{"id":1734,"date":"2022-12-18T16:48:31","date_gmt":"2022-12-18T16:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1734"},"modified":"2022-12-18T16:49:00","modified_gmt":"2022-12-18T16:49:00","slug":"18-06-1955","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1734","title":{"rendered":"18\/06\/1955"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1734\" class=\"elementor elementor-1734\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7e2155d5 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7e2155d5\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-2c43ae69\" data-id=\"2c43ae69\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-29e78fc7 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"29e78fc7\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>2\u00aa\u00a0palestra em Londres<\/strong><\/p><p>Acho que valeria a pena investigar completamente um problema, com aquela percep\u00e7\u00e3o da qual estivemos falando ontem, para ver se podemos examinar todo o processo \u2013 n\u00e3o teoricamente, mas realmente \u2013 e descobrir por n\u00f3s mesmos a verdade do que est\u00e1 sendo dito. Para esse fim, parece-me muito importante saber como escutar. A maioria de n\u00f3s n\u00e3o escuta verdadeiramente. Temos v\u00e1rias teorias, rea\u00e7\u00f5es, respostas, as quais realmente bloqueiam o escutar verdadeiro. Gostaria de discutir um problema que penso ser bastante complexo e que, portanto, precisa de uma aten\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o haja nem a luta para compreender, nem a atitude de meramente escutar uma explana\u00e7\u00e3o. Vamos, por\u00e9m, acompanhar o assunto estando alertas e c\u00f4nscios, e, assim, explorar, descobrir a totalidade do problema.<\/p><p>Nossa cultura baseia-se na inveja, e somos produto dessa cultura. H\u00e1 inveja n\u00e3o s\u00f3 em assuntos sociais, em que h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o com os outros para alcan\u00e7ar um resultado, certa posi\u00e7\u00e3o, amealhar poder, e assim por diante; mas tamb\u00e9m interiormente, por assim dizer, espiritualmente, h\u00e1 essa compuls\u00e3o de aquisi\u00e7\u00e3o. Penso que a maioria de n\u00f3s tenha consci\u00eancia disso. A compuls\u00e3o de chegar l\u00e1, agarrar, compreender, ser, alcan\u00e7ar um objetivo, encontrar a felicidade, Deus, ou o que quer que seja \u2013 todas essas coisas s\u00e3o obviamente um processo de aquisi\u00e7\u00e3o, a compuls\u00e3o da inveja. A sociedade, \u00e0 medida que se desenvolve, vai controlar externamente mais e mais o instinto aquisitivo por meio de legisla\u00e7\u00e3o, mas, interiormente, n\u00e3o h\u00e1 legisla\u00e7\u00e3o que possa control\u00e1-lo. E parece-me que esse instinto aquisitivo \u00e9 uma das quest\u00f5es principais, porque nele se cont\u00e9m todo o processo do esfor\u00e7o. Se realmente pudermos investigar isto e ver se podemos realmente livrar-nos dessa compuls\u00e3o de encontrar um abrigo, um ref\u00fagio, de tornar-nos alguma coisa espiritualmente, ent\u00e3o penso que teremos resolvido um enorme problema \u2013 talvez o \u00fanico problema.<\/p><p>Afinal, quando buscamos a realidade, ou Deus, \u00e0s vezes desejamos desistir do mundo com sua competi\u00e7\u00e3o, suas divis\u00f5es, sua luta de classes e todo o resto, e procuramos ent\u00e3o tornar-nos monges ou sannyasis. Mas n\u00e3o abandonamos esse processo de aquisi\u00e7\u00e3o nem mesmo quando nos tornamos eremitas, nem mesmo quando renunciamos ao mundo. Ainda existe o desejo de nos \u201ctornarmos alguma coisa\u201d, de seguir outra pessoa para compreender, para encontrar a verdade; existe sempre a sensa\u00e7\u00e3o de inveja, de aquisi\u00e7\u00e3o, de ganho. Em todo esse processo est\u00e1 baseada a nossa cultura, tanto socialmente quanto espiritualmente. Todos os nossos esfor\u00e7os dirigem-se a adquirir virtude, ou bens, ou propriedades, ou um estado de felicidade, um estado de bem-aventuran\u00e7a \u2013 e nisso est\u00e1 implicado esse empenho constante, esse esfor\u00e7o constante, a luta para ser alguma coisa. Penso que isso \u00e9 um fato, e que a maioria de n\u00f3s tem consci\u00eancia dele.<\/p><p>Ser\u00e1 que podemos ficar conscientes de todo esse assunto, n\u00e3o s\u00f3 conscientemente, mas no fundo do inconsciente, e assim ficar livres dessa compuls\u00e3o? Porque, enquanto houver esse empenho, por mais ben\u00e9fico que possa ser em um n\u00edvel, torna-se prejudicial, um empecilho, em outro n\u00edvel. Todos somos treinados, educados, para competir, interiormente e exteriormente, e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 amor por coisa alguma em si mesma, mas somente uma sensa\u00e7\u00e3o de algo a ser alcan\u00e7ado. Certamente, \u00e9 importante descobrir se a mente pode ficar livre de toda essa busca de aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Afinal, procurar tornar-se virtuoso \u00e9 uma forma de inveja, n\u00e3o \u00e9? Podemos discutir isso? Enquanto a mente estiver presa a alguma forma de inveja, alcan\u00e7ando um objetivo, buscando um resultado, buscando o c\u00e9u, a paz, ou a realidade, h\u00e1 necessariamente constante acumula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias formas de mem\u00f3ria, o que realmente impede a pessoa de descobrir o real. Essencialmente, estamos com medo de ser o que somos; queremos mudar o que somos e, no processo de mudan\u00e7a, surge todo o problema do \u201ccomo\u201d. Nosso desejo \u00e9 mudar para ser outra coisa, e, portanto, estamos sempre \u00e0 procura de um m\u00e9todo \u2013 como alcan\u00e7ar, como ser n\u00e3o-violento, etc.<\/p><p>A quest\u00e3o \u00e9 que a nossa cultura \u00e9 aquisitiva \u2013 o que significa essencialmente invejosa; nossa cultura fundamenta-se na inveja. Pode-se ver isso muito facilmente em termos sociais. Mas, interiormente, por assim dizer, espiritualmente, intelectualmente, bem no fundo, o mesmo acontece \u2013 a inveja \u00e9 o fundamento da nossa busca. Porque estou infeliz, sofrendo, quero mudar isso, fugir para outro estado e, assim, surge o problema de como atingir aquele outro estado. Portanto, seguimos diversos professores, ouvimos v\u00e1rias palestras, lemos livros religiosos, tentamos reformar-nos, tentamos disciplinar-nos \u2013 sempre para atingir um resultado.Se pudermos ficar conscientes de tudo isso, ent\u00e3o acho que talvez possamos compreender um estado no qual n\u00e3o haja esfor\u00e7o algum.<\/p><p>Podemos realmente discutir isso?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0\u00c9 errado tentar melhorar-nos? O que estamos fazendo aqui escutando o senhor se n\u00e3o estivermos tentando melhorar?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Essa \u00e9 realmente uma boa pergunta, se pudermos examin\u00e1-la. O que \u00e9 auto melhoramento?<\/p><p>Primeiro, se for para haver melhoramento, precisamos compreender o que \u00e9 o ego, n\u00e3o \u00e9 verdade? Pensamos ser permiss\u00edvel haver auto melhoramento. Mas o que queremos dizer com o ego, com o \u2018eu\u2019? Existe um \u2018eu\u2019, um ego, que seja constante, que possa ser melhorado, uma coisa que tenha continuidade real? \u2013 n\u00e3o somente a continuidade que desejamos ter, mas, na realidade, h\u00e1 uma continuidade do \u2018eu\u2019 separada da continuidade do organismo f\u00edsico com o seu nome, suas qualidades, vivendo em certo lugar e com certos relacionamentos, tendo um emprego, etc.? Fora disso, existe um \u2018eu\u2019 que continua?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. N\u00e3o.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Certamente, isso n\u00e3o \u00e9 meramente quest\u00e3o de opini\u00e3o, de sim ou n\u00e3o. Se quisermos descobrir, n\u00e3o podemos saltar para nenhuma conclus\u00e3o. N\u00e3o podemos adotar uma opini\u00e3o ou um desejo como se fosse um fato. Queremos descobrir se existe um \u2018eu\u2019 que possa melhorar, receber acr\u00e9scimos, se existe uma entidade permanente que v\u00e1 melhorando e melhorando. Ou, h\u00e1 desejos, impulsos, compuls\u00f5es contradit\u00f3rios \u2013 um dominando o outro, e aquele que domina deseja continuar, suprimindo os outros desejos? Ou, existe s\u00f3 um estado a fluir, uma mudan\u00e7a constante sem nenhuma perman\u00eancia, e uma mente que, compreendendo essa imperman\u00eancia, esse fluxo, essa transitoriedade, deseja ter algo permanente que ela denomina \u2018eu\u2019, e deseja que o \u2018eu\u2019 continue atrav\u00e9s do melhoramento?<\/p><p>Quando falamos sobre auto melhoramento, sobre eu tornar-me melhor, mais nobre, menos isso e mais aquilo \u2013 certamente isso tudo \u00e9 um processo de pensamento, n\u00e3o \u00e9 verdade? N\u00e3o h\u00e1 nenhum \u2018eu\u2019 permanente, exceto o desejo de ter perman\u00eancia. Assim, ser\u00e1 que h\u00e1 um melhoramento do \u2018eu\u2019, ser\u00e1 que eu posso me aperfei\u00e7oar? O que significa \u201cmelhorar\u201d? Sou ambicioso; quero melhorar, ser n\u00e3o ambicioso. Sou invejoso, irrit\u00e1vel, e quero mudar, ser outra coisa. Fa\u00e7o grandes esfor\u00e7os, disciplino-me, fa\u00e7o medita\u00e7\u00e3o, e mais isso e mais aquilo, tentando melhorar-me todo o tempo; mas nunca fa\u00e7o a pergunta fundamental: \u201cO que \u00e9 o \u2018eu\u2019 que quer melhorar?\u201d Quem s\u00e3o essas duas entidades \u2013 aquela que observa e quer mudar, e aquela que \u00e9 observada?<\/p><p>Estou me fazendo claro?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio<\/strong>: Sim. Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Ent\u00e3o, quando digo que preciso aperfei\u00e7oar-me, qual \u00e9 a entidade que diz isso?E existe uma entidade, um \u201ceu\u201d, diferente do observador?<\/p><p>Discutamos isso, examinemo-lo. Sou ambicioso, invejoso, e quero melhorar, quero livrar-me da inveja. Nisso existem duas entidades, n\u00e3o \u00e9 verdade? \u2013 a que \u00e9 invejosa, e a outra, que quer livrar-se da inveja.<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0N\u00e3o necessariamente \u2013 s\u00f3 h\u00e1 uma entidade.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Vejamos. Qual \u00e9 realmente o processo? Sou invejoso e sinto que isso n\u00e3o \u00e9 correto; h\u00e1 dor na inveja, ela \u00e9 imoral e quero mudar a inveja, ou o que quer que seja. H\u00e1 dois estados dentro de mim. Mas eles est\u00e3o dentro do mesmo campo de pensamento, n\u00e3o \u00e9 verdade? O \u201ceu\u201d que \u00e9 ambicioso, e o \u201ceu\u201d que deseja mudar \u2013 ambos s\u00e3o \u201ceu\u201d, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0No instante em que voc\u00ea decide mudar, voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ambicioso.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0N\u00e3o estamos agora discutindo como ou o que mudar. Quando falamos de melhorar-nos, ser\u00e1 que h\u00e1 mesmo um melhoramento, ou s\u00f3 a mudan\u00e7a de uma capa para outra, substituindo um conjunto de palavras e sentimentos por outro?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 melhoramento a menos que voc\u00ea ponha em a\u00e7\u00e3o os seus ideais.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0A maioria de n\u00f3s persegue ideais \u2013 \u201co bem\u201d, \u201co belo\u201d, \u201co que \u00e9 verdadeiro\u201d, \u201ca n\u00e3o-viol\u00eancia\u201d, etc. E sabemos por que os perseguimos \u2013 porque esperamos modificar-nos por meio de ideais. Os ideais funcionam como alavanca e nos compelem a modificar-nos, a nos tornarmos mais perfeitos. Isso \u00e9 um fato real, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p><p>A viol\u00eancia, por exemplo. Sou violento, e, assim, tenho o ideal da n\u00e3o-viol\u00eancia. E eu persigo esse ideal, tento pratic\u00e1-lo, estou constantemente pensando nele, tentando modificar-me a mim mesmo e aos meus pensamentos para conformar-me ao ideal que estabeleci para mim. Mas, ser\u00e1 que mudei realmente? \u2013 ou ser\u00e1 que apenas substitu\u00ed um conjunto de palavras por outro?Pode-se mudar a viol\u00eancia por meio de um ideal?<\/p><p>O que \u00e9 importante, certamente, n\u00e3o \u00e9 o ideal, mas o real, a compreens\u00e3o daquilo que \u00e9. O importante \u00e9 compreender o meu estado de viol\u00eancia, de onde prov\u00e9m, quais suas causas, etc. \u2013 e n\u00e3o tentar alcan\u00e7ar o estado de n\u00e3o-viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 assim mesmo? N\u00e3o \u00e9 extremamente dif\u00edcil para a maioria de n\u00f3s desistir de ideais, descart\u00e1-los, e preocupar-nos com o que \u00e9 realmente? Se voc\u00ea est\u00e1 apenas interessado no que \u00e9, ent\u00e3o h\u00e1 alguma forma de auto melhoramento?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Todas essas coisas desaparecem se as discutirmos? (Risadas)<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0N\u00e3o estamos interessados \u2013 estamos? \u2013 em como fazer as coisas desaparecerem.Queremos descobrir \u2013 n\u00e3o \u00e9 verdade? \u2013 como transformar algo como a ambi\u00e7\u00e3o sem conflito.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Ficarmos interessados no que \u00e9 \u2013 digamos, na viol\u00eancia \u2013 isso n\u00e3o fortalece a viol\u00eancia?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ser\u00e1 que fortalece? Por favor, examinemos esse assunto. Todos n\u00f3s aqui, aparentemente, somos grandes idealistas; aceitamos ideais como meio de modificar-nos. Assim, podemos prosseguir a partir da\u00ed, vagarosamente?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Um ideal n\u00e3o \u00e9 bom ou ruim dependendo do modo como fazemos uso dele? Voc\u00ea pode comprar coisas que s\u00e3o boas ou ruins com o seu poder, o seu dinheiro \u2013 e o mesmo com os seus ideais.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Pensava que isso fosse um assunto antigo, h\u00e1 muito tempo descartado, mas vejo que n\u00e3o \u00e9 assim. Por que temos ideais?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Em boa parte porque fomos educados para ter ideais.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o tivesse sido educado em determinado padr\u00e3o de pensamento, n\u00e3o criaria ideais para si?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Deus nos deu um c\u00e9rebro com o qual pensar, e, com ele, criamos ideais para nos ajudarem a progredir.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Examinemos este assunto com cuidado, passo a passo, para descobrirmos pelo menos uma coisa esta noite \u2013 por que temos ideais. Vejamos se os ideais t\u00eam alguma import\u00e2ncia em nossa vida \u2013 profundamente, n\u00e3o superficialmente \u2013 e toda a implica\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 envolvido nos ideais. Ser\u00e1 que eles t\u00eam alguma import\u00e2ncia? Caso n\u00e3o tenham import\u00e2ncia, ser\u00e1 que podemos abandon\u00e1-los completamente e talvez olhar para as coisas de modo totalmente diferente?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Pensar nos ideais nos d\u00e1 um grande prazer.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Os ideais n\u00e3o seriam uma aproxima\u00e7\u00e3o da luz? N\u00e3o somos atra\u00eddos para o alto sem mesmo o sabermos?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Certamente, estamos insatisfeitos com o que somos, e estamos tentando sair desta situa\u00e7\u00e3o. Se aquilo que somos nos causa sofrimento, ent\u00e3o tentamos afastar-nos do sofrimento e aproximar-nos daquilo que nos d\u00e1 prazer e felicidade.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0As coisas s\u00e3o assim, n\u00e3o s\u00e3o? Estamos insatisfeitos com o que somos e queremos afastar-nos disso, queremos livrar-nos do estado de insatisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 com isso que estamos preocupados, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2013 e n\u00e3o com o ideal. Nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 esta: estamos insatisfeitos com o que somos.<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0N\u00e3o acho que seja assim. Estou perfeitamente satisfeito com o que sou. N\u00e3o vejo por que algu\u00e9m n\u00e3o estaria. (Risadas)<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Se estou perfeitamente satisfeito com o que sou, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 problema algum, n\u00e3o temos um caso. Mas, certamente, a maioria de n\u00f3s est\u00e1 insatisfeita.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Ser\u00e1 que temos ideais porque em cada ser humano existe uma centelha divina?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Senhor, o que significa isso? Como \u00e9 que sabemos disso? Estou insatisfeito com o que sou \u2013 esse \u00e9, em geral, o estado em que se encontra a maioria de n\u00f3s. Sou feio e quero ficar bonito; sou ambicioso e quero ser n\u00e3o-ambicioso porque a ambi\u00e7\u00e3o acarreta dor; sou apegado e quero ser desapegado porque o apego traz tristeza. Essas coisas n\u00e3o passam de formas de insatisfa\u00e7\u00e3o com o que \u00e9, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Esperamos, com a nossa insatisfa\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ar uma mudan\u00e7a, um resultado: esperamos eliminar a insatisfa\u00e7\u00e3o. Se apenas pudermos nos concentrar nessa quest\u00e3o agora, talvez compreendamos tudo.<\/p><p>Estou insatisfeito com o que sou. Ser\u00e1 que essa insatisfa\u00e7\u00e3o surge porque estou me comparando com alguma outra coisa? Voc\u00ea entende a pergunta? Estou insatisfeito comigo mesmo porque tenho visto voc\u00ea feliz, satisfeito. Voc\u00ea tem algo que eu n\u00e3o tenho, e eu gostaria de t\u00ea-lo.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Se pararmos com tudo isso, se ficarmos c\u00f4nscios disso, se soubermos que \u201csou o que sou\u201d \u2013 ent\u00e3o o que \u00e9 que resta para buscar, para construir, pelo que lutar? Ent\u00e3o, por que estamos frustrados?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Acho que, se pudermos ir um pouco mais devagar, sem saltar para conclus\u00f5es, talvez possamos chegar \u00e0 raiz deste problema.<\/p><p>Disseram que temos ideais porque somos divinos. Mas eu n\u00e3o sei se sou divino. Algu\u00e9m pode ter-me dito que h\u00e1 uma centelha divina em mim, mas n\u00e3o sei nada sobre isso, n\u00e3o \u00e9 verdade? Quero descobrir por mim mesmo se existe essa divindade. E n\u00e3o posso descobrir a verdade disso se a minha mente estiver insatisfeita, pois, estando eu insatisfeito, posso criar uma ideia de divindade que me satisfa\u00e7a. Estando insatisfeito psicologicamente, interiormente, toda a minha busca resume-se a encontrar satisfa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu crio uma verdade, um estado, uma realidade, uma bem-aventuran\u00e7a, um ref\u00fagio que me satisfa\u00e7a; portanto, isso n\u00e3o passa de cria\u00e7\u00e3o minha. Mas, se eu puder compreender por que estou insatisfeito, todo o processo e todo o conte\u00fado da insatisfa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o talvez eu compreenda algo muito maior, em vez de simplesmente aferrar-me a uma cria\u00e7\u00e3o do meu pr\u00f3prio desejo.<\/p><p>Portanto, limitemo-nos a este ponto: estamos insatisfeitos. Ent\u00e3o o nosso problema \u00e9: estando insatisfeitos, como \u00e9 que encontramos satisfa\u00e7\u00e3o? Talvez eu esteja sendo grosseiro, mas isso \u00e9 o fato real.<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0(Levantando-se e brandindo a B\u00edblia.) Encontro satisfa\u00e7\u00e3o na leitura da palavra de Deus, fui convertido e, desde ent\u00e3o, tenho lido a palavra de Deus. Estou satisfeito e n\u00e3o quero nada mais.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Sim, senhor. Estamos todos buscando satisfa\u00e7\u00e3o. O senhor encontra satisfa\u00e7\u00e3o na B\u00edblia, em um livro; eu talvez encontre satisfa\u00e7\u00e3o na bebida. O senhor pode encontrar satisfa\u00e7\u00e3o no poder, na posi\u00e7\u00e3o, no prest\u00edgio, no dinheiro; e eu talvez encontre satisfa\u00e7\u00e3o no auto-aperfei\u00e7oamento. Assim, estamos todos buscando satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 assim?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Estamos buscando satisfa\u00e7\u00e3o mediante a realiza\u00e7\u00e3o de um ideal, mediante uma cren\u00e7a. Voc\u00ea pode encontr\u00e1-la de um modo, e eu, de outro modo; o seu pode ser um modo tido como nobre, e o meu pode ser um modo vil. Mas a compuls\u00e3o, o impulso, a tend\u00eancia, \u00e9 de encontrar um estado de satisfa\u00e7\u00e3o que nunca seja perturbado. N\u00e3o \u00e9 isso que desejamos?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. Sim.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Mas essa compuls\u00e3o n\u00e3o \u00e9 logo eliminada quando sa\u00edmos de n\u00f3s mesmos? Como ouvir m\u00fasica \u2013 ela nos tira de n\u00f3s mesmos e das nossas limita\u00e7\u00f5es.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Certamente isso n\u00e3o passa de uma teoria \u2013 se eu fizer \u201cisto\u201d, \u201caquilo\u201d acontecer\u00e1. \u00c9 uma suposi\u00e7\u00e3o. Mas o fato real \u00e9 que estamos insatisfeitos e buscamos satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que voc\u00ea est\u00e1 me escutando, n\u00e3o \u00e9 verdade? Voc\u00ea tem a esperan\u00e7a de descobrir alguma coisa pelo escutar. Voc\u00ea est\u00e1 insatisfeito, est\u00e1 buscando, est\u00e1 infeliz, frustrado, em contradi\u00e7\u00e3o, e deseja descobrir um meio de sair dessa confus\u00e3o, desse caos; e por isso voc\u00ea escuta, na esperan\u00e7a de encontrar a sa\u00edda.<\/p><p>Sugiro que primeiro descubramos por que existe insatisfa\u00e7\u00e3o, em vez de preocupar-nos com o como transform\u00e1-la em satisfa\u00e7\u00e3o. O que significa, de fato, estar insatisfeito?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0\u00c9 porque n\u00e3o temos a compreens\u00e3o da consci\u00eancia suprema.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Senhor! Como poderia uma mente t\u00e3o perturbada, t\u00e3o ansiosa, t\u00e3o frustrada, que est\u00e1 constantemente exigindo, desejando \u2013 como poderia uma mente assim pensar na consci\u00eancia suprema ou em qualquer desses ideais? Eles podem muito bem ser tolices. O fato real \u00e9 que estou perturbado. Por que n\u00e3o come\u00e7armos a partir da\u00ed? Estou insatisfeito; como vou encontrar satisfa\u00e7\u00e3o? Esse \u00e9 o nosso problema, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. Sim.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Senhor, a satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o eu que \u00e9 perturbado? (sic)<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Vamos investigar, senhor. Por favor, vamos devagar, passo a passo. Estou insatisfeito, e voc\u00ea tamb\u00e9m.<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Estou insatisfeito com que sou. Se eu soubesse o que sou, seria muito mais feliz \u2013 mas n\u00e3o sei o que sou.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Todo o problema reside a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 verdade? Estou infeliz e quero encontrar felicidade. Encontro-me num estado de mis\u00e9ria, frustra\u00e7\u00e3o e quero encontrar preenchimento.<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Por qu\u00ea?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Por favor, vamos primeiro ver o fato, em vez de dizer: \u201cPor qu\u00ea?\u201d Vamos examinar isso. Mas \u00e9 isso o fato?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim, \u00e9.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ent\u00e3o a pr\u00f3xima coisa de que nos ocuparemos \u00e9 como realizar uma mudan\u00e7a.Estou infeliz e quero ser feliz. Como \u00e9 que essa mudan\u00e7a ser\u00e1 realizada?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Sendo feliz.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Senhor, se disser a um homem infeliz: \u201cSeja feliz\u201d, isso n\u00e3o ter\u00e1 significado algum, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Vejo que h\u00e1 insatisfa\u00e7\u00e3o dentro de mim e que, afastando-me dela, minha mente est\u00e1 fugindo.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0\u00c9 assim mesmo, n\u00e3o \u00e9? Nunca entendi o inteiro processo da insatisfa\u00e7\u00e3o, mas apenas quero fugir dela, quero sair dela, neg\u00e1-la. Estou insatisfeito, sou infeliz, sou violento; n\u00e3o gosto desse estado e quero modific\u00e1-lo. E tenho o ideal como meio de realizar uma mudan\u00e7a em mim, ou busco algu\u00e9m que me mostre o modo de ficar satisfeito, como ser feliz.O que significa, realmente, que n\u00e3o compreendi o estado em que estou, mas o estou negando.Certamente, \u00e9 assim mesmo. Estou negando o estado em que estou porque estou buscando um estado que penso me dar\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o, felicidade e por\u00e1 fim \u00e0 minha frustra\u00e7\u00e3o. Ao passo que, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos sa\u00edda, se descart\u00e1ssemos todos os ideais e encar\u00e1ssemos o fato de que estamos insatisfeitos, ent\u00e3o poder\u00edamos prosseguir. Mas, enquanto eu estiver fugindo do fato de que estou insatisfeito, por meio do esfor\u00e7o de tornar-me satisfeito, \u00e9 certo que haver\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, quero compreender esse estado de insatisfa\u00e7\u00e3o com todas as suas implica\u00e7\u00f5es, em vez de tentar transform\u00e1-lo em outra coisa.<\/p><p>Ser\u00e1 que compreendemos isso? E podemos, conversando sobre isso, livrar a mente do ideal e enfrentar o fato de que sou violento? \u2013 em vez de perguntar como ser n\u00e3o-violento, o que seria mera fuga ao fato. Posso olhar para o fato?<\/p><p>Podemos examinar isso? Como \u00e9 que enfrento realmente o fato de que sou violento? O que significa olhar para algo? Significa que posso olhar para mim mesmo sem me condenar? Posso olhar para o fato da viol\u00eancia sem introduzir o desejo de n\u00e3o ser violento? A pr\u00f3pria palavra viol\u00eancia tem um sentido condenat\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Est\u00e3o me acompanhando?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Isto \u00e9, fico c\u00f4nscio de que sou violento, invejoso. E, para mim, o que \u00e9 importante \u00e9 compreender esse estado, em vez de tentar modific\u00e1-lo. Porque o pr\u00f3prio desejo de mudar \u00e9 uma fuga ao fato. A menos que isso esteja bem claro, n\u00e3o podemos ir mais longe.<\/p><p>A dificuldade aqui \u00e9 que cada um est\u00e1 seguindo os seus pr\u00f3prios pensamentos, sua pr\u00f3pria maneira de traduzir o que est\u00e1 sendo dito. Podemos examinar esta quest\u00e3o juntos, com muita simplicidade? Sou invejoso. Disseram-me, quando crian\u00e7a, que a inveja \u00e9 errada, e fui condicionado a conden\u00e1-la; portanto, estou insatisfeito com ela. Li nos livros, e tamb\u00e9m disseram-me, que a pessoa precisa viver em paz, num estado de amor, e tudo o mais. Ent\u00e3o, estou tentando mudar o que sou naquilo que devo ser. O \u201cdevo ser\u201d \u00e9 o ideal, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u2013 o qual representa fuga ao que sou. Acho que isso est\u00e1 bastante claro. Portanto, descartemos o ideal de uma vez por todas. Para a maioria de n\u00f3s, essa \u00e9 a coisa mais dif\u00edcil de fazer.<\/p><p>Primeiro a mente precisa livrar-se do ideal. Talvez eu esteja insatisfeito por causa do ideal.Talvez eu sinta que deva ser alguma coisa nobre, e, porque n\u00e3o o sou, estou insatisfeito. Ou, ser\u00e1 que a insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 algo inerente, sem rela\u00e7\u00e3o com a compara\u00e7\u00e3o? Voc\u00eas entendem o problema?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ent\u00e3o eu s\u00f3 conhe\u00e7o a insatisfa\u00e7\u00e3o comparando o ideal com aquilo que sou? E, se n\u00e3o houvesse nenhuma compara\u00e7\u00e3o, eu estaria ainda insatisfeito? Se eu n\u00e3o pensasse em termos de mais ou de menos, haveria insatisfa\u00e7\u00e3o? A insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente ao meu pensamento ao meu ser? Conhe\u00e7o o ideal, estou sendo ensinado sobre ele, e tamb\u00e9m quero melhorar, tornar-me alguma coisa maior \u2013 portanto, estou insatisfeito. Mas, enquanto eu estiver pensando em termos de tempo \u2013 ou seja, em tornar-me alguma coisa no futuro \u2013 precisa haver insatisfa\u00e7\u00e3o, certo? Portanto, ser\u00e1 que a mente consegue livrar-se de todas as compara\u00e7\u00f5es?<\/p><p>Voc\u00ea est\u00e1 me escutando porque deseja alcan\u00e7ar o estado de que falo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Se eu o alcancei ou n\u00e3o \u2013 isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Voc\u00ea quer alcan\u00e7ar esse estado. Por qu\u00ea? Porque voc\u00ea est\u00e1 insatisfeito, est\u00e1 infeliz, frustrado, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada e quer ser alguma coisa. E esse esfor\u00e7o para sair do estado em que voc\u00ea est\u00e1 e chegar ao estado que voc\u00ea pensa que deve alcan\u00e7ar, \u00e9 chamado processo de crescimento, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Mas se eu puder compreender o atual estado em que estou, ent\u00e3o talvez toda essa ideia de tornar-me alguma coisa, toda a ideia de exigir tempo para crescer, pode ser irrelevante, pode ser completamente falsa. Penso que \u00e9. Ent\u00e3o o problema \u00e9 que estou insatisfeito \u2013 e j\u00e1 n\u00e3o estou preocupado com o como alcan\u00e7ar satisfa\u00e7\u00e3o, pois vejo que se trata de uma fuga do fato real da insatisfa\u00e7\u00e3o, da infelicidade, da frustra\u00e7\u00e3o. O fato real \u00e9 que estou frustrado porque busco preenchimento. N\u00e3o \u00e9 verdade? Busco preenchimento, portanto, estou frustrado. Ent\u00e3o pergunto-me se existe preenchimento poss\u00edvel, afinal. Compreende? Enquanto eu estiver buscando preenchimento, haver\u00e1 o medo de n\u00e3o me preencher. Portanto, n\u00e3o seria correto descobrir por mim mesmo se afinal existe preenchimento? \u2013 em vez de como preencher-me, como livrar-me da frustra\u00e7\u00e3o na qual fui apanhado. Pois, enquanto eu buscar preenchimento em qualquer de suas formas, tem de haver frustra\u00e7\u00e3o. Certamente, isso \u00e9 um fato.<\/p><p>Ent\u00e3o, por que busco preenchimento? \u2013 no meu filho, no meu emprego, e de todas as outras formas; sabemos o que isso significa, sem mais explica\u00e7\u00f5es. Talvez n\u00e3o haja nenhuma possibilidade de preenchimento, e, se buscamos preenchimento, haver\u00e1 frustra\u00e7\u00e3o, que resulta em sofrimento. Se eu puder descobrir a verdade \u2013 se h\u00e1 mesmo preenchimento \u2013 ent\u00e3o talvez eu possa ficar livre da frustra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, existe preenchimento? Essa \u00e9 a quest\u00e3o em sua inteireza.Est\u00e1 claro?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Em nossa vida di\u00e1ria, h\u00e1 urg\u00eancia de preenchimento. E tal urg\u00eancia se faz acompanhar de frustra\u00e7\u00e3o, pesar, tristeza, inveja e tudo o mais \u2013 coisas com as quais estamos todos familiarizados. Ent\u00e3o, sempre h\u00e1 uma lacuna, um senso de insufici\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 mesmo?Posso realizar-me em dada dire\u00e7\u00e3o, mas sentir-me miser\u00e1vel noutra. Isso continua indefinidamente, e, assim, a frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo cont\u00ednuo. Assim, o meu problema \u00e9 descobrir a verdade, ou seja, se existe preenchimento, realiza\u00e7\u00e3o. E a raz\u00e3o pela qual queremos realizar-nos.<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Por termos medo do estado de n\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o, temos medo de ficar nesse estado.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Investiguemos, olhemos para dentro de n\u00f3s mesmos. O preenchimento \u00e9 um estado transit\u00f3rio; a compuls\u00e3o muda constantemente. O estado de preenchimento permanente n\u00e3o existe, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ent\u00e3o, por que existe essa compuls\u00e3o de preencher-se?<\/p><p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong>\u00a0Porque ansiamos por perman\u00eancia.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ent\u00e3o, porque em n\u00f3s mesmos n\u00e3o somos permanentes, porque nada h\u00e1 em n\u00f3s que seja enriquecedor, porque somos interiormente pobres, infelizes, por isso buscamos preenchimento, tentamos acumular, ser alguma coisa. Isso \u00e9 a raiz da quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ser\u00e1 que percebemos isso?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Prossigamos a partir da\u00ed. Estamos confusos, estamos sozinhos, somos interiormente insuficientes \u2013 isso \u00e9 um fato. Qualquer a\u00e7\u00e3o que evite esse fato \u00e9 uma fuga, n\u00e3o \u00e9 mesmo? E uma das coisas mais dif\u00edceis \u00e9 n\u00e3o fugir. Porque, olhar para o fato, consider\u00e1-lo, ficar c\u00f4nscio dele, implica n\u00e3o condenar o fato, n\u00e3o o comparar, n\u00e3o o avaliar. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que podemos, n\u00e3o teoricamente, mas de fato, experimentar a coisa da qual estamos falando? Porque ent\u00e3o veremos que \u00e9 poss\u00edvel ser totalmente livre desse senso de insufici\u00eancia, dessa causa-raiz do sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0O senhor quer dizer que devemos ficar satisfeitos com o que somos?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0N\u00e3o, senhor \u2013 isso s\u00f3 leva \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, \u00e0 imobilidade, \u00e0 morte. Estou mostrando que qualquer interpreta\u00e7\u00e3o do fato est\u00e1 baseada ou na satisfa\u00e7\u00e3o ou na insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Ent\u00e3o, posso olhar para o fato da insufici\u00eancia interna sem compara\u00e7\u00e3o, sem julgamento? Posso olhar para isso sem temor? O medo do fato n\u00e3o estaria me obrigando a fazer todas essas coisas, for\u00e7ando-me a perseguir o ideal? Podemos compreender agora que \u00e9 o medo que nos leva a comparar? \u2013 medo de algo que n\u00e3o conhecemos. J\u00e1 demos a isso o nome de insufici\u00eancia, de solid\u00e3o, de sofrimento, de confus\u00e3o; e, tendo-lhe dado um nome, desse modo a condenamos na fuga ao fato. Quando n\u00e3o condenamos, n\u00e3o julgamos, n\u00e3o avaliamos nem comparamos, ent\u00e3o ficamos s\u00f3 com o medo. At\u00e9 aqui, est\u00e1 claro?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim. Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Medo de qu\u00ea? Voc\u00ea entende a pergunta? Tenho medo de um estado que chamo de \u2018insufici\u00eancia\u2019. N\u00e3o conhe\u00e7o esse estado; nunca realmente olhei para ele, mas tenho medo dele. Tendo medo dele, fujo para longe dele. Mas agora n\u00e3o estou fugindo mediante compara\u00e7\u00e3o ou ideais, pois vejo a falsidade da fuga. Ent\u00e3o, fico s\u00f3 com o medo de algo sobre o que nada sei. N\u00e3o \u00e9 isso mesmo?<\/p><p><strong>Audit\u00f3rio:<\/strong>\u00a0Sim.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Se voc\u00eas est\u00e3o acompanhando realmente a explana\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o verbalmente, n\u00e3o intelectualmente \u2013 ver\u00e3o por si mesmos esse processo se revelando e as profundezas a que se pode ir. Ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o tenho ideais; eles j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam significado. J\u00e1 n\u00e3o luto para alcan\u00e7ar. O fato \u00e9 que estou com medo de algo sobre o que nada sei, mas, se eu parar de fugir desse algo, ent\u00e3o fico com o fato e com o medo. Se eu continuar observando o medo, se eu perguntar \u201cComo me livro do medo?\u201d, ent\u00e3o isso seria outra fuga ao fato, n\u00e3o seria? Portanto, estou agora preocupado com a compreens\u00e3o do que \u00e9, e percebo que dar nome a uma coisa \u2013 como \u201cvazio\u201d, \u201csolid\u00e3o\u201d, \u201cinsufici\u00eancia\u201d \u2013 \u00e9 o que realmente cria o medo. Rotular a coisa causou a rea\u00e7\u00e3o de medo \u00e0quele r\u00f3tulo.<\/p><p>Ent\u00e3o, ser\u00e1 que a mente pode ficar c\u00f4nscia da coisa sem condena\u00e7\u00e3o, sem julgamento, sem fuga, sem lhe dar um nome? Isso \u00e9 muit\u00edssimo dif\u00edcil, pois a maioria de n\u00f3s est\u00e1 t\u00e3o condicionada a perseguir o ideal, que isso nos impede de olhar para o fato real. N\u00e3o somos capazes de olhar para o fato quando h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o, quando a mente lhe d\u00e1 um r\u00f3tulo, um nome. Mas, quando n\u00e3o se d\u00e1 nome ao fato, quando n\u00e3o h\u00e1 fuga ao fato por meio dos ideais, da compara\u00e7\u00e3o, do julgamento, ent\u00e3o o que \u00e9 que resta? H\u00e1 alguma coisa que possa ser chamada de insufici\u00eancia? Existe aquela compuls\u00e3o ao preenchimento que gera frustra\u00e7\u00e3o?<\/p><p>Assim, come\u00e7amos a descobrir como a mente tem sido incapaz de olhar para qualquer coisa sem todo esse processo confuso, contradit\u00f3rio. S\u00f3 quando a mente \u00e9 capaz de abandonar tudo isso \u2013 n\u00e3o mediante qualquer esfor\u00e7o, mas porque v\u00ea a verdade de tudo isso \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 cessa\u00e7\u00e3o da inveja, a completa cessa\u00e7\u00e3o. Tal mente j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 sociedade, a nenhuma cultura \u2013 pois toda a nossa cultura se fundamenta na inveja. Ent\u00e3o, descobriremos que a mente j\u00e1 n\u00e3o busca, pois nada mais resta para buscar. Ent\u00e3o tal mente est\u00e1 realmente tranquila.<\/p><p>Ater-se a repetir o que foi dito n\u00e3o tem significado nenhum. Mas, realmente experimentar isso mediante autoconhecimento e n\u00e3o para acumular o que foi experimentado \u2013 pois a acumula\u00e7\u00e3o distorce todas as experi\u00eancias futuras \u2013 ficar c\u00f4nscio de tudo isso resulta na verdade, naquela extraordin\u00e1ria liberdade que vem por meio da completa solid\u00e3o. A mente que estiver completamente s\u00f3, incontaminada, n\u00e3o fugindo, \u00e9 capaz de receber aquilo que \u00e9 verdadeiro.<\/p><p>18 de junho de 1955<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2\u00aa\u00a0palestra em Londres Acho que valeria a pena investigar completamente um problema, com aquela percep\u00e7\u00e3o da qual estivemos falando ontem, para ver se podemos examinar todo o processo \u2013 n\u00e3o teoricamente, mas realmente \u2013 e descobrir por n\u00f3s mesmos a verdade do que est\u00e1 sendo dito. Para esse fim, parece-me muito importante saber como escutar. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1734","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1734"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1741,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1734\/revisions\/1741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}