É possível parar o pensamento?

Krishnamurti disse que somente no silêncio há verdadeira observação, mas não há silêncio em minha mente. Estou sempre pensando, e parece que estou perdendo algo com essa atividade constante. Então, como conseguir esse silêncio?

O problema não é o pensamento — preciso dele. É sua intromissão em momentos que não se justificam, criando desordem, desgaste, confusão, sem falar quando as emoções entram e embolam tudo.

Se tento parar de pensar, vira uma luta em que sempre perco. Vem uma pressão, um incômodo, um vazio estranho que me força a continuar pensando, porque nem consigo imaginar o que é viver sem estar pensando em algo. Me acostumei a isso, e assim me encontro refém do pensamento novamente.

Mas há algo intrigante: quando estou vendo um filme envolvente, não fico pensando no que ocorre nele. Parece que desapareço, e só há o movimento que o filme oferece. Não fui eu que parei o pensamento — ele simplesmente não entrou. Havia uma atenção plena que não comportava sua presença; não era seu ambiente.

Ele não foi parado porque nem precisou ser parado — nem surgiu. E isso revelou um mecanismo atuando: a intensidade da atenção. Uma qualidade rara, que não ocorre regularmente, mas demonstrou sua capacidade de oferecer um ambiente onde o silêncio se manifesta.

Não vou ficar vendo filme o tempo todo para ficar sem pensar, então isso não resolve o objetivo de parar o pensamento e vai criar outro argumento para ele dominar. Ele vai transformar essa descoberta em um motivo para continuar atuando e vai destruí-la. Sua força de intromissão é descomunal e não deve ser subestimada: seu objetivo é reafirmar o domínio sobre todo o meu contato com a realidade. Mas o evento mostrou que ele pode estar ausente sem esforço, sem que eu brigue com ele, e que existe um ambiente onde ele não atua. Como replicar isso sem precisar de um estímulo externo que o provoque?

A questão então já não é como parar o pensamento, mas por que ele insiste em estar presente mesmo não sendo necessário. Que função ele desempenha quando invade o momento? Há um propósito nessa manifestação — Não quando ele é necessário na vida prática, mas quando é apenas ruído. Que propósito é esse? Ele está escondendo alguma coisa? E mais intrigante ainda: de onde vem esse imenso poder de invadir a realidade?

Outro experimento: no banho. Já tomei milhares, faço os procedimentos automaticamente, não preciso pensar neles — mas continuo pensando mesmo assim, sobre outra coisa qualquer, estando ali sem estar ali. Na verdade, nem sei quem está ali realmente, pois no banho não estou.

No filme havia um estímulo que sustentava a atenção; no banho não havia nenhum, e o momento foi sequestrado. É o mesmo mecanismo, mas do lado que perco — e é o lado onde me encontro na maior parte dos meus dias, sem nem perceber.

Posso alegar que é para manter a sensação de identidade, para fugir do vazio — mas explicações não resolvem o problema, só alimentam mais pensamento. E ele gosta disso: precisa de explicações para atuar.

Então fico só com o que é real: o incômodo do vazio que sempre me acompanha quando tento esse silêncio. É o único fato em minhas mãos, além de conjecturas — que são pensamento sobre pensamento. O próximo passo é ficar com esse incômodo, sem tentar resolvê-lo nem compreendê-lo — pois entender já seria outra jogada do pensamento, sutil, mas eficiente. Sua natureza se baseia no passado; qualquer movimento que não esteja livre dele estará contaminado. Só o incômodo está no presente, e ele não me diz nada que possa explicá-lo. Não tenho ferramentas para lidar com ele. Parece que há algo em sua natureza que aponta um campo desconhecido, mas não posso olhar com os velhos olhos — preciso de outro olhar.

Só resta aceitar sua existência, com uma atenção que não tenha objetivo — pois se tiver um objetivo, já sei quem está por trás. Mas lembro da atenção ao filme, que não parecia ter um objetivo claro, e que, mesmo assim, estabeleceu um ambiente onde o pensamento não entrou. Há um ambiente que surge com essa atenção que impede sua entrada, e não sou eu que crio esse ambiente, mas a plena atenção que oferece — que não é criada por mim, e se manifesta apesar de mim. Então parece existir uma área em minha mente que ainda não foi devidamente explorada.

Isso é mais desafiador do que tentar parar o pensamento, porque eu achava que era eu que ia pará-lo. Agora não sou mais eu que estou no controle. Não posso fazer nada com esse vazio, pois qualquer coisa que eu fizer será o pensamento fazendo, e me convencendo do contrário — mas já conheço essa estratégia, e ela não funciona mais.

Ficar com o vazio não tem controlador nem controlado, não tem resultado nem objetivo, só observação — assim como no filme, não houve um movimento meu em direção ao momento, só presença — e nessa presença, eu não estava presente.

Minha desatenção normalmente não percebe isso, mas nessa investigação ficou evidente. E isso não resolveu a questão. Ao contrário: mostrou que a verdadeira investigação ainda está para começar, e ela só poderá avançar se a observação não for feita pelo pensamento, mas por aquele vazio que sempre recusei.

E a ironia é que parece que a solução está em algo que sempre recusei, e que sempre me acompanhou — e o silêncio que persegui talvez esteja escondido atrás dessa palavra que tanto me assustava: o vazio.

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