Frognerseteren, Noruega – 6 de setembro, 1933.

Pergunta: Quer dizer que mais cedo ou mais tarde todos os seres humanos, inevitavelmente, no decurso da existência, alcançarão a perfeição, a libertação completa de tudo o que os domina? Se assim é, porquê fazer qualquer esforço agora?

Krishnamurti: Sabem, eu não estou a falar da multidão. Para mim não existe esta divisão do indivíduo e da multidão. Estou a falar-lhes como indivíduos. Afinal, a multidão são vocês multiplicados. Se compreenderem, darão compreensão. A compreensão é como a luz que dissipa a escuridão. Mas se não compreenderem, se aplicarem o que estou a dizer apenas ao outro, ao homem exterior a vocês, então estarão apenas a aumentar a escuridão.

Portanto querem saber se vocês – não este homem imaginário da multidão – se vocês inevitavelmente alcançarão a perfeição. Se assim for, pensam vocês, porquê fazer qualquer esforço no presente? Concordo plenamente. Se pensam que inevitavelmente alcançarão o êxtase de viver, porquê incomodarem-se? Mas, porque estão aprisionados no conflito, estão a fazer um esforço.

Porei as coisas de outro modo: é como dizer a um homem faminto que ele inevitavelmente encontrará alguns meios para satisfazer a sua fome. Como é que isso o ajuda hoje se lhe dizem que ele será alimentado daqui a dez dias? Por essa altura poderá estar morto. Portanto a questão não é, “Existe perfeição inevitavelmente para mim como indivíduo?” Mas, é antes, “Porque é que faço este esforço interminável?”

Para mim, um homem que procura a virtude deixa de ser virtuoso. Contudo isso é o que fazemos durante todo o tempo. Estamos a tentar ser perfeitos; estamos comprometidos com o esforço incessante de ser algo. Mas se fizermos um esforço porque estamos realmente a sofrer e porque nos queremos libertar desse sofrimento, então a nossa principal preocupação não é a perfeição – não sabemos o que é a perfeição. Só a podemos imaginar ou ler sobre ela nos livros. Por isso, tem que ser ilusória. A nossa principal preocupação não é com a perfeição, mas com a questão, “O que é que cria este conflito que exige esforço?”