{"id":1593,"date":"2022-12-18T16:26:46","date_gmt":"2022-12-18T16:26:46","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1593"},"modified":"2022-12-18T16:27:18","modified_gmt":"2022-12-18T16:27:18","slug":"21-04-1946","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1593","title":{"rendered":"21\/04\/1946"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1593\" class=\"elementor elementor-1593\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-d2be925 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"d2be925\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-31f4b4be\" data-id=\"31f4b4be\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-612b6e1a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"612b6e1a\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Terceira Palestra em Ojai<\/strong><\/p><p>\u00a0<\/p><p>Sem a experi\u00eancia do real n\u00e3o pode haver liberdade do conflito e do sofrimento; s\u00f3 o real pode transformar nossa vida, n\u00e3o uma simples resolu\u00e7\u00e3o. Toda atividade do ego com suas resolu\u00e7\u00f5es e nega\u00e7\u00f5es deve cessar para o real surgir. Para compreender as atividades do ego, deve haver s\u00e9rio empenho, vigil\u00e2ncia sustentada e interesse. Muitos de n\u00f3s nos abra\u00e7amos as nossas cren\u00e7as ou experi\u00eancias, e isso s\u00f3 gera obstina\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A seriedade n\u00e3o depende de disposi\u00e7\u00f5es, de circunst\u00e2ncias, nem de est\u00edmulo. Alguns que est\u00e3o tentando viver uma vida s\u00e9ria s\u00e3o en\u00e9rgicos em alguma linha de pensamento particular, cren\u00e7a ou disciplina e, assim, se tornam intolerantes e r\u00edgidos. Tal esfor\u00e7o en\u00e9rgico impede a compreens\u00e3o profunda e fecha a porta sobre a realidade. Se voc\u00ea considerar isso com cuidado, ver\u00e1 que o necess\u00e1rio \u00e9 o discernimento natural, sem esfor\u00e7o, a liberdade para descobrir e compreender. Estas ideias, se permitidas, criar\u00e3o ra\u00edzes e produzir\u00e3o uma transforma\u00e7\u00e3o radical em nossa vida di\u00e1ria. A receptividade n\u00e3o for\u00e7ada \u00e9 muito mais significativa que o esfor\u00e7o feito para compreender.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Receio que isso n\u00e3o esteja bem claro.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Muitos de n\u00f3s aqui estamos fazendo um esfor\u00e7o para compreender; tal esfor\u00e7o \u00e9 a atividade da vontade, que s\u00f3 cria resist\u00eancia, e resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 superada com outra resist\u00eancia, com outro ato da vontade; tal esfor\u00e7o, de fato, impede a compreens\u00e3o; por outro lado, se estivermos atentamente flex\u00edveis e conscientes, poder\u00edamos compreender profundamente. Todo o esfor\u00e7o que fazemos agora brota do desejo de autoexpans\u00e3o; s\u00f3 quando h\u00e1 vigil\u00e2ncia sem esfor\u00e7o pode haver descoberta e compreens\u00e3o, uma percep\u00e7\u00e3o do verdadeiro.<\/p><p>Quando vemos uma pintura, primeiro queremos saber quem \u00e9 o pintor; da\u00ed n\u00f3s a comparamos e criticamos ou tentamos interpret\u00e1-la de acordo com nosso condicionamento. N\u00f3s, realmente, n\u00e3o vemos o quadro ou o cen\u00e1rio, mas s\u00f3 estamos interessados em nossa h\u00e1bil capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica ou admira\u00e7\u00e3o; em geral estamos t\u00e3o cheios de n\u00f3s mesmos que, realmente, n\u00e3o vemos o quadro ou o cen\u00e1rio. Se pud\u00e9ssemos afastar nosso julgamento e h\u00e1bil an\u00e1lise, ent\u00e3o talvez a pintura pudesse transmitir seu significado. Do mesmo modo, estas discuss\u00f5es ter\u00e3o significa\u00e7\u00e3o apenas se estivermos abertos para a experi\u00eancia da descoberta, que \u00e9 impedida por nosso apego obstinado a cren\u00e7as, mem\u00f3rias e preconceitos condicionados.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Existe alguma coisa que se pode fazer para estar passivamente consciente? Posso fazer alguma coisa para estar aberto?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> O pr\u00f3prio desejo de estar aberto pode ser um esfor\u00e7o do ego, o que s\u00f3 cria resist\u00eancia. Mas podemos estar conscientes que somos fechados, que a atividade da vontade \u00e9 resist\u00eancia, e que o pr\u00f3prio desejo de alcan\u00e7ar a consci\u00eancia passiva \u00e9 outro obst\u00e1culo. Fazer um esfor\u00e7o positivo para estar aberto \u00e9 erguer a barreira da gan\u00e2ncia. Estar consciente das atividades egoc\u00eantricas \u00e9 derrub\u00e1-las. A conscientiza\u00e7\u00e3o passiva s\u00f3 chega quando a mente-cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 tranquila. Nessa quietude o real surge. Essa quietude n\u00e3o \u00e9 para ser induzida nem \u00e9 o resultado da atividade da vontade. Uma intelig\u00eancia que \u00e9 produto do desejo, da autoexpans\u00e3o, est\u00e1 sempre criando resist\u00eancia, e n\u00e3o pode produzir tranquilidade. Tal intelig\u00eancia da autoprote\u00e7\u00e3o \u00e9 produto do tempo, do inconstante e, assim, n\u00e3o pode experimentar o eterno.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Essa intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 \u00fatil de outras formas?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Seu \u00fanico uso \u00e9 se proteger, o que causou inenarr\u00e1vel mis\u00e9ria e dor.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Desde a ameba at\u00e9 o homem a intelig\u00eancia de estar seguro, de autoexpans\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e natural, ela \u00e9 um c\u00edrculo vicioso fechado.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Pode parecer assim, mas a atividade de ficar seguro n\u00e3o levou o homem \u00e0 seguran\u00e7a, \u00e0 felicidade, \u00e0 sabedoria. Levou-o \u00e0 crescente confus\u00e3o, conflito e mis\u00e9ria. Existe uma atividade diferente que n\u00e3o \u00e9 do ego, que deve ser descoberta. Uma intelig\u00eancia diferente \u00e9 necess\u00e1ria para experimentar o eterno, e s\u00f3 ela nos libertar\u00e1 da incessante luta e sofrimento. A intelig\u00eancia que hoje possu\u00edmos \u00e9 o resultado de ansiar por gratifica\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, sob forma rude ou sutil; \u00e9 o resultado da ambi\u00e7\u00e3o; \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia da auto-identifica\u00e7\u00e3o. Tal intelig\u00eancia n\u00e3o pode experimentar o real.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Voc\u00ea afirma que intelig\u00eancia e autoconsci\u00eancia s\u00e3o sin\u00f4nimas?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Consci\u00eancia \u00e9 o resultado de continuidade identificada. Sensa\u00e7\u00e3o, sentimento, racionaliza\u00e7\u00e3o e a continuidade da mem\u00f3ria identificada constituem a autoconsci\u00eancia, n\u00e3o? Podemos afirmar precisamente onde a consci\u00eancia termina e a intelig\u00eancia come\u00e7a? Elas fluem uma para a outra, n\u00e3o? Existe consci\u00eancia sem intelig\u00eancia?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Uma nova intelig\u00eancia surge se estivermos conscientes da intelig\u00eancia autoexpansiva?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Conheceremos, como experi\u00eancia, a nova forma de intelig\u00eancia apenas quando a intelig\u00eancia autoprotetora e autoexpansiva cessar.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Como podemos ir al\u00e9m dessa intelig\u00eancia limitada?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Estando passivamente conscientes de suas atividades complexas e inter relacionadas. Estando conscientes assim, as causas que alimentam a intelig\u00eancia do ego chegam ao fim sem esfor\u00e7o autoconsciente.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Como se pode cultivar a outra intelig\u00eancia?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Essa n\u00e3o \u00e9 uma pergunta errada? Ser\u00e1 que estamos dando aten\u00e7\u00e3o interessada ao que est\u00e1 sendo dito? O errado n\u00e3o pode cultivar o certo. Ainda estamos pensando em termos de intelig\u00eancia auto expandida, e essa \u00e9 nossa dificuldade. N\u00e3o temos consci\u00eancia disso e perguntamos, sem pensamento, \u201cComo pode a outra intelig\u00eancia ser cultivada?\u201d Certamente h\u00e1 certos requisitos \u00f3bvios, essenciais que libertar\u00e3o a mente desta intelig\u00eancia limitada: humildade, que est\u00e1 relacionada com humor e piedade; n\u00e3o ter ambi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 n\u00e3o ter identifica\u00e7\u00e3o; ser abnegado (altru\u00edsta), que \u00e9 estar liberto de valores sensoriais; estar livre da estupidez, da ignor\u00e2ncia, que \u00e9 falta de autoconhecimento e assim por diante. Devemos estar c\u00f4nscios dos caminhos astuciosos e tortuosos do ego, e ao compreend\u00ea-los a virtude surge, mas a virtude n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo. O interesse pr\u00f3prio n\u00e3o pode cultivar a virtude, ele s\u00f3 pode se perpetuar sob a m\u00e1scara da virtude; sob o abrigo da virtude existe ainda a atividade do ego. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos tentando ver a luz clara e pura atrav\u00e9s de \u00f3culos coloridos, que n\u00e3o temos consci\u00eancia de estar usando. Para ver a luz pura devemos primeiro estar cientes de nossos \u00f3culos coloridos; essa pr\u00f3pria conscientiza\u00e7\u00e3o, se o \u00edmpeto para ver a luz pura for forte, nos ajuda a remover os \u00f3culos coloridos. Essa remo\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de uma resist\u00eancia contra a outra, mas \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o sem esfor\u00e7o da compreens\u00e3o. Devemos estar consciente do vigente, e a compreens\u00e3o \u201cdo que \u00e9\u201d libertar\u00e1 o pensamento; essa pr\u00f3pria compreens\u00e3o produzir\u00e1 receptividade aberta, transcendendo a intelig\u00eancia particular.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Como a intelig\u00eancia com a qual estamos todos familiarizados surge?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Ela surge pela percep\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00e3o, contato, desejo, identifica\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso d\u00e1 continuidade ao ego atrav\u00e9s da mem\u00f3ria. O princ\u00edpio do prazer, da dor, da identifica\u00e7\u00e3o sustenta sempre esta intelig\u00eancia que n\u00e3o pode abrir a porta para a verdade.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Temos que fazer algum tipo de esfor\u00e7o, n\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> O esfor\u00e7o que fazemos agora \u00e9 uma atividade de expans\u00e3o do ego com sua intelig\u00eancia particular. Esse esfor\u00e7o s\u00f3 pode refor\u00e7ar, positivamente ou negativamente, a intelig\u00eancia autoprotetora ou resist\u00eancia. Essa intelig\u00eancia n\u00e3o pode experimentar o real, e s\u00f3 ele pode trazer a liberta\u00e7\u00e3o de nosso conflito, confus\u00e3o e sofrimento.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Como essa intelig\u00eancia surgiu?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Ela n\u00e3o foi cultivada com a especializa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o surgiu pela imita\u00e7\u00e3o, pelo condicionamento?\u00a0 O cultivo do \u2018eu\u2019, do \u2018meu\u2019 \u00e9 especializa\u00e7\u00e3o \u2013 o \u2018eu\u2019 que \u00e9 especial, important\u00edssimo: meu trabalho, minha a\u00e7\u00e3o, meu sucesso, minha virtude, meu pa\u00eds, meu salvador \u2013 este impulso positivo e negativo\u00a0 para se tornar implica especializa\u00e7\u00e3o. Especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 morte, a falta de infinita flexibilidade.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Eu vejo isso, mas o que vou fazer?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Esteja consciente, sem escolha, deste processo de especializa\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea descobrir\u00e1 que uma profunda mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria est\u00e1 acontecendo em voc\u00ea. N\u00e3o diga para si mesmo que voc\u00ea vai ficar consciente, ou que a conscientiza\u00e7\u00e3o tem que ser cultivada, ou que isso \u00e9 uma quest\u00e3o de amadurecimento ou habilidade, o que \u00e9 indica\u00e7\u00e3o de adiamento, pregui\u00e7a. Voc\u00ea est\u00e1 ou n\u00e3o est\u00e1 consciente. Esteja consciente agora desse processo de especializa\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Tudo isso implica extenso estudo de si mesmo e autoconhecimento, n\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> E \u00e9 isso exatamente que estamos tentando aqui; estamos expondo a n\u00f3s mesmos os caminhos de nosso pensamento-sentimento \u2013 sua ast\u00facia, sua sutileza, o orgulho de sua chamada intelig\u00eancia e assim por diante. Isso n\u00e3o \u00e9 conhecimento de livro, mas experi\u00eancia real, de momento a momento, nos caminhos do ego. Assim estamos tentando descobrir os caminhos do ego. O desejo de se expandir no mundo ou a busca da virtude \u00e9 ainda atividade do ego, o \u00edmpeto de se tornar, negativamente ou positivamente, \u00e9 o fator na especializa\u00e7\u00e3o. Este desejo que impede a infinita flexibilidade deve ser compreendido pela conscientiza\u00e7\u00e3o do processo de especializa\u00e7\u00e3o do \u2018eu\u2019.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Se eu for apenas flex\u00edvel, n\u00e3o posso andar errado e, por isso, n\u00e3o devo estar ancorado na verdade?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> A verdade \u00e9 encontrada no desconhecido mar do autoconhecimento. Mas por que voc\u00ea faz essa pergunta? \u00c9 porque voc\u00ea tem medo de se perder? Isso n\u00e3o implica que voc\u00ea deseja alcan\u00e7ar, ter sucesso, estar sempre certo? Ansiamos por seguran\u00e7a e esse anseio impede a liberdade da verdade. Aqueles que vivem em profundo autoconhecimento s\u00e3o flex\u00edveis. Vemos que uma das causas da resist\u00eancia \u00e9 a especializa\u00e7\u00e3o, e outra \u00e9 a imita\u00e7\u00e3o. O desejo de copiar \u00e9 complexo e sutil. A estrutura de nosso pensamento se baseia na imita\u00e7\u00e3o, religiosa ou mundana. Jornais, r\u00e1dios, revistas, livros, educa\u00e7\u00e3o, governos, religi\u00f5es organizadas \u2013 todos esses e outros fatores ajudam a fazer o pensamento se adaptar. Tamb\u00e9m, cada pessoa deseja se adaptar, pois \u00e9 mais f\u00e1cil se adaptar do que estar consciente. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 a base de nossa exist\u00eancia social, e temos medo de ficarmos sozinhos. O medo e a neglig\u00eancia produzem aceita\u00e7\u00e3o e conformidade, a aceita\u00e7\u00e3o da autoridade. Tanto com o indiv\u00edduo quanto com o grupo, com a na\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A conformidade \u00e9 um dos muitos meios que o ego usa para se manter. O pensamento sai do conhecido para o conhecido, sempre com medo do desconhecido, do incerto e, contudo, s\u00f3 quando existe incerteza, quando a mente n\u00e3o est\u00e1 na escravid\u00e3o do conhecido existe o \u00eaxtase do real. O pensamento deve estar sozinho para a compreens\u00e3o do real. Pelo autoconhecimento o processo imitativo chega ao fim.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Devemos encarar o desconhecido sempre?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> O eterno \u00e9 sempre o desconhecido para uma mente que acumula; aquilo que \u00e9 acumulado \u00e9 mem\u00f3ria, e a mem\u00f3ria est\u00e1 sempre no passado, ligada ao tempo. Aquilo que \u00e9 resultado do tempo n\u00e3o pode experimentar o infinito, o desconhecido.<\/p><p>Sempre seremos confrontados com o desconhecido at\u00e9 compreendermos o conhecido, que somos n\u00f3s mesmos. Essa compreens\u00e3o n\u00e3o pode ser dada a voc\u00ea pelo especialista, o psic\u00f3logo ou o sacerdote; voc\u00ea tem que busc\u00e1-la por si mesmo, em voc\u00ea mesmo, pela conscientiza\u00e7\u00e3o de si. A mem\u00f3ria, o passado modela o presente de acordo com o padr\u00e3o de prazer e dor. A mem\u00f3ria se torna a guia, o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a; \u00e9 essa mem\u00f3ria identificada que d\u00e1 continuidade ao ego.<\/p><p>A busca por autoconhecimento demanda constante vigil\u00e2ncia, uma conscientiza\u00e7\u00e3o sem escolha, o que \u00e9 dif\u00edcil e \u00e1rduo.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> Somos lagartas que devemos nos transformar em borboletas?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Como ca\u00edmos facilmente em modos ignorantes de pensar! Sendo maus, no final nos tornaremos bons; sendo mortais, nos tornaremos imortais. Com esses pensamentos confortantes nos entorpecemos. O mau n\u00e3o pode se tornar bom; o \u00f3dio n\u00e3o pode se tornar amor; a gan\u00e2ncia n\u00e3o pode se tornar n\u00e3o-gan\u00e2ncia. O \u00f3dio deve ser abandonado, ele n\u00e3o pode se transformar numa coisa que ele n\u00e3o \u00e9. Com o amadurecimento, com o tempo, o mau n\u00e3o pode se tornar bom. O tempo n\u00e3o transforma o ign\u00f3bil em nobre. Devemos estar conscientes desta ignor\u00e2ncia e suas ilus\u00f5es. Somos educados para pensar que o conflito dos opostos produz um resultado esperado, mas n\u00e3o \u00e9 assim. Um oposto \u00e9 o resultado de resist\u00eancia e a resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 superada por seu oposto. Cada resist\u00eancia deve ser dissolvida n\u00e3o por seu oposto, mas pela compreens\u00e3o da pr\u00f3pria resist\u00eancia.<\/p><p>O conflito existe entre v\u00e1rios desejos, n\u00e3o entre luz e escurid\u00e3o. N\u00e3o pode haver luta entre luz e escurid\u00e3o, pois onde existe luz, n\u00e3o h\u00e1 escurid\u00e3o, onde est\u00e1 a verdade o falso n\u00e3o est\u00e1. Quando o ego se divide entre o mais elevado e o mais inferior, essa pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o gera conflito, confus\u00e3o e antagonismo. Estar consciente do que \u00e9 e n\u00e3o fugir para a ilus\u00e3o fantasiosa \u00e9 o in\u00edcio da compreens\u00e3o. Devemos nos preocupar com o que \u00e9, o anseio por autoexpans\u00e3o, e n\u00e3o transform\u00e1-lo, pois o transformador\u00a0 ainda anseia, o que \u00e9 a\u00e7\u00e3o do ego; a pr\u00f3pria conscientiza\u00e7\u00e3o gera compreens\u00e3o. Estar c\u00f4nscio de momento a momento traz sua pr\u00f3pria clarifica\u00e7\u00e3o. O desejo de aquisi\u00e7\u00e3o e reconhecimento impede o despertar; aquele que dorme sonha que deve despertar e luta em seu sonho, mas \u00e9 apenas um sonho. Quem dorme n\u00e3o pode despertar atrav\u00e9s dos sonhos; ele deve parar de dormir. O pensamento em si deve estar consciente de criar a estrutura do ego e sua perpetua\u00e7\u00e3o. A pessoa que \u00e9 s\u00e9ria deve descobrir por si mesma a verdade sobre a autoperpetua\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> O que existe para provar que a perpetua\u00e7\u00e3o do ego \u00e9 ruim por si mesma?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Nada mesmo, se estivermos satisfeitos com isso e ignorarmos as quest\u00f5es da vida, mas estamos todos em luta comparativa e sofrimento. Alguns encobrem suas dores ou fogem delas. Eles n\u00e3o resolveram sua confus\u00e3o e mis\u00e9ria.<\/p><p>Percebendo nosso estado de contradi\u00e7\u00e3o e seus conflitos dolorosos, queremos encontrar o modo certo de transcend\u00ea-los; pois na incompletude n\u00e3o h\u00e1 paz. N\u00e3o \u00e9 da pr\u00f3pria natureza do ego, o tempo todo, ser contradit\u00f3rio? Essa contradi\u00e7\u00e3o gera conflito, confus\u00e3o e animosidade. Ansiar, a pr\u00f3pria base do ego, nunca \u00e9 satisfat\u00f3rio; tentando superar a incompletude, o homem est\u00e1 sempre em conflito do lado de dentro e do lado de fora. Aqueles que s\u00e3o s\u00e9rios devem descobrir por si mesmos a verdade sobre a incompletude. Essa descoberta n\u00e3o depende de nenhuma autoridade ou f\u00f3rmula nem da aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento. Para descobrir a verdade devemos estar passivamente conscientes. Desde que somos medrosos e fechados devemos nos conscientizar das causas que criam resist\u00eancia, do desejo de autoperpetua\u00e7\u00e3o que cria conflito.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> E o que acontece com esta intelig\u00eancia que se autoperpetua quando um soldado na batalha se atira na frente da arma para salvar outra pessoa?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Provavelmente num momento de grande tens\u00e3o o soldado se esquece de si, mas isso \u00e9 uma recomenda\u00e7\u00e3o para a guerra?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> N\u00e3o ouvimos dizer que a guerra provoca qualidades nobres de auto-sacrif\u00edcio?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> Com um ato errado, a morte do outro, pode um fim correto, digno ser realizado?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong> O autoconhecimento n\u00e3o \u00e9 um objetivo dif\u00edcil?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong> \u00c9 e, contudo, n\u00e3o \u00e9. Ele exige discernimento sem esfor\u00e7o, receptividade sens\u00edvel. A vigil\u00e2ncia constante \u00e9 \u00e1rdua porque somos pregui\u00e7osos; preferimos conseguir atrav\u00e9s dos outros, lendo mais, mas informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 autoconhecimento. Nesse meio tempo continuamos com a gan\u00e2ncia, guerras e a v\u00e3 repeti\u00e7\u00e3o de rituais. Tudo isso indica \u2013 n\u00e3o? \u2013 o desejo de fugir do problema real, que \u00e9 voc\u00ea e sua defici\u00eancia interior. Sem compreender a si mesmo, a simples atividade exterior, mesmo digna e satisfat\u00f3ria, s\u00f3 leva a mais confus\u00e3o e conflito. A busca s\u00e9ria pela verdade por meio do autoconhecimento \u00e9 verdadeiramente religiosa. O indiv\u00edduo verdadeiramente religioso come\u00e7a consigo mesmo; seu autoconhecimento e compreens\u00e3o formam a base de toda sua atividade. Conforme ele compreender, saber\u00e1 o que \u00e9 servir e o que \u00e9 amar.<\/p><p>\u00a0<\/p><p>21 de abril de 1946<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terceira Palestra em Ojai \u00a0 Sem a experi\u00eancia do real n\u00e3o pode haver liberdade do conflito e do sofrimento; s\u00f3 o real pode transformar nossa vida, n\u00e3o uma simples resolu\u00e7\u00e3o. Toda atividade do ego com suas resolu\u00e7\u00f5es e nega\u00e7\u00f5es deve cessar para o real surgir. 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