nada?<\/p><p>Paz \u00e9 um estado mental que n\u00e3o pode ser comprado. E como \u00e9 que se pode chegar a esse sentimento interior de paz? N\u00e3o mediante auto-hipnose, nem afirmando \u201cVou ser pac\u00edfico\u201d, nem praticando a virtude da n\u00e3o-viol\u00eancia. Isso n\u00e3o passa de um processo de auto-hipnose para entrar em determinado estado mental. Ser\u00e1 que a pessoa pode realmente, interiormente, psicologicamente, p\u00f4r de lado toda nacionalidade, toda ambi\u00e7\u00e3o, todo sentimento de comparar-se com outra pessoa? \u2013 pois todas essas coisas produzem viol\u00eancia e inveja. S\u00f3 ent\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel, certamente, termos um mundo que possamos chamar de nosso.<\/p><p>O mundo n\u00e3o \u00e9 nosso agora. A civiliza\u00e7\u00e3o ocidental est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o oriental, e h\u00e1 o mundo ingl\u00eas, ou o mundo americano, ou o mundo dos comunistas, e assim por diante. N\u00e3o \u00e9 o nosso mundo, seu e meu, para nele vivermos. E o nosso mundo n\u00e3o poder\u00e1 existir se qualquer um de n\u00f3s tiver algum sentimento de nacionalidade, algum sentimento de competi\u00e7\u00e3o, de tentar atingir um resultado, de tornar-se alguma coisa. Enquanto eu estiver tentando tornar-me alguma coisa, haver\u00e1 viol\u00eancia \u2013 que se expressa em competi\u00e7\u00e3o, em crueldade. Ent\u00e3o, ser\u00e1 poss\u00edvel que voc\u00ea e eu, realmente, n\u00e3o teoricamente, nos tornemos nada? \u2013 n\u00e3o como forma de fuga porque minhas ambi\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram realizadas e, por isso, tento tornar-me nada, ou porque n\u00e3o tenho oportunidades para minhas capacidades, e, portanto, tento tornar-me pac\u00edfico, mas porque compreendi todo o processo, a natureza interna, da viol\u00eancia.<\/p><p>Se amo alguma coisa por si mesma, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Se amo o que estou fazendo, n\u00e3o pelo que me trar\u00e1 \u2013 a recompensa, a puni\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o, a notoriedade, e tudo o mais \u2013 mas pela coisa em si mesma, ent\u00e3o todo o impulso de competi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 sido desarraigado de mim, pois j\u00e1 n\u00e3o estou interessado em quem \u00e9 maior e quem \u00e9 menor. E, por n\u00e3o pensarmos nesses termos, temos viol\u00eancia. Pode haver pactos, legisla\u00e7\u00e3o talvez, que nos tragam paz superficial, mas interiormente estamos buscando, interiormente estamos competindo, lutando, tentando nos expressar, ser alguma coisa. E, enquanto existir essa viol\u00eancia, n\u00e3o haver\u00e1 paz, fa\u00e7a voc\u00ea o que fizer.<\/p><p>Para haver paz, precisa haver compreens\u00e3o profunda dos caminhos do ego, do \u201ceu\u201d que est\u00e1 competindo, tentando tornar-se alguma coisa. \u00c9 muito dif\u00edcil compreender e abandonar isso. Toda a nossa tradi\u00e7\u00e3o, toda a nossa educa\u00e7\u00e3o, nossa cultura social, tudo nos tem condicionado a ser alguma coisa, e pensamos que, se formos nada, seremos destru\u00eddos. De fato, estamos nos destruindo porque estamos tentando ser algo, quer como grupo, como indiv\u00edduos, quer como na\u00e7\u00e3o ou como classe; isso \u00e9 o que est\u00e1 realmente acontecendo. Estamos nos destruindo porque exigimos ser alguma coisa. Mas, se pudermos entender o inteiro processo desse impulso para ser algo, ent\u00e3o talvez, sendo nada, possamos encontrar um modo de vida diferente que talvez seja o \u00fanico modo de vida correto.<\/p><p>Isso, por\u00e9m, exige revolu\u00e7\u00e3o total \u2013 n\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o comunista ou qualquer outro tipo de revolu\u00e7\u00e3o, mas a completa revolu\u00e7\u00e3o interior, na qual n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o como no caso da sua religi\u00e3o e da minha religi\u00e3o, sua cren\u00e7a e minha cren\u00e7a. Ent\u00e3o, este \u00e9 o nosso mundo para nele vivermos. A partir deste sentimento de que o mundo \u00e9 nosso, poder\u00e1 surgir um tipo de cultura, de governo, de poder, totalmente diferente.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O senhor diz que, se a pessoa pensar completamente um pensamento que surja, ele n\u00e3o criar\u00e1 ra\u00edzes e a pessoa ficar\u00e1, assim, livre dele. Mas, mesmo quando eu fiz isso do melhor modo poss\u00edvel, o pensamento sempre voltou. Como posso lidar com isso?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O senhor tenta pensar um pensamento completamente porque deseja livrar-se dele, n\u00e3o \u00e9 mesmo? N\u00e3o \u00e9 esse o seu motivo para tentar pensar um pensamento completamente? Pois o interrogante diz: \u201cN\u00e3o consigo livrar-me dele, ele sempre volta.\u201d Ent\u00e3o ele est\u00e1 interessado em livrar-se de determinado pensamento; este o motivo da sua investiga\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, ele n\u00e3o o est\u00e1 pensando completamente, pois tudo o que ele quer \u00e9 ficar livre de determinado pensamento que seja cansativo, que seja doloroso. Se fosse agrad\u00e1vel, obviamente ele o conservaria; portanto, n\u00e3o h\u00e1 problema algum; \u00e9 do pensamento desagrad\u00e1vel que ele quer se livrar. Ent\u00e3o esse \u00e9 o motivo para pens\u00e1-lo at\u00e9 o fim. E, se ele estiver interessado em determinado pensamento s\u00f3 com a ideia de livrar-se dele, j\u00e1 o estar\u00e1 condenando, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ele s\u00f3 se op\u00f5e a um pensamento com o desejo de elimin\u00e1-lo.Ent\u00e3o, como pode ele compreender o pensamento completamente quando sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 livrar-se dele?<\/p><p>Portanto, o importante n\u00e3o \u00e9 como pensar completamente um pensamento, mas compreender que voc\u00ea n\u00e3o pode pensar completamente se houver qualquer sentimento de condena\u00e7\u00e3o \u2013 o que \u00e9 bem \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9? Se quero compreender uma crian\u00e7a, preciso estudar a crian\u00e7a, n\u00e3o devo conden\u00e1-la, n\u00e3o deve dizer: \u201cEsta crian\u00e7a \u00e9 melhor do que aquela\u201d, ou identificar-me com a crian\u00e7a. Preciso observar a crian\u00e7a \u2013 quando ela estiver brincando, quando estiver chorando, gritando, comendo, dormindo. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a minha mente pode observar um pensamento sem dar nome a ele? Pois o dar nome a um pensamento j\u00e1 \u00e9 conden\u00e1-lo.<\/p><p>Esse processo \u00e9 deveras complexo, mas, se voc\u00eas fizerem a gentileza de escutar, estou certo de que compreender\u00e3o sua import\u00e2ncia. Digamos que eu seja \u00e1vido, invejoso, quero entender a inveja completamente, e n\u00e3o somente livrar-me dela. A maioria de n\u00f3s quer livrar-se dela e tenta v\u00e1rias maneiras de o fazer, por v\u00e1rias raz\u00f5es, mas nunca somos capazes de livrar-nos dela; e continua indefinidamente. Mas, se realmente quero compreend\u00ea-la, chegar \u00e0 raiz da inveja, ent\u00e3o certamente n\u00e3o devo conden\u00e1-la. Sinto que a pr\u00f3pria palavra \u201cinveja\u201d tem um sentido condenat\u00f3rio. E ser\u00e1 que a mente consegue dissociar da palavra o sentimento chamado de inveja? Porque o nomear, o dar um nome \u00e0quele sentimento como inveja, com essa pr\u00f3pria palavra eu j\u00e1 a condenei, n\u00e3o \u00e9 verdade? \u00c0 palavra inveja est\u00e1 associado todo o significado psicol\u00f3gico e religioso de condena\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, posso fazer a dissocia\u00e7\u00e3o entre sentimento e palavra? Se a mente for capaz de n\u00e3o associar o sentimento \u00e0 palavra, ent\u00e3o ser\u00e1 que existe uma entidade, um \u201ceu\u201d, que esteja observando? Porque, certamente, o observador \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a palavra, \u00e9 a entidade que a est\u00e1 condenando.<\/p><p>Entremos um pouco mais neste assunto. Por favor, se me permitem sugerir, observem a pr\u00f3pria mente em opera\u00e7\u00e3o; n\u00e3o me escutem apenas intelectualmente, verbalmente, mas examinem qualquer sentimento de inveja ou de viol\u00eancia com o qual estejam acostumados, e o examinem comigo.<\/p><p>Digamos que eu seja invejoso. A rea\u00e7\u00e3o comum a isso seria justificar a inveja ou conden\u00e1-la.Estou justificando quando digo a mim mesmo: \u201cN\u00e3o sou realmente invejoso. Meu desejo de tornar-me algu\u00e9m faz parte da cultura, faz parte da minha sociedade, e, sem isso, serei um ningu\u00e9m.\u201d Ou eu a condeno porque sinto que n\u00e3o \u00e9 espiritual, ou por quaisquer outras raz\u00f5es. Ent\u00e3o, eu abordo esse sentimento que chamo de inveja, ou justificando-o, ou condenando-o. Agora, se n\u00e3o fizer nem uma coisa nem outra \u2013 o que \u00e9 extremamente dif\u00edcil porque isso significa que tenho de libertar a mente de todos os meus condicionamentos do passado, da cultura na qual fui criado \u2013 se a mente ficar livre disso, ent\u00e3o a mente precisar\u00e1 tamb\u00e9m livrar-se da palavra, pois essa palavra \u201cinveja\u201d implica condena\u00e7\u00e3o. Compreendem? Agora, minha mente \u00e9 feita de palavras, de s\u00edmbolos, de ideias; esses s\u00edmbolos, ideias, palavras, sou \u201ceu\u201d. E pode haver um sentimento de inveja quando n\u00e3o h\u00e1 verbaliza\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 a cessa\u00e7\u00e3o de tudo quanto est\u00e1 associado com o \u201ceu\u201d, que \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia da inveja? Portanto, ser\u00e1 poss\u00edvel experimentar inveja quando esse \u201ceu\u201d est\u00e1 ausente? \u2013 porque esse \u201ceu\u201d \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia da condena\u00e7\u00e3o, da verbaliza\u00e7\u00e3o, da compara\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Para pensar completamente um pensamento, para ir \u00e0 pr\u00f3pria raiz do pensamento, \u00e9 preciso haver uma percep\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o exista nenhum sentimento de condena\u00e7\u00e3o, de justifica\u00e7\u00e3o, e tudo o mais, nem sentimento de tentar superar um problema. Pois, se estou apenas tentando dissolver um problema, ent\u00e3o a minha aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 focada na dissolu\u00e7\u00e3o dele e n\u00e3o na compreens\u00e3o do problema. O problema \u00e9 o modo como penso, o modo como ajo; e, se condeno o modo como sou, isso obviamente bloqueia uma investiga\u00e7\u00e3o mais profunda. Se eu digo: \u201cN\u00e3o devo ser isto, e preciso ser aquilo\u201d, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 compreens\u00e3o dos caminhos do \u201ceu\u201d, cuja pr\u00f3pria natureza \u00e9 inveja, impulso de aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A quest\u00e3o \u00e9: \u201cPosso ficar de tal modo c\u00f4nscio, sem sentimento algum de condena\u00e7\u00e3o ou compara\u00e7\u00e3o?\u201d \u2013 pois s\u00f3 ent\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel pensar completamente um pensamento.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O senhor parece descartar a ioga como coisa in\u00fatil, e concordo com o senhor em que a ioga \u00e9, com frequ\u00eancia, praticada como um m\u00e9todo de fuga \u00e0quilo que \u00e9. Mas, se evitarmos a fixa\u00e7\u00e3o artificial da mente em um objeto escolhido, e permitirmos que a nossa chamada medita\u00e7\u00e3o tome a forma de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre todo o campo do que \u00e9, sem esperarmos nenhuma respostas espec\u00edfica, isso certamente \u00e9 o que o senhor recomenda. O senhor n\u00e3o acha tamb\u00e9m que poderemos fazer essa coisa dif\u00edcil com mais facilidade se tivermos aprendido a aquietar o corpo e a respira\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: O interrogante quer saber, realmente, como meditar \u2013 se a quieta\u00e7\u00e3o do corpo e a estabiliza\u00e7\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o n\u00e3o ajuda na medita\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 o processo de investigar o inteiro campo do que \u00e9, e n\u00e3o fugir dele. Ent\u00e3o vamos descobrir como meditar.<\/p><p>Agora, se puderem gentilmente escutar sem focar a aten\u00e7\u00e3o em nenhuma senten\u00e7a particular, em nenhuma frase da resposta, poderemos investigar toda a quest\u00e3o de como meditar. Para mim, o \u201ccomo\u201d n\u00e3o \u00e9, de modo algum, o problema. O problema \u00e9: \u201cO que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o?\u201d Se eu n\u00e3o souber o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, o simples inquirir sobre como meditar n\u00e3o tem significado nenhum. Portanto, minha investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em como meditar, que m\u00e9todo seguir, como ficar consciente daquilo que \u00e9, sem fugir, como sentar-se quieto, como repetir certas palavras, e assim por diante. N\u00e3o estamos discutindo nada disso. Se eu souber o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a quest\u00e3o de como meditar n\u00e3o ser\u00e1 um problema, certamente.<\/p><p>O que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o? Como n\u00e3o sabemos o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos ideia de como come\u00e7ar a meditar; ent\u00e3o, precisamos abordar este assunto com a mente aberta, n\u00e3o \u00e9 verdade? Voc\u00eas entenderam? Voc\u00eas precisam abordar este assunto com uma mente livre, que diga \u201ceu n\u00e3o sei\u201d, e n\u00e3o com uma mente ocupada, que pergunte \u201ccomo \u00e9 que devo meditar?\u201d Por favor, se quiserem mesmo seguir isto \u2013 e n\u00e3o aferrar-se ao que estou dizendo, mas realmente experimentar a coisa enquanto prosseguimos \u2013 ent\u00e3o voc\u00eas descobrir\u00e3o, por si mesmos, o significado da medita\u00e7\u00e3o.<\/p><p>At\u00e9 agora abordamos este problema com uma atitude de perguntar como meditar, qual sistema seguir, como respirar, quais pr\u00e1ticas de ioga realizar, e tudo o mais \u2013 porque pensamos saber o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o e que o \u201ccomo\u201d nos levar\u00e1 a alguma coisa. Mas, realmente, sabemos o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o? Eu n\u00e3o sei, nem voc\u00eas, penso eu. Ent\u00e3o, ambos precisamos abordar a quest\u00e3o com uma mente que diga \u201cEu n\u00e3o sei\u201d \u2013 embora possamos ter lido centenas de livros e praticado muitas disciplinas de ioga. Voc\u00eas n\u00e3o sabem realmente. Voc\u00eas apenas esperam, voc\u00eas apenas desejam, voc\u00eas apenas querem, por meio de determinado padr\u00e3o de a\u00e7\u00e3o, de disciplina, chegar a determinado estado. E tal estado pode ser totalmente ilus\u00f3rio; ele pode ser apenas o seu desejo. E certamente \u00e9 assim; ele \u00e9 a sua proje\u00e7\u00e3o, uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 mis\u00e9ria da exist\u00eancia di\u00e1ria.<\/p><p>Portanto, a primeira coisa essencial n\u00e3o \u00e9 como meditar, mas sim descobrir o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o. Assim, a mente precisa abordar esse assunto sem conhecimento pr\u00e9vio \u2013 e isso \u00e9 extremamente dif\u00edcil. Estamos de tal modo acostumados a pensar que determinado sistema \u00e9 essencial \u00e0 medita\u00e7\u00e3o \u2013 seja a repeti\u00e7\u00e3o de palavras, como ora\u00e7\u00e3o, ou o assumir dada postura corporal, ou fixar a mente em dada frase ou num quadro, ou respirar regularmente, fazer o corpo ficar muito quieto, ter controle completo da mente; com tais coisas estamos familiarizados. E acreditamos que essas coisas nos levar\u00e3o a algo que pensamos estar al\u00e9m da mente, al\u00e9m do transit\u00f3rio processo de pensamento. Pensamos j\u00e1 saber o que queremos, e agora estamos tentando comparar qual \u00e9 o melhor caminho. Essa quest\u00e3o de \u201ccomo meditar\u201d \u00e9 completamente falsa. Mas, posso descobrir o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o? Esta \u00e9 a pergunta real. Meditar, saber o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo extraordin\u00e1rio; assim, vamos descobrir.<\/p><p>Certamente, medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em seguir nenhum sistema. Ser\u00e1 que minha mente tem condi\u00e7\u00f5es de eliminar completamente essa tradi\u00e7\u00e3o de seguir uma disciplina, um m\u00e9todo? \u2013 que existe n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas tamb\u00e9m na \u00cdndia? Isso \u00e9 essencial porque n\u00e3o sei o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o. Sei como me concentrar, como controlar, como disciplinar, o que fazer, mas n\u00e3o sei o que \u00e9 que est\u00e1 no fim disso. A \u00fanica coisa que me disseram foi: \u201cSe voc\u00ea praticar essas coisas, conseguir\u00e1 o que deseja\u201d; e, sendo eu ambicioso, realizo essas pr\u00e1ticas. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que posso eliminar essa exig\u00eancia de m\u00e9todo para descobrir o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o?<\/p><p>A pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o de tudo isso \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade? J\u00e1 estou meditando no pr\u00f3prio instante em que come\u00e7o a investigar o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o \u2013 em vez de procurar saber como meditar. No momento em que come\u00e7o a descobrir por mim mesmo o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, minha mente, n\u00e3o sabendo, precisa rejeitar tudo quanto ela conhece \u2013 o que significa que preciso p\u00f4r de lado o meu desejo de alcan\u00e7ar um estado. Porque o desejo de alcan\u00e7ar \u00e9 a raiz, a base, da minha busca de um m\u00e9todo. J\u00e1 conheci momentos de paz, de tranquilidade, e um sentido da \u201coutra coisa\u201d, e quero alcan\u00e7ar isso de novo, torn\u00e1-lo um estado permanente; ent\u00e3o, procuro o \u201ccomo\u201d. Penso que j\u00e1 sei o que \u00e9 o outro estado e que um m\u00e9todo me levar\u00e1 a ele. Mas, se j\u00e1 sei o que \u00e9 a outra coisa, ent\u00e3o essa coisa n\u00e3o \u00e9 verdadeira; \u00e9 somente uma proje\u00e7\u00e3o do meu desejo.<\/p><p>Minha mente, quando est\u00e1 realmente investigando o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o, compreende o desejo de alcan\u00e7ar, de chegar a um resultado, e, assim, fica livre dessas coisas. Portanto, ela descartou completamente toda autoridade, porque n\u00e3o sabemos o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o e ningu\u00e9m pode ensinar-nos. Minha mente est\u00e1 completamente num estado de \u201cn\u00e3o-saber\u201d; n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9todo nenhum, nenhuma ora\u00e7\u00e3o, nenhuma repeti\u00e7\u00e3o de palavras, nenhuma concentra\u00e7\u00e3o, pois ela sabe que a concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 outra forma de alcan\u00e7ar alguma coisa. A concentra\u00e7\u00e3o da mente numa determinada ideia, esperando assim treinar-se para avan\u00e7ar por meio de exclus\u00e3o, implica novamente um estado de \u201csaber\u201d. Ent\u00e3o, se eu n\u00e3o souber, todas essas coisas precisam desaparecer. J\u00e1 n\u00e3o penso em termos de alcan\u00e7ar, chegar. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 um sentimento de acumula\u00e7\u00e3o que me ajudar\u00e1 a alcan\u00e7ar a outra margem.<\/p><p>Assim, quando eu tiver feito isso, porventura n\u00e3o terei descoberto o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 conflito, n\u00e3o h\u00e1 luta; h\u00e1 um sentimento de n\u00e3o-acumula\u00e7\u00e3o \u2013 todo o tempo e n\u00e3o em um momento espec\u00edfico. Portanto, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo de completo desnudamento da mente, a purga\u00e7\u00e3o de todo sentimento de acumula\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia do ego, do \u201ceu\u201d. A pr\u00e1tica dos diversos m\u00e9todos s\u00f3 faz fortalecer esse \u201ceu\u201d. Voc\u00ea pode encobri-lo, pode embelez\u00e1-lo, refin\u00e1-lo, mas ele continua sendo o \u201ceu\u201d. Ent\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 o desnudamento dos caminhos do ego.<\/p><p>E voc\u00ea descobrir\u00e1, se puder aprofundar-se nisso, que nunca h\u00e1 um momento em que a medita\u00e7\u00e3o se torna um h\u00e1bito. Pois o h\u00e1bito implica acumula\u00e7\u00e3o, e, onde houver acumula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o processo do ego pedindo mais, exigindo mais acumula\u00e7\u00e3o. Tal medita\u00e7\u00e3o est\u00e1 dentro do campo do conhecido e n\u00e3o significa nada sen\u00e3o um meio de auto-hipnose.<\/p><p>A mente s\u00f3 consegue dizer \u201cEu n\u00e3o sei\u201d \u2013 realmente e n\u00e3o s\u00f3 verbalmente \u2013 quando tiver varrido de si, mediante percep\u00e7\u00e3o, mediante autoconhecimento, todo esse sentimento de acumula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 morrer para as pr\u00f3prias acumula\u00e7\u00f5es \u2013 e n\u00e3o alcan\u00e7ar um estado de sil\u00eancio, de quieta\u00e7\u00e3o. Enquanto a mente for capaz de acumular, haver\u00e1 sempre o desejo de mais. E o \u201cmais\u201d exige o sistema, o m\u00e9todo, o estabelecimento de autoridade \u2013 coisas que constituem os pr\u00f3prios caminhos do ego. Quando a mente tiver visto completamente a fal\u00e1cia disso, ent\u00e3o ela estar\u00e1 em constante estado de \u201cn\u00e3o-saber\u201d. Tal mente ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de receber aquilo que n\u00e3o pode ser mensurado e que s\u00f3 se manifesta de momento a momento.<\/p><p>26 de junho de 1955<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>6\u00aa\u00a0palestra em Londres Acho importante descobrir por n\u00f3s mesmos o que \u00e9 que estamos buscando e por que o estamos buscando. Se pudermos examinar isto em profundidade, penso que descobriremos muitas coisas a\u00ed implicadas. 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