O observador e o observado
Krishnamurti declara que não há separação entre o que observo e a observação. Olho para isso e já vem logo uma rejeição, por que para mim é obvio que a arvore que observo está lá e é diferente de mim, é uma mangueira, portanto não faz sentido, como pode ser diferente?
Mas pensando melhor, e não descartando totalmente, é uma declaração intrigante, pois quando observo, o primeiro movimento é categorizar, acumulei muita informação e elas operam para que haja interpretação, esse é o padrão que assumo na observação, será que há outra maneira de observar?
Considero que eu sou o observador, pois meus sentidos existem para isso e tudo que está fora de mim é o observado, então há separação entre o que vejo e eu próprio, há distancia, há um espaço físico e isso confirma minha conclusão da realidade de minha percepção, como pode não ser isso? Esse raciocínio que sustenta minha conclusão pode estar errado?
Se observo um lindo por do sol e meu ser é invadido por essa beleza, não há separação nesse momento, há uma unidade em que o espaço desaparece, não há distancia entre eu e o que observo, não há eu e o momento, somente quando começo a categorizar, “que coisa linda, quero que continue”, é nesse momento que a separação surge e desfaz a percepção inicial, virando tudo memória, mas o que ficou mais claro foi perceber que estava diante da beleza e não somente do quadro físico do por do sol.
Nesse breve momento onde há plenitude, embora raro em minha caminhada, revela que há um perceber que é completo, em que não há separação, portanto a afirmação inicial pode conter uma realidade que não percebo, pois vivo categorizando tudo, e é essa categorização que me auxilia a viver o dia a dia, tenho que ganhar o pão e sem ela passo fome, portanto surge um conflito ao perceber que há outro tipo de observação em que a categorização não me mostra o que está diante de mim, embora ela seja necessária, não precisa ocupar todo o espaço em minha observação.
O que parecia um absurdo lógico, acaba por revelar uma capacidade refinada, que está soterrada pela categorização que me auxiliou a viver em sociedade, mas acabou dominando todo o espaço da percepção. Portanto, pensando melhor, não existe absurdo lógico e sim uma escravidão em meu modo de observar que coloca tudo no mesmo saco, não fazendo a distinção fundamental, necessária para enxergar claramente e a arvore que chamei de mangueira no inicio continua sendo mangueira, mas também é algo mais misterioso do que uma simples interpretação e talvez isso que chamo de mangueira, por ser um ser vivo, que nasceu, viveu e vai morrer, que oferece um alimento maravilhoso, esteja sendo observada de uma forma limitada que não revela toda a sua natureza e tenha uma existência que mal posso conceber, pois foi petrificada pelo meu olhar categorizador.
O verdadeiro problema não é o que olho, mas como olho, pois preciso interpretar e também preciso ir além da interpretação e a única coisa que me acorrenta é o vicio em interpretar tudo o que vejo, é operar no automático como realidade sem uma pausa qualquer, e isso me mantem escravo de uma cegueira em minha mente, onde não é que não enxergo, mas que o que olho é visto através de uma interpretação e não pelo contato direto com o que vejo, e
que não considero por achar que os olhos são suficientes para enxergar, mas eles só apontam, quem enxerga não são eles.
E a distancia que identifico entre o observador e o observado é real em um nível pratico, mas para que o que é observado se revele completamente a observação precisa de uma atenção que não dependa exclusivamente da categorização, e esse desafio entre perceber o que está a minha frente e olhar sem a interferência representada pela categorização, mostra a dificuldade que tenho em saber quando interpretar e quando não permitir que a interpretação invada.
A afirmação de que não há separação entre observador e observado não retira a distancia que a arvore tem de mim, não fere a lógica, mas aponta agora que a distancia que permanece em minha mente quando olho pode não ser a separação que minha logica sustenta.