{"id":1560,"date":"2022-12-18T16:23:21","date_gmt":"2022-12-18T16:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1560"},"modified":"2022-12-18T16:23:48","modified_gmt":"2022-12-18T16:23:48","slug":"29-07-1945","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1560","title":{"rendered":"29\/07\/1945"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1560\" class=\"elementor elementor-1560\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-b9b0877 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"b9b0877\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-271a6cc0\" data-id=\"271a6cc0\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5e6781db elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5e6781db\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>10\u00aa Palestra em Ojai<\/strong><\/p><p>Existe um estado duradouro de tranquilidade criativa? H\u00e1 um fim para a aparentemente intermin\u00e1vel disputa dos opostos? Existe um \u00eaxtase imperec\u00edvel?<\/p><p>O fim do conflito e do sofrimento est\u00e1 na compreens\u00e3o e transcend\u00eancia dos caminhos do ego e na descoberta desta imperec\u00edvel realidade que n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o da mente. O autoconhecimento \u00e9 \u00e1rduo, mas sem ele a ignor\u00e2ncia e a dor continuam: sem autoconhecimento n\u00e3o pode haver fim para a luta.<\/p><p>O mundo est\u00e1 estilha\u00e7ado em muitos fragmentos, cada um em luta com o outro; ele est\u00e1 arrebentado pelo antagonismo, gan\u00e2ncia, e paix\u00e3o; est\u00e1 separado por ideologias antag\u00f4nicas, cren\u00e7as e medos; nem a religi\u00e3o organizada nem a pol\u00edtica podem trazer paz ao homem. O homem est\u00e1 contra o homem e as muitas explica\u00e7\u00f5es para seu sofrimento n\u00e3o afastam sua dor. Tentamos fugir de n\u00f3s mesmos de muitas formas ardilosas, mas a fuga s\u00f3 embota e endurece a mente e o cora\u00e7\u00e3o. O mundo exterior n\u00e3o \u00e9 nada mais do que a express\u00e3o de nosso pr\u00f3prio estado interior; como estamos fragmentados e arrebentados interiormente por desejos ardentes, tamb\u00e9m o mundo a nossa volta est\u00e1; como h\u00e1 incessante confus\u00e3o dentro de n\u00f3s, tamb\u00e9m h\u00e1 infind\u00e1vel conflito no mundo; como n\u00e3o existe tranquilidade interior, o mundo se tornou um campo de batalha. O que somos o mundo \u00e9.<\/p><p>Existe a possibilidade de encontrar alegria duradoura? Existe, mas para experiment\u00e1-la deve haver liberdade. Sem liberdade a verdade n\u00e3o pode ser descoberta, sem liberdade n\u00e3o pode haver a experi\u00eancia do real. A liberdade deve ser buscada \u2013 liberdade de salvadores, mestres, l\u00edderes; liberdade dos muros fechados de bem e mal; liberdade da autoridade e da imita\u00e7\u00e3o; liberdade do ego, a causa do conflito e da dor.<\/p><p>Enquanto o anseio em suas diferentes formas n\u00e3o for compreendido, haver\u00e1 conflito e dor. O conflito n\u00e3o \u00e9 para ser cessado por meio da corre\u00e7\u00e3o superficial de valores nem pela mudan\u00e7a de mestres e l\u00edderes. A solu\u00e7\u00e3o definitiva est\u00e1 na liberdade do anseio; o caminho est\u00e1 em voc\u00ea mesmo, n\u00e3o em outra pessoa. A incessante batalha dentro de todos n\u00f3s, que chamamos exist\u00eancia, n\u00e3o pode chegar ao fim a n\u00e3o ser pela compreens\u00e3o e transcend\u00eancia do anseio.<\/p><p>O conflito da avidez aparece no conhecimento, na rela\u00e7\u00e3o, nas posses; a avidez sob qualquer forma cria desigualdade e brutalidade. Esta divis\u00e3o e conflito entre homem e homem n\u00e3o vai ser abolida por meio da simples reforma dos efeitos externos e valores. A igualdade de posses n\u00e3o \u00e9 a sa\u00edda para a mis\u00e9ria e estupidez extensiva que nos envolve; nenhuma revolu\u00e7\u00e3o pode libertar o homem deste esp\u00edrito de exclusividade. Voc\u00ea pode despoj\u00e1-lo de posses pela legisla\u00e7\u00e3o, pela revolu\u00e7\u00e3o, mas ele vai se agarrar \u00e0 rela\u00e7\u00e3o ou cren\u00e7a exclusiva. Esse esp\u00edrito de exclusividade em diferentes n\u00edveis n\u00e3o pode ser abolido por nenhuma reforma exterior ou por compuls\u00e3o ou sujei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 esse esp\u00edrito de exclusividade que gera desigualdade e disputa. A gan\u00e2ncia n\u00e3o coloca o homem contra o homem? A igualdade e a compaix\u00e3o podem ser estabelecidas por algum meio da mente? Elas n\u00e3o devem ser buscadas em algum outro lugar? Essa separatividade n\u00e3o cessa apenas no amor, na verdade?<\/p><p>A unidade do homem \u00e9 encontrada apenas no amor, na ilumina\u00e7\u00e3o que a verdade traz. Essa unidade do homem n\u00e3o vai ser estabelecida por meio de simples reajustes econ\u00f4micos e sociais. O mundo est\u00e1 sempre ocupado com esses reajustes superficiais; ele est\u00e1 sempre tentando reorganizar valores dentro do padr\u00e3o da gan\u00e2ncia; procura estabelecer seguran\u00e7a na inseguran\u00e7a do anseio e, assim, traz desastre sobre si. Esperamos que a revolu\u00e7\u00e3o exterior, a mudan\u00e7a exterior de valores transformar\u00e1 o homem; elas o afetam, mas a gan\u00e2ncia, encontrando gratifica\u00e7\u00e3o em outros n\u00edveis, continua. Este movimento infind\u00e1vel e in\u00fatil de gan\u00e2ncia n\u00e3o pode trazer paz ao homem de modo algum, e s\u00f3 quando ele se libertar disso pode haver ser criativo.<\/p><p>A gan\u00e2ncia cria divis\u00e3o entre os que est\u00e3o \u00e0 frente e os que est\u00e3o atr\u00e1s. Voc\u00ea deve ser tanto disc\u00edpulo quanto Mestre na busca da verdade; deve fazer a abordagem diretamente sem o conflito de exemplo e seguidor. Deve haver persistente consci\u00eancia de si, e quanto mais s\u00e9rio e vigoroso voc\u00ea for, mais o pensamento se libertar\u00e1 das depend\u00eancias por ele criadas.<\/p><p>Na alegria do real o experimentador e a experi\u00eancia cessam. Uma mente-cora\u00e7\u00e3o sobrecarregada com a mem\u00f3ria de ontem n\u00e3o pode viver no presente eterno. A mente-cora\u00e7\u00e3o deve morrer todo dia para ser eterna.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Eu sinto que, pelo menos para mim, o que voc\u00ea diz \u00e9 uma coisa nova e muito vitalizante, mas o velho se introduz e distorce. Parece que o novo \u00e9 subjugado pelo passado. O que se faz?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O pensamento \u00e9 o resultado do passado atuando no presente; o passado est\u00e1 constantemente afastando o presente. O presente, o novo, \u00e9 sempre absorvido pelo passado, pelo conhecido. Para viver no presente eterno deve haver a morte para o passado, para a mem\u00f3ria; nessa morte est\u00e1 a renova\u00e7\u00e3o eterna.<\/p><p>O presente se estende para o passado e para o futuro; sem a compreens\u00e3o do presente, a porta para o passado fica fechada. A percep\u00e7\u00e3o do novo \u00e9 muito transit\u00f3ria; mal ela \u00e9 sentida, a r\u00e1pida corrente do passado se espalha e o novo deixa de existir. Morrer para os muitos ontens, renovar-se a cada dia, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se formos capazes de estar passivamente conscientes. Nessa conscientiza\u00e7\u00e3o passiva n\u00e3o existe ac\u00famulo pessoal; existe intensa quietude onde o novo se revela, onde o sil\u00eancio est\u00e1 sempre se expandindo sem medida.<\/p><p>Tentamos usar o novo como meio de romper ou fortalecer o passado corrompendo assim o presente vivo. O presente renovador traz a compreens\u00e3o do passado. \u00c9 o novo que d\u00e1 compreens\u00e3o, e sob essa luz o passado tem significa\u00e7\u00e3o nova, viva. Quando ouvimos ou experimentamos alguma coisa nova, nossa rea\u00e7\u00e3o instintiva \u00e9 comparar com o antigo, com a experi\u00eancia passada, com uma mem\u00f3ria passageira. Essa compara\u00e7\u00e3o d\u00e1 for\u00e7a ao passado, distorcendo o presente e, assim, o novo sempre se torna o passado, o morto. Se o pensamento-sentimento fosse capaz de viver no agora sem distorc\u00ea-lo, ent\u00e3o o passado se transformaria no presente eterno.<\/p><p>Para alguns de voc\u00eas estas palestras e debates podem ter trazido uma compreens\u00e3o nova e vital; o importante n\u00e3o \u00e9 colocar o novo dentro dos velhos padr\u00f5es de pensamento ou frase. Deixe-o permanecer novo, n\u00e3o contaminado. O desejo de fazer o presente criativo duradouro, pr\u00e1tico, ou \u00fatil torna-o in\u00fatil. Deixe o novo viver sem estar ancorado ao passado, sem a influ\u00eancia distorcida de medos e esperan\u00e7as.<\/p><p>Morra para sua experi\u00eancia, para sua mem\u00f3ria. Morra para seu preconceito, agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel. Na sua morte est\u00e1 o incorrupt\u00edvel; esse n\u00e3o \u00e9 um estado de inexist\u00eancia, mas o ser criativo. \u00c9 essa renova\u00e7\u00e3o que, se for permitida, dissolver\u00e1 nossos problemas e sofrimentos, mesmo intrincados e dolorosos. S\u00f3 na morte do ego existe vida.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea acredita em karma?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O desejo de crer devia ser compreendido e afastado, pois n\u00e3o traz ilumina\u00e7\u00e3o. Aquele que busca a verdade n\u00e3o cr\u00ea; aquele que aborda a verdade n\u00e3o tem dogma ou credo; aquele que busca o eterno deve estar livre de formula\u00e7\u00e3o e da qualidade da mem\u00f3ria presa ao tempo. Quando cremos n\u00e3o buscamos, e a cren\u00e7a traz d\u00favida e dor. Busca para compreender, n\u00e3o para saber; pois na compreens\u00e3o o processo dual de quem conhece e do conhecido cessa. Na mera busca de conhecimento, quem conhece est\u00e1 sempre se tornando e sempre em conflito e sofrimento. Quem afirma saber n\u00e3o sabe.<\/p><p>A origem da palavra s\u00e2nscrita karma significa agir, fazer. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de uma causa. A guerra \u00e9 o resultado de nossa vida cotidiana de estupidez e m\u00e1 vontade e gan\u00e2ncia; conflito e sofrimento \u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia da confus\u00e3o interior de nosso anseio. Nossa exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 produto do condicionamento encadeado? A causa sempre passa por uma modifica\u00e7\u00e3o, e a conscientiza\u00e7\u00e3o vigilante n\u00e3o s\u00f3 revela a causa, mas tamb\u00e9m liberta o pensamento-sentimento dela. O efeito pode ser separado da causa? N\u00f3s desejamos reformar, reorganizar os efeitos sem alterar a causa radicalmente. Esta ocupa\u00e7\u00e3o com o efeito \u00e9 uma forma de fugir da causa b\u00e1sica.<\/p><p>Como o fim est\u00e1 no meio, tamb\u00e9m o efeito est\u00e1 na causa. Comparativamente, \u00e9 f\u00e1cil descobrir a causa superficial, mas descobrir e transcender o anseio, que \u00e9 a causa profunda de todo condicionamento, \u00e9 \u00e1rduo e exige constante conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Existe n\u00e3o s\u00f3 o medo da vida, mas o medo da morte \u00e9 grande. Como domin\u00e1-lo?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O que \u00e9 conquist\u00e1vel tem que ser conquistador vezes e vezes. O medo s\u00f3 chega ao fim com a compreens\u00e3o. O medo da morte est\u00e1 no anseio por auto-realiza\u00e7\u00e3o; somos vazios e ansiamos por inteireza, ent\u00e3o h\u00e1 medo; desejamos realiza\u00e7\u00e3o e receamos que a morte possa nos chamar. Desejamos tempo para compreender, a realiza\u00e7\u00e3o da ambi\u00e7\u00e3o exige tempo, e por isso temos medo da morte. Estamos na depend\u00eancia do tempo; a morte \u00e9 o desconhecido, e temos medo do desconhecido. O medo e a morte s\u00e3o os parceiros da vida. Ansiamos pela garantia da autocontinuidade. O pensamento-sentimento sai do conhecido para o conhecido e sempre tem medo do desconhecido. O pensamento-sentimento vai de acumula\u00e7\u00e3o para acumula\u00e7\u00e3o, de mem\u00f3ria para mem\u00f3ria, e o medo da morte \u00e9 o medo da frustra\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Porque somos como o morto, tememos a morte; o vivo n\u00e3o. O morto est\u00e1 sobrecarregado pelo passado, pela mem\u00f3ria, pelo tempo, mas para o vivo o presente \u00e9 o eterno. O tempo n\u00e3o \u00e9 um meio para o fim, o infinito, pois o fim est\u00e1 no in\u00edcio. O ego tece a rede do tempo e o pensamento fica preso nela. A defici\u00eancia do ego, seu doloroso vazio, causa o medo da morte e da vida. Esse medo est\u00e1 sempre conosco \u2013 em nossas atividades, nossos prazeres, e dor. Estando mortos, buscamos vida, mas a vida n\u00e3o \u00e9 encontrada por meio da continuidade do ego. O ego, o criador do tempo, deve se render ao infinito.<\/p><p>Se a morte for verdadeiramente um problema para voc\u00ea, n\u00e3o simplesmente uma quest\u00e3o verbal ou emocional nem um assunto de curiosidade que pode ser satisfeito com explica\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o haver\u00e1 profundo sil\u00eancio em voc\u00ea. Na quietude ativa o medo cessa, o sil\u00eancio tem sua pr\u00f3pria acelera\u00e7\u00e3o criativa. Voc\u00ea n\u00e3o transcende o medo por meio da racionaliza\u00e7\u00e3o, pelo estudo das explica\u00e7\u00f5es; o medo da morte n\u00e3o chega ao fim por alguma cren\u00e7a, pois a cren\u00e7a pertence ainda \u00e0 rede do ego. O pr\u00f3prio ru\u00eddo do ego impede sua dissolu\u00e7\u00e3o. N\u00f3s consultamos, analisamos, oramos, trocamos explica\u00e7\u00f5es; essa atividade incessante e ru\u00eddo do ego obstruem a alegria do real. Ru\u00eddo s\u00f3 pode produzir mais ru\u00eddo e nisso n\u00e3o existe compreens\u00e3o.<\/p><p>A compreens\u00e3o vem quando todo o seu ser est\u00e1 profundamente e silenciosamente consciente. A conscientiza\u00e7\u00e3o silenciosa n\u00e3o \u00e9 for\u00e7ada ou induzida; nesta tranquilidade a morte cede \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Nunca me ocorreu pensar em mim mesmo como sendo capaz de alcan\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o. O m\u00e1ximo que posso conceber \u00e9 que talvez eu seja capaz de segurar e fortalecer esta inteiramente incompreens\u00edvel rela\u00e7\u00e3o com Deus, que \u00e9 a \u00fanica coisa por que vivo; e eu nem mesmo sei o que \u00e9 isso.<\/p><p>Voc\u00ea fala sobre ser e se tornar. Percebo que essas palavras significam fundamentalmente atitudes diferentes; e a minha tem sido definitivamente o se tornar. Agora eu quero transformar o que tem sido se tornar em ser. Estou me iludindo? Eu n\u00e3o quero simplesmente trocar palavras.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Primeiro devemos compreender o processo de se tornar e todas as suas implica\u00e7\u00f5es antes de podermos compreender o que \u00e9 ser. A estrutura de nosso pensamento-sentimento n\u00e3o se baseia no tempo? N\u00e3o pensamos-sentimos em termos de ganhar e perder, de se tornar e n\u00e3o se tornar? Consideramos que a realidade ou Deus \u00e9 para ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s do tempo, do se tornar. Consideramos que a vida \u00e9 uma infinita escada para subirmos a maiores e maiores alturas. Nosso pensamento-sentimento est\u00e1 preso no processo horizontal de se tornar; quem se torna est\u00e1 sempre acumulando, sempre ganhando, sempre se expandindo. O ego, o que se torna, o criador do tempo, n\u00e3o pode vivenciar o infinito. O ego, o que se torna, \u00e9 a causa do conflito e do sofrimento.<\/p><p>O se tornar leva ao ser? Por meio do tempo pode haver o infinito? Por meio do conflito pode haver tranquilidade? Por meio da guerra, do \u00f3dio, pode haver amor? S\u00f3 quando o se tornar cessa, pode haver o ser; por meio do processo horizontal do tempo n\u00e3o existe eterno; o conflito n\u00e3o leva \u00e0 tranquilidade; o \u00f3dio n\u00e3o pode se transformar em amor. Quem se torna nunca pode estar tranq\u00fcilo. O anseio n\u00e3o pode \u00e0quilo que est\u00e1 al\u00e9m e acima de todo anseio. A corrente do sofrimento s\u00f3 \u00e9 rompida quando quem se torna deixa de se tornar, positivamente ou negativamente.<\/p><p>Agora quem se torna deseja traduzir seu se tornar em ser. Ele talvez veja a futilidade do se tornar e deseja transformar esse processo em ser; em vez de se tornar, agora ele deve ser. Ele v\u00ea a dor da gan\u00e2ncia e agora deseja transformar gan\u00e2ncia em n\u00e3o-gan\u00e2ncia, o que \u00e9 ainda um se tornar; ele assumiu uma nova atitude, um novo traje chamado n\u00e3o-gan\u00e2ncia; mas quem se torna continua a se tornar. Este desejo de traduzir o se tornar em ser n\u00e3o leva \u00e0 ilus\u00e3o? Quem se torna talvez agora perceba o conflito infind\u00e1vel e o sofrimento envolvido em se tornar e, assim, anseia por um estado diferente que ele chama ser; mas o anseio continua sob novo nome. Os caminhos do se tornar s\u00e3o muito sutis, e at\u00e9 quem se torna se conscientizar deles, continuar\u00e1 a se tornar, viver em conflito e sofrimento. Mudando palavras pensamos que compreendemos, e como nos pacificamos facilmente!<\/p><p>Ser existe apenas quando n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o, positivo ou negativo, para se tornar; s\u00f3 quando quem se torna est\u00e1 consciente de si e compreende o sofrimento encadeado e o esfor\u00e7o gasto em se tornar, e n\u00e3o usa mais a vontade, s\u00f3 ent\u00e3o ele pode ficar em sil\u00eancio. Seu desejo e sua vontade se apaziguaram; s\u00f3 ent\u00e3o existe a tranquilidade da suprema sabedoria. Se tornar n\u00e3o-ganancioso \u00e9 uma coisa e ser sem gan\u00e2ncia \u00e9 outra; se tornar implica um processo, mas ser n\u00e3o. Processo implica tempo; o estado de ser n\u00e3o \u00e9 um resultado, n\u00e3o \u00e9 produto de educa\u00e7\u00e3o, disciplina, condicionamento. Voc\u00ea n\u00e3o pode transformar barulho em sil\u00eancio; o sil\u00eancio s\u00f3 pode surgir quando o barulho cessa. Resultado \u00e9 um processo de tempo, um fim determinado por um meio determinado; mas por meio de um processo, pelo tempo, o infinito n\u00e3o existe. A consci\u00eancia de si e a medita\u00e7\u00e3o correta revelar\u00e3o o processo do se tornar. A medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o cultivo de quem se torna, mas pelo autoconhecimento quem medita, quem se torna cessa.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Se considerarmos apenas o significado \u00f3bvio de suas palavras, a mem\u00f3ria se constitui em um dos mecanismos contra os quais voc\u00ea nos advertiu vezes e vezes. E, contudo, voc\u00ea mesmo, por exemplo, algumas vezes usa anota\u00e7\u00f5es para ajudar sua mem\u00f3ria na reconstru\u00e7\u00e3o de notas introdut\u00f3rias que voc\u00ea, obviamente, pensou previamente. Existe um tipo de mem\u00f3ria necess\u00e1ria e mesmo indispens\u00e1vel relacionada com o mundo exterior dos fatos e imagens, e um tipo inteiramente diferente de mem\u00f3ria que deve ser chamada mem\u00f3ria psicol\u00f3gica, que \u00e9 prejudicial porque interfere com a atitude criativa que voc\u00ea sugeriu em express\u00f5es como \u201cabandonar\u201d, \u201cmorrer a cada dia\u201d, etc.?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Mem\u00f3ria \u00e9 experi\u00eancia acumulada, e o que est\u00e1 acumulado \u00e9 o conhecido e aquilo que \u00e9 conhecido faz parte do passado sempre. Com o fardo do conhecido pode aquilo que \u00e9 infinito ser descoberto? A liberdade do passado n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para se experimentar o que \u00e9 imensur\u00e1vel? Aquilo que \u00e9 constru\u00eddo, ou seja, mem\u00f3ria, n\u00e3o pode compreender aquilo que n\u00e3o \u00e9. Sabedoria n\u00e3o \u00e9 mem\u00f3ria acumulada, mas \u00e9 a suprema vulnerabilidade ao real.<\/p><p>Como aponta o interrogante, n\u00e3o dever\u00edamos estar conscientes dos dois tipos de mem\u00f3ria \u2013 a indispens\u00e1vel, relacionada aos fatos e imagens, e a mem\u00f3ria psicol\u00f3gica? Sem essa mem\u00f3ria indispens\u00e1vel n\u00e3o poder\u00edamos nos comunicar uns com os outros. N\u00f3s acumulamos e nos agarramos \u00e0s mem\u00f3rias psicol\u00f3gicas e, assim, damos continuidade ao ego; e o ego, o passado, est\u00e1 sempre crescendo, sempre acrescentando a si mesmo. \u00c9 essa mem\u00f3ria acumulada, o ego, que deve chegar ao fim; enquanto o pensamento-sentimento se identificar com as mem\u00f3rias de ontem, estar\u00e1 sempre em conflito e sofrimento; enquanto o pensamento-sofrimento estiver se tornando, ele n\u00e3o poder\u00e1 experimentar a alegria do real. Aquilo que \u00e9 real n\u00e3o \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria identificada. De acordo com o que foi armazenado, se experimenta; de acordo com o pr\u00f3prio condicionamento e mem\u00f3rias psicol\u00f3gicas e tend\u00eancias s\u00e3o as experi\u00eancias, mas tais experi\u00eancias s\u00e3o sempre fechadas, limitadas. \u00c9 para essa acumula\u00e7\u00e3o que se deve morrer.<\/p><p>A experi\u00eancia do real se baseia na mem\u00f3ria, na acumula\u00e7\u00e3o? \u00c9 poss\u00edvel ao pensamento-sentimento ir al\u00e9m e acima desses n\u00edveis inter relacionados da mem\u00f3ria? Continuidade \u00e9 mem\u00f3ria, e \u00e9 poss\u00edvel para essa mem\u00f3ria cessar e um novo est\u00e1gio surgir? Pode a consci\u00eancia educada e condicionada compreender aquilo que n\u00e3o \u00e9 um resultado? N\u00e3o pode e, por isso, deve morrer para si mesma. A mem\u00f3ria psicol\u00f3gica, sempre lutando para se tornar, cria resultados, barreiras, e por isso est\u00e1 sempre se escravizando.<\/p><p>A verdade n\u00e3o \u00e9 para ser formulada nem pode ser descoberta por meio de alguma formula\u00e7\u00e3o ou alguma cren\u00e7a; s\u00f3 quando existe liberdade do se tornar, da mem\u00f3ria auto-identificada, ela surge. Nosso pensamento \u00e9 o resultado do passado, e sem compreender seu condicionamento, ele n\u00e3o pode ir al\u00e9m de si mesmo. O pensamento-sentimento se torna escravo de sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o, de seu pr\u00f3prio poder de ilus\u00e3o, se n\u00e3o tem consci\u00eancia de seus pr\u00f3prios caminhos. S\u00f3 quando o pensamento cessa de formular pode haver cria\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0As imagens de santos, Mestres, n\u00e3o nos ajudam a meditar corretamente?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Se voc\u00ea tiver que ir para o norte, por que olhar em dire\u00e7\u00e3o ao sul? Se quiserem ser livres, por que se tornarem escravos? Voc\u00ea deve conhecer a sobriedade por meio da embriaguez? Deve ter tirania para conhecer a liberdade?<\/p><p>Como a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 da maior import\u00e2ncia, devemos abord\u00e1-la corretamente desde o in\u00edcio. Meios corretos criam fins corretos; o fim est\u00e1 nos meios. Meios errados produzem fins errados, e em nenhum momento meios errados produzir\u00e3o fins corretos. Matando outra pessoa, voc\u00ea produzir\u00e1 toler\u00e2ncia e compaix\u00e3o? S\u00f3 medita\u00e7\u00e3o correta pode produzir compreens\u00e3o correta. \u00c9 essencial que aquele que medita compreenda a si mesmo, n\u00e3o os objetos de sua medita\u00e7\u00e3o, pois quem medita e sua medita\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma coisa s\u00f3, n\u00e3o separados. Sem se compreender, a medita\u00e7\u00e3o se torna um processo de auto-hipnose induzindo experi\u00eancias de acordo com o condicionamento da pessoa, sua cren\u00e7a. O sonhador deve compreender a si mesmo, n\u00e3o seus sonhos; ele deve despertar e dar um fim a eles. Se quem medita estiver em busca de um fim, um resultado, ele ir\u00e1 se hipnotizar por seu desejo. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9, muitas vezes, um processo de auto-hipnose; ela pode produzir certos resultados desejados, mas tal medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o traz ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p><p>O interrogante quer saber se exemplos ajudam a meditar corretamente. Eles podem ajudar a se concentrar, focalizar a aten\u00e7\u00e3o, mas tal concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 medita\u00e7\u00e3o. Simples concentra\u00e7\u00e3o, embora enfadonha, \u00e9 comparativamente f\u00e1cil, mas e da\u00ed? Quem se concentra ainda \u00e9 o que \u00e9, apenas adquiriu uma nova faculdade, um novo meio atrav\u00e9s do qual pode funcionar, apreciar, e n\u00e3o fazer mal. Qual o valor da concentra\u00e7\u00e3o se aquele que se concentra \u00e9 sensual, mundano, e est\u00fapido? Ele ainda far\u00e1 mal; ainda criar\u00e1 animosidade e confus\u00e3o. A simples concentra\u00e7\u00e3o estreita a mente-cora\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 refor\u00e7a seu condicionamento, causando credulidade e obstina\u00e7\u00e3o. Antes de aprender a se concentrar, compreenda a estrutura de todo o seu ser, n\u00e3o apenas de uma parte dele. Com a consci\u00eancia de si vem o autoconhecimento, o pensar correto. Essa consci\u00eancia de si ou compreens\u00e3o cria sua pr\u00f3pria disciplina e concentra\u00e7\u00e3o; esta disciplina flex\u00edvel \u00e9 duradoura, efetiva, n\u00e3o a disciplina auto-imposta da gan\u00e2ncia e da inveja. A compreens\u00e3o sempre se amplia e aprofunda na conscientiza\u00e7\u00e3o extensiva; essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para a medita\u00e7\u00e3o correta. A medita\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00e3o.<\/p><p>Usamos exemplos como um meio de inspira\u00e7\u00e3o. Por que buscamos inspira\u00e7\u00e3o? Como nossas vidas s\u00e3o vazias, est\u00fapidas e mec\u00e2nicas n\u00f3s buscamos inspira\u00e7\u00e3o fora de n\u00f3s. O Mestre, o santo, o salvador se tornam uma necessidade, uma necessidade que nos escraviza. Estando escravizado, voc\u00ea tem que se libertar de sua liga\u00e7\u00e3o para descobrir o real, pois o real s\u00f3 pode ser experimentado em liberdade.<\/p><p>Porque voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 interessado no autoconhecimento, procura outras inspira\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 outra forma de distra\u00e7\u00e3o. O autoconhecimento \u00e9 um processo de descoberta criativa que \u00e9 obstru\u00eddo quando o pensamento-sentimento est\u00e1 preocupado com o ganho. A gan\u00e2ncia por um resultado impede o florescimento do autoconhecimento. A busca em si \u00e9 devo\u00e7\u00e3o, \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o. A mente que fica se identificando, comparando, julgando logo se esgota e precisa de distra\u00e7\u00e3o, chamada inspira\u00e7\u00e3o. Toda distra\u00e7\u00e3o, nobre ou outra, \u00e9 idolatria. Mas se aquele que medita come\u00e7a a compreender a si mesmo, ent\u00e3o sua medita\u00e7\u00e3o tem grande significa\u00e7\u00e3o. Pela conscientiza\u00e7\u00e3o de si e autoconhecimento vem o pensar correto; s\u00f3 ent\u00e3o o pensamento pode ir al\u00e9m e acima das camadas condicionadas da consci\u00eancia. Medita\u00e7\u00e3o ent\u00e3o \u00e9 ser, que tem seu pr\u00f3prio movimento eterno; \u00e9 cria\u00e7\u00e3o em si mesma, pois quem medita deixou de ser.<\/p><p>29 de julho de 1945<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>10\u00aa Palestra em Ojai Existe um estado duradouro de tranquilidade criativa? H\u00e1 um fim para a aparentemente intermin\u00e1vel disputa dos opostos? Existe um \u00eaxtase imperec\u00edvel? O fim do conflito e do sofrimento est\u00e1 na compreens\u00e3o e transcend\u00eancia dos caminhos do ego e na descoberta desta imperec\u00edvel realidade que n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o da mente. 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