{"id":1480,"date":"2022-12-18T16:15:06","date_gmt":"2022-12-18T16:15:06","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1480"},"modified":"2022-12-18T16:15:33","modified_gmt":"2022-12-18T16:15:33","slug":"10-06-1945","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1480","title":{"rendered":"10\/06\/1945"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1480\" class=\"elementor elementor-1480\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-6653135a elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"6653135a\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-7d811ab9\" data-id=\"7d811ab9\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-50f50952 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"50f50952\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>3\u00aa palestra em Ojai&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 importante compreender e assim transcender o conflito? A maior parte de n\u00f3s vive num estado de conflito interior que produz agita\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o exteriores; muitos fogem do conflito para a ilus\u00e3o, para v\u00e1rias atividades, para o conhecimento e a idea\u00e7\u00e3o, ou tornam-se c\u00ednicos e deprimidos. H\u00e1 alguns que, compreendendo o conflito, v\u00e3o para al\u00e9m das suas limita\u00e7\u00f5es. Sem compreender a natureza interna do conflito, o campo beligerante que somos, n\u00e3o pode haver paz, alegria.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s est\u00e3o presos numa s\u00e9rie intermin\u00e1vel de conflitos internos e sem os resolver a vida \u00e9 totalmente in\u00fatil e vazia. Estamos conscientes de dois p\u00f3los opostos de desejo, a car\u00eancia e a n\u00e3o-car\u00eancia. Aceitamos o conflito entre a compreens\u00e3o e a ignor\u00e2ncia como parte da nossa natureza; n\u00e3o vemos que \u00e9 imposs\u00edvel resolver este conflito dentro do padr\u00e3o da dualidade e portanto aceitamo-lo, fazendo do conflito uma virtude. Chegamos a consider\u00e1-lo como essencial para o desenvolvimento, para o aperfei\u00e7oamento do homem. N\u00e3o dizemos que atrav\u00e9s do conflito aprenderemos, que compreenderemos? Damos um significado religioso a este conflito de opostos mas conduz ele \u00e0 virtude, \u00e0 clarifica\u00e7\u00e3o, ou conduz \u00e0 ignor\u00e2ncia, \u00e0 insensibilidade, \u00e0 morte? J\u00e1 alguma vez repararam que no meio do conflito n\u00e3o h\u00e1 do todo compreens\u00e3o, somente uma luta cega? O conflito n\u00e3o \u00e9 producente de compreens\u00e3o. O conflito conduz, tal como dissemos, \u00e0 apatia, \u00e0 ilus\u00e3o. Temos que sair do padr\u00e3o da dualidade para uma compreens\u00e3o criativa, revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o acarreta o conflito, a luta para vir a ser e n\u00e3o vir a ser, um processo auto-confinante? N\u00e3o cria ele auto-consci\u00eancia? N\u00e3o \u00e9 a natureza do ego uma de conflito e dor? Quando \u00e9 que este consciente de si pr\u00f3prio? Quando h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 atrito, quando h\u00e1 antagonismo. No momento de alegria, a auto-consci\u00eancia \u00e9 inexistente; quando h\u00e1 felicidade voc\u00ea n\u00e3o diz que est\u00e1 feliz; s\u00f3 quando ela est\u00e1 ausente, quando h\u00e1 conflito, \u00e9 que se torna auto-consciente. O conflito \u00e9 um memorando para n\u00f3s pr\u00f3prios, uma consci\u00eancia da nossa pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o; \u00e9 isto o que causa a auto-consci\u00eancia. Esta luta constante conduz a muitas formas de fuga, \u00e0 ilus\u00e3o; sem compreendermos a natureza do conflito, a aceita\u00e7\u00e3o da autoridade, a cren\u00e7a ou a ideologia s\u00f3 conduz \u00e0 ignor\u00e2ncia e a mais dor. Com a compreens\u00e3o do conflito estas tornam-se impotentes e in\u00fateis.<\/p>\n<p>A escolha entre desejos em oposi\u00e7\u00e3o unicamente continua o conflito; a escolha implica dualidade; atrav\u00e9s da escolha n\u00e3o h\u00e1 liberdade, porque a vontade continua a ser producente de conflito. Ent\u00e3o como \u00e9 poss\u00edvel ao pensamento estar acima e para al\u00e9m do padr\u00e3o da dualidade? S\u00f3 quando compreendemos os caminhos da \u00e2nsia e da auto-gratifica\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel transcender o intermin\u00e1vel conflito dos opostos. Estamos sempre \u00e0 procura de prazer e a evitar a dor; o desejo constante de vir a ser endurece a mente-cora\u00e7\u00e3o, causando disc\u00f3rdia e dor. N\u00e3o notaram como \u00e9 cruel o homem no seu desejo de vir a ser? Vir a ser algo neste mundo \u00e9 relativamente o mesmo que vir a ser algo no que \u00e9 considerado o mundo espiritual; em cada um, o homem \u00e9 impulsionado pelo desejo de vir a ser e esta \u00e2nsia conduz ao conflito incessante, a crueldade e antagonismo peculiares. Ent\u00e3o renunciar \u00e9 adquirir e a aquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 a semente do conflito. Este processo de renunciar e adquirir, de vir a ser e n\u00e3o vir a ser \u00e9 uma corrente infind\u00e1vel de dor.<\/p>\n<p>Como ir acima e para al\u00e9m deste conflito \u00e9 o nosso problema. Esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o te\u00f3rica mas uma quest\u00e3o que nos confronta quase o tempo todo. Podemos fugir para alguma fantasia que pode ser racionalizada e feita parecer real mas ainda assim \u00e9 uma ilus\u00e3o; n\u00e3o se torna real por explica\u00e7\u00f5es astutas nem pelo n\u00famero dos seus aderentes. Para transcender o conflito a \u00e2nsia de vir a ser tem que ser experimentada e compreendida. O desejo de vir a ser \u00e9 complexo e subtil mas tal como com todas as coisas complexas tem que ser abordado de maneira simples. Esteja intensamente consciente do desejo de vir a ser. Esteja consciente do sentimento de vir a ser; com o sentimento chega uma sensibilidade que come\u00e7a a revelar as muitas implica\u00e7\u00f5es do vir a ser. O sentimento \u00e9 endurecido pelo intelecto e pelas suas muitas astutas racionaliza\u00e7\u00f5es, e por muito que o intelecto possa esclarecer a complexidade do vir a ser \u00e9 incapaz de experimentar. Pode alcan\u00e7ar o significado de tudo isto verbalmente mas isso ser\u00e1 de pouca consequ\u00eancia; s\u00f3 a experi\u00eancia e o sentimento podem trazer a chama criativa da compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o condene o vir a ser mas seja consciente da sua causa e efeito em si pr\u00f3prio. A condena\u00e7\u00e3o, o julgamento e a compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o trazem a experi\u00eancia da compreens\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, parar\u00e3o a experi\u00eancia. Esteja consciente da identifica\u00e7\u00e3o e da condena\u00e7\u00e3o, da justifica\u00e7\u00e3o e da compara\u00e7\u00e3o; esteja consciente delas e elas chegar\u00e3o a um fim. Esteja silenciosamente consciente do vir a ser; experimente esta consci\u00eancia silenciosa. Estar tranquilo e tornar-se tranquilo s\u00e3o dois estados diferentes. O tornar-se tranquilo nunca pode experimentar o estado de estar tranquilo. S\u00f3 no estar tranquilo \u00e9 que todo o conflito \u00e9 transcendido.<\/p>\n<p><strong>Interrogante:<\/strong>&nbsp;Fala por favor da morte? N\u00e3o me refiro ao medo da morte mas antes \u00e0 promessa e \u00e0 esperan\u00e7a a que o pensamento da morte se deve agarrar sempre para aqueles que est\u00e3o consciente durante toda a vida que n\u00e3o pertencem.<\/p>\n<p><strong>Krishnamurti:<\/strong>&nbsp;Porque \u00e9 que estamos mais interessados na morte que na vida? Porque \u00e9 que olhamos para a morte como uma liberta\u00e7\u00e3o, como uma promessa de esperan\u00e7a? Porque deveria haver mais felicidade, mais alegria na morte que na vida? Porque \u00e9 que precisamos de olhar para a morte como uma renova\u00e7\u00e3o, mais que a vida? Queremos fugir da dor da exist\u00eancia para uma promessa e uma esperan\u00e7a que o desconhecido det\u00e9m? Viver \u00e9 conflito e infelicidade e como nos educamos para a morte inevit\u00e1vel, contamos com a morte para uma recompensa. A morte \u00e9 glorificada ou rejeitada dependendo das tribula\u00e7\u00f5es da vida; e vida \u00e9 uma coisa a ser suportada e a morta uma coisa a ser bem-vinda. Estamos de novo presos no conflito dos opostos. N\u00e3o h\u00e1 verdade nos opostos. N\u00e3o compreendemos a vida, o presente, portanto contamos com o futuro, com a morte. O amanh\u00e3, o futuro, a morte, trar\u00e1 compreens\u00e3o? Abrir\u00e1 o tempo a porta para a Realidade? Estamos sempre preocupados com o tempo, o passado a entrela\u00e7ar-se no presente e no futuro, somos o produto do tempo, do passado; fugimos para o futuro, para a morte.<\/p>\n<p>O presente \u00e9 o Eterno. O Intemporal n\u00e3o \u00e9 experimentado atrav\u00e9s do tempo. O agora \u00e9 o onipresente; mesmo que fuja para o futuro, o agora \u00e9 onipresente. O presente \u00e9 o umbral para o passado. Se n\u00e3o compreender o presente agora, compreend\u00ea-lo-\u00e1 no futuro? O que voc\u00ea \u00e9 agora \u00e9 o que ser\u00e1, se o presente n\u00e3o for compreendido. A compreens\u00e3o s\u00f3 chega atrav\u00e9s do presente; a posterga\u00e7\u00e3o n\u00e3o produz compreens\u00e3o. O tempo s\u00f3 \u00e9 transcendido na tranquilidade do presente. Esta tranquilidade n\u00e3o se obt\u00e9m atrav\u00e9s do tempo, atrav\u00e9s de se tornar tranquilo; tem que haver tranquilidade, n\u00e3o o tornar-se tranquilo. Olhamos para o tempo como um meio para vir a ser; este ir a ser \u00e9 infind\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 o Eterno, o Intemporal. O vir a ser \u00e9 conflito intermin\u00e1vel, conduzindo \u00e0 ilus\u00e3o. Na tranquilidade do presente est\u00e1 o Eterno.<\/p>\n<p>Mas o pensamento-sentimento est\u00e1 a tecer para tr\u00e1s e para a frente, como uma lan\u00e7adeira, entre o passado, o presente e o futuro; est\u00e1 constantemente a reordenar as suas mem\u00f3rias; sempre a manobrar para uma posi\u00e7\u00e3o melhor, mais vantajosa e confort\u00e1vel para ele mesmo. Est\u00e1 sempre a dissipar e a formular e como pode uma mente assim estar tranquila, criativamente vazia? Est\u00e1 continuamente a causar o seu pr\u00f3prio devir por esfor\u00e7o constante, e como uma mente assim compreender o ser tranquilo do presente? S\u00f3 o pensar correto e a medita\u00e7\u00e3o podem originar a clareza da compreens\u00e3o e s\u00f3 nisto h\u00e1 tranquilidade.<\/p>\n<p>A morte de algu\u00e9m a quem ama traz dor. O choque dessa dor \u00e9 entorpecente, paralisante, e \u00e0 medida que sai dela voc\u00ea procura um escape dessa dor. A falta de companhia, os h\u00e1bitos que s\u00e3o revelados, o vazio e a solid\u00e3o que s\u00e3o postos a descoberto atrav\u00e9s da morte causam dor, e voc\u00ea instintivamente quer fugir dela. Quer conforto, um paliativo para aliviar o sofrimento. O sofrimento \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia, mas ao procurar um escape voc\u00ea est\u00e1 s\u00f3 a nutrir a ignor\u00e2ncia. Em vez de embotar a mente-cora\u00e7\u00e3o na dor atrav\u00e9s de escapes, confortos, racionaliza\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as, esteja intensamente consciente da sua defesa astuta e solicita\u00e7\u00f5es reconfortantes e ent\u00e3o haver\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o desse vazio e dessa dor. Porque voc\u00ea procura fugir a dor persegue, porque voc\u00ea procura conforto e depend\u00eancia, a solid\u00e3o \u00e9 intensificada. N\u00e3o fugir. N\u00e3o procurar conforto, \u00e9 extremamente dif\u00edcil e s\u00f3 a auto-consci\u00eancia intensa pode erradicar a causa da dor.<\/p>\n<p>Na morte procuramos imortalidade; no movimento do nascimento e morte ansiamos por perman\u00eancia; apanhados no fluxo do tempo ansiamos pelo Intemporal; estando na sombra acreditamos na luz. A morte n\u00e3o conduz \u00e0 imortalidade; s\u00f3 h\u00e1 imortalidade na vida sem morte. Na vida conhecemos a morte porque nos apegamos \u00e0 vida. Colhemos, devimos; porque colhemos a morte vem, e conhecendo a morte apegamo-nos \u00e0 vida.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a e a cren\u00e7a na imortalidade n\u00e3o \u00e9 experimentar a imortalidade. A cren\u00e7a e a esperan\u00e7a t\u00eam que cessar para que haja o imortal. Voc\u00ea o crente, o criador do desejo, tem que cessar para que haja o imortal. A sua pr\u00f3pria cren\u00e7a e esperan\u00e7a fortalecem o ego e voc\u00ea s\u00f3 conhecer\u00e1 o nascimento e a morte. Com a cessa\u00e7\u00e3o da \u00e2nsia, da causa do conflito, chega uma tranquilidade criativa e neste sil\u00eancio existe isso que \u00e9 sem nascimento e sem morte. Ent\u00e3o vida e morte s\u00e3o uma.<\/p>\n<p><strong>Interrogante:<\/strong>&nbsp;\u00c9 mais f\u00e1cil estar livre das \u00e2nsias sexuais que das ambi\u00e7\u00f5es subtis; porque a individualidade quer auto-express\u00e3o com cada f\u00f4lego. Estar livre do nosso egotismo significa uma revolu\u00e7\u00e3o completa no pensamento. Como \u00e9 que podemos permanecer no mundo com um tal volte-face da mente?<\/p>\n<p><strong>Krishnamurti:<\/strong>&nbsp;Porque \u00e9 que queremos permanecer no mundo, o mundo que \u00e9 t\u00e3o cruel, ignorante e luxurioso? Podemos ter que viver nele mas a exist\u00eancia torna-se dolorosa quando estamos nele. Quando somos ambiciosos, quando h\u00e1 inimizade, quando os valores sensoriais se tornam completamente importantes, ent\u00e3o estamos perdidos e ent\u00e3o o mundo det\u00e9m-nos (a n\u00f3s). N\u00e3o podemos viver sem gan\u00e2ncia entre a gan\u00e2ncia, contentes com pouco? Entre o doentio n\u00e3o podemos viver em sa\u00fade? O mundo n\u00e3o est\u00e1 separado de n\u00f3s, n\u00f3s somos o mundo; fizemo-lo o que ele \u00e9. Ele adquiriu a sua mundaneidade devido a n\u00f3s e para o deixarmos temos que afastar de n\u00f3s a mundaneidade. S\u00f3 ent\u00e3o podemos viver no mundo e n\u00e3o ser dele.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de sexo e de ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem significado sem amor. A castidade n\u00e3o \u00e9 o produto do intelecto; se a mente planeia e conspira ser casta, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 casta. S\u00f3 o amor \u00e9 casto. Sem amor, a mera aus\u00eancia de lux\u00faria \u00e9 est\u00e9ril e portanto a causa de disc\u00f3rdia e dor intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mais uma vez, o desejo de estar livre da ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 um conflito dentro do padr\u00e3o da dualidade. Se neste padr\u00e3o se treinou para n\u00e3o ser ambicioso voc\u00ea continua nos opostos, e portanto n\u00e3o h\u00e1 liberdade. Voc\u00ea apenas substituiu um r\u00f3tulo por outro e portanto o conflito continua. N\u00e3o podemos n\u00f3s experimentar diretamente esse estado para al\u00e9m do padr\u00e3o da dualidade? N\u00e3o nos deixemos pensar em termos de devir que indicam o conflito de opostos, n\u00e3o indicam? Eu sou isto e quero vir a ser aquilo apenas fortalece o conflito e embota portanto a mente-cora\u00e7\u00e3o. Estamos habituados a pensar em termos de futuro, de ser ou de vir a ser. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estar consciente do que \u00e9? Quando pensamos-sentimos o que \u00e9, sem compara\u00e7\u00e3o, sem julgamento, com aquela integra\u00e7\u00e3o completa do pensador com o seu pensamento, ent\u00e3o aquilo que \u00e9, \u00e9 totalmente transformado; mas esta transforma\u00e7\u00e3o jamais pode ter lugar dentro do campo da dualidade. N\u00e3o nos tornemos conscientes mas sejamos portanto conscientes da ambi\u00e7\u00e3o. Quando estamos assim conscientes estamos conscientes de todas as suas implica\u00e7\u00f5es; este sentimento \u00e9 importante, n\u00e3o a mera an\u00e1lise da causa e do efeito da ambi\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea est\u00e1 consciente da ambi\u00e7\u00e3o est\u00e1 consciente da sua assertividade, da sua crueldade competitiva, dos seus prazeres e dor; est\u00e1 tamb\u00e9m consciente do seu efeito na sociedade e da rela\u00e7\u00e3o; das suas moralidades sociais e de neg\u00f3cio que s\u00e3o imorais; das suas maneiras astutas e ocultas que em \u00faltima an\u00e1lise conduzem \u00e0 disc\u00f3rdia. A ambi\u00e7\u00e3o gera inveja e malevol\u00eancia, o poder de dominar e de oprimir. Esteja consciente de si pr\u00f3prio tal como \u00e9 e do mundo que voc\u00ea criou, e sem condena\u00e7\u00e3o ou justifica\u00e7\u00e3o esteja silenciosamente consciente de se sentir ambicioso.<\/p>\n<p>Se estiver silenciosamente consciente, conforme explicamos, ent\u00e3o o pensador e o seu pensamento s\u00e3o um, n\u00e3o s\u00e3o separados mas indivis\u00edveis; s\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 a completa transforma\u00e7\u00e3o da ambi\u00e7\u00e3o. Mas a maior parte de n\u00f3s, se \u00e9 que estamos conscientes, estamo-lo da causa e do efeito da ambi\u00e7\u00e3o e infelizmente paramos por ali; mas se olh\u00e1ssemos mais atentamente para este processo de escolha abandon\u00e1-lo-\u00edamos, porque o conflito n\u00e3o \u00e9 gerador de compreens\u00e3o. Abandonando-o encontrar\u00edamos o pensador e o seu pensamento. Tal como as qualidades n\u00e3o podem ser separadas do ego, assim o pensador n\u00e3o pode ser separado do seu pensamento. Quando uma tal integra\u00e7\u00e3o tem lugar h\u00e1 a completa transforma\u00e7\u00e3o do pensador. Est\u00e1 \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua que exige flexibilidade alerta e consci\u00eancia sem escolha. A medita\u00e7\u00e3o adv\u00e9m do pensar correto e o pensar correto do auto-conhecimento. Sem auto-conhecimento n\u00e3o h\u00e1 compreens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Interrogante:<\/strong>&nbsp;Creio ter compreendido que o senhor diz que a criatividade \u00e9 uma intoxica\u00e7\u00e3o da qual \u00e9 dif\u00edcil libertar-se. Contudo fala muitas vezes da pessoa criativa. Quem \u00e9 ele se n\u00e3o \u00e9 o artista, o poeta, o construtor?<\/p>\n<p><strong>Krishnamurti:<\/strong>&nbsp;\u00c9 o artista, o poeta, o construtor necessariamente a pessoa criativa? N\u00e3o \u00e9 ele tamb\u00e9m luxurioso, mundano, n\u00e3o est\u00e1 ele \u00e0 procura de sucesso pessoal? N\u00e3o est\u00e1 ele portanto a contribuir para o caos e a infelicidade no mundo? N\u00e3o \u00e9 ele respons\u00e1vel pelas suas cat\u00e1strofes e m\u00e1goas? Ele \u00e9 respons\u00e1vel quando procura a fama, \u00e9 invejoso quando \u00e9 mundano, quando os seus valores s\u00e3o sensoriais; quando \u00e9 apaixonado. Porque tem um talento, isso faz do artista uma pessoa criativa? A criatividade \u00e9 algo infinitamente mais grandioso que a mera capacidade de expressar; a mera express\u00e3o com \u00eaxito e o seu reconhecimento n\u00e3o constituem certamente a criatividade. O sucesso neste mundo implica ser deste mundo, do mundo da opress\u00e3o e da crueldade, da ignor\u00e2ncia e da malevol\u00eancia, n\u00e3o implica? A ambi\u00e7\u00e3o produz resultados, mas n\u00e3o traz com ela infelicidade e confus\u00e3o para aquele que \u00e9 bem sucedido e para o seu semelhante? O cientista, o construtor, podem ter trazido certos benef\u00edcios mas n\u00e3o trouxeram tamb\u00e9m destrui\u00e7\u00e3o e infelicidade incont\u00e1vel? \u00c9 isto criatividade? \u00c9 criatividade p\u00f4r o homem contra o homem tal como o fazem os pol\u00edticos, os governantes, os sacerdotes?<\/p>\n<p>A criatividade surge quando h\u00e1 aus\u00eancia de depend\u00eancia da \u00e2nsia com os seus conflitos e dor. Com o abandono do ego com a sua assertividade e crueldade e as suas lutas intermin\u00e1veis para vir a ser, chega a realidade criativa. Na beleza de um p\u00f4r-do-sol ou de uma noite calma, n\u00e3o sentiu a alegria criativa, intensa? Nesse momento, o ego estando temporariamente ausente, voc\u00ea \u00e9 vulner\u00e1vel, est\u00e1 aberto \u00e0 realidade. Este \u00e9 um acontecimento raro e n\u00e3o procurado, fora do seu controlo, mas tendo sentido uma vez a sua intensidade \u00e9 sentida o ego solicita mais prazer dele, e assim come\u00e7a o conflito.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s experimentamos a aus\u00eancia tempor\u00e1ria do ego e sentimos nesse momento o extraordin\u00e1rio \u00eaxtase criativo, mas em vez de ele ser raro e acidental n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel originar o estado correto em que a Realidade seja eterna? Se voc\u00ea procurar esse \u00eaxtase ent\u00e3o isso ser\u00e1 uma atividade do ego, que produzir\u00e1 determinados resultados, mas n\u00e3o ser\u00e1 aquele estado que chega atrav\u00e9s do pensar correto e da medita\u00e7\u00e3o correta. As maneiras subtis do ego t\u00eam que ser conhecidas e compreendidas porque com o auto-conhecimento chega o pensar correto e a medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pensar correto chega com o fluxo constante da auto-consci\u00eancia, consci\u00eancia da a\u00e7\u00f5es mundanas bem como das atividades na medita\u00e7\u00e3o. A criatividade com o seu \u00eaxtase chega com a aus\u00eancia da \u00e2nsia, o que \u00e9 virtude.<\/p>\n<p><strong>Interrogante:<\/strong>&nbsp;Durante os \u00faltimos anos parece ter concentrado as suas palestras, cada vez mais, no desenvolvimento do pensar correto. Antes costumava falar mais sobre as experi\u00eancias m\u00edsticas. Est\u00e1 agora a evitar deliberadamente este aspecto?<\/p>\n<p><strong>Krishnamurti:<\/strong>&nbsp;N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio assentar a funda\u00e7\u00e3o correta para a experi\u00eancia correta? Sem o pensar correto n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia ilus\u00f3ria? Se voc\u00ea quiser uma casa bem constru\u00edda e duradoura, n\u00e3o tem que a colocar em alicerces firmes e corretos? Experimentar \u00e9 comparativamente f\u00e1cil e n\u00f3s experimentamos dependendo do nosso condicionamento. Experimentamos de acordo com as nossas cren\u00e7as e ideais mas todas estas experi\u00eancias trazem liberdade? N\u00e3o reparou que a experi\u00eancia chega de acordo com a nossa tradi\u00e7\u00e3o e cren\u00e7a? A tradi\u00e7\u00e3o e o credo moldam a experi\u00eancia, mas para experimentar a Realidade que n\u00e3o pertence a qualquer tradi\u00e7\u00e3o ou ideologia, n\u00e3o tem o pensamento que ir para acima e para al\u00e9m do seu pr\u00f3prio condicionamento? N\u00e3o \u00e9 a realidade eternamente o n\u00e3o-criado? E n\u00e3o tem a mente que cessar de criar, de formular, que quiser experimentar o N\u00e3o-criado? N\u00e3o tem a mente-cora\u00e7\u00e3o que estar absolutamente tranquila e silenciosa que o Real seja?<\/p>\n<p>Tal como qualquer experi\u00eancia pode ser mal interpretada assim pode qualquer experi\u00eancia fazer-se parecer como o Real. Depende do int\u00e9rprete a tradu\u00e7\u00e3o e se o tradutor for preconceituoso, ignorante, se estiver moldado a um padr\u00e3o de pensamento, ent\u00e3o a sua compreens\u00e3o ajustar-se-\u00e1 ao seu condicionamento. Se ele for o dito religioso, as suas experi\u00eancias ser\u00e3o de acordo com a sua tradi\u00e7\u00e3o e cren\u00e7a; se ele for n\u00e3o-religioso ent\u00e3o as suas experi\u00eancias moldar-se-\u00e3o de acordo com o seu background. Do instrumento depende a sua capacidade; a mente-cora\u00e7\u00e3o tem que se fazer capacitada. Ela \u00e9 capaz quer de experimentar o Real quer de criar para si pr\u00f3pria uma ilus\u00e3o. Experimentar o Real \u00e9 \u00e1rduo porque ele requer flexibilidade infinita e uma tranquilidade profunda, b\u00e1sica. Esta flexibilidade, esta tranquilidade n\u00e3o \u00e9 o resultado do desejo ou de um ato da vontade, porque o desejo e a vontade s\u00e3o o resultado da \u00e2nsia, o impulso dual de ser e de n\u00e3o ser. A flexibilidade e a tranquilidade n\u00e3o s\u00e3o o resultado do conflito; elas surgem com a compreens\u00e3o e a compreens\u00e3o chega com o auto-conhecimento.<\/p>\n<p>Sem auto-conhecimento voc\u00ea vive unicamente num estado de contradi\u00e7\u00e3o e incerteza; sem auto-conhecimento o que voc\u00ea pensa-sente n\u00e3o tem base; sem auto-conhecimento a ilumina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Voc\u00ea \u00e9 o mundo, o vizinho, o amigo, o dito inimigo. Se quiser compreender tem que compreender-se primeiro a si pr\u00f3prio, porque em si est\u00e1 a raiz de toda a compreens\u00e3o. Em si est\u00e1 o princ\u00edpio e o fim. Para compreender esta vasta e complexa entidade a mente-cora\u00e7\u00e3o tem que ser simples.<\/p>\n<p>Para compreender o passado, a mente-cora\u00e7\u00e3o tem que estar consciente das suas atividades no presente porque s\u00f3 atrav\u00e9s do presente \u00e9 que o passado pode ser compreendido, mas n\u00e3o compreender\u00e1 o presente se houver auto-identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto o passado \u00e9 revelado atrav\u00e9s do presente; atrav\u00e9s da consci\u00eancia imediata s\u00e3o descobertas e compreendidas as muitas camadas ocultas. Assim atrav\u00e9s da consci\u00eancia constante surge profundo e amplo auto-conhecimento.<\/p>\n<p>10\/06\/1945.<\/p>\n<p><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>3\u00aa palestra em Ojai&nbsp; &nbsp; N\u00e3o \u00e9 importante compreender e assim transcender o conflito? A maior parte de n\u00f3s vive num estado de conflito interior que produz agita\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o exteriores; muitos fogem do conflito para a ilus\u00e3o, para v\u00e1rias atividades, para o conhecimento e a idea\u00e7\u00e3o, ou tornam-se c\u00ednicos e deprimidos. H\u00e1 alguns que, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1480","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1480"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1487,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1480\/revisions\/1487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}