Oslo, Noruega – 5 de setembro, 1933.
Pergunta: O senhor diz que os seus ensinamentos são para todos, não para uma qualquer minoria seleta. Se assim é, porque é que achamos difícil compreendê-lo?
Krishnamurti: Não se trata de me compreenderem. Porque haveriam de me compreender? A verdade não é minha, isso sim deveriam compreender. Acham as minhas palavras difíceis de compreender porque as vossas mentes estão sufocadas com ideias. O que eu digo é muito simples. Não é para a minoria seleta; é para todos os que estiverem dispostos a tentar. Eu afirmo que se se libertassem das ideias, das crenças, de todas as seguranças que as pessoas edificaram através dos séculos, então compreenderiam a vida. Podem libertar-se apenas pelo questionamento, e só podem questionar-se quando estão revoltados – não quando estão estagnados com ideias satisfatórias. Quando as vossas mentes estão sufocadas com crenças, quando estão pesadas com o conhecimento adquirido dos livros, então é impossível compreender a vida. Portanto não é uma questão de me compreenderem.
Por favor – e não estou a dizer isto com qualquer preconceito – eu encontrei uma maneira; não um método que possam praticar, um sistema que se torna numa jaula, numa prisão. Eu compreendi a verdade, Deus, ou seja lá o nome que gostam de lhe dar. Eu afirmo que existe essa realidade de vida eterna, mas não pode ser compreendida enquanto a mente e o coração estiverem sobrecarregados, estropiados pela ideia do “eu”. Enquanto essa autoconsciência, essa limitação, existir, não pode haver qualquer compreensão do todo, da totalidade da vida. Esse “eu” existe enquanto houverem falsos valores – falsos valores que herdamos ou que perseverantemente criamos na nossa busca de segurança, ou que estabelecemos como a nossa autoridade na busca de conforto. Mas os valores corretos, os valores vivos – estes só os podem descobrir quando realmente sofrem, quando estão muito descontentes. Se estiverem dispostos a tornarem-se livres da persecução de ganhos, então encontrá-los-ão. Mas a maioria de nós não quer ser livre; queremos conservar o que ganhamos, quer em virtude quer em conhecimento quer em posses; queremos conservá-los a todos. Assim sobrecarregados tentamos enfrentar a vida, e daí a absoluta impossibilidade de a compreender completamente.
Portanto a dificuldade reside não em compreender-me, mas em compreender a própria vida; e essa dificuldade existirá enquanto as vossas mentes estiverem sobrecarregadas com esta consciência a que chamamos “eu”. Não posso dar-lhes valores corretos, se eu vo-los dissesse, fariam disso um sistema e imitá-lo-iam, estabelecendo desse modo apenas uma outra série de falsos valores. Mas podem descobrir por si próprios os valores corretos, quando se tornarem verdadeiramente indivíduos, quando cessarem de ser uma máquina. E só se podem libertar desta máquina mortífera dos falsos valores quando estiverem muito revoltados.