{"id":1381,"date":"2022-12-18T16:05:17","date_gmt":"2022-12-18T16:05:17","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1381"},"modified":"2022-12-18T16:05:47","modified_gmt":"2022-12-18T16:05:47","slug":"04-06-1944","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1381","title":{"rendered":"04\/06\/1944"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1381\" class=\"elementor elementor-1381\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3c8496b2 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3c8496b2\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-d15e1ca\" data-id=\"d15e1ca\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-588ecf5d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"588ecf5d\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quarta Palestra em Oak Grove<\/strong><\/p><p>Nas tr\u00eas \u00faltimas palestras tentei explicar o pensar correto, que vem do autoconhecimento, n\u00e3o \u00e9 adquirido atrav\u00e9s de outra pessoa, conquanto grande, nem atrav\u00e9s de um livro, mas antes atrav\u00e9s da experi\u00eancia da autodescoberta, atrav\u00e9s desta descoberta que \u00e9 criativa e libertadora. Tentei explicar que como nossa vida \u00e9 uma s\u00e9rie de disputas e conflitos, a menos que compreendamos o empenho correto, estaremos criando n\u00e3o clareza e paz, mas mais conflito e mais dor; que sem autoconhecimento, fazer uma escolha entre os opostos deve levar, inevitavelmente, a mais ignor\u00e2ncia e sofrimento.<\/p><p>N\u00e3o sei qu\u00e3o claramente eu expliquei este problema de conflito entre opostos; pois at\u00e9 compreendermos profundamente suas causas e efeitos, nosso empenho, conquanto s\u00e9rio e vigoroso, n\u00e3o vai nos libertar de nossa confus\u00e3o e mis\u00e9ria. Por mais que possamos formular ou tentar compreender aquilo que chamamos Deus ou verdade, n\u00e3o podemos compreender o desconhecido at\u00e9 a pr\u00f3pria mente se tornar t\u00e3o vasta, t\u00e3o imensur\u00e1vel como a coisa que estamos tentando sentir, experimentar. Para experimentar o imensur\u00e1vel, o desconhecido, a mente deve ir al\u00e9m e acima dela mesma.<\/p><p>O pensamento-sentimento \u00e9 limitado por sua pr\u00f3pria causa, o anseio de se tornar, que est\u00e1 ligado ao tempo. O anseio, pela identifica\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria, cria o ego, o \u2018eu\u2019 e o \u2018meu\u2019. \u00c9 o ator assumindo diferentes pap\u00e9is para atender a diferentes ocasi\u00f5es, mas, internamente, \u00e9 sempre o mesmo. At\u00e9 este anseio, causa de nossa ignor\u00e2ncia e sofrimento, ser compreendido e dissolvido, o conflito da dualidade continuar\u00e1 e o esfor\u00e7o para se desligar dele vai nos mergulhar mais nele. Este anseio se expressa atrav\u00e9s da sensualidade, da imortalidade pessoal, da autoridade, mist\u00e9rio, milagre. Enquanto a mente for o instrumento do ego, do anseio, haver\u00e1 dualidade e conflito. Tal mente n\u00e3o pode compreender o imensur\u00e1vel.<\/p><p>O ego, a consci\u00eancia do \u2018eu\u2019 e do \u2018meu\u2019, \u00e9 constru\u00eddo atrav\u00e9s do anseio, por uma s\u00e9rie de pensamentos e sentimentos n\u00e3o s\u00f3 no passado, mas pela influ\u00eancia desse passado no presente. N\u00f3s somos o resultado do passado; nossos seres se baseiam nele. Os muitos n\u00edveis interligados de nossa consci\u00eancia s\u00e3o o resultado do passado. Esse passado n\u00e3o \u00e9 para ser estudado e compreendido atrav\u00e9s do presente vivo; atrav\u00e9s dos dados do presente, o passado \u00e9 encoberto. Estudando o ego e sua causa, anseio, come\u00e7aremos a compreender o caminho da ignor\u00e2ncia e sofrimento. Simplesmente negar o anseio, simplesmente se opor a suas muitas express\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 transcend\u00ea-lo, mas prosseguir com ele. Negar o mundanismo \u00e9 ainda ser mundano; mas se voc\u00ea compreender os caminhos do anseio, ent\u00e3o a tirania dos opostos, possess\u00e3o e n\u00e3o-possess\u00e3o, m\u00e9rito e dem\u00e9rito, cessa. Se investigarmos o anseio profundamente, meditando sobre ele, se conscientizando de sua mais ampla e profunda significa\u00e7\u00e3o e, assim, transcendendo-o, despertaremos para uma nova, diferente faculdade que n\u00e3o \u00e9 geradora de anseio nem do conflito dos opostos. Por meio de constante autoconscientiza\u00e7\u00e3o surge uma observa\u00e7\u00e3o sem identifica\u00e7\u00e3o, o estudo do ego sem julgamento. Atrav\u00e9s dessa conscientiza\u00e7\u00e3o os muitos n\u00edveis da autoconsci\u00eancia s\u00e3o revelados e compreendidos. Autoconhecimento traz pensar correto que libertar\u00e1 o pensamento-sentimento do anseio e de seus muitos sofrimentos conflituosos.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>A compreens\u00e3o de si mesmo leva a uma mudan\u00e7a do problema e da ideia? Pode-se compreender como o nacionalismo surge: educa\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o, vaidade, etc., mas o nacionalista permanece ainda um nacionalista. A vontade de mudar, de compreender o problema, n\u00e3o traz a real dissipa\u00e7\u00e3o do problema. Ent\u00e3o qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo depois de conhecer as causas nesse processo de pensamento?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Identificar-se com uma ra\u00e7a particular, com um pa\u00eds particular, ou com certas ideologias rende seguran\u00e7a, satisfa\u00e7\u00e3o, e incensa a import\u00e2ncia de si mesmo. Essa adora\u00e7\u00e3o da parte, em lugar do todo, cultiva antagonismo, conflito e confus\u00e3o. Se voc\u00ea pensar nisso, perceber isso clara e inteligentemente, n\u00e3o examinando simples ideias, mas sua rea\u00e7\u00e3o a elas, ent\u00e3o, na compreens\u00e3o da total implica\u00e7\u00e3o do nacionalismo, ordem e clareza surgir\u00e3o nesta fina camada de consci\u00eancia com a qual funcionamos todo dia. \u00c9 importante fazer isso para nos conscientizarmos da completa significa\u00e7\u00e3o do nacionalismo \u2013 como ele divide a humanidade que \u00e9 uma, como ele gera antagonismo e opress\u00e3o, como ele encoraja o dom\u00ednio da propriedade e da fam\u00edlia, como ele condiciona o pensamento-sentimento por meio das organiza\u00e7\u00f5es, como ele cultiva barreiras econ\u00f4micas e pobreza, guerras, mis\u00e9rias e assim por diante.<\/p><p>Compreendendo a profunda implica\u00e7\u00e3o do nacionalismo, ordem e clareza s\u00e3o trazidas para a mente consciente e, nessa clareza, as respostas armazenadas, ocultas, se projetam. Pelo estudo dessas proje\u00e7\u00f5es diligentemente, inteligentemente, toda a consci\u00eancia \u00e9 libertada da doen\u00e7a do nacionalismo. Assim, voc\u00ea n\u00e3o se torna internacionalista, o que ainda mant\u00e9m o separatismo e a adora\u00e7\u00e3o da parte; mas existe uma consci\u00eancia de unidade e n\u00e3o-nacionalidade, uma liberdade de r\u00f3tulos e nomes, de preconceito racial e de classe.<\/p><p>O mesmo processo pode ser aplicado a todos os nossos problemas \u2013 pensar-sentir o problema t\u00e3o ampla e livremente quanto poss\u00edvel, trazendo, assim, ordem e clareza para a mente consciente que pode, ent\u00e3o, responder com compreens\u00e3o \u00e0s proje\u00e7\u00f5es das injun\u00e7\u00f5es e impulsos ocultos, interiores \u2013 resolvendo totalmente o problema. At\u00e9 os muitos n\u00edveis da mem\u00f3ria serem descobertos, expostos e suas respostas totalmente compreendidas, o problema continuar\u00e1; mas essa descoberta, essa investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se a mente consciente n\u00e3o estiver esclarecida sobre o problema. N\u00e3o ficar completamente identificado com o problema \u00e9 nossa dificuldade, pois a identifica\u00e7\u00e3o impede o fluxo de pensamento-sentimento; identifica\u00e7\u00e3o implica aceita\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o, julgamento ou compara\u00e7\u00e3o, o que distorce nossa compreens\u00e3o. O pensamento-sentimento se libertar de qualquer problema, de qualquer obst\u00e1culo, n\u00e3o \u00e9 trabalho para um momento. Liberdade demanda conscientiza\u00e7\u00e3o externa e interna, o exterior pronto para receber as respostas internas; essa constante conscientiza\u00e7\u00e3o traz profundo e amplo autoconhecimento. No autoconhecimento est\u00e1 a liberdade do pensar correto, e s\u00f3 no autoconhecimento os problemas, depend\u00eancias, s\u00e3o compreendidos e dissolvidos.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Eu sou uma pessoa muito ativa fisicamente. Chegar\u00e1 um dia em que n\u00e3o serei. Como vou ocupar meu tempo ent\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0A maioria de n\u00f3s est\u00e1 presa a valores sensoriais, e o mundo a nossa volta \u00e9 organizado para refor\u00e7\u00e1-los e mant\u00ea-los. N\u00f3s nos tornamos mais e mais envolvidos neles e envelhecemos descuidadamente, desgastados pela atividade exterior, mas interiormente inativos e pobres. Logo a atividade exterior, ruidosa, chega a um fim inevit\u00e1vel, e nos tornamos conscientes da solid\u00e3o, da pobreza de ser. A fim de encarar essa dor e medo, alguns continuam incessantemente ativos socialmente, na religi\u00e3o organizada, politicamente, e no mundo dos neg\u00f3cios, dando justificativas para sua atividade e alvoro\u00e7o ruidoso. Para aqueles que n\u00e3o podem prosseguir com a atividade exterior, a quest\u00e3o de o que fazer quando a velhice surge. Eles n\u00e3o podem, de repente, se tornarem ativos internamente, eles n\u00e3o sabem o que isso significa, toda a vida deles foi contra isso. Como se tornar\u00e3o internamente conscientes?<\/p><p>Seria s\u00e1bio se depois de certa idade, digamos talvez 40 ou 45 anos, ou mais jovem ainda, voc\u00ea se retirasse do mundo, antes que fosse muito velho. O que aconteceria se voc\u00ea se retirasse n\u00e3o simplesmente para aproveitar o fruto de ganhos sensoriais, mas se retirasse a fim de descobrir a si mesmo, a fim de pensar-sentir profundamente, meditar, descobrir a realidade? Talvez voc\u00ea pudesse salvar a humanidade do caminho sensorial, mundano, que ela vem seguindo, com toda a sua brutalidade, ilus\u00e3o e sofrimento. Assim, poderia haver um grupo de pessoas, dissociadas do mundanismo, de suas identifica\u00e7\u00f5es e demandas, capaz de gui\u00e1-la, ensin\u00e1-la. Estando livre do mundanismo, elas n\u00e3o teriam autoridade, nem import\u00e2ncia, e n\u00e3o seriam levadas para a estupidez e as calamidades. Pois um homem que n\u00e3o est\u00e1 livre da autoridade, da posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 capaz de guiar, de ensinar ao outro. Um homem que vive na autoridade se identifica com sua posi\u00e7\u00e3o, com sua import\u00e2ncia, com seu trabalho e, assim, est\u00e1 na escravid\u00e3o. Para compreender a liberdade da verdade deve haver liberdade para experimentar. Se tal grupo surgisse, eles podiam produzir um novo mundo, uma nova cultura.<\/p><p>\u00c9 triste para aquele que v\u00ea a velhice chegando come\u00e7ar a questionar sua vida vazia; ao menos ele come\u00e7ou a despertar. Um casal veio me ver outro dia. Eles trabalhavam numa f\u00e1brica ganhando muito dinheiro. Eram velhos. Ao longo da conversa, naturalmente, surgiu a sugest\u00e3o de que se aposentassem, considerando sua idade, para pensar, viver nova vida. Eles olharam surpresos e disseram \u201cComo assim?\u201d<\/p><p>Voc\u00ea pode rir, mas receio que a maioria de n\u00f3s est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o. Para a maioria de n\u00f3s, pensar, investigar \u00e9 ao longo da trilha determinada de um dogma particular ou cren\u00e7a, e seguir essa trilha \u00e9 considerado religioso, inteligente. O pensar correto s\u00f3 come\u00e7a com autoconhecimento e n\u00e3o no conhecimento de ideias e fatos, o que \u00e9 apenas extens\u00e3o da ignor\u00e2ncia.\u00a0 Mas se voc\u00ea, seja velho ou jovem, come\u00e7ar a compreender a si mesmo, descobrir\u00e1 grandes e imperec\u00edveis tesouros. Mas descobrir exige persistente conscientiza\u00e7\u00e3o, ajustamento e aplica\u00e7\u00e3o \u2013 consci\u00eancia de cada pensamento-sentimento \u2013 e, a partir da\u00ed, o tesouro da vida \u00e9 descoberto.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Como podemos compreender a n\u00f3s mesmos verdadeiramente, nossas infinitas riquezas, sem desenvolver uma completa percep\u00e7\u00e3o primeiro? De outro modo, com nossa percep\u00e7\u00e3o comparativa de pensamento, s\u00f3 conseguimos um compreens\u00e3o parcial deste infinito fluxo de causa em cuja ordem nos movemos e temos nosso verdadeiro ser consciente.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Como voc\u00ea pode compreender o todo quando est\u00e1 adorando a parte! Sendo mesquinho, parcial, limitado, como voc\u00ea pode compreender aquilo que \u00e9 sem limite, infinito? O pequeno n\u00e3o pode captar o grande, mas o pequeno pode cessar de existir. Compreendendo o que contribui para a limita\u00e7\u00e3o, para a parcialidade, e transcendendo isso, voc\u00ea ser\u00e1 capaz ent\u00e3o de compreender o todo, o ilimitado. A partir do conhecido o desconhecido \u00e9 percebido, mas especular sobre o desconhecido \u00e9, simplesmente, negar o limitado, o trivial; e, assim, toda especula\u00e7\u00e3o se torna um obst\u00e1culo para a compreens\u00e3o da realidade.<\/p><p>Comece a compreender a si mesmo e nisso haver\u00e1 a descoberta de imensur\u00e1veis riquezas. Comece com o conhecido, com o trivial, o limitado, o confuso, o pequeno que est\u00e1 ligado ao medo, \u00e0 cren\u00e7a, \u00e0 lux\u00faria, \u00e0 m\u00e1 vontade. Ele \u00e9 mesquinho, parcial, porque \u00e9 produto da ignor\u00e2ncia. Como pode tal mente compreender o todo? Ela n\u00e3o pode. Se o pensamento-sentimento se liberta do anseio e, por isso, da ignor\u00e2ncia e do sofrimento, s\u00f3 ent\u00e3o existe a possibilidade de compreender o todo. Como pode haver a compreens\u00e3o daquilo que n\u00e3o tem causa quando nosso pensamento-sentimento \u00e9 um resultado, quando est\u00e1 ligado ao tempo? Isso parece t\u00e3o \u00f3bvio que n\u00e3o requer muita explica\u00e7\u00e3o, mas, contudo, muitos est\u00e3o presos na ilus\u00e3o de que, primeiro, temos que ter a vis\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o do todo, uma hip\u00f3tese de trabalho como in\u00edcio, antes que haja a compreens\u00e3o da parte. Para ter uma percep\u00e7\u00e3o desta completude, a realiza\u00e7\u00e3o desta infinita realidade, o singularista, a mente limitada deve romper as barreiras que a confinam. A partir de uma pequena, estreita abertura os amplos c\u00e9us n\u00e3o s\u00e3o percebidos. Tentamos perceber o todo atrav\u00e9s da pequena abertura de nosso pensamento-sentimento, e o que vemos deve ser, inevitavelmente, pequeno, parcial, incompleto. Dizemos que queremos compreender o todo, contudo nos fixamos ao mesquinho, ao \u2018eu\u2019 e ao \u2018meu\u2019. Atrav\u00e9s da autoconsci\u00eancia, que traz autoconhecimento, o pensar correto \u00e9 nutrido, o que nos libertar\u00e1 de nossa trivialidade e sofrimento. Quando a mente p\u00e1ra de tagarelar, quando ela n\u00e3o est\u00e1 cumprindo nenhum papel, quando n\u00e3o est\u00e1 s\u00f4frega ou se tornando, quando est\u00e1 absolutamente im\u00f3vel, nesse vazio criativo est\u00e1 o todo, o n\u00e3o criado.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea acredita que existe mal no mundo?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Por que voc\u00ea me faz esta pergunta? Voc\u00ea n\u00e3o tem consci\u00eancia dele? Suas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o \u00f3bvias, seu sofrimento n\u00e3o \u00e9 esmagador? Quem o criou a n\u00e3o ser cada um de n\u00f3s? Quem \u00e9 respons\u00e1vel por ele a n\u00e3o ser cada um de n\u00f3s? Como criamos o bem, conquanto pequeno, tamb\u00e9m criamos o mal, conquanto vasto. Bem e mal s\u00e3o partes de n\u00f3s e s\u00e3o, tamb\u00e9m, independentes de n\u00f3s. Quando pensamos-sentimos estreitamente, invejosamente, com gan\u00e2ncia e \u00f3dio, estamos acrescentando ao mal que se volta e nos lacera. Esse problema de bem e mal, esse problema conflituoso, est\u00e1 sempre conosco conforme o criamos. Isso se tornou parte de n\u00f3s, esse querer e n\u00e3o querer, amar e odiar, ansiar e renunciar. Estamos, continuamente, criando essa dualidade em que o pensamento-sentimento est\u00e1 preso. O pensamento-sentimento s\u00f3 pode ir al\u00e9m e acima do bem e seu oposto quando compreender sua causa \u2013 anseio. Na compreens\u00e3o de m\u00e9rito e dem\u00e9rito est\u00e1 a liberdade dos dois. Os opostos n\u00e3o podem ser fundidos e tem que ser transcendidos pela dissolu\u00e7\u00e3o do anseio. Cada oposto deve ser pensado, sentido, t\u00e3o extensiva e profundamente quanto poss\u00edvel, atrav\u00e9s de todas as camadas da consci\u00eancia; atrav\u00e9s desse pensar, sentir, uma nova compreens\u00e3o \u00e9 despertada que n\u00e3o \u00e9 produto do anseio ou do tempo.<\/p><p>Existe o mal no mundo ao qual estamos contribuindo como contribu\u00edmos para o bem. O homem parece se unir mais no \u00f3dio do que no bem. Um homem s\u00e1bio percebe a causa de mal e bem, e pela compreens\u00e3o liberta o pensamento-sentimento deles.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0No \u00faltimo domingo, eu entendi, a partir do que voc\u00ea disse, que n\u00e3o tiramos tempo de nossos empregos, fam\u00edlia, atividades, para estudar a n\u00f3s mesmos. Isso parece uma contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 sua primeira afirma\u00e7\u00e3o de que a pessoa pode estar consciente em tudo que faz.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Certamente voc\u00ea come\u00e7a estando c\u00f4nscio em tudo que voc\u00ea faz. Mas o que acontece quando voc\u00ea est\u00e1 consciente assim? Se voc\u00ea vai ao encal\u00e7o dessa conscientiza\u00e7\u00e3o mais e mais, acaba ficando sozinho, mas n\u00e3o isolado. Nenhum objeto est\u00e1 em isolamento; existir \u00e9 estar em rela\u00e7\u00e3o, seja sozinho ou com muitos. Mas quando voc\u00ea come\u00e7a a se conscientizar em tudo que faz, est\u00e1 come\u00e7ando a estudar a si mesmo, est\u00e1 come\u00e7ando a ficar consciente de seus pensamentos-sentimentos interiores, privados, motivos, medos e assim por diante. Quanto mais h\u00e1 autoconsci\u00eancia, mais recolhido em si voc\u00ea se torna; voc\u00ea se torna mais silencioso, mais puramente consciente. Estamos muito ocupados com a fam\u00edlia, emprego, amigos, quest\u00f5es sociais e estamos pouco conscientes; a velhice e a morte se aproximam e nossa vida est\u00e1 vazia. Se voc\u00ea estiver consciente em sua rela\u00e7\u00e3o cotidiana e atividade, come\u00e7ar\u00e1 a desvincular pensamento-sentimento da causa da ignor\u00e2ncia e do sofrimento. Conscientizando-se do interior bem como das a\u00e7\u00f5es e respostas superficiais, as distra\u00e7\u00f5es cessar\u00e3o naturalmente, e uma vida simples vai, inevitavelmente, se seguir.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea acha que retornar\u00e1 aos Mestres?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O interrogante, acreditando e confiando nos Mestres, quer me levar de volta a seu rebanho; talvez ele considere que tendo aceitado uma vez sua cren\u00e7a, eu retornarei a ela.<\/p><p>Vamos examinar essa cren\u00e7a nos Mestres inteligentemente, sem nos identificarmos com ela. Para alguns ser\u00e1 dif\u00edcil j\u00e1 que est\u00e3o grandemente ocupados com ela, mas vamos tentar pensar-sentir t\u00e3o abertamente e livremente quanto poss\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o a isso. Por que voc\u00ea precisa de Mestres? Esses supostos seres vivos com os quais voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 diretamente em contato? Voc\u00ea, provavelmente, dir\u00e1 que eles atuam como sinalizadores da realidade. Se eles s\u00e3o sinalizadores, por que voc\u00ea p\u00e1ra e os adora? Por que voc\u00ea aceita os sinalizadores, os mediadores, os mensageiros, as autoridades intermedi\u00e1rias? E por que voc\u00ea forma organiza\u00e7\u00f5es, grupos, em torno deles? Se voc\u00ea est\u00e1 em busca da verdade, por que todo este barulho em torno deles, por que as organiza\u00e7\u00f5es exclusivas e conclaves secretos? N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 mais f\u00e1cil e mais agrad\u00e1vel demorar-se, adorar numa ermida, encontrar conforto nisso, mais do que seguir uma longa jornada de investiga\u00e7\u00e3o e descoberta? Ningu\u00e9m pode lev\u00e1-lo \u00e0 verdade, nem os Mestres nem os deuses nem seus mensageiros. Voc\u00ea sozinho tem que trabalhar, investigar, e descobrir.<\/p><p>Um professor com quem voc\u00ea est\u00e1 em contato diretamente \u00e9 uma coisa, embora isso tenha seus pr\u00f3prios perigos; mas estar supostamente em contato com aqueles com quem voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 diretamente em contato, ou em contato atrav\u00e9s de seus supostos representantes ou mensageiros, \u00e9 convocar a supersti\u00e7\u00e3o, a opress\u00e3o, e outros graves obst\u00e1culos. A adora\u00e7\u00e3o da autoridade \u00e9 a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o da verdade. A autoridade cega, e o florescimento da intelig\u00eancia \u00e9 destru\u00eddo; a arrog\u00e2ncia e a estupidez aumentam, a intoler\u00e2ncia e a divis\u00e3o crescem e se multiplicam.<\/p><p>Fundamentalmente, o que podem os Mestres lhe dizer? Conhe\u00e7a a si mesmo, cesse de odiar, seja compassivo, busque a realidade. Qualquer outro ensinamento seria de pouca import\u00e2ncia. Ningu\u00e9m pode lhe fornecer uma t\u00e9cnica, uma f\u00f3rmula definida para conhecer a voc\u00ea mesmo. Se voc\u00ea tivesse uma e a seguisse, n\u00e3o conheceria a si mesmo; conheceria o resultado da f\u00f3rmula, mas n\u00e3o a voc\u00ea mesmo. Para conhecer, voc\u00ea ter\u00e1 que investigar e descobrir dentro de si mesmo. O resultado de uma t\u00e9cnica, de uma pr\u00e1tica, de um h\u00e1bito \u00e9 n\u00e3o criativo, mec\u00e2nico. Nenhum outro pode ajud\u00e1-lo a compreender a si mesmo e, sem compreender a si, n\u00e3o h\u00e1 compreens\u00e3o da realidade. Essa busca pelos Mestres \u00e9 o est\u00edmulo para o mundanismo. Um valor super-sensato pertence ainda a este mundo e, por isso, a causa de ignor\u00e2ncia e sofrimento.<\/p><p>Ent\u00e3o se pode perguntar \u201cO que voc\u00ea faz, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um sinalizador?\u201d Se eu sou e voc\u00ea se re\u00fane para colocar flores, construir uma ermida e toda a estupidez que vem com isso, ent\u00e3o isso \u00e9 completamente insensato e indigno de pessoas adultas. O que estamos tentando fazer \u00e9 aprender a cultivar o pensar correto \u2013 que s\u00f3 chega com o autoconhecimento. Na base do pensar correto est\u00e1 o mais elevado. Este conhecimento ningu\u00e9m pode lhe dar, mas voc\u00ea mesmo tem que se tornar consciente de todos os seus pensamentos-sentimentos. Pois em voc\u00ea mesmo est\u00e1 o come\u00e7o e o fim, a vida inteira. O mais elevado \u00e9 para ser descoberto, n\u00e3o formulado.<\/p><p>Para ler as p\u00e1ginas do passado, voc\u00ea deve conhecer a si mesmo como no presente, pois atrav\u00e9s do presente, o passado se revela. Com voc\u00ea est\u00e1 a chave que abre a porta da realidade; ningu\u00e9m pode ofert\u00e1-la porque ela \u00e9 sua. Atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria conscientiza\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode abrir a porta; s\u00f3 atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia de si voc\u00ea pode ler o rico volume do autoconhecimento, pois nele est\u00e3o as pistas e as aberturas, os obst\u00e1culos e os bloqueios que impedem e ainda assim levam ao infinito, ao eterno.<\/p><p>4 de junho de 1944<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarta Palestra em Oak Grove Nas tr\u00eas \u00faltimas palestras tentei explicar o pensar correto, que vem do autoconhecimento, n\u00e3o \u00e9 adquirido atrav\u00e9s de outra pessoa, conquanto grande, nem atrav\u00e9s de um livro, mas antes atrav\u00e9s da experi\u00eancia da autodescoberta, atrav\u00e9s desta descoberta que \u00e9 criativa e libertadora. 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