3ª palestra em Vasanta School Gardens, Auckland - 02/04/1934.

Pergunta: O que é esse estado de atenção do qual você fala? Poderia explicá-lo um pouco mais detalhadamente?

Krishnamurti: Senhores, estamos acostumados a fazer um contínuo esforço para realizar alguma coisa; pensar significa fazer um tremendo esforço. Estamos acostumados com esse esforço ininterrupto. Mas, eu quero falar de algo que, para mim, não é esforço, mas uma nova maneira de viver. Quando vocês sabem que algo é um perigo, que algo é um veneno; quando o seu ser inteiro se conscientiza de que algo é prejudicial, não é preciso esforço para afastá-lo: vocês já se afastaram do perigo. Quando vocês sabem que algo é perigoso, venenoso; quando vocês se conscientizam inteiramente disso em sua mente e em seu coração, vocês já se encontram livres. É apenas quando não sabemos que algo é venenoso, ou quando um veneno proporciona prazer e ao mesmo tempo dor, que brincamos com ele.

Nós criamos muitas ameaças, tais como o nacionalismo, o patriotismo, a obediência imitativa a uma autoridade, o apego à tradição, a contínua busca por conforto. Tudo isso, criamos por causa do medo. Mas, se percebermos com todo o nosso ser que o patriotismo é realmente uma coisa falsa, uma coisa venenosa, então não precisaremos batalhar contra ele. Não precisaremos fugir dele. No momento em que vocês percebem que ele é venenoso, ele desaparece. Como vocês descobrirão que se trata de algo venenoso? Evitando se identificar com o patriotismo ou o antipatriotismo. Isto é, vocês desejam averiguar se o patriotismo é um veneno; mas, se vocês se identificarem com o patriotismo ou com o sentimento de antipatriotismo, então vocês não poderão descobrir o que é verdadeiro. Não é assim? Vocês desejam descobrir se o patriotismo é um veneno. Por conseguinte, a primeira coisa a fazer é se tornarem atentos, é se tornarem conscientes da importância da não identificação com nenhum desses sentimentos. Então, quando vocês não estão tentando se identificar com o patriotismo ou com o sentimento contrário ao patriotismo, vocês começam a ver a verdadeira significação do patriotismo. Desse modo, vocês estão se tornando conscientes de seu verdadeiro valor.

Afinal, o que é o patriotismo? Estou tentando ajudá-los a se tornarem conscientes desse veneno, agora. Isto não significa que vocês devem aceitar ou rejeitar o que digo. Vamos considerar esse problema juntos, e verificar se não é um veneno; no momento em que vocês veem que é um veneno, já não precisam batalhar contra ele. Ele se foi. Quando vocês veem uma cobra venenosa, vocês já se afastaram dela. Vocês não estão lutando contra ela. Ao passo que, se vocês têm dúvida de que é uma cobra venenosa, vocês se aproximam e brincam com ela. Da mesma forma, tentemos descobrir, sem aceitação ou oposição, se o patriotismo é ou não é venenoso.

Em primeiro lugar, quando vocês são patrióticos? Vocês não são patrióticos todo dia. Vocês não conservam esse sentimento patriótico o tempo todo. Vocês são cuidadosamente treinados para o patriotismo nas escolas, por meio dos livros de história, que contam que seu país derrotou algum outro país, e por isso é melhor do que esse país. Por que há esse treinamento da mente para o patriotismo – que, a meu ver, é algo não natural? Não que vocês não possam, talvez, apreciar a beleza de um país mais do que a de outros; mas isso nada tem a ver com patriotismo, isso é apreciação da beleza. Por exemplo, há certas partes do mundo em que não existe uma única árvore, onde o sol é extremamente forte; mas isso tem a sua própria beleza. Certamente, um homem que aprecia a sombra, a dança das folhas, não é patriótico. O patriotismo tem sido cultivado, treinado, como um meio de exploração. Ele não é instintivo no homem. O que é instintivo no homem é apreciar a beleza, e não dizer “meu país”. Mas isso foi cultivado por aqueles que desejam encontrar mercados estrangeiros para os seus produtos. Isto é, se possuo meios de produção, saturei o meu país com os meus produtos e agora desejo expandir os meus negócios, devo ir a outros países. Devo conquistar mercados em outros países. Portanto, devo ter meios de conquista. Então, digo “meu país”, e estimulo essa coisa toda por meio da imprensa, da propaganda, da educação, dos livros de história, e assim por diante; estimulo esse senso de patriotismo, de modo que, num momento de crise, todos partimos para combater outro país. E esse sentimento de patriotismo, os exploradores brincam com ele, até que vocês ficam iludidos a ponto de guerrear com outro país, chamando os seus habitantes de bárbaros e tudo mais.

Isso é óbvio, não invenção minha. Vocês podem averiguá-lo. Isso se torna óbvio quando vocês refletem com uma mente livre de preconceitos, com uma mente que não deseja se identificar com uma coisa ou outra, mas busca descobrir. O que acontece quando você percebe que o patriotismo é realmente um obstáculo a uma vida plena, íntegra, real? Você não precisa batalhar contra ele. Ele se foi, completamente.