Stresa, Itália – 2ª palestra 8 de julho, 1933.
Pergunta: Foi dito que é a manifestação de Cristo nos nossos tempos. Que tem a dizer sobre isto? Se é verdade, porque não fala de amor e compaixão?
Krishnamurti: Meus amigos, por que fazem tal pergunta? Porque perguntam se sou a manifestação de Cristo? Perguntam porque querem que lhes assegure que sou ou não o Cristo, para que possam julgar o que digo de acordo com o padrão que têm. Há duas razões pelas quais fazem essa pergunta: pensam que sabem o que é o Cristo, e por isso dizem, “Agirei de acordo”; ou, se eu disser que sou o Cristo, então pensam que o que digo deve ser verdade. Não estou a fugir à questão, mas não lhes vou dizer quem sou. Isso é de muito pouca importância, e, além disso, como podem saber o que ou quem sou mesmo que eu lhes diga? Tal especulação carece de importância. Portanto não nos preocupemos sobre quem sou, mas olhemos para a razão da vossa pergunta.
Querem saber quem eu sou porque estão indecisos sobre vocês próprios. Não estou a dizer se sou ou não o Cristo. Não lhes estou a dar uma resposta categórica, porque para mim a pergunta não é importante. O que é importante é se o que eu estou a dizer é verdade, e isto não depende do que eu sou. É algo que só poderão descobrir ao libertarem-se de preconceitos e padrões. Não podem obter verdadeira liberdade de preconceitos olhando para uma autoridade, trabalhando para um fim, no entanto é isso que estão a fazer; sub-repticiamente, perseverantemente, estão a procurar uma autoridade, e nessa busca não estão senão a transformar-se em máquinas imitativas.
Perguntam porque não falo de amor, de compaixão. Fala a flor do seu perfume? Ela simplesmente é. Já falei do amor; mas para mim o importante não é discutir o que é o amor ou a compaixão, mas libertar a mente de todas as limitações a que chamamos egotismo, autoconsciência; então saberão sem perguntar, sem discussão. Questionam-me agora porque pensam que depois podem agir em conformidade com o que descobrem de mim, que terão uma autoridade para a vossa ação.
Portanto digo novamente, a verdadeira questão não é porque não falo sobre o amor e a compaixão, mas antes, o que impede a vida natural e harmoniosa do homem, a plenitude de ação que é amor. Falei sobre as muitas barreiras que impedem a nossa vida natural, e expliquei que tal vida não significa ação instintiva e caótica, mas sim vida rica e plena. A vida rica e natural tem sido impedida através de séculos de conformidade, através de séculos do que chamamos educação, que não tem sido mais que um processo de produção de tantas máquinas humanas. Mas quando compreendem a causa destes impedimentos e barreiras que criaram para vocês mesmos através do medo na vossa procura de segurança, então tornam-se livres deles; então há amor. Mas esta é uma compreensão que não pode ser discutida. Não discutimos sobre a luz do sol. Está aí; sentimos o seu calor e apercebemo-nos da sua beleza penetrante. Somente quando o sol se esconde é que discutimos sobre a sua luz. Da mesma forma acontece com o amor e a compaixão.