Frognerseteren, Noruega – 9 de setembro de 1933.

Pergunta: Disse que a memória representa uma experiência que não foi compreendida. Isso significa que as nossas experiências não têm qualquer utilidade para nós? E porque é que uma experiência totalmente compreendida não deixa memória?

Krishnamurti: Receio bem que a maioria das experiências que se têm não tenham qualquer utilidade. Vocês repetem a mesma coisa vezes sem conta, ao passo que para mim uma experiência realmente compreendida liberta a mente de toda a procura de experiências. Vocês confrontam um incidente, do qual esperam aprender, do qual esperam lucrar, e multiplicam experiências, uma após a outra. Com essa ideia de sensação, de aprendizagem, de lucro, enfrentam várias experiências; enfrentam-nas com uma mente preconceituosa. Estão assim a usar as experiências que os confrontam apenas como um meio de obter outra coisa – ficar ricos emocional ou mentalmente, desfrutar. Pensam que estas experiências não têm valor inerente; contam com elas somente para obter outra coisa através delas.

Onde há carência tem que haver memória, que cria o tempo. E a maioria das mentes, estando apanhadas pelo tempo, enfrentam a vida com essa limitação. Isto é, delimitadas por essa limitação tentam compreender algo que não tem limite. Por isso existe o conflito. Por outras palavras, as experiências das quais tentamos aprender nascem da reação. Não existe tal coisa como aprender da experiência ou através da experiência.

O interlocutor quer saber porque é que uma experiência totalmente compreendida não deixa memória. Nós estamos sós, vazios; sendo conscientes desse vazio, dessa solidão, voltamo-nos para a experiência para o preencher. Dizemos, “Aprenderei desta experiência; deixa-me encher a mente com experiência que destrói a solidão.” A experiência realmente destrói a solidão, mas torna-nos muito superficiais. Isso é o que sempre estamos a fazer; mas se compreendermos que esta mesma carência cria a solidão, então a solidão desaparecerá.