Adyar, Índia – 1 de janeiro de 1934.
Pergunta: Quais são as regras e princípios da sua vida? Uma vez que, presumivelmente, estão baseados na sua própria ideia de amor, beleza, verdade, e Deus, qual é essa ideia?
Krishnamurti: Quais são as minhas regras e princípios de vida? Nenhuns. Por favor acompanhem o que eu digo, crítica e inteligentemente. Não objetem, “Não devemos ter regras? Caso contrário a nossa vida seria um caos.” Não pensem em termos de opostos. Pensem intrinsecamente em relação ao que estou a dizer. Porque querem regras e princípios? Porque os querem, vocês que têm tantos princípios pelos quais moldam, controlam, orientam as vossas vidas? Por que querem regras? “Porque”, respondem vocês, “não podemos viver sem elas. Sem regras e princípios faríamos exatamente as coisas que quiséssemos fazer; poderíamos comer de mais ou abusar do sexo, possuir mais do que deveríamos. Temos que ter princípios e regras pelas quais orientar as nossas vidas.” Por outras palavras, para se refrearem sem compreensão, têm que ter estes princípios e regras. Esta é toda a estrutura artificial das vossas vidas – restrição, controlo, refreamento – porque por trás desta estrutura está a ideia de ganho, de segurança, de conforto, que causa medo.
Mas o homem que não está a procura de aquisitividade, o homem que não está aprisionado na promessa de recompensa ou na ameaça do castigo, não necessita de regras: o homem que tenta viver e compreender cada experiência completamente não precisa de princípios e regras, pois só as crenças condicionantes requerem conformidade. Quando o pensamento estiver liberto, incondicional, conhecer-se-á então como eterno. Querem controlar o pensamento, moldá-lo e dirigi-lo, porque estabeleceram uma meta, uma conclusão em direção à qual desejam ir, e essa finalidade é sempre o que desejam que ela seja, embora a possam chamar Deus, perfeição, realidade.
Perguntam-me a respeito da minha ideia de Deus, da verdade, da beleza, do amor. Mas eu digo, se alguém descrever a verdade, se alguém lhes disser a natureza da verdade, tenham cuidado com essa pessoa. Porque a verdade não pode ser descrita; a verdade não pode ser medida em palavras. Acenam as vossas cabeças em assentimento, mas amanhã estarão de novo a tentar medir a verdade, a tentar encontrar uma descrição dela. A vossa atitude com respeito à vida baseia-se no princípio de criar um molde, e depois se enquadrarem nesse molde. O Cristianismo oferece-lhes um molde, o Hinduísmo oferece outro, o Maometanismo, o Budismo, a Teosofia oferecem ainda outros. Mas para que querem um molde? Por que prezam ideias preconcebidas? Tudo o que podem conhecer é a dor, o sofrimento e as alegrias transitórias. Mas querem fugir deles; não tentam compreender a causa da dor, a profundidade do sofrimento. Viram-se antes para o seu oposto para se consolarem. No vosso sofrimento, dizem que Deus é amor, justiça, e moldam-se segundo esse padrão. Mas só podem compreender o amor quando deixarem de ser possessivos; da possessividade surge todo o sofrimento. Contudo o vosso sistema de pensamento e emoção está baseado na possessividade; assim como podem saber do amor?
Portanto a vossa primeira preocupação será a de libertar a mente e o coração da possessividade, e só podem fazer isso quando essa possessividade se tornar um veneno para vocês, quando sentirem o sofrimento, a agonia que esse veneno causa. Agora estão a tentar fugir desse sofrimento. Querem que eu lhes diga qual é o meu ideal de amor, o meu ideal de beleza, para que possam fazer dele um outro padrão, uma outra norma, ou para comparar o meu ideal com o vosso, esperando desse modo compreender. A compreensão não chega através da comparação. Eu não tenho nenhum ideal, nenhum padrão. A beleza não está separada da ação. A verdadeira ação é a própria harmonia de todo o vosso ser. O que é que isso significa para vocês? Nada significa a não ser palavras vazias, porque as vossas ações são desarmoniosas, porque pensam uma coisa e fazem outra.
Somente podem encontrar liberdade duradoura, verdade, beleza, amor, que são uma e a mesma coisa, quando deixarem de a procurar. Por favor tentem compreender o que estou a dizer. O que quero dizer só é subtil no sentido de que pode ser levado a cabo infinitamente. Eu digo que a vossa própria procura está a destruir o vosso amor, a destruir o vosso sentido de beleza, de verdade, porque a vossa procura é apenas uma fuga, uma evasão do conflito. E a beleza, o amor, a verdade, essa divindade da compreensão, não se encontram fugindo do conflito; residem no próprio conflito.