{"id":1538,"date":"2022-12-18T16:20:43","date_gmt":"2022-12-18T16:20:43","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1538"},"modified":"2022-12-18T16:21:57","modified_gmt":"2022-12-18T16:21:57","slug":"15-07-1945","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1538","title":{"rendered":"15\/07\/1945"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1538\" class=\"elementor elementor-1538\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-432bef2b elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"432bef2b\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-332a5ac2\" data-id=\"332a5ac2\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3b58b8e6 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3b58b8e6\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>8\u00aa Palestra em Ojai<\/strong><\/p><p>O problema da rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 facilmente compreendido, ele requer paci\u00eancia e flexibilidade da mente-cora\u00e7\u00e3o; simples ajustamento ou conformidade a um sistema de conduta n\u00e3o gera compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o; tal ajustamento e conformidade encobrem e intensificam a luta. Se quisermos compreender profundamente a rela\u00e7\u00e3o ela deve ser abordada de novo todo dia, sem cicatrizes ou mem\u00f3rias das experi\u00eancias de ontem. Estes conflitos na rela\u00e7\u00e3o constroem um muro de cont\u00ednua resist\u00eancia, e em vez de trazer unidade mais ampla e profunda, criam insuper\u00e1veis diferen\u00e7as e desuni\u00e3o.<\/p><p>Como voc\u00ea leria um livro interessante sem pular uma p\u00e1gina, do mesmo modo a rela\u00e7\u00e3o deve ser estudada e compreendida; a solu\u00e7\u00e3o do problema da rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai ser encontrada fora dela, mas nela; a resposta n\u00e3o est\u00e1 no final do livro, mas \u00e9 para ser encontrada na maneira como abordamos a rela\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea l\u00ea o livro da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de muito maior import\u00e2ncia do que a resposta, ou a supera\u00e7\u00e3o da disputa que existe nela. Ela deve ser abordada cada dia de novo sem o fardo do ontem; \u00e9 essa liberdade do ontem, do tempo, que traz compreens\u00e3o criativa.<\/p><p>Viver \u00e9 estar em rela\u00e7\u00e3o; n\u00e3o existe tal coisa como ser isolado. Rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um conflito dentro e fora; o conflito interno ampliado se torna o conflito do mundo. Voc\u00ea e o mundo n\u00e3o est\u00e3o separados; seu problema \u00e9 o problema do mundo; voc\u00ea carrega o mundo em voc\u00ea; sem voc\u00ea ele n\u00e3o existe. N\u00e3o existe isolamento e n\u00e3o existe objeto que n\u00e3o esteja em rela\u00e7\u00e3o. Este conflito n\u00e3o deve ser compreendido como um problema da parte, mas do todo.<\/p><p>Voc\u00ea est\u00e1 consciente \u2013 n\u00e3o est\u00e1? \u2013 do conflito na rela\u00e7\u00e3o, da constante disputa entre voc\u00ea e o outro, entre voc\u00ea e o mundo? Por que existe conflito na rela\u00e7\u00e3o? Ele n\u00e3o surge devido \u00e0 intera\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e conformidade, de domina\u00e7\u00e3o e possessividade? N\u00f3s nos conformamos, n\u00f3s dependemos, n\u00f3s possu\u00edmos pela defici\u00eancia interior, que d\u00e1 origem ao medo. N\u00f3s n\u00e3o conhecemos este medo na rela\u00e7\u00e3o \u00edntima, pr\u00f3xima? A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tens\u00e3o, e \u00e9 preciso profunda conscientiza\u00e7\u00e3o para compreend\u00ea-la.<\/p><p>Por que ansiamos por possuir ou dominar? N\u00e3o \u00e9 devido ao medo da defici\u00eancia? Estando com medo, queremos ficar seguros; emocionalmente e mentalmente desejamos estar salvos e bem ancorados nas coisas, nas pessoas, nas ideias. Internamente ansiamos por seguran\u00e7a, que se expressa exteriormente em depend\u00eancia, conformismo, possessividade e assim por diante. \u00c9 o vazio abrasador e aparentemente incessante que nos leva a encontrar um ref\u00fagio, uma esperan\u00e7a, na rela\u00e7\u00e3o, e confundimos o \u00edmpeto para evitar nossa agonia da solid\u00e3o com amor, dever, responsabilidade.<\/p><p>Mas qual \u00e9 a verdadeira significa\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o? Ela n\u00e3o \u00e9 um processo de autorrevela\u00e7\u00e3o? A rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um espelho onde, se estivermos conscientes, podemos observar sem distor\u00e7\u00e3o nossos pensamentos e motivos particulares, nosso estado interior? Na rela\u00e7\u00e3o o processo sutil do eu, do ego, \u00e9 revelado, e s\u00f3 atrav\u00e9s da conscientiza\u00e7\u00e3o sem escolha a defici\u00eancia interior pode ser transcendida. Essa transcend\u00eancia \u00e9 amor. O amor n\u00e3o tem motivo; ele \u00e9 sua pr\u00f3pria perenidade.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Como posso me tornar integrado?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O que voc\u00ea quer dizer com integra\u00e7\u00e3o? Isso quer dizer se tornar \u00edntegro, n\u00e3o ter conflito e sofrimento?<\/p><p>A maioria de n\u00f3s tenta estar integrado dentro dos n\u00edveis superficiais de nossa consci\u00eancia; tentamos nos integrar para funcionar normalmente dentro do padr\u00e3o da sociedade; desejamos nos ajustar num ambiente que aceitamos como sendo normal; mas n\u00e3o questionamos a significa\u00e7\u00e3o ou o valor da estrutura social a nossa volta. Conformidade a um padr\u00e3o \u00e9 considerado integra\u00e7\u00e3o; a educa\u00e7\u00e3o e a religi\u00e3o organizada nos apoiam nesse conformismo.<\/p><p>A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem um significado mais profundo do que o ajustamento \u00e0 sociedade e seus padr\u00f5es? Conformidade \u00e9 integra\u00e7\u00e3o? Integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 puro existir e n\u00e3o apenas a satisfa\u00e7\u00e3o de nosso desejo de fazer parte de um todo, se tornar normal? O motivo por tr\u00e1s do \u00edmpeto por integra\u00e7\u00e3o tem grande significado certamente.<\/p><p>O \u00edmpeto por integra\u00e7\u00e3o pode surgir da ambi\u00e7\u00e3o, do desejo de poder, por medo da defici\u00eancia e assim por diante. A coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para se obter um resultado, mas considere o que est\u00e1 implicado na ideia de realiza\u00e7\u00e3o do desejo; auto-afirma\u00e7\u00e3o, inveja, inimizade, a trivialidade do sucesso, disputa e dor. Algumas pessoas suprimem o anseio por sucesso mundano, mas cedem ao anseio de se tornarem virtuosas, serem um Mestre, alcan\u00e7ar a gl\u00f3ria espiritual, mas o anseio para conseguir leva sempre ao conflito, \u00e0 confus\u00e3o e ao antagonismo. Isso, novamente, n\u00e3o \u00e9 verdadeira integra\u00e7\u00e3o. A verdadeira integra\u00e7\u00e3o chega quando h\u00e1 conscientiza\u00e7\u00e3o e, portanto, compreens\u00e3o em todos os n\u00edveis da consci\u00eancia. Nossa consci\u00eancia superficial \u00e9 o resultado de educa\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia, e s\u00f3 quando o pensamento transcende a pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o criada por ele, pode haver verdadeira integra\u00e7\u00e3o. As muitas partes opostas e contradit\u00f3rias de nossa consci\u00eancia s\u00f3 podem ser integradas quando o criador dessas divis\u00f5es deixa de existir; dentro do padr\u00e3o do ego s\u00f3 pode haver conflito, n\u00e3o pode haver integra\u00e7\u00e3o, completude.<\/p><p>A integra\u00e7\u00e3o chega com a liberdade do anseio. Ela n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, mas se voc\u00ea busca autoconhecimento, sempre profundamente, ent\u00e3o a integra\u00e7\u00e3o se torna um caminho para a realidade.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea pode ser s\u00e1bio sobre algumas coisas, mas por que voc\u00ea, como me foi mostrado, \u00e9 contra a organiza\u00e7\u00e3o? Poderia explicar por que voc\u00ea a considera um obst\u00e1culo em nossa busca da realidade?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Por que organizamos? N\u00e3o \u00e9 por efici\u00eancia? Organizamos nossa exist\u00eancia a fim de vivermos; podemos organizar nosso pensamento-sentimento de modo a faz\u00ea-lo eficiente, mas eficiente para qu\u00ea? Para matar, oprimir, ter poder?<\/p><p>Se certas ideias, cren\u00e7as, doutrinas o atraem, voc\u00ea se une a outras pessoas para difundir efetivamente aquilo em que acredita, e para isso voc\u00ea cria uma organiza\u00e7\u00e3o. Mas a compreens\u00e3o da realidade \u00e9 resultado de propaganda, cren\u00e7a organizada, conformismo for\u00e7ado ou sutil? A realidade \u00e9 descoberta atrav\u00e9s das doutrinas de igrejas, cultos, ou seitas? A realidade \u00e9 para ser encontrada por meio de compuls\u00e3o, de imita\u00e7\u00e3o?<\/p><p>N\u00f3s pensamos \u2013 n\u00e3o? \u2013 que pelo conformismo, pela formula\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as, conheceremos o real. O pensamento-sentimento n\u00e3o deve transcender todo o condicionamento para descobrir o real? Agora o pensamento-sentimento experimenta aquilo em que \u00e9 educado, em que acredita, mas tal experi\u00eancia \u00e9 limitada e estreita; tal mente n\u00e3o pode experimentar o real. O conformismo pode ser organizado eficientemente; aderir a uma f\u00f3rmula, a uma doutrina pode ser manipulado efetivamente, mas levar\u00e1 \u00e0 realidade? A realidade n\u00e3o aparece quando h\u00e1 completa liberta\u00e7\u00e3o de toda autoridade, de toda compuls\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o? Este estado de ser n\u00f3s s\u00f3 experimentamos quando o pensamento est\u00e1 completamente quieto. S\u00f3 na liberdade est\u00e1 a experi\u00eancia do real.<\/p><p>A organiza\u00e7\u00e3o do pensamento-sentimento em nome de religi\u00e3o, paz e liberdade se faz atrativa e aceit\u00e1vel; sua tend\u00eancia \u00e9 aceitar a autoridade; seu desejo \u00e9 ser guiado; voc\u00ea olha para os outros para dirigir sua conduta. O r\u00e1dio, filmes, jornais, governos, igrejas modelam seu pensamento e sentimento, e porque voc\u00ea quer se adaptar, a tarefa deles fica mais f\u00e1cil. Seu anseio por seguran\u00e7a cria medo e \u00e9 o medo que permite a opress\u00e3o da autoridade; o medo for\u00e7a voc\u00ea n\u00e3o a como pensar, mas o que pensar. S\u00f3 na liberdade do medo est\u00e1 a descoberta do real.<\/p><p>O esfor\u00e7o do grupo, sem se conformar \u00e0 autoridade, podia ser muito significativo pela revela\u00e7\u00e3o de motivos e prop\u00f3sitos individuais; o grupo podia espelhar as atividades do ego e, atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o, despertar a consci\u00eancia de si. Mas se o grupo \u00e9 usado para auto-afirma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de propaganda ou como meio de fuga, ent\u00e3o ele se torna um obst\u00e1culo \u00e0 descoberta da realidade.<\/p><p>A criatividade surge quando o pensamento-sentimento n\u00e3o est\u00e1 ligado a algum padr\u00e3o, alguma formula\u00e7\u00e3o. O ego \u00e9 resultado do conformismo, do condicionamento, da mem\u00f3ria acumulada; assim, o ego nunca est\u00e1 livre para descobrir; ele s\u00f3 pode se expandir em seu pr\u00f3prio condicionamento e se organizar para ser eficiente e sutil em suas afirma\u00e7\u00f5es, objetivos e demandas, mas n\u00e3o pode ser livre. S\u00f3 quando o ego deixa de se tornar surge o real. Para estar livre para descobrir, a mem\u00f3ria de ontem deve cessar; \u00e9 o fardo do passado que d\u00e1 continuidade, e continuidade \u00e9 conformismo. N\u00e3o se ajuste para ser livre, pois isso n\u00e3o traz liberdade, e s\u00f3 na liberdade existe ser criativo. A liberdade n\u00e3o pode ser organizada, e quando ela \u00e9, deixa de ser liberdade. Tentamos fechar a verdade viva dentro de padr\u00f5es gratificantes de pensamento-sentimento e, assim, a destru\u00edmos.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Gostaria de perguntar se os Mestres n\u00e3o s\u00e3o uma grande fonte de inspira\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. Como a vida \u00e9 desigual deve haver Mestre e disc\u00edpulo, certamente?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Essa desigualdade n\u00e3o \u00e9 resultado da ignor\u00e2ncia? Essa divis\u00e3o do homem em superior e inferior n\u00e3o nega o real? Esta domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o do homem n\u00e3o \u00e9 resultado da ignor\u00e2ncia e da neglig\u00eancia?<\/p><p>Nossa estrutura social est\u00e1 constru\u00edda sobre divis\u00e3o e diferen\u00e7a de n\u00edveis \u2013 do balconista e do executivo, o general e o soldado, o bispo e o padre, aquele que sabe e aquele que n\u00e3o sabe. Essa divis\u00e3o se baseia no valor dos sentidos, que coloca o homem contra o homem.. Esse padr\u00e3o social gera infinita oposi\u00e7\u00e3o e antagonismo, e s\u00f3 pode haver um fim dentro desse padr\u00e3o quando o pensamento-sentimento transcende a gan\u00e2ncia, a m\u00e1 vontade e a ignor\u00e2ncia.<\/p><p>Com nossa mentalidade aquisitiva e competitiva tentamos captar a realidade e construir uma escada para a realiza\u00e7\u00e3o; criamos o elevado e o inferior, o Mestre e o pupilo. Pensamos na realidade como um fim a ser alcan\u00e7ado, como uma recompensa pela retid\u00e3o; pensamos que ela \u00e9 para ser alcan\u00e7ada com o tempo e, assim, mantemos a divis\u00e3o constante entre Mestre e pupilo, o bem sucedido e o ignorante.<\/p><p>O s\u00e1bio, o compassivo n\u00e3o pensa no homem em termos de divis\u00e3o; o tolo fica preso na divis\u00e3o social e religiosa do homem. Aqueles que est\u00e3o conscientes dessa divis\u00e3o e sabem que ela \u00e9 falsa e est\u00fapida superam, mas persistem na divis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que eles chamam de Mestres. Se voc\u00ea percebe a mis\u00e9ria causada neste mundo de sensa\u00e7\u00e3o pela divis\u00e3o entre elevado e inferior, por que n\u00e3o est\u00e1 consciente disso em todos os planos da exist\u00eancia? No mundo da sensa\u00e7\u00e3o a divis\u00e3o do homem contra o homem \u00e9 o resultado de gan\u00e2ncia e ignor\u00e2ncia, e tamb\u00e9m \u00e9 a gan\u00e2ncia e a ignor\u00e2ncia que criam o seguidor e o l\u00edder, o Mestre e o pupilo, o liberto e o n\u00e3o iluminado.<\/p><p>O interrogante pergunta se um Mestre ou um santo n\u00e3o \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea tira inspira\u00e7\u00e3o do outro, \u00e9 apenas uma distra\u00e7\u00e3o, por isso n\u00e3o criativa e ilus\u00f3ria. A inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 buscada de muitas formas mas, invariavelmente, ela gera depend\u00eancia e medo. O medo impede a compreens\u00e3o, ele p\u00f5e fim \u00e0 comunh\u00e3o, \u00e9 uma morte em vida.<\/p><p>N\u00e3o ser\u00e1 o ser criativo da realidade a norma? Voc\u00ea busca o outro por esperan\u00e7a e orienta\u00e7\u00e3o porque \u00e9 vazio e pobre; voc\u00ea se volta para livros, quadros, professores, gurus, salvadores para inspir\u00e1-lo e fortalec\u00ea-lo, voc\u00ea est\u00e1 sempre faminto, sempre procurando, mas nunca encontrando. S\u00f3 no ser criativo da realidade est\u00e1 a cessa\u00e7\u00e3o do conflito e do sofrimento. Mas separa\u00e7\u00e3o e desigualdade ser\u00e3o mantidas enquanto houver um se tornar; enquanto o pupilo quiser se tornar Mestre. Esse anseio por se tornar nasce da ignor\u00e2ncia, pois o presente \u00e9 o eterno. S\u00f3 na solid\u00e3o da realidade existe completude; nessa chama de ser criativo n\u00e3o existe nada al\u00e9m do \u2018o \u00fanico\u2019.<\/p><p>Apenas atrav\u00e9s do meio correto a realidade pode ser descoberta, pois o meio \u00e9 o fim; o meio e o fim s\u00e3o insepar\u00e1veis; atrav\u00e9s da consci\u00eancia de si e do autoconhecimento est\u00e1 a chama da realidade. Ela n\u00e3o se encontra no outro, mas atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio pensamento desperto. Ningu\u00e9m pode levar voc\u00ea a ela; ningu\u00e9m pode resgat\u00e1-lo de seu pr\u00f3prio sofrimento. A autoridade do outro \u00e9 ofuscante; s\u00f3 em completa liberdade o supremo pode ser encontrado. Vamos viver no tempo atemporalmente.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea acredita em progresso?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Existe o movimento chamado progress\u00e3o \u2013 n\u00e3o existe? \u2013 do simples para o complexo. Existe o processo de constante ajustamento ao ambiente que provoca modifica\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a, assumir novas formas. Existe intera\u00e7\u00e3o constante entre o exterior e o interior, cada um ajudando na transforma\u00e7\u00e3o do outro. Isso n\u00e3o demanda cren\u00e7a, podemos observar a sociedade se tornando mais e mais complexa, mais e mais eficientemente organizada para sobreviver, explorar, oprimir, e matar. A exist\u00eancia que era simples e primitiva se tornou muito complexa, altamente organizada e civilizada. N\u00f3s \u201cprogredimos\u201d, temos r\u00e1dios, filmes, meios de transporte r\u00e1pidos e todo o resto. Podemos matar, em vez de poucos, milhares e milhares num instante; podemos varrer, como se diz, cidades inteiras e seus moradores em poucos segundos abrasadores. Estamos bem conscientes disso, e alguns chamam isso de progresso; maiores e melhores casas, mais luxo, mais divertimentos, mais distra\u00e7\u00f5es. Isso pode ser considerado progresso? A expans\u00e3o de desejo sensorial \u00e9 progresso? Ou o progresso est\u00e1 na compaix\u00e3o?<\/p><p>Queremos dizer com progresso tamb\u00e9m \u2013 n\u00e3o \u00e9? \u2013 a constante expans\u00e3o do desejo, do ego. Agora, nesse processo de expans\u00e3o e se tornar, pode haver um fim para o conflito e o sofrimento? Se n\u00e3o, qual \u00e9 o prop\u00f3sito de se tornar? Se for para a continua\u00e7\u00e3o da disputa e da dor, qual o valor do progresso, da evolu\u00e7\u00e3o do desejo, da expans\u00e3o do ego? Se na expans\u00e3o do desejo tivermos a cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento, ent\u00e3o o se tornar teria significa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 da pr\u00f3pria natureza do anseio criar e continuar com o conflito e o sofrimento?<\/p><p>O ego, o \u2018eu\u2019, este feixe de mem\u00f3rias, \u00e9 o resultado do passado, o produto do tempo, e esse ego, n\u00e3o importa quanto possa ter evolu\u00eddo, experimenta o eterno? Pode o \u2018eu\u2019, se tornando maior, mais nobre ao longo do tempo, experimentar o real?<\/p><p>Pode o \u2018eu\u2019, a mem\u00f3ria acumulada, conhecer a liberdade? Pode o ego que anseia, e assim causa ignor\u00e2ncia e conflito, conhecer a ilumina\u00e7\u00e3o? S\u00f3 na liberdade pode haver ilumina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na escravid\u00e3o e na dor do anseio. Enquanto o \u2018eu\u2019 pensar em si como ganhando ou perdendo, se tornando e n\u00e3o se tornando, o pensamento estar\u00e1 preso ao tempo. O pensamento retido na escravid\u00e3o do ontem, do tempo, n\u00e3o pode experimentar o eterno.<\/p><p>N\u00f3s pensamos em termos de ontem, hoje e amanh\u00e3; eu fui, eu sou, e eu serei. Pensamos-sentimos em termos de acumula\u00e7\u00e3o; estamos constantemente criando e mantendo a ideia de tempo, de cont\u00ednuo se tornar. Ser \u00edntegro n\u00e3o \u00e9 diferente de se tornar? S\u00f3 podemos ser quando compreendemos o processo e significado de se tornar. Se compreend\u00eassemos profundamente dever\u00edamos ficar em sil\u00eancio, n\u00e3o? A pr\u00f3pria grandeza de um problema chama pelo sil\u00eancio como o faz a beleza. Mas voc\u00ea ficar\u00e1 perguntando, como eu me torno silencioso, como eu paro esse incessante tagarelar da mente? N\u00e3o existe se tornar silencioso; existe ou n\u00e3o existe sil\u00eancio. Se voc\u00ea est\u00e1 c\u00f4nscio da imensid\u00e3o de ser, ent\u00e3o h\u00e1 sil\u00eancio; sua pr\u00f3pria intensidade traz tranquilidade.<\/p><p>O car\u00e1ter pode ser modificado, mudado, se harmonizar, mas car\u00e1ter n\u00e3o \u00e9 realidade. O pensamento deve transcender a si mesmo para compreender o eterno. Quando pensamos em progresso, crescimento, n\u00e3o estamos pensando-sentindo dentro do padr\u00e3o do tempo? H\u00e1 um se tornar, modificar ou mudar no processo horizontal; esse se tornar conhece a dor e o sofrimento, mas levar\u00e1 \u00e0 realidade? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pois se tornar est\u00e1 sempre ligado ao tempo. S\u00f3 quando o pensamento se liberta do tornar-se, se liberta do passado por meio de conscientiza\u00e7\u00e3o diligente, est\u00e1 totalmente tranquilo, \u00e9 que existe o eterno.<\/p><p>Essa tranquilidade da compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 produzida por um ato da vontade, porque a vontade ainda faz parte do se tornar, do anseio, a mente-cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ficar tranquila quando a tempestade e o conflito do anseio cessam. Como o lago fica calmo quando o vento p\u00e1ra, a mente fica tranquila na sabedoria quando compreende e transcende seu pr\u00f3prio anseio e distra\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Esse anseio tem que ser compreendido conforme vai sendo revelado na a\u00e7\u00e3o cotidiana do pensamento-sentimento; por meio de constante conscientiza\u00e7\u00e3o os caminhos do anseio, do se tornar, s\u00e3o compreendidos e transcendidos. N\u00e3o dependa do tempo, mas seja incans\u00e1vel na busca do autoconhecimento.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Respondendo a uma pergunta sobre como resolver um problema psicol\u00f3gico de modo duradouro, voc\u00ea falou sobre as tr\u00eas fases consecutivas no processo de resolver tal problema, a primeira sendo considerar sua causa e efeito; em segundo lugar, a compreens\u00e3o desse problema particular como parte do conflito dualista; e depois, a descoberta de que o pensador e o pensamento s\u00e3o a mesma coisa. Parece a mim que o primeiro e o segundo passos s\u00e3o comparativamente f\u00e1ceis, enquanto o terceiro n\u00edvel n\u00e3o pode ser atingido numa progress\u00e3o similar simples, l\u00f3gica.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Ser\u00e1 que voc\u00ea observou por si mesmo as tr\u00eas fases que sugeri ao tentar resolver um problema psicol\u00f3gico? A maior parte de n\u00f3s pode estar consciente da causa e efeito de um problema e tamb\u00e9m estar consciente de seu conflito dualista, mas o interrogante sente que o terceiro passo, a descoberta de que o pensador e o pensamento s\u00e3o a mesma coisa, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil, nem pode ser compreendido logicamente. S\u00f3 sugeri esses tr\u00eas estados ou passos por conveni\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o verbal; eles fluem de um para o outro; eles n\u00e3o est\u00e3o fixados numa moldura de n\u00edveis diferentes. \u00c9 realmente importante compreender que eles n\u00e3o s\u00e3o diferentes est\u00e1gios, um superior ao outro; eles pendem na mesma linha de compreens\u00e3o. Existe uma inter-rela\u00e7\u00e3o entre causa e efeito e o conflito dualista e a descoberta de que o pensador e seu pensamento s\u00e3o o mesmo.<\/p><p>Causa e efeito s\u00e3o insepar\u00e1veis; na causa est\u00e1 o efeito. Para estar consciente da causa-efeito de um problema \u00e9 preciso certa flexibilidade imediata da mente-cora\u00e7\u00e3o, pois a causa-efeito vai sendo constantemente modificada, passa por cont\u00ednua mudan\u00e7a. O que foi uma vez causa-efeito pode ter se modificado agora, e estar consciente dessa modifica\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a \u00e9 certamente necess\u00e1rio para a verdadeira compreens\u00e3o. Acompanhar a mudan\u00e7a de causa-efeito \u00e9 extenuante, porque a mente se prende e se abriga no que era causa-efeito; ela se apega \u00e0 conclus\u00f5es e, assim, se condiciona ao passado. Deve haver consci\u00eancia desse condicionamento de causa-efeito; ele n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico, mas a mente \u00e9 quando logo se prende a uma causa-efeito que passa imediatamente. Carma \u00e9 a depend\u00eancia de causa-efeito. Como o pensamento em si \u00e9 o resultado de muitas causas-efeitos, ele tem que se desprender de suas pr\u00f3prias depend\u00eancias. O problema de causa-efeito n\u00e3o \u00e9 para ser observado superficialmente e ignorado. Ele \u00e9 a cont\u00ednua cadeia de mem\u00f3ria condicionada que deve ser observada e compreendida; estar consciente dessa cadeia sendo criada e acompanh\u00e1-la atrav\u00e9s de todos os n\u00edveis da consci\u00eancia \u00e9 trabalhoso; contudo isso deve ser profundamente explorado e compreendido.<\/p><p>Enquanto o pensador estiver preocupado com seu pensamento, haver\u00e1 dualismo; enquanto ele lutar com seus pensamentos, o conflito dualista continuar\u00e1. Existe solu\u00e7\u00e3o para um problema no conflito dos opostos? O criador do problema n\u00e3o \u00e9 mais importante do que o pr\u00f3prio problema? O pensamento s\u00f3 pode ir al\u00e9m e acima de seu conflito dualista quando o pensador n\u00e3o estiver separado de seu pensamento. Se o pensador estiver agindo sobre seu pensamento, ele se manter\u00e1 separado e ser\u00e1 sempre a causa do conflito de opostos. No conflito do dualismo n\u00e3o h\u00e1 resposta para nenhum problema, pois nesse estado o pensador est\u00e1 sempre separado de seu pensamento. O anseio permanece e, contudo, o objeto do anseio muda constantemente; o importante \u00e9 compreender o anseio em si, n\u00e3o o objeto do anseio.<\/p><p>O pensador \u00e9 diferente de seu pensamento? Eles n\u00e3o s\u00e3o um fen\u00f4meno \u00fanico? Por que o pensador se separa de seu pensamento? N\u00e3o \u00e9 para sua pr\u00f3pria continuidade? Ele est\u00e1 sempre buscando seguran\u00e7a, perman\u00eancia, e como os pensamentos s\u00e3o impermanentes, o pensador pensa em si mesmo como o permanente. O pensador se esconde atr\u00e1s de seus pensamentos e, sem se transformar, tenta mudar a moldura de seu pensamento. Ele se oculta por tr\u00e1s da atividade de seus pensamentos para se resguardar. Ele \u00e9 sempre o observador manipulando o observado, mas ele \u00e9 o problema e n\u00e3o seus pensamentos. Esse \u00e9 um dos modos sutis do pensador se atormentar com seus problemas e, assim, evitar sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Se o pensador separa seu pensamento de si mesmo e tenta modific\u00e1-lo sem se transformar radicalmente, conflito e desilus\u00e3o inevitavelmente se seguir\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para esse conflito e ilus\u00e3o a n\u00e3o ser atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio pensador. Essa completa integra\u00e7\u00e3o do pensador com seu pensamento n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel verbal, mas \u00e9 uma experi\u00eancia profunda que s\u00f3 acontece quando a causa-efeito \u00e9 compreendida e o pensador n\u00e3o est\u00e1 mais preso na oposi\u00e7\u00e3o dualista. Pelo autoconhecimento e a medita\u00e7\u00e3o correta, a integra\u00e7\u00e3o do pensador com seu pensamento acontece, e s\u00f3 ent\u00e3o o pensador pode ir al\u00e9m e acima de si mesmo. S\u00f3 ent\u00e3o o pensador deixa de existir. Na medita\u00e7\u00e3o correta o concentrador \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o; como \u00e9 praticada geralmente, o pensador \u00e9 o concentrador, se concentrando em alguma coisa ou se tornando alguma coisa. Na medita\u00e7\u00e3o correta o pensador n\u00e3o est\u00e1 separado de seu pensamento. Em raras ocasi\u00f5es n\u00f3s experimentamos essa integra\u00e7\u00e3o em que o pensador cessa completamente; s\u00f3 ent\u00e3o existe cria\u00e7\u00e3o, ser eterno. At\u00e9 o pensador estar em sil\u00eancio ele \u00e9 o criador de problemas, de conflito e sofrimento.<\/p><p>15 de julho de 1945.<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8\u00aa Palestra em Ojai O problema da rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 facilmente compreendido, ele requer paci\u00eancia e flexibilidade da mente-cora\u00e7\u00e3o; simples ajustamento ou conformidade a um sistema de conduta n\u00e3o gera compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o; tal ajustamento e conformidade encobrem e intensificam a luta. 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