Frognerseteren, Noruega – 10 de setembro de 1933.
Pergunta: Por favor explique o que quer dizer com imortalidade. A imortalidade é tão real para si como o chão que pisamos, ou é apenas uma ideia sublime?
Krishnamurti: O que lhes vou dizer sobre a imortalidade será difícil de compreender, porque para mim a imortalidade não é uma crença: ela existe. Isto é uma coisa muito diferente. Existe a imortalidade – e não que eu saiba ou acredite nela. Espero que vejam a diferença. No momento em que digo “Eu sei”, a imortalidade torna-se uma coisa objetiva, estática. Mas quando não há nenhum “eu”, há imortalidade. Tenham cuidado com a pessoa que diz, “Eu conheço a imortalidade”; porque para ela a imortalidade é uma coisa estática, o que significa que há dualidade: há o “eu”, e há isso que é imortal, duas coisas diferentes. Eu afirmo que a imortalidade existe, e isso é porque não há consciência do “eu”.
Agora por favor não digam que não acredito na imortalidade. Para mim a crença nada tem a ver com ela. A imortalidade não é externa. Mas onde há uma crença numa coisa tem que haver um objeto e um sujeito. Por exemplo, vocês não acreditam na luz do sol: ela existe. Somente um cego, que nunca viu o que é a luz do sol, tem que acreditar nela.
Para mim existe uma vida eterna, uma vida de eterno devir; está sempre a devir, não sempre a crescer, porque aquilo que cresce é transitório. Agora, para compreender a imortalidade que eu digo que existe, a mente tem de estar livre desta ideia de continuidade e não-continuidade. Quando uma pessoa pergunta “A imortalidade existe?” Ela quer saber se ela, como indivíduo, continuará, ou se ela, como indivíduo, será destruída. Isto é, pensa somente em termos de opostos, em termos de dualidade; ou existe ou não existe. Se tentarem compreender a minha resposta do ponto de vista da dualidade, então falharão completamente. Eu afirmo que a imortalidade existe. Mas para compreender essa imortalidade, que é o êxtase da vida, a mente e o coração têm que estar livres de identificação com o conflito do qual surge a consciência do “eu”, e livres também da ideia de aniquilação da consciência do ego.
Deixem-me colocar a questão de uma maneira diferente. Vocês só conhecem opostos – coragem e medo, posse e não-posse, desapego e apego. Toda a vossa vida está dividida em opostos – virtude e não-virtude, certo e errado – porque nunca enfrentam a vida completamente mas sempre com esta reação, com este pano de fundo da divisão. Criaram este pano de fundo; estropiaram a vossa mente com estas ideias, e depois perguntam: “A imortalidade existe?” Eu afirmo que existe, mas para o compreenderem, a mente tem que estar livre desta divisão. Isto é, se tiverem medo, não procurem coragem, mas deixem que a mente se liberte do medo; vejam a inutilidade daquilo a que chamam coragem; compreendam que é apenas uma fuga do medo, e que o medo existirá enquanto houver a ideia de ganho e de perda. Em vez de tentarem alcançar o oposto, em vez de lutarem para desenvolver a qualidade oposta, deixem que a mente e o coração se libertem daquilo em que estão aprisionados. Não tentem desenvolver o seu oposto. Então saberão por si mesmos, sem que ninguém vo-lo diga ou vos conduza, o que é a imortalidade; a imortalidade que não é nem o “eu” nem o “tu”, mas que é a vida.