{"id":1282,"date":"2022-12-18T15:48:51","date_gmt":"2022-12-18T15:48:51","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1282"},"modified":"2022-12-18T15:49:21","modified_gmt":"2022-12-18T15:49:21","slug":"02-06-1940","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1282","title":{"rendered":"02\/06\/1940"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1282\" class=\"elementor elementor-1282\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-60a5f7e6 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"60a5f7e6\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-b89488a\" data-id=\"b89488a\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7111de10 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7111de10\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><strong>Segunda Palestra em Oak Grove<\/strong><\/p><p>Para aqueles que chegaram aqui pela primeira vez hoje, devo explicar brevemente sobre o que falamos no \u00faltimo domingo. Aqueles de voc\u00eas que est\u00e3o acompanhando rigorosamente essas palestras n\u00e3o devem se impacientar, pois vamos tentar pintar com palavras um quadro da vida t\u00e3o completo quanto for poss\u00edvel. Devemos compreender o quadro inteiro, a atitude total em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, e n\u00e3o simplesmente uma parte dela.<\/p><p>Eu estava dizendo na semana passada que n\u00e3o pode haver paz e felicidade no mundo a menos que n\u00f3s, como indiv\u00edduos, cultivemos a sabedoria que gera tranquilidade. Existem muitos que pensam que sem considerar sua pr\u00f3pria natureza interior, sua pr\u00f3pria clareza de prop\u00f3sito, sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o criativa, que alterando de algum modo as condi\u00e7\u00f5es exteriores eles podem produzir paz no mundo. Ou seja, eles esperam ter fraternidade no mundo embora interiormente estejam atormentados por \u00f3dio, inveja, ambi\u00e7\u00e3o e assim por diante. Que essa paz n\u00e3o pode existir a menos que o indiv\u00edduo, que \u00e9 o mundo, produza uma mudan\u00e7a radical em si mesmo \u00e9 bastante \u00f3bvio para aqueles que pensam profundamente.<\/p><p>N\u00f3s vemos caos a nossa volta e extraordin\u00e1ria brutalidade depois de s\u00e9culos de prega\u00e7\u00e3o de bondade, fraternidade, amor; facilmente ficamos presos neste sorvedouro de \u00f3dio e antagonismo, e pensamos que alterando os sintomas externos teremos a unidade humana. A paz n\u00e3o \u00e9 uma coisa trazida de fora, ela s\u00f3 pode vir de dentro; isso requer grande seriedade e concentra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um \u00fanico prop\u00f3sito, mas na compreens\u00e3o do complexo problema de viver.<\/p><p>Peguei a gan\u00e2ncia como uma das principais causas de conflito em n\u00f3s e, por isso, no mundo \u2013 gan\u00e2ncia, com seu medo, com seu anseio por poder e domina\u00e7\u00e3o, social bem como intelectual e emocional. N\u00f3s tentamos diferenciar entre necessidade e gan\u00e2ncia. Necessitamos de alimento, roupas e abrigo, mas essa necessidade se torna gan\u00e2ncia, uma for\u00e7a motriz psicol\u00f3gica em nossas vidas quando n\u00f3s, pelo anseio de poder, prest\u00edgio social e assim por diante, damos \u00e0s coisas valor desproporcional. At\u00e9 dissolvermos essa causa fundamental de conflito ou choque em nossa consci\u00eancia, a simples busca de paz \u00e9 in\u00fatil. Embora com a legisla\u00e7\u00e3o possamos ter ordem superficial, o anseio por poder, sucesso e assim por diante perturbar\u00e1 constantemente o cimento que mant\u00e9m a sociedade junta e destruir\u00e1 essa ordem social. Para gerar paz em n\u00f3s mesmos e, portanto, na sociedade, esse choque central na consci\u00eancia causado pelo anseio deve ser compreendido. Para compreender deve haver a\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Existem aqueles que veem que o conflito no mundo \u00e9 causado pela gan\u00e2ncia, pela afirma\u00e7\u00e3o individual de poder e domina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da propriedade e, assim, eles prop\u00f5em que os indiv\u00edduos n\u00e3o devem deter os meios de adquirir poder; eles prop\u00f5em produzir isso atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do controle estatal da propriedade \u2013 estado sendo aqueles poucos indiv\u00edduos que t\u00eam nas m\u00e3os as r\u00e9deas do poder. Voc\u00ea n\u00e3o pode destruir a gan\u00e2ncia por meio da legisla\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode ser capaz de destruir uma forma de gan\u00e2ncia pela compuls\u00e3o, mas ela inevitavelmente assumir\u00e1 outra forma que criar\u00e1 caos social mais uma vez.<\/p><p>E existem aqueles que pensam que a gan\u00e2ncia ou anseio pode ser destru\u00eddo por meio de ideais intelectuais ou emocionais, por meio de dogmas religiosos e credos; isso n\u00e3o pode acontecer tamb\u00e9m, pois ela n\u00e3o pode ser superada atrav\u00e9s da imita\u00e7\u00e3o, exerc\u00edcio, ou amor. A abnega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um rem\u00e9dio duradouro para o conflito da gan\u00e2ncia. As religi\u00f5es ofereceram compensa\u00e7\u00e3o para a gan\u00e2ncia, mas a realidade n\u00e3o \u00e9 uma compensa\u00e7\u00e3o. A busca de compensa\u00e7\u00e3o \u00e9 remover a causa do conflito que \u00e9 gan\u00e2ncia, anseio, a outro n\u00edvel, a outro plano, mas o choque e o sofrimento ainda est\u00e3o ali.<\/p><p>Os indiv\u00edduos ficam presos no desejo de criar ordem social ou rela\u00e7\u00e3o humana amistosa entre as pessoas por meio de legisla\u00e7\u00e3o, e de encontrar a realidade que as religi\u00f5es prometem como uma compensa\u00e7\u00e3o por abrirem m\u00e3o da gan\u00e2ncia. Mas, como eu apontei, a gan\u00e2ncia n\u00e3o vai ser destru\u00edda por legisla\u00e7\u00e3o ou por compensa\u00e7\u00e3o. Para trabalhar no problema da gan\u00e2ncia devemos estar totalmente conscientes da fal\u00e1cia da simples legisla\u00e7\u00e3o social contra ela e da atitude religiosa compensat\u00f3ria da gan\u00e2ncia que desenvolvemos. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais procurando compensa\u00e7\u00e3o religiosa da gan\u00e2ncia, ou se n\u00e3o est\u00e1 preso na esperan\u00e7a da legisla\u00e7\u00e3o contra ela, ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7ar\u00e1 a compreender um processo diferente de dissolu\u00e7\u00e3o integral desse anseio, mas isso requer seriedade extenuante sem emocionalismo, sem os truques do intelecto astucioso.<\/p><p>Todo ser humano no mundo precisa de alimento, roupas e abrigo, mas por que essa necessidade se tornou um problema t\u00e3o complexo e doloroso? N\u00e3o \u00e9 porque n\u00f3s usamos as coisas para prop\u00f3sitos psicol\u00f3gicos mais do que por simples necessidade? Gan\u00e2ncia \u00e9 a demanda por gratifica\u00e7\u00e3o, prazer, e usamos as necessidades como meio de alcan\u00e7\u00e1-los e, por isso, damos a elas muito maior import\u00e2ncia e valor do que elas t\u00eam. Enquanto se usa as coisas, pois temos necessidade delas, sem estarmos psicologicamente envolvidos nelas, pode haver uma limita\u00e7\u00e3o inteligente \u00e0s necessidades, n\u00e3o baseada em simples gratifica\u00e7\u00e3o.<\/p><p>A depend\u00eancia psicol\u00f3gica das coisas se manifesta como mis\u00e9ria social e conflito. Sendo pobres interiormente, psicologicamente, espiritualmente, pensamos em nos enriquecer por meio de posses, com demandas e problemas complexos sempre crescentes. Sem resolver fundamentalmente a pobreza psicol\u00f3gica do ser, a simples legisla\u00e7\u00e3o social ou o ascetismo n\u00e3o podem resolver o problema da gan\u00e2ncia, do anseio. Como isso vai ser superado fundamentalmente, n\u00e3o simplesmente em suas manifesta\u00e7\u00f5es exteriores, na periferia? Como o pensamento vai se libertar do anseio? N\u00f3s percebemos a causa da gan\u00e2ncia \u2013 desejo de satisfa\u00e7\u00e3o, gratifica\u00e7\u00e3o \u2013 mas como ela vai ser dissolvida? Pelo esfor\u00e7o da vontade? E que tipo de vontade? Vontade de dominar, vontade de reprimir, vontade de renunciar? O problema \u00e9 \u2013 n\u00e3o \u00e9? \u2013 sendo ganancioso, avaro, mundano, como se desembara\u00e7ar da gan\u00e2ncia?<\/p><p>Pois o pensamento \u00e9 agora o produto da gan\u00e2ncia e, portanto, transit\u00f3rio, e n\u00e3o pode compreender o eterno. Aquilo que pode compreender o imortal deve ser imortal tamb\u00e9m. O permanente s\u00f3 pode ser compreendido atrav\u00e9s do transit\u00f3rio. Ou seja, o pensamento nascido da gan\u00e2ncia \u00e9 transit\u00f3rio, o que quer que ele crie deve, certamente, ser tamb\u00e9m transit\u00f3rio, e enquanto a mente estiver retida no transit\u00f3rio, dentro do c\u00edrculo da gan\u00e2ncia, ela n\u00e3o pode se transcender nem se superar. Em seu esfor\u00e7o para se superar, ela cria mais resist\u00eancias e fica mais e mais enredada nelas.<\/p><p>Como a gan\u00e2ncia vai ser dissolvida sem criar mais conflito se o produto do conflito est\u00e1 sempre no \u00e2mbito do desejo, que \u00e9 transit\u00f3rio? Voc\u00ea pode ser capaz de superar a gan\u00e2ncia atrav\u00e9s da simples aplica\u00e7\u00e3o da vontade de nega\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o leva \u00e0 compreens\u00e3o, ao amor, pois tal vontade \u00e9 produto do conflito e, por isso, n\u00e3o pode se libertar da gan\u00e2ncia. Reconhecemos que somos gananciosos. Existe satisfa\u00e7\u00e3o na posse. Ela preenche o ser, o expande. Agora, por que voc\u00ea precisa lutar contra isso? Se voc\u00ea est\u00e1 satisfeito com essa expans\u00e3o, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o tem problema consciente. Pode a satisfa\u00e7\u00e3o ser completa, ela n\u00e3o est\u00e1 sempre num estado de fluxo constante, ansiando por uma gratifica\u00e7\u00e3o depois de outra?<\/p><p>Assim o pensamento fica enredado na sua pr\u00f3pria rede de ignor\u00e2ncia e sofrimento. N\u00f3s vemos que estamos presos na gan\u00e2ncia e percebemos tamb\u00e9m, ao menos intelectualmente, o efeito da gan\u00e2ncia. Ent\u00e3o como o pensamento vai se desprender dos pr\u00f3prios anseios criados por ele? S\u00f3 por meio de constante vigil\u00e2ncia, da compreens\u00e3o do processo da pr\u00f3pria gan\u00e2ncia A compreens\u00e3o n\u00e3o nasce da simples aplica\u00e7\u00e3o de uma vontade unilateral, mas por meio da abordagem experimental que tem a qualidade peculiar da totalidade. Essa abordagem experimental est\u00e1 nas a\u00e7\u00f5es de nossa vida cotidiana; tornando-se agudamente consciente do processo do anseio e da gratifica\u00e7\u00e3o surge a abordagem integral da vida, essa concentra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 resultado de escolha, mas que \u00e9 completude. Se voc\u00ea estiver vigilante, observar\u00e1 agudamente o processo do anseio; voc\u00ea ver\u00e1 que nessa observa\u00e7\u00e3o existe um desejo de escolha, um desejo de racionalizar, mas esse desejo faz parte ainda do anseio. Voc\u00ea tem que estar precisamente consciente da sutileza do anseio, e pelo experimento surge a totalidade da compreens\u00e3o que apenas ela pode libertar radicalmente o pensamento do anseio. Se voc\u00ea estiver consciente assim, h\u00e1 um tipo diferente de vontade da compreens\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 a vontade do conflito ou da ren\u00fancia, mas da totalidade, da completude que \u00e9 sagrada. Essa compreens\u00e3o \u00e9 a abordagem da realidade que n\u00e3o \u00e9 produto da vontade de adquirir, a vontade do anseio e do conflito. A paz pertence a essa totalidade, a essa compreens\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0J\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que o indiv\u00edduo \u00e9 um produto da sociedade quanto que a sociedade \u00e9 um produto do indiv\u00edduo que a comp\u00f5e, e desde que a mudan\u00e7a numa organiza\u00e7\u00e3o social afeta grande n\u00famero de indiv\u00edduos, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante salientar a necessidade de mudar a sociedade quanto a necessidade de mudar os indiv\u00edduos? E desde que as principais causas de cat\u00e1strofe no mundo nascem do mau funcionamento da organiza\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o h\u00e1 perigo em enfatizar demais a necessidade de transforma\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios indiv\u00edduos, mesmo que a transforma\u00e7\u00e3o seja necess\u00e1ria afinal?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O que \u00e9 a sociedade? Ela n\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo com outro? Se os indiv\u00edduos em si mesmos s\u00e3o ignorantes, cru\u00e9is, ambiciosos e assim por diante, a sociedade deles refletir\u00e1 o que eles mesmos s\u00e3o. O interrogante parece sugerir que a rela\u00e7\u00e3o conflitante dos indiv\u00edduos, que \u00e9 a sociedade, com suas muitas organiza\u00e7\u00f5es, devia ser transformada. Todos n\u00f3s vemos a necessidade, a import\u00e2ncia, da mudan\u00e7a social. Guerras, fome, brutal busca de poder e assim por diante \u2013 todos est\u00e3o familiarizados com isso, e alguns desejam seriamente mudar essas condi\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea vai mud\u00e1-las? Destruindo os muitos ou poucos que criam a desarmonia no mundo? Quem s\u00e3o os muitos ou os poucos? Voc\u00ea e eu, n\u00e3o? Cada um est\u00e1 envolvido nisso porque somos gananciosos, possessivos, ansiamos por poder. N\u00f3s queremos trazer ordem para a sociedade, mas como vamos faz\u00ea-lo? Voc\u00ea pensa seriamente que existem apenas poucos que s\u00e3o respons\u00e1veis por essa desorganiza\u00e7\u00e3o social, essas guerras, esses \u00f3dios? Como voc\u00ea vai se livrar deles? Se voc\u00ea os destruir, usar\u00e1 os mesmos meios que eles empregaram, e far\u00e1 de si mesmo um instrumento de \u00f3dio e brutalidade tamb\u00e9m. O \u00f3dio n\u00e3o pode ser destru\u00eddo pelo \u00f3dio, n\u00e3o importa quanto voc\u00ea queira esconder seu \u00f3dio sob palavras sonoras, agrad\u00e1veis. Os m\u00e9todos determinam os fins. Voc\u00ea n\u00e3o pode matar para ter paz e ordem; para ter paz voc\u00ea precisa criar paz em si mesmo e, assim, em sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, o que \u00e9 a sociedade.<\/p><p>Voc\u00ea diz que se deve dar mais \u00eanfase \u00e0 mudan\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o social. Reformas superficiais podem, talvez, ser feitas, mas certamente mudan\u00e7a radical ou paz duradoura s\u00f3 podem surgir quando o pr\u00f3prio indiv\u00edduo se transformar. Voc\u00ea pode dizer que isso levar\u00e1 muito tempo. Por que voc\u00ea est\u00e1 preocupado com o tempo? Na sua avidez voc\u00ea quer resultados imediatos, voc\u00ea est\u00e1 preocupado com os resultados e n\u00e3o com os modos e meios; em sua pressa voc\u00ea se torna um brinquedo de promessas vazias. Voc\u00ea considera que a presente natureza humana, que \u00e9 o produto de s\u00e9culos de maltrato, ignor\u00e2ncia, medo, pode ser alterada da noite para o dia? Alguns indiv\u00edduos podem ser capazes de se transformarem da noite para o dia, mas n\u00e3o uma sociedade cristalizada. Isso n\u00e3o significa um adiamento, mas o homem que pensa claramente, diretamente, n\u00e3o est\u00e1 preocupado com o tempo.<\/p><p>A organiza\u00e7\u00e3o social pode ser um mecanismo independente, mas tem que ser conduzida por n\u00f3s. N\u00f3s a criamos e somos respons\u00e1veis por ela, e podemos ser independentes dela apenas quando, como indiv\u00edduos, n\u00e3o contribuirmos para o \u00f3dio geral, gan\u00e2ncia, ambi\u00e7\u00e3o e assim por diante. Em nosso desejo de mudar o mundo, sempre encontramos oposi\u00e7\u00e3o \u2013 grupos s\u00e3o formados a favor e contra, o que s\u00f3 engendra mais antagonismo, suspeita e competi\u00e7\u00e3o. A concord\u00e2ncia \u00e9 quase imposs\u00edvel exceto quando existe \u00f3dio comum ou medo; todas as a\u00e7\u00f5es nascidas de medo e \u00f3dio devem aumentar o medo e o \u00f3dio. Paz e ordem duradoura s\u00f3 podem ser geradas quando o indiv\u00edduo, voluntariamente e inteligentemente, consentir em pensar sem \u00f3dio, gan\u00e2ncia, ambi\u00e7\u00e3o e assim por diante. S\u00f3 desse modo pode haver paz criativa dentro de voc\u00ea e, portanto, em sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, o que chamamos sociedade.<\/p><p>Isso requer aten\u00e7\u00e3o vigorosa e direta sem emocionalismo, mas, como a maioria de n\u00f3s \u00e9 pregui\u00e7osa, esperamos que por meio de alguns acontecimentos miraculosos, a organiza\u00e7\u00e3o social se transformar\u00e1. Assim, nos rendemos ao sentimento e n\u00e3o ao pensamento claro. Consideramos a asser\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, a agressividade como valorosa, pois fizemos da religi\u00e3o uma coisa de sentimento; negamos o pensamento cr\u00edtico, experimental nas coisas que mais importam, religi\u00e3o e realidade, e assim, naturalmente, nos tornamos brutos, destrutivos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas deste mundo.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Como se controla a emo\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Vamos compreender este problema do controle. O que queremos dizer com controle? O que est\u00e1 envolvido no controle? N\u00f3s vemos em nosso processo de pensar uma for\u00e7a dual trabalhando, o desejo de segurar, pegar, e tamb\u00e9m, o desejo de n\u00e3o segurar, n\u00e3o pegar. N\u00e3o \u00e9 assim? Existe no pensamento aquilo que ele \u00e9 e, tamb\u00e9m, aquilo que ele quer ser \u2013 o agrad\u00e1vel, chamado o bem, e o desagrad\u00e1vel, o mal. Assim, existe conflito cont\u00ednuo entre esses dois processos duais, um querendo dominar o outro por meio de disciplina, asser\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o e assim por diante. Ent\u00e3o, na ideia de controle existe sempre dualidade. O pensamento, tendo se dividido em dois processos \u2013 aquilo que \u00e9 agrad\u00e1vel e o que n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel \u2013 cria conflito em si mesmo, e tenta dominar esse conflito por v\u00e1rios meios, ideais, nega\u00e7\u00f5es, concentra\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai.<\/p><p>Ent\u00e3o o ponto principal n\u00e3o \u00e9 como controlar, mas por que criamos e nos fixamos nesse processo dual? O que faz a pessoa ficar irada primeiro e, depois, descobrir a dor da ira o que a leva a aprender a se controlar? O que faz a pessoa bruta e, depois, tentar cultivar a compaix\u00e3o? Conscientizando-nos do processo da dualidade, despertaremos a compreens\u00e3o, a totalidade, a completude que eliminar\u00e1 o conflito da resist\u00eancia. O que faz nossa vida, pensamento, t\u00e3o desarticulada, t\u00e3o descoordenada? Por que n\u00f3s, em nosso processo de pensamento, criamos essa dualidade, n\u00e3o que n\u00e3o exista essa dualidade?<\/p><p>No exato momento da ira n\u00e3o existe a rea\u00e7\u00e3o de seu oposto, ficamos irados simplesmente. Depois chegam todas as rea\u00e7\u00f5es a ela dependendo de nosso condicionamento anterior e, de acordo com ele, nos controlamos, treinamos para n\u00e3o ficarmos irados, e exercitando a vontade, lan\u00e7amos resist\u00eancias contra a ira, o que n\u00e3o \u00e9 a dissolu\u00e7\u00e3o da ira; n\u00f3s a encobrimos e, assim, a dualidade continua existindo. Agora, por que ficamos irados? Por muitas raz\u00f5es. Pode ser que nossa seguran\u00e7a social ou financeira esteja amea\u00e7ada, ou pode ser por alguma raz\u00e3o psicol\u00f3gica. Agora, sem compreender completamente as raz\u00f5es fisiol\u00f3gicas e psicol\u00f3gicas da ira e, inteligentemente e totalmente nos conscientizando delas, s\u00f3 ficamos profundamente interessados na ideia de nos livrarmos da ira. Simplesmente se livrar da ira \u00e9 comparativamente f\u00e1cil, mas isso n\u00e3o dissolve suas causas completamente; mas se voc\u00ea estiver totalmente consciente das causas, fisiol\u00f3gicas bem como psicol\u00f3gicas, consciente sem o desejo de se livrar da ira, ent\u00e3o, nessa compreens\u00e3o integral n\u00e3o s\u00f3 o efeito \u2013 a ira \u2013 mas as causas definham tamb\u00e9m, dando lugar para uma qualidade que s\u00f3 a experi\u00eancia pode revelar. Toda domina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de ignor\u00e2ncia e viol\u00eancia; s\u00f3 a compreens\u00e3o pode libertar o pensamento da escravid\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Por favor, poderia explicar mais completamente \u201cO mundo \u00e9 a extens\u00e3o do indiv\u00edduo, voc\u00ea \u00e9 o mundo\u201d?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Atrav\u00e9s da abordagem experimental descobre-se que o homem \u00e9 a medida de todas as coisas; ou, aceitando a autoridade, existe outra medida al\u00e9m do homem, Deus ou como voc\u00ea queira chamar. O mundo do passado \u00e9 o mundo de hoje, do \u201cEu\u201d e do futuro \u201cEu\u201d. O passado \u00e9 o mundo de nossos ancestrais, das gera\u00e7\u00f5es anteriores, com sua ignor\u00e2ncia, medos e assim por diante, que limitam o presente, o \u201cEu\u201d de hoje e d\u00e3o origem ao \u201cEu\u201d de amanh\u00e3, o futuro. Cada um de n\u00f3s \u00e9 esse passado acumulado, ao qual se incorpora o presente com suas rea\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias. Os indiv\u00edduos s\u00e3o o resultado de variadas formas de influ\u00eancia e limita\u00e7\u00e3o, e a rela\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo com outro cria o mundo \u2013 o mundo dos valores. O mundo \u00e9 a estrutura social, moral, espiritual baseada em valores criados por n\u00f3s, n\u00e3o? O mundo social, bem como o chamado mundo espiritual, \u00e9 criado por n\u00f3s indiv\u00edduos atrav\u00e9s de nossos medos, esperan\u00e7as, anseios e assim por diante. N\u00f3s vemos o mundo do \u00f3dio colhendo seu produto presentemente. Esse mundo de \u00f3dio foi criado por nossos pais e seus antepassados, e por n\u00f3s. Assim, a ignor\u00e2ncia se estende indefinidamente pelo passado. Ela n\u00e3o se criou por si mesma \u2013 ela \u00e9 o resultado da ignor\u00e2ncia humana, um processo hist\u00f3rico, n\u00e3o? N\u00f3s como indiv\u00edduos cooperamos com nossos ancestrais, que, com seus antepassados, estabeleceram esse processo de \u00f3dio, medo, gan\u00e2ncia e assim por diante. Agora, como indiv\u00edduos, n\u00f3s tomamos parte desse mundo de \u00f3dio enquanto, individualmente, cedemos a ele.<\/p><p>O mundo, ent\u00e3o, \u00e9 uma extens\u00e3o de voc\u00ea mesmo. Se voc\u00ea como indiv\u00edduo deseja destruir o \u00f3dio, ent\u00e3o, voc\u00ea como indiv\u00edduo deve cessar de odiar. Para destruir o \u00f3dio, voc\u00ea deve se dissociar do \u00f3dio em todas as suas formas grosseiras e sutis e, enquanto estiver preso nele, voc\u00ea faz parte deste mundo de ignor\u00e2ncia e medo. Assim o mundo \u00e9 uma extens\u00e3o de voc\u00ea mesmo \u2013 voc\u00ea mesmo duplicado e multiplicado. O mundo n\u00e3o existe apartado do indiv\u00edduo. Ele pode existir como uma ideia, como um estado, como uma organiza\u00e7\u00e3o social, mas para exercer essa ideia, para fazer essa organiza\u00e7\u00e3o religiosa ou social funcionar, deve haver o indiv\u00edduo. Sua ignor\u00e2ncia, sua gan\u00e2ncia, seu medo mant\u00e9m a estrutura de ignor\u00e2ncia, gan\u00e2ncia e \u00f3dio. Se o indiv\u00edduo mudar, ele pode afetar o mundo \u2013 o mundo de \u00f3dio, gan\u00e2ncia e assim por diante? Primeiro assegure-se, assegure-se duplamente, que voc\u00ea, o indiv\u00edduo, n\u00e3o odeia. Aqueles que odeiam n\u00e3o t\u00eam tempo para pensamento \u2013 eles s\u00e3o consumidos por seu pr\u00f3prio intenso excitamento e com seus resultados. Eles n\u00e3o ouvem o pensamento calmo, deliberado; eles s\u00e3o arrastados por seu pr\u00f3prio medo; e voc\u00ea n\u00e3o pode ajudar essas pessoas \u2013 pode? \u2013 a menos que siga o m\u00e9todo delas, que \u00e9 for\u00e7\u00e1-las a ouvir, mas tal for\u00e7a n\u00e3o tem valor. A ignor\u00e2ncia tem seu pr\u00f3prio sofrimento. Afinal, voc\u00ea est\u00e1 me ouvindo porque n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ado imediatamente, mas se estivesse, provavelmente n\u00e3o ouviria; n\u00e3o estaria atento. O mundo \u00e9 uma extens\u00e3o de voc\u00ea mesmo enquanto voc\u00ea estiver descuidado, preso na ignor\u00e2ncia, \u00f3dio, gan\u00e2ncia; mas quando voc\u00ea estiver s\u00e9rio, cuidadoso e consciente, acontece n\u00e3o apenas uma dissocia\u00e7\u00e3o daquelas causas horr\u00edveis que causam dor e sofrimento, mas tamb\u00e9m nessa compreens\u00e3o existe uma completude, uma totalidade.<\/p><p>2 de junho de 1940<\/p><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda Palestra em Oak Grove Para aqueles que chegaram aqui pela primeira vez hoje, devo explicar brevemente sobre o que falamos no \u00faltimo domingo. Aqueles de voc\u00eas que est\u00e3o acompanhando rigorosamente essas palestras n\u00e3o devem se impacientar, pois vamos tentar pintar com palavras um quadro da vida t\u00e3o completo quanto for poss\u00edvel. 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