Oslo, Noruega - 5 de setembro, 1933.

Pergunta: O senhor diz que a verdade é simples. Para nós, o que diz nos parece muito abstrato. Qual é a relação prática, segundo o senhor, entre a verdade e a vida real?

Krishnamurti: A que é que chamam vida real? Ganhar dinheiro, explorar os outros e sermos explorados, casamento, filhos, procurar amigos, experimentar ciúmes, desavenças, medo da morte, a interrogação sobre a outra vida, guardar dinheiro para a velhice – a tudo isto chamamos vida diária. Ora para mim, a verdade e o devir eterno da vida não podem ser encontrados à parte destas coisas. No transitório reside o eterno – não em separado do transitório. Por favor, porque exploramos, seja nas coisas físicas ou nas coisas espirituais? Porque somos explorados pelas religiões que instituímos? Porque somos explorados por sacerdotes a quem recorremos para obter conforto? Porque pensamos na vida como uma série de consecuções, não como uma ação completa. Quando olhamos para a vida como um meio de aquisição, seja de coisas ou de ideias, quando olhamos para a vida como uma escola para aprender, para crescer, então estamos dependentes dessa autoconsciência, dessa limitação: criamos o explorador, e tornamo-nos no explorado. Mas se nos tornarmos absolutamente individuais, completamente autossuficientes, sós na nossa compreensão, então não distinguimos entre a vida real e a verdade, ou Deus. Sabem, porque achamos a vida difícil, porque não compreendemos todas as complicações da ação diária, porque queremos fugir dessa confusão, voltamo-nos para a ideia de um princípio objetivo; e portanto diferenciamos, distinguimos a verdade como sendo impraticável, como nada tendo a ver com a vida diária. Assim a verdade, ou deus, torna-se um escape para o qual nos voltamos em dias de conflito e aflição. Mas se, na nossa vida diária, descobríssemos porque agimos, se enfrentássemos integralmente os incidentes, as experiências, os sofrimentos da vida, então não distinguiríamos a vida prática da verdade impraticável. Porque não enfrentamos as experiências com todo o nosso ser, mentalmente e emocionalmente, porque não somos capazes de fazer isso, separamos a vida diária e a ação prática da ideia da verdade.