{"id":1601,"date":"2022-12-18T16:27:55","date_gmt":"2022-12-18T16:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1601"},"modified":"2022-12-18T16:28:31","modified_gmt":"2022-12-18T16:28:31","slug":"28-04-1946","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1601","title":{"rendered":"28\/04\/1946"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1601\" class=\"elementor elementor-1601\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-6188746e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"6188746e\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-15ed7d90\" data-id=\"15ed7d90\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-309c0a97 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"309c0a97\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quarta Palestra em Ojai<\/strong><\/p><p>\u00a0<\/p><p>Nas \u00faltimas tr\u00eas palestras estivemos considerando esta intelig\u00eancia que se desenvolve atrav\u00e9s das atividades e h\u00e1bitos do ego \u2013 este desejo que est\u00e1 constantemente acumulando e com o qual o pensamento se identifica como o \u2018eu\u2019 e o \u2018meu\u2019. Esse h\u00e1bito acumulativo, identificado, \u00e9 chamado intelig\u00eancia. Este h\u00e1bito-mem\u00f3ria encadeado ret\u00e9m o pensamento e, assim, a intelig\u00eancia fica aprisionada no ego. Como pode essa intelig\u00eancia, essa mente que \u00e9 pequena, estreita, cruel, nacionalista, invejosa, compreender o real? Como pode o pensamento, que \u00e9 o resultado do tempo, da atividade autoprotetora, compreender aquilo que n\u00e3o pertence ao tempo?<\/p><p>Algumas vezes experimentamos um estado de tranquilidade, de extraordin\u00e1ria clareza e alegria, quando a mente est\u00e1 serena e quieta. Esses momentos chegam inesperadamente, sem convite. Tal experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o resultado de pensamento calculado, disciplinado. Ela ocorre quando o pensamento est\u00e1 esquecido de si, quando o pensamento deixou de se tornar, quando a mente n\u00e3o est\u00e1 no conflito dos problemas criados por ela mesma. Ent\u00e3o nosso problema n\u00e3o \u00e9 como tal momento criativo, alegre pode surgir e ser mantido, mas como provocar a cessa\u00e7\u00e3o do pensamento auto-expansivo, o que n\u00e3o implica auto-imola\u00e7\u00e3o, mas a transcend\u00eancia das atividades do ego. Quando uma m\u00e1quina est\u00e1 girando muito r\u00e1pido, como um ventilador com v\u00e1rias p\u00e1s, as partes separadas n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis, mas parecem uma coisa s\u00f3. Assim o ego, o \u2018eu\u2019, parece ser uma entidade \u00fanica, mas se sua atividade puder ser diminu\u00edda, ent\u00e3o perceberemos que n\u00e3o \u00e9 uma entidade \u00fanica, mas formada por muitos desejos e buscas separadas e opostas. Esses desejos separados e esperan\u00e7as, medos e alegrias formam o ego. O ego \u00e9 um termo para encobrir o anseio em suas diferentes formas. Para compreender o ego deve haver conscientiza\u00e7\u00e3o do anseio em seus m\u00faltiplos aspectos. A conscientiza\u00e7\u00e3o passiva, o discernimento sem escolha, revela os caminhos do ego, trazendo liberdade da escravid\u00e3o. Assim, quando a mente est\u00e1 tranquila e livre de sua pr\u00f3pria atividade e tagarelice, h\u00e1 suprema sabedoria.<\/p><p>Assim, nosso problema \u00e9 como libertar o pensamento de suas experi\u00eancias acumuladas, mem\u00f3rias. Como pode esse ego cessar de existir? A experi\u00eancia profunda e verdadeira s\u00f3 acontece quando a atividade desta intelig\u00eancia cessa. Vemos que a menos que haja uma experi\u00eancia da verdade, nenhum de nossos problemas pode ser resolvido, seja sociol\u00f3gico, religioso, ou pessoal. O conflito n\u00e3o pode chegar a um fim simplesmente se rearrumando fronteiras ou reorganizando valores econ\u00f4micos ou impondo uma nova ideologia; ao longo dos s\u00e9culos tentamos todos esses caminhos, mas o conflito e o sofrimento continuaram. A menos que haja uma conscientiza\u00e7\u00e3o do real, simplesmente podar galhos de nossa atividade de autoexpans\u00e3o \u00e9 de pouca utilidade, pois o problema central permanece sem solu\u00e7\u00e3o. A menos que descubramos a verdade n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para nossos sofrimentos e problemas. A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na experi\u00eancia direta da verdade quando a mente est\u00e1 im\u00f3vel, na tranquilidade da conscientiza\u00e7\u00e3o, na abertura da receptividade.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Poderia explicar novamente o que voc\u00ea quer dizer?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> \u00c0s vezes temos experi\u00eancias religiosas, algumas vagas, algumas definidas \u2013 experi\u00eancias de intensa devo\u00e7\u00e3o ou alegria, de estar profundamente vulner\u00e1vel, de fugaz uni\u00e3o com todas as coisas \u2013 tentamos utilizar essas experi\u00eancias em nossas dificuldades e sofrimentos. Essas experi\u00eancias s\u00e3o numerosas, mas nosso pensamento \u2013 preso no tempo, no tumulto e dor \u2013 tenta us\u00e1-las como est\u00edmulo para superar nossos conflitos. Ent\u00e3o dizemos que Deus, ou a verdade, nos ajudar\u00e1 em nossas dificuldades, mas essas experi\u00eancias n\u00e3o resolvem, de fato, nosso sofrimento e confus\u00e3o. Tais momentos de profunda experi\u00eancia surgem quando o pensamento n\u00e3o est\u00e1 ativo em suas mem\u00f3rias de autoprote\u00e7\u00e3o; essas experi\u00eancias s\u00e3o independentes de nosso esfor\u00e7o, e quando tentamos us\u00e1-las como estimulantes para nos fortalecer em nossas lutas, elas s\u00f3 favorecem a expans\u00e3o do ego e sua Intelig\u00eancia peculiar. E voltamos a nossa pergunta: \u201cComo pode esta intelig\u00eancia, t\u00e3o diligentemente cultivada, cessar?\u201d Ela s\u00f3 pode cessar por meio da conscientiza\u00e7\u00e3o passiva.<\/p><p>Conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 de momento a momento, ela n\u00e3o \u00e9 o efeito cumulativo de mem\u00f3rias autoprotetoras. Conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 determina\u00e7\u00e3o nem \u00e9 a\u00e7\u00e3o da vontade. Conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a rendi\u00e7\u00e3o completa e incondicional ao que \u00e9, sem racionaliza\u00e7\u00e3o, sem a divis\u00e3o do observador e do observado. Como a conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o-acumulativa, n\u00e3o-residual, ela n\u00e3o forma o ego, positivamente ou negativamente. A conscientiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre no presente e, assim, n\u00e3o identifica, n\u00e3o repete; nem cria h\u00e1bito.<\/p><p>Tome, por exemplo, o h\u00e1bito de fumar e experimente com ele em conscientiza\u00e7\u00e3o. Esteja consciente de fumar, n\u00e3o condene, racionalize ou aceite \u2013 simplesmente esteja consciente. Se voc\u00ea estiver consciente assim, h\u00e1 a cessa\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito; se voc\u00ea estiver consciente assim, n\u00e3o haver\u00e1 recorr\u00eancia dele; mas se voc\u00ea n\u00e3o estiver consciente, o h\u00e1bito persistir\u00e1. Essa conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o para cessar ou ceder.<\/p><p>Esteja consciente; existe uma diferen\u00e7a fundamental entre estar e se tornar. Para se tornar consciente voc\u00ea faz esfor\u00e7o, e esfor\u00e7o implica resist\u00eancia e tempo e leva ao conflito. Se voc\u00ea estiver consciente no momento, n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o, nem continuidade da intelig\u00eancia autoprotetora. Voc\u00ea est\u00e1 consciente ou n\u00e3o est\u00e1; o desejo de estar consciente \u00e9 s\u00f3 a atividade de quem dorme, o sonhador. A conscientiza\u00e7\u00e3o revela o problema completamente, integralmente, sem nega\u00e7\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o, justifica\u00e7\u00e3o ou identifica\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a liberdade que estimula a compreens\u00e3o. Conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo unit\u00e1rio do observador e do observado.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Pode a receptividade aberta, im\u00f3vel da mente chegar com a a\u00e7\u00e3o da vontade ou desejo?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Voc\u00ea pode conseguir aquietar a mente determinadamente, mas qual \u00e9 o resultado de tal esfor\u00e7o? A morte, n\u00e3o? Voc\u00ea pode conseguir silenciar a mente, mas o pensamento continua pequeno, invejoso, contradit\u00f3rio, n\u00e3o? Pelo esfor\u00e7o, por um ato da vontade, achamos que um estado sem esfor\u00e7o pode ser alcan\u00e7ado e poderemos experimentar o \u00eaxtase do real. A experi\u00eancia de inexplic\u00e1vel alegria ou intensa devo\u00e7\u00e3o ou profunda compreens\u00e3o s\u00f3 chega quando h\u00e1 exist\u00eancia sem esfor\u00e7o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> N\u00e3o existem dois tipos de intelig\u00eancia, aquela com que funcionamos diariamente e a outra que \u00e9 mais elevada, que orienta, controla, e \u00e9 ben\u00e9fica?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> O ego, em nome de sua pr\u00f3pria perman\u00eancia, n\u00e3o se divide no elevado e no baixo, o controlador e o controlado? Essa divis\u00e3o n\u00e3o surge do desejo da pr\u00f3pria expans\u00e3o continuada de si? Conquanto astuciosamente ele possa se dividir, o ego \u00e9 ainda resultado do anseio, ele busca ainda diferentes objetivos a fim de preencher a si mesmo. Uma mente pequena n\u00e3o pode formular algo que n\u00e3o seja pequeno tamb\u00e9m. A mente \u00e9 essencialmente limitada e o que quer que ela crie faz parte dela mesma. Seus deuses, seus valores, seus objetivos e atividades s\u00e3o estreitos e mensur\u00e1veis e, assim, ela n\u00e3o pode compreender o que n\u00e3o faz parte dela \u2013 o imensur\u00e1vel.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Pode um pensamento pequeno ir al\u00e9m de si mesmo?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Como pode? A gan\u00e2ncia \u00e9 ainda gan\u00e2ncia mesmo que seja para alcan\u00e7ar o para\u00edso. S\u00f3 quando ele est\u00e1 consciente de sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o o pensamento limitado pode cessar. O pensamento limitado n\u00e3o pode se tornar livre; quando a limita\u00e7\u00e3o cessa, h\u00e1 liberdade. Se voc\u00ea experimentar com a conscientiza\u00e7\u00e3o, descobrir\u00e1 a verdade disso.<\/p><p>\u00c9 a mente pequena que cria problemas para si, e pela conscientiza\u00e7\u00e3o da causa dos problemas, o ego, eles s\u00e3o dissolvidos; Estar consciente da estreiteza e seus muitos resultados implica na profunda compreens\u00e3o dele em todos os diferentes n\u00edveis da consci\u00eancia \u2013 pequenez nas coisas, na rela\u00e7\u00e3o, nas ideias. Quando estamos conscientes de sermos pequenos ou violentos ou invejosos, fazemos um esfor\u00e7o para n\u00e3o sermos; condenamos, pois desejamos ser outra coisa. Essa atitude condenat\u00f3ria p\u00f5e fim \u00e0 compreens\u00e3o do que \u00e9 e de seu processo. O desejo de dar fim \u00e0 gan\u00e2ncia \u00e9 outra forma de autoafirma\u00e7\u00e3o e, por isso, \u00e9 causa de conflito e dor continuada.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> O que h\u00e1 de errado com o pensamento intencional se ele \u00e9 l\u00f3gico?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Se o pensador est\u00e1 inconsciente de si mesmo, embora ele possa ser intencional, sua l\u00f3gica o levar\u00e1 \u00e0 mis\u00e9ria inevitavelmente; se ele estiver no comando, numa posi\u00e7\u00e3o de poder, ele traz mis\u00e9ria e destrui\u00e7\u00e3o para os outros. \u00c9 isso que est\u00e1 acontecendo no mundo, n\u00e3o? Sem autoconhecimento o pensamento n\u00e3o se baseia na realidade, est\u00e1 sempre em contradi\u00e7\u00e3o e suas atividades s\u00e3o prejudiciais e nocivas.<\/p><p>Voltando a nossa quest\u00e3o: s\u00f3 pela conscientiza\u00e7\u00e3o pode haver a cessa\u00e7\u00e3o da causa do conflito. Esteja consciente de qualquer h\u00e1bito de pensamento ou a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o voc\u00ea reconhecer\u00e1 o processo condenat\u00f3rio, racional que impede a compreens\u00e3o. Pela conscientiza\u00e7\u00e3o \u2013 a leitura do livro do h\u00e1bito p\u00e1gina a p\u00e1gina \u2013 vem o autoconhecimento. \u00c9 a verdade que liberta, n\u00e3o seu esfor\u00e7o para ser livre. A conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o de nossos problemas; devemos experimentar com ela e descobrir sua verdade. Seria loucura simplesmente aceitar; aceitar n\u00e3o \u00e9 compreender. Aceita\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato positivo que impede a experimenta\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o. A compreens\u00e3o que chega com experi\u00eancia e autoconhecimento traz confian\u00e7a.<\/p><p>Esta confian\u00e7a pode ser chamada f\u00e9. N\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 do tolo; n\u00e3o \u00e9 f\u00e9 em alguma coisa. A ignor\u00e2ncia pode ter f\u00e9 na sabedoria, a escurid\u00e3o na luz, a crueldade no amor, mas essa f\u00e9 \u00e9 ainda ignor\u00e2ncia. Esta confian\u00e7a, ou f\u00e9, de que estou falando vem pela experimenta\u00e7\u00e3o no autoconhecimento, n\u00e3o por aceita\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a. A autoconfian\u00e7a que muitos t\u00eam \u00e9 resultado da ignor\u00e2ncia, da aquisi\u00e7\u00e3o, autoglorifica\u00e7\u00e3o, ou da capacidade. A confian\u00e7a de que estou falando \u00e9 compreens\u00e3o, n\u00e3o \u2018eu compreendi\u2019, mas compreens\u00e3o sem autoidentifica\u00e7\u00e3o. A confian\u00e7a ou f\u00e9 em alguma coisa, conquanto nobre, traz apenas obstina\u00e7\u00e3o, e obstina\u00e7\u00e3o \u00e9 outro termo para credulidade. Os espertos destru\u00edram a f\u00e9 cega, mas quando se encontram em s\u00e9rio conflito ou sofrimento, aceitam a f\u00e9 ou se tornam c\u00ednicos. Crer n\u00e3o \u00e9 ser religioso; ter f\u00e9 em alguma coisa que \u00e9 criada pela mente n\u00e3o \u00e9 estar aberto para o real. A confian\u00e7a surge; ela n\u00e3o pode ser fabricada pela mente; a confian\u00e7a vem com experimento e descoberta; n\u00e3o experimento com cren\u00e7a, teoria, ou mem\u00f3ria, mas experimenta\u00e7\u00e3o com autoconhecimento. Esta confian\u00e7a, ou f\u00e9, n\u00e3o \u00e9 autoimposta nem se identifica com cren\u00e7a, formula\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a. Ela n\u00e3o \u00e9 o resultado de desejo expandido. Experimentando com a conscientiza\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma descoberta que \u00e9 libertadora em sua compreens\u00e3o. Este autoconhecimento pela conscientiza\u00e7\u00e3o passiva \u00e9 de momento a momento, sem acumula\u00e7\u00e3o; \u00e9 infinito, verdadeiramente criativo. Pela conscientiza\u00e7\u00e3o vem a vulnerabilidade \u00e0 realidade.<\/p><p>Para estar aberto, vulner\u00e1vel ao real, o pensamento deve deixar de ser acumulativo. N\u00e3o \u00e9 que esse pensamento-sentimento deve se tornar n\u00e3o-gan\u00e2ncia \u2013 o que \u00e9 ainda acumula\u00e7\u00e3o, uma forma negativa de autoexpans\u00e3o \u2013 mas ele deve ser n\u00e3o-ganancioso. Uma mente gananciosa \u00e9 uma mente em conflito; uma mente gananciosa \u00e9 sempre medrosa, invejosa em seu crescimento pr\u00f3prio e realiza\u00e7\u00e3o. Tal mente est\u00e1 sempre mudando os objetos de seu desejo, e essa mudan\u00e7a \u00e9 considerada crescimento; a mente gananciosa que renuncia ao mundo a fim de buscar a realidade, Deus, \u00e9 ainda gananciosa; a gan\u00e2ncia \u00e9 sempre inquieta, sempre em busca de crescimento, desempenho, e essa atividade inquieta cria intelig\u00eancia autoafirmativa, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de compreender o real.<\/p><p>A gan\u00e2ncia \u00e9 um problema complexo! Para viver no mundo da gan\u00e2ncia sem gan\u00e2ncia \u00e9 preciso profunda compreens\u00e3o; viver simplesmente \u2013 ganhando o sustento corretamente num mundo organizado a partir da agress\u00e3o e expans\u00e3o econ\u00f4mica \u2013 s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel para aqueles que est\u00e3o descobrindo riquezas interiores.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> No pr\u00f3prio ato de vir aqui n\u00e3o estamos em busca de alguma centelha que nos ilumine?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> O que voc\u00ea est\u00e1 buscando?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Sabedoria e conhecimento.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Por que voc\u00ea busca?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Buscamos preencher o profundo vazio interior oculto.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Estamos, ent\u00e3o, buscando alguma coisa para preencher nosso vazio; o preenchimento n\u00f3s chamamos de conhecimento, sabedoria, verdade e assim por diante. Ent\u00e3o n\u00e3o estamos em busca da verdade, sabedoria, mas de algo para preencher nossa dolorosa solid\u00e3o. Se pudermos encontrar aquilo que possa enriquecer nossa pobreza interior, pensamos que nossa busca terminar\u00e1. Ora, pode alguma coisa preencher esse vazio? Alguns est\u00e3o dolorosamente conscientes dele e outros n\u00e3o; alguns procuraram escapar com atividade, com est\u00edmulo, com rituais misteriosos, ideologias e assim por diante; outros est\u00e3o conscientes desse vazio, mas n\u00e3o encontraram um modo de encobri-lo. A maioria de n\u00f3s conhece este medo, este p\u00e2nico do nada. Procuramos superar esse medo, esse vazio; procuramos alguma coisa que possa curar a penosa agonia da defici\u00eancia interior. Enquanto estiver convencido de que pode encontrar alguma sa\u00edda, voc\u00ea continuar\u00e1 procurando, mas n\u00e3o faz parte da sabedoria ver que toda sa\u00edda, por mais sedutora que seja, \u00e9 in\u00fatil? Quando a verdade sobre a sa\u00edda se evidenciar, voc\u00ea persistir\u00e1 em sua busca? Obviamente n\u00e3o. Ent\u00e3o aceitamos inevitavelmente o que; esta rendi\u00e7\u00e3o completa a o que \u00e9, \u00e9 a verdade libertadora, n\u00e3o a obten\u00e7\u00e3o dos objetos da busca.<\/p><p>Nossa vida \u00e9 conflito, dor; ansiamos por seguran\u00e7a, perman\u00eancia, mas estamos presos na rede do impermanente. N\u00f3s somos o impermanente. Pode o impermanente encontrar o eterno, o infinito? Pode a ilus\u00e3o encontrar a realidade? Pode a ignor\u00e2ncia encontrar a sabedoria? S\u00f3 com o fim do impermanente surge o permanente; com o fim da ignor\u00e2ncia existe sabedoria. Estamos interessados no fim do impermanente, do ego.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Um de nossos grandes mestres disse, \u201cProcure e voc\u00ea encontrar\u00e1.\u201d N\u00e3o \u00e9 vantajoso procurar?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Com essa pergunta n\u00f3s nos revelamos e como estamos pouco conscientes dos caminhos de nosso pensamento. Estamos continuamente pensando no que \u00e9 vantajoso para n\u00f3s e o que desejamos. Voc\u00ea considera que uma mente que est\u00e1 buscando proveito pode encontrar a verdade? Se ela estiver buscando a verdade como uma vantagem, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 mais em busca da verdade. A verdade est\u00e1 al\u00e9m e acima de toda vantagem pessoal e ganho. Uma mente em busca de ganho, aquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode encontrar a verdade. A procura de ganho \u00e9 por seguran\u00e7a, por ref\u00fagio; e a verdade n\u00e3o \u00e9 uma seguran\u00e7a, um ref\u00fagio. A verdade \u00e9 o libertador, afastando todo ref\u00fagio e seguran\u00e7a.<\/p><p>Al\u00e9m disso, por que voc\u00ea procura? N\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea est\u00e1 em confus\u00e3o e dor? Em vez de procurar uma sa\u00edda por meio de atividade, psic\u00f3logos, sacerdotes, rituais, voc\u00ea n\u00e3o deve procurar a causa do conflito e do sofrimento em voc\u00ea mesmo? A causa \u00e9 o ego, ansiar. A liberta\u00e7\u00e3o da confus\u00e3o e da dor est\u00e1 em voc\u00ea mesmo, e outra pessoa n\u00e3o pode libertar voc\u00ea.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Se pudermos abrir nossa consci\u00eancia para a verdade, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> N\u00f3s voltamos a essa pergunta de diferentes formas vezes e vezes. Pode a mente, a consci\u00eancia de si, que \u00e9 produto do tempo, compreender ou experimentar o infinito? Quando a mente busca, ela encontrar\u00e1 a verdade, Deus? Quando a mente afirma que deve estar aberta para a realidade, ela \u00e9 capaz disso? Se o pensamento estiver consciente de que \u00e9 produto da ignor\u00e2ncia, do ego limitado, ent\u00e3o existe uma possibilidade para ele cessar de formular, imaginar, estar ocupado com ele mesmo. S\u00f3 pela conscientiza\u00e7\u00e3o o pensamento pode transcender a si mesmo, n\u00e3o pela vontade, que \u00e9 outra forma de desejo auto expansivo. Quando estamos alegres? \u00c9 resultado de c\u00e1lculo, de um ato da vontade? Isso acontece quando os problemas conflituosos e demandas est\u00e3o ausentes. Como o lago fica calmo quando o vento para, do mesmo modo a mente fica im\u00f3vel quando o anseio, com seus problemas, cessa. A mente n\u00e3o pode se induzir a ficar quieta, ficar im\u00f3vel; o lago n\u00e3o fica calmo at\u00e9 o vento cessar. At\u00e9 que os conflitos que o ego cria cessem, n\u00e3o pode haver tranquilidade. A mente tem que compreender a si mesma e n\u00e3o tentar fugir para a ilus\u00e3o, ou buscar alguma coisa que ela \u00e9 incapaz de experimentar ou compreender.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Existe uma t\u00e9cnica para se estar consciente?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Em que implica essa pergunta? Voc\u00ea procura um m\u00e9todo com o qual possa aprender a estar consciente. Conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o resultado de pr\u00e1tica, h\u00e1bito, ou tempo. Como um dente que causa intensa dor tem que ser visto imediatamente, tamb\u00e9m o sofrimento, se intenso, exige al\u00edvio urgente. Mas n\u00f3s procuramos uma sa\u00edda ou uma explica\u00e7\u00e3o para ele; evitamos a quest\u00e3o real que \u00e9 o ego. Porque n\u00e3o estamos enfrentando nosso conflito, nosso sofrimento, nos asseguramos pregui\u00e7osamente que devemos fazer um esfor\u00e7o para estar conscientes, e demandamos uma t\u00e9cnica que nos torne conscientes.<\/p><p>Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 por um ato da vontade que a verdade \u00e9 revelada, mas por uma vulnerabilidade tranquila o real surge.<\/p><p>\u00a0<\/p><p>28 de abril de 1946<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarta Palestra em Ojai \u00a0 Nas \u00faltimas tr\u00eas palestras estivemos considerando esta intelig\u00eancia que se desenvolve atrav\u00e9s das atividades e h\u00e1bitos do ego \u2013 este desejo que est\u00e1 constantemente acumulando e com o qual o pensamento se identifica como o \u2018eu\u2019 e o \u2018meu\u2019. Esse h\u00e1bito acumulativo, identificado, \u00e9 chamado intelig\u00eancia. 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