10ª palestra em Oak Grove, Ojai, Califórnia - 29 de Junho, 1934.
Pergunta: Eu tenho tido a impressão que estou colocando as suas ideias em ação; mas eu não tenho alegria em viver, nenhum entusiasmo para nenhuma busca. Minhas tentativas de conscientização não esclareceram a minha confusão, e nem trouxeram alguma mudança ou vitalidade para a minha vida. Minha vida não tem mais o significado para mim agora como tinha quando comecei a ouvi-lo, há sete anos. O que há de errado comigo?
Krishnamurti: Eu me pergunto, em primeiro lugar, se o questionador entendeu o que eu falei antes de tentar colocar minhas ideias em ação. E por que ele deveria colocar as minhas ideias em ação? E o que são as minhas ideias? E por que são minhas idéias? Eu não estou dando-lhe um molde ou um código pelo qual você pode viver, ou um sistema que você pode seguir. Tudo o que eu estou dizendo é que, para viver de forma criativa, com entusiasmo, de forma inteligente, vital, a inteligência deve funcionar. Essa inteligência é pervertida, impedida, pelo que se chama de memória, e eu expliquei o que eu quero dizer com isso, então eu não vou entrar neste assunto novamente. Enquanto houver essa constante batalha para realização, enquanto a mente for influenciada, deve haver dualidade, e, consequentemente, dor, luta; e a nossa busca pela verdade ou pela realidade é apenas uma fuga da dor.
E como eu disse, se torne consciente de que seu esforço, sua luta, sua memórias estão destruindo sua inteligência. Tornar-se consciente não é estar consciente superficialmente, mas investigar toda a profundidade da consciência, de modo que nenhuma reação inconsciente seja deixada. Tudo isso exige pensamento; tudo isto exige um estado de alerta da mente e do coração, não uma mente que está confusa com as crenças, credos e ideais. A maioria das mentes está sobrecarregada com isso e com desejos de obedecer. Conforme você se torna consciente da sua responsabilidade, não diga que você não deve ter ideais, que você não deve crer, e repita todo o resto dos jargões. O próprio” muito” cria outra doutrina, outro credo; apenas tornar-se consciente e na intensidade dessa consciência, na intensidade da percepção, naquela chama você irá criar tal crise, tal conflito, onde o próprio conflito vai dissolver o obstáculo.
Sei que algumas pessoas vêm aqui ano após ano, e eu tento explicar essas idéias de maneiras diferentes a cada ano, mas temo que muito poucas entre as pessoas dizem: ”Ouvimos você durante sete anos.” Quero dizer com pensamento, não mero raciocínio intelectual, o que é nada mais do que cinzas, mas aquele equilíbrio entre emoção e razão, entre afeto e pensamento; e esse equilíbrio não é influenciado, não é afetado pelo conflito dos opostos. Mas se não há nem a capacidade de pensar com clareza, nem a intensidade do sentimento, como você pode despertar, como pode haver equilíbrio, como pode haver este estado de alerta, consciência? Assim, a vida torna-se inútil, fútil, sem valor.
Por isso, a primeira coisa a fazer, se é que posso sugerir isso, é descobrir porquê você está pensando de uma certa maneira, e porque você está sentindo de uma determinada maneira. Não tente alterá-la, não tente analisar seus pensamentos e suas emoções, mas torne-se consciente de porque você está pensando em uma ranhura particular e por qual motivo você age. Embora você possa descobrir o motivo através da análise, embora você possa descobrir algo através da análise, não será real; será real somente quando você estiver intensamente consciente no momento do funcionamento do seu pensamento e da sua emoção, assim você vai ver sua sutileza extraordinária, sua fina delicadeza. Enquanto você tiver um” devo” e um” não devo”, nesta compulsão você nunca vai descobrir aquela rápida mudança de pensamento e emoção. E tenho certeza de que vocês foram educados na escola do ”devo” e” não devo” e, portanto, destruíram o pensamento e o sentimento. Vocês foram amarrados e mutilados por sistemas, métodos, por seus professores. Então deixem todos os ”devo” e ”não devo”. Isso não significa que não haverá licenciosidade, mas tornar-se consciente de uma mente que está sempre dizendo: ” Eu devo,” e ”Eu não devo”. Dessa forma, como uma flor se abre diante de uma manhã, assim que a inteligência acontece, está lá, funcionando, criando compreensão.