{"id":1216,"date":"2022-12-18T12:01:04","date_gmt":"2022-12-18T12:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1216"},"modified":"2022-12-18T12:02:20","modified_gmt":"2022-12-18T12:02:20","slug":"04-08-1938","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/krishnamurtitextos.com.br\/?page_id=1216","title":{"rendered":"04\/08\/1938"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"1216\" class=\"elementor elementor-1216\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-449a2247 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"449a2247\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-7df21f76\" data-id=\"7df21f76\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6663ffa2 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6663ffa2\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/%EF%BB%BFjkrishnamurti-ommen-1st-public-talk-4th-august-1938\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #0000ff;\">https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/%EF%BB%BFjkrishnamurti-ommen-1st-public-talk-4th-august-1938<\/span><\/a><\/p><p style=\"text-align: center;\"><strong>Primeira Palestra em Ommen, Holanda<\/strong><\/p><p>Voc\u00ea j\u00e1 tentou comunicar a um amigo aquilo que sente muito profundamente? Voc\u00ea deve ter achado muito dif\u00edcil, conquanto \u00edntima essa amizade possa ser. Voc\u00ea pode imaginar qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 para n\u00f3s aqui compreender uns aos outros, pois nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 peculiar. N\u00e3o existe aquela amizade que \u00e9 essencial para a comunica\u00e7\u00e3o profunda e a compreens\u00e3o. A maioria de n\u00f3s tem a atitude ou de um disc\u00edpulo em rela\u00e7\u00e3o ao mestre, ou de um seguidor, ou daquele que tenta impor a si um determinado ponto de vista, e a comunica\u00e7\u00e3o se torna muito dif\u00edcil. \u00c9 mais complicado se voc\u00ea tem uma atitude propagandista, se voc\u00ea chega meramente a fim de propagar certas ideias de uma sociedade ou seita particular, ou uma ideologia que \u00e9 popular no momento. A livre comunica\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando quem escuta e quem fala est\u00e3o pensando juntos no mesmo ponto.<\/p><p>Ao longo desses dias do acampamento n\u00e3o deve haver essa atitude de um mestre e um disc\u00edpulo, de um l\u00edder e um seguidor, mas antes uma comunica\u00e7\u00e3o amistosa um com o outro, o que \u00e9 imposs\u00edvel se a mente estiver presa em alguma cren\u00e7a ou alguma ideologia. N\u00e3o existe amizade entre um l\u00edder e um seguidor e, assim, a profunda comunica\u00e7\u00e3o entre eles \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p><p>Estou falando de uma coisa que para mim \u00e9 real, em que tenho alegria, e ser\u00e1 de pouca significa\u00e7\u00e3o para voc\u00ea se estiver pensando sobre uma coisa completamente diferente. Se pudermos, de algum modo, ir al\u00e9m dessa absurda rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos pela tradi\u00e7\u00e3o e pela lenda, pela supersti\u00e7\u00e3o e todos os tipos de fantasias, ent\u00e3o talvez sejamos capazes de compreender um ao outro naturalmente.<\/p><p>O que quero dizer parece, ao menos para mim, muito simples, mas quando esses pensamentos e sentimentos s\u00e3o colocados em palavras, eles se tornam complicados. A comunica\u00e7\u00e3o se torna mais dif\u00edcil quando voc\u00ea, com seus preconceitos particulares, supersti\u00e7\u00f5es e barreiras, tenta perceber o que estou tentando dizer, em vez de procurar afastar de sua pr\u00f3pria mente aquelas pervers\u00f5es que impedem a compreens\u00e3o integral que pode gerar uma atitude cr\u00edtica e afetuosa.<\/p><p>Como voc\u00ea sabe, este acampamento n\u00e3o tem prop\u00f3sitos de propaganda, de direita ou de esquerda, ou de alguma sociedade ou ideologia particular. Sei que h\u00e1 muitos aqui que vem regularmente ao acampamento para fazer propaganda para suas sociedades, sua nacionalidade, sua igreja e assim por diante. Assim, eu, seriamente, lhes pe\u00e7o que n\u00e3o se permitam esse tipo de passatempo. Estamos aqui com prop\u00f3sitos mais s\u00e9rios. Aqueles que t\u00eam um desejo por esse tipo de passatempo encontram muitas oportunidades em outros lugares. Aqui, pelo menos, vamos tentar descobrir o que n\u00f3s, individualmente, pensamos e sentimos, e ent\u00e3o, talvez, come\u00e7aremos a compreender o caos, o \u00f3dio que existe em n\u00f3s e a nossa volta.<\/p><p>Cada um de n\u00f3s tem muitos problemas: se devia se tornar pacifista, ou at\u00e9 onde poderia ir em rela\u00e7\u00e3o ao pacifismo; se deveria lutar por seu pa\u00eds; problemas sociais e econ\u00f4micos, e os problemas de cren\u00e7a, conduta e afeto. N\u00e3o vou dar uma resposta que resolver\u00e1 esses problemas imediatamente. Mas o que eu gostaria de fazer \u00e9 mostrar uma nova abordagem para eles, de modo que quando estiverem frente a frente com esses problemas de nacionalismo, guerra, paz, explora\u00e7\u00e3o, cren\u00e7a, amor, sejam capazes de enfrent\u00e1-los integralmente e de um ponto de vista que seja real.<\/p><p>Ent\u00e3o, por favor, no in\u00edcio dessas palestras, n\u00e3o esperem uma solu\u00e7\u00e3o imediata para seus v\u00e1rios problemas. Sei que a Europa \u00e9 um perfeito hosp\u00edcio onde se fala de paz e, ao mesmo tempo, se prepara a guerra, onde as fronteiras e o nacionalismo est\u00e3o sendo refor\u00e7ados ao mesmo tempo em que se fala da unidade humana; fala-se de Deus, de amor e, ao mesmo tempo, o \u00f3dio \u00e9 exaltado. Esse n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o problema do mundo, mas seu pr\u00f3prio problema, pois o mundo \u00e9 voc\u00ea.<\/p><p>Para enfrentar esses problemas voc\u00ea deve estar incondicionalmente livre. Se voc\u00ea est\u00e1 comprometido, ou seja, de algum modo voc\u00ea tem medo, n\u00e3o pode resolver qualquer desses problemas. Apenas em liberdade incondicional existe verdade; isto \u00e9, s\u00f3 nessa liberdade voc\u00ea pode ser voc\u00ea mesmo verdadeiramente. Ser completo em todo o seu ser \u00e9 ser incondicionado. Se, de algum modo, em alguma quest\u00e3o, voc\u00ea tem d\u00favida, anseio, medo, isso cria uma mente condicionada que impede a solu\u00e7\u00e3o fundamental dos muitos problemas.<\/p><p>Quero explicar de que maneira abordar a liberdade do condicionamento, do medo, de modo que voc\u00ea possa ser voc\u00ea mesmo em todas as horas e sob todas as circunst\u00e2ncias. Esse estado sem medo \u00e9 poss\u00edvel, e s\u00f3 nele pode haver \u00eaxtase, realidade, Deus. A menos que se esteja totalmente, integralmente livre do medo, os problemas simplesmente aumentam e se tornam sufocantes, sem nenhum significado ou prop\u00f3sito.<\/p><p>Isto \u00e9 o que quero dizer: que s\u00f3 em liberdade incondicional existe verdade, e ser totalmente voc\u00ea mesmo, integral no pr\u00f3prio ser, \u00e9 ser incondicionado, o que revela a realidade.<\/p><p>Ent\u00e3o o que \u00e9 \u2013 ser voc\u00ea mesmo? E podemos ser n\u00f3s mesmos o tempo todo? A pessoa pode ser ela mesma o tempo todo apenas se estiver fazendo alguma coisa que realmente ama e se amar completamente. Quando voc\u00ea est\u00e1 fazendo uma coisa que n\u00e3o pode se abster de fazer com todo o seu ser, voc\u00ea est\u00e1 sendo voc\u00ea mesmo. Ou quando voc\u00ea ama o outro completamente, nesse estado est\u00e1 sendo voc\u00ea mesmo, sem nenhum medo, sem nenhum obst\u00e1culo. Nesses dois estados a pessoa \u00e9 ela mesma completamente.<\/p><p>Ent\u00e3o \u00e9 preciso descobrir o que se ama fazer. Estou usando a palavra ama deliberadamente. O que voc\u00ea ama fazer com todo o seu ser? Voc\u00ea n\u00e3o sabe. N\u00f3s n\u00e3o sabemos o que \u00e9 s\u00e1bio fazer e o que \u00e9 tolice, e a descoberta do que \u00e9 s\u00e1bio e do que \u00e9 tolice \u00e9 todo o processo de viver. Voc\u00ea n\u00e3o vai descobrir isso num piscar de olhos.<\/p><p>Mas como se vai descobrir? Isto \u00e9 para ser descoberto \u2013 o que \u00e9 s\u00e1bio e o que \u00e9 tolice \u2013 mecanicamente, ou espontaneamente? Quando voc\u00ea faz uma coisa com todo o seu ser, em que n\u00e3o h\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o ou medo, nem limita\u00e7\u00e3o, nesse estado de a\u00e7\u00e3o voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea mesmo, sem considerar qualquer condi\u00e7\u00e3o exterior. Eu digo, se voc\u00ea puder chegar nesse estado, quando voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea mesmo em a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o descobrir\u00e1 o \u00eaxtase da realidade, Deus.<\/p><p>Esse estado \u00e9 conseguido mecanicamente, cultivado, ou ele surge espontaneamente? Vou explicar o que quero dizer com processo mec\u00e2nico. Toda a\u00e7\u00e3o imposta de dentro para fora deve ser formadora de h\u00e1bito, deve ser mec\u00e2nica e, por isso, n\u00e3o espont\u00e2nea. Voc\u00ea pode descobrir o que \u00e9 ser voc\u00ea mesmo atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o?<\/p><p>Deixem-me desviar um pouco e dizer que tentaremos, como fizemos no ano passado, debater essas ideias durante os pr\u00f3ximos encontros. Tentaremos pegar os v\u00e1rios t\u00f3picos \u2013 n\u00e3o discutir um com o outro, mas, de modo amistoso, descobrir o que n\u00f3s, individualmente, pensamos sobre essas coisas. Em minha primeira palestra quero fazer um breve esbo\u00e7o do que, para mim, \u00e9 o verdadeiro processo de viver.<\/p><p>Voc\u00ea pode ser voc\u00ea mesmo se seu ser est\u00e1 de algum modo tocado pela tradi\u00e7\u00e3o? Ou voc\u00ea pode descobrir a si mesmo atrav\u00e9s do exemplo, atrav\u00e9s do preceito?<\/p><p><strong>Interrogante<\/strong>: O que \u00e9 preceito?<\/p><p><strong>Krishnamurti<\/strong>: Atrav\u00e9s de um preceito, atrav\u00e9s de um dito \u2013 que o mal \u00e9 que divide e o bem \u00e9 que une \u2013 simplesmente seguindo um princ\u00edpio, voc\u00ea pode ser voc\u00ea mesmo? Viver de acordo com um padr\u00e3o, um ideal, segui-lo implacavelmente, meditar a seu respeito, levar\u00e1 \u00e0 descoberta de si mesmo? Pode aquilo que \u00e9 real ser percebido por meio da disciplina ou vontade? Ou seja, pelo empenho, por um esfor\u00e7o do intelecto, refreando, controlando, disciplinando, guiando, for\u00e7ando o pensamento numa dire\u00e7\u00e3o particular, voc\u00ea pode conhecer a si mesmo? E voc\u00ea pode conhecer a si mesmo atrav\u00e9s de padr\u00f5es de comportamento; ou seja, preconcebendo um modo de vida, do que \u00e9 bom, o ideal, e segui-lo constantemente, distorcendo seu pensamento e sentimento segundo o que ele dita, deixando de lado o que voc\u00ea considera mal e seguindo implacavelmente o que voc\u00ea considera bem? Esse processo revelar\u00e1 a voc\u00ea aquilo que voc\u00ea \u00e9, o que quer que seja? Voc\u00ea pode descobrir a si mesmo atrav\u00e9s da compuls\u00e3o? \u00c9 uma forma de compuls\u00e3o, esta supera\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel de dificuldades pela vontade, disciplina \u2013 este subjugar e resistir, deter e consentir.<\/p><p>Tudo isso \u00e9 o empenho da vontade, que considero ser mec\u00e2nico, um processo do intelecto. Voc\u00ea pode conhecer a si mesmo por esses meios \u2013 por esses meios mec\u00e2nicos? Todo esfor\u00e7o, mec\u00e2nico ou da vontade, \u00e9 formador de h\u00e1bito. Por meio da forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bito voc\u00ea pode ser capaz de criar certo estado, adquirir certo ideal que voc\u00ea pode considerar como sendo voc\u00ea, mas como ele \u00e9 o resultado de um esfor\u00e7o intelectual ou o esfor\u00e7o da vontade, \u00e9 totalmente mec\u00e2nico e, por isso, n\u00e3o verdadeiro. Pode esse processo permitir a compreens\u00e3o de voc\u00ea mesmo, do que voc\u00ea \u00e9?<\/p><p>E existe outro estado, que \u00e9 espont\u00e2neo. Voc\u00ea s\u00f3 pode conhecer a si mesmo quando est\u00e1 sem inten\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o est\u00e1 calculando, protegendo, procurando constantemente uma dire\u00e7\u00e3o para transformar, subjugar, controlar; quando v\u00ea a si mesmo inesperadamente, ou seja, quando a mente n\u00e3o tem preconceitos em rela\u00e7\u00e3o a si mesma; quando a mente est\u00e1 aberta, despreparada para encontrar o desconhecido.<\/p><p>Se sua mente estiver preparada, certamente voc\u00ea n\u00e3o pode conhecer o desconhecido, pois voc\u00ea \u00e9 o desconhecido. Se voc\u00ea disser a si mesmo \u201cEu sou Deus\u201d ou \u201cNada sou al\u00e9m de uma massa de influ\u00eancias ou um fardo de qualidades\u201d \u2013 se voc\u00ea tiver algum preconceito de si mesmo, n\u00e3o pode compreender o desconhecido, aquilo que \u00e9 espont\u00e2neo.<\/p><p>Assim, a espontaneidade s\u00f3 pode surgir quando o intelecto estiver desprotegido, quando n\u00e3o estiver protegendo a si mesmo, quando n\u00e3o tiver mais medo de si; e isso s\u00f3 pode acontecer a partir do interior. Ou seja, o espont\u00e2neo deve ser o novo \u2013 o desconhecido, o incalcul\u00e1vel, o criativo, aquilo que deve ser expresso, amado \u2013 onde a vontade como processo do intelecto, controlando, dirigindo, n\u00e3o toma parte. Observe seus pr\u00f3prios estados emocionais e voc\u00ea ver\u00e1 que os momentos de grande alegria, grande \u00eaxtase, n\u00e3o s\u00e3o premeditados, eles acontecem misteriosamente, ocultamente, desconhecidamente. Quando eles passam, a mente deseja recriar aqueles momentos, recaptur\u00e1-los, e voc\u00ea diz a si mesmo \u201cSe eu seguir certas leis, agir desse modo e n\u00e3o daquele, ent\u00e3o terei aqueles momentos de \u00eaxtase novamente.\u201d<\/p><p>H\u00e1 sempre uma guerra entre o espont\u00e2neo e o mec\u00e2nico. Por favor, n\u00e3o adapte isso para servir aos seus pr\u00f3prios termos religiosos, filos\u00f3ficos. Para mim, o que estou dizendo \u00e9 vitalmente novo e n\u00e3o pode ser distorcido para servir aos seus preconceitos particulares do ego mais elevado e mais baixo, o transit\u00f3rio e o permanente, o ego e o n\u00e3o-ego, e assim por diante. A maioria de n\u00f3s, infelizmente, quase destruiu essa espontaneidade, esta alegria criativa do desconhecido de onde pode surgir a a\u00e7\u00e3o s\u00e1bia. N\u00f3s cultivamos laboriosamente ao longo de gera\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o, de moralidade baseada na vontade, de compuls\u00e3o, a atitude mec\u00e2nica de viver, dando-lhe nomes agrad\u00e1veis; em ess\u00eancia ela \u00e9 puramente mec\u00e2nica, intelectual. O processo de disciplina, de viol\u00eancia, de subjuga\u00e7\u00e3o, de resist\u00eancia, de imita\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso \u00e9 o resultado do desenvolvimento de simples intelecto, que tem suas ra\u00edzes no medo. O mec\u00e2nico \u00e9 esmagadoramente dominante em nossas vidas. Nisso se baseia nossa civiliza\u00e7\u00e3o e moralidade, e em raros momentos, quando a vontade est\u00e1 adormecida, esquecida, surge a alegria do espont\u00e2neo, o desconhecido.<\/p><p>Eu afirmo que apenas nesse estado de espontaneidade voc\u00ea pode perceber aquilo que \u00e9 verdade. Apenas nesse estado pode haver a\u00e7\u00e3o s\u00e1bia, n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o da moralidade calculada ou da vontade.<\/p><p>As variadas formas de moral e disciplinas religiosas, as muitas imposi\u00e7\u00f5es de institui\u00e7\u00f5es sociais e \u00e9ticas, s\u00e3o o resultado de atitude mec\u00e2nica cuidadosamente calculada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, que destr\u00f3i a espontaneidade e provoca a destrui\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p><p>Atrav\u00e9s de nenhum m\u00e9todo \u2013 e todos os m\u00e9todos devem ser, inevitavelmente, mec\u00e2nicos \u2013 voc\u00ea pode desvendar a verdade de seu pr\u00f3prio ser. N\u00e3o se pode for\u00e7ar a espontaneidade por nenhum meio. Nenhum m\u00e9todo lhe dar\u00e1 espontaneidade; todos os m\u00e9todos s\u00f3 podem criar rea\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas. Nenhuma disciplina produzir\u00e1 a alegria espont\u00e2nea do desconhecido. Quanto mais voc\u00ea se for\u00e7a a ser espont\u00e2neo, mais a espontaneidade se retrai, mais obscura e oculta ela se torna e menos ela pode ser compreendida. E, contudo, \u00e9 isso que voc\u00ea tenta fazer quando segue disciplinas, padr\u00f5es, ideias, l\u00edderes, exemplos e assim por diante. Voc\u00ea deve abordar isso negativamente, n\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de capturar o desconhecido, o real.<\/p><p>Estamos conscientes do processo mec\u00e2nico do intelecto, da vontade, que destr\u00f3i o espont\u00e2neo, o real? Voc\u00ea n\u00e3o pode responder imediatamente, mas pode come\u00e7ar a pensar no intelecto, na vontade, e sentir especialmente sua qualidade destrutiva. Voc\u00ea pode perceber a natureza ilus\u00f3ria da vontade, n\u00e3o por meio de alguma compuls\u00e3o, n\u00e3o por meio de algum desejo de aquisi\u00e7\u00e3o, de obten\u00e7\u00e3o, de compreens\u00e3o, mas apenas quando o intelecto se permite ser desnudado de todas as suas capas protetoras.<\/p><p>Voc\u00ea pode conhecer a si mesmo apenas quando ama completamente. Isso, novamente, \u00e9 a totalidade do processo da vida, n\u00e3o algo para ser obtido em alguns momentos com algumas palavras minhas. Voc\u00ea n\u00e3o pode ser voc\u00ea mesmo quando o amor \u00e9 dependente. N\u00e3o \u00e9 amor quando \u00e9 simplesmente autogratifica\u00e7\u00e3o, embora possa ser m\u00fatuo. N\u00e3o \u00e9 amor quando existe conten\u00e7\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 amor quando \u00e9 simplesmente um meio para um fim; quando \u00e9 meramente sensa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o pode ser voc\u00ea mesmo quando o amor est\u00e1 sob o comando do medo; \u00e9, ent\u00e3o, medo, n\u00e3o amor, que est\u00e1 se expressando de v\u00e1rios meios, embora voc\u00ea possa encobri-lo chamando de amor. O medo n\u00e3o pode permitir que voc\u00ea seja voc\u00ea mesmo. O intelecto, simplesmente, guia o medo, o controla, mas n\u00e3o pode destru\u00ed-lo, pois o intelecto \u00e9 a pr\u00f3pria causa do medo.<\/p><p>Como o medo n\u00e3o pode permitir que voc\u00ea seja voc\u00ea mesmo, como se supera esse medo \u2013 medo de todas as esp\u00e9cies, n\u00e3o de um tipo particular? Como a pessoa se liberta desse medo, do qual pode se estar consciente ou inconsciente? Se voc\u00ea est\u00e1 inconsciente do medo, conscientize-se dele; fique c\u00f4nscio de seus pensamentos e a\u00e7\u00f5es, e logo estar\u00e1 consciente do medo. E se voc\u00ea est\u00e1 consciente dele, como vai se libertar? Voc\u00ea vai se libertar do medo mecanicamente, pela vontade; ou ele vai se dissolver por conta pr\u00f3pria, espontaneamente? O processo mec\u00e2nico, ou o da vontade, n\u00e3o pode mais do que esconder o medo mais e mais, guard\u00e1-lo e ret\u00ea-lo cuidadosamente, permitindo apenas as rea\u00e7\u00f5es da moralidade controlada. Sob esses padr\u00f5es de comportamento controlados, o medo deve continuar sempre. Esse \u00e9 o resultado inevit\u00e1vel do processo mec\u00e2nico da vontade com suas disciplinas, desejos, controles e assim por diante.<\/p><p>At\u00e9 que a pessoa se liberte do mec\u00e2nico, n\u00e3o pode haver o espont\u00e2neo, o real. Ansiar pelo real, por aquela chama que arde por dentro, n\u00e3o pode provocar isso.<\/p><p>O que vai libert\u00e1-lo do mec\u00e2nico \u00e9 a profunda observa\u00e7\u00e3o do processo da vontade, ser um com ele, sem nenhum desejo de se libertar. Agora voc\u00ea observa a atitude mec\u00e2nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida com o desejo de se livrar dela, alter\u00e1-la, transform\u00e1-la. Como voc\u00ea transforma a vontade quando o desejo \u00e9 da pr\u00f3pria vontade?<\/p><p>Voc\u00ea deve estar consciente de todo o processo da vontade, do mec\u00e2nico, de sua luta, suas fugas, suas mis\u00e9rias; e como o fazendeiro permite que o solo fique desocupado depois da colheita, voc\u00ea deve se permitir ficar em sil\u00eancio, negativo, sem nenhuma expectativa. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: se na esperan\u00e7a de ganhar o real, voc\u00ea se permite ficar em sil\u00eancio mecanicamente, se obriga a ser negativo, ent\u00e3o o medo \u00e9 a recompensa. Como eu disse, esse vazio criativo n\u00e3o \u00e9 para se correr atr\u00e1s ou buscar por caminhos tortuosos \u2013 ele deve acontecer. A verdade existe; ela n\u00e3o \u00e9 o resultado da moralidade organizada, pois a moralidade baseada na vontade n\u00e3o \u00e9 moral.<\/p><p>N\u00f3s temos muitos problemas, individuais bem como sociais, e para esses problemas n\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o do intelecto, da vontade. Enquanto o processo da vontade continuar de alguma forma, deve haver confus\u00e3o e sofrimento. Pela vontade voc\u00ea n\u00e3o pode conhecer a si mesmo, n\u00e3o pode haver o real.<\/p><p>4 de agosto de 1938<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/jkrishnamurti.org\/content\/%EF%BB%BFjkrishnamurti-ommen-1st-public-talk-4th-august-1938 Primeira Palestra em Ommen, Holanda Voc\u00ea j\u00e1 tentou comunicar a um amigo aquilo que sente muito profundamente? Voc\u00ea deve ter achado muito dif\u00edcil, conquanto \u00edntima essa amizade possa ser. Voc\u00ea pode imaginar qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 para n\u00f3s aqui compreender uns aos outros, pois nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 peculiar. 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