{"id":1756,"date":"2022-12-18T16:50:29","date_gmt":"2022-12-18T16:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1756"},"modified":"2022-12-18T16:51:40","modified_gmt":"2022-12-18T16:51:40","slug":"24-06-1955","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1756","title":{"rendered":"24\/06\/1955"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1756\" class=\"elementor elementor-1756\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-77df20e3 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"77df20e3\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-6c17694a\" data-id=\"6c17694a\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3b0a32d1 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3b0a32d1\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>4\u00aa palestra em Londres<\/strong><\/p><p>Parece-me que um dos problemas mais dif\u00edceis \u00e9 a quest\u00e3o de como realizarmos uma mudan\u00e7a fundamental em n\u00f3s mesmos. Costumamos pensar que a transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 importante, mas que dev\u00edamos, em vez disso, preocupar-nos com as massas, com o todo. Acho que isso \u00e9 uma ideia deveras err\u00f4nea. Acho que a transforma\u00e7\u00e3o precisa come\u00e7ar pelo indiv\u00edduo \u2013 se \u00e9 que existe uma entidade individual. Precisa haver uma mudan\u00e7a fundamental em voc\u00ea e em mim.<\/p><p>Pode-se ver que qualquer mudan\u00e7a consciente n\u00e3o \u00e9 mudan\u00e7a nenhuma. O processo deliberado de fazer melhorias, o cultivo deliberado de determinado padr\u00e3o ou forma de a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o produz nenhuma mudan\u00e7a real, pois \u00e9 meramente uma proje\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio desejo da pessoa, seu background, como uma rea\u00e7\u00e3o. Entretanto, estamos, a maioria de n\u00f3s, interessados nesta quest\u00e3o da mudan\u00e7a, pois estamos tateando, estamos confusos. E aqueles dentre n\u00f3s que s\u00e3o dados a seriedade, precisam investigar de modo vital essa quest\u00e3o de como produzir uma mudan\u00e7a em n\u00f3s mesmos. A dificuldade, quer-me parecer, est\u00e1 em compreender o fato de que qualquer forma de mudan\u00e7a na mente condicionada s\u00f3 resulta em condicionamento diferente, n\u00e3o em uma transforma\u00e7\u00e3o. Se eu, como hindu, ou crist\u00e3o, ou seja o que for, tentar mudar dentro desse padr\u00e3o, essa mudan\u00e7a n\u00e3o ser\u00e1 de modo algum real; ser\u00e1 apenas, talvez, um condicionamento aparentemente melhor, mais conveniente, mais adaptativo, por\u00e9m, fundamentalmente, n\u00e3o ser\u00e1 uma mudan\u00e7a. Acho que uma das maiores dificuldades que temos \u00e9 que pensamos poder mudar dentro do padr\u00e3o. Ao passo que, certamente, para uma mente que \u00e9 condicionada pela sociedade, por qualquer forma de cultura, realizar uma mudan\u00e7a consciente dentro do padr\u00e3o \u00e9 ainda um processo de condicionamento. Se isso estiver bem claro, ent\u00e3o acho que a nossa investiga\u00e7\u00e3o para descobrir o que \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o, como \u00e9 poss\u00edvel realizar uma mudan\u00e7a radical em n\u00f3s mesmos, torna-se quest\u00e3o muito interessante e vital. Pois a cultura \u2013 isto \u00e9, a sociedade em torno de n\u00f3s \u2013 jamais produzir\u00e1 um homem religioso; ela pode engendrar \u201creligi\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o pode produzir um homem religioso.<\/p><p>Agora, se eu puder fazer uma digress\u00e3o \u2013 a maioria de n\u00f3s tem uma forte rea\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra religi\u00e3o. Alguns gostam dela; a pr\u00f3pria palavra d\u00e1-lhes um senso de satisfa\u00e7\u00e3o emocional; outros s\u00e3o repelidos pela palavra. Mas eu acho importante descobrir como escutar verdadeiramente aquilo que est\u00e1 sendo dito. Como \u00e9 que a pessoa escuta? Voc\u00ea escuta a palavra religi\u00e3o e, ou voc\u00ea gosta dela ou tem-lhe avers\u00e3o. Essa mesma palavra age como uma barreira \u00e0 maior compreens\u00e3o, \u00e0 melhor explora\u00e7\u00e3o, porque a pessoa reage a ela. Pode-se escutar sem essa rea\u00e7\u00e3o? Porque, se pudermos escutar sem rea\u00e7\u00e3o alguma, sem nossos preconceitos, nossas peculiaridades, nossas idiossincrasias, sem a interfer\u00eancia das nossas cren\u00e7as, ent\u00e3o acho que podemos ir muito longe. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil colocar de lado nossos preconceitos e prestar total aten\u00e7\u00e3o a algo que est\u00e1 sendo dito. A aten\u00e7\u00e3o se torna estreita, excludente, quando est\u00e1 concentrada apenas em determinada ideia. A maioria de n\u00f3s tem ideias, certos preconceitos, e, enquanto pensarmos ao longo dessas linhas, podemos estar prestando aten\u00e7\u00e3o, mas ela ser\u00e1 realmente apenas uma forma de exclus\u00e3o \u2013 coisa que n\u00e3o \u00e9, de modo algum, aten\u00e7\u00e3o.<\/p><p>O que estou sugerindo \u00e9 que, para realmente escutar, \u00e9 preciso estar c\u00f4nscio dos pr\u00f3prios preconceitos, das pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es emocionais e neurol\u00f3gicas a determinada palavra \u2013 como Deus, religi\u00e3o, amor, e coisas assim \u2013 e p\u00f4r de lado essas rea\u00e7\u00f5es. Se a pessoa puder escutar desse modo, muito atentamente, n\u00e3o procurando nenhuma ideia que possa estar de acordo com a nossa, ou uma que esteja em discord\u00e2ncia com a nossa, ent\u00e3o penso que estas palestras valer\u00e3o a pena.<\/p><p>Ent\u00e3o, como eu estava dizendo, a cultura s\u00f3 pode produzir religi\u00f5es, jamais um homem religioso. E acho que s\u00f3 o homem religioso pode realmente realizar uma mudan\u00e7a radical em si mesmo. Qualquer mudan\u00e7a, qualquer altera\u00e7\u00e3o dentro da mente condicionada em dada cultura, n\u00e3o \u00e9, de modo algum, mudan\u00e7a real; \u00e9 somente continua\u00e7\u00e3o da mesma coisa, por\u00e9m modificada. Penso ser bastante \u00f3bvio \u2013 se se pensar no assunto \u2013 que, enquanto eu tiver o padr\u00e3o de um hindu, crist\u00e3o, budista ou o que for, qualquer mudan\u00e7a que eu fizer dentro desse padr\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a consciente, \u00e9 ainda parte do padr\u00e3o e, portanto, n\u00e3o \u00e9 mudan\u00e7a nenhuma. Ent\u00e3o, surge a pergunta: \u201cPosso realizar uma mudan\u00e7a por meio do inconsciente?\u201dNoutras palavras, ou eu come\u00e7o conscientemente a mudar o padr\u00e3o da minha vida, o modo como penso, para eliminar conscientemente meus preconceitos \u2013 o que \u00e9 um processo de esfor\u00e7o deliberado na busca de determinado objetivo, ideal \u2013 ou procuro realizar uma mudan\u00e7a mergulhando no inconsciente.<\/p><p>Certamente, em ambas as abordagens, h\u00e1 o problema do esfor\u00e7o. Vejo que preciso mudar \u2013 por v\u00e1rias raz\u00f5es, por v\u00e1rios motivos \u2013 e conscientemente dedico-me a mudar. Ent\u00e3o percebo \u2013 se realmente pensar sobre isso \u2013 que essa mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 real, e, ent\u00e3o, mergulho no inconsciente, penetro muito profundamente, esperando, mediante v\u00e1rias formas de an\u00e1lise, realizar uma mudan\u00e7a, uma modifica\u00e7\u00e3o, ou um ajustamento mais profundo. E como \u00e9 que pergunto a mim mesmo se tal esfor\u00e7o consciente e inconsciente de mudar produz alguma mudan\u00e7a? Ou, ser\u00e1 que algu\u00e9m precisa ir al\u00e9m do consciente e do inconsciente para realizar uma mudan\u00e7a radical? Como pode ver, tanto o desejo consciente como a compuls\u00e3o inconsciente de mudar implicam esfor\u00e7o. Se voc\u00ea penetrar bem fundo, ver\u00e1 que, na tentativa de transformar-se em outra coisa, h\u00e1 sempre o elemento que faz o esfor\u00e7o e tamb\u00e9m aquele que \u00e9 est\u00e1tico, sobre o qual o esfor\u00e7o \u00e9 exercido. Ent\u00e3o, nesse processo de realizar uma mudan\u00e7a \u2013 seja consciente ou inconsciente \u2013 h\u00e1 sempre o pensador e o pensamento, o pensador tentando mudar seu pensamento \u2013 aquele que diz \u201cPreciso mudar\u201d, e o estado que ele deseja mudar. Ent\u00e3o, h\u00e1 essa dualidade, e estamos para sempre, eternamente, tentando construir uma ponte sobre essa lacuna por meio de esfor\u00e7o. Vejo em mim mesmo que h\u00e1, no consciente e tamb\u00e9m no inconsciente, aquele que faz o esfor\u00e7o e aquilo que ele deseja mudar. H\u00e1 uma divis\u00e3o entre aquilo que sou e aquilo que desejo ser. O que significa que h\u00e1 uma divis\u00e3o entre o pensador e o pensamento e, portanto, h\u00e1 um conflito. E o pensador est\u00e1 sempre tentando superar esse conflito, conscientemente ou inconscientemente.<\/p><p>Estamos bem familiarizados com esse processo; \u00e9 o que fazemos todo o tempo; toda a nossa estrutura social, toda a nossa estrutura moral, ou nossos ajustamentos, est\u00e3o fundamentados nisso. Mas ser\u00e1 que isso produz mudan\u00e7a? Se n\u00e3o, ent\u00e3o ser\u00e1 que a mudan\u00e7a n\u00e3o precisa dar-se em um n\u00edvel totalmente diferente, que n\u00e3o esteja nem no campo do consciente nem do inconsciente? Certamente, a totalidade da nossa mente, o consciente tanto quanto o inconsciente, est\u00e1 condicionada pela cultura de cada um. Isso \u00e9 bem \u00f3bvio. Enquanto eu for hindu, budista, crist\u00e3o ou outra coisa qualquer, a pr\u00f3pria cultura na qual fui criado condicionar\u00e1 todo o meu ser. Todo o meu ser abrange tanto o consciente quanto o inconsciente. No campo do inconsciente est\u00e3o todas as tradi\u00e7\u00f5es, o res\u00edduo do passado do homem, o herdado bem como o adquirido; e, no campo do consciente, estou tentando mudar. Tal mudan\u00e7a s\u00f3 pode verificar-se de acordo com o meu condicionamento, e, portanto, jamais poder\u00e1 resultar em liberdade. Ent\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o, obviamente, \u00e9 coisa que n\u00e3o pode ser da mente; ela precisa estar em n\u00edvel completamente diferente, noutra profundidade, noutra altura. Ent\u00e3o, como \u00e9 que vou me transformar? Vejo a verdade \u2013 pelo menos, vejo alguma coisa nisso \u2013 de que a mudan\u00e7a, a transforma\u00e7\u00e3o, precisa come\u00e7ar em um n\u00edvel que n\u00e3o possa ser alcan\u00e7ado pela mente consciente nem pela inconsciente, pois a totalidade da consci\u00eancia est\u00e1 condicionada. Ent\u00e3o, que devo fazer? Espero estar esclarecendo o problema. Noutras palavras, ser\u00e1 que a minha mente, o consciente e o inconsciente, pode ficar livre da sociedade? \u2013 sociedade sendo toda a educa\u00e7\u00e3o, a cultura, as normas, os valores, os padr\u00f5es. Se a mente n\u00e3o se libertar, ent\u00e3o qualquer mudan\u00e7a que tente produzir dentro daquele estado condicionado ser\u00e1 ainda limitada e, portanto, n\u00e3o ser\u00e1 mudan\u00e7a nenhuma. Se vejo a verdade disso, o que a mente deve fazer? Se digo que deve ficar quieta, ent\u00e3o essa pr\u00f3pria quieta\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do padr\u00e3o; \u00e9 o resultado do meu desejo de produzir uma transforma\u00e7\u00e3o em um n\u00edvel diferente.<\/p><p>Ent\u00e3o, posso olhar sem nenhum motivo? A minha mente pode existir sem incentivo algum, sem nenhum motivo para mudar ou deixar de mudar? Porque, qualquer motivo \u00e9 resultado da rea\u00e7\u00e3o de determinada cultura, nasce de determinado background. Ent\u00e3o, a minha mente pode ficar livre da cultura na qual fui criado? Esta \u00e9 uma pergunta realmente importante. Porque, se a mente n\u00e3o ficar livre da cultura na qual se formou e foi cultivada, certamente a pessoa jamais ficar\u00e1 em paz, jamais ter\u00e1 liberdade. Seus deuses e seus mitos, seus s\u00edmbolos e toda a sua dilig\u00eancia s\u00e3o limitados, pois est\u00e3o ainda dentro do campo da mente condicionada. N\u00e3o importa que esfor\u00e7os fa\u00e7a ou deixe de fazer, dentro desse campo limitado \u2013 ser\u00e3o realmente f\u00fateis no mais profundo sentido dessa palavra. Pode haver uma melhor decora\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o \u2013 mais luz, mais janelas, melhor comida \u2013 mas continua sendo a pris\u00e3o de determinada cultura.<\/p><p>Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a mente pode \u2013 compreendendo a totalidade de si mesma, n\u00e3o s\u00f3 as camadas superficiais ou certas profundidades \u2013 ser\u00e1 que ela pode chegar a esse estado em que a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja resultado de um esfor\u00e7o consciente nem inconsciente? Se essa quest\u00e3o estiver clara, ent\u00e3o surge a rea\u00e7\u00e3o ao problema \u2013 como a pessoa pode alcan\u00e7ar tal estado? Certamente, a pr\u00f3pria pergunta \u201ccomo\u201d \u00e9 outra barreira. Pois o \u201ccomo\u201d implica a busca e a pr\u00e1tica de certo sistema, certo m\u00e9todo, os \u201cpassos\u201d em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quela transforma\u00e7\u00e3o fundamental, profunda, inevit\u00e1vel, em um n\u00edvel diferente. Compreende? O \u201ccomo\u201d implica o desejo de alcan\u00e7ar, o impulso de atingir; e essa pr\u00f3pria tentativa de ser algo \u00e9 produto da nossa sociedade, que \u00e9 aquisitiva, que \u00e9 invejosa. Ent\u00e3o, estamos novamente enredados.<\/p><p>Ent\u00e3o, o que a mente deve fazer? Vejo a import\u00e2ncia da mudan\u00e7a. E vejo que qualquer mudan\u00e7a, em qualquer n\u00edvel da mente consciente ou inconsciente, n\u00e3o \u00e9 mudan\u00e7a alguma. Se realmente compreendo isso, se eu tiver percebido a verdade disso \u2013 que, enquanto houver o fazedor do esfor\u00e7o, o pensador, o \u201ceu\u201d, tentando alcan\u00e7ar um resultado, precisa haver uma divis\u00e3o e, da\u00ed, o desejo de fazer uma integra\u00e7\u00e3o entre as duas coisas, o que implica conflito \u2013 se vejo a verdade disso, ent\u00e3o o que acontece?<\/p><p>Eis o problema: Ser\u00e1 que percebo que qualquer esfor\u00e7o que eu fa\u00e7a dentro do campo do pensamento \u2013 o consciente e o inconsciente \u2013 necessariamente acarreta uma separa\u00e7\u00e3o, uma dualidade e, portanto, conflito? Se percebo a verdade disso, ent\u00e3o o que acontece? Ent\u00e3o tenho eu \u2013 tem a mente consciente ou inconsciente \u2013 de fazer alguma coisa? Por favor, isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma filosofia oriental de nada fazer ou de entrar em algum tipo de transe misterioso. Ao contr\u00e1rio, isto requer muito esfor\u00e7o, penetra\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode chegar a isso a menos que se tenha percorrido todo o processo de compreens\u00e3o do consciente e do inconsciente, e n\u00e3o apenas dizer: \u201cMuito bem, n\u00e3o pensarei e, ent\u00e3o, as coisas acontecer\u00e3o.\u201dAs coisas n\u00e3o acontecer\u00e3o. \u00c9 por isso que \u00e9 muito importante ter autoconhecimento. N\u00e3o o autoconhecimento de acordo com algum fil\u00f3sofo ou psicanalista, grande ou pequeno \u2013 isso \u00e9 mera imita\u00e7\u00e3o; \u00e9 como ler um livro e tentar ser o livro; isso n\u00e3o \u00e9 autoconhecimento. Autoconhecimento \u00e9 realmente descobrir, em si mesmo, o processo do pensamento, do sentimento, dos motivos, das respostas \u2013 o real estado em que estamos, e n\u00e3o o estado desejado.<\/p><p>\u00c9 por isso que \u00e9 muito importante ter autoconhecimento do que quer que sejamos: feios, bons, maus, bonitos, alegres, tudo isso \u2013 conhecer o pr\u00f3prio condicionamento superficial como tamb\u00e9m o mais profundo, o inconsciente, o condicionamento de s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o, de compuls\u00f5es, desejos, imita\u00e7\u00f5es, conhecer, realmente experimentar a totalidade por meio do autoconhecimento. Ent\u00e3o penso que descobriremos que a mente consciente e a inconsciente j\u00e1 n\u00e3o faz nenhum movimento para alcan\u00e7ar uma mudan\u00e7a, mas a mudan\u00e7a acontece, a transforma\u00e7\u00e3o acontece em um n\u00edvel totalmente diferente \u2013 numa altura, numa profundidade que nem a mente consciente nem a inconsciente jamais poder\u00e1 tocar. A transforma\u00e7\u00e3o precisa acontecer ali, e n\u00e3o no n\u00edvel consciente ou inconsciente, que \u00e9 produto de dada cultura.<\/p><p>\u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante ficar livre da sociedade por meio do autoconhecimento. E penso ent\u00e3o que \u2013 quando todo esse processo de reconhecimento pela sociedade tiver cessado, quando a mente n\u00e3o estiver mais preocupada com qualquer tipo de reforma \u2013 ent\u00e3o haver\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o radical que n\u00e3o poder\u00e1 ser tocada pela mente consciente ou inconsciente, e, a partir dessa transforma\u00e7\u00e3o, poder-se-\u00e1 criar uma sociedade diferente, um Estado diferente. Esse Estado, essa sociedade, n\u00e3o podem ser concebidos \u2013 isso \u00e9 coisa que deve proceder das profundezas do autodescobrimento. Portanto, parece-me que o que \u00e9 importante \u00e9 essa investiga\u00e7\u00e3o do ego, do \u201ceu\u201d, e conhecer o \u201ceu\u201d como ele \u00e9, com suas ambi\u00e7\u00f5es, invejas, exig\u00eancias agressivas, suas fraudes, a divis\u00e3o entre alto e baixo \u2013 desvendar o ego de modo que se revele n\u00e3o s\u00f3 a mente consciente, mas tamb\u00e9m a inconsciente, que \u00e9 o armaz\u00e9m das tradi\u00e7\u00f5es do passado, os s\u00e9culos de dep\u00f3sitos de todos os tipos de experi\u00eancias. Conhecer a totalidade disso \u00e9 o fim disso. Ent\u00e3o a mente, n\u00e3o estando interessada na sociedade, no reconhecimento, em reformas, nem mesmo na transforma\u00e7\u00e3o de si mesma, descobre que h\u00e1 uma mudan\u00e7a, que h\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o resulta de esfor\u00e7o proposital de produzir um resultado.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Sou um artista e muito me interesso pela t\u00e9cnica da pintura. Seria poss\u00edvel que esse pr\u00f3prio interesse seja impedimento \u00e0 verdadeira express\u00e3o criativa?<\/p><p><strong>\u00a0Krishnamurti<\/strong>: Pergunto-me por que a maioria de n\u00f3s, o artista inclusive, estamos t\u00e3o interessados em t\u00e9cnica. Estamos todos perguntando como \u2013 como \u00e9 que vou ser mais feliz, como \u00e9 que vou encontrar a Deus, como \u00e9 que vou ser um artista melhor, como \u00e9 que vou fazer isto ou aquilo. Estamos todos interessados no \u201ccomo\u201d. Sou violento e quero saber como ser n\u00e3o-violento. Estando t\u00e3o interessados na t\u00e9cnica, e, como o mundo s\u00f3 tem isso a oferecer, ficamos escravizados a ela. Buscamos a t\u00e9cnica porque queremos resultados. Quero ser um grande artista, engenheiro, m\u00fasico; quero alcan\u00e7ar fama, notoriedade. Minha ambi\u00e7\u00e3o leva-me a buscar o m\u00e9todo.<\/p><p>Ser\u00e1 que um artista, ou qualquer pessoa que esteja buscando uma t\u00e9cnica, pode realmente ser um artista? Ao passo que, se a pessoa ama aquilo que faz, n\u00e3o ser\u00e1 ela um artista? Mas n\u00e3o compreendemos o que essa palavra significa. Ser\u00e1 que posso amar alguma coisa por si mesma, por causa dela mesma, se sou ambicioso, se quero ser conhecido? Se eu quiser ser o melhor pintor, o melhor poeta, o maior santo, se eu estiver \u00e0 procura de um resultado, ser\u00e1 que realmente posso amar uma coisa por ela mesma? Se sou invejoso, se sou imitador, se houver algum temor, alguma competi\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 que posso amar aquilo que estou fazendo?<\/p><p>Se eu amar uma coisa, ent\u00e3o posso aprender a t\u00e9cnica \u2013 como misturar cores ou outra coisa qualquer. Mas, agora, n\u00e3o temos esse senso de real amor por uma coisa. Estamos cheios de ambi\u00e7\u00e3o, de inveja; queremos ser um sucesso. Ent\u00e3o, estamos aprendendo t\u00e9cnicas e perdendo a coisa real; ali\u00e1s, n\u00e3o estamos perdendo a coisa, pois nunca a tivemos. Presentemente, toda a nossa mente est\u00e1 entregue a adquirir uma t\u00e9cnica que nos leve a algum lugar. Se amo aquilo que fa\u00e7o, certamente, ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 problema algum, n\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade? Estou fazendo o que quero fazer \u2013 n\u00e3o porque isso me d\u00ea publicidade; para mim, isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia. O importante \u00e9 amar totalmente o que se est\u00e1 fazendo, e ent\u00e3o esse amor \u00e9 o guia.<\/p><p>Se os pais quiserem que seu filho siga suas pegadas, para ser alguma coisa; se os pais tentam se realizar por meio dos filhos, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 amor; \u00e9 s\u00f3 autoproje\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio amor da crian\u00e7a desenvolver\u00e1 sua pr\u00f3pria cultura, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Mas, infelizmente, n\u00e3o pensamos assim. Ent\u00e3o, h\u00e1 todo esse problema, esse impressionante desenvolvimento da t\u00e9cnica.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Estou inteiramente ocupado com os cuidados, as alegrias e tristezas da vida di\u00e1ria. Estou muito consciente de que a minha mente \u00e9 exclusivamente tomada pela a\u00e7\u00e3o, rea\u00e7\u00e3o e pelo motivo, mas n\u00e3o consigo ir al\u00e9m disso. Desde que comecei a ler seus livros e ouvir suas palestras, percebo que existe um modo de viver completamente diferente, mas n\u00e3o encontro a chave que abrir\u00e1 a porta da minha diminuta, estreita morada, e me levar\u00e1 \u00e0 liberdade. Que devo fazer?<\/p><p><strong>\u00a0Krishnamurti<\/strong>: Pergunto-me se estamos conscientes das coisas de que a nossa mente se ocupa! Como diz o cavalheiro que fez a pergunta, a mente est\u00e1 ocupada somente com coisas superficiais \u2013 ganhando o sustento, cuidando dos filhos, e tudo o mais. Mas, sabemos do que a nossa mente se ocupa em um n\u00edvel mais profundo? Fora as ocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, sabemos com que se preocupa a nossa mente em um n\u00edvel diferente, o inconsciente? Ou est\u00e1 a nossa mente consciente de tal modo ocupada durante o dia, todo o tempo, que n\u00e3o sabemos com que se preocupa o inconsciente? Estamos conscientes das coisas com que nos ocupamos al\u00e9m da rotina di\u00e1ria, da exist\u00eancia di\u00e1ria?<\/p><p>Para a maioria de n\u00f3s, a nossa ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com o processo di\u00e1rio de viver, e estamos preocupados com como produzir uma mudan\u00e7a nisso \u2013 um melhor ajustamento, mais felicidade, menos disto e mais daquilo. Manter a felicidade superficial, livrar-nos de certas coisas que nos causam dor, evitar certas tens\u00f5es e desconfortos, ajustar-nos a certos relacionamentos, etc. \u2013 eis toda a nossa ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Podemos por de lado essa ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 deix\u00e1-la continuar, na superf\u00edcie, e descobrir, bem no fundo, com o que a nossa mente est\u00e1 ocupada inconscientemente? Todos n\u00f3s percebemos que precisa haver algum tipo de ajustamento na superf\u00edcie. Mas, ser\u00e1 que estamos preocupados com a ocupa\u00e7\u00e3o profunda da mente? Ser\u00e1 que eu sei, e ser\u00e1 que voc\u00ea sabe, com o que a mente mais profunda est\u00e1 ocupada? Certamente dever\u00edamos descobri-lo, pois tal ocupa\u00e7\u00e3o pode traduzir-se nas ocupa\u00e7\u00f5es e ajustamentos superficiais, com suas alegrias e tristezas, suas mis\u00e9rias e prova\u00e7\u00f5es. Portanto, a menos que voc\u00ea e eu conhe\u00e7amos as ocupa\u00e7\u00f5es mais profundas da mente, a simples altera\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie ter\u00e1 muito pouco significado.<\/p><p>Certamente, toda ocupa\u00e7\u00e3o superficial deve findar se eu quiser encontrar a \u201coutra coisa\u201d. Se a minha mente estiver ocupada todo o tempo com ajustes superficiais, nivelando o quadro que algu\u00e9m desnivelou, sempre preocupada com as coisas de casa, com as crian\u00e7as, com a esposa, com o que a sociedade pensa e n\u00e3o pensa, com a opini\u00e3o do meu vizinho, etc. \u2013 poder\u00e1 tal mente, que est\u00e1 sempre ocupada, descobrir sua pr\u00f3pria ocupa\u00e7\u00e3o profunda? Ou n\u00e3o precisar\u00e1 terminar a ocupa\u00e7\u00e3o superficial? Noutras palavras, podemos deixar que isso continue, ajustar-nos sem esfor\u00e7o, mas tamb\u00e9m investigar profundamente aquilo com que a nossa mente est\u00e1 ocupada em um n\u00edvel mais profundo? Com o que ela est\u00e1 ocupada em um n\u00edvel mais profundo? Ser\u00e1 que voc\u00ea e eu o sabemos? Ou apenas conjeturamos sobre isso ou achamos que outra pessoa no-lo possa dizer? Certamente n\u00e3o posso descobrir, a menos que n\u00e3o esteja totalmente ocupado com os ajustes superficiais. Noutras palavras, \u00e9 preciso ficar livre do superficial para descobrir. Mas n\u00e3o ousamos livrar-nos, n\u00e3o ousamos abandonar, porque n\u00e3o sabemos o que h\u00e1 por baixo; estamos assustados, apavorados. \u00c9 por isso que estamos ocupados, a maioria de n\u00f3s. Bem no fundo, precisa haver completa solid\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de profunda frustra\u00e7\u00e3o, medo, ambi\u00e7\u00e3o torturante, ou o que voc\u00ea quiser \u2013 pois disso n\u00e3o estamos completamente conscientes. Mas, estando um pouco conscientes, ou estando levemente alertas, estamos assustados com tudo isso. Ent\u00e3o estamos preocupados com a sala, os quadros, os abajures, com quem vem e com quem vai, com as festas; lemos livros, ouvimos o r\u00e1dio, juntamo-nos a grupos \u2013 todas as coisas deplor\u00e1veis. Tudo isso pode ser uma fuga da quest\u00e3o mais profunda. E, para examinar a quest\u00e3o mais profunda, \u00e9 preciso abandonar a sala e o conte\u00fado da sala. Infelizmente, queremos a sala, e a descoberta da \u201coutra coisa\u201d \u00e9 algo que nunca nos permitimos experimentar.<\/p><p>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de tentar alcan\u00e7ar o n\u00edvel mais profundo. Tentar \u00e9 sempre uma quest\u00e3o de tempo. Se desejo investigar a quest\u00e3o mais profunda e vejo a necessidade de abandonar as coisas superficiais, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 tentativa. N\u00e3o tento abrir a porta e conscientemente fazer um movimento para sair da casa. Sei que preciso sair e saio \u2013 a porta est\u00e1 l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma tentativa de alcan\u00e7ar aquela porta; voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pensando em termos de tentativa. Compreens\u00e3o e a\u00e7\u00e3o acontecem ao mesmo tempo. Mas tal integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ocorrer se voc\u00ea estiver preocupado apenas com o n\u00edvel superficial.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Os sonhos t\u00eam alguma import\u00e2ncia real? O que acontece durante o sono?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Acho que seria bom se pud\u00e9ssemos entrar muito a fundo nessa quest\u00e3o. Portanto, se eu puder sugerir, n\u00e3o se limite a escutar a descri\u00e7\u00e3o, mas realmente experimente o que est\u00e1 sendo dito. Ent\u00e3o talvez possamos entrar juntos no significado de todo esse processo de dormir e sonhar.<\/p><p>Durante o dia, as horas de vig\u00edlia, estamos de tal modo ocupados com nossas afli\u00e7\u00f5es, com nossos sofrimentos, com nossos pequenos brinquedos, com o emprego, o ganha-p\u00e3o, as modas ef\u00eameras, e tudo o mais, que nunca recebemos uma insinua\u00e7\u00e3o, uma pista das coisas mais profundas; a mente superficial est\u00e1 demasiado ocupada, demasiado ativa. Ent\u00e3o, quando dormimos, come\u00e7amos a sonhar, e voc\u00ea pode ver que os sonhos tomam v\u00e1rias formas, v\u00e1rios s\u00edmbolos, que cont\u00eam as insinua\u00e7\u00f5es, as pistas. Ent\u00e3o, compreendendo que esses sonhos t\u00eam algum tipo de import\u00e2ncia, buscamos interpreta\u00e7\u00f5es, procuramos traduzi-los para o nosso dia-a-dia. Assim, o int\u00e9rprete torna-se muito importante, e gradualmente come\u00e7amos a depender de outras pessoas psicologicamente. Ou interpretamos por n\u00f3s mesmos de acordo com nossos gostos e avers\u00f5es, e, novamente, ficamos aprisionados.<\/p><p>\u00c9 poss\u00edvel nunca sonhar? Os psic\u00f3logos dizem que \u00e9 imposs\u00edvel \u2013 dizem que, embora n\u00e3o nos lembremos dos sonhos, h\u00e1 sempre um processo de sonho se desenrolando. Mas ser\u00e1 que eu posso, que voc\u00ea e eu podemos receber as insinua\u00e7\u00f5es, as dicas, nas horas de vig\u00edlia, durante o dia, quando a mente est\u00e1 alerta? \u2013 pelo menos, supostamente alerta. Noutras palavras, ser\u00e1 que a minha mente consegue n\u00e3o deixar passar nem um \u00fanico pensamento \u2013 por favor, escutem \u2013 n\u00e3o deixar passar um \u00fanico pensamento sem conhecer todo o conte\u00fado desse pensamento? O que n\u00e3o significa que eu esteja t\u00e3o concentrado que n\u00e3o deixe nenhum pensamento escapar-me; voc\u00ea n\u00e3o consegue concentrar-se a esse ponto. O pensamento lhe escapar\u00e1, mas haver\u00e1 outros pensamentos.<\/p><p>Ent\u00e3o, ser\u00e1 que uma pessoa pode brincar com um pensamento (estou empregando a palavra brincar deliberadamente) e descobrir todo o seu conte\u00fado? \u2013 o motivo, a rea\u00e7\u00e3o, e ainda outra rea\u00e7\u00e3o daquele motivo. Isso significa n\u00e3o condenar aquele pensamento, n\u00e3o o justificar, n\u00e3o fazer compara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fazer avalia\u00e7\u00e3o, mas apenas observar aquele pensamento enquanto ele surge. Ser\u00e1 que podemos vigiar cada pensamento, enquanto ele passa, de modo que a mente se torne c\u00f4nscia da profundidade de cada pensamento e comece a purgar-se de todo o conte\u00fado de seus pr\u00f3prios pensamentos? \u2013 e nem h\u00e1 tantos pensamentos assim. E, quando a mente tiver terminado de observar o pensamento, de seguir o pensamento, poderia ela ent\u00e3o convidar o pensamento, de modo que todos os pensamentos ocultos, acumulados na escurid\u00e3o, possam ser trazidos \u00e0 baila, examinados, olhados, investigados \u2013 novamente, sem condena\u00e7\u00e3o, sem avalia\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00f3 observados para se conhecer todo o seu conte\u00fado?<\/p><p>N\u00e3o estou descrevendo um m\u00e9todo. Por favor, n\u00e3o traduza isso como um m\u00e9todo de esvaziar a mente para n\u00e3o sonhar. Porque todos os sonhos, como dissemos, s\u00e3o meras insinua\u00e7\u00f5es, pistas, as quais se tornar\u00e3o desnecess\u00e1rias se, durante a vig\u00edlia, estivermos extraordinariamente alertas, vivos, c\u00f4nscios de todas as coisas interiores. Ent\u00e3o, o que acontece quando a pessoa vai dormir? Como a mente consciente descobriu todas as insinua\u00e7\u00f5es, pistas, advert\u00eancias, e entrou fundo no inconsciente durante o dia, ela ficou fatigada e quieta. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 conflito entre o consciente e o inconsciente; h\u00e1 quietude. Ent\u00e3o a mente pode ir al\u00e9m, pode alcan\u00e7ar algo que a mente consciente e a inconsciente jamais poder\u00e1 alcan\u00e7ar.<\/p><p>N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 fez uma experi\u00eancia com isso, s\u00f3 para se divertir \u2013 n\u00e3o para alcan\u00e7ar algum resultado, n\u00e3o para descobrir um estado de consci\u00eancia que n\u00e3o tenha sido tocado, corrompido, por nenhum ser humano, pois ent\u00e3o isso se torna uma barganha, um neg\u00f3cio. Mas, se a pessoa puder, realmente sem motivo, somente descobrir, ent\u00e3o o sono tem muita import\u00e2ncia. O que estou dizendo nada tem a ver com o plano astral e todas essas coisas, as imagina\u00e7\u00f5es e peculiaridades de determinado condicionamento \u2013 tudo isso precisa desaparecer, \u00e9 claro. Tudo aquilo que a pessoa adquiriu, aprendeu, precisa desaparecer totalmente. Somente ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, durante o estado que chamamos de sono, a exist\u00eancia de algo que a mente n\u00e3o pode perceber; e, ao despertar, a mente se faz nova. Uma fonte passou a existir que n\u00e3o \u00e9 produto das nossas ambi\u00e7\u00f5es, invejas, desejos e buscas.<\/p><p>Acho muito importante entender tudo isso. E, para entender isso, a pessoa precisa ter autoconhecimento \u2013 como a mente trabalha durante o dia, seus motivos, suas a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es \u2013 de modo que, ao fim do dia, a mente consciente se torne muito quieta. Ent\u00e3o, a contradi\u00e7\u00e3o entre o consciente e o inconsciente tendo sido compreendida, a mente torna-se realmente quieta \u2013 em vez de for\u00e7ada a quietar-se. A mente for\u00e7ada a quietar-se \u00e9 uma mente morta, uma mente corrompida. Mas a mente que est\u00e1 quieta porque compreendeu, a mente que chega \u00e0 quietude em decorr\u00eancia do autoconhecimento \u2013 tal mente, durante o sono, poder\u00e1 talvez alcan\u00e7ar algo, ou melhor, algo mais poder\u00e1 alcan\u00e7ar a mente, algo que a pr\u00f3pria mente n\u00e3o consiga alcan\u00e7ar. Ent\u00e3o, parece-me que um sono assim tem import\u00e2ncia nas horas de vig\u00edlia.<\/p><p>Mas isso exige um grande mergulho, e n\u00e3o aferrar-se a coisa alguma que se tenha descoberto. Porque, se estiver preso ao seu conhecimento, ou ao conhecimento alheio, voc\u00ea n\u00e3o consegue ir muito longe. \u00c9 preciso que haja a morte para tudo aquilo que foi acumulado, para cada experi\u00eancia com que se tenha regozijado ou da qual se tenha afastado. \u00c9 s\u00f3 ent\u00e3o que algo que est\u00e1 al\u00e9m da mente pode toc\u00e1-la.<\/p><p>24 de junho de 1955.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>4\u00aa palestra em Londres Parece-me que um dos problemas mais dif\u00edceis \u00e9 a quest\u00e3o de como realizarmos uma mudan\u00e7a fundamental em n\u00f3s mesmos. Costumamos pensar que a transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 importante, mas que dev\u00edamos, em vez disso, preocupar-nos com as massas, com o todo. Acho que isso \u00e9 uma ideia deveras err\u00f4nea. Acho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1756","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1756"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1756\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1763,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1756\/revisions\/1763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}