Frognerseteren, Noruega – 6 de setembro, 1933.

Pergunta: Fala muitas vezes da necessidade de compreendermos as nossas experiências. Poderia por favor explicar o que quer dizer com compreender uma experiência da maneira correta?

Krishnamurti: Para compreender plenamente uma experiência têm que chegar a ela cheios de vigor cada vez que ela vos confronta. Para compreender a experiência têm que ter uma clareza de mente e coração aberta e simples. Mas nós não abordamos as experiências da vida com essa atitude. A memória impede-nos de abordar a experiência abertamente, nuamente. Não é assim? A memória impede-nos de enfrentar a experiência integralmente, e por isso nos impede de compreender a experiência completamente. Ora o que é que origina a memória? Para mim, a memória é apenas o sinal de compreensão incompleta. Quando enfrentam integralmente uma experiência, quando vivem plenamente, essa experiência ou incidente não deixa uma cicatriz da memória. A memória só existe quando vivem parcialmente, quando não enfrentam a experiência integralmente; só há memória na incompletude. Não é assim? Tomemos, por exemplo, o facto de serem coerentes com um princípio. Porque é que são coerentes? São coerentes porque não podem enfrentar a vida abertamente, livremente; por isso dizem, “Tenho que ter um princípio que me oriente.” Daí a luta constante para serem coerentes, e com essa memória como pano de fundo enfrentam cada incidente da vida. Há assim incompletude na vossa compreensão porque abordam a experiência com uma mente que já está sobrecarregada. Somente quando enfrentarem todas as coisas, todas as coisas sejam elas quais forem, com uma mente aliviada, somente então terão verdadeira compreensão.

“Mas”, dizem vocês, “que devo fazer com todas as memórias que tenho?” Não podem descartá-las. Mas o que podem fazer é enfrentar a vossa próxima experiência integralmente; verão então essas memórias passadas entrar em ação, e então é o momento de as enfrentar e de as dissipar.

Portanto o que confere compreensão correta não é o resíduo de muitas experiências. Não podem enfrentar integralmente novas experiências quando o resto das experiências passadas está a sobrecarregar a vossa mente. Contudo é assim que constantemente as enfrentam. Isto é, a vossa mente aprendeu a ser cuidadosa, a ser engenhosa, a agir como um sinal, a dar um aviso; por isso, não podem enfrentar plenamente qualquer incidente. Para libertar a vossa da memória, para a libertar do fardo da experiência, têm que enfrentar a vida plenamente; nessa ação as vossas memórias passadas entram em atividade, e na chama da consciência são dissolvidas. Tentem-no e verão.

Ao ir embora daqui encontrarão amigos; verão o pôr do sol, as sombras alongadas. Estejam plenamente conscientes nestas experiências, e descobrirão que toda a espécie de memórias se agitará a vossa frente; na vossa perspicaz consciência compreenderão a falsidade e a força destas memórias, e serão capazes de as dissolver; enfrentarão então com plena consciência cada experiência da vida.