Stresa, Itália – 2ª palestra 8 de julho, 1933.

Pergunta: Nunca nos deu uma concepção clara do mistério da morte e da vida após a morte, contudo fala constantemente de imortalidade. Sem dúvida que acredita na vida após a morte?

Krishnamurti: Querem saber categoricamente se existe ou não aniquilação após a morte: essa á uma abordagem errada ao problema. Espero que acompanhem o que digo, visto que de outra maneira a minha resposta não será clara para vocês e pensarão que não respondi à pergunta. Por favor interrompam-me se não compreenderem.

Que querem dizer quando falam da morte? A vossa dor pela morte de alguém, e o medo da vossa própria morte. A dor é despertada pela morte de alguém. Quando o vosso amigo morre, vocês tornam-se conscientes da solidão porque confiavam nele, porque vocês e ele se complementaram, porque se compreenderam, apoiaram e encorajaram. Portanto quando o vosso amigo morre, vocês têm consciência do vazio; querem aquela pessoa de volta para preencher a parte da vossa vida que antes preenchia.

Querem o vosso amigo novamente, mas uma vez que não o podem ter, voltam-se para várias ideias intelectuais, para vários conceitos emocionais, que pensam lhes darão satisfação. Vocês contam com essas ideias para consolo, para conforto, em vez de descobrir a causa do vosso sofrimento e de se libertarem eternamente da ideia da morte. Voltam-se para uma série de consolações e satisfações que gradualmente diminuem o vosso intenso sofrimento; contudo, quando a morte volta, voltam a experimentar o mesmo sofrimento outra vez.

A morte vem e causa-lhes dor intensa. Aquele que muito amaram morreu, e a sua ausência acentua a vossa solidão. Mas em vez de procurarem a causa dessa solidão, tentam escapar-lhe através de satisfações mentais e emocionais. Qual é a causa dessa solidão? Confiança em outro, a incompletude da vossa própria vida, a tentativa contínua de evitar a vida. Vocês não querem descobrir o valor real dos factos; em vez disso, atribuem um valor àquilo que não é senão um conceito intelectual. Assim, a perda de um amigo causa-lhes sofrimento porque essa perda os torna totalmente conscientes da vossa solidão. Depois há o medo da vossa própria morte. Quero saber se viverei depois da minha morte, se reencarnarei, se existe uma continuação para mim de alguma forma. Preocupam-me estas esperanças e estes medos porque não conheci nenhum momento de riqueza durante a minha vida; não conheci um único dia sem conflito, um único dia em que me sentisse completo, como uma flor. Por isso tenho este desejo intenso de realização, um desejo que envolve a ideia de tempo.

Que querem dizer quando falamos sobre o “eu”? Vocês só tomam consciência do ”eu” quando são apanhados no conflito da escolha, no conflito da dualidade. Neste conflito tomam consciência de si próprios e identificam-se com um ou com outro, e desta contínua identificação resulta a ideia do “eu”. Por favor considerem isto com o vosso coração e a vossa mente, visto que não é uma ideia filosófica que possa ser simplesmente aceite ou rejeitada.

Eu digo que através do conflito da escolha, a mente estabeleceu uma memória, muitas camadas de memória; identificou-se com estas camadas, e chama-se a si própria o “eu”, o ego. E daí surge a questão, “Que acontecerá comigo quando eu morrer? Terei uma oportunidade de viver outra vez? Existirá uma plenitude futura?” Para mim, estas questões nascem da ânsia e da confusão. O que é importante é libertar a mente deste conflito da escolha, já que somente quando assim se tiverem libertado poderá existir imortalidade.

Para a maioria das pessoas a ideia da imortalidade é a continuação do “eu”, sem fim, através do tempo. Mas eu digo que tal conceito é falso. “Então,” respondem vocês, “deve haver aniquilação total.” Eu digo que isto também não é verdade. A vossa crença de que a aniquilação total deve seguir-se à cessação da consciência limitada a que chamamos “eu”, é falsa. Vocês não podem entender a imortalidade dessa forma, visto que a vossa mente está aprisionada em opostos. A imortalidade está liberta de todos os opostos; é ação harmoniosa na qual a mente está absolutamente liberta do conflito do “eu”.

Eu digo que há imortalidade, imortalidade essa que transcende todas as nossas concepções, teorias e crenças. Somente quando têm a compreensão total dos opostos, ficarão livres deles. Enquanto a mente criar conflito através da escolha, deve existir consciência como memória que é o “eu”, e é o “eu” que teme a morte e anseia pela sua continuação. Por isso não existe a capacidade para compreender a plenitude de ação no presente, que é a imortalidade.

Um certo brâmane, de acordo com uma antiga lenda Indiana, decidiu distribuir algumas das suas posses no desempenho de um sacrifício religioso. Ora este brâmane tinha um filho pequeno que observava o seu pai e o assediava com imensas perguntas até que o pai ficou aborrecido. Finalmente o filho perguntou, “A quem me vais dar?” E o pai respondeu-lhe com irritação, “Dar-te-ei à Morte.” Ora considerava-se antigamente que aquilo que fosse dito teria que ser feito; portanto o brâmane teve que enviar o seu filho à Morte, de acordo com as palavras que irrefletidamente tinha proferido. À medida que o rapaz se dirigia para a casa da Morte, ouvia o que muitos professores tinham a dizer sobre a morte e sobre a vida após a morte. Quando chegou à casa da Morte, notou que a Morte estava ausente; portanto esperou três dias sem comer, de acordo com um antigo costume que proibia comer na ausência do anfitrião. Quando finalmente a Morte chegou, pediu humildemente desculpa por ter feito o brâmane esperar, e em sinal de pesar concedeu ao rapaz três desejos que ele pudesse querer.

No seu primeiro desejo o rapaz pediu que fosse devolvido ao pai; no Segundo, pediu que fosse instruído em certos ritos cerimoniais. Mas o terceiro desejo do rapaz não foi um pedido mas uma questão: “Diz-me, Morte”, perguntou ele, “a verdade sobre a aniquilação. Dos professores que ouvi no meu caminho para cá, alguns dizem que há aniquilação; outros dizem que existe continuidade. Diz-me, ó Morte, qual é a verdade.” “Não me faças essa pergunta”, replicou a Morte. Mas o rapaz insistiu. Assim, em resposta àquela pergunta a Morte ensinou ao rapaz o significado da imortalidade. A morte não lhe disse se há ou não continuidade, se há vida depois da morte, ou se há aniquilação; a Morte ensinou-lhe sim o significado da imortalidade.

Vocês querem saber se existe ou não continuidade. Alguns cientistas estão agora a provar que existe. As religiões afirmam-no, muitas pessoas acreditam-no, e vocês podem acreditar se assim o escolherem. Mas para mim, isso é de pouca importância. Sempre existirá conflito entre a vida e a morte. Somente quando conhecerem a imortalidade é que não haverá nem princípio nem fim; somente então é que a ação implica plenitude, e somente então há infinito. Por isso digo novamente, a ideia da reencarnação é de pouca importância. No “eu” nada há que dure; o “eu” é composto de uma série de memórias que envolvem conflito. Não podem tornar o “eu” imortal. Toda a vossa base de pensamento é uma série de realizações e por isso um contínuo esforço, uma contínua limitação da consciência. Contudo esperam dessa forma compreender a imortalidade, sentir o êxtase do infinito. Eu afirmo que a imortalidade é realidade. Vocês não podem discuti-lo; poderão sabê-lo na vossa ação, ação nascida da plenitude, da riqueza da sabedoria; mas essa plenitude, essa riqueza, não a podem alcançar ouvindo um guia espiritual ou lendo um livro de instrução. A sabedoria vem somente quando há plenitude de ação, quando há consciência completa do vosso todo em ação; então verão que todos os professores e todos os livros que pretendem guiá-los para a sabedoria nada lhes podem ensinar. Poderão conhecer o que é imortal, eterno, somente quando a vossa mente estiver livre de qualquer sentido de individualidade que é criado pela consciência limitada, que é o “eu”.