Sou um indivíduo 2

Convivo com a sensação de individualidade e separação, sou diferente do outro, sou isso e aquilo e por ai vai. Normalmente é impensável questionar se isso é real, pois todos à minha volta sentem a mesma coisa, conclusão: sou um individuo.

No entanto, alguém disse que isso é uma ilusão, então tenho dois caminhos diante dessa afirmação, ou descarto imediatamente ou permito que a dúvida se mantenha e desperte o que resta de curiosidade em mim. A partir da dúvida nasce então a pergunta: o que sou eu e não “quem” sou eu, pois primeiro tenho que saber o que sou para depois investigar quem sou.

Fisicamente sou um indivíduo, meu dna é único, minhas impressões digitais também e minha aparência é distinta, não há como contestar, o que sou está estabelecido, mas há também o aspecto psicológico e é nesse campo que entra o quem sou. Nesse campo estão as diferenças que enxergamos, pois sou diferente de meu irmão, da minha prima e de todos os outros, há algumas semelhanças em alguns casos, somos católicos, somos brasileiros, somos de esquerda ou somos corintianos, mas são superficiais e não descartam a individualidade, pois há outras diferenças dentro desses grupos que nos tornam indivíduos. Mas ao aprofundarmos mais no ambiente psicológico, encontro alguns aspectos intrigantes, mesmo constatando que existem diferenças superficiais, noto que todos lidam com o medo, com o prazer, com a esperança, a raiva, a necessidade de satisfação e muitos outros aspectos que embora apresentem níveis diferentes, estão presentes em todos nós. Se outro individuo sente raiva, sei o que é, pois também já senti, se sente tristeza, inveja e satisfação também sei, as razões podem ser diferentes, mas a reação é a mesma, então não sou tão diferente assim como pensava, há algo que demonstra uma concordância interessante e que desperta uma dúvida em minha crença na individualidade. E não vou esquecer da constante afirmação produzida pela memória através do pensamento, repetindo constantemente que sou melhor, sou bonzinho e bonitinho, sou isso e aquilo e etc.

Se todos nós possuímos respostas semelhantes à realidade, mesmo que apresentem níveis diferentes ou prevaleçam somente alguns aspectos, não somos tão diferentes como pensamos, as diferenças que enxergamos não justificam a conclusão na individualidade de forma explícita.

Portanto, parece restar uma última questão após essa jornada, se psicologicamente não sou diferente a ponto de estabelecer concretamente a individualidade, pois os pontos considerados são frágeis, considerar que sou apenas um elemento do rebanho sem diferenças também é perigoso, afinal, qualquer conclusão é perigosa ao fechar o questionamento, mas constatar que se não houver diferenças significativas entre os indivíduos e minha sensação de individualidade seja apenas uma ideia que não foi devidamente considerada que pode destruir todas as conclusões que estabeleci para afirmar essa individualidade, não restará nada para sustenta-la, abrindo assim um espaço desconhecido para a investigação e talvez oferecendo uma oportunidade para realmente penetrarmos profundamente em nosso mundo interior.

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