2ª palestra

Frognerseteren, Noruega 

Amigos, hoje quero explicar que existe uma maneira de viver naturalmente, espontaneamente, sem o atrito constante da autodisciplina, sem a batalha constante do ajustamento. Mas para compreenderem o que vou dizer, por favor considerem-no não só intelectualmente, mas também emocionalmente. Vocês devem sentir; porque só poderão realizar a plenitude da vida quando suas emoções e seus pensamentos estiverem agindo harmoniosamente. Quando vocês vivem completamente, em harmonia de mente e coração, então sua ação é natural, espontânea, sem esforço.

A maioria das mentes está procurando segurança. Queremos ter certeza. Estabelecemos como autoridade aqueles que nos oferecem essa segurança, e os veneramos como nossa autoridade porque nós próprios estamos à procura de uma certeza à qual a mente possa se agarrar, na qual a mente possa se sentir segura, protegida.

Se vocês considerarem o assunto, vocês descobrirão que a maioria de vocês vem me ouvir porque estão buscando a certeza – a certeza do conhecimento, a certeza de uma finalidade, a certeza da verdade, a certeza de uma ideia – para que possam agir de acordo com essa certeza, escolher através dessa certeza. As suas mentes e corações desejam agir com base nessa certeza. A sua escolha e as suas ações não despertam o verdadeiro discernimento ou a verdadeira percepção, porque vocês estão constantemente ocupados na coleta de conhecimento, na acumulação de experiências, na procura por variados tipos de ganho, na busca por autoridades que lhes deem segurança e conforto, na luta para o desenvolvimento do carácter. Através de todas essas tentativas de acumulação, vocês esperam ter a garantia da certeza, certeza essa que tire todas as dúvidas e ansiedades, certeza essa que lhes dá – pelo menos vocês esperam que lhes dê – certeza na escolha. Com o pensamento da certeza, vocês escolhem na esperança de obter mais compreensão. Assim, na busca por certeza, nasce o medo da obtenção e o medo da perda.

Assim, vocês transformam a vida numa escola onde vocês aprendem a ter a certeza. Não é isso que é sua vida? Uma escola onde vocês aprendem, não a viver, mas como ter certeza. Para vocês, a vida é um processo de acumulação, não uma questão de viver. Agora, eu diferencio entre viver e acumular. Um homem que está realmente vivendo não tem senso de acumulação. Mas o homem que está à procura de certeza e segurança, que está à procura de um refúgio a partir do qual possa agir – o refúgio do carácter, da virtude – esse homem pensa na vida como acumulação e, portanto, a vida para ele torna-se um processo de aprendizado, de obtenção, de luta.

Onde existe a ideia de acumulação e de obtenção, tem que existir um sentido de tempo e, portanto, de incompletude na ação. Se estamos constantemente buscando um ganho futuro, um futuro no qual tiraremos vantagem, desenvolvimento, maior força para aquisição, então nossa ação no presente deve ser incompleta. Se nossas mentes e corações estão continuamente buscando ganho, conquista, sucesso, então nossa ação, seja ela qual for, não tem verdadeiro significado; nossos olhos estão fixos no futuro, nossas mentes estão preocupadas somente com o futuro. Por isso, toda ação no presente cria incompletude.

Dessa incompletude surge o conflito, que esperamos vencer através da autodisciplina. Fazemos uma distinção em nossas mentes entre as coisas que desejamos obter, o que chamamos de “essenciais”, e as coisas que não desejamos adquirir, que chamamos de “não essenciais”. Há, assim, uma batalha constante, uma luta constante; conflito e sofrimento resultam dessa distinção.

Vou explicar esse ponto de outra maneira, porque a menos que vocês vejam e realmente compreendam, vocês não compreenderão totalmente o que terei a dizer mais tarde.

Transformamos a vida numa escola de aprendizado contínuo. Mas para mim a vida não é uma escola, não é um processo de acumulação. A vida é para ser vivida naturalmente, integralmente, sem esta batalha constante de conflitos, sem essa distinção entre o essencial e o não essencial. Dessa ideia da vida como uma escola, surge o desejo constante por conquista, sucesso e, portanto, a procura por uma finalidade, o desejo de encontrar a verdade última, Deus, a perfeição final que nos dará – pelo menos, esperamos que ela nos dê – certezas e, por isso, nossas tentativas de ajuste contínuo a certas condições sociais, a exigências éticas e morais, ao desenvolvimento do carácter e ao cultivo de virtudes. Esses padrões e exigências, se vocês realmente pensarem sobre eles, são apenas refúgios a partir dos quais agimos, refúgios desenvolvidos através da resistência.

Essa é a vida que a maioria das pessoas está vivendo – uma vida de constante procura por ganho, por acumulação e, por isso, uma vida de incompletude na ação. A ideia de ganho, que divide a ação em passado, presente e futuro, está sempre em nossas mentes; por isso, nunca há compreensão completa da própria ação. A mente está continuamente pensando no ganho e, portanto, não encontra significado na ação com a qual se ocupa.

Portanto, esse é o estado em que vocês estão vivendo. Agora, para mim, esse estado é completamente falso. A vida não é um processo de acumulação, uma escola na qual vocês devem aprender, na qual vocês têm que se disciplinar, na qual há constante resistência e luta. Onde houver essa arrecadação constante, esse desejo de acumulação, tem que existir incompletude que cria carência; se vocês não quiserem, não acumulam. E onde há carência não há discernimento, mesmo que vocês possam passar pelo processo de escolha.

Agora, vocês me dizem: “Como vou me livrar dessa carência? Como vou libertar minha mente desse processo de acumulação? Como vou vencer esses obstáculos? O senhor diz que a vida não é uma escola para aprendermos, mas como vou viver naturalmente? Diga-me em que caminho devo andar, o método que devo praticar todos os dias para viver plenamente.”

Para mim, não é essa a maneira de olhar para o problema. A questão não é como vocês vão viver plenamente, mas antes, o que os impele a essa constante acumulação; a questão não é como vocês vão se livrar da ideia de arrecadação, de acumulação, mas antes, o que cria em vocês esse desejo de acumular. Espero que notem a distinção.

Agora, vocês olham para o problema do ponto de vista de se livrarem de algo, de adquirir a não-aquisição, que é essencialmente a mesma coisa que desejar adquirir algo, uma vez que todos os opostos são iguais. Portanto, o que os impede de viver naturalmente, harmoniosamente? Eu digo que é esse processo de acumulação, essa busca por certezas.

Então, vocês querem saber como se libertar da procura por certeza. Eu digo, não abordem o problema dessa maneira. A futilidade do ganho terá um significado para vocês apenas quando estiverem realmente em conflito, somente quando estiverem totalmente conscientes da desarmonia de suas ações. Se vocês não estão presos em conflitos, então continuem do seu jeito atual; se vocês estiverem absolutamente inconscientes da luta e do sofrimento, se vocês estiverem inconscientes da sua própria desarmonia, então continuem vivendo como estão. Então não tentem ser espirituais, porque vocês não sabem o que isso significa. O êxtase da compreensão vem somente quando há grande descontentamento, quando todos os falsos valores a sua volta são destruídos. Se vocês não estão descontentes, se não estão conscientes da grande desarmonia em vocês e ao seu redor, então o que eu lhes digo sobre a futilidade da acumulação pode não ter significado para vocês.

Mas se existir essa divina revolta em vocês, então vocês compreenderão quando eu disser que a vida não é uma escola em que se aprende; que a vida não é um processo de constante acumulação, um processo em que há uma carência contínua que é ofuscante. Então, essa mesma revolta na qual vocês estão presos, esse mesmo sofrimento lhes dá compreensão, porque desperta em vocês a chama da consciência. E quando vocês estiverem completamente conscientes de que a carência é cegante, então vocês verão seu total significado, que dissipa a carência. Então, vocês estarão livres da carência, da acumulação. Mas se vocês estão inconscientes de tal luta, de tal revolta, vocês podem apenas continuar com a sua vida como está, em um estado semidesperto. Quando as pessoas sofrem, quando estão presas em conflito, esse mesmo sofrimento e conflito deveria mantê-las intensamente conscientes; mas a maioria delas apenas pergunta como se livrar da carência. Quando vocês compreenderem o significado total de não desejar ganhar, acumular, então não haverá luta para se livrarem de algo.

Em outras palavras, por que vocês passam pelo processo de autodisciplina? Vocês fazem isso por causa do medo. Por que vocês têm medo? Porque vocês querem a garantia, a certeza que um padrão social, uma crença religiosa ou a ideia de adquirir virtudes lhes dá. Portanto, vocês começam a se disciplinar. Isto é, quando a mente é escravizada pela ideia de ganho ou conformidade, há autodisciplina. O fato de vocês estarem despertos para o sofrimento é apenas a indicação de que sua mente está tentando se libertar de todos os padrões, mas quando vocês sofrem, vocês imediatamente tentam aquietar esse sofrimento drogando a mente com o que vocês chamam de conforto, segurança, certeza. Então, vocês continuam esse processo de procura por certeza, que é apenas um opiáceo. Mas, se vocês compreenderem a ilusão da certeza – é vocês só a podem compreender na intensidade do conflito, a partir do qual toda investigação pode realmente começar – então a carência, que cria a certeza, desaparece.

Portanto, a questão não é como se livrar da carência, é antes isto: vocês estão completamente conscientes quando há sofrimento? Vocês estão completamente conscientes do conflito, da vida desarmônica à sua volta e dentro de vocês? Se estiverem, então nessa chama da consciência há verdadeira percepção, sem essa batalha constante de ajuste, de autodisciplina. No entanto, ver a falsidade da autodisciplina não significa que possamos satisfazer todos os nossos desejos em ações precipitadas e impetuosas. Pelo contrário, então a ação nasce da completude.

Interrogante: Pode haver felicidade quando não há mais consciência do “eu”? Somos capazes de sentir alguma coisa se a consciência do “eu” se extinguir?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, o que se quer dizer com a consciência do “eu”? Quando vocês estão cientes desse “eu”? Quando vocês estão conscientes de si próprios? Vocês estão conscientes de si próprios como “eu”, como uma entidade, quando estão em sofrimento, quando experimentam confusão, conflito, luta.

Vocês dizem: “Se esse ‘eu’ não existe, o que existe?” Eu digo que vocês só descobrirão quando sua mente estiver livre desse “eu”, portanto não perguntem agora. Quando o seu coração e a sua mente estiverem em harmonia, quando não estiverem mais presos em conflito, então saberão. Então, vocês não perguntarão o que é que sente, o que é que pensa. Enquanto essa consciência do “eu” existir, tem que haver o conflito da escolha, do qual surge a sensação de felicidade e infelicidade. Isto é, esse conflito lhes dá a sensação de consciência limitada, o “eu”, com o qual a mente se identifica. Eu digo que vocês descobrirão a vida que não é identificada com o “você” ou com o “eu”, essa vida que é eterna, infinita, somente quando essa consciência limitada se dissolver. Você não dissolve essa consciência limitada, ela dissolve a si mesma.

Interrogante: No outro dia, você falou da memória como um obstáculo à verdadeira compreensão. Tive recentemente a infelicidade de perder meu irmão. Devo tentar esquecer essa perda?

Krishnamurti: Expliquei outro dia o que quero dizer com memória. Tentarei explicar novamente.

Após terem visto um lindo pôr do sol, vocês voltam para sua casa ou para o escritório e começam a reviver novamente esse pôr do sol, pois sua casa ou o escritório não é como vocês gostariam, não é bonito. Portanto, para fugir dessa fealdade, vocês regressam, na memória, a esse pôr do sol. Assim, vocês criam na sua mente uma distinção entre sua casa, que não lhes dá alegria, e aquilo que lhes dá grande prazer, o pôr do sol. Portanto, quando vocês são confrontados com circunstâncias que são desagradáveis, vocês se voltam para a memória daquilo que é alegre. Mas se, em vez de vocês se voltarem para uma memória morta, vocês tentassem alterar as circunstâncias que são desagradáveis, então vocês estariam vivendo intensamente no presente e não no passado morto. Portanto, quando se perde alguém que se ama muito, por que há esse constante olhar para trás, esse constante apego ao que nos deu prazer, esse desejo de ter essa pessoa de volta? Isso é o que todo mundo passa quando experimenta uma perda dessa. Escapa-se da tristeza dessa perda voltando-se para a lembrança da pessoa que se foi, vivendo num futuro ou acreditando no além – o que é também uma espécie de memória. É porque nossas mentes são pervertidas pela fuga, porque somos incapazes de enfrentar o sofrimento abertamente, com frescor, que temos de voltar à memória, e assim o passado invade o presente.

Portanto, a questão não é se vocês devem ou não se lembrar de seu irmão ou de seu marido, de sua esposa ou de seus filhos, mas sim uma questão de viver completamente, integralmente no presente, embora isso não implique que vocês sejam indiferentes aos que os rodeiam. Quando vocês vivem completamente, integralmente, existe nessa intensidade a chama da vida, que não é a mera impressão de um incidente.

Como viver completamente no presente para que a mente não seja pervertida com memórias passadas e anseios futuros – que também são memória? Novamente, a questão não é como se faz para viver completamente, mas o que os impede de o fazer. Porque quando vocês perguntam como, vocês estão à procura de um método, de um meio e para mim, um método destrói a compreensão. Se vocês souberem o que os impede de viver completamente, então a partir de vocês, a partir da sua própria consciência e compreensão, vocês se libertarão desse obstáculo. O que os impede de se libertarem é a sua busca por certezas, o seu desejo contínuo de ganho, de acumulação, de conquista. Mas não perguntem: “Como vou vencer esses obstáculos?” Porque toda conquista é apenas um processo de ganho adicional, de acumulação adicional. Se essa perda está realmente criando sofrimento em você, se está realmente lhe causando uma tristeza intensa – não superficial – então você não perguntará como; então você verá imediatamente a inutilidade de olhar para trás ou para frente em busca de consolo.

Quando a maioria das pessoas diz que sofre, seu sofrimento é apenas superficial. Sofrem, mas ao mesmo tempo querem outras coisas, querem conforto, têm medo, procuram caminhos e maneiras de fuga. O sofrimento superficial é sempre acompanhado pelo desejo de conforto. O sofrimento superficial é como arar o solo superficialmente; não consegue nada. Somente quando você lavra o solo profundamente, até a profundidade total do arado, é que há riqueza. No estado de completo sofrimento há compreensão completa, na qual os obstáculos de memórias tanto do presente quanto do futuro deixam de existir. Então, vocês estão vivendo no eterno presente.

Vocês sabem, compreender um pensamento ou uma ideia não significa meramente concordar com ela intelectualmente.

Existem vários tipos de memória, há a memória que se impõe à força no presente, a memória para a qual vocês se voltam ativamente e a memória de olhar para o futuro. Todas elas os impedem de viver completamente. Mas não comecem a analisar as suas memórias. Não perguntem: “Qual memória está me impedindo de viver completamente?” Quando vocês questionam dessa forma, vocês não agem, vocês simplesmente examinam a memória intelectualmente, e tal exame não tem valor porque lida com uma coisa morta. Não há compreensão a partir de uma coisa morta. Mas se vocês estiverem verdadeiramente conscientes no presente, no momento da ação, então todas essas memórias entrarão em atividade. Então, vocês não precisam passar pelo processo de analisá-las.

Interrogante: Você acha correto educar as crianças com formação religiosa?

Krishnamurti: Vou responder essa pergunta indiretamente, porque quando vocês compreenderem o que vou dizer, vocês poderão responder especificamente para si próprios.

Vocês sabem, nós somos influenciados não apenas por condições externas, mas também por uma condição interna que desenvolvemos. Ao educar uma criança, os pais a sujeitam a muitas influências e circunstâncias limitantes, uma das quais é a formação religiosa. Agora, se eles permitirem que a criança cresça sem tais influências impeditivas e limitadoras, sejam internas ou externas, então a criança começará a questionar à medida que crescer, e ela descobrirá por si mesma de maneira inteligente. Então, se ela quiser religião, ela a terá, quer vocês proíbam ou encorajem a atitude religiosa. Em outras palavras, se sua mente e coração não forem influenciados, não forem impedidos, seja por padrões externos ou internos, então ela descobrirá verdadeiramente o que é a verdade. Isso exige grande percepção, grande compreensão.

Agora, os pais querem influenciar a criança de uma maneira ou de outra. Se vocês forem muito religiosos, vocês querem influenciar a criança para a religião; se vocês não forem, vocês tentam afastá-la da religião. Ajudem a criança a ser inteligente, e então ela descobrirá por si mesma o verdadeiro significado da vida.

Interrogante: Você falou da harmonia de mente e coração na ação. O que é essa ação? Essa ação implica movimento físico ou a ação pode ocorrer quando a pessoa está completamente tranquila e só?

Krishnamurti: A ação não implica pensamento? A ação não é o próprio pensamento? Vocês não podem agir sem pensar. Eu sei que a maioria das pessoas o faz, mas sua ação não é inteligente, não é harmoniosa. O pensamento é ação, que também é movimento. Novamente, nós pensamos à parte de nosso sentimento, estabelecendo assim outra entidade separada de nossa ação. Portanto, dividimos nossas vidas em três partes distintas: pensamento, sentimento e ação. Portanto, vocês perguntam: “A ação é puramente física? A ação é puramente mental ou emocional?”

Para mim as três são uma, não há distinção entre pensar, sentir e agir. Por isso, vocês podem ficar sozinhos e tranquilos durante um momento ou podem trabalhar, movimentar-se, agir, ambos os estados podem ser ação. Quando vocês compreenderem isso, vocês não farão uma separação entre pensar, sentir e agir.

Para a maioria das pessoas, pensar é apenas uma reação. Se é meramente uma reação, não é mais pensamento, porque então não é criativo.

A maioria das pessoas que diz que pensa está apenas seguindo cegamente suas reações; elas têm certos padrões, certas ideias, de acordo com as quais agem. Isso elas memorizaram e, quando dizem que pensam, estão apenas seguindo essas memórias. Tal imitação não é pensar, é apenas uma reação, um reflexo. O verdadeiro pensamento existe apenas quando você descobre o verdadeiro significado desses padrões, desses preconceitos, dessas seguranças.

Em outras palavras, o que é a mente? A mente é discurso, pensamento, consideração, compreensão. É tudo isso, e é sentimento. Vocês não podem separar o sentimento do pensamento, a mente e o coração são completos em si. Mas porque criamos inumeráveis fugas através do conflito, surge a ideia do pensamento separado do sentimento, separado da ação e, por isso, nossa vida está fragmentada, incompleta.

Interrogante: Entre seus ouvintes estão pessoas idosas e débeis de mente e corpo. Além disso, pode haver aqueles que são viciados em drogas, bebida ou tabagismo. O que eles podem fazer para mudar a si mesmos, quando descobrem que não podem mudar mesmo quando desejam?

Krishnamurti: Permaneçam como estão. Se vocês realmente anseiam mudar, vocês mudarão. Veja bem, é exatamente isso, intelectualmente vocês querem mudar, mas emocionalmente vocês ainda são atraídos pelo prazer de fumar ou pelo conforto de uma droga. Portanto, vocês perguntam: “O que devo fazer? Quero desistir disso, mas ao mesmo tempo não quero desistir. Por favor, diga-me como posso fazer as duas coisas.” Isso soa divertido, mas é isso o que você está realmente perguntando.

Agora, se vocês abordarem o problema inteiramente, não com a ideia de querer ou não querer, de desistir ou não desistir, então vocês descobrirão se realmente querem ou não fumar. Se vocês acharem que querem, então fumem. Dessa maneira, vocês descobrirão o valor desse hábito sem constantemente chamá-lo de inútil e, no entanto, continuarem com ele. Se vocês abordarem o ato completamente, integralmente, então não dirão: “Devo parar de fumar ou não?” Mas agora, vocês querem fumar porque lhes dá uma sensação agradável e, ao mesmo tempo, não querem porque mentalmente veem o absurdo disso. Portanto, vocês começam a se disciplinar, dizendo: “Tenho que me sacrificar, tenho que deixar de fumar”.

Interrogante: Você não concorda que o homem ganhará o reino dos céus através de uma vida, como a de Jesus, totalmente dedicada ao serviço?

Krishnamurti: Espero que vocês não fiquem chocados quando eu disser que o homem não ganhará o reino dos céus dessa maneira.

Agora, veja o que você está dizendo: “Através do serviço, obterei algo que desejo”. Sua declaração implica que você não serve completamente, você está procurando uma recompensa através do serviço. Vocês dizem: “Através de um comportamento justo, conhecerei a Deus”. Ou seja, vocês estão realmente interessados, não em um comportamento justo, mas em conhecer Deus, divorciando assim o comportamento justo de Deus. Mas não através do serviço, nem do amor, nem da adoração, nem da oração, mas somente na própria ação destes existe a verdade, Deus. Vocês compreendem? Quando vocês perguntam: “Ganharei o reino dos céus através do serviço?” O seu serviço não tem significado, porque vocês estão interessados principalmente no reino dos céus. Vocês estão interessados em receber algo em troca, é uma espécie de escambo, tanto quanto a sua vida é. Portanto, quando vocês dizem: “Através da retidão, através do amor, alcançarei, conquistarei”, vocês estão interessados na conquista, que é apenas uma fuga, uma forma de imitação. Por isso, o seu amor ou o seu ato de justiça não tem significado. Se você é gentil comigo porque eu posso lhe dar algo em troca, que significado tem sua gentileza?

Esse é todo o processo de nossa vida. Temos medo de viver. Somente quando alguém balança uma recompensa diante de nossos olhos é que agimos, e então agimos não pela ação em si, mas para obter essa recompensa. Em outras palavras, agimos pelo que podemos obter da ação. É o mesmo em suas orações. Isto é, porque para nós a ação não tem significado em si mesma, porque pensamos que precisamos de estímulos para agir corretamente, colocamos diante de nós uma recompensa, algo que desejamos e esperamos que esse engodo, esse brinquedo, nos dê satisfação. Mas quando agimos com essa esperança de recompensa, então a ação em si não tem significado.

É por isso que eu digo que vocês estão presos nesse processo de recompensa e ganho, nesse obstáculo nascido do medo, que resulta em conflito. Quando vocês descobrirem isso, quando vocês se tornarem conscientes disso, então vocês compreenderão que a vida, o comportamento, o serviço, tudo, tem significado em si mesmo; então vocês não passarão pela vida com o objetivo de obter outra coisa, porque vocês sabem que a ação em si tem valor intrínseco. Então, vocês não serão meramente reformadores, são seres humanos, então vocês conhecerão essa vida que é flexível e, portanto, eterna.

08/09/1933