Frognerseteren, Noruega – 8 de setembro de 1933.

Pergunta: No outro dia falou da memória como um impedimento à verdadeira compreensão. Tive recentemente a infelicidade de perder o meu irmão. Deveria tentar esquecer essa perda?

Krishnamurti: Expliquei no outro dia o que quero dizer com memória. Tentarei explicar novamente.

Após terem visto um lindo pôr do sol, voltam para vossa casa ou para o escritório e começam a reviver novamente esse pôr do sol, uma vez que a vossa casa ou escritório não é como vocês quereriam que fosse, não é bonita; portanto para fugir dessa fealdade regressam, na memória, a esse pôr do sol. Criam assim na vossa mente uma distinção entre a vossa casa, que não lhes dá satisfação, e aquilo que lhes dá grande prazer, o pôr do sol. Portanto, quando são confrontados com circunstâncias que são desagradáveis, voltam-se para a memória daquilo que é alegre. Mas se, em vez de se voltarem para uma memória morta, tentassem alterar as circunstâncias que são desagradáveis, então estariam a viver intensamente no presente e não no passado morto. Portanto quando se perde alguém que se ama muito, porque há este constante olhar para trás, este constante se agarrar àquilo que nos deu prazer, este anseio de voltar a ter essa pessoa? Toda a gente passa por isto quando experimenta tal perda. Foge do sofrimento dessa perda voltando-se para a lembrança da pessoa que morreu, vivendo num futuro, ou na crença na outra vida – que é também uma espécie de memória. É porque as nossas mentes estão pervertidas através da fuga, porque são incapazes de enfrentar o sofrimento abertamente, de uma maneira fresca, que temos que nos reverter à memória, e assim o passado invade o presente.

Portanto a questão não é se devem ou não lembrar o vosso irmão ou o vosso marido, a vossa mulher ou os vossos filhos; é, antes, uma questão de viver completamente, integralmente, no presente, embora isso não implique que sejam indiferentes aos que os rodeiam. Quando vivem completamente, integralmente, há nessa intensidade, a chama de viver, que não é a mera impressão de um incidente.

Como havemos de viver completamente no presente, para que a mente não seja pervertida com as memórias passadas e os anseios futuros – que são também memória? Uma vez mais, a questão não é como deveriam viver completamente, mas o que os impede de o fazer. Porque quando perguntam como, estão à procura de um método, um meio, e para mim, um método destrói a compreensão. Se souberem o que os impede de viver completamente, então devido a vocês, devido a vossa própria consciência e compreensão, libertar-se-ão desse impedimento. O que os impede de se libertarem é a vossa busca de certezas, o vosso anseio contínuo de obtenção, de acumulação, de consecução. Mas não perguntem, “Como hei de vencer estes impedimentos?” Porque toda a conquista é um processo de mais obtenção, mais acumulação. Se esta perda está realmente a criar sofrimento em si, se realmente lhe está a proporcionar sofrimento intenso – não superficial – então não perguntará como; então verá imediatamente a inutilidade de olhar para trás ou para a frente para obter consolo.

Quando a maioria das pessoas dizem que sofrem, o seu sofrimento é apenas superficial. Sofrem, mas, ao mesmo tempo, querem outras coisas: querem conforto, têm medo, procuram caminhos e maneiras de fuga. O sofrimento superficial é sempre acompanhado pelo desejo de conforto. O sofrimento superficial é como a lavra pouco profunda do solo; não chega a nada. Somente quando lavram o solo profundamente, até a profundidade máxima dos ferros do arado, é que há riqueza. No estado de completo sofrimento há compreensão completa, na qual os obstáculos como as memórias tanto do presente como do futuro deixam de existir.

Sabem, compreender um pensamento ou uma ideia não significa simplesmente concordar com eles intelectualmente.

Existem vários tipos de memória: há a memória que se impõe à força no presente, a memória à qual se voltam ativamente, e a memória de esperar antecipadamente pelo futuro. Todas elas os impedem de viver completamente. Mas não comecem a analisar as vossas memórias. Não perguntem, “Que memória impede o meu viver completo?” Quando questionam dessa forma, não agem; simplesmente examinam a memória intelectualmente, e um exame assim não tem valor porque lida com uma coisa morta. Não há compreensão a partir de uma coisa morta. Mas se estiverem verdadeiramente conscientes no presente, no momento da ação, então todas estas memórias entram em atividade. Então não precisam de passar pelo processo de as analisar.