{"id":1326,"date":"2022-12-18T15:59:19","date_gmt":"2022-12-18T15:59:19","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1326"},"modified":"2022-12-18T15:59:53","modified_gmt":"2022-12-18T15:59:53","slug":"30-06-1940","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1326","title":{"rendered":"30\/06\/1940"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1326\" class=\"elementor elementor-1326\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-579f548e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"579f548e\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-d59d166\" data-id=\"d59d166\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-79707a07 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"79707a07\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sexta Palestra em Oak Grove<\/strong><\/p><p>Aqueles de voc\u00eas que t\u00eam vindo a estes encontros regularmente ter\u00e3o que ter um pouco de paci\u00eancia, j\u00e1 que vou fazer um pequeno resumo do que foi dito para os rec\u00e9m-chegados.<\/p><p>Durante as \u00faltimas cinco semanas tentamos compreender o problema da gan\u00e2ncia e da rela\u00e7\u00e3o. Eu tentei explicar que, enquanto se depende psicologicamente de coisas, da propriedade, haver\u00e1 gan\u00e2ncia, o que causa muitos problemas individuais e sociais. A necessidade natural n\u00e3o \u00e9 gan\u00e2ncia, mas \u00e9 gan\u00e2ncia quando as coisas assumem significa\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia psicol\u00f3gica. Estando preso na gan\u00e2ncia, como pode o pensamento se libertar dela? Essa liberdade n\u00e3o vem da simples ren\u00fancia ou nega\u00e7\u00e3o, mas da compreens\u00e3o total do processo de ansiar. Compreender n\u00e3o \u00e9 controlar ou reprimir, mas um processo que transcende raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de conscientiza\u00e7\u00e3o penetrante.<\/p><p>Depois de considerar a gan\u00e2ncia e suas complexidades, examinei a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o humana, pessoal, na qual, como a maioria de n\u00f3s sabe, existe constante conflito. Tentei explicar que rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de auto-revela\u00e7\u00e3o \u2013 revela\u00e7\u00e3o de si em contato com os outros. Ou seja, se n\u00f3s permitirmos, os outros podem nos ajudar a ver como somos, mas essa revela\u00e7\u00e3o nos \u00e9 negada se dependemos deles ou os usamos para nossa gratifica\u00e7\u00e3o e felicidade, seja f\u00edsica ou psicol\u00f3gica. Pois a condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia \u00e9 causada pelo medo que d\u00e1 origem ao amor possessivo. Nesse estado de medo n\u00e3o pode haver auto-revela\u00e7\u00e3o ou compreens\u00e3o de si. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 profunda; ela precisa de constante ajustamento que se torna imposs\u00edvel se a pessoa est\u00e1 sempre buscando satisfa\u00e7\u00e3o e certeza. Se o indiv\u00edduo n\u00e3o compreende sua rela\u00e7\u00e3o com outro e as causas de conflito envolvidas, ent\u00e3o sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade levar\u00e1, inevitavelmente, ao atrito e \u00e0 a\u00e7\u00e3o antissocial. A extens\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e9 a sociedade.<\/p><p>No \u00faltimo domingo, vimos como a depend\u00eancia de ideias cria cren\u00e7as, dogmas, credos e cultos que separam o homem do homem. Pode o pensamento se libertar de toda depend\u00eancia, seja do passado ou do futuro? A depend\u00eancia \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o de medo que impede a compreens\u00e3o do real. Quando o pensamento depende para seu bem estar de coisas, de pessoas, haver\u00e1 medo que cria ilus\u00e3o e sofrimento. Do mesmo modo, a depend\u00eancia de v\u00e1rias cren\u00e7as e ideais que se criou para si mesmo impede a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do homem e da unidade do homem. Vemos esse processo funcionando no mundo atrav\u00e9s das divis\u00f5es sociais e religiosas; cada grupo fica ansioso para preservar a qualquer custo sua pr\u00f3pria identidade separativa e procura converter outros grupos, ou dominar sua resist\u00eancia para sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Assim, o mundo se encontra separado por cren\u00e7as, ideais, dogmas e credos. Como expliquei na semana passada, o pensamento, sempre buscando seguran\u00e7a, sai de um ancoradouro para outro; mas em cada ancoradouro h\u00e1 incerteza, ainda que ele espere pela seguran\u00e7a definitiva. Ent\u00e3o ele cria uma realidade ideal, um deus que \u00e9 sua satisfa\u00e7\u00e3o definitiva. Em oposi\u00e7\u00e3o ao pano de fundo do conhecido, a mente tenta encontrar o desconhecido, criando dualidade. A mente se tornou um dep\u00f3sito de experi\u00eancias e mem\u00f3rias, ela \u00e9 o passado com suas tradi\u00e7\u00f5es e certezas acumuladas, limitando o presente e o futuro tamb\u00e9m. Com essa bagagem, o pensamento tenta compreender o desconhecido. O que \u00e9 conhecido n\u00e3o \u00e9 realidade.<\/p><p>De que fonte brota seu pensamento? Ele come\u00e7a certamente \u2013 n\u00e3o? \u2013 da \u00e2nsia, do desejo expansivo e flutuante. Percep\u00e7\u00e3o, contato, sensa\u00e7\u00e3o d\u00e3o origem \u00e0 reflex\u00e3o; da\u00ed o anseio gera esses desejos flutuantes nos quais o pensamento fica enredado. Ent\u00e3o come\u00e7a o conflito dos opostos \u2013 o prazeroso e o doloroso, o transit\u00f3rio e o permanente. Nossa consci\u00eancia fica retida no conflito dos opostos de dor e prazer, de nega\u00e7\u00f5es e identifica\u00e7\u00e3o, do ego e do n\u00e3o-ego. O conte\u00fado de nossa consci\u00eancia, que consideramos como nosso ser total, \u00e9 constitu\u00eddo desses valores duais e contradit\u00f3rios, mentais bem como emocionais.<\/p><p>Observe seu pr\u00f3prio processo de pensar e voc\u00ea ver\u00e1 que ele nasce de um medo ou outro, da \u00e2nsia, afei\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a, da sensa\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 meu e daquilo que n\u00e3o \u00e9. Em outras palavras, o pensamento \u00e9 escravizado pelo anseio. Esse pensamento dependente se divide em inferior e elevado, o consciente e o subconsciente, e h\u00e1 conflito entre os dois. O consciente influenciado pelo subconsciente cria a faculdade que chamados de intelecto \u2013 a faculdade de discernir, discriminar, escolher. Mem\u00f3ria, tradi\u00e7\u00e3o, valores impostos pela sociedade, religi\u00e3o e experi\u00eancias pessoais influenciam nosso discernimento. O pensamento, em nossa vida cotidiana, est\u00e1 ocupado com a cria\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, a continuidade da tradi\u00e7\u00e3o, e a modifica\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o. P\u00f4r de lado o conflito que existe, impedi-lo de surgir e criar um estado em que n\u00e3o haver\u00e1 conflito; superar todo o sofrimento que exista, impedir que qualquer sofrimento futuro surja e encontrar paz duradoura \u2013 esse \u00e9 o desejo da maioria de n\u00f3s, n\u00e3o? A vontade de desejos flutuantes, com seu conflito e dor; a vontade de reprimir ou negar, e a vontade de renunciar \u2013 todas essas formas de vontade est\u00e3o dentro da limita\u00e7\u00e3o do anseio.<\/p><p>Se pudermos captar a total significa\u00e7\u00e3o de todas essas formas de vontade e como elas surgem na vida, na a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, por meio de intensa e penetrante conscientiza\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 uma compreens\u00e3o que n\u00e3o resulta do simples controle, da nega\u00e7\u00e3o ou da ren\u00fancia. Essa compreens\u00e3o \u00e9 o resultado natural da profunda conscientiza\u00e7\u00e3o do processo da \u00e2nsia em suas diferentes formas. Isso demanda interesse incisivo a partir do qual surge concentra\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. A compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio; no pr\u00f3prio momento da conscientiza\u00e7\u00e3o ela nasce.<\/p><p>Os desejos flutuantes com suas v\u00e1rias camadas de mem\u00f3rias, a divis\u00e3o entre o elevado e o inferior, e os diferentes tipos de vontade, formam o conte\u00fado de nossa consci\u00eancia. O intelecto, a faculdade de discernir, escolher, \u00e9 influenciado pelo passado, e se simplesmente confiarmos nessa faculdade de compreender, de amar, ent\u00e3o nossa compreens\u00e3o, nosso amor ser\u00e1 limitado.<\/p><p>A realidade, ou como quer que se queira cham\u00e1-la, para a maioria de n\u00f3s, \u00e9 o produto do intelecto ou da emo\u00e7\u00e3o e, assim, deve ser inevitavelmente ilus\u00e3o. Mas se pudermos nos tornar agudamente conscientes do processo da \u00e2nsia, a compreens\u00e3o da vontade surgir\u00e1 naturalmente. Essa conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 introspec\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, mas uma percep\u00e7\u00e3o aguda, jubilosa, em que o conflito da escolha n\u00e3o acontece mais. O conflito da escolha surge quando o intelecto, com seus medos e limita\u00e7\u00f5es entre mim e o outro, de m\u00e9rito e dem\u00e9rito, de fracasso e sucesso \u2013 come\u00e7a a se projetar na solu\u00e7\u00e3o de nossos problemas humanos. Temos que nos tornar conscientes da \u00e2nsia em suas diferentes formas; esse anseio n\u00e3o \u00e9 para ser negado ou renunciado, mas ser compreendido. Pela simples nega\u00e7\u00e3o ou ren\u00fancia, o pensamento n\u00e3o se liberta do medo e suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Como mantemos a intelig\u00eancia desperta?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Certamente, esse \u00e9 o modo errado de apresentar a quest\u00e3o, n\u00e3o? Ou voc\u00ea est\u00e1 desperto ou n\u00e3o est\u00e1. N\u00e3o est\u00e1 implicado nessa quest\u00e3o o pensamento sutil de que voc\u00ea \u00e9 fundamentalmente inteligente, que fundo em voc\u00ea est\u00e1 a realidade ou Deus, e que essa intelig\u00eancia abrangente em voc\u00ea est\u00e1 guiando, modelando sua vida? E, ao mesmo tempo, estando preso na ignor\u00e2ncia e no sofrimento, como voc\u00ea vai permanecer desperto para sua beleza e suas inspira\u00e7\u00f5es?<\/p><p>Ora, onde existe escurid\u00e3o n\u00e3o pode haver luz, onde existe ignor\u00e2ncia n\u00e3o pode haver compreens\u00e3o ou amor. Se voc\u00ea for Deus, n\u00e3o est\u00e1 sofrendo, n\u00e3o \u00e9 medroso, bruto, avarento; mas voc\u00ea est\u00e1 sofrendo, voc\u00ea tem medo, ent\u00e3o isso deve ser falso, e afirmar que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sofrendo porque \u00e9 verdade ou Deus, \u00e9 enganar a si mesmo e ficar na ilus\u00e3o.<\/p><p>S\u00f3 a conscientiza\u00e7\u00e3o vigilante e penetrante pode despertar a intelig\u00eancia. Tornando-se consciente de seu ambiente, voc\u00ea come\u00e7a a perceber o criador desse ambiente, que \u00e9 voc\u00ea mesmo; voc\u00ea v\u00ea como se apartou dele e, assim, iniciou um processo dual de conflito entre o \u2018Eu\u2019 e o n\u00e3o \u2018Eu\u2019. Mas por meio dessa conscientiza\u00e7\u00e3o, voc\u00ea come\u00e7a a compreender a causa de seus pr\u00f3prios preconceitos, seus medos, seus antagonismos raciais e nacionais, sua \u00e2nsia. Tentando compreender o ambiente, voc\u00ea chega a si mesmo, o investigador, e descobre que voc\u00ea mesmo \u00e9 limitado. Ent\u00e3o, como o pensamento vai ele mesmo se libertar de suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es? Ele s\u00f3 pode faz\u00ea-lo se tornando intensamente consciente de seu pr\u00f3prio processo de gan\u00e2ncia, amor possessivo e o anseio por sua pr\u00f3pria continuidade. Essa conscientiza\u00e7\u00e3o vigorosa cria sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0O que eu posso esperar?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O interrogante n\u00e3o quer dizer \u2018O que existe para mim no futuro\u2019? A pessoa busca bem-aventuran\u00e7a no futuro e, por isso, cria imaginativamente, idealmente ou romanticamente, um estado que aspira constantemente com um sentimento nost\u00e1lgico de diversidade. Esperan\u00e7a indica um futuro. Ou seja, estando frustrado em seus desejos e ambi\u00e7\u00f5es e estando preso nesse mundo de disputa brutal e sofrimento, espera-se por um estado futuro feliz e pac\u00edfico. Existe bem-aventuran\u00e7a no futuro al\u00e9m de todos esses estados transit\u00f3rios?<\/p><p>Tempo \u00e9 o cont\u00ednuo passado, presente e futuro. A esperan\u00e7a, o resultado do presente influenciado pelo passado, est\u00e1 ligada ao futuro. A esperan\u00e7a futura implica o adiamento do presente. Olhar para o futuro \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o do presente. Quando voc\u00ea est\u00e1 preocupado com o futuro, deve ter teorias satisfat\u00f3rias a respeito dele \u2013 o que voc\u00ea ser\u00e1, o que n\u00e3o ser\u00e1 e assim por diante. Voc\u00ea deve criar teorias que o ajudar\u00e3o a superar o presente com suas dores e medos. Ent\u00e3o a pessoa come\u00e7a a procrastinar; mas olhar para o futuro \u00e9 evitar o presente. Ou se voc\u00ea n\u00e3o olha para o futuro, olha para a imediata altera\u00e7\u00e3o do presente. Quando voc\u00ea est\u00e1 interessado em ganhar a bem-aventuran\u00e7a no presente, deve haver celeridade, uma inquieta\u00e7\u00e3o, uma aceita\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, impetuosa, descuidada de garantias para obter o que voc\u00ea anseia. Esses dois aspectos do tempo, adiamento e celeridade, produzem ilus\u00e3o.<\/p><p>Olhar para o futuro com esperan\u00e7a ou para o presente para realiza\u00e7\u00e3o imediata \u00e9 criar desilus\u00e3o da qual nasce o sofrimento. A bem-aventuran\u00e7a est\u00e1 sempre no presente. Ela n\u00e3o pode estar no futuro. Mesmo no futuro, o presente sempre existe. Se voc\u00ea n\u00e3o pode compreender o presente, n\u00e3o o compreender\u00e1 no futuro. Se n\u00e3o compreendemos agora, como compreenderemos no futuro? Se n\u00e3o estivermos agudamente conscientes agora, como poderemos perceb\u00ea-lo no futuro? A bem-aventuran\u00e7a est\u00e1 sempre no presente, e para compreend\u00ea-la \u00e9 preciso constante interesse e conscientiza\u00e7\u00e3o. A paz est\u00e1 sempre no presente, mas para compreend\u00ea-la n\u00e3o se deve estar preocupado com o tempo. O pensamento deve se libertar do cont\u00ednuo passado, presente e futuro; nessa liberdade \u201co que \u00e9\u201d \u00e9 imortal, eterno. A bem-aventuran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio. Deve-se estar alerta, consciente, num estado de cont\u00ednua compreens\u00e3o, nunca deixando um pensamento ou uma palavra passar sem ver sua significa\u00e7\u00e3o. Esse estado de conscientiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 felicidade, n\u00e3o \u00e9 para ser confundido com an\u00e1lise introspectiva, m\u00f3rbida. A bem-aventuran\u00e7a est\u00e1 sempre no presente, e para conhec\u00ea-la deve-se estar livre das amarras do tempo.<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: Voc\u00ea acredita em carma e reencarna\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Ouvi alguns de voc\u00eas suspirando. Por qu\u00ea? Voc\u00eas compreendem o problema do carma muito bem, ou est\u00e3o fartos disso, ou est\u00e3o cansados?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0N\u00e3o.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Agora vamos examinar essa quest\u00e3o inteiramente, pois penso que \u00e9 importante compreend\u00ea-la porque, consciente ou inconscientemente, a maioria de n\u00f3s pensa em termos de renascimento, continuidade e imortalidade pessoal. Vamos falar primeiro da ideia de carma. \u00c9 uma palavra s\u00e2nscrita, seu significado b\u00e1sico \u00e9 agir, fazer, trabalhar. Se o pensamento \u00e9 restrito, limitado, ent\u00e3o toda a\u00e7\u00e3o nascida dele tamb\u00e9m ser\u00e1 restrita, limitada. Uma bolota produzir\u00e1 um carvalho; a semente guarda a futura \u00e1rvore. Uma causa deve produzir certo efeito, certo resultado. Experimentamos isso em nossa vida cotidiana. Fazemos alguma coisa sem compreender, seja avidamente ou corruptamente. Isso traz seu pr\u00f3prio resultado. Se voc\u00ea odeia, o resultado disso \u00e9 mais \u00f3dio e viol\u00eancia. Se o pensamento \u00e9 estreito, pessoal, ele sempre criar\u00e1, com modifica\u00e7\u00e3o e varia\u00e7\u00e3o, mais ignor\u00e2ncia, mais limita\u00e7\u00e3o, e ele n\u00e3o pode fugir de seus resultados. O resultado pode ser sempre mudado ou modificado de acordo com nossa compreens\u00e3o e a integridade de nosso pensamento. Uma causa pode n\u00e3o produzir necessariamente um resultado definido, esperado, pois h\u00e1 sempre fatores e influ\u00eancias visando modificar ou mudar o efeito. O pensamento n\u00e3o pode escapar de sua a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o limitadas at\u00e9 que compreenda profunda e integralmente a causa e o processo de sua pr\u00f3pria escravid\u00e3o.<\/p><p>Suponha que a pessoa seja hindu \u2013 o pensamento expresso por ele \u00e9 limitado pelas cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es de um hindu, que s\u00e3o os resultados de anseio acumulado, ignor\u00e2ncia, medo e conveni\u00eancia. Quando esse pensamento se expressa em a\u00e7\u00e3o, essa a\u00e7\u00e3o cria mais limita\u00e7\u00e3o de pensamento. Dentro dessa dr\u00e1stica e simples realidade, recompensa e puni\u00e7\u00e3o foram introduzidas para deter a a\u00e7\u00e3o errada. Se a pessoa for boa \u2013 boa dependendo da limita\u00e7\u00e3o do pensamento, n\u00e3o da compreens\u00e3o \u2013 ent\u00e3o no futuro ou na pr\u00f3xima vida ela ser\u00e1 apropriadamente recompensada, e se n\u00e3o for, ser\u00e1 apropriadamente punida. Esse elemento de medo, como recompensa e puni\u00e7\u00e3o, destr\u00f3i a compreens\u00e3o e o amor. Se o pensamento for influenciado por recompensa e puni\u00e7\u00e3o, ganho e perda, realiza\u00e7\u00e3o e fracasso, ent\u00e3o ele n\u00e3o pode compreender o anseio que busca recompensa e evita a puni\u00e7\u00e3o. O pensamento s\u00f3 pode compreender seu pr\u00f3prio processo se n\u00e3o se identificar e se prender a alguma de suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es, algum de seus desejos flutuantes. Dissociar nosso pensamento da ideia de recompensa e puni\u00e7\u00e3o requer conscientiza\u00e7\u00e3o severa, e nesse processo cada pessoa descobrir\u00e1 sua pr\u00f3pria forma de condicionamento. A simples descoberta da causa n\u00e3o \u00e9 compreens\u00e3o; s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o nascida da compreens\u00e3o, liberta o pensamento da limita\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A ideia da reencarna\u00e7\u00e3o envolve o renascimento do \u2018Eu\u2019 que \u00e9 considerado como uma ess\u00eancia espiritual, a alma \u2013 e isso implica um estado eterno \u2013 ou como os v\u00e1rios revestimentos que encobrem a realidade no homem. Sup\u00f5e-se que esse \u2018Eu\u2019 vai continuar renascendo vezes e vezes at\u00e9 atingir a perfei\u00e7\u00e3o, a realidade, a liberta\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos tentando compreender a ideia; n\u00e3o estamos condenando a teoria, ent\u00e3o, por favor, n\u00e3o fiquem na defensiva.<\/p><p>Se voc\u00ea pensa que \u00e9 uma entidade espiritual ou realidade, o que isso significa? Isso n\u00e3o implica um estado infinito, imortal? Se ele \u00e9 o eterno, ent\u00e3o n\u00e3o tem desenvolvimento; pois aquilo que \u00e9 capaz de desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 eterno. Se a mente \u00e9 ess\u00eancia espiritual, acima e al\u00e9m de todo condicionamento f\u00edsico, fora desta coisa chamada \u2018Eu\u2019, ent\u00e3o o \u2018Eu\u2019 n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Ent\u00e3o, por que nos agarramos a ele t\u00e3o desesperadamente? Por que ficamos presos em sua perpetuidade, em suas atividades, em suas ambi\u00e7\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es, em seus desejos expansivos? Assim, quando dizemos que existe uma entidade espiritual independente de toda influ\u00eancia e condicionamento, certamente tal ideia \u00e9 uma ilus\u00e3o, n\u00e3o? E tamb\u00e9m, se essa entidade espiritual est\u00e1 al\u00e9m e acima e, contudo, em n\u00f3s, se ela n\u00e3o pode ser contaminada, se nada pode ser acrescentado a ela, por que nos empenhamos em compreender, por que lutamos para nos fazermos mais perfeitos? Se essa ess\u00eancia espiritual supomos ser amor, intelig\u00eancia, verdade, ent\u00e3o, como pode estar rodeada por esta confusa escurid\u00e3o, por esta viol\u00eancia e \u00f3dio, por esta febril busca das exig\u00eancias do ego? Contudo ela est\u00e1. Isso n\u00e3o significa que estou negando a realidade, que s\u00f3 pode ser compreendida pela compreens\u00e3o da ilus\u00e3o e n\u00e3o pela inven\u00e7\u00e3o de ilus\u00f5es. N\u00f3s aceitamos esta ideia de uma entidade espiritual separada do \u2018Eu\u2019, pois tal ideia \u00e9 muito gratificante, confortante.<\/p><p>Agora, o que \u00e9 este \u2018Eu\u2019? Vemos continuidade de car\u00e1ter, o \u2018Eu\u2019 sendo diferente de outro \u2018Eu\u2019. Como expliquei, o pensamento condicionado deve continuar criando mais limita\u00e7\u00f5es para si. O \u2018Eu\u2019 n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma f\u00edsica particular com seu nome, mas al\u00e9m de sua apar\u00eancia externa, existe o \u2018Eu\u2019 psicol\u00f3gico. Que \u2018Eu\u2019 \u00e9 esse? Uma representa\u00e7\u00e3o de influ\u00eancias anteriores e limita\u00e7\u00f5es, ter nascido em certa fam\u00edlia, pertencer a certo grupo, certa ra\u00e7a, com seus preconceitos, seus \u00f3dios e supersti\u00e7\u00f5es, medos e assim por diante. Esses medos e condicionamento originados na ignor\u00e2ncia, no anseio. Essas limita\u00e7\u00f5es foram transmitidas de pai para filho direto at\u00e9 eu tamb\u00e9m ser aquele pai, aquele passado.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Isso \u00e9 interessante.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea diz que \u00e9 interessante; se voc\u00ea visse a implica\u00e7\u00e3o disso, compreenderia sua verdadeira significa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o estaria apenas intelectualmente interessado. Meu pai tamb\u00e9m \u00e9 a minha pessoa. As ideias que meus antepassados tinham, e que chegaram a mim, combinam-se com a a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o presente e se tornam o \u2018Eu\u2019 do presente. Assim a caracter\u00edstica \u00e9 preservada e continuada \u2013 minha pessoa hoje renascendo como outro no futuro. Sem sentimentalismo e falsa emo\u00e7\u00e3o e preconceito, pode-se perceber a profunda significa\u00e7\u00e3o e realidade do que estou dizendo \u2013 que nossos ancestrais, por seus desejos, medos e esperan\u00e7as criaram certo padr\u00e3o de pensamento, e esse pensamento continua parcialmente em n\u00f3s; essas ideias, em combina\u00e7\u00e3o com o presente, criaram este pensamento estreito e limitado que \u00e9 o \u2018Eu\u2019. Esse \u2018Eu\u2019, essa ignor\u00e2ncia, esse eu mesmo, continuar\u00e1 no futuro como outro. Assim, o mundo, a humanidade, sou eu mesmo. Se Eu, sendo o mundo, voc\u00ea, ajo irrefletidamente, vou aumentar e perpetuar a ignor\u00e2ncia com todos os seus efeitos, medos e \u00f3dios. Ent\u00e3o o que eu fa\u00e7o importa imensamente, n\u00e3o em termos de recompensa e puni\u00e7\u00e3o. Mas quando estou profundamente interessado em meu renascimento, minha imortalidade, a continua\u00e7\u00e3o de minhas experi\u00eancias de realiza\u00e7\u00e3o e sofrimento, tal interesse deve levar a decis\u00f5es erradas e irrefletidas. O \u2018Eu\u2019 \u00e9 um estado condicionado, limitado e, por isso, \u00e9 irreal. Realidade \u00e9 aquele estado que est\u00e1 liberto do ego.<\/p><p>Ora, a maioria de n\u00f3s tende a pensar que causa e efeito s\u00e3o c\u00edclicos. Se foi assim no passado, deve ser assim no presente e, portanto, no futuro. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, pois h\u00e1 sempre uma mudan\u00e7a cont\u00ednua acontecendo e modificando o efeito. Compreendendo as influ\u00eancias e limita\u00e7\u00f5es passadas e discernindo seu efeito, o pensamento pode transformar-se no presente e n\u00e3o precisa estar limitado pelo passado. O pensamento pode se libertar no presente das depend\u00eancias do passado por meio de intensa conscientiza\u00e7\u00e3o. Tomemos, por exemplo, um hindu ou crist\u00e3o com seu substrato social e religioso; descuidadamente, ele vive em um estado limitado e, portanto, em sofrimento, e ele atribui esse sofrimento ao carma, ao passado, e n\u00e3o ao seu descuido. \u00c9 indol\u00eancia, uma forma de conceito, que faz nos prendermos a nosso passado. A bem-aventuran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 no passado ou no futuro, mas no presente para aqueles que, por meio de conscientiza\u00e7\u00e3o, compreendem e ficam livres da causa da ignor\u00e2ncia, que \u00e9 ansiar.<\/p><p>Se voc\u00ea refletir seriamente sobre o que estive falando, ent\u00e3o a compreens\u00e3o vir\u00e1 de sua pr\u00f3pria seriedade. O conhecimento \u00e9 completamente in\u00fatil se voc\u00ea n\u00e3o o relacionar com sua vida cotidiana. Se formos mundanos, psicologicamente dependentes de coisas para nossa felicidade pessoal, se nosso amor for possessivo e nosso pensamento deformado por cren\u00e7as e medos, ent\u00e3o a vida se tornar\u00e1 um crescente sofrimento. Na conscientiza\u00e7\u00e3o vigorosa e jovial, o pensamento se liberta de suas limita\u00e7\u00f5es; da autoconfian\u00e7a, da compreens\u00e3o exercitada, da\u00ed vem a paz.<\/p><p>30 de junho de 1940<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta Palestra em Oak Grove Aqueles de voc\u00eas que t\u00eam vindo a estes encontros regularmente ter\u00e3o que ter um pouco de paci\u00eancia, j\u00e1 que vou fazer um pequeno resumo do que foi dito para os rec\u00e9m-chegados. Durante as \u00faltimas cinco semanas tentamos compreender o problema da gan\u00e2ncia e da rela\u00e7\u00e3o. Eu tentei explicar que, enquanto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1326","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1326"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1333,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1326\/revisions\/1333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}