Lucidez e atenção
Me pergunto como abordar a lucidez, porque a confusão é fácil.
Lucidez seria o contato com a realidade sem interferência da minha interpretação, sem o gostar ou não gostar, sem julgar — um contato em que a realidade encontre minha sensibilidade e se revele de forma simples e direta. É o que me parece.
Olhar um evento sem emitir opinião é um desafio para a minha mente confusa. Há um disparo automático de reação como resposta, onde a interferência no que vejo é tirânica, quase impossível de ser evitada, pois estou cheio de opiniões e acho que sei muita coisa.
Encontrar uma pessoa preconceituosa, cheia de afirmações contundentes, requer uma atenção que não seja obstruída pela energia que o outro emite. Pois não é somente a visão contrária à minha que me desafia; é também, em um nível mais profundo, a vibração que surge em um relacionamento em que o atrito é evidente. Tenho que observar a natureza da postura intelectual da pessoa, assim como sua intensidade ao emitir suas opiniões, pois ambas fazem parte do contato. Se eu emitir logo a opinião de que o sujeito é preconceituoso, crio uma barreira; mas se olhar para o fato de que há preconceito em sua manifestação sem reagir com desgosto, parece que esse olhar não emite uma resposta automática.
Se percebo que suas opiniões são geradas por um engano, mas ela não irá admitir tal situação, não cabe, então, enfrentar o engano — pois parece haver algo mais profundo conduzindo o movimento. E mesmo constatando que vários elementos estão envolvidos, como o desejo de domínio e a incapacidade de reconhecer erros (elementos que não desconheço por já tê-los usado), o que a realidade mostra é a aceitação da ignorância como fato e a compaixão como olhar. Não há nada a fazer no nível intelectual, mas há um campo desconhecido na área da bondade.
Eu pensava que lucidez era uma capacidade mística da mente e que ela iria proporcionar uma intensidade maravilhosa em minha vida. Acabei constatando que era somente a falta de ilusões e reações automáticas que me capacitou para um relacionamento sem conflitos. E, ainda por cima, me aproximou da solidão ao não conseguir compartilhar o que vejo com os outros. Portanto, não é nada místico ou fora do comum: é apenas clareza, simples e direta. E cobra um preço que tenho que pagar, pois não tem como mais voltar aos velhos hábitos mentais que me sustentaram.
Ter perdido o que tinha fazia parte do preço, embora tenham sido décadas repetindo um padrão que se mostrou falso. Mas não perdi a curiosidade em continuar investigando, e hoje me deparo com pequenos momentos no relacionamento que me oferecem oportunidades que antes não percebia quando carregava um monte de conclusões. Percebi que a simples atenção ao que está à minha frente revela meus enganos costumeiros.