{"id":1425,"date":"2022-12-18T16:09:15","date_gmt":"2022-12-18T16:09:15","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1425"},"modified":"2022-12-18T16:09:45","modified_gmt":"2022-12-18T16:09:45","slug":"02-07-1944","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1425","title":{"rendered":"02\/07\/1944"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1425\" class=\"elementor elementor-1425\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4af48088 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4af48088\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-426e3bcd\" data-id=\"426e3bcd\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-582098a3 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"582098a3\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Oitava Palestra em Oak Grove<\/strong><\/p><p>Nas \u00faltimas palestras estivemos discutindo como desenvolver a faculdade com a qual descobrir o que \u00e9 verdade, onde est\u00e1 a serenidade e a paz criativa. Essa faculdade \u00e9 para ser desenvolvida, como eu expliquei, atrav\u00e9s do pensar correto \u2013 pensar correto que \u00e9 diferente de pensamento correto, condicionado. Conscientizando-se, nos deparamos com o conflito da dualidade que, se n\u00e3o for profundamente compreendido, levar\u00e1 a tipos errados de esfor\u00e7o. O esfor\u00e7o correto consiste no pensamento-sentimento libertar-se desse conflito de m\u00e9rito e dem\u00e9rito, o tornar-se e o n\u00e3o-tornar-se. Para desenvolver a percep\u00e7\u00e3o da verdade deve haver franqueza, integridade de compreens\u00e3o, que s\u00f3 vem com a humildade. Como expliquei, a virtude n\u00e3o est\u00e1 no desenvolvimento de qualidades, que \u00e9 cultivar os opostos e, assim, criar esfor\u00e7o errado; mas libertando o pensamento-sentimento do anseio, a virtude surge.<\/p><p>E tamb\u00e9m discutimos um pouco rela\u00e7\u00e3o, depend\u00eancia, medo e amor \u2013 como provocar a liberta\u00e7\u00e3o do pensamento-sentimento da depend\u00eancia e do medo, que corrompem o amor.<\/p><p>Eu disse que esta manh\u00e3 tentar\u00edamos compreender o que faz a vida simples. Vida simples \u00e9 liberdade da gan\u00e2ncia, liberdade do v\u00edcio e liberdade da distra\u00e7\u00e3o. A liberdade da gan\u00e2ncia est\u00e1, certamente, na compreens\u00e3o da causa que gera em n\u00f3s o conflito de avareza e inveja. Quanto mais adquirimos, maior a demanda por posses, e negar, dizer, \u201cEu n\u00e3o vou adquirir\u201d, de modo algum resolve o problema da avareza e da inveja. Mas observando, se conscientizando do processo de aquisi\u00e7\u00e3o e inveja em todos os diferentes n\u00edveis de nossa consci\u00eancia, come\u00e7amos a compreender seu profundo significado, com todas as implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e internas. Este estado de conflito ganancioso, possessividade competitiva, n\u00e3o leva \u00e0 vida simples \u2013 que \u00e9 essencial para compreender o real. Assim, se voc\u00ea se conscientizar da gan\u00e2ncia com seus problemas \u2013 n\u00e3o se colocando em oposi\u00e7\u00e3o a ela e, consequentemente, desenvolvendo a qualidade da n\u00e3o-gan\u00e2ncia, que \u00e9 s\u00f3 outra forma de avareza \u2013 voc\u00ea se conscientizar\u00e1 de suas implica\u00e7\u00f5es mais profundas e amplas.<\/p><p>Ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7ar\u00e1 a compreender que uma mente presa na avidez e na inveja n\u00e3o pode vivenciar a alegria da verdade. Uma mente que \u00e9 competitiva, retida no conflito do se tornar, pensando em termos de compara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 capaz de descobrir o real. O pensamento-sentimento que est\u00e1 intensamente consciente fica no processo de constante autodescoberta \u2013 essa descoberta, sendo verdadeira, \u00e9 libertadora e criativa. Tal autodescoberta traz liberdade da ambi\u00e7\u00e3o e da complexa vida do intelecto. \u00c9 essa vida complexa do intelecto que encontra gratifica\u00e7\u00e3o em v\u00edcios: curiosidade destrutiva, especula\u00e7\u00e3o, simples conhecimento, capacidade, fofoca e por a\u00ed vai; e esses obst\u00e1culos impedem a simplicidade da vida. Um h\u00e1bito v\u00edcio, uma especializa\u00e7\u00e3o, confere esperteza \u00e0 mente, um meio de focalizar o pensamento, mas isso n\u00e3o \u00e9 o florescimento do pensamento-sentimento na realidade.<\/p><p>Libertar-se da distra\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil j\u00e1 que n\u00e3o compreendemos completamente o processo de pensar-sentir, que se tornou ele mesmo um meio de distra\u00e7\u00e3o. Estando sempre incompleto, capaz de curiosidade especulativa e formula\u00e7\u00e3o, ele tem o poder de criar seus pr\u00f3prios obst\u00e1culos, ilus\u00f5es, que impedem a consci\u00eancia do real. Assim ele se torna sua pr\u00f3pria distra\u00e7\u00e3o, seu pr\u00f3prio inimigo. Como a mente \u00e9 capaz de criar ilus\u00e3o, esse poder deve ser compreendido antes que ele possa ficar totalmente livre das pr\u00f3prias distra\u00e7\u00f5es criadas por ele. A mente deve estar completamente quieta, em sil\u00eancio, pois todo pensamento se torna uma distra\u00e7\u00e3o. O anseio \u00e9 o fator de distor\u00e7\u00e3o, e como pode a mente que \u00e9 capaz de se iludir conhecer o simples, o real? At\u00e9 que o anseio em suas m\u00faltiplas formas seja compreendido e transcendido, n\u00e3o existe a alegria da vida interior simples, integral. Se voc\u00ea come\u00e7ar a se conscientizar das distra\u00e7\u00f5es exteriores e acompanh\u00e1-las at\u00e9 a causa que \u00e9 interior, ent\u00e3o o pensamento-sentimento, que se tornou ele mesmo o meio de sua pr\u00f3pria fuga, sua pr\u00f3pria causa de ignor\u00e2ncia, vai se desenredar do emaranhado das distra\u00e7\u00f5es. Conscientizando-se das distra\u00e7\u00f5es exteriores \u2013 posses, rela\u00e7\u00f5es, divers\u00f5es, prazeres, v\u00edcios \u2013 e sentindo-pensando sobre elas, as distra\u00e7\u00f5es interiores \u2013 fugas, conhecimento, especula\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as autoprotetoras, mem\u00f3rias e assim por diante \u2013 s\u00e3o descobertas. Quando h\u00e1 conscientiza\u00e7\u00e3o das distra\u00e7\u00f5es exteriores e interiores, acontece a compreens\u00e3o profunda, e s\u00f3 ent\u00e3o h\u00e1 um afastamento natural e f\u00e1cil delas. Pois o pensamento-sentimento se disciplinar para n\u00e3o ser distra\u00eddo impede a compreens\u00e3o da natureza e da causa da distra\u00e7\u00e3o, e disciplinar-se se torna uma fuga, um meio de distra\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A vida simples n\u00e3o consiste na mera posse de poucas coisas, mas na liberdade da posse e da n\u00e3o-posse, na indiferen\u00e7a pelas coisas que vem da profunda compreens\u00e3o. Simplesmente renunciar a coisas para alcan\u00e7ar maior felicidade, maior alegria prometida, \u00e9 buscar o pr\u00eamio que limita o pensamento e o impede de florescer e descobrir a realidade. Controlar pensamento-sentimento por um pr\u00eamio maior, por maior resultado, \u00e9 faz\u00ea-lo mesquinho, ignorante e sofredor. A simplicidade da vida chega com riquezas interiores, com liberdade interna do anseio, com liberdade da ambi\u00e7\u00e3o, do v\u00edcio, da distra\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Desta vida simples vem a necess\u00e1ria objetividade que n\u00e3o \u00e9 o resultado de concentra\u00e7\u00e3o fechada em si mesmo mas de conscientiza\u00e7\u00e3o extensiva e compreens\u00e3o meditativa. A vida simples n\u00e3o \u00e9 resultado de circunst\u00e2ncias externas; o contentamento com pouco vem com as riquezas da compreens\u00e3o interior. Se voc\u00ea depender de circunst\u00e2ncias para se satisfazer com a vida, ent\u00e3o criar\u00e1 mis\u00e9ria e caos, pois voc\u00ea \u00e9 um joguete do ambiente, e apenas quando as circunst\u00e2ncias s\u00e3o transcendidas atrav\u00e9s da compreens\u00e3o, existe ordem e clareza. Estar constantemente consciente do processo da ambi\u00e7\u00e3o, do v\u00edcio, da distra\u00e7\u00e3o, traz liberdade deles, e a\u00ed, ent\u00e3o, est\u00e1 a vida simples e verdadeira.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Meu filho foi morto nesta guerra. Tenho outro filho de doze anos e n\u00e3o quero perd\u00ea-lo tamb\u00e9m em outra guerra. Como se pode impedir outra guerra?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Tenho certeza que essa mesma pergunta deve ser colocada por toda m\u00e3e e pai pelo mundo afora. Esse \u00e9 um problema universal. E me pergunto qual \u00e9 o pre\u00e7o que os pais querem pagar para impedir outra guerra, para impedir que seus filhos sejam mortos, impedir esta apavorante carnificina humana; o quanto eles se disp\u00f5em quando afirmam que amam seus filhos, que a guerra deve ser impedida, que deve haver fraternidade, que deve ser encontrado um meio de interromper todas as guerras.<\/p><p>Para criar um novo modo de vida, voc\u00ea deve ter um novo modo revolucion\u00e1rio de pensar-sentir. Voc\u00ea ter\u00e1 outra guerra, est\u00e1 fadado a ter outra guerra, se estiver pensando em termos de nacionalidades, de preconceitos raciais, de fronteiras econ\u00f4micas e sociais. Se cada pessoa realmente considerar em seu cora\u00e7\u00e3o como impedir outra guerra, ela deve deixar de lado sua nacionalidade, sua religi\u00e3o particular especializada, sua avidez e ambi\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o o fizer, haver\u00e1 outra guerra, pois estes preconceitos e a ades\u00e3o a religi\u00f5es especializadas s\u00e3o meramente express\u00f5es exteriores de seu ego\u00edsmo, ignor\u00e2ncia, m\u00e1 vontade, lux\u00faria.<\/p><p>Mas voc\u00ea dir\u00e1 que levar\u00e1 muito tempo para cada um de n\u00f3s mudar e convencer outros deste ponto-de-vista; a sociedade n\u00e3o est\u00e1 preparada para receber esta ideia; os pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o interessados nisso; os l\u00edderes s\u00e3o incapazes desta concep\u00e7\u00e3o de um governo universal ou estado sem soberanias separadas. Voc\u00ea pode dizer que esse \u00e9 um processo evolutivo que produzir\u00e1 essa mudan\u00e7a necess\u00e1ria gradualmente. Se voc\u00ea respondesse desse modo a um pai cujo filho vai ser morto em outra guerra e se ele realmente amar o filho, voc\u00ea acha que ele encontraria esperan\u00e7a nesse processo evolutivo gradual? Ele quer salvar seu filho, e quer saber qual \u00e9 o modo mais seguro de interromper todas as guerras. Ele n\u00e3o ficar\u00e1 satisfeito com sua teoria de evolu\u00e7\u00e3o gradual. Essa teoria evolucion\u00e1ria de paz gradual \u00e9 verdadeira ou inventada por n\u00f3s para racionalizar nosso pensamento-sentimento indolente e ego\u00edsta? Ela n\u00e3o \u00e9 incompleta e, por isso, n\u00e3o verdadeira? N\u00f3s pensamos que devemos passar por v\u00e1rios est\u00e1gios, a fam\u00edlia, o grupo, a na\u00e7\u00e3o, e entre as na\u00e7\u00f5es e s\u00f3 ent\u00e3o teremos paz. \u00c9 apenas uma justificativa para nosso ego\u00edsmo e mesquinhez, intoler\u00e2ncia e preconceito; em vez de afastar esses perigos, n\u00f3s inventamos a teoria do desenvolvimento progressivo e sacrificamos a ela a felicidade dos outros e a nossa pr\u00f3pria. Se aplicarmos nossa mente e cora\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a da ignor\u00e2ncia e do ego\u00edsmo, ent\u00e3o poderemos criar um mundo sensato e feliz.<\/p><p>N\u00f3s n\u00e3o devemos pensar e sentir horizontalmente, mas verticalmente. Ou seja, em vez de seguir o curso da indol\u00eancia, ego\u00edsmo, do pensamento-sentimento ignorante de gradualismo, de lenta ilumina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do processo do tempo, de seguir este rumo de cont\u00ednuo conflito e mis\u00e9ria, de seguir este fluxo de constante assassinato em massa e um per\u00edodo de descanso dele \u2013 chamado paz \u2013 e um eventual para\u00edso na terra; em vez de pensar-sentir ao longo destas linhas horizontais, n\u00e3o podemos pensar-sentir verticalmente? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sairmos da continua\u00e7\u00e3o horizontal de confus\u00e3o e disputa e pensar-sentir longe dela, de forma nova, sem o sentido do tempo, verticalmente? Sem pensar em termos de evolu\u00e7\u00e3o, que ajuda a racionalizar nossa indol\u00eancia e posterga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos pensar-sentir diretamente, simplesmente? O amor da m\u00e3e pensa-sente diretamente e simplesmente, mas seu ego\u00edsmo, seu orgulho nacional e assim por diante, a ajuda a pensar-sentir em termos de gradualismo, horizontalmente.<\/p><p>O presente \u00e9 o imortal, nem o passado nem o futuro podem revel\u00e1-lo; s\u00f3 atrav\u00e9s do presente o intemporal \u00e9 percebido. Se voc\u00ea realmente deseja salvar seu filho e, assim, a humanidade de outra guerra, ent\u00e3o deve pagar o pre\u00e7o disso: n\u00e3o ser ambiciosa, n\u00e3o ter m\u00e1 vontade, e n\u00e3o ser mundana; pois lux\u00faria, m\u00e1 vontade e ignor\u00e2ncia geram conflito, confus\u00e3o e antagonismo; eles geram nacionalismo, orgulho e a tirania da m\u00e1quina. Se voc\u00ea est\u00e1 querendo se libertar da lux\u00faria, m\u00e1 vontade e ignor\u00e2ncia, s\u00f3 ent\u00e3o salvar\u00e1 seu filho de outra guerra. Para trazer alegria ao mundo, para dar fim a esse mortic\u00ednio em massa, deve haver completa revolu\u00e7\u00e3o interior do pensamento-sentimento que produz nova moralidade, uma moralidade n\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o, mas baseada na liberdade da sensualidade, mundanismo e do anseio por imortalidade pessoal.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea fala de conscientiza\u00e7\u00e3o meditativa, mas nunca fala de ora\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea se op\u00f5e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Na oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe compreens\u00e3o. A maior parte de n\u00f3s cede \u00e0 ora\u00e7\u00e3o peticion\u00e1ria, e essa forma de ora\u00e7\u00e3o cultiva, refor\u00e7a a dualidade, o observador e o observado, que s\u00e3o um fen\u00f4meno de jun\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quando essa dualidade cessa, existe o todo. Por mais que voc\u00ea possa pedir, sua resposta estar\u00e1 de acordo com sua demanda, mas ela n\u00e3o estar\u00e1 no real. A resposta para um desejo est\u00e1 no pr\u00f3prio desejo. Quando a mente-cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 totalmente quieta, totalmente silenciosa, s\u00f3 a\u00ed est\u00e1 o todo, o eterno.<\/p><p>Algum tempo atr\u00e1s vi uma pessoa que disse ter estado orando a Deus, e um de seus pedidos foi por um refrigerador. Por favor, n\u00e3o riam. E ela adquiriu n\u00e3o s\u00f3 o refrigerador, mas tamb\u00e9m uma casa, ent\u00e3o suas preces foram atendidas, e Deus era uma realidade, ela afirmou.<\/p><p>Quando voc\u00ea pede voc\u00ea receber\u00e1, mas tem que pagar por isso; de acordo com suas demandas voc\u00ea \u00e9 respondido, mas h\u00e1 um pre\u00e7o para isso. A avidez responde \u00e0 avidez. Quando voc\u00ea pede a partir da avidez, a partir do medo, a partir do querer, voc\u00ea ter\u00e1 uma resposta, mas deve pagar por isso, e voc\u00ea paga atrav\u00e9s de guerras, disputa, e mis\u00e9ria. Os s\u00e9culos de gan\u00e2ncia, crueldade, m\u00e1 vontade, ignor\u00e2ncia manifestam-se quando voc\u00ea os invoca. Assim, ceder \u00e0 ora\u00e7\u00e3o sem autoconhecimento, sem compreens\u00e3o, \u00e9 desastroso. A conscientiza\u00e7\u00e3o meditativa, da qual estive falando, \u00e9 o resultado do autoconhecimento em que existe pensar correto, e \u00e9 isso que liberta a mente-cora\u00e7\u00e3o do processo dual do observador e do observado, pois eles s\u00e3o um fen\u00f4meno de jun\u00e7\u00e3o, uma ocorr\u00eancia de uni\u00e3o. O observador est\u00e1 sempre condicionando o observado e \u00e9 extremamente dif\u00edcil ir al\u00e9m do observador e do observado, ir al\u00e9m e acima do criado. O pensador e seu pensamento devem cessar para o eterno surgir.<\/p><p>Eu tenho tentado explicar em minhas palestras como esclarecer a confus\u00e3o que existe entre o observador e o observado, o pensador e seu pensamento, atrav\u00e9s do autoconhecimento e do pensar correto. Porque sem auto-esclarecimento, o observador est\u00e1 sempre condicionando o observado e, assim, n\u00e3o pode ir al\u00e9m de si mesmo e se torna prisioneiro. Ele fica preso em sua pr\u00f3pria ilus\u00e3o. Para a percep\u00e7\u00e3o daquilo que n\u00e3o \u00e9 criado, n\u00e3o constru\u00eddo, o pensamento-sentimento deve transcender o criado, o resultado, o ego; o pensamento-sentimento deve parar de demandar, parar de adquirir, parar de ser distra\u00eddo por alguma forma de ritualismo e mem\u00f3ria. Se voc\u00ea experimentar, descobrir\u00e1 como \u00e9 extremamente dif\u00edcil para o pensamento ficar completamente livre de seu tagarelar e cria\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quando ele est\u00e1 livre assim, s\u00f3 quando o observador e o observado cessaram, est\u00e1 o imensur\u00e1vel.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Eu tenho feito anota\u00e7\u00f5es como voc\u00ea sugeriu. Acho que n\u00e3o consigo ir al\u00e9m dos pensamentos triviais. \u00c9 porque a mente consciente se recusa a reconhecer os anseios e demandas subconscientes e, ent\u00e3o, escapa para um bloqueio vazio?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Eu sugeri que para diminuir a velocidade da mente a fim de examinar o processo do pensamento-sentimento, voc\u00ea escrevesse cada pensamento-sentimento. Se se quer compreender, por exemplo, o mecanismo de alta rota\u00e7\u00e3o, deve-se diminuir sua velocidade, n\u00e3o par\u00e1-lo, pois ele assim se tornaria mat\u00e9ria morta; mas faz\u00ea-lo girar calmamente, gentilmente, para estudar sua estrutura, seu movimento. Do mesmo modo, se quisermos compreender nossa mente, devemos diminuir a velocidade de nosso pensamento \u2013 n\u00e3o interromp\u00ea-lo \u2013 diminu\u00ed-lo a fim de estud\u00e1-lo, acompanh\u00e1-lo em sua extens\u00e3o integral. E para fazer isso, sugeri que voc\u00ea escrevesse cada pensamento-sentimento. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escrever todo pensamento e sentimento, pois h\u00e1 muitos deles, mas se voc\u00ea tentar escrever um pouco a cada dia, logo come\u00e7ar\u00e1 a se conhecer; voc\u00ea come\u00e7ar\u00e1 a ficar ciente das muitas camadas de sua consci\u00eancia, de sua inter-rela\u00e7\u00e3o e inter-rea\u00e7\u00e3o. Essa consci\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil, mas para ir t\u00e3o longe voc\u00ea deve come\u00e7ar perto.<\/p><p>Agora, o interrogante considera que seus pensamentos s\u00e3o triviais e que ele n\u00e3o pode ir al\u00e9m deles. Ele quer saber se essa trivialidade \u00e9 uma fuga dos anseios e demandas mais profundas. Parcialmente \u00e9, e tamb\u00e9m nossos pensamentos e sentimentos s\u00e3o eles mesmos mesquinhos, triviais, pequenos. A raiz da compreens\u00e3o encontra-se atrav\u00e9s do pequeno, do trivial. Sem compreender o pequeno, o pensamento-sentimento n\u00e3o pode ir al\u00e9m de si mesmo. Voc\u00ea deve ser tornar consciente de suas trivialidades, sua limita\u00e7\u00e3o, seus preconceitos para compreend\u00ea-los, e voc\u00ea s\u00f3 pode compreend\u00ea-los quando existe humildade, quando n\u00e3o h\u00e1 nem julgamento nem compara\u00e7\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o nem nega\u00e7\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 o in\u00edcio da sabedoria. A maior parte de nosso pensamento-sentimento \u00e9 trivial. Por que n\u00e3o reconhecer e compreender sua causa: o ego, o resultado de vasta e mesquinha ignor\u00e2ncia? Exatamente como seguindo um veio t\u00eanue voc\u00ea pode chegar a riquezas, do mesmo modo voc\u00ea pode acompanhar, refletir, sentir o trivial e descobrir profundos tesouros. O pequeno pode esconder o profundo, mas voc\u00ea deve acompanh\u00e1-lo. O trivial, se voc\u00ea estud\u00e1-lo, traz a promessa de algo mais. N\u00e3o o deixe de lado, mas se conscientize de cada pensamento-sentimento, pois ele tem significado.<\/p><p>Os bloqueios podem ocorrer ou porque a mente consciente n\u00e3o quer responder \u00e0s demandas mais profundas, que podem necessitar de um diferente curso de a\u00e7\u00e3o e, assim, trazem problema e dor, ou ela \u00e9 incapaz de mais amplo e mais profundo pensamento-sentimento. Se for a falta de capacidade, voc\u00ea pode cri\u00e1-la apenas por meio de persistente e constante conscientiza\u00e7\u00e3o, por meio de exame, observa\u00e7\u00e3o, estudo.<\/p><p>Eu s\u00f3 sugeri escrever cada pensamento-sentimento como meio de cultivo desta consci\u00eancia compreensiva, extensiva que n\u00e3o \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o pela exclus\u00e3o, nem a concentra\u00e7\u00e3o do isolamento que se fecha em si mesmo. Essa consci\u00eancia extensiva chega por meio da compreens\u00e3o, n\u00e3o por meio do simples julgamento ou compara\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Que garantia tenho eu de que esta nova faculdade de que voc\u00ea fala acontecer\u00e1?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Receio que nenhuma! Este n\u00e3o \u00e9 um investimento, com certeza. Se voc\u00ea estiver em busca de seguran\u00e7a, encontrar\u00e1 a morte, mas se voc\u00ea estiver inseguro, portanto se aventurando, buscando, o real ser\u00e1 descoberto. Queremos ter garantia, queremos ter certeza do resultado antes mesmo de tentarmos, pois somos indolentes e descuidados e n\u00e3o queremos partir na longa jornada da autodescoberta. N\u00e3o nos aplicamos; desejamos que a ilumina\u00e7\u00e3o nos seja dada em troca de nosso esfor\u00e7o, o que indica seguran\u00e7a possessiva. Na seguran\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 descoberta do real; essa busca de seguran\u00e7a \u00e9 autoprotetora e no ego existe ignor\u00e2ncia e sofrimento. Para compreender, para descobrir o real, deve haver o abandono do ego; deve haver compreens\u00e3o negativa daquilo que se encontra al\u00e9m de todos os esquemas astuciosos do ego. Aquilo que \u00e9 descoberto na busca do autoconhecimento \u00e9 verdadeiro, e \u00e9 essa verdade que \u00e9 libertadora e criativa \u2013 n\u00e3o minha garantia de que voc\u00ea ser\u00e1 libertado, o que seria completa insensatez. Estamos em conflito, em confus\u00e3o, em sofrimento, e \u00e9 esse sofrimento, n\u00e3o alguma promessa de recompensa, que deve ser a for\u00e7a imperiosa para buscar, explorar e descobrir o real. Essa explora\u00e7\u00e3o deve ser feita por cada um de n\u00f3s, e o autoconhecimento \u00e9 para ser cultivado por meio de constante autoconscientiza\u00e7\u00e3o. O pensar correto vem com o autoconhecimento, que traz paz e compreens\u00e3o. O fim se torna distante pela avidez.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0\u00c9 errado ter um Mestre, um professor espiritual em outro plano da exist\u00eancia?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Eu tentei responder essa mesma pergunta colocada de diferentes formas em diferentes ocasi\u00f5es, mas, aparentemente, poucos querem compreender. \u00c9 dif\u00edcil se desfazer da supersti\u00e7\u00e3o, pois a mente a cria e se torna sua prisioneira.<\/p><p>Como \u00e9 dif\u00edcil descobrir o que \u00e9 verdadeiro no que se l\u00ea, nas rela\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e pensamento! Preconceito, tend\u00eancia, condicionamento ditam nossa escolha; para descobrir o que \u00e9 verdadeiro essas coisas devem ser deixadas de lado; a mente deve descartar suas pr\u00f3prias restri\u00e7\u00f5es, os pensamentos-sentimentos estreitos. Descobrir o que \u00e9 verdadeiro em nossos pensamentos, sentimentos e a\u00e7\u00f5es, \u00e9 extremamente dif\u00edcil \u2013 e como \u00e9 muito mais dif\u00edcil discernir o verdadeiro num mundo supostamente espiritual! Se quisermos um mestre, um guru, j\u00e1 \u00e9 bastante dif\u00edcil encontrar um f\u00edsico, e deve ser muito mais complexo, ilus\u00f3rio buscar um no chamado mundo espiritual, em outro plano da exist\u00eancia. Mesmo que um suposto mestre espiritual escolha voc\u00ea, de fato \u00e9 voc\u00ea quem escolhe \u2013 n\u00e3o o suposto mestre. Se voc\u00ea n\u00e3o compreende a si mesmo neste mundo de a\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o, de lux\u00faria, m\u00e1 vontade e ignor\u00e2ncia, como pode confiar em seu julgamento, sua capacidade de discernir, num suposto mundo espiritual? Se voc\u00ea n\u00e3o conhece a si mesmo, como pode discernir o que \u00e9 verdadeiro? Como voc\u00ea pode saber que sua pr\u00f3pria mente, que tem o poder de criar ilus\u00e3o, n\u00e3o criou o Mestre, o professor? N\u00e3o \u00e9 a vaidade que o induz a buscar o Mestre e ser escolhido?<\/p><p>H\u00e1 uma hist\u00f3ria de um pupilo indo at\u00e9 um professor e pedindo-lhe que o levasse ao Mestre. O professor disse que o faria, apenas se ele, o aluno, fizesse exatamente o que lhe fosse dito. O pupilo ficou deslumbrado. Durante sete anos lhe foi dito que ele devia viver na caverna pr\u00f3xima e l\u00e1 seguir a instru\u00e7\u00e3o do professor. Primeiro lhe foi dito que ele devia sentar calmamente, pacificamente, em pensamento concentrado; no segundo ano ele foi convidar o Mestre para a caverna; no terceiro ano ele fez o Mestre sentar com ele; no quarto ano tinha que falar com ele; no quinto ano, tinha que fazer o Mestre andar pela caverna; no sexto ano faz\u00ea-lo sair da caverna. Depois do sexto ano, o professor pediu ao pupilo para sair e disse a ele, \u201cAgora voc\u00ea sabe quem \u00e9 o Mestre.\u201d<\/p><p>A mente tem o poder de criar ignor\u00e2ncia ou de discernir o que \u00e9 verdadeiro. Nessa busca pelo Mestre, existe sempre o desejo de ganhar, e da\u00ed surge medo, e uma mente que est\u00e1 em busca de recompensa e, assim, convocando o medo n\u00e3o pode compreender o que \u00e9 verdadeiro. \u00c9 o c\u00famulo da ignor\u00e2ncia pensar em termos de recompensa e puni\u00e7\u00e3o, de superior e inferior. Al\u00e9m disso, pode algu\u00e9m ajud\u00e1-lo a descobrir o que \u00e9 verdadeiro em seu pr\u00f3prio pensamento-sentimento? Outros podem apontar, mas voc\u00ea, voc\u00ea mesmo, tem que examinar e descobrir o que \u00e9 verdadeiro.<\/p><p>Se voc\u00ea olhar para outro a fim de ser salvo do sofrimento e da ignor\u00e2ncia, deste mundo ca\u00f3tico e b\u00e1rbaro, apenas criar\u00e1 mais confus\u00e3o e m\u00e1 vontade, mais ignor\u00e2ncia e sofrimento. Voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por seu pr\u00f3prio pensamento-sentimento; s\u00f3 voc\u00ea pode trazer clareza e ordem; s\u00f3 voc\u00ea pode se salvar de si mesmo; s\u00f3 pela sua compreens\u00e3o voc\u00ea pode transcender a gan\u00e2ncia, a m\u00e1 vontade e a ignor\u00e2ncia.<\/p><p>Cada um de n\u00f3s aqui, eu espero, est\u00e1 tentando buscar o real, o imperec\u00edvel, e n\u00e3o \u00e9 para ser distra\u00eddo pela beleza dos santu\u00e1rios, pelos ornamentos nos postes no caminho, pelo ritualismo. N\u00e3o existe autoridade que o leve \u00e0 realidade suprema, e essa realidade se encontra no in\u00edcio bem como no fim. N\u00e3o pare nos postes indicativos nem fique preso na mesquinhez dos grupos, nem se enamore pelo c\u00e2ntico ou pelo incenso dos rituais. Confiar no outro para o autoconhecimento adiciona mais ignor\u00e2ncia, pois o outro \u00e9 voc\u00ea mesmo. A raiz da compreens\u00e3o est\u00e1 oculta em voc\u00ea mesmo. A percep\u00e7\u00e3o do verdadeiro est\u00e1 no pensar correto, na humildade, na compaix\u00e3o, na vida simples, n\u00e3o na autoridade do outro. A autoridade do outro, por melhor que seja, leva a mais ignor\u00e2ncia e sofrimento.<\/p><p>2 de julho de 1944<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oitava Palestra em Oak Grove Nas \u00faltimas palestras estivemos discutindo como desenvolver a faculdade com a qual descobrir o que \u00e9 verdade, onde est\u00e1 a serenidade e a paz criativa. Essa faculdade \u00e9 para ser desenvolvida, como eu expliquei, atrav\u00e9s do pensar correto \u2013 pensar correto que \u00e9 diferente de pensamento correto, condicionado. 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