{"id":1227,"date":"2022-12-18T12:02:56","date_gmt":"2022-12-18T12:02:56","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1227"},"modified":"2022-12-18T12:03:24","modified_gmt":"2022-12-18T12:03:24","slug":"06-08-1938","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1227","title":{"rendered":"06\/08\/1938"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1227\" class=\"elementor elementor-1227\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-221351dd elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"221351dd\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-1774761e\" data-id=\"1774761e\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-51022a16 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"51022a16\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/ommen-2nd-public-talk-6th-august-1938\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #0000ff;\">https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/ommen-2nd-public-talk-6th-august-1938<\/span><\/a><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Segunda Palestra em Ommen, Holanda<\/strong><\/p><p>Voc\u00eas devem lembrar que eu estava tentando explicar a diferen\u00e7a entre espontaneidade e a\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, mec\u00e2nica sendo a moralidade da vontade, e o espont\u00e2neo que nasce do fundo de nosso pr\u00f3prio ser. Essa manh\u00e3 falarei sobre uma ou duas coisas relacionadas a isso e, depois, as discutiremos.<\/p><p>Eu dizia que o medo sob qualquer forma cria h\u00e1bito, que impede a liberdade incondicionada na qual existe realidade, na qual pode estar a integridade da pessoa. O medo impede a espontaneidade.<\/p><p>Ora, seria bem rid\u00edculo, e imposs\u00edvel, considerar o que \u00e9 ser espont\u00e2neo, ou julgar quem \u00e9 espont\u00e2neo e quem n\u00e3o \u00e9, e considerar tamb\u00e9m as qualidades, as caracter\u00edsticas da espontaneidade. Cada um saber\u00e1 o que \u00e9 ser espont\u00e2neo, ser real, quando houver a condi\u00e7\u00e3o interna correta. Voc\u00ea saber\u00e1 por si mesmo quando for verdadeiramente espont\u00e2neo, quando for realmente voc\u00ea mesmo. Julgar o outro para ver se ele \u00e9 espont\u00e2neo significa, realmente, que voc\u00ea tem um padr\u00e3o de espontaneidade, o que \u00e9 absurdo. O julgamento do que \u00e9 espont\u00e2neo revela uma mente que reage mecanicamente ao seu pr\u00f3prio h\u00e1bito e padr\u00f5es morais.<\/p><p>Ent\u00e3o \u00e9 f\u00fatil e uma perda de tempo, levando \u00e0 mera opini\u00e3o, considerar o que \u00e9 ser real, espont\u00e2neo, ser voc\u00ea mesmo. Tal considera\u00e7\u00e3o leva \u00e0 ilus\u00e3o. Vamos nos preocupar com qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que revelar\u00e1 o real.<\/p><p>Agora, qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o correta? N\u00e3o existe divis\u00e3o entre a condi\u00e7\u00e3o interna e a externa; estou dividindo como interna e externa apenas para prop\u00f3sitos de observa\u00e7\u00e3o, para compreender mais claramente. Essa divis\u00e3o n\u00e3o existe na realidade.<\/p><p>S\u00f3 a partir do estado interno correto as condi\u00e7\u00f5es externas podem ser mudadas, melhoradas e transformadas fundamentalmente. A abordagem a partir do meramente superficial, ou seja, a partir do exterior, para criar condi\u00e7\u00f5es corretas, ter\u00e1 pequena significa\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o da verdade, Deus.<\/p><p>Deve-se compreender qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o interior correta, mas n\u00e3o a partir de qualquer compuls\u00e3o superficial ou autoridade. A mudan\u00e7a profunda interna lidar\u00e1 sempre inteligentemente com as condi\u00e7\u00f5es exteriores. De uma vez por todas, vamos perceber inteiramente a import\u00e2ncia dessa necess\u00e1ria mudan\u00e7a interna e n\u00e3o, meramente, confiar na mudan\u00e7a das circunst\u00e2ncias externas. \u00c9 sempre o motivo interno e as inten\u00e7\u00f5es que mudam e controlam o exterior. Motivos, desejos, n\u00e3o s\u00e3o fundamentalmente alterados simplesmente controlando o exterior.<\/p><p>Se um homem for internamente pac\u00edfico e afetuoso, sem gan\u00e2ncia, certamente tal homem n\u00e3o precisa de leis que lhe imponham a paz, pol\u00edcia para regular sua conduta, institui\u00e7\u00f5es para manter sua moralidade.<\/p><p>Agora, n\u00f3s demos grande significa\u00e7\u00e3o ao exterior, para manter a paz; por meio de institui\u00e7\u00f5es, leis, pol\u00edcia, ex\u00e9rcitos, igrejas e assim por diante, procuramos manter uma paz que n\u00e3o existe.<\/p><p>Por imposi\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, opondo viol\u00eancia com viol\u00eancia, esperamos criar um estado pac\u00edfico.<\/p><p>Se voc\u00ea compreender isso realmente, profundamente, honestamente, ent\u00e3o ver\u00e1 a import\u00e2ncia de n\u00e3o abordar os muitos problemas da vida como o exterior e o interior, mas apenas a partir do compreensivo e do integral.<\/p><p>Ent\u00e3o qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o interior necess\u00e1ria para ser voc\u00ea mesmo, ser espont\u00e2neo? A primeira condi\u00e7\u00e3o interior necess\u00e1ria \u00e9 que o mecanismo de formar h\u00e1bito deve cessar. Qual \u00e9 a for\u00e7a motriz por tr\u00e1s desse mecanismo?<\/p><p>Antes de respondermos, devemos primeiro descobrir se nossos pensamentos e sentimentos s\u00e3o o resultado de simples h\u00e1bito, tradi\u00e7\u00f5es, e est\u00e3o seguindo ideais e princ\u00edpios. A maioria de n\u00f3s, se realmente pensarmos nisso inteligentemente, honestamente, veremos que nossos pensamentos e sentimentos, em geral, nascem de v\u00e1rios padr\u00f5es regulamentados, sejam eles ideais ou princ\u00edpios.<\/p><p>A continua\u00e7\u00e3o desse h\u00e1bito mec\u00e2nico e sua for\u00e7a motriz \u00e9 o desejo de estar seguro. Todo o mecanismo de tradi\u00e7\u00e3o, de imita\u00e7\u00e3o, de exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de um futuro, de um ideal, do perfeito e sua realiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o desejo de estar seguro; e o desenvolvimento de v\u00e1rias qualidades supostamente necess\u00e1rias \u00e9 para sua realiza\u00e7\u00e3o, seu sucesso.<\/p><p>O desejo confere uma falsa continuidade ao nosso pensamento, e a mente se agarra a essa continuidade cujas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o o simples seguimento de padr\u00f5es, ideais, princ\u00edpios e o estabelecimento de h\u00e1bito. Assim, a experi\u00eancia nunca \u00e9 nova, nunca fresca, nunca ditosa, nunca criativa \u2013 e da\u00ed a extraordin\u00e1ria vitalidade das coisas mortas, do passado.<\/p><p>Agora vamos dar alguns exemplos e ver o que quero dizer. Pegue o h\u00e1bito do nacionalismo, que est\u00e1 se tornando mais e mais forte e cruel agora. O nacionalismo n\u00e3o \u00e9, realmente, um falso amor do homem? Aquele que \u00e9 nacionalista de cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser um ser humano completo. Para um nacionalista, o internacionalismo \u00e9 uma mentira. Muitos insistem que \u00e9 poss\u00edvel ser nacionalista e, ao mesmo tempo, n\u00e3o pertencer a nenhuma na\u00e7\u00e3o: isso \u00e9 uma impossibilidade e apenas um artif\u00edcio da mente.<\/p><p>Estar apegado a um peda\u00e7o particular da terra impede o amor pelo todo. Tendo criado o problema falso e n\u00e3o natural do nacionalismo, n\u00f3s agimos para resolv\u00ea-lo por meio de argumentos complexos e ardilosos pela necessidade do nacionalismo e sua manuten\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de armamentos, \u00f3dio e divis\u00e3o. Todas essas respostas devem ser completamente est\u00fapidas e falsas, pois o problema em si \u00e9 uma ilus\u00e3o e uma pervers\u00e3o. Vamos compreender essa quest\u00e3o do nacionalismo, e a esse respeito, pelo menos, vamos permanecer sensatos num mundo de brutal arregimenta\u00e7\u00e3o e insanidade. O amor organizado por seu pa\u00eds, com seu \u00f3dio e afeto arregimentado, cultivado e imposto por meio da propaganda, dos l\u00edderes, n\u00e3o \u00e9 meramente interesse investido? Esse chamado amor pelo pa\u00eds n\u00e3o existe porque alimenta o pr\u00f3prio ego\u00edsmo da pessoa por meios tortuosos? Todo esfor\u00e7o e gratifica\u00e7\u00e3o deve, inevitavelmente, criar h\u00e1bitos mec\u00e2nicos que entram em conflito constantemente com a pr\u00f3pria integridade e afei\u00e7\u00f5es da pessoa. Preconceito, \u00f3dio, medo, devem criar divis\u00e3o, que gera guerra inevitavelmente \u2013 guerra n\u00e3o apenas dentro de si, mas tamb\u00e9m entre as pessoas.<\/p><p>Se o nacionalismo \u00e9 apenas um h\u00e1bito, o que se faz? N\u00e3o ter um passaporte n\u00e3o o torna livre do h\u00e1bito nacionalista. Mera a\u00e7\u00e3o superficial n\u00e3o liberta voc\u00ea da brutal convic\u00e7\u00e3o interna de uma superioridade racial particular. Quando voc\u00ea \u00e9 confrontado com sentimentos de nacionalismo, qual \u00e9 sua rea\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea sente que eles s\u00e3o inevit\u00e1veis, que voc\u00ea tem que passar pelo nacionalismo para chegar ao internacionalismo, que tem que passar pelo brutal para se tornar pac\u00edfico? Qual \u00e9 sua argumenta\u00e7\u00e3o? Ou voc\u00ea n\u00e3o argumenta de fato, mas simplesmente segue a bandeira, pois h\u00e1 milh\u00f5es fazendo essa coisa absurda? Por que voc\u00eas todos est\u00e3o t\u00e3o calados? Mas como estar\u00e3o ansiosos para discutir comigo sobre Deus, reencarna\u00e7\u00e3o, ou cerim\u00f4nias!<\/p><p>Essa quest\u00e3o do nacionalismo est\u00e1 batendo em sua porta queira voc\u00ea ou n\u00e3o, e qual \u00e9 sua resposta?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel considerar o nacionalismo como aperfei\u00e7oamento do provincianismo e, por isso, o primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o ao internacionalismo?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0\u00c9 a mesma coisa certamente.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Considero o nacionalismo um provincianismo ampliado.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0A mim parece, senhor, que voc\u00ea talvez enfatize demais a posi\u00e7\u00e3o nacionalista. Parece-me que h\u00e1 menos sentimento nacionalista hoje em algumas partes do globo do que havia cinquenta anos atr\u00e1s, e que, conforme o tempo passa, o sentimento nacional pode se tornar menor entre mais e mais pessoas, e que o internacionalismo pode ter mais chance assim. Eu penso que \u00e9 muito importante haver tempo para os elementos moderados na popula\u00e7\u00e3o refor\u00e7arem seus sentimentos e pensamentos internacionais e, se poss\u00edvel, impedirem alguma explos\u00e3o que afastaria o bem na presente civiliza\u00e7\u00e3o junto com o mal.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O ponto \u00e9 este, n\u00e3o: Voc\u00ea pode, em qualquer tempo, chegar \u00e0 paz atrav\u00e9s da viol\u00eancia \u2013 chame-a voc\u00ea de provincianismo, nacionalismo ou internacionalismo? A paz \u00e9 para ser atingida atrav\u00e9s de est\u00e1gios lentos? O amor n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o ou de tempo. A \u00faltima guerra foi lutada pela democracia, creio, e veja, estamos mais preparados para a guerra do que nunca antes, e as pessoas s\u00e3o menos livres. Por favor, n\u00e3o ceda a simples argumenta\u00e7\u00f5es intelectuais. Ou voc\u00ea leva seus sentimentos e pensamentos a s\u00e9rio e os considera profundamente, ou est\u00e1 satisfeito com respostas intelectuais superficiais.<\/p><p>Se voc\u00ea pensa que est\u00e1 em busca da verdade ou criando no mundo uma verdadeira rela\u00e7\u00e3o humana, o nacionalismo n\u00e3o \u00e9 o caminho; nem pode essa rela\u00e7\u00e3o humana de afei\u00e7\u00e3o, de amizade, ser estabelecida por meio de armas. Se voc\u00ea ama profundamente n\u00e3o existe nem o \u00fanico nem os muitos. Existe apenas esse estado de ser que \u00e9 amor, em que pode haver o \u00fanico, mas n\u00e3o \u00e9 a exclus\u00e3o dos muitos. Mas se voc\u00ea diz para si mesmo que atrav\u00e9s do amor de um haver\u00e1 o amor dos muitos, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 considerando o amor de fato, mas meramente o resultado do amor, o que \u00e9 uma forma de medo.<\/p><p>Agora vamos pegar outro exemplo do mecanismo da forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bito que destr\u00f3i o viver criativo. Voc\u00ea deve ser novo para compreender a realidade.<\/p><p>Pegue a quest\u00e3o do modo como tratamos as pessoas. Voc\u00ea notou como voc\u00ea mesmo trata as pessoas \u2013 algu\u00e9m que voc\u00ea pensa ser superior, com grande considera\u00e7\u00e3o, e o inferior com desd\u00e9m ofensivo e indiferen\u00e7a? Voc\u00ea notou isso? (Sim) Isso fica \u00f3bvio nesse acampamento; o modo como voc\u00ea me trata e o modo como trata seus colegas de acampamento ou aqueles que ajudam a dirigir o acampamento: o modo como voc\u00ea se comporta com uma pessoa nobre e com um cidad\u00e3o; o respeito que voc\u00ea tem pelo dinheiro, e o respeito que n\u00e3o tem ao pobre e assim por diante. Isso n\u00e3o \u00e9 o resultado de simples h\u00e1bito, da tradi\u00e7\u00e3o, da imita\u00e7\u00e3o, do desejo de ter sucesso, o h\u00e1bito de gratificar a pr\u00f3pria vaidade?<\/p><p>Por favor, pense nisso e perceba como a mente vive e continua no h\u00e1bito, embora afirme que deve ser espont\u00e2nea, livre. Qual o benef\u00edcio de me ouvir se a coisa \u00f3bvia escapa \u00e0 sua considera\u00e7\u00e3o? Novamente voc\u00ea fica em sil\u00eancio, pois esse \u00e9 um evento comum em nossas vidas e, por isso, voc\u00ea fica um pouco nervoso ao abord\u00e1-lo porque n\u00e3o quer ser exposto t\u00e3o radicalmente.<\/p><p>Se esse h\u00e1bito existe \u2013 e \u00e9 meramente um h\u00e1bito e n\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o deliberada, consciente exceto em poucos casos \u2013 quando voc\u00ea fica consciente dele, ele desaparecer\u00e1 se voc\u00ea ama realmente todo esse processo de viver. Mas se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 interessado, voc\u00ea me escutar\u00e1, e talvez possa ficar intelectualmente estimulado por alguns minutos, mas continuar\u00e1 do mesmo antigo jeito. Mas aqueles de voc\u00eas que estiverem profundamente interessados, que amem compreender a verdade, para voc\u00eas eu afirmo: Observem como este ou qualquer outro h\u00e1bito cria uma cadeia de mem\u00f3rias que se torna mais e mais forte, at\u00e9 que exista somente o \u201cEu\u201d, o \u201cego\u201d. Esse mecanismo \u00e9 o \u201cEu\u201d, e enquanto esse processo existir, n\u00e3o pode haver o \u00eaxtase do amor, da verdade.<\/p><p>Vamos pegar outro exemplo \u2013 o da medita\u00e7\u00e3o. Agora vejo que voc\u00eas est\u00e3o se interessando. O nacionalismo, o modo como tratamos as pessoas, amor, medita\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso faz parte do mesmo processo; todos t\u00eam origem na mesma fonte, mas estamos examinando cada um separadamente para compreend\u00ea-los melhor.<\/p><p>Talvez voc\u00eas discutam comigo essa quest\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o, pois a maior parte de voc\u00eas, de um modo ou outro, praticam essa coisa chamada medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o? (Sim e n\u00e3o) Alguns o fazem, outros n\u00e3o. Aqueles que o fazem, por que fazem? E aqueles que n\u00e3o fazem, por que n\u00e3o fazem? Aqueles que n\u00e3o meditam, qual \u00e9 seu motivo? Ou sua atitude \u00e9 de completa neglig\u00eancia, indiferen\u00e7a, ou t\u00eam medo de se envolver em toda essa tolice, ou temem se revelar a si mesmos, ou temem adquirir novos e inconvenientes h\u00e1bitos e assim por diante. Aqueles que meditam, qual \u00e9 seu motivo?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Ego\u00edsmo.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea est\u00e1 propondo essa palavra como uma explica\u00e7\u00e3o? Eu tamb\u00e9m posso lhe dar uma explica\u00e7\u00e3o muito boa, mas estamos tentando ir al\u00e9m de meras explica\u00e7\u00f5es. Meras explica\u00e7\u00f5es, em geral, colocam um ponto final na reflex\u00e3o. O que estamos tentando fazer discutindo esse assunto? Estamos nos expondo. Estamos nos ajudando a ver o que somos. Voc\u00ea est\u00e1 atuando como um espelho para mim, e eu como espelho para voc\u00ea, sem distor\u00e7\u00e3o. Mas se voc\u00ea meramente d\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o, apenas vomita algumas palavras, voc\u00ea escurece o espelho, o que impede a percep\u00e7\u00e3o clara.<\/p><p>Estamos tentando descobrir por que meditamos e o que isso significa. Aqueles de voc\u00eas que meditam, provavelmente o fazem porque sentem que precisam de certo equil\u00edbrio e clareza, atrav\u00e9s do recolhimento, para lidar com os problemas da vida. E se afastam por um tempo com esse prop\u00f3sito, e esperam, durante esse per\u00edodo, entrar em contato com alguma coisa real, que os ajudar\u00e1 a gui\u00e1-los durante o dia. \u00c9 isso? (Sim) Durante esse per\u00edodo voc\u00ea come\u00e7a a se disciplinar, ou durante o dia todo voc\u00ea disciplina seus pensamentos e sentimentos, e suas a\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, segundo o padr\u00e3o estabelecido naqueles poucos momentos da chamada medita\u00e7\u00e3o.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>N\u00e3o, eu a considero um passo no caminho da liberta\u00e7\u00e3o do ego, um degrau apenas.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Certamente voc\u00ea est\u00e1 dizendo a mesma coisa que estou apontando, apenas est\u00e1 colocando em suas pr\u00f3prias palavras. Pela disciplina voc\u00ea pode libertar o pensamento, libertar a emo\u00e7\u00e3o? Esse \u00e9 o ponto que o interrogante trouxe. \u00c9 poss\u00edvel se disciplinar a fim de se tornar espont\u00e2neo, compreender o desconhecido, o real? Disciplina implica um padr\u00e3o, uma forma que modela, e aquilo que \u00e9 verdade deve ser o desconhecido e n\u00e3o pode ser abordado pelo conhecido.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Penso que medito porque quero me conhecer, porque tenho medo de mim mesmo, porque odeio a mim como odeio a meu vizinho, e quero me conhecer para me proteger. Odeio meu vizinho, e o amo. Eu o odeio porque ele amea\u00e7a meus h\u00e1bitos, meu bem-estar. Eu o amo porque o quero. E sou nacionalista porque tenho medo daqueles que est\u00e3o do outro lado da fronteira. Eu me protejo de todos os modos poss\u00edveis.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que medita para se proteger. (Sim) \u00c9 isso, mas voc\u00ea deveria ir mais profundamente nessa quest\u00e3o da disciplina, n\u00e3o apenas a disciplina imposta pelo mundo exterior atrav\u00e9s das v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es da moralidade organizada, atrav\u00e9s de sistemas sociais particulares, mas tamb\u00e9m a disciplina que o desejo desenvolve.<\/p><p>A disciplina imposta do exterior, pela sociedade, pelos l\u00edderes e assim por diante, deve inevitavelmente destruir a realiza\u00e7\u00e3o individual; acho que isso \u00e9 bastante \u00f3bvio. Pois tal disciplina, compuls\u00e3o, conformismo, meramente transfere o inevit\u00e1vel problema do medo individual com suas muitas ilus\u00f5es.<\/p><p>Agora, existem muitas raz\u00f5es para a pessoa se disciplinar, existe o desejo de se proteger de v\u00e1rios modos: por empreendimento, tentando se tornar mais s\u00e1bio, mais nobre, encontrando o Mestre, se tornando mais virtuoso, seguindo princ\u00edpios, ideais, querendo e ansiando pela verdade, por amor e assim por diante. Tudo isso indica o trabalho do medo, e as raz\u00f5es nobres n\u00e3o s\u00e3o mais do que o revestimento desse medo inato.<\/p><p>Voc\u00ea diz para si mesmo \u201cPara alcan\u00e7ar Deus, para descobrir a realidade, para me colocar em comunh\u00e3o com o absoluto, com o c\u00f3smico\u201d \u2013 voc\u00ea conhece todas as express\u00f5es \u2013 \u201cdevo come\u00e7ar a me disciplinar, devo aprender a ser mais concentrado. Devo praticar a aten\u00e7\u00e3o, desenvolver certas virtudes.\u201d Quando voc\u00ea afirma essas coisas e se disciplina, o que acontece com seus pensamentos e emo\u00e7\u00f5es?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong>\u00a0Voc\u00ea quer dizer que \u00e9 uma forma de autoglorifica\u00e7\u00e3o?<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>Estamos formando h\u00e1bitos.<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0Suponha que algu\u00e9m concebe um padr\u00e3o daquilo que \u00e9 bom, ou que foi imposto pela tradi\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, ou algu\u00e9m aprendeu que o mal \u00e9 aquilo que divide; e se isso for o ideal, o padr\u00e3o para a conduta de vida que se procura atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o, da disciplina auto-imposta, ent\u00e3o o que acontece com os pensamentos e emo\u00e7\u00f5es dessa pessoa? Ela est\u00e1 os for\u00e7ando, violenta ou amorosamente, a se adaptar e, assim, estabelecendo um novo h\u00e1bito no lugar do antigo. N\u00e3o \u00e9 assim? (Sim) Da\u00ed o intelecto, a vontade, est\u00e1 controlando e moldando a pessoa. O desejo de se proteger nasce do medo, que nega a realidade. O caminho da disciplina \u00e9 o processo do medo, e o h\u00e1bito criado pela chamada medita\u00e7\u00e3o destr\u00f3i a espontaneidade, a revela\u00e7\u00e3o do desconhecido.<\/p><p><strong>Interrogante:<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel formar um h\u00e1bito de amor sem perder a espontaneidade?<\/p><p><strong>Krishnamurti:<\/strong>\u00a0O h\u00e1bito pertence \u00e0 mente, \u00e0 vontade, que meramente domina o medo sem suprimi-lo. Emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o criativas, vitais, novas e, por isso, n\u00e3o podem ser transformadas em h\u00e1bito por mais que a vontade tente domin\u00e1-las e control\u00e1-las.<\/p><p>\u00c9 a mente, a vontade, com seus apegos, desejos, medos, que cria o conflito entre ela mesma e a emo\u00e7\u00e3o. O amor n\u00e3o \u00e9 a causa da mis\u00e9ria: s\u00e3o os medos, desejos, h\u00e1bitos da mente que criam a dor, a agonia do ci\u00fame, a desilus\u00e3o. Tendo criado o conflito e o sofrimento, a mente, com sua vontade de satisfa\u00e7\u00e3o, encontra raz\u00f5es, desculpas, fugas, que s\u00e3o chamadas de v\u00e1rios nomes \u2013 desapego, amor impessoal e assim por diante. Devemos compreender todo o processo do mecanismo de forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bito e n\u00e3o perguntar que disciplina, padr\u00e3o ou ideal \u00e9 melhor. Se disciplina \u00e9 coordena\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para ser efetuada pelo esfor\u00e7o, por nenhum sistema. O indiv\u00edduo deve compreender sua pr\u00f3pria complexidade profunda e n\u00e3o meramente buscar um padr\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>N\u00e3o pratique disciplina, n\u00e3o siga padr\u00f5es e meros ideais, mas esteja consciente do processo de formar h\u00e1bitos. Esteja consciente das velhas rotinas ao longo das quais a mente corre e, tamb\u00e9m, do desejo de criar novas. Seriamente, experimente com isso; talvez haja maior confus\u00e3o e sofrimento, pois a disciplina, as leis morais, agiram meramente para oprimir desejos e prop\u00f3sitos ocultos. Quando voc\u00ea fica consciente integralmente, com todo o seu ser, dessa confus\u00e3o e sofrimento, sem nenhuma esperan\u00e7a de sa\u00edda, ent\u00e3o surgir\u00e1 espontaneamente aquilo que \u00e9 real. Mas voc\u00ea deve amar, se entusiasmar com essa pr\u00f3pria confus\u00e3o e sofrimento. Voc\u00ea deve amar com seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com o de outro.<\/p><p>Se voc\u00ea come\u00e7ar a experimentar consigo mesmo, ver\u00e1 uma curiosa transforma\u00e7\u00e3o acontecendo. No momento de maior confus\u00e3o h\u00e1 clareza; no momento de maior medo h\u00e1 amor. Voc\u00ea deve chegar a isso espontaneamente, sem o empenho da vontade.<\/p><p>Eu sugiro seriamente que voc\u00ea experimente o que estive dizendo e, ent\u00e3o, voc\u00ea ver\u00e1 de que maneira o h\u00e1bito destr\u00f3i a percep\u00e7\u00e3o criativa. Mas ela n\u00e3o \u00e9 uma coisa para ser desejada e cultivada. N\u00e3o se pode ir ao encal\u00e7o disso.<\/p><p>6 de agosto de 1938<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/ommen-2nd-public-talk-6th-august-1938 Segunda Palestra em Ommen, Holanda Voc\u00eas devem lembrar que eu estava tentando explicar a diferen\u00e7a entre espontaneidade e a\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, mec\u00e2nica sendo a moralidade da vontade, e o espont\u00e2neo que nasce do fundo de nosso pr\u00f3prio ser. Essa manh\u00e3 falarei sobre uma ou duas coisas relacionadas a isso e, depois, as discutiremos. Eu dizia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1227","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1227"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1227\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1234,"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1227\/revisions\/1234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}