{"id":1767,"date":"2022-12-18T16:52:29","date_gmt":"2022-12-18T16:52:29","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1767"},"modified":"2022-12-18T16:53:48","modified_gmt":"2022-12-18T16:53:48","slug":"25-06-1955","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1767","title":{"rendered":"25\/06\/1955"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1767\" class=\"elementor elementor-1767\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-5f3e1578 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"5f3e1578\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-114f1ea2\" data-id=\"114f1ea2\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4507a60d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"4507a60d\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>5\u00aa palestra em Londres<\/strong><\/p><p>Parece-me que um dos nossos problemas, entre tantos outros, \u00e9 a depend\u00eancia \u2013 dependermos das pessoas para nossa felicidade, dependermos da capacidade \u2013 depend\u00eancia que leva a mente a agarrar-se a alguma coisa. E a pergunta \u00e9: \u201cPode a mente algum dia ficar totalmente livre de todas as coisas das quais depende?\u201d Acho que esta \u00e9 uma pergunta fundamental, a qual devemos fazer-nos constantemente.<\/p><p>Obviamente, n\u00e3o estamos falando da depend\u00eancia superficial. Mas, em um n\u00edvel mais profundo, existe aquela exig\u00eancia psicol\u00f3gica de algum tipo de seguran\u00e7a, de algum m\u00e9todo que garanta \u00e0 mente um estado de perman\u00eancia; existe a busca de uma ideia, de um relacionamento que seja duradouro. Como este \u00e9 um dos nossos maiores problemas, parece-me muito importante examin\u00e1-lo bem a fundo, em vez de responder superficialmente com uma rea\u00e7\u00e3o imediatista.<\/p><p>Por que dependemos? Psicologicamente, interiormente, dependemos de uma cren\u00e7a, de um sistema, de uma filosofia. Solicitamos de outra pessoa um modo de nos conduzirmos; procuramos mestres que nos proporcionem um modo de vida que nos leve a ter alguma esperan\u00e7a, alguma felicidade. Portanto, estamos sempre em busca de algum tipo de depend\u00eancia, de seguran\u00e7a. Ser\u00e1 poss\u00edvel que a mente, algum dia, fique livre desse sentimento de depend\u00eancia? O que n\u00e3o significa que a mente precise alcan\u00e7ar independ\u00eancia \u2013 isso seria apenas rea\u00e7\u00e3o \u00e0 depend\u00eancia. N\u00e3o estamos falando de independ\u00eancia, de nos libertarmos de determinado estado. Se pudermos investigar sem a rea\u00e7\u00e3o de buscar livrar-nos de dado estado de depend\u00eancia, ent\u00e3o podemos aprofundar-nos muito mais na quest\u00e3o. Mas, se nos desviarmos do essencial em busca de independ\u00eancia, n\u00e3o compreenderemos toda essa quest\u00e3o da depend\u00eancia psicol\u00f3gica da qual estamos falando.<\/p><p>Sabemos que dependemos \u2013 de nossas rela\u00e7\u00f5es com pessoas ou de alguma ideia ou sistema de pensamento. Por qu\u00ea? Aceitamos a necessidade da depend\u00eancia; dizemos que \u00e9 inevit\u00e1vel. N\u00f3s ainda n\u00e3o questionamos a coisa toda, n\u00e3o nos perguntamos por que cada um de n\u00f3s busca algum tipo de depend\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 que realmente, bem no fundo, queremos seguran\u00e7a, perman\u00eancia? Estando em um estado de confus\u00e3o, queremos que algu\u00e9m nos tire dessa confus\u00e3o. Assim, estamos sempre interessados em como fugir do estado em que nos encontramos. No processo de evitar tal estado, \u00e9 prov\u00e1vel que criemos algum tipo de depend\u00eancia, a qual se torna nossa autoridade. Se dependermos de outra pessoa para a nossa seguran\u00e7a, para o nosso bem-estar interior, dessa depend\u00eancia decorrem in\u00fameros problemas; e, ent\u00e3o, procuramos resolver esses problemas, os problemas do apego. Mas nunca questionamos, nunca investigamos o problema da depend\u00eancia em si. Talvez, se pudermos investigar esse problema com real intelig\u00eancia e completa aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o poderemos descobrir que a depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9, de modo algum, a quest\u00e3o \u2013 que a depend\u00eancia \u00e9 s\u00f3 um modo de fugir de um fato mais profundo.<\/p><p>Posso sugerir que aqueles que est\u00e3o tomando notas evitem faz\u00ea-lo? Porque estas reuni\u00f5es n\u00e3o ter\u00e3o valor algum se voc\u00eas estiverem apenas tentando lembrar-se do que \u00e9 dito, para uso posterior. Mas, se pudermos experimentar diretamente o que est\u00e1 sendo dito agora, n\u00e3o depois, ent\u00e3o isso ter\u00e1 import\u00e2ncia; ser\u00e1 uma experi\u00eancia direta e n\u00e3o uma experi\u00eancia a ser coligida mais tarde por meio de suas notas e repensada na mem\u00f3ria. Al\u00e9m disso, se me permitem diz\u00ea-lo, tomar notas perturba os outros ao redor de voc\u00eas.<\/p><p>Como estava dizendo, por que dependemos e fazemos da depend\u00eancia um problema? Realmente, n\u00e3o penso que a depend\u00eancia seja um problema; acho que h\u00e1 algum outro fator mais profundo que nos torna dependentes. Se pudermos garimpar isso, ent\u00e3o tanto a depend\u00eancia quanto a luta por liberdade ter\u00e3o muito pouco significado; ent\u00e3o todos os problemas decorrentes da depend\u00eancia desaparecer\u00e3o. Ent\u00e3o, qual \u00e9 a quest\u00e3o mais profunda?A quest\u00e3o n\u00e3o seria que a mente abomina, teme, a ideia de ficar sozinha? E ser\u00e1 que a mente conhece esse estado que tanto evita? Dependo de algu\u00e9m, psicologicamente, interiormente, por causa de um estado que estou tentando evitar, mas que jamais penetrei, jamais examinei. Assim, minha depend\u00eancia de uma pessoa \u2013 para receber amor, encorajamento, orienta\u00e7\u00e3o \u2013 torna-se imensamente importante, assim como todos os muitos problemas da\u00ed decorrentes. Ao passo que, se sou capaz de encarar o fator que est\u00e1 me tornando dependente \u2013 de uma pessoa, de Deus, de uma ora\u00e7\u00e3o, de alguma capacidade, de alguma f\u00f3rmula ou conclus\u00e3o que chamo de cren\u00e7a \u2013 ent\u00e3o talvez eu possa descobrir que tal depend\u00eancia resulta de uma exig\u00eancia interior para a qual jamais olhei realmente, jamais levei em considera\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Podemos, esta noite, examinar esse fator? \u2013 o fator que a mente evita, esse sentimento de completa solid\u00e3o com o qual estamos superficialmente familiarizados. O que \u00e9 estar s\u00f3?Podemos discutir isso agora e atermo-nos a essa quest\u00e3o, n\u00e3o introduzindo nenhum outro problema?<\/p><p>Acho isso realmente muito importante. Porque, enquanto essa solid\u00e3o n\u00e3o for realmente compreendida, sentida, penetrada, dissolvida \u2013 qualquer que seja a palavra do seu agrado \u2013 enquanto esse sentimento de solid\u00e3o persistir, a depend\u00eancia ser\u00e1 inevit\u00e1vel, e a pessoa jamais poder\u00e1 ser livre; jamais poder\u00e1 descobrir por si mesma o que \u00e9 verdadeiro, o que \u00e9 religi\u00e3o. Enquanto eu depender, precisa haver autoridade, precisa haver imita\u00e7\u00e3o, precisa haver v\u00e1rias formas de compuls\u00e3o, imposi\u00e7\u00e3o e disciplina de acordo com certo padr\u00e3o. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que minha mente pode descobrir o que \u00e9 estar s\u00f3 e passar al\u00e9m? \u2013 de modo que a mente seja libertada totalmente e, assim, n\u00e3o dependa de cren\u00e7as, de deuses, de sistemas, de ora\u00e7\u00f5es, ou de qualquer outra coisa.<\/p><p>Certamente,enquanto estivermos buscando um resultado, um fim, um ideal, essa mesma \u00e2nsia de descobrir cria depend\u00eancia, da qual decorrem os problemas da inveja, da exclus\u00e3o, do isolamento, e tudo o mais. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a minha mente pode conhecer a solid\u00e3o no que ela realmente \u00e9, embora eu possa encobri-la com conhecimento, com relacionamento, com entretenimento, e v\u00e1rias outras formas de distra\u00e7\u00e3o? Posso realmente compreender essa solid\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 ela um dos nossos principais problemas, esse apego e a luta para desapegar-nos? Podemos discutir isso exaustivamente, ou tamb\u00e9m isso \u00e9 imposs\u00edvel?<\/p><p>Enquanto houver apego, depend\u00eancia, precisa haver exclus\u00e3o. Depender da nacionalidade, identificar-se com algum grupo, com alguma ra\u00e7a, com determinada pessoa ou cren\u00e7a, obviamente causa separa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o pode ser que a mente esteja constantemente buscando exclus\u00e3o na qualidade de entidade isolada e esteja evitando uma quest\u00e3o mais profunda que realmente causa separa\u00e7\u00e3o: o processo autoenclausurante do seu pr\u00f3prio pensamento, que engendra solid\u00e3o. Voc\u00eas conhecem o sentimento de precisar identificar-se como hindu, como crist\u00e3o, como pertencente a certa casta, grupo, ra\u00e7a \u2013 voc\u00eas conhecem tudo isso. Se pudermos compreender, cada um de n\u00f3s, a quest\u00e3o mais profunda aqui implicada, ent\u00e3o talvez todas as influ\u00eancias geradoras de depend\u00eancia cheguem ao fim e a mente fique completamente livre.<\/p><p>Acham que talvez isso seja um problema dif\u00edcil demais para ser discutido em um grupo t\u00e3o numeroso?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O senhor poderia definir a palavra \u201cs\u00f3\u201d em contraste com \u201csolid\u00e3o\u201d?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Por favor, certamente n\u00e3o estamos buscando defini\u00e7\u00f5es, estamos? Estamos perguntando se cada um de n\u00f3s est\u00e1 c\u00f4nscio de sua solid\u00e3o \u2013 n\u00e3o agora, talvez, mas conhecemos esse estado e sabemos que estamos fugindo dele mediante uma variedade de meios e, destarte, multiplicando nossos problemas. Posso, mediante percebimento, eliminar a raiz do problema de modo que ele jamais reapare\u00e7a, ou, se o fizer, eu saiba como lidar com ele sem causar novos problemas?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Isso significa que tenho de romper la\u00e7os insatisfat\u00f3rios?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Certamente isso n\u00e3o \u00e9 o que estamos discutindo, n\u00e3o \u00e9 verdade? Acho que n\u00e3o estamos acompanhando um ao outro. E, por isso, estou hesitante quanto a ser poss\u00edvel discutir esse problema em um grupo t\u00e3o grande.<\/p><p>Sabemos \u2013 n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2013 que somos apegados. Dependemos de pessoas, de ideias. \u00c9 parte da nossa natureza, do nosso ser, depender de algu\u00e9m. E essa depend\u00eancia \u00e9 chamada de amor. Agora me pergunto, e talvez voc\u00eas mesmos estejam se perguntando, se \u00e9 poss\u00edvel libertar a mente \u2013 psicologicamente, interiormente \u2013 de toda depend\u00eancia. Porque vejo que, da depend\u00eancia, decorrem muitos e muitos problemas \u2013 nunca h\u00e1 um fim para eles. Portanto, pergunto-me se \u00e9 poss\u00edvel ficar de tal modo atento que a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o elimine totalmente este sentimento de depender de outra pessoa, ou de uma ideia, de modo que a mente j\u00e1 n\u00e3o seja excludente, isolada, porque a exig\u00eancia de depend\u00eancia ter\u00e1 cessado totalmente.<\/p><p>Por exemplo, dependo da identifica\u00e7\u00e3o com determinado grupo; satisfaz-me chamar-me de hindu ou crist\u00e3o; pertencer a dada nacionalidade d\u00e1-me muita satisfa\u00e7\u00e3o. Em mim mesmo, sinto-me nanico. Sou um z\u00e9-ningu\u00e9m, e chamar-me de alguma coisa me d\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma forma de depend\u00eancia em um n\u00edvel muito superficial talvez, mas engendra a pe\u00e7onha do nacionalismo. E h\u00e1 tantas outras formas mais profundas de depend\u00eancia. Posso ir al\u00e9m de tudo isso de modo que a mente jamais dependa psicologicamente, de modo que ela n\u00e3o tenha depend\u00eancia alguma e n\u00e3o busque nenhuma forma de seguran\u00e7a? Ela n\u00e3o buscar\u00e1 seguran\u00e7a se eu puder compreender este sentimento de extraordin\u00e1ria exclus\u00e3o, do qual estou c\u00f4nscio e o qual denomino solid\u00e3o \u2013 este processo autoenclausurante de pensar que engendra isolamento.<\/p><p>Assim, o problema n\u00e3o \u00e9 como desapegar-me, como libertar-me de pessoas ou ideias, mas, sim, se a mente consegue interromper este processo de enclausurar-se em suas pr\u00f3prias atividades, em suas exig\u00eancias, em suas \u00e2nsias. Enquanto houver a ideia de \u201ceu\u201d, precisa haver solid\u00e3o. A ess\u00eancia mesma, o derradeiro processo de autoenclausuramento, \u00e9 a descoberta deste extraordin\u00e1rio sentimento de solid\u00e3o. Ser\u00e1 que consigo eliminar isso, de modo que a mente jamais busque forma alguma de seguran\u00e7a, jamais fa\u00e7a exig\u00eancias?<\/p><p>A resposta s\u00f3 poder ser dada por cada um n\u00f3s, n\u00e3o por mim. S\u00f3 posso descrever, mas a descri\u00e7\u00e3o torna-se apenas um obst\u00e1culo se n\u00e3o for realmente experimentada. Mas, se ela revelar o processo do seu pensamento, ent\u00e3o essa pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o de voc\u00ea mesmo e do seu estado. Ent\u00e3o, posso permanecer nesse estado? Posso n\u00e3o mais desviar-me do fato da minha solid\u00e3o, mas permanecer a\u00ed sem fuga alguma, sem evitar a solid\u00e3o? Ver, compreender essa depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o problema, mas a solid\u00e3o o \u00e9; poderia minha mente permanecer sem movimento algum nesse estado que chamei de solid\u00e3o? \u00c9 extraordinariamente dif\u00edcil porque a mente nunca consegue ficar com um fato; ela o traduz, interpreta-o, ou faz algo a respeito do fato; ela jamais fica com o fato.<\/p><p>Agora, se a mente consegue permanecer com o fato sem dar opini\u00e3o nenhuma sobre o fato, sem traduzir, sem condenar, sem evitar o fato, ent\u00e3o o fato \u00e9 diferente da mente? H\u00e1 uma divis\u00e3o entre o fato e a mente, ou \u00e9 a mente, ela mesma, o fato? Por exemplo, estou solit\u00e1rio. Estou c\u00f4nscio disso, sei o que significa; \u00e9 um dos problemas da nossa exist\u00eancia di\u00e1ria, de toda a nossa exist\u00eancia. E quero enfrentar por mim mesmo essa quest\u00e3o da depend\u00eancia e ver se a mente pode realmente ser livre \u2013 n\u00e3o s\u00f3 especulativamente, ou teoricamente, ou filosoficamente, mas realmente ser livre da depend\u00eancia. Porque, se dependo de outra pessoa para ter amor, isso n\u00e3o \u00e9 amor. E quero descobrir o que \u00e9 o estado que chamamos de amor. Na tentativa de descobri-lo, obviamente toda a sensa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, seguran\u00e7a no relacionamento, toda a sensa\u00e7\u00e3o de exig\u00eancia, desejo de perman\u00eancia, tudo isso pode desaparecer, e posso ter de encarar coisa inteiramente diferente. Assim, no investigar, no entrar em mim mesmo, posso dar com essa coisa chamada solid\u00e3o. E posso permanecer com ela? Com \u201cpermanecer\u201d, quero dizer n\u00e3o interpretar, n\u00e3o avaliar, n\u00e3o condenar, mas s\u00f3 observar esse estado de solid\u00e3o, sem recuar. Ent\u00e3o, se a minha mente puder permanecer com esse estado, \u00e9 esse estado diferente da minha mente? Pode ser que minha mente seja, ela mesma, solit\u00e1ria, vazia, e n\u00e3o que exista um estado de vazio que a minha mente observe.<\/p><p>Minha mente observa a solid\u00e3o e a evita, foge dela. Mas, se eu n\u00e3o fugir dela, h\u00e1 uma divis\u00e3o, h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um observador observando a solid\u00e3o? Ou s\u00f3 h\u00e1 um estado de solid\u00e3o, minha pr\u00f3pria mente estando vazia, solit\u00e1ria? \u2013 e n\u00e3o que haja um observador que saiba que h\u00e1 solid\u00e3o.<\/p><p>Acho importante compreender isso \u2013 rapidamente, n\u00e3o verbalizando demais. Agora dizemos: \u201cSou invejoso e quero ficar livre da inveja\u201d; assim, h\u00e1 um observador e a coisa observada; o observador quer livrar-se daquilo que ele observa. Mas, o observador n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a coisa observada? A pr\u00f3pria mente criou a inveja e, assim, a mente n\u00e3o pode fazer nada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inveja.<\/p><p>Portanto, minha mente observa a solid\u00e3o; o pensador tem consci\u00eancia de estar solit\u00e1rio. Mas, ficando com a solid\u00e3o, ficando em contato pleno com ela \u2013 isto \u00e9, n\u00e3o fugindo dela, n\u00e3o a traduzindo e tudo o mais \u2013 ent\u00e3o, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o observador e o observado? Ou s\u00f3 h\u00e1 um estado, isto \u00e9, a pr\u00f3pria mente est\u00e1 solit\u00e1ria, vazia? N\u00e3o que a mente observe-se como estando vazia, mas a pr\u00f3pria mente est\u00e1 vazia. Ent\u00e3o, poderia a mente, estando c\u00f4nscia de que ela mesma est\u00e1 vazia, e de que, fa\u00e7a o que fizer, qualquer movimento para longe desse vazio \u00e9 meramente uma fuga, uma depend\u00eancia \u2013 poderia a mente abandonar toda depend\u00eancia e ser o que ela \u00e9, completamente vazia, completamente solit\u00e1ria? E, se ela estiver nesse estado, n\u00e3o estar\u00e1 livre de toda depend\u00eancia, de todo apego? Por favor, isto \u00e9 algo que precisa ser investigado a fundo, em vez de aceito meramente porque eu o estou dizendo. N\u00e3o tem significa\u00e7\u00e3o alguma se voc\u00ea meramente o aceita. Mas, se voc\u00ea est\u00e1 experimentando a coisa enquanto prosseguimos, ent\u00e3o ver\u00e1 que qualquer movimento de parte da mente \u2013 movimento sendo avalia\u00e7\u00e3o, condena\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o, etc. \u2013 \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o do fato de \u201co que \u00e9\u201d, e, assim, cria um conflito entre esse movimento e a coisa observada.<\/p><p>Para ir mais adiante, essa \u00e9 realmente uma quest\u00e3o de saber se a mente pode estar isenta de esfor\u00e7o, de dualidade, de conflito, e, assim, ser livre. No momento em que a mente entra em conflito, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 livre. Quando n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o para ser, ent\u00e3o h\u00e1 liberdade. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a mente pode ser isenta de esfor\u00e7o e, portanto, livre?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Agora consigo aceitar meus pr\u00f3prios problemas. Mas, como posso deixar de sofrer pelos meus filhos quando s\u00e3o afetados pelos mesmos problemas?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Por que somos apegados a nossos filhos? E, tamb\u00e9m, ser\u00e1 que amamos os nossos filhos? Se for amor, ent\u00e3o como pode haver apego, como pode haver sofrimento? Nossa ideia de amor consiste em sofrer pelos outros. \u00c9 o amor que sofre? Ou a verdade \u00e9 que dependo dos meus filhos, que, por meio deles, estou buscando imortalidade, realiza\u00e7\u00e3o e tudo o mais? Ent\u00e3o, quero que meus filhos sejam alguma coisa e, quando n\u00e3o o s\u00e3o, eu sofro. O problema pode n\u00e3o ser as crian\u00e7as; o problema pode ser eu. De novo estamos de volta \u00e0 mesma coisa \u2013 talvez n\u00e3o saibamos o que \u00e9 amar. Se am\u00e1ssemos nossos filhos, parar\u00edamos todas a guerras amanh\u00e3, obviamente. N\u00e3o condicionar\u00edamos nossos filhos. Eles n\u00e3o seriam ingleses, hindus, br\u00e2manes e n\u00e3o-br\u00e2manes; eles seriam crian\u00e7as.<\/p><p>Mas n\u00f3s n\u00e3o amamos, e, assim, somos apegados aos nossos filhos; por meio deles, esperamos realizar-nos. Assim, quando a crian\u00e7a por meio da qual vamos nos realizar, faz algo que n\u00e3o seja aquilo que exigimos, ent\u00e3o h\u00e1 tristeza, ent\u00e3o h\u00e1 conflito.<\/p><p>Simplesmente fazer uma pergunta e esperar por uma resposta tem muito pouca significa\u00e7\u00e3o. Mas se pudermos observar por n\u00f3s mesmos o processo desse apego, o processo de buscar realiza\u00e7\u00e3o por meio de outra pessoa, coisa que \u00e9 depend\u00eancia e que necessariamente cria sofrimento \u2013 se pudermos ver isso como um fato por n\u00f3s mesmos, ent\u00e3o pode haver algo mais, talvez amor. Ent\u00e3o essa rela\u00e7\u00e3o produzir\u00e1 um sociedade bem diferente, um mundo bem diferente.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Quando se tem atingido o est\u00e1gio de mente tranquila e n\u00e3o se tem problema imediato, o que \u00e9 que procede dessa tranquilidade?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Pergunta deveras extraordin\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Voc\u00ea parte do pressuposto de que j\u00e1 alcan\u00e7ou essa mente tranquila, e quer saber o que acontece a seguir. No entanto, ter uma mente tranquila \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis. Teoricamente, \u00e9 a mais f\u00e1cil, mas, de fato, \u00e9 um dos estados mais extraordin\u00e1rios, que n\u00e3o se pode descrever. O que acontece voc\u00ea descobrir\u00e1 quando chegar a esse estado. Mas chegar a ele \u00e9 que \u00e9 o problema, e n\u00e3o o que vem a seguir.<\/p><p>Voc\u00ea n\u00e3o pode chegar a esse estado. Ele n\u00e3o \u00e9 um processo. N\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea vai alcan\u00e7ar mediante determinada pr\u00e1tica. Esse estado n\u00e3o pode ser comprado com a moeda do tempo, com o conhecimento, com a disciplina, mas somente com a compreens\u00e3o do conhecimento, com a compreens\u00e3o do inteiro processo da disciplina, com a compreens\u00e3o do inteiro processo do pr\u00f3prio pensamento, e n\u00e3o tentando alcan\u00e7ar um resultado. Ent\u00e3o, talvez, essa tranquilidade venha a existir. O que acontece depois \u00e9 indescrit\u00edvel; o que acontece depois n\u00e3o tem palavra e n\u00e3o tem \u201csignificado\u201d.<\/p><p>Cada experi\u00eancia, enquanto houver um experimentador, deixa uma lembran\u00e7a, uma cicatriz. E a essa lembran\u00e7a a mente se agarra e quer mais, criando, com isso, tempo. Mas o estado de tranquilidade \u00e9 atemporal; portanto, n\u00e3o h\u00e1 experimentador para experimentar essa tranquilidade.<\/p><p>Por favor, se voc\u00ea quiser compreend\u00ea-lo, isto \u00e9 muito importante. Enquanto houver um experimentador que diga \u201cPreciso experimentar a tranquilidade\u201d, e conhe\u00e7a a experi\u00eancia, ent\u00e3o isso n\u00e3o \u00e9 tranquilidade; \u00e9 um truque da mente. Quando algu\u00e9m diz \u201cExperimentei a tranquilidade\u201d, isso \u00e9 apenas uma fuga \u00e0 confus\u00e3o, ao conflito \u2013 \u00e9 s\u00f3 isso. A tranquilidade da qual estamos falando \u00e9 algo totalmente diferente. Por isso \u00e9 muito importante compreender o pensador, o experimentador, o \u201ceu\u201d que exige um estado que ele chama de tranquilidade. Voc\u00ea pode ter um momento de tranquilidade, mas, quando isso acontece, a mente aferra-se a ele e vive naquela tranquilidade da mem\u00f3ria. Isso n\u00e3o \u00e9 tranquilidade; \u00e9 s\u00f3 uma rea\u00e7\u00e3o. O que estamos falando \u00e9 algo inteiramente diferente. \u00c9 um estado em que n\u00e3o h\u00e1 experimentador, e, portanto, tal sil\u00eancio, tal quietude, n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia. Se houver uma entidade que se lembre desse estado, ent\u00e3o h\u00e1 um experimentador; portanto, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esse estado.<\/p><p>Isto significa, realmente, morrer para cada experi\u00eancia, sem jamais juntar, acumular. Afinal, \u00e9 essa acumula\u00e7\u00e3o que d\u00e1 origem a conflitos, ao desejo de ter mais. Uma mente que esteja acumulando, gananciosa, jamais pode morrer para tudo que acumulou. S\u00f3 a mente que morreu para tudo que acumulou, at\u00e9 mesmo para sua mais sublime experi\u00eancia \u2013 s\u00f3 tal mente pode saber o que \u00e9 esse sil\u00eancio. Mas esse estado n\u00e3o pode vir por meio de disciplina, pois disciplina implica a continua\u00e7\u00e3o do experimentador, o fortalecimento de determinada inten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a determinado objeto, dando, assim, continuidade ao experimentador.<\/p><p>Se virmos isso com muita simplicidade, muita clareza, ent\u00e3o descobriremos o sil\u00eancio da mente do qual estamos falando. O que acontece depois disso \u00e9 algo que n\u00e3o pode ser dito, que n\u00e3o pode ser descrito, porque n\u00e3o tem \u201csignificado\u201d \u2013 exceto em livros e em filosofia.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Se n\u00e3o tivermos experimentado essa completa tranquilidade, como podemos saber que existe?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Por que queremos saber se ela existe? Pode ser que nem exista; pode ser uma ilus\u00e3o, uma fantasia. Mas pode-se ver que, enquanto houver conflito, a vida \u00e9 uma mis\u00e9ria. Compreendendo o conflito, saberei o que a outra coisa significa. Ela pode ser uma ilus\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o, um truque da mente \u2013 mas, compreendendo o inteiro significado do conflito, posso encontrar algo totalmente diferente.<\/p><p>Minha mente est\u00e1 interessada no conflito dentro e fora de si mesma. O conflito \u00e9 inevit\u00e1vel enquanto houver um experimentador que esteja acumulando, que esteja juntando, e, portanto, sempre pensando em termos de tempo, de \u201cmais\u201d e de \u201cmenos\u201d. Compreendendo isso, ficando c\u00f4nscio disso, pode ser que surja um estado que pode ser chamado de sil\u00eancio \u2013 ou o nome que voc\u00ea desejar. Mas o processo n\u00e3o \u00e9 a busca do sil\u00eancio, da tranquilidade, mas sim a compreens\u00e3o do conflito, a compreens\u00e3o de mim mesmo em conflito.<\/p><p>Pergunto-me se respondi \u00e0 pergunta \u2013 a qual \u00e9 \u201cComo sei que existe sil\u00eancio?\u201d Como reconhe\u00e7o o sil\u00eancio? Compreende? Enquanto houver um processo de reconhecimento, n\u00e3o haver\u00e1 sil\u00eancio.<\/p><p>Afinal, o processo de reconhecimento \u00e9 o processo da mente condicionada. Entretanto, compreendendo o inteiro conte\u00fado da mente condicionada, a pr\u00f3pria mente fica quieta, n\u00e3o h\u00e1 observador para reconhecer que ele est\u00e1 num estado que ele pr\u00f3prio chama de sil\u00eancio. Cessou o reconhecimento da experi\u00eancia.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Gostaria de perguntar se o senhor reconhece o ensinamento do Buda de que a correta compreens\u00e3o ajudar\u00e1 a resolver os problemas \u00edntimos do homem, e de que a paz interior da mente depende inteiramente da autodisciplina. O senhor concorda com os ensinamentos do Buda?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Se algu\u00e9m estiver investigando para descobrir a verdade sobre qualquer coisa, toda autoridade precisa ser posta de lado, certamente. N\u00e3o h\u00e1 nem Buda nem Cristo quando a pessoa deseja encontrar o que \u00e9 verdadeiro. O que significa, realmente, que a mente deve ser capaz de ficar completamente s\u00f3, e n\u00e3o dependente. O Buda pode estar errado, o Cristo pode estar errado, e a pr\u00f3pria pessoa pode estar errada. Certamente, a pessoa precisa chegar ao estado de n\u00e3o aceitar autoridade de nenhum tipo. Essa \u00e9 a primeira coisa \u2013 desmantelar a estrutura de autoridade. Ao se desmantelar a imensa estrutura de tradi\u00e7\u00e3o, esse mesmo processo engendra compreens\u00e3o. Mas, tem muito pouco significado aceitar alguma coisa simplesmente porque foi dita em um livro sagrado.<\/p><p>Certamente, para encontrar aquilo que est\u00e1 al\u00e9m do tempo, todo o processo do tempo precisa cessar, n\u00e3o \u00e9 verdade? O pr\u00f3prio processo de busca precisa findar. Porque, se eu estiver buscando, ent\u00e3o dependo \u2013 n\u00e3o s\u00f3 de outra pessoa, mas tamb\u00e9m da minha experi\u00eancia, pois, se eu tiver aprendido algo, tento us\u00e1-lo para guiar-me. Para descobrir o que \u00e9 verdadeiro, \u00e9 preciso n\u00e3o haver busca de nenhum tipo \u2013 e esta \u00e9 a verdadeira tranquilidade da mente.<\/p><p>\u00c9 muito dif\u00edcil, para uma pessoa criada em determinada cultura, em determinada cren\u00e7a, com certos s\u00edmbolos de grande autoridade, abandonar tudo isso e simplesmente pensar por si mesma e descobrir. Ela n\u00e3o pode pensar de modo simples, se n\u00e3o conhecer a si mesma, se n\u00e3o tiver autoconhecimento. E ningu\u00e9m pode dar-nos autoconhecimento \u2013 nenhum professor, nenhum livro, nenhuma filosofia, nenhuma disciplina. O \u201ceu\u201d est\u00e1 em constante movimento; enquanto ele vive, precisa ser compreendido. E s\u00f3 mediante o autoconhecimento, compreens\u00e3o do processo do meu pr\u00f3prio pensar, observado no espelho de cada rea\u00e7\u00e3o, descubro que, enquanto houver qualquer movimento do \u201ceu\u201d, da mente, em dire\u00e7\u00e3o a alguma coisa \u2013 em dire\u00e7\u00e3o a Deus, \u00e0 verdade, \u00e0 paz \u2013 ent\u00e3o tal mente n\u00e3o \u00e9 uma mente tranquila; ela continua querendo alcan\u00e7ar, agarrar, chegar a algum estado. Se houver qualquer forma de autoridade, qualquer compuls\u00e3o, qualquer imita\u00e7\u00e3o, a mente n\u00e3o consegue compreender. E saber que a mente imita, saber que ela est\u00e1 aleijada pela tradi\u00e7\u00e3o, estar c\u00f4nscio de que ela est\u00e1 perseguindo suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, suas pr\u00f3prias proje\u00e7\u00f5es \u2013 isso exige muito insight, muita percep\u00e7\u00e3o, muito autoconhecimento.<\/p><p>S\u00f3 ent\u00e3o, com todo o conte\u00fado da mente, com a totalidade da consci\u00eancia posta a descoberto e compreendida, h\u00e1 possibilidade de um estado que possa ser chamado de tranquilidade \u2013 no qual n\u00e3o haja experimentador, n\u00e3o haja reconhecimento.<\/p><p>25 de junho de 1955.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>5\u00aa palestra em Londres Parece-me que um dos nossos problemas, entre tantos outros, \u00e9 a depend\u00eancia \u2013 dependermos das pessoas para nossa felicidade, dependermos da capacidade \u2013 depend\u00eancia que leva a mente a agarrar-se a alguma coisa. 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