{"id":1304,"date":"2022-12-18T15:57:12","date_gmt":"2022-12-18T15:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1304"},"modified":"2022-12-18T15:57:44","modified_gmt":"2022-12-18T15:57:44","slug":"16-06-1940","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1304","title":{"rendered":"16\/06\/1940"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1304\" class=\"elementor elementor-1304\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7409f008 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7409f008\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-5703b1da\" data-id=\"5703b1da\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-28f1c0e2 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"28f1c0e2\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quarta Palestra em Oak Grove<\/strong><\/p><p>Nas tr\u00eas \u00faltimas palestras eu tentei explicar a abordagem experimental para o problema da gan\u00e2ncia, uma abordagem que n\u00e3o \u00e9 nem nega\u00e7\u00e3o nem controle, mas uma compreens\u00e3o do processo da gan\u00e2ncia que pode gerar liberdade duradoura. Enquanto se depender de coisas para a satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e o enriquecimento, a gan\u00e2ncia continuar\u00e1, criando conflito social e individual e desordem. S\u00f3 a compreens\u00e3o nos libertar\u00e1 da gan\u00e2ncia e do anseio que criaram tanta devasta\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p><p>Devemos agora considerar o problema da rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos. Se compreendermos a causa do atrito entre indiv\u00edduos e, consequentemente, na sociedade, essa compreens\u00e3o ajudar\u00e1 a gerar liberdade da possessividade. Hoje a rela\u00e7\u00e3o se baseia na depend\u00eancia, ou seja, uma pessoa depende da outra para sua satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, felicidade e bem-estar. Em geral, n\u00e3o percebemos isso, mas se o fazemos, alegamos que n\u00e3o somos dependentes do outro ou tentamos nos desembara\u00e7ar da depend\u00eancia artificialmente. Aqui, novamente, vamos abordar esse problema experimentalmente.<\/p><p>Agora, para a maioria de n\u00f3s, a rela\u00e7\u00e3o com o outro se baseia na depend\u00eancia, econ\u00f4mica ou psicol\u00f3gica. Essa depend\u00eancia cria medo, gera em n\u00f3s possessividade, resulta em atrito, suspeita e frustra\u00e7\u00e3o. A depend\u00eancia econ\u00f4mica de outro pode, talvez, ser eliminada por meio de legisla\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o apropriada, mas estou me referindo especialmente \u00e0quela depend\u00eancia psicol\u00f3gica do outro que \u00e9 o resultado do anseio por satisfa\u00e7\u00e3o pessoal, felicidade e assim por diante. Podemos nos sentir, nessa rela\u00e7\u00e3o possessiva, enriquecidos, criativos e ativos; podemos sentir que nossa pr\u00f3pria pequena chama de ser \u00e9 aumentada pelo outro e, a fim de n\u00e3o perder essa fonte de completude, tememos a perda do outro, e os medos possessivos surgem com todos os problemas que deles resultam. Assim, nessa rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia psicol\u00f3gica, deve sempre haver medo consciente ou inconsciente, suspeita, que muitas vezes se esconde atr\u00e1s de palavras agrad\u00e1veis. A rea\u00e7\u00e3o desse medo leva a pessoa sempre para a busca de seguran\u00e7a e enriquecimento atrav\u00e9s de v\u00e1rios canais, ou ao isolamento em ideias e ideais, ou a buscar substitutos para a satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Embora se dependa do outro, existe ainda o desejo de ser \u00edntegro, de ser completo. O complexo problema na rela\u00e7\u00e3o \u00e9 como amar sem depend\u00eancia, sem atrito e conflito; como refrear o desejo de se isolar, afastar-se da causa do conflito. Se dependermos para nossa felicidade do outro, da sociedade ou do ambiente, eles se tornam essenciais para n\u00f3s; agarramo-nos a eles, e qualquer altera\u00e7\u00e3o dessas coisas tem nossa oposi\u00e7\u00e3o violenta, pois dependemos delas para nossa seguran\u00e7a psicol\u00f3gica e conforto. Embora, intelectualmente, possamos perceber que a vida \u00e9 um cont\u00ednuo processo de fluxo, muta\u00e7\u00e3o, necessitando de constante mudan\u00e7a, emocionalmente ou sentimentalmente nos prendemos aos valores estabelecidos e confort\u00e1veis; assim, h\u00e1 uma constante batalha entre a mudan\u00e7a e o desejo de perman\u00eancia. \u00c9 poss\u00edvel p\u00f4r um fim nesse conflito?<\/p><p>N\u00e3o pode haver vida sem rela\u00e7\u00e3o, mas a tornamos muito dolorosa e terr\u00edvel baseando-a no amor possessivo e pessoal. Pode-se amar e n\u00e3o possuir? Encontraremos a verdadeira resposta n\u00e3o na fuga, em ideais, cren\u00e7as, mas na compreens\u00e3o das causas da depend\u00eancia e da possessividade. Se for poss\u00edvel compreender profundamente este problema da rela\u00e7\u00e3o entre uma pessoa e outra, ent\u00e3o talvez, possamos compreender e resolver o problema de nossa rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, pois a sociedade n\u00e3o \u00e9 mais do que a extens\u00e3o de n\u00f3s mesmos. O ambiente que chamamos de sociedade \u00e9 criado pelas gera\u00e7\u00f5es passadas; n\u00f3s aceitamos isso, j\u00e1 que isso ajuda a manter nossa ambi\u00e7\u00e3o, possessividade, ilus\u00e3o. Nessa ilus\u00e3o n\u00e3o pode haver unidade ou paz. A simples unidade econ\u00f4mica produzida pela compuls\u00e3o e pela legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode acabar com a guerra. Enquanto n\u00e3o compreendermos a rela\u00e7\u00e3o individual, n\u00e3o poderemos ter uma sociedade pac\u00edfica. Desde que nossa rela\u00e7\u00e3o se baseia no amor possessivo, temos que nos conscientizar, em n\u00f3s mesmos, de seu nascimento, suas causas, sua a\u00e7\u00e3o. Tornando-nos profundamente conscientes do processo da possessividade com sua viol\u00eancia, medos, suas rea\u00e7\u00f5es, surge um entendimento que \u00e9 integral, completo. S\u00f3 esse entendimento liberta o pensamento da depend\u00eancia e possessividade. \u00c9 dentro de si mesmo que a harmonia na rela\u00e7\u00e3o pode ser encontrada, n\u00e3o no outro, nem no ambiente.<\/p><p>Na rela\u00e7\u00e3o, a causa prim\u00e1ria do atrito \u00e9 a pr\u00f3pria pessoa, o ego que \u00e9 o centro do anseio unificado. Se pudermos perceber que n\u00e3o \u00e9 como o outro age que tem import\u00e2ncia fundamental, mas como cada um de n\u00f3s age e reage, e se essa a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o puder ser compreendida fundamentalmente, profundamente, ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o passar\u00e1 por uma mudan\u00e7a radical e profunda. Nessa rela\u00e7\u00e3o com o outro, n\u00e3o existe apenas o problema f\u00edsico, mas tamb\u00e9m o do pensamento e sentimento em todos os n\u00edveis, e s\u00f3 se pode ter harmonia com o outro quando se tem harmonia integral em si mesmo. Na rela\u00e7\u00e3o, o importante de se ter em mente n\u00e3o \u00e9 o outro, mas voc\u00ea mesmo, o que n\u00e3o significa que a pessoa deve se isolar, mas compreender profundamente em si a causa do conflito e do sofrimento. Enquanto dependermos do outro para nosso bem-estar psicol\u00f3gico, intelectualmente ou emocionalmente, essa depend\u00eancia deve, inevitavelmente, criar o medo de onde surge o sofrimento.<\/p><p>Para compreender a complexidade da rela\u00e7\u00e3o deve haver paci\u00eancia cuidadosa e seriedade. Rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de auto-revela\u00e7\u00e3o em que se descobrem as causas ocultas do sofrimento. Essa auto-revela\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Estou enfatizando a rela\u00e7\u00e3o, pois compreendendo profundamente sua complexidade, estamos criando compreens\u00e3o \u2013 uma compreens\u00e3o que transcende raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. Se basearmos nossa compreens\u00e3o apenas na raz\u00e3o, haver\u00e1 isolamento, orgulho e falta de amor; e se basearmos nossa compreens\u00e3o apenas nas emo\u00e7\u00f5es, a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 profundeza \u2013 h\u00e1 apenas um sentimentalismo que logo evapora, e nenhum amor. S\u00f3 a partir dessa compreens\u00e3o pode haver completude de a\u00e7\u00e3o. Essa compreens\u00e3o \u00e9 impessoal e n\u00e3o pode ser destru\u00edda. N\u00e3o est\u00e1 mais sob o comando do tempo. Se n\u00e3o pudermos produzir compreens\u00e3o a partir dos problemas cotidianos da gan\u00e2ncia e de nossa rela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o buscar tal compreens\u00e3o e amor em outros dom\u00ednios da consci\u00eancia \u00e9 viver em ignor\u00e2ncia e ilus\u00e3o.<\/p><p>Sem compreender totalmente o processo da gan\u00e2ncia, simplesmente cultivar bondade, generosidade, \u00e9 perpetuar a ignor\u00e2ncia e a crueldade; sem compreender integralmente a rela\u00e7\u00e3o, simplesmente cultivar a compaix\u00e3o, o perd\u00e3o, \u00e9 produzir isolamento e se permitir formas sutis de orgulho. Na compreens\u00e3o total do anseio, existe compaix\u00e3o, perd\u00e3o. Virtudes cultivadas n\u00e3o s\u00e3o virtudes. Essa compreens\u00e3o requer constante e atenta conscientiza\u00e7\u00e3o, uma energia flex\u00edvel; o simples controle com seu treinamento peculiar tem seu perigo j\u00e1 que \u00e9 unilateral, incompleto e, portanto, superficial. O interesse traz sua pr\u00f3pria concentra\u00e7\u00e3o natural, espont\u00e2nea, de onde floresce a compreens\u00e3o. Esse interesse \u00e9 despertado pela observa\u00e7\u00e3o, questionamento de a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia de todo dia.<\/p><p>Para abarcar o complexo problema da vida com seus conflitos e sofrimentos, deve-se ter compreens\u00e3o integral. Isso s\u00f3 pode ser feito quando compreendemos profundamente o processo do anseio, que \u00e9 a for\u00e7a central em nossa vida agora.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Falando em auto-revela\u00e7\u00e3o, voc\u00ea quer dizer revelar-se a si mesmo ou aos outros?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Algumas vezes a pessoa se revela aos outros, mas o que \u00e9 importante \u2013 ver a si mesmo como voc\u00ea \u00e9 ou revelar-se ao outro? Eu tenho tentado explicar que se n\u00f3s permitirmos, toda rela\u00e7\u00e3o age como um espelho em que se percebe claramente aquilo que \u00e9 falso e aquilo que \u00e9 correto. Ele fornece o foco necess\u00e1rio para ver nitidamente, mas como expliquei, se estivermos cegos pelo preconceito, opini\u00f5es, cren\u00e7as, n\u00e3o podemos, conquanto intensa seja a rela\u00e7\u00e3o, ver claramente, sem inclina\u00e7\u00f5es. A\u00ed a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um processo de auto-revela\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Nossa primeira considera\u00e7\u00e3o \u00e9: o que nos impede de perceber verdadeiramente? N\u00e3o somos capazes de perceber, porque nossas opini\u00f5es sobre n\u00f3s mesmos, nossos medos, ideais, cren\u00e7as, esperan\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es \u2013 tudo isso atua como dissimula\u00e7\u00f5es. Sem compreender as causas dessas pervers\u00f5es, tentamos alterar ou manter aquilo que \u00e9 percebido e isso cria mais resist\u00eancias e mais sofrimento. Nossa principal considera\u00e7\u00e3o deveria ser n\u00e3o a altera\u00e7\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o do que \u00e9 percebido, mas estar consciente das muitas causas que geram essa pervers\u00e3o. Alguns podem dizer que n\u00e3o t\u00eam tempo para ficar conscientes, s\u00e3o muito ocupados e assim por diante, mas n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, mas de interesse. Ent\u00e3o, em qualquer coisa que estejam ocupados, h\u00e1 o come\u00e7o da conscientiza\u00e7\u00e3o. Buscar resultados imediatos \u00e9 destruir a possibilidade da compreens\u00e3o completa.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Voc\u00ea usou v\u00e1rias vezes a palavra treinamento nas palestras anteriores. Como a ideia de treinar em muitos de n\u00f3s est\u00e1 associada com controle levando eventualmente \u00e0 possibilidade de rigidez e in\u00e9rcia, voc\u00ea poderia dar uma defini\u00e7\u00e3o desse termo? Ele \u00e9 para ser compreendido no sentido de inquebrant\u00e1vel vontade, de vigil\u00e2ncia, adaptabilidade e constante flexibilidade?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0N\u00f3s nos controlamos a partir do medo? N\u00f3s controlamos a fim de n\u00e3o sermos magoados, para obter certos resultados e recompensas? O controle resulta da busca por mais e maior satisfa\u00e7\u00e3o duradoura e poder? Se for assim, ent\u00e3o ele deve levar \u00e0 rigidez e \u00e0 in\u00e9rcia. O simples autocontrole resulta, no final, na esterilidade da compreens\u00e3o e do amor. Aquele que, pelo simples exerc\u00edcio da vontade, gerou autocontrole, conhecer\u00e1 seus terr\u00edveis resultados.<\/p><p>Eu estou falando da compreens\u00e3o que transcende raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. Nessa compreens\u00e3o existe uma adaptabilidade natural e criativa, uma conscientiza\u00e7\u00e3o atenta e infinita flexibilidade, mas o simples controle n\u00e3o cria compreens\u00e3o. Se tentarmos cultivar a virtude, n\u00e3o \u00e9 mais virtude. A virtude \u00e9 um subproduto da compreens\u00e3o e do amor. Aqueles que s\u00e3o gananciosos podem treinar para n\u00e3o ser gananciosos atrav\u00e9s do simples exerc\u00edcio da vontade, mas desse modo eles n\u00e3o compreenderam completamente o processo da gan\u00e2ncia e, por isso, n\u00e3o est\u00e3o livres da gan\u00e2ncia. Eles pensam que pela agrega\u00e7\u00e3o de muitas virtudes, chegar\u00e3o ao todo. Eles buscam confinar a vasta extens\u00e3o da vida em virtudes. Para compreender, deve haver a clareza de prop\u00f3sito n\u00e3o estabelecida pelo outro, mas que surge quando a pessoa compreende sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas e pessoas. Essa abordagem experimental gera aquela compreens\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 o resultado de simples controle. Se essa investiga\u00e7\u00e3o for severa e constante, ent\u00e3o haver\u00e1 a restri\u00e7\u00e3o natural sem medo, sem a vontade de desejos expansivos. Essa compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 parcial, mas completa. Por meio da constante conscientiza\u00e7\u00e3o dos muitos problemas \u00f3bvios e sutis da gan\u00e2ncia, nasce uma delicada e definitiva flexibilidade que, como eu disse, \u00e9 um subproduto da compreens\u00e3o e do amor.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Como se cultivam virtudes?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Todas as virtudes cultivadas n\u00e3o s\u00e3o mais virtudes. Compreens\u00e3o e amor s\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia e virtudes s\u00e3o de import\u00e2ncia secund\u00e1ria. Dever, coragem, caridade, como virtudes, s\u00e3o semelhantes aos seus pr\u00f3prios opostos e, portanto, sem compreens\u00e3o e amor, podem ser mal usadas e tornarem-se fontes de grave perigo. Tome, por exemplo, o dever como virtude. Ele pode e est\u00e1 sendo usado brutalmente e tragicamente de modo errado. Sem compreens\u00e3o e amor, as virtudes podem se tornar instrumentos de barbaridade e crueldade. Muitos de n\u00f3s fomos condicionados pelas virtudes e, como n\u00e3o temos pensamento profundo e compreens\u00e3o, aqueles que s\u00e3o muito limitados s\u00e3o explorados por pessoas astutas e ambiciosas. Sem compreender a natureza da gan\u00e2ncia, simplesmente cultivar seu oposto n\u00e3o nos liberta da gan\u00e2ncia. O que nos liberta da gan\u00e2ncia \u00e9 compreender o processo do anseio, e fazendo isso, descobriremos que as virtudes surgem naturalmente. O que \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia \u00e9 compreender \u2013 e nessa esteira segue a compaix\u00e3o<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0O que voc\u00ea quer dizer com autoconfian\u00e7a?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0As religi\u00f5es organizadas n\u00e3o nos tornaram autoconfiantes, pois nos ensinaram a buscar nossa salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de outra pessoa \u2013 salvadores, Mestres, personalidades deificadas, atrav\u00e9s de cerim\u00f4nias, sacerdotes e assim por diante. As tend\u00eancias modernas tamb\u00e9m nos encorajam a n\u00e3o sermos autoconfiantes psicologicamente insistindo que a a\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 da maior import\u00e2ncia. A regenera\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica n\u00e3o pode ser provocada atrav\u00e9s da autoridade da tradi\u00e7\u00e3o, do grupo ou de outra pessoa, mesmo importante; n\u00e3o pode haver autoconfian\u00e7a \u2013 que pode nos ajudar a compreender a realidade \u2013 se preservamos a psicologia de massa. Mas existe um grave perigo desta autoconfian\u00e7a se tornar a\u00e7\u00e3o individualista, cada um por si. Porque a presente estrutura social foi o resultado dessa a\u00e7\u00e3o individualista, agressiva, n\u00f3s temos sua rea\u00e7\u00e3o no coletivo, a adora\u00e7\u00e3o do estado. A verdadeira a\u00e7\u00e3o coletiva e cooperativa surge apenas quando psicologicamente o indiv\u00edduo \u00e9 autoconfiante. Enquanto o indiv\u00edduo for ganancioso, possessivo em sua rela\u00e7\u00e3o, e depender para seu enriquecimento psicol\u00f3gico de cren\u00e7as, dogmas e por a\u00ed vai, a a\u00e7\u00e3o cooperativa, instada pela necessidade econ\u00f4mica, apenas o torna mais astucioso, mais sutil em seus apetites individualistas de poder e aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p><p>N\u00f3s consideramos que a autoexpress\u00e3o \u00e9 uma forma de criatividade; n\u00f3s temos desejo intenso de nos expressar e, assim, a autoexpress\u00e3o assumiu a maior import\u00e2ncia. Estou tentando explicar alguns dos problemas envolvidos na autoconfian\u00e7a, e devemos compreender completamente, se for poss\u00edvel, a significa\u00e7\u00e3o subjacente em tudo isso. Quando confiamos psicologicamente no outro, ou num grupo, ou num l\u00edder para nossa compreens\u00e3o, para nossa esperan\u00e7a, o que acontece em n\u00f3s? Isso n\u00e3o cria medo? Ou, tendo medo, n\u00e3o dependemos do outro para nosso bem-estar? Ent\u00e3o o medo \u00e9 engendrado ou continua nos dois casos. Mas onde existe medo, consciente ou inconsciente, a compreens\u00e3o inteligente da vida se torna imposs\u00edvel. O medo s\u00f3 pode gerar medo e, assim, a ignor\u00e2ncia continua. Esse medo n\u00e3o pode ser compreendido e dissolvido exceto por meio da conscientiza\u00e7\u00e3o vigorosa da pr\u00f3pria pessoa.<\/p><p>Se voc\u00ea pensa que compreens\u00e3o, amor podem lhe ser dados por outra pessoa, ent\u00e3o autoridade e cren\u00e7a se tornam muito importantes. E o dogma assume o lugar da compreens\u00e3o autoconfiante. Onde existe dogma deve haver estreiteza de mente e cora\u00e7\u00e3o. O ru\u00eddo do dogma, da cren\u00e7a, cria intoler\u00e2ncia e crueldade. A autoconfian\u00e7a, no profundo sentido psicol\u00f3gico, \u00e9 negada quando voc\u00ea est\u00e1 em busca de promessas e recompensas compensat\u00f3rias religiosas ou mundanas. Apenas quando voc\u00ea est\u00e1 completamente autoconfiante, totalmente independente de qualquer salvador, Mestre, existe serenidade, sabedoria, realidade. Do mesmo modo, quando voc\u00ea simplesmente confia num grupo ou organiza\u00e7\u00e3o particular para seu bem-estar social, voc\u00ea se tornar\u00e1 mero instrumento em m\u00e3os astuciosas e ambiciosas. Isso n\u00e3o significa que as organiza\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o devam existir, o que seria absurdo, mas organiza\u00e7\u00f5es sociais cooperativas verdadeiras de inteligente harmonia s\u00f3 podem existir quando existe profunda autoconfian\u00e7a psicol\u00f3gica.<\/p><p>N\u00f3s somos o resultado do passado, e sem a compreens\u00e3o cr\u00edtica disso, se simplesmente expressamos isso, ent\u00e3o tal autoexpress\u00e3o ou a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode dar prosseguimento \u00e0 ignor\u00e2ncia e ao conflito. As ideias que temos atualmente veem parcialmente de outros que as pensaram e parcialmente surgem por meio da a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o atuais. Elas s\u00e3o o resultado do anseio, do medo, possessividade e gan\u00e2ncia. Como estamos preocupados com a autoexpress\u00e3o, devemos nos perguntar o que est\u00e1 se expressando. Se eu for hindu, terei certas cren\u00e7as, dogmas, restri\u00e7\u00f5es sociais, certa heran\u00e7a, o resultado do anseio de meu pai e de meu av\u00f4, ambi\u00e7\u00e3o, medo e sucesso, a que eu adicionei minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias condicionadas e conhecimento. Se eu tentar expressar a mim mesmo t\u00e3o originalmente e completamente quanto poss\u00edvel, o que estarei expressando? Certamente, n\u00e3o estou repetindo, talvez com modifica\u00e7\u00e3o e varia\u00e7\u00f5es, essencialmente os pensamentos limitados e sentimentos do passado que eu considero ser eu mesmo?<\/p><p>A express\u00e3o do ego parece vitalmente importante para a maioria de n\u00f3s. Tentamos expressar a n\u00f3s mesmos de acordo com o tempo e o espa\u00e7o, e como n\u00e3o sabemos profundamente o que est\u00e1 se expressando, estamos fadados a criar confus\u00e3o, sofrimento, antagonismo e competi\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a ignor\u00e2ncia est\u00e1 se expressando, criando mais ignor\u00e2ncia; e se ela for contrariada em uma de suas express\u00f5es, tentamos subjugar essa resist\u00eancia atrav\u00e9s de viol\u00eancia, raiva, ou outra a\u00e7\u00e3o impetuosa. Em seu mais completo escopo e express\u00e3o, o ego, que nasce da ignor\u00e2ncia, deve criar, quando atua a partir de si mesmo, suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e sofrimento. Sem compreender a total implica\u00e7\u00e3o da autoexpress\u00e3o, a autoconfian\u00e7a se torna simplesmente um meio de maior e maior express\u00e3o da a\u00e7\u00e3o individualista ignorante e estreita.<\/p><p>At\u00e9 come\u00e7armos a romper este c\u00edrculo vicioso de ignor\u00e2ncia que s\u00f3 cria mais ignor\u00e2ncia, a autoconfian\u00e7a n\u00e3o pode produzir liberdade do sofrimento. Para compreender esta continuidade da ignor\u00e2ncia e do sofrimento, cada pessoa deve se tornar totalmente autoconfiante para ser capaz de investigar o anseio, o medo, tend\u00eancias, mem\u00f3rias e assim por diante. A simples autoexpress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 criatividade, e para ser verdadeiramente criativo, \u00e9 preciso compreender o processo do ego e, assim, libertar-se dele. Por meio da conscientiza\u00e7\u00e3o severa daquilo que est\u00e1 se expressando, come\u00e7amos a compreender as causas limitadas do passado que controlam o presente, e nessa compreens\u00e3o vigorosa surge a liberdade da causa da ignor\u00e2ncia. A verdadeira autoconfian\u00e7a, n\u00e3o a autoconfian\u00e7a com o prop\u00f3sito de simples express\u00e3o agressiva do ego, surge apenas por meio da compreens\u00e3o do processo do anseio, com seus valores limitados, medos e esperan\u00e7as; ent\u00e3o a autoconfian\u00e7a tem grande significa\u00e7\u00e3o, pois atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria conscientiza\u00e7\u00e3o vigorosa, h\u00e1 uma totalidade, uma completude.<\/p><p>16 de junho de 1940<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarta Palestra em Oak Grove Nas tr\u00eas \u00faltimas palestras eu tentei explicar a abordagem experimental para o problema da gan\u00e2ncia, uma abordagem que n\u00e3o \u00e9 nem nega\u00e7\u00e3o nem controle, mas uma compreens\u00e3o do processo da gan\u00e2ncia que pode gerar liberdade duradoura. 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