{"id":1271,"date":"2022-12-18T15:47:06","date_gmt":"2022-12-18T15:47:06","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1271"},"modified":"2022-12-18T15:48:10","modified_gmt":"2022-12-18T15:48:10","slug":"26-05-1940","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1271","title":{"rendered":"26\/05\/1940"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1271\" class=\"elementor elementor-1271\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-7c9674f2 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"7c9674f2\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-efd74b1\" data-id=\"efd74b1\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2a052a53 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2a052a53\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\">Primeira Palestra em Oak Grove<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 sempre sofrendo, na confus\u00e3o; h\u00e1 sempre este problema de disputa e sofrimento. N\u00f3s nos tornamos conscientes desse conflito, dessa dor, quando nos afeta pessoalmente ou quando cai sobre n\u00f3s imediatamente como agora. Os problemas da guerra existiam anteriormente, mas a maioria de n\u00f3s n\u00e3o se preocupava j\u00e1 que eram remotos e n\u00e3o nos afetavam pessoalmente e profundamente, mas agora a guerra est\u00e1 em nossa porta, e isso parece dominar as mentes da maioria de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vou responder \u00e0s perguntas que devem surgir inevitavelmente quando se est\u00e1 preocupado com os problemas da guerra, que atitude e a\u00e7\u00e3o deve-se tomar em rela\u00e7\u00e3o a isso e assim por diante. Mas, talvez, devamos discutir juntos um problema muito mais profundo, pois a guerra \u00e9 s\u00f3 a manifesta\u00e7\u00e3o exterior da confus\u00e3o interior e da luta, do \u00f3dio e do antagonismo. O problema que dev\u00edamos discutir, que est\u00e1 sempre presente, \u00e9 o do indiv\u00edduo e sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, que \u00e9 a sociedade. Se pudermos compreender esse problema complexo, ent\u00e3o talvez sejamos capazes de evitar as muitas causas que, finalmente, levam \u00e0 guerra. A guerra \u00e9 um sintoma brutal e doentio, e tratar da manifesta\u00e7\u00e3o exterior sem considerar suas causas profundas \u00e9 in\u00fatil e despropositado; mudando as causas fundamentalmente, talvez possamos gerar uma paz que n\u00e3o seja destru\u00edda por circunst\u00e2ncias externas.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s estamos dispostos a considerar que por meio da legisla\u00e7\u00e3o, da simples organiza\u00e7\u00e3o, ou pela lideran\u00e7a, os problemas de guerra e paz e outros problemas humanos podem ser resolvidos. Como n\u00e3o queremos ser respons\u00e1veis, individualmente, por esse tumulto interno e externo em nossas vidas, buscamos autoridades, grupos e a\u00e7\u00e3o de massa. Por meio desses m\u00e9todos externos pode-se ter paz tempor\u00e1ria, mas s\u00f3 se pode ter essa paz abrangente, duradoura quando o indiv\u00edduo compreende a si mesmo e sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, o que forma a sociedade. A paz est\u00e1 dentro n\u00e3o fora; s\u00f3 pode haver paz e felicidade no mundo quando o indiv\u00edduo \u2013 que \u00e9 o mundo \u2013 se determinar definitivamente a alterar suas pr\u00f3prias causas que produzem confus\u00e3o, sofrimento, \u00f3dio e assim por diante. Eu quero tratar dessas causas e como transform\u00e1-las profunda e permanentemente.<\/p>\n<p>O mundo a nossa volta est\u00e1 em constante fluxo, constante mudan\u00e7a; h\u00e1 sofrimento e dor incessantes. No meio dessa muta\u00e7\u00e3o e conflito pode haver paz duradoura e felicidade, independente de todas as circunst\u00e2ncias? Essa paz e felicidade pode ser encontrada, criada a partir de qualquer circunst\u00e2ncia em que o indiv\u00edduo esteja. Durante essas palestras, devo tentar explicar como experimentar conosco mesmo e, assim, libertar o pensamento de suas limita\u00e7\u00f5es autoimpostas. Mas cada pessoa deve experimentar e viver vigorosamente e n\u00e3o viver de a\u00e7\u00e3o e frases superficiais simplesmente.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia s\u00e9ria deve come\u00e7ar em n\u00f3s mesmos, com cada um de n\u00f3s, e \u00e9 in\u00fatil simplesmente alterar as condi\u00e7\u00f5es externas sem mudan\u00e7a interna profunda. Pois aquilo que o indiv\u00edduo \u00e9, a sociedade \u00e9. N\u00e3o podemos criar uma sociedade pac\u00edfica, inteligente se o indiv\u00edduo for intolerante, bruto e competitivo. Se o indiv\u00edduo carece de benevol\u00eancia, afei\u00e7\u00e3o, considera\u00e7\u00e3o em sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, inevitavelmente ele produzir\u00e1 conflito, antagonismo e confus\u00e3o. A sociedade \u00e9 extens\u00e3o do indiv\u00edduo; a sociedade \u00e9 proje\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos. At\u00e9 percebermos e compreendermos a n\u00f3s mesmos profundamente e alterarmos a n\u00f3s mesmos radicalmente, a simples mudan\u00e7a do exterior n\u00e3o criar\u00e1 paz no mundo, nem trar\u00e1 para ele aquela tranquilidade necess\u00e1ria para a rela\u00e7\u00e3o social feliz.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o vamos pensar apenas em alterar o ambiente; isso acontecer\u00e1 e deve acontecer se toda nossa aten\u00e7\u00e3o for dirigida para a transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, de n\u00f3s mesmos e de nossa rela\u00e7\u00e3o com o outro. Como podemos ter fraternidade no mundo se somos intolerantes, se odiamos, se somos ambiciosos? Certamente isso \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o? Se cada um de n\u00f3s \u00e9 impelido por ambi\u00e7\u00e3o consumidora, lutando pelo sucesso, buscando felicidade em coisas, certamente devemos criar uma sociedade ca\u00f3tica, cruel e destrutiva. Se todos n\u00f3s aqui compreendermos e concordarmos profundamente nesse ponto \u2013 que o mundo somos n\u00f3s e o que somos o mundo \u00e9 \u2013 ent\u00e3o podemos prosseguir pensando em como provocar a mudan\u00e7a necess\u00e1ria em n\u00f3s mesmos. Enquanto n\u00e3o concordamos com essa coisa fundamental, mas simplesmente buscarmos no ambiente nossa paz e felicidade, ele assume essa imensa import\u00e2ncia que tem para n\u00f3s; pois n\u00f3s criamos o ambiente, e sem mudan\u00e7a radical em n\u00f3s, ele se torna uma intoler\u00e1vel pris\u00e3o. N\u00f3s nos agarramos ao ambiente esperando encontrar seguran\u00e7a e continuidade auto identificada nele, e resistimos a toda mudan\u00e7a de pensamento e valores. Mas a vida \u00e9 um fluxo cont\u00ednuo e, por isso, h\u00e1 um conflito constante entre desejo, que deve sempre ser est\u00e1tico, e a realidade que n\u00e3o tem perman\u00eancia.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 a medida de todas as coisas, e se sua vis\u00e3o estiver pervertida, ent\u00e3o o que ele pensa e cria deve levar ao desastre e ao sofrimento inevitavelmente. A partir daquilo que pensa e sente, o indiv\u00edduo constr\u00f3i a sociedade. Pessoalmente, sinto que o mundo \u00e9 o que eu mesmo sou, que o que eu crio no mundo, seja paz ou sofrimento, isso sou eu, e enquanto eu n\u00e3o compreender a mim mesmo, n\u00e3o posso gerar paz no mundo; assim, minha preocupa\u00e7\u00e3o imediata sou eu mesmo \u2013 n\u00e3o egoisticamente, n\u00e3o simplesmente para me transformar a fim de ter mais felicidade, maiores sensa\u00e7\u00f5es, maiores sucessos \u2013 pois, enquanto n\u00e3o compreender a mim mesmo, eu devo viver com dor e sofrimento e n\u00e3o posso descobrir paz e felicidade duradoura.<\/p>\n<p>Para compreender a n\u00f3s mesmos, devemos primeiro, estar interessados na descoberta de n\u00f3s mesmos, devemos estar alertas em rela\u00e7\u00e3o a nossos pr\u00f3prios processos de pensamento e sentimento. Com o que nossos pensamentos e sentimentos est\u00e3o mais preocupados? Eles est\u00e3o preocupados com coisas, pessoas e ideias. Essas s\u00e3o as coisas fundamentais em que estamos interessados \u2013 coisas, pessoas, ideias.<\/p>\n<p>Ora, por que essas coisas assumiram tal import\u00e2ncia em nossas vidas? Por que essas coisas \u2013 propriedade, casas, roupas e assim por diante \u2013 ocuparam tal espa\u00e7o dominante em nossas vidas? \u00c9 porque n\u00f3s simplesmente precisamos delas, ou \u00e9 porque dependemos delas para nossa felicidade psicol\u00f3gica? Todos n\u00f3s precisamos de roupas, alimento e abrigo. Isso \u00e9 \u00f3bvio. Mas por que isso assumiu tal tremenda import\u00e2ncia, significa\u00e7\u00e3o? As coisas assumem valor e significa\u00e7\u00e3o desproporcional porque, psicologicamente, dependemos delas para nosso bem-estar. Elas alimentam nossa vaidade; nos conferem prest\u00edgio social; nos d\u00e3o meios para obter poder. N\u00f3s as usamos para alcan\u00e7ar objetivos al\u00e9m do que elas significam em si mesmas. Precisamos de alimento, roupas, abrigo, o que \u00e9 natural e n\u00e3o deturpa\u00e7\u00e3o, mas quando dependemos de coisas para nossa gratifica\u00e7\u00e3o, quando as coisas se tornam necessidades psicol\u00f3gicas, elas assumem valor e import\u00e2ncia totalmente desproporcionais \u2013 e por isso a luta e o conflito para possuir e os v\u00e1rios meios de manter aquelas coisas das quais dependemos.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a a si mesmo esta pergunta: Eu sou dependente de coisas para minha felicidade psicol\u00f3gica, satisfa\u00e7\u00e3o? Se voc\u00ea procurar responder seriamente a essa pergunta aparentemente simples, descobrir\u00e1 o complexo processo de seu pensamento e sentimento. Se as coisas forem uma necessidade f\u00edsica, ent\u00e3o voc\u00ea colocar\u00e1 uma limita\u00e7\u00e3o inteligente nelas, e elas n\u00e3o assumir\u00e3o essa import\u00e2ncia esmagadora que t\u00eam quando se tornam uma necessidade psicol\u00f3gica. Desse modo voc\u00ea come\u00e7a a compreender a natureza da sensa\u00e7\u00e3o e da gratifica\u00e7\u00e3o; pois a mente que compreende a verdade deve estar livre de tais depend\u00eancias. Para libertar a mente da sensa\u00e7\u00e3o e da satisfa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea deve come\u00e7ar com aquelas satisfa\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o familiares, e ali basear a funda\u00e7\u00e3o correta para a compreens\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o tem seu espa\u00e7o, e compreendendo-a, ela n\u00e3o assume a est\u00fapida distor\u00e7\u00e3o que tem hoje.<\/p>\n<p>Muitos pensam que se as coisas do mundo estivessem bem organizadas de modo que fossem suficientes para todos, ent\u00e3o seria um mundo feliz e pac\u00edfico, mas eu receio que n\u00e3o seja assim se, individualmente, n\u00e3o compreendermos sua verdadeira significa\u00e7\u00e3o. Dependemos das coisas porque, internamente, somos pobres, e encobrirmos essa pobreza de ser com coisas; e essas acumula\u00e7\u00f5es exteriores, essas posses superficiais, se tornam t\u00e3o vitalmente importantes que por elas mentimos, enganamos, lutamos e destru\u00edmos uns aos outros \u2013 pois as coisas s\u00e3o meios de poder, de autoglorifica\u00e7\u00e3o. Sem compreender a natureza dessa pobreza de ser interior, a simples mudan\u00e7a de organiza\u00e7\u00e3o por uma distribui\u00e7\u00e3o justa das coisas, embora necess\u00e1ria, criar\u00e1 outras formas e meios de obter poder e autoglorifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria de n\u00f3s est\u00e1 interessada em coisas, e compreender nossa rela\u00e7\u00e3o correta com elas requer intelig\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 ascetismo nem gan\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 ren\u00fancia nem acumula\u00e7\u00e3o, mas uma conscientiza\u00e7\u00e3o livre, inteligente, das necessidades sem a obstinada depend\u00eancia das coisas. Quando voc\u00ea compreende isso, n\u00e3o h\u00e1 o sofrimento de abrir m\u00e3o nem a dor da disputa competitiva. Somos capazes de examinar criticamente e compreender a diferen\u00e7a entre as necessidades da pessoa e a depend\u00eancia psicol\u00f3gica de coisas? Voc\u00ea n\u00e3o vai responder a essa pergunta agora. S\u00f3 ir\u00e1 respond\u00ea-la se for persistentemente s\u00e9rio, se seu objetivo for inabal\u00e1vel e claro.<\/p>\n<p>Certamente podemos come\u00e7ar a descobrir qual \u00e9 nossa rela\u00e7\u00e3o com as coisas. Ela se baseia na gan\u00e2ncia, n\u00e3o? Mas quando a necessidade se torna gan\u00e2ncia? N\u00e3o \u00e9 gan\u00e2ncia quando o pensamento, percebendo seu pr\u00f3prio vazio, sua pr\u00f3pria inutilidade, come\u00e7a a investir as coisas com uma import\u00e2ncia maior do que seu pr\u00f3prio valor intr\u00ednseco e, assim, cria depend\u00eancia delas? Essa depend\u00eancia pode provocar um tipo de coes\u00e3o social, mas nela existe sempre conflito, dor, desintegra\u00e7\u00e3o. Podemos tornar nosso processo de pensamento claro, e podemos fazer isso se em nossa vida cotidiana nos tornarmos c\u00f4nscios dessa gan\u00e2ncia, com seus assustadores resultados. Essa consci\u00eancia de necessidade e gan\u00e2ncia nos ajudar\u00e1 a lan\u00e7ar as funda\u00e7\u00f5es corretas de nosso pensamento. A gan\u00e2ncia, de uma forma ou de outra, \u00e9 sempre causa de antagonismo, \u00f3dio nacional implac\u00e1vel e sutis brutalidades. Se n\u00e3o compreendermos e lidarmos com a gan\u00e2ncia, como poderemos compreender a realidade que transcende todas essas formas de disputa e sofrimento? Devemos come\u00e7ar conosco, com nossas rela\u00e7\u00f5es com as coisas e as pessoas. Falei primeiro das coisas, pois considero que a maioria de n\u00f3s est\u00e1 preocupada com elas. Para n\u00f3s elas s\u00e3o de tremenda import\u00e2ncia. As guerras s\u00e3o sobre coisas, e nossos valores sociais e morais baseiam-se nelas. Sem compreender o complexo processo da gan\u00e2ncia, n\u00e3o compreenderemos a realidade.<\/p>\n<p><b>Interrogante:<\/b> Estamos em risco iminente de nos envolvermos na guerra. Por que n\u00e3o nos dar algumas sugest\u00f5es concretas de como lutar contra isso?<\/p>\n<p><b>Krishnamurti:<\/b> Existe apenas uma guerra, a guerra dentro de n\u00f3s \u2013 que produz guerras exteriores. Estou interessado apenas com a guerra dentro de n\u00f3s. Se pudermos compreender e transcender inteligentemente essa guerra dentro de n\u00f3s, ent\u00e3o, talvez, haver\u00e1 paz no mundo. Digo \u2018talvez\u2019, porque s\u00f3 pode haver paz no mundo quando cada um de n\u00f3s for integralmente pac\u00edfico. Pode-se ter essa paz integrada dentro de si mesmo quando se \u00e9 s\u00e9rio e inteligentemente consciente. O conflito que cria esse \u00f3dio est\u00e1 dentro de voc\u00ea mesmo, e \u00e9 seu primeiro problema. Se voc\u00ea estiver no processo de resolv\u00ea-lo, saber\u00e1 o que \u00e9 essa tranquilidade, mas simplesmente ter sugest\u00f5es e instru\u00e7\u00f5es dadas por outra pessoa \u2013 o que voc\u00ea deveria fazer sob essa ou aquela circunst\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o gera paz. Grande intelig\u00eancia e profunda compreens\u00e3o, n\u00e3o simples afirma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o cega de alguma teoria, mas conscientiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, extenuante questionamento com delicadeza e cuidado, criar\u00e1 em n\u00f3s paz duradoura. Assim, nossa primeira tarefa \u00e9 conosco, pois o mundo \u00e9 extens\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Tentamos alterar a circunfer\u00eancia sem alterar fundamentalmente o centro; estamos preocupados com a periferia sem compreender o n\u00facleo. Quando houver paz no centro, ent\u00e3o haver\u00e1 a possibilidade dela no mundo.<\/p>\n<p><b>Interrogante: <\/b>Por favor, voc\u00ea explicaria mais detalhadamente em que sentido usa a palavra sensa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><b>Krishnamurti:<\/b> O processo de viver \u00e9 parcialmente sensa\u00e7\u00e3o: ver, saborear, tocar, pensar e assim por diante. Se buscarmos prazer atrav\u00e9s da sensa\u00e7\u00e3o ou usarmos a sensa\u00e7\u00e3o para aumentar a gratifica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o pensamento se torna escravo do desejo. H\u00e1 certo tipo de satisfa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica em possuir e ser possu\u00eddo. Quando a sensa\u00e7\u00e3o de posse \u00e9 satisfeita, o pensamento busca outros tipos de sensa\u00e7\u00e3o e prazer; assim o desejo est\u00e1 continuamente mudando seu objeto de gratifica\u00e7\u00e3o at\u00e9 a realidade simular ser uma forma de prazer, que se espera seja permanente. O desejo constante por maior e maior sensa\u00e7\u00e3o deve, inevitavelmente, levar \u00e0 dor e ao sofrimento; n\u00e3o se percebe isso muitas vezes, e se anseia por uma satisfa\u00e7\u00e3o duradoura, uma seguran\u00e7a definitiva numa ideia, pessoa ou coisas. O anseio por uma finalidade \u00e9 resultado de uma s\u00e9rie de satisfa\u00e7\u00f5es e desapontamentos, mas o desejo de perman\u00eancia \u00e9 ainda uma forma de sensa\u00e7\u00e3o e gratifica\u00e7\u00e3o. Se cada um de n\u00f3s puder compreender o processo de sensa\u00e7\u00e3o e prazer em rela\u00e7\u00e3o, digamos, a coisas, ent\u00e3o poderemos come\u00e7ar a ter consci\u00eancia de quando a necessidade se torna o meio de maior satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 e a busca dessa satisfa\u00e7\u00e3o maior, vamos perceber, \u00e9 gan\u00e2ncia. Essa percep\u00e7\u00e3o inteligente ou conscientiza\u00e7\u00e3o coloca um limite natural na sensa\u00e7\u00e3o, sem o conflito do controle. Portanto, sem compreender profunda e integralmente o processo da sensa\u00e7\u00e3o e dos desejos que sobressaem, se tentarmos buscar a realidade, paz, felicidade, ent\u00e3o o que poderemos encontrar, embora possamos chamar de eterno e assim por diante, ser\u00e1 apenas o resultado de prazer e anseio e, por isso, n\u00e3o real.<\/p>\n<p>I<b>nterrogante:<\/b> Qual \u00e9 o passo mais s\u00e1bio a se tomar para compreender a si mesmo menos egoisticamente?<\/p>\n<p><b>Krishnamurti:<\/b> Voc\u00ea considera que existem duas maneiras de compreender a si, egoisticamente e n\u00e3o-egoisticamente? Voc\u00ea apenas compreende, n\u00e3o egoisticamente ou n\u00e3o-egoisticamente. Se voc\u00ea tenta se compreender egoisticamente, n\u00e3o se compreende realmente, pois seu ser \u00e9 aquele do ego. Se voc\u00ea diz a si mesmo \u2018Devo me compreender n\u00e3o-egoisticamente\u2019, est\u00e1 pressupondo uma condi\u00e7\u00e3o; est\u00e1 estabelecendo um conceito que pode ser totalmente falso. Assim, para compreender a si mesmo, voc\u00ea deve se ver como voc\u00ea \u00e9, n\u00e3o predisposto pelo pensamento ego\u00edsta ou n\u00e3o. Para compreender a si mesmo voc\u00ea deve criar um espelho que reflita acuradamente o que voc\u00ea \u00e9. N\u00e3o gostamos de criar para n\u00f3s tal faculdade que reflete puramente, sem influ\u00eancia, pois estamos preocupados com julgamento e altera\u00e7\u00e3o. A altera\u00e7\u00e3o depende da base sobre a qual fomos criados. Se somos pessoas religiosas, nos transformaremos segundo nossos conceitos e dogmas religiosos. Se pensamos em termos sociais, nos transformaremos segundo a moralidade social. Mas para nos compreendermos total e claramente, devemos perceber a n\u00f3s mesmos como somos, sem preconceito, sem condena\u00e7\u00e3o. Perceber assim claramente, sem preconceito, requer constante vigil\u00e2ncia, uma passividade peculiar, alerta que exige paci\u00eancia e cuidado. Mas isso \u00e9 dif\u00edcil j\u00e1 que a maior parte de n\u00f3s \u00e9 levada por nossas sensa\u00e7\u00f5es e desejos; queremos manter, guardar, aquilo que \u00e9 agrad\u00e1vel em n\u00f3s e rejeitar aquilo que \u00e9 desagrad\u00e1vel. O desejo de guardar e o desejo de negar n\u00e3o conduzem \u00e0 compreens\u00e3o de si mesmo, mas, quando voc\u00ea se v\u00ea claramente, sem nenhuma distor\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o come\u00e7a a descobrir a causa e isso, novamente, requer aguda vigil\u00e2ncia, s\u00e9rio prop\u00f3sito. No processo de compreender a si mesmo, a mente n\u00e3o deve estar sobrecarregada com anseio, mesmo que sutil, por resultado. Se voc\u00ea est\u00e1 buscando um resultado, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 interessado no processo de compreender a si mesmo, est\u00e1 em busca de ganho, aquisi\u00e7\u00e3o, sucesso, que tem seu pr\u00f3prio sofrimento e recompensa. Para compreender a si mesmo, voc\u00ea deve ter uma mente-cora\u00e7\u00e3o que esteja clara, sem medo, sem os embara\u00e7os da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Interrogante:<\/b> Como se pode transformar a si sem criar resist\u00eancia?<\/p>\n<p><b>Krishnamurti:<\/b> Na pr\u00f3pria ideia de transformar a si, est\u00e1 implicado um padr\u00e3o preconcebido que impede a compreens\u00e3o cr\u00edtica. Se voc\u00ea tem um preconceito do que quer ser, do que voc\u00ea deveria ser, ent\u00e3o, certamente, sua consci\u00eancia daquilo que voc\u00ea \u00e9 n\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica, j\u00e1 que voc\u00ea est\u00e1 preocupado apenas com conformismo ou com nega\u00e7\u00e3o. Queremos ser isso ou aquilo, e por isso somos incapazes de um exame cr\u00edtico verdadeiro do que somos, e quando nos transformamos em rela\u00e7\u00e3o ao que queremos ser, estamos fadados a criar resist\u00eancias e, assim, a mudan\u00e7a fundamental n\u00e3o acontece de fato.<\/p>\n<p>Em vez de nos preocuparmos com a mudan\u00e7a que deve acontecer em n\u00f3s, vamos ver se temos ideias preconcebidas do que dever\u00edamos ser. Se as temos, nossas aten\u00e7\u00f5es devem se voltar para a investiga\u00e7\u00e3o de como e por que elas surgiram. Se investigarmos seriamente, descobriremos que o medo cria v\u00e1rios padr\u00f5es, ideias preconcebidas de n\u00f3s mesmos e daquilo que dever\u00edamos ser. Sem essas preconcep\u00e7\u00f5es, o que voc\u00ea \u00e9? E assim, tendo conceitos e imagens daquilo que voc\u00ea deveria ser, voc\u00ea luta por eles, o que s\u00f3 distorce sua compreens\u00e3o cr\u00edtica de si mesmo, construindo resist\u00eancias. Mas se voc\u00ea for capaz de olhar para si como voc\u00ea \u00e9, ent\u00e3o h\u00e1 uma possibilidade de mudan\u00e7a radical, que n\u00e3o \u00e9 produzida pela compara\u00e7\u00e3o. Toda mudan\u00e7a comparativa \u00e9 apenas mudan\u00e7a de resist\u00eancia.<\/p>\n<p><b>Interrogante:<\/b> E uma escola para crian\u00e7as? Isso \u00e9 uma necessidade presente.<\/p>\n<p><b>Krishnamurti:<\/b> N\u00e3o \u00e9 apenas uma necessidade presente, mas uma necessidade de todos os tempos. Torna-se importante e imediata quando temos nossos pr\u00f3prios filhos e as circunst\u00e2ncias s\u00e3o cr\u00edticas. As circunst\u00e2ncias sempre s\u00e3o cr\u00edticas para os atentos. Se os pais, os guardi\u00f5es, est\u00e3o eles mesmos confusos, como podem estabelecer escolas onde as crian\u00e7as possam ser criadas sem confus\u00e3o, sem \u00f3dio e ignor\u00e2ncia? Certamente, esse \u00e9 o mesmo antigo problema novamente, n\u00e3o? \u2013 que voc\u00ea deve come\u00e7ar consigo mesmo e, devido ao seu interesse, voc\u00ea cria ou ajuda a criar escolas onde possa crescer uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 fadada ao medo e ao \u00f3dio.<\/p>\n<p>26 de maio de 1940<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira Palestra em Oak Grove O mundo est\u00e1 sempre sofrendo, na confus\u00e3o; h\u00e1 sempre este problema de disputa e sofrimento. N\u00f3s nos tornamos conscientes desse conflito, dessa dor, quando nos afeta pessoalmente ou quando cai sobre n\u00f3s imediatamente como agora. 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